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segunda-feira, junho 08, 2026

ALI COBBY ECKERMANN, MAGGIE O'FARRELL, LORRAINE DASTON & ANITA PAES BARRETO

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som dos álbuns The Road... (Shanachie Records, 2011), Soul Quest (Shanachie Records, 2013) e Journey to the Heart (Shanachie Records, 2016), da cantora, compositora e pianista japonesa Keiko Matsui.



 

A viúva do bestiário... - Estava correndo bicho! Sabiam, medrosos cochichos, temores ao pôr-do-sol. Às horas noturnas o agouro, coisas medonhas pela madrugada: partes com o coisa ruim, só sendo. Alívio, só ao amanhecer. Isso é lá coisa que se faça? E tome zunzunzum: quanto mais se tentava esclarecer, mais dúvida se valia. Vogava era espanto, eventos vários e sucessivos, viravam tudo de pernas pro ar. Como é que pode? Fechava a boca pra não topar malefício. Não visto, não sofrido, só pelo sabido: esperar sua vez. Desesperados, quem acudiria? Findava tudo aos risos e sustos, desordens às caçoadas, motejos: a coisa pelo logro, embustes de última hora. O tinhoso cercas rondava, pelas brenhas fechadas, capoeiras, brejos, chãs, o bafo da ameaça oculta, fugiam até os espíritos dos trechos de mata devastada, nada bulia nas trilhas na vegetação, estradas de barro, estalidos pelas benditas lonjuras, êpa, às caretas, o fôlego das ventas, segurando as fivelas, premiam a volta das arreatas, as astúcias na caixa dos peitos: Venha, não! Quem viu rastro de cobra? Destá. Do que disseram que era, nem sinal! Desaforo. Feitiço, trabalho de encruzilhada. Ora, se. No amiudado, o canavial quieto. Ih, pé adiante, só se sabia no outro dia de estraçalhadas vacas, carneiros, cabras, porcos, patos, galinhas - ferrava presa às traições, dente chupa sangue, suga tudo até o ar dos bofes, só estendido no oitão. Cadê sinal de sangue? Valei-me! – Mexeram na gadaria daqueles ricaços? Nada, só dos que juntavam poucos pra sobrevivência. Ara. Vigiavam. Faziam serão, penosa tocaia, as paredes do casebre, o bafejo ruidoso, foices, facas, a face da fera na miragem, olhela! Facões afiados, o pé-de-vento, corridas a cortar mato, pé atrás, queriam o couro do bicho, esfolá-lo! A fama. Remexia a sorte: Pra donde ela pendia? Aos arredores, espreitava-se; andavam de costas pelas próprias pegadas, tarde demais, media-se, calculava-se às funduras, fio-de-prumo, mira no alvo, o extraordinário, ventania e desenredo, cercados intactos: Isto é uma tiborna! Peça licença e não olhe pra trás, não responda chamado nem assobio! Isso não tem cabimento! Era coisa de dar medo, só pavor: Os olhos em brasas vermelhas da Medusa, as feições horríveis, feiosas, o despovoado, as cascas destroçadas, sacudidas vantagens nas lonjuras, suspeitas, celeumas, triunfar embaraçoso, receios pueris. Frescura, cara! Tudo nos conformes. O sapo coaxou, ou a borboleta voou, escorpiões arrastavam, a adivinhação: Vai fazer medo a outro! Uma anomalia que se deu fé em El Yunque, passou por Varginha, parece, e foi bater lá pras bandas de Craíbas, um teratismo sui generis. Isso é pinoia! Era não. Diziam do predador de pele cinza e fedor horrível, drenando a vida dos animais – sugavam o sangue até a última gota e o seu distintivo nas cauterizadas perfurações dentárias cravadas no pescoço ou nas axilas da vitimada, hemorragias internas, sem outras marcas além da mordida e o sangue não jorrava. Ué? Ora, era uma criatura bípede de quase um metro e meio de altura, olhos grandes arregalados, espinhos nas costas e longas garras, saído do fundo dos lagos ou pantanais, em terras distantes ou dos confins das florestas; ora, outros dizquês, era sem pelos por conta da sarna sarcóptica e locomovendo nas quatro patas, aparecia às janelas aterrorizadas, não era coiote, nem guaxinim, nem cachorro selvagem. Que droga que era? Dizem do vampírico Chupacabras. Hem? Nada, deve ser a Tarya do Caribe. Que é isso? Quem sabia! Uns mustelídeos, coisa de doninhas, visons e martas-pescadoras, que também bebem o sangue de presas grandes demais para serem carregadas. Nada, é lorota. Cogita-se oriundo de experiências científicas ultrassecretas malsucedidas pelos algozes colonizadores imperialistas – ah, isso mesmo: exagero da mídia, ansiedade cultural e histeria coletiva! Danou-se, doutor! São híbridos coydogs sarnentos. Quem já viu, de mesmo? Ninguém. Tó Zeca desconfiou da leseira e como era gente de peleja foi atrás da desgraça. Quero ver a cor dessa chita, ah, se vou! Coisas de grotas longes, ladeiras sem fim, de barro batido. Seguiu as pegadas no faro e tirocínio, o rastro escondido parecia brilhar na escuridão, adivinhava. Persistia no encalço. Logo a catinga foi crescendo, tomando vulto e, de repente, desvencilhou-se dum golpe repentino. Eita! Quase me pega desprevenido. De novo, outro golpe devastador. Aí: A-rá! Peguei-te, besta fera! Agarrou o tornozelo da maligna e sustentou-la de vê-se arrastado pelas pedras, matos, rios e mar, até o fim do mundo, quando bateu dela exaurir-se no cansaço de tanto espernear. Peguei-la. Solto não, desgraça! O monstro arfava, a poeira baixou. Encolheu-se, em decúbito ventral. Oxe! Aberração ardilosa, sabia: Quer me pegar na virada, né? Precauções, vigilante, teratologia em dia. Deixou-la quieta, nem ousou soltar o calcanhar dela: Tá doido? Um facho de luz e ali uma mulher nua, indefesa, quase desmaiada. Vôte! Ouviu-a: Sou Filínia de Anfípolis, a Noiva de Corinto do Goethe e da De Mirabilibus de Flégon de Trales. Vá, converse mais, não me ganha, não. Ela fugira do Livro das Bestas para ser prisioneira de Labatut, na Chapada do Apodi – aquele desalmado dos pés redondos, mãos compridas, cabelos longos e assanhados, o olho insone na testa, os dentes de elefante, o mais sanguinário general francês, mercenário cruel, abusava de mim, comia os filhos que paria e saía à caça em noites de ventos e lua cheia. Havia enfrentado todo tipo de acusação de bruxaria e incontáveis julgamentos e censuras, até o dia da fuga quando o amazônico peixe vampiro candiru – entrou-lhe pela uretra e sugou seu sangue, parasita hospedeiro incruado lá dentro dela. Era a primeira morte. Depois a lampreia – uma enguia dentada do mar e dos rios, convívio com morcegos, sanguessugas, artrópodes e insetos – mosquitos, pulgas, carrapatos, percevejos, monstros invisíveis que vieram da febre do Nilo Ocidental, a sua hematofagia. Deram-na pela fugitiva filha do Drácula de Stocker: Marya Zaleska. Mais disse-lhe da sabença dos mistérios no fundo das coisas, o que esconde e o que aquieta, ele só esperava o bote no intervalo, deduzia o estopim, o assombro, a culpa de quem, ao que ela mencionou ser ele da linhagem do grego Carpophorus, que se tornou o venador de Sêneca e abatia feras no Amphitheatrum Flavium. Acreditou? E ela prometeu para ele a vida eterna, desde que a poupasse e vivesse com ela. Como é? Mais precaveu-se: era Lâmia e quantas mais? E só dele o poder de desencantá-la, ciente do amor e seus mistérios. Até mais ver.

 

Gayle Forman: Não leve a vida muito a sério. Você nunca vai sair dela viva... É melhor manter a boca fechada e deixar que as pessoas pensem que você é um tolo do que abri-la e remover toda a dúvida... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Hélène Cixous: Pensar é tentar pensar o impensável: pensar o pensável não vale o esforço... Censurar o corpo é censurar a respiração e a fala ao mesmo tempo. Escreva sobre si mesmo. Seu corpo precisa ser ouvido... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Marie NDiaye: Quando eu era adolescente, esperava que a literatura, tanto a que eu lia quanto a que eu escrevia, me salvasse de uma vida comum, da monotonia do dia a dia com um emprego assalariado, ou de um casamento, etc. A vida real me deixava ansiosa. A literatura me permitiu transformar minha profunda inadaptação ao mundo em algo socialmente aceitável e até gratificante – porque, felizmente para mim, a aposta valeu a pena, e isso poderia muito bem não ter acontecido... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

DOIS POEMAS

Imagem: Acervo ArtLAM.

UM SONHO - Eu vi-te dançar \ aquele verão \ antes da guerra \ seu rosto pintado \ orgulhosamente celebra \ suas habilidades de caça \ mulheres em sussurro de admiração \ atrás de suas mãos \ de sua força \ e bravura \ o cocar que você usa \ reflete seu lugar de direito \ de liderança \ e sabedoria \ Isto foi antes \ o homem branco veio \ e assassinou-te.

EU TE CONTO VERDADE - Eu não posso parar de beber \ Eu te digo verdade \ Desde que eu vi minha filha perecer \ Ela queimou até a morte dentro de um carro \ Perdi o que mais prezo \ Vi os anjos segurá-la \ Enquanto eu gritava com uma esperança inútil \ Eu não posso parar de beber Eu te digo verdade \ É a única maneira que eu lido! \ Eu não posso parar de beber \ Eu te digo verdade \ Desde que encontrei a minha irmã morta \ Ela se enforcou para impedir os estupros \ Encontrei-a no barracão \ Aquele cabrão de violador ainda vive aqui \ Impune nesta cidade \ Eu não posso parar de beber \ Eu te digo verdade \ Desde que a cortei \ Eu não posso parar de beber \ Eu te digo verdade \ Desde que a minha mãe faleceu \ Encontraram-na maltratada pelo riacho \ Sinto mais a falta dela a cada dia \ A minha família culpou-me pela morte dela \ Suas palavras me tornaram selvagem \ Eu não posso parar de beber \ Eu te digo verdade \ Porque eu era apenas uma criança \ Então, se você vê alguém como eu \ Quem está bêbado e alto e xingando \ Não julgue muito ‘porque você não sabe \ Que tristezas estamos amamentando.

Poemas da poeta Yankunytjatjara australiana Ali Cobby Eckermann. Ela, sua mãe e sua avó foram todas roubadas, enganadas e adotadas, afastando-se de suas famílias biológicas e tornando-se parte das Gerações Roubadas, foi abusada sexualmente por um amigo da família quando tinha 7 anos e sofreu abusos e racismo contínuos durante a infância e adolescência. Aos 17 anos, saiu de casa com um homem com quem viveu por dois anos, mas de quem se separou devido à violência. Ao retornar para casa, descobriu que estava grávida e deu à luz aos 19 anos. Seu filho foi adotado. Após completar 18 anos, Eckermann começou a procurar sua mãe biológica, Audrey, mas só a encontrou aos 34 anos, depois que informações foram divulgadas com o relatório Bringing Them Home, em 1997. E 4 anos depois, ela encontrou seu filho Jonnie. Sobre sua experiência ela diz: "Aprendi a viver de duas maneiras diferentes ao longo da minha vida. Aprendi um bom exemplo de trabalho árduo e bondade crescendo com minha mãe e meu pai na minha família adotiva. E sou extremamente grata por minha família tradicional ter me acolhido de volta com tanto amor e honestidade. Ganhei uma segunda chance de viver em um mundo honesto". Ela é autora de livros como Little Bit Long Time (2009), Kami (2010), His Father's Eyes (2011), Love Dreaming & Other Poems (2012), Too Afraid to Cry (2012), Inside My Mother (2015) e She Is the Earth (2023), entre outros.

 

RETRATO DO CASAMENTO – [...] Perder a calma é perder a batalha. [...] A tristeza continua tentando amarrar pesos em seus pulsos e tornozelos, portanto ela precisa continuar se movendo, precisa ser mais rápida que ela. [...] Ela sempre teve uma predileção secreta por essa parte do bordado, o lado "avesso", repleto de nós, estrias de seda e torções de linha. Como é mais interessante, com sua exibição franca do trabalho necessário para alcançar a perfeição da peça finalizada. [...] Ela está aqui agora, fora dos muros da vila, onde a noite pintou sua própria versão do vale, em pinceladas ousadas de índigo; onde o vento anima esta misteriosa paisagem sombreada, pondo as árvores em movimento, lançando pássaros noturnos para o ar azul-escuro, espalhando manchas raivosas pela face ilegível do firmamento. [...] As palavras se imprimiam em sua memória, como a sola de um sapato na lama macia, que secava e solidificava, a pegada preservada para sempre. [...]. Trechos da obra The Marriage Portrait (Tinder Press, 2022), da escritora irlandesa Maggie O'Farrell, autora dos livros Hamnet (2020), The Hand That First Held Mine (2019), I Am, I Am, I Am (2017), This Must Be the Place (2016), The Vanishing Act of Esme Lennox (2006) e After You'd Gone (2000).

 

CONTRA A NATUREZA - [...] O artista não se destaca em nada além de si mesmo. [...] Cultivei minha histeria com alegria e terror. [...] É de mau gosto prolongar a vida artificialmente. Já fiz a minha parte, é hora de partir. Deixarei para trás o máximo de imagens possível; então, de repente, me fecharei como uma crisálida. [...] Na literatura, como em tudo, existe apenas um significado, mas esse significado pode assumir múltiplas formas. [...]. Trechos extraídos de Against Nature (The MIT Press, 2019), da historiadora estadunidense Lorraine Daston, acrescentando que: [...] Os fatos são frequentemente tênues e fugazes. São as conquistas de investigações sutis que devem estabilizar meticulosamente efeitos evanescentes ou combinar engenhosamente vários fios de evidência em um cordão forte e consistente. Acima de tudo, como sugere sua etimologia, [...] os fatos mais interessantes e úteis não são dados, mas construídos, artefatos no melhor sentido da palavra. A racionalidade é feita para um mundo de problemas bem formulados com respostas inequívocas; a razoabilidade postula um mundo menos organizado, no qual particularidades recalcitrantes muitas vezes tropeçam em universais abrangentes. A constatação de que vivemos numa era de polarização e extremismo tornou-se um lugar-comum, mas o historiador deve perguntar: por que agora, por que aqui? Convicções fervorosas podem existir em qualquer época; posições extremas de clareza cristalina sempre atraíram aqueles impacientes com compromissos incertos. Mas, no passado, a realidade complexa, mais cedo ou mais tarde, obrigou os dogmáticos de todos os matizes a baixar a voz e moderar suas afirmações. A novidade em nossa situação atual é a ilusão de que o mundo pode ser regido pelas regras mais rígidas da racionalidade: algoritmos tão inequívocos e inflexíveis que podem ser executados mecanicamente. Embora a propaganda em torno de algoritmos para tudo, desde dirigir um carro até escolher um parceiro de vida, tenha permanecido, em grande parte, apenas propaganda, a racionalidade intransigente se beneficiou às custas da flexibilidade e da razoabilidade. Mas a sociedade civil não pode sobreviver sem o diálogo atento que a razoabilidade implica – até porque, mais cedo ou mais tarde, a realidade se revoltará contra as suposições simplistas da racionalidade. [...]. Ela é autora de obras como lassical Probability and the Enlightenment (1988), Wonders and the Order of Nature, 1150 - 1750 (1998), Objectivity and the Escape from Perspective (1999), Biographies of Scientific Objects (2000), Things that Talk: Object Lessons from Art and Science (2004), Thinking with Animals: New Perspectives on Anthropomorphism (2005), entre outras.

 

A PSICOLOGIA DE ANITA PAES BARRETO

[...] eu só, não posso fazer nada. Agora, vamos nos lembrar que essas crianças que não têm nada e que estão passando pelas mãos da gente talvez não tenham oportunidade na vida. [...] Não é dar coisas, é fazer elas fazerem, fazer elas se promoverem. Porque amanhã elas podem reivindicar os seus direitos, mudar de situação porque entenderam isso. Então vocês não deixem nunca que a aula seja uma aula morta [...]

Depoimento (FGV/CPDOC, História oral, 1978), da professora e psicóloga Anita Paes Barreto, que foi presa como subversiva no golpe de 1964 e desenvolveu estudos e pesquisas sobre Educação de crianças e adolescentes. In: Movimento de cultura popular: memorial (Fundação de Cultura Cidade do Recife/Fundação Educar, 1986) e Ulisses Pernambucano, educador (Psicologia: Ciência e Profissão, 1992). Em entrevista concedida à jornalista Fernanda d’Oliveira (Diário de Pernambuco, 1982), ela expressou que: [...] acho que cada mulher que puder ocupar uma posição onde ela firma os seus princípios e que saiba ser coerente e autêntica na maneira de agir, estará fazendo um bem a todas nós. É interessante que a mulher tome parte na vida política. [...] Sou apolítica, mas tenho como educadora, o desejo da existência, no País, de uma verdadeira democracia [...]. Sobre o seu trabalho o artigo Anita Paes Barreto e o projeto de modernização da educação em Pernambuco (Revista Temas em Educação, 2025) de Alessandra Maria dos Santos e Raylane Andreza Dias Navarro Barreto. Veja mais aqui.

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A ARTE DE RICARDO AIDAR

Entrevista com o engenheiro civil e artista plástico Ricardo Bertacin Aidar, integrante do Gentamiga Ateliê (SP), participante da publicação Dareladas (CriaArt, 2024) e da plataforma Ubqub (SP). Veja aqui & mais aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

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A MENINADA DO LER BEM

Encontro do Observatório de Linguagens com os estudantes classificados no concurso Ler Bem, na Semed- Palmares (PE). Veja aqui & mais aqui & aqui.

 

Geraldo Azevedo aqui.

Pally Siqueira aqui.

Aguinaldo Silva aqui.

Bárbara Pereira de Alencar (1760-1832) aqui.

Gilvan Samico aqui.

Lucila Nogueira aqui.

Lourival Batista aqui.

Magdale Alves aqui.

Arnaud Rodrigues aqui.

Celina de Holanda aquí.


 


segunda-feira, junho 02, 2025

ROM FRESCHI, MARTHA GABRIEL, LETICIA WIERZCHOWSKI & PALMARES

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som dos álbuns Anoushka (1998), Anourag (2000), Live at Carnegie Hall (2001), Rise (2005), Breathing Under Water (2007), Traveller (2011) e Traces of You (2013), da sitarista e compositora britânica-indiana Anoushka Shankar. Veja mais aqui.

 

Um rio corre em mim... – Assim, como se diz: uma palavra e outra são folhas nos galhos dos versos. E aqui revivo o meu umbigo ancestral pelos arredores do lago Rudolf, lá no vale do rio Omo, na Etiópia. Há quanto tempo e não é fácil ter que lidar com a cara lisa dos algozes forjados no 8&31, essa gente da caquistocracia coisonária, com sua xenofilia extremista de sabotadores temperamentais, caricatos liberais conservadores com seu Jesus do dente de ouro e carro blindado, suas longas respostas que me cansam e não dizem nada, porque ruminam coisas e situações adversas nas suas graves sobrancelhas hipócritas! As faces ardem além dos infernos. São monólogos de rio e voo a vau pelas louquidões dagora. As coisas existem pelo tempo que as medem e é movediço em minhas mãos: biografias esmagadas entre delírios e mentiras, heranças putrefatas entre pausas e hesitações, alertas túrgidos entre cinzas e hostilidades, os que vacilam desolados entre soçobro e êxodo, súplicas pesam sobre os ombros e as facas fatídicas selam calvícies e barbas brancas, com as hirsutas guerras imundas e todos os pressentimentos de órbitas foragidas. Sou luzeiro solitário entre a vigília e o insondável, os sigilos rasteiros entre culpas e punições, um só instante na noite e as desavenças enlutadas. E os olhos rastejam sina de poeta, a face abolida pelas avenças e glórias das prévias curvas intermináveis. Eis-me e até exulto quase recomposto. É hoje agora e não sei o que fazer sozinho: o poema na rua do outro dia, coração aberto para imensidão cósmica, voz galáxia afora, paixão pela vida e se faz sempre viva e fecunda, um poema inacabado, porque um rio corre em mim e aonde vai dar, até mais ver.

 

Marie NDiaye: Uma pessoa que está totalmente concentrada em si mesma é um pacote muito pequeno... Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

Gayle Forman: A maioria de nós tem dias, semanas ou meses tão terríveis que gostaríamos de nunca ter nascido... Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

Paulina Chiziane: Um sopro de silêncio dando à luz o mundo... Veja mais aqui, aqui & aqui.

 

DOIS POEMAS

Imagem: Acervo ArtLAM.

I - As pessoas têm medo do seu próprio poder. \ A questão é: o que fazer, \ que interesse servir, \ como continuar vivendo \ depois de uma invenção \ sem problemas \ esperando \ o tempo passar. \ Pombos são partículas \ e patos giram em um disco de água. \ Nós que estamos comigo naquele disco de água \ somos todos órfãos; \ perdemos aquela parte do passado \ em que o mundo era finito \ e seu caminho era uma estação de retransmissão \ para outros. Este planeta \ pacífico parece \ um jardim \ de crueldade, apenas \ uma reminiscência de \ um sonho maligno distante \ de perdê-los.

II - Daquele amor rosa, rosa, \ pouco parece restar, exceto esta \ proximidade míope e microscópica, ferida \ mas perene, violeta, \ raiz viva e rosada. \ Prevê-se chuva, sente-se precipitação \ sonhos, raios, realidade, \ uma seca insondável de vento e areia \ que já nos petrificou. \ Fomos belos representantes do rock \ em um anfiteatro que parecia natural, \ clássico, perfeito, maciço \ , rígido como pedras, fizemos a tentativa \ vendemos o vintage, \ acreditamos que era o cartão-postal daquele monumento. \ Jóias como escamas endurecem o chão \ somos donos do óleo, que conhecemos \ mas quebrado, enfim, as estátuas \ como vasos finos e rotacionados \ procuramos sob nosso cobertor \ aquela carne pequena e rosada, \ bebê do amor.

Poemas da poeta, professora, tradutora e crítica literária argentina Rom Freschi (Romina Freschi), autora de obras como La vergüenza es una fase en la transición de la señora lobo (Caleta Olivia, 2024), Redondel (1998), Incrustaciones en confite (1999), Petróleo (2002), Entremezcales (2000) e Solaris (2008).

 

AMANHÃ SERÁ UM DIA MELHOR - [...] A flecha da paixão teve rumo certeiro, e logo os dois viviam uma grande história de amor. [...]. Trecho extraído da obra Amanhã Será um Dia Melhor (Culturama Plural, 2022), da premiada escritora Leticia Wierzchowski, também autora da obra A casa das sete mulheres (Bertrand Brasil, 2017), no qual expressa que: [...] A gente aprende a não sentir o tempo, meu filho. Senão, acaba enlouquecendo [...] Do mesmo sonho que se vivia, também se podia morrer [...] Muitas outras vezes, nos longos anos que se seguiram, tive oportunidade de me gravar essa estranha frase que ouvi outra vez, algum tempo mais tarde, na voz adorada de meu Giuseppe, e que repetia o que eu mesma já tinha aqui ao ver uma fresta do futuro... talvez tenha sido exatamente nessa noite que tudo começou. [...] A arte de sofrer é inconsciente... E é preciso fingir que se vive, é preciso. [...] Mas a vida tinha lá seus mistérios e suas surpresas: nenhum de nós em casa voltaria a ser o mesmo de antes, nem os risos nunca mais soariam tão leves e límpidos, nunca mais aquelas vozes todas reunidas na mesma sala, nunca mais. [...]. No seu livro Deriva (Planeta, 2022), ela escreve: [...] Sentia-se um pouco dolorida. Era o incômodo mensal que estava por chegar. Às vezes, as cólicas prostravam-na na cama por horas, logo ela que era tão ativa. A mãe dizia-lhe que, depois que tivesse filhos, aquele sofrimento mensal seria amenizado. [...]. Veja mais aqui.

 

FUTURISMO & TECNOLOGIA - [...] Uma das principais habilidades para o futuro, na minha opinião, é o pensamento crítico. Ele se traduz na habilidade que temos de olhar em tudo que está acontecendo e questionar o que é verdade, a fonte e o foco de determinada pesquisa ou assunto. O pensamento crítico começa com questionamento, duvidando dos vieses cognitivos, procura a questão lógica, tenta ver como você argumenta com essas questões e ele requer repertório, muito repertório. Não é uma habilidade que tivemos na escola e ela precisa ser desenvolvida. E o pensamento crítico faz muita falta em um momento que lidamos com tantas novidades. [...]. Trecho da entrevista “Quando o assunto é tecnologia, não podemos desprezar o hype”, (Forbes, 2024), na qual a escritora futurista, professora Ph.D e engenheira, Martha Gabriel, fala sobre o papel da construção de cenários futuros na evolução da sociedade, autora de obras como Liderando o futuro: visão, estratégia e habilidades (DVS, 2023), Inteligência artificial: do zero a superpoderes (GEN-Atas, 2024), Você, eu e os robôs: pequeno manual do mundo digital - como se transformar no profissional digital do futuro (Atlas, 2017), Marketing na era digital: conceitos, plataformas e estratégias (GEN Atlas, 2020) e Educação na era digital (GEN Atlas, 2023).

 

EMANCIPAÇÃO HUMANA E INDÚSTRIA CULTURAL

[...] quanta influência da mentira continua, de forma mais sofisticada e fortalecida pela ideologia dominante, fundamentalmente, num contexto de um mundo globalizado econômica, política e ideologicamente em que se torna mais espoliador, explorador, dominador da dignidade humana. [...].

Trecho da dissertação de mestrado sob a temática Emancipação Humana e Indústria Cultural: Uma análise crítica a partir do contexto da sala de aula e os produtos das novas mídias sociais (UFPE, 2023), apresentada pelo professor, poeta, compositor e filósofo, Wellington Batista da Silva, com uma análise crítica feita a partir do contexto da sala de aula e os produtos das novas mídias sociais, sob orientação do professor doutor Anderson de Alencar Menezes, tratando sobre a construção da emancipação sob a luz do pensamento de Adorno e o combate das fake News como mediação da indústria cultural, a história da Escola de Frankfurt e o pensamento da razão crítica, a indústria cultural e a globalização, a formação social de educadores e educandos, a desconstrução do conhecimento e a pedagogia das redes sociais, a cultura guiada pelo capitalismo, a ausência da verdade e o caminho do caos, Educação e processo de construção do pensamento, nativos digitais tramas e dramas, o desafio do ensino da Filosofia e a formação docente, diálogo com uma sociedade consciente, o perigo das redes sociais e o mundo real, a barbárie contemporânea, o pensamento protagonista nos dias atuais, entre outros temas. Veja mais aqui, aqui & aqui.

&

PALMARES: 146 ANOS DE HISTÓRIA, ARTE, POESIA & RESISTÊNCIA

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ITINERARTE – COLETIVO ARTEVISTA MULTIDESBRAVADOR:

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segunda-feira, junho 24, 2024

TABITHA KING, PILAR QUINTANA, NADEJDA TOLOKONNIKOVA & MARACATU

 

 

Imagem: Acevo ArtLAM.

Ao som dos álbuns Emilia Giuliani: Opera Omnia Per Chitarra: Complete Guitar Works (Tactus Records, 2021) e Guitar Manuscripts Heitor Villa Lobos (3 cdbox, Naxos, 2016), da violonista, professora e filósofa italiana Federica Artuso.

 

SOLSTÍCIO DE INVERNO, DUO AFETO... – Chovia muito e eu estava dois anos antes de Metrópolis. Submergia entre os interlúdios dos oito minutos, quando apareceu o surpreendente brilho das duas faces de Brigitte a me dizer Alejandra Pizarnik: O sentido das coisas permanece na intensidade de seus nomes... Cara duma, face doutra. Nunca fui Freder e ela se parecia Er, o platônico da Panfília, que retornava do Reino dos Mortos, depois de atravessar o Lethé. Alertava-me não ousasse beber água demais para não esquecer. Ora, as lembranças povoavam meu habitat desde que me entendo por gente atravessando o ronco das máquinas com seus motores pelos ponteiros dos relógios, alertando as trocas de turno e o cansaço autômato pelos subterrâneos, tantos órfãos da pandemia coexistindo pelas ruínas, outrora glórias ufanas. E me dizia mais Sei Shōnagon: Se a escrita não existisse, que depressões terríveis sofreríamos... E eu tinha que distinguir entre o excremento e o adubo, as surpresas e o incerto, o intenso e o instável, o veneno do lixo e o alarme de alguém, sabe-se lá quem, pronto para apertar qualquer botão e tudo se espatifando duma hora para outra, do nada. Se me salvasse restava só seguir entre a modorra e o pútrido, a simpatia e o asco, desmoronamentos e desgraças, a voz dos documentos, e prosseguir como se tivesse sido criado às escondidas num passado sombrio e com o eco de Gayle Forman: Agora percebo que morrer é fácil. Viver é difícil... Só o instante existe e não é mais. O presente não vale nada, dou à posteridade. Tive muito amigos e cantava peito cheio aberto a canção da América de Milton/Brant – um continente só e a pátria grande, da terra somos todos um. Hoje nem tanto, pouquíssimos: o tempo roubou as amizades, afora ter andado por desertos, sucumbências e errâncias pelas noites obscuras da alma perdida. Sim, os tive e o que havia de interesses e troca de favores, ainda bem que nunca fui abastado e nem tive bajuladores. O mundo em derrocada e eu estoico, os obstáculos unem corações e nos transformam. Na solidão conto nos dedos a certidão de que amizade sempre foi e será um pomar para dividirmos os dons mais elevados da vida, quiçá. Tomara. E que não seja tarde demais. Até mais ver.

 

A GRADUAL CANTICLE FOR AUGUSTINE

Imagem: Acevo ArtLAM.

O urso mais magro é acordado no inverno \ pelo riso sonolento dos gafanhotos, \ pelo barulho dos sonhos das abelhas, \ pelo perfume meloso das areias do deserto \ que o vento carrega em seu ventre \ para as colinas distantes, para as casas de Cedro. \ O urso ouviu uma promessa certa. \ Certas palavras são comestíveis; eles nutrem \ mais do que a neve amontoada em pratos de prata \ ou transbordando tigelas de ouro. Lascas de gelo \ da boca de um amante nem sempre são melhores, \ nem um deserto sonhando sempre é uma miragem. \ O urso ascendente canta um cântico gradual \ tecido de areia que conquista as cidades \ num ciclo lento. O seu louvor seduz \ um vento passageiro, viajando até ao mar \ onde um peixe, apanhado numa rede cuidadosa, \ eis o canto de um urso na neve fresca e perfumada.

Poema da da escritora estadunidense Tabitha King, que ainda expressa: Escrever é sempre um processo restaurador. É como remar um caiaque. Quando você está escrevendo, não pode fazer mais nada. Você está no espaço em que está. Então, nesse sentido, escrever é extremamente centralizador e restaurador. Veja mais aqui e aqui.

 

OS ABISMOS – [...] Todos os meus mortos, pensei. Se os do meu pai estavam em silêncio e os da minha mãe eram as plantas da selva, os meus eram as folhas prestes a cair. [...] Então eu vi isso em seus olhos. O abismo dentro dela, assim como o das mulheres mortas... uma fenda sem fundo que nada poderia preencher. [...] Os gritos pararam. Agora nada podia ser ouvido. Apenas silêncio. Apenas o abismo desse silêncio. [...] Eu tinha ouvido falar sobre suicídio e pensei que sabia o que era, mas só agora comecei a entender. Não foi que a pessoa de repente teve um ataque de loucura e se matou. Não foi algo que aconteceu apesar de seus desejos ou intenções. Não foi um jogo ou uma pegadinha que deu errado. Era que a pessoa queria seriamente morrer. [...] Resisti com todas as minhas forças, tentando quebrar o fio que me puxava de baixo, entre as folhas secas, todos os meus mortos. Então o abismo, como não podia me fazer pular nem me devorar, uma coisa deliciosa e horrível entrou em meus olhos, uma bola saltitante na minha barriga e uma náusea nojenta e fedorenta, até ficar bem enterrada dentro de mim. [...]. Trechos extraídos da obra Los abismos (Intrínseca, 2022), da premiada escritora colombiana Pilar Quintana, que na obra La perra (Random, 2017) expressou que: [...] Ela queria fugir, se perder, não falar nada para ninguém e deixar a selva engoli-la. Ela começou a correr, tropeçou, caiu, levantou e correu de novo. [...] Não havia vento. As folhas das árvores permaneciam imóveis e a única coisa que se ouvia era o mar. Parecia a Damaris que o tempo estava se estendendo e que ela estaria lá até se tornar adulta e depois velha. [...]. Veja mais aqui.

 

GUIA ATIVISTA – [...] A arte é um domínio que nos ajuda a combater forças que tentam mecanizar as pessoas, forças que vêem os humanos como coisas que precisam de instruções do usuário e que deveriam ser colocadas na prateleira de uma loja de um shopping center. [...] O ato de rebelião mais radical hoje é reaprender a sonhar e a lutar por esse sonho. [...] Por que tantas pessoas não estão se sentindo muito bem? E porque é que o objetivo do tratamento é conformar os pacientes à norma, em vez de lidar com as questões sistémicas que fazem milhões de pessoas sentirem-se infelizes? Quais são as tendências socioeconômicas que estão a levar a esta explosão de doenças? Quando a competição e a obtenção de sucesso por qualquer meio se tornaram a nossa ideologia, deveríamos realmente ficar surpreendidos com este sentimento avassalador de isolamento desesperador? A solidariedade competitiva não existe. O amor competitivo também não existe. [...] Quando nos faltam forças para agir, é preciso encontrar palavras que nos inspirem. Por isso, lembre-se de um ponto fundamental: nada de deixar sua confiança arrefecer. O poder está nas suas mãos. Juntos, como comunidade ou como movimento, podemos fazer milagres. E faremos. [...] Precisamos de um milagre para sair daqui. E os milagres são reais; eles já aconteceram comigo antes. Amor incondicional, por exemplo, ou solidariedade, ou ação coletiva corajosa. Os milagres acontecem sempre no momento certo na vida daqueles que têm uma fé infantil no triunfo da verdade sobre a falsidade, daqueles que acreditam na ajuda mútua e vivem de acordo com a economia da dádiva. Você não pode comprar a revolução, você só pode ser a revolução. [...]. Trechos extraídos da obra Read & Riot: A Pussy Riot Guide to Activism (Coronet, 2018), da artista conceitual, musicista, escritora e ativista russa Nadejda Tolokonnikova.

 

 MARACATU

[...] Ao apontar todas essas questões e variantes históricas tivemos o intuito de colocar em discussão a polissemia construída em torno da coroação das rainhas de maracatu, destacando seu caráter societário [...] a constituição de redes sociais que o ritual contribui para reafirmar ou mesmo construir. Essas redes tanto buscam vinculações históricas (no sentido de firmar uma tradição) quanto políticas na contemporaneidade, e são essenciais para a constituição de uma dada identidade das comunidades de afro-descendentes da cidade do Recife.

Trecho do artigo Rainhas coroadas: história e ritual nos maracatus-nação do Recife, da professora e pesquisadora Isabel Cristina Martins Guillén, extraídos da obra Cultura afro-descendente no Recife: maracatus, valentes e catimbós (Bagaço, 2007), dos professores Ivaldo Marciano de França Lima e Isabel Cristina Martins Guillén. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

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