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segunda-feira, junho 24, 2024

TABITHA KING, PILAR QUINTANA, NADEJDA TOLOKONNIKOVA & MARACATU

 

 

Imagem: Acevo ArtLAM.

Ao som dos álbuns Emilia Giuliani: Opera Omnia Per Chitarra: Complete Guitar Works (Tactus Records, 2021) e Guitar Manuscripts Heitor Villa Lobos (3 cdbox, Naxos, 2016), da violonista, professora e filósofa italiana Federica Artuso.

 

SOLSTÍCIO DE INVERNO, DUO AFETO... – Chovia muito e eu estava dois anos antes de Metrópolis. Submergia entre os interlúdios dos oito minutos, quando apareceu o surpreendente brilho das duas faces de Brigitte a me dizer Alejandra Pizarnik: O sentido das coisas permanece na intensidade de seus nomes... Cara duma, face doutra. Nunca fui Freder e ela se parecia Er, o platônico da Panfília, que retornava do Reino dos Mortos, depois de atravessar o Lethé. Alertava-me não ousasse beber água demais para não esquecer. Ora, as lembranças povoavam meu habitat desde que me entendo por gente atravessando o ronco das máquinas com seus motores pelos ponteiros dos relógios, alertando as trocas de turno e o cansaço autômato pelos subterrâneos, tantos órfãos da pandemia coexistindo pelas ruínas, outrora glórias ufanas. E me dizia mais Sei Shōnagon: Se a escrita não existisse, que depressões terríveis sofreríamos... E eu tinha que distinguir entre o excremento e o adubo, as surpresas e o incerto, o intenso e o instável, o veneno do lixo e o alarme de alguém, sabe-se lá quem, pronto para apertar qualquer botão e tudo se espatifando duma hora para outra, do nada. Se me salvasse restava só seguir entre a modorra e o pútrido, a simpatia e o asco, desmoronamentos e desgraças, a voz dos documentos, e prosseguir como se tivesse sido criado às escondidas num passado sombrio e com o eco de Gayle Forman: Agora percebo que morrer é fácil. Viver é difícil... Só o instante existe e não é mais. O presente não vale nada, dou à posteridade. Tive muito amigos e cantava peito cheio aberto a canção da América de Milton/Brant – um continente só e a pátria grande, da terra somos todos um. Hoje nem tanto, pouquíssimos: o tempo roubou as amizades, afora ter andado por desertos, sucumbências e errâncias pelas noites obscuras da alma perdida. Sim, os tive e o que havia de interesses e troca de favores, ainda bem que nunca fui abastado e nem tive bajuladores. O mundo em derrocada e eu estoico, os obstáculos unem corações e nos transformam. Na solidão conto nos dedos a certidão de que amizade sempre foi e será um pomar para dividirmos os dons mais elevados da vida, quiçá. Tomara. E que não seja tarde demais. Até mais ver.

 

A GRADUAL CANTICLE FOR AUGUSTINE

Imagem: Acevo ArtLAM.

O urso mais magro é acordado no inverno \ pelo riso sonolento dos gafanhotos, \ pelo barulho dos sonhos das abelhas, \ pelo perfume meloso das areias do deserto \ que o vento carrega em seu ventre \ para as colinas distantes, para as casas de Cedro. \ O urso ouviu uma promessa certa. \ Certas palavras são comestíveis; eles nutrem \ mais do que a neve amontoada em pratos de prata \ ou transbordando tigelas de ouro. Lascas de gelo \ da boca de um amante nem sempre são melhores, \ nem um deserto sonhando sempre é uma miragem. \ O urso ascendente canta um cântico gradual \ tecido de areia que conquista as cidades \ num ciclo lento. O seu louvor seduz \ um vento passageiro, viajando até ao mar \ onde um peixe, apanhado numa rede cuidadosa, \ eis o canto de um urso na neve fresca e perfumada.

Poema da da escritora estadunidense Tabitha King, que ainda expressa: Escrever é sempre um processo restaurador. É como remar um caiaque. Quando você está escrevendo, não pode fazer mais nada. Você está no espaço em que está. Então, nesse sentido, escrever é extremamente centralizador e restaurador. Veja mais aqui e aqui.

 

OS ABISMOS – [...] Todos os meus mortos, pensei. Se os do meu pai estavam em silêncio e os da minha mãe eram as plantas da selva, os meus eram as folhas prestes a cair. [...] Então eu vi isso em seus olhos. O abismo dentro dela, assim como o das mulheres mortas... uma fenda sem fundo que nada poderia preencher. [...] Os gritos pararam. Agora nada podia ser ouvido. Apenas silêncio. Apenas o abismo desse silêncio. [...] Eu tinha ouvido falar sobre suicídio e pensei que sabia o que era, mas só agora comecei a entender. Não foi que a pessoa de repente teve um ataque de loucura e se matou. Não foi algo que aconteceu apesar de seus desejos ou intenções. Não foi um jogo ou uma pegadinha que deu errado. Era que a pessoa queria seriamente morrer. [...] Resisti com todas as minhas forças, tentando quebrar o fio que me puxava de baixo, entre as folhas secas, todos os meus mortos. Então o abismo, como não podia me fazer pular nem me devorar, uma coisa deliciosa e horrível entrou em meus olhos, uma bola saltitante na minha barriga e uma náusea nojenta e fedorenta, até ficar bem enterrada dentro de mim. [...]. Trechos extraídos da obra Los abismos (Intrínseca, 2022), da premiada escritora colombiana Pilar Quintana, que na obra La perra (Random, 2017) expressou que: [...] Ela queria fugir, se perder, não falar nada para ninguém e deixar a selva engoli-la. Ela começou a correr, tropeçou, caiu, levantou e correu de novo. [...] Não havia vento. As folhas das árvores permaneciam imóveis e a única coisa que se ouvia era o mar. Parecia a Damaris que o tempo estava se estendendo e que ela estaria lá até se tornar adulta e depois velha. [...]. Veja mais aqui.

 

GUIA ATIVISTA – [...] A arte é um domínio que nos ajuda a combater forças que tentam mecanizar as pessoas, forças que vêem os humanos como coisas que precisam de instruções do usuário e que deveriam ser colocadas na prateleira de uma loja de um shopping center. [...] O ato de rebelião mais radical hoje é reaprender a sonhar e a lutar por esse sonho. [...] Por que tantas pessoas não estão se sentindo muito bem? E porque é que o objetivo do tratamento é conformar os pacientes à norma, em vez de lidar com as questões sistémicas que fazem milhões de pessoas sentirem-se infelizes? Quais são as tendências socioeconômicas que estão a levar a esta explosão de doenças? Quando a competição e a obtenção de sucesso por qualquer meio se tornaram a nossa ideologia, deveríamos realmente ficar surpreendidos com este sentimento avassalador de isolamento desesperador? A solidariedade competitiva não existe. O amor competitivo também não existe. [...] Quando nos faltam forças para agir, é preciso encontrar palavras que nos inspirem. Por isso, lembre-se de um ponto fundamental: nada de deixar sua confiança arrefecer. O poder está nas suas mãos. Juntos, como comunidade ou como movimento, podemos fazer milagres. E faremos. [...] Precisamos de um milagre para sair daqui. E os milagres são reais; eles já aconteceram comigo antes. Amor incondicional, por exemplo, ou solidariedade, ou ação coletiva corajosa. Os milagres acontecem sempre no momento certo na vida daqueles que têm uma fé infantil no triunfo da verdade sobre a falsidade, daqueles que acreditam na ajuda mútua e vivem de acordo com a economia da dádiva. Você não pode comprar a revolução, você só pode ser a revolução. [...]. Trechos extraídos da obra Read & Riot: A Pussy Riot Guide to Activism (Coronet, 2018), da artista conceitual, musicista, escritora e ativista russa Nadejda Tolokonnikova.

 

 MARACATU

[...] Ao apontar todas essas questões e variantes históricas tivemos o intuito de colocar em discussão a polissemia construída em torno da coroação das rainhas de maracatu, destacando seu caráter societário [...] a constituição de redes sociais que o ritual contribui para reafirmar ou mesmo construir. Essas redes tanto buscam vinculações históricas (no sentido de firmar uma tradição) quanto políticas na contemporaneidade, e são essenciais para a constituição de uma dada identidade das comunidades de afro-descendentes da cidade do Recife.

Trecho do artigo Rainhas coroadas: história e ritual nos maracatus-nação do Recife, da professora e pesquisadora Isabel Cristina Martins Guillén, extraídos da obra Cultura afro-descendente no Recife: maracatus, valentes e catimbós (Bagaço, 2007), dos professores Ivaldo Marciano de França Lima e Isabel Cristina Martins Guillén. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

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terça-feira, dezembro 16, 2014

SEI SHŌNAGON, BRIGITTE HELM, BENJAMIN & IRIARTE

 


O BRILHO DA MULHER METRÓPOLIS... Era Eva em Berlim quando ainda Schittenhelm entre irmãos. Também era Gisela, a pisciana do pai militar falecido, aos cuidados da mãe que a levou a atuar na Era de Prata das telas. Era definitivitamente Brigitte, ao mesmo tempo a inocente Maria e, ao mesmo tempo, a Maschinenmensch, na estreia do Metrópolis de Fritz Lang, a clone vilã com sua dança frenética. Foi Magda em At the Edge of the World, foi Gabrielle, uma garota cega no The Love of Jeanne Ney. Então a sedutora, determinada e desafiadora, seus olhos claros e expressividade de gestos foi Marfa Petrowna de Die Yacht der sieben Sünden, foi Irene Beck, a dona de casa tímida que fogiu da vida doméstica para encontrar uma nova emoção no hedonismo da vida noturna depravada de Berlim, em Abwege. Foi a filha que hesita entre ser boa ou má, a vampira titular de Alraune (de Henrik Galeen), cantando Quando os homens me enganam... Foi a glamorosa e furtiva Baronne Sandorf no L'Argent e, daí, tornou-se a consagrada Helm como Vera Kersten em Skandal in Baden-Baden, como a misteriosa Cleo, esposa do coronel que se apaixona por um soldado em Manolescu - Der König der Hochstapler. Foi ainda Claire Landshoff em Die singende Stadt, foi Nina em The Wonderful Lies of Nina Petrowna, Maria em Glória, Vera Lanskaja em Im Geheimdienst, Jeanette Heider em Die Gräfin von Monte-Christo, Countess Gabrielle em The Blue Danube. Ainda foi a sedutora rainha Antinéa na tragédia de L'Atlantide, foi Gilgi, a jovem e determinada trabalhadora de escritório Eine von Uns, foi Inge em Inge and the Millions, até ser censurada pelo nazismo, envolvendo-se com acidentes de trânsito a breve prisão. Rejeitou Hollywood para não sair do seu país. E foi Olga em Adieu les Beaux Jours, L'Étoile de Valencia, Diane Morell em Fürst Woronzeff, Florence Wills em L'or, Lady Gertrud Chiltern Ein idealer Gatte e, por fim, mudou tudo: eis a opção de se aposentar na Suíça: deu as costas à atuação cinematográfica e à sua própria celebridade para sempre. O retorno incógnito à terra onde nasceu no final da guerra e o ocaso guardou-lhe o brilho para nunca mais. Veja mais aqui e aqui.

 


DITOS & DESDITOS - Não pode haver entendimento entre a mão e o cérebro a menos que o coração atue como mediador. Uma vez até desmaiei: durante a cena de transformação, Maria, como andróide, fiquei presa em uma espécie de armamento de madeira, e como o tiro demorou tanto, não consegui ar suficiente. Agora que acabou, tenho dificuldade em lembrar os momentos desanimadores e mais tristes – apenas os momentos mais ensolarados e edificantes permanecem comigo. Às vezes era como o paraíso e outras vezes como o inferno! As três semanas que passei filmando a sequência da água, quando a cidade subterrânea é inundada, foram incrivelmente prejudiciais à minha saúde. Mesmo agora, tenho que admitir que não sei como superei isso. Palavras da atriz alemã Brigitte Helm (1906-1996).

 

ALGUÉM FALOU: Como a marionete é confrontada com o deus, e como o homem, encerrado nos limites da reflexão, vacila impotente entre ambos, tudo isso forma efetivamente uma imagem tão inesquecível que poderia esconder muitos elementos inefáveis... Pensamento do filósofo, sociólogo e crítico literário alemão Walter Benjamin (1892-1940). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

 


METRÓPOLIS – A ficção científica expressionista Metropolis (1927), dirigido pelo cineasta austríaco Fritz Lang (1890-1976), baseado no romance homônimo de Thea von Harbou, foi um filme pioneiro entre os primeiros longas-metragens do gênero. O filme mudo conta a história de um futuro, em que ricos industriais e magnatas dos negócios e os seus principais funcionários reinarão sobre uma cidade de Metropolis a partir de arranha-céus colossais, enquanto os trabalhadores subterrâneos trabalham para operar as grandes máquinas que a movem. Joh Fredersen é o mestre da cidade. Seu filho, Freder, passa o tempo nos esportes e em um jardim de lazer, mas é interrompido pela chegada de uma jovem chamada Maria, que trouxe um grupo de filhos de trabalhadores para testemunhar o estilo de vida de seus “irmãos” ricos. Maria e as crianças são levadas embora, mas Freder fica fascinado por ela. Contra as regras estritas da cidade, ele entra disfarçado nos níveis inferiores para encontrá-la. Nas salas de máquinas, ele testemunha a explosão de uma enorme máquina que mata e fere vários trabalhadores. Freder tem a alucinação de que a máquina é um templo de Moloch e os trabalhadores estão sendo alimentados com ela. Quando a alucinação termina e ele vê os trabalhadores mortos sendo carregados em macas, ele se apressa em contar ao pai sobre o acidente. Grot, capataz da Heart Machine, traz para Fredersen mapas estranhos encontrados nos trabalhadores mortos. Fredersen demite seu assistente Josaphat por não ter sido o primeiro a lhe trazer detalhes sobre a explosão ou os mapas. Depois de ver a fria indiferença de seu pai em relação às duras condições enfrentadas pelos trabalhadores, Freder se rebela secretamente ao decidir ajudá-los. Ele pede a ajuda de Josaphat e retorna às salas das máquinas, assumindo a identidade de um trabalhador doente. O pai dele leva os mapas ao maior inventor da cidade, Rotwang, para aprender o seu significado. Rotwang estava apaixonado por uma mulher chamada Hel, que o deixou para se casar com Fredersen e mais tarde morreu ao dar à luz Freder. Rotwang mostra a Fredersen um robô que ele construiu para "ressuscitar " Hel. Os mapas mostram uma rede de catacumbas sob Metrópolis, e os dois homens vão investigar. Eles escutam uma reunião de trabalhadores, incluindo Freder. Maria se dirige a eles, profetizando a chegada de um mediador que poderá unir as classes trabalhadora e dominante. Freder acredita que pode ocupar o papel e declara seu amor por Maria. Fredersen ordena que Rotwang dê a imagem de Maria ao robô para que ele possa desacreditá-la entre os trabalhadores, mas não sabe que o verdadeiro plano de Rotwang é usurpá-lo como governante, desencadeando uma revolução. Rotwang sequestra Maria, molda o robô à sua imagem e a apresenta a Fredersen. Freder encontra os dois abraçados e, acreditando que o pai o traiu, cai em delírio prolongado. Intercalada com suas alucinações, a falsa Maria prega aos trabalhadores que eles devem se levantar contra o mundo da superfície, resultando em caos e dissidência. Freder se recupera e retorna às catacumbas, acompanhado por Josaphat. Ao encontrar a falsa Maria incitando os trabalhadores a destruir as máquinas, ele a acusa de não ser a verdadeira Maria. Os trabalhadores ignoram-no e cumprem os seus desejos, destruindo as máquinas e provocando uma grande inundação que ameaça afogar os seus filhos. A verdadeira Maria, tendo escapado da casa de Rotwang, resgata as crianças com a ajuda de Freder e Josaphat. Grot repreende os trabalhadores comemorativos por abandonarem seus filhos na cidade inundada. Os trabalhadores ficam histéricos e condenam a falsa Maria, queimando-a na fogueira. Horrorizado, Freder observa até que o fogo revela que ela é um robô. Rotwang, acreditando que Maria seja uma Hel reencarnada, persegue-a até o telhado da catedral, perseguido por Freder. Os dois homens lutam enquanto Fredersen e os trabalhadores assistem da rua, e Rotwang cai para a morte. Freder cumpre seu destino de unir a cidade e o submundo, unindo as mãos de Fredersen e Grot para uni-los. O destaque fica por conta do papel duplo desempenhado pela atriz alemã Brigitte Helm, que estreou a sua carreira como atriz neste filme. Veja mais aqui.

 

LIVRO DE TRAVESSEIROS – […] Na vida há duas coisas que são confiáveis. Os prazeres da carne e os prazeres da literatura. […] Na primavera é o amanhecer que é mais bonito. À medida que a luz se espalha pelas colinas, seus contornos são tingidos de um vermelho fraco e nuvens roxas se espalham sobre elas. No verão as noites. Não só quando a lua brilha, mas também nas noites escuras, enquanto os vaga-lumes voam de um lado para outro, e mesmo quando chove, como é lindo! No outono, à noite, quando o sol resplandecente se põe perto da orla das colinas e os corvos voam de volta aos seus ninhos em grupos de três, quatro e dois; mais encantador ainda é uma fileira de gansos selvagens, como pontos no céu distante. Quando o sol se põe, o coração se emociona com o som do vento e o zumbido dos insetos. No inverno, as madrugadas. É realmente lindo quando a neve cai durante a noite, mas esplêndido também quando o chão está branco de geada; ou mesmo quando não há neve nem geada, mas está simplesmente muito frio e os atendentes correm de sala em sala atiçando o fogo e trazendo carvão, como isso combina bem com o clima da estação! Mas à medida que o meio-dia se aproxima e o frio passa, ninguém se preocupa em manter os braseiros acesos e logo não resta nada além de pilhas de cinzas brancas. [...] Coisas agradáveis: encontrar um grande número de coisas que nunca se leu antes. Ou adquirir o segundo volume de um conto cujo primeiro volume você gostou. Mas muitas vezes é uma decepção. [...] Um homem que não tem nada em particular que o recomende discute todo tipo de assunto ao acaso, como se soubesse tudo. [...] Para lavar o cabelo, maquie-se e vista roupas bem perfumadas com incenso. Mesmo se você estiver em algum lugar onde ninguém especial irá vê-lo, você ainda sentirá uma sensação inebriante de prazer por dentro. [...] Não há nada no mundo tão doloroso quanto sentir que não somos queridos. [...] Mulheres sem perspectivas, que levam vidas monótonas e sérias e se alegram com seus pseudo-prazeres mesquinhos, considero bastante deprimentes e desprezíveis. […]. Trechos extraídos da obra The Pillow Book (Penguin Classics, 2007), da escritora japonesa Sei Shōnagon (966-1017). Veja mais aqui, aqui e aqui.

 


POEMAS DE TOMÁS DE IRIARTE (1750-1791)

SONETO

Senhor D. João, quietinho, que me enfado:
Beijar a mão é muito atrevimento;
Abraçar-me.... isso não, que me apoquento.
Cosquinhas.... ai Joãozinho.... e o pecado?
Como são maus os homens... mas cudiado
Que me parece ouvir passos lá dentro....
Não é ninguém.... apressa o teu momento.
Ai que prazer... tão doce e regalado!
Jesus, sou uma louca, quem diria
Que com um homem eu... sendo cristã
Mas... que... de puro gozo... ai! Vida minha!
Quanta vergonha... vai-te... queres mais?
O que tiveste não te satisfaz?
Oh meu Joãozinho, voltas amanhã?

A UMA DAMA

Enquanto, suave, a primavera passa,
teu decote é zeloso, na abertura,
mas ao verão ardente, sem censura,
ele entremostra toda a tua graça!
Depois o outono chega e tudo embaça...
Então, vai se fechando, te enclausura,
e ao vir o duro inverno, com usura
ciumento, ao teu pescoço ele se enlaça.
Renego este tempinho madrilenho
de longo inverno e de tão longos xales...
(Sou ilhéu! meu protesto não contenho!)
Mas socorrer-me esta em tua mão:
mesmo em novembro, espero, me regales
com o presente de um dia de verão!

EPIGRAMA

A la abeja semejante,
para que cause placer,
el epigrama há de
ser/ pequeño, dulce y punzante

TOMAS DE IRIARTE – Tomás de Iriarte (1750-1791) nasceu em Orotava, Tenerife (a maior das ilhas Canárias) e morreu em Madri. Afeiçoado ao classicismo, exerceu muita influência nos meios literários madrilenos. Escreveu, em 1782, as engenhosas "Fábulas Literárias". Introduziu o "melodrama" na Espanha, com "Guzmán eI Bueno". Também compôs sinfonias e, em 1779, um grande "poema musical", a que deu o nome de "La Música". Sonetista de mavioso lirismo. Veja mais aqui e aqui.

POEMAS DE GERUSA LEAL

SOU?

caminhando vou -
fumaça, vôo, nuvem
chuvisco de azul
nuvem de chuva
sabe-se lá porquê
dia de lua

CINTILÂNCIA

desde que brota
desejante
vai umedecendo de vida todo o curso

num remanso
embora feita de assossego
embora pura harmonia
inacessível e mansa
branca e elegante se faz garça

e num segundo de descuido
deixa-se fotografar
desnuda


NÃO-FALO

falo de mãos e de dedos
falo de figos
e de seus segredos

falo de lábios e línguas
falo de peixes e serpentes
e maçãs

falo de pele e de arrepio
falo de velas, espadas e
bastões

falo de cheiros e de sabores
falo de flores
falo de romãs

falo de cálices, de sinos
e de torres
falo de calores e de convulsões

falo e a noite se vai
e eu não durmo

não-falo

EX-FINGE

percorre as veredas do meu corpo
verás que ainda há parte do humano
que fui quando assim fingia ser

tateia com vagar todos os flancos
desse ser tão incomum igual a ti

de quatro talvez me descortines
de quatro animais encontras partes
à minha humanidade amalgamada

cabeça e seios de mulher
corpo de touro (ou de cão se assim preferes)
garras de leão asas de ave
e essa imensa cauda de dragão

não temas, amado, inda sou eu
a mesma que desconhecendo, amastes
e se duvidas de mim, olha no espelho
verás que, enfim, me decifrastes


ÁQUATICA

Navega-me,
que me faço mar.
Não para me singrares de velas enfunadas.
Teu deslizar há de fazer marolas
que hás de alisar docemente.
Eu crescerei em vagas impetuosas
e te farei soçobrar.
Mergulharás em mim e eu, maremoto.
Até que,
juntos,
na praia morna,
em branca espuma
morreremos.

GERUSA LEAL – a poeta e escritora pernambucana Gerusa Leal, é autora de contos e poemas publicados nas coletâneas Contos de Oficina, organizadas pelo escritor Raimundo Carrero e também as organizadas pela Fundação de Cultura Cidade do Recife. Conquistou premiação nos concursos Luís Jardim, Prefeitura de Cordeiro – RJ, Maximiano Campos, Fliporto e mais recentemente o prêmio Edmir Domingues de Poesia 2007 da Academia Pernambucana de Letras, com o livro de poemas versilêncios, livro ainda com lançamento previsto para final de março/2009. É integrante da Rede de Escritoras Brasileiras – REBRA. Ela edita o blog Flor de Gelo. Veja mais aqui.


PROGRAMA TATARITARITATÁ – O programa Tataritaritatá que vai ao ar todas terças, a partir das 21 (horário de Brasilia), é comandado pela poeta e radialista Meimei Corrêa na Rádio Cidade, em Minas Gerais. Confira a programação desta terça aquiLogo mais, a partir das 21hs, acontecerá mais uma edição do programa Tataritaritatá – agora com 2 horas de duração -comemorando os mais de 415 mil acessos do blog, apresentação da querida Meimei Corrêa e com as seguintes atrações na programação: Hermeto Pascoal, Orquestra Contemporânea de Olinda, Pat Metheny, Egberto Gismonti, Orquestra de Cordas Dedilhadas de Pernambuco, Chico Buarque, Olavo Billac, Emerson & Lake & Palmer, Milton Nascimento, João Pinheiro, Dery Nascimento, Rosana Simpson, Mazinho, Katya Chamma, Maria Dapaz, Sonia Mello, Anabel Bian, Meimei Corrêa, Ricardo Machado, Carlos Miúdo, Sóstenes Lima, Marconny Mello & Golden Time, George Freedman, Kid Abelha, JB & muito mais! Veja mais aqui

SERVIÇO:
O que? Programa Tataritaritatá
Quando? Hoje, terça, 16 de dezembro, a partir das 21hs
Onde? No MCLAM 
Apresentação: Meimei Corrêa


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