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domingo, novembro 13, 2022

ANNA GREEN, KRISTEVA, SEXTON, BENJAMIN. BARNBROOK. JOANA LIBERAL & ESTÉVÃO QUEIROGA

 

Ao som do álbum Ciranda das Mestras (2015-2021), da pianista, compositora e professora da UFRGS, Catarina Domenici.

 

TRÍPTICO DQP: - Fábula de truz... - O prólogo e nenhuma pausa para o que saiba de queda ou excelência, só a chuva persistente e a cidade submersa em sono profundo: a perdição do paraíso distante que se esquivara pelos sonhos evadidos. Agora só os pesadelos rutilantes daqueles soberbos que nunca souberam perder com seus detritos perfumados difícil de digerir. Era como se ao meu ouvido Anna Katharine Green: Palavras podem ser ditas em um momento que não serão esquecidas em anos. A culpa não tem o direito de lucrar com a generosidade dos inocentes. De nada adiantava no barulho da grande indústria do desperdício subestimando o que esperava do chamado jamais chancelado, porque é tudo muito distante e desanimadores passantes com seus noturnos afetos desviantes, enquanto escapo peregrino da destruição e era como se um abismo me engolisse pelas subterrâneas escuridões de inferno disfarçado de futilidades destroçadas, só mosca na sopa, calo no sapato, pereba na perna e a violência implícita nos olhos de algodão forjado de louvores falsos, incestos, façanhas delirantes, desastres tempestuosos, surtos ameaçadores, reinvenções inúteis e ataques de pânicos pelas exóticas extravagâncias de biltres desertores comovidos, um enfadonho prato cheio de choradeira, desespero e baixaria, tudo malcheiroso e daninho. Era o trunfo da dietrologia caricatural, de nenhum hiato no acesso da saturação e sem o discernimento às escolhas, porque Walter Benjamin na sua solidão: Não se deve dizer que o passado clareia o presente ou que o presente ilumina o passado. É em uma imagem, que o outrora encontra o agora em um relâmpago, que forma uma constelação. E ainda não é outro dia como desde sempre. Reconstituo o tempo e um outro mundo talvez só depois da morte e era o meu retrato no mundo comum e sem graça: sonho amanhã porque algo acontecerá...

 


Florescer esperançável... - Imagem: arte da fotógrafa, arte-educadora e artista visual Tatiana Altberg. - Luto lutas e é cada um por si e Deus que segure as pontas. Da janela o lixo escorre pelas valetas e esgotos com mentiras, heroína, mercúrio, incinerações; as paranoias com a alternância de fatos alucinantes e o derretimento de reputações, soropositivos, paraplégicos, psicóticos, obesos, e indigentes nos muros quedavam com a insolência dos gestos, os plenos pecados diluídos na luxúria. Essa a convivência desmantelada pelas arrastadas tensões de invasores alheios obcecados com sua pele de branquitude bastarda aos controversos acenos sórdidos nas travessias insólitas com seus tumultos tão decadentes para habitar o mundo, mesmo que ouça Jonathan Barnbrook me dizer: Nós estamos criando novas formas para a humanidade se expressar melhor. Será? Sei do olhar do outro e os meus pelas paisagens humanas, a busca incessante por não sei o quê, autorretratos: estereótipos e ostracismo. Tudo leva ao genocídio silencioso – o silêncio é cúmplice da violência, enquanto repetem alhures que tudo é interdependente e indivisível. E mais voo mais que A partida e o norte de Estévão Queiroga: O caminho muda e ele muda o caminhante É um caminho incerto, / não um caminho errado / Eu, caminhante, quero o trajeto terminado, / Mas no caminho, mais importa o durante... É duro caminhar sozinho, exilado...

 


Pelas ruas da minha janela... - Imagem: Água na boca, da artista visual Joana Liberal. - As águas dos rios extrapolaram as margens e lavaram meus pés no meio da rua. Das ondas ela emergiu remanescente atlante, ninfa oceânica, Vênus enfeitiçante. Noutro idioma ela me falou ter se tornado gueixa para que eu fosse o marinheiro de sua odisseia e seu anjo da guarda para salvá-la ao ser amaldiçoada por abjurar a fé de seus antepassados. Antes fosse, o que seria uma grande farsa de alcoviteiros inescrupulosos que a aprisionaram numa arapuca por quase um milênio e não foi vendida ao príncipe Yamadori outra vez por causa da minha intervenção na sua quase imolação e eu não sabia de nada disso. Talvez ela fosse louca e tão bela quanto o raiar do dia para me mostrar na pedra as formas opulentas das Vênus paleolíticas e a de Bassempony para decifrar mais de 70 mil anos de grafias abstratas com linhas triangulares que se entrecruzavam e eu me perdia no seu olhar como nos paralelepípedos da Marianne de Delacroix, contando uma das histórias da catedral de Notre Dame nos deslumbres dos vitrais da arquitetura gótica e o mapa de Eratosthenes ao colo da nudez realçada por robustas coxas voluptuosas e seios fartos debruçados para que eu enlouquecesse pela maior tesão de tê-la espalmada ao meu jugo priápico. Como se adivinhasse o meu tormento fitou-me tal Julia Kristeva: Cada obra é apenas a tecelagem de outras obras já vistas. Tão inocente parecia, esplendidamente trágica para que eu amasse aquela estranha como nunca e ela mais pressentia Anne Sexton: Como já foi dito: O amor e a tosse não podem ser disfarçados, Nem mesmo a pequena tosse. Nem mesmo o pequeno amor. Viva ou morra, mas não envenene tudo. A ventania serviu para mais me atordoar e ela sugeriu para que eu me suicidasse quando sempre tive motivos demais para não cometer nada disso, era como se me jogasse para ela e permitisse, assim foi, abrasados e mútuos. Às pressas, um passo adiante a buscar de esconderijo propício e demos de cara com Bispo do Rosário num buraco do metrô e ela foi audaciosa pelo cenário de sucata na demanda do Santo Graal. O que vai acontecer para preencher o vazio e o que fazer, quem sabe. Amanhã não será apenas outro dia e a ressurreição, tomara. Só enxergo seus lábios insinuantes, água na boca. E nela serei mais que inteiro além dos tempos de seu corpo sedutor, assim foi... noitedias. Até mais ver.

 


[...] a dimensão estética tem a ver com a corporeidade: o corpo que vê tudo que olha, que ouve tudo o que escuta, que sente tudo o que toca; o corpo que capta o mundo com sua presença, que evoca o passado e projeta o futuro no aqui e agora, que pensa, sonha, deseja e se emociona; o corpo que transforma e se transforma. [...].

Trecho extraído da obra O ensino e a aprendizagem da linguagem teatral na Educação de Jovens e Adultos (UFPB, 2003 – Dissertação de Mestrado), da professora e pesquisadora Maria das Graças Vital de Melo. Veja mais Educação & Livroterapia aqui e aqui.

 


segunda-feira, fevereiro 11, 2019

SARAMAGO, WALTER BENJAMIN, ALICE VINAGRE, ANDRÉ MEHMARI & NEUROEDUCAÇÃO


A SOLIDÃO DE BENJAMIN – A berlinense manhã invernosa da infância e a maçã dos oito anos: a amaldiçoada adâmica. De seus pais, Pauline e Emil, o judaísmo e os negócios prósperos: os pobres não vivem além do fim do mundo. O que seria da vida se não visse em todas as direções. O menino no fausto aprendia a ficar só. Quando Aroob, o codinome e os desencontros com estudantes livres: não poderia concordar com a guerra. O aconchego de Dora e o casamento para Berna, Stephan e a deserção. Ali já o enigmático e contraditório, o melancólico homem da arte, o outsider intelectual que sabia de Goethe, Baudelarie, Brecht, Proust, Gorki, Poe, Kipling, Valéry, Kafka. As dificuldades financeiras, a recusa por emprego e a rejeição da tese de livre docência. Nenhuma mão na bancarrota dos pais, o sustento por Dora e o exílio em Paris: o Surrealismo já previa os horrores do holocausto. As passagens, coisas e pessoas, a atriz Zacis, o pessimismo e a desconfiança com o que viria depois. A vida espectral e os infortúnios: seus pais faleceram sem menos esperar, o divórcio e a ascensão do nazismo ameaçador, o desencanto: Weimar, o stalinismo, a guerra fria, tudo quase tão triste e real ao redor. O refúgio em Nápoles pros braços da bela letã Asja Lacis, o teatro infantil na rua de mão única: o corpo aberto em Riga, as imagens do pensamento e as recíprocas atrações e conflitos. Dali pra Moscou, o escritor dos diários na depressão e o haxixe, experiências e cartas com um novo nome, Detlef Holz: a solidão é um vórtex puxando o mundo com a força de um turbilhão. Completamente rejeitado e só: o fracasso da naturalização francesa, não há mais cidadania alemã. A arte de narrar caminhava para o fim, não mais a troca de experiência, o estatuto dos artesãos: “O tédio é o pássaro onírico que choca o ovo da experiência”. As ruinas do passado assombravam o presente e o esquecimento dos vencedores: a memória, a lembrança, a esperança, Scherazade e os solitários desenrolavam as teias e os ornamentos do esquecimento, o tempo perdido, palimpsestos, o trabalho de Penélope e a irrecuperabilidade do que foi para mitigar e inocular o sofrimento, a perda. O socorro da lembrança sacudia a letargia com o sonho coletivo diante do que caiu ou foi desprezado: a memória é teatro e era preciso escavar e reescavar: espraiar e revirar, atualizando do presente. Mil vezes pediu para dormir até se fartar: a morte é a sanção do relato. Não há para onde ir: a fuga dos refugiados, Port Bou, Lisa e os USA, a ameaça na fronteira franco-espanhola, o desespero, a dose letal de morfina. Os demais seguiram para Portugal, restaram escritos perdidos e a solidão de morrer sepultado com a sua agonia. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS
[...] Para começar, gosto das mulheres. Acho que elas são mais fortes, mais sensíveis e que têm mais bom senso que os homens. Nem todas as mulheres do mundo são assim, mas digamos que é mais fácil encontrar qualidades humanas nelas do que no gênero masculino. Todos os poderes políticos, econômicos, militares, são assunto de homens. Durante séculos, a mulher teve de pedir autorização ao seu marido ou ao seu pai para fazer fosse o que fosse. Como é que podemos viver assim tanto tempo, condenando metade da humanidade à subordinação e à humilhação? [...].
Trecho de As mulheres são mais fortes (L’orient le jour, 2007), do escritor, teatrólogo, jornalista e dramaturgo português José Saramago (1922-2010). Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da premiada artista Alice Vinagre que desenvolve atividades artístico-culturais como pintora e desenhista, com as séries No coração de todas as coisas (1988), Amarelo (1993), Bonecas (1994), Coração (1999) e Azul (1998), Anotações (sobre o céu), Anotações sobre pintura e a individual Com olhos de náufrago ou onde fica o próximo porto (2018) - esta última em exposição até 24 de fevereiro, no Museu de Arte Moderna Aloisio Magalhães – Recife – PE, tendo realizado exposições na Alemanha, Equador, França e Japão. 
Veja mais aquiaqui e aqui.

A MÚSICA DE ANDRÉ MEHMARI
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com o pianista, compositor e arranjador André Mehmari. Para conferir ligue o som e veja mais aqui e aqui.
&
A obra do filósofo alemão Walter Benjamin (1892-1940) aqui, aqui, aqui e aqui.
&
Palestra Neuroeducação aqui
&
muito mais na Agenda aqui.


quinta-feira, setembro 27, 2018

HILDA DOOLITTLE, LAFCADIO HEARN, SILVIANE BELLATO, IBERÊ, WALTER BENJAMIN, DANIELLE CARCAV & ANCLOTINATO


POR ONDE ANDA ANCLOTINATO? – Imagem: arte da artista visual Danielle Carcav. – Daquele dia em diante nada dava certo para Anclotinato, o que fizesse só dava errado. Como é que pode? A chaleira esquentando no fogão, foi pegar o bule e o pipoco deixou-lo todo cheio de queimadura: Rapaz, a coisa estava quente mesmo! Ao fechar a porta do que fosse, esquecia o dedo machucado: careta medonha abanando a mão dolorida. Calçava o sapato sem se lembrar do calo no calcanhar: Vôte, parece mais que o calçado enconlheu, ora! Fechando o zíper da calça, prendia a piroca por ais e uis: Agora, casar já era! Fazendo a barba, cortava-se todo, haja talhos e esparadrapos na fisionomia, todo remendado: Será a múmia dum faraó fuleiro? Se ía sair de casa em dia ensolarado, logo trovejava de cair temporal: pegava o guarda-chuva, agasalhava-se todo, dava uns dois ou três passos, o Sol abria o quenturão. Se estava disposto a resolver problemas pendentes, tudo se enganchava: Foi mesmo? Findava com cara de anteontem sem entender direito o que havia acontecido. Perseverante, inventou de arrumar uma namorada, todo embecado de ficar nos trinques. Ao se aproximar dela: Que perfume catingoso esse seu, hem? Caríssimo, mandei buscar nos estrangeiros. Pois pra mim, fede da pior inhaca! Vixe! Outra reclamou do seu bafo: Mas eu escovo os dentes seis vezes ao dia! Deve ser com bosta, só sendo. Danou-se. Uma terceira o achou muito feio, aí não teve jeito: jurou que morreria solteiro. Para ele tudo passa e indo para uma festa, se o traje era a rigor, chegava a passeio, ou vice-versa: Você não leu o convite? Que convite? Ah, penetra, pra boca de ponche aqui só tem barrada na cara, viu? Saía se rindo: Ué, vai que cola! Na fila de um banco, chegasse a sua vez, tudo saía do ar, só no outro dia: Como é que pode, três horas na fila? Guichê encerrado – os outros também, fazer o quê? Ao pagar em dia, o código de barras estava errado: Como assim? Não passou na máquina, resultado: só pagava atrasado. Eita, tiborna! Dia de pagamento, saía remuneração de todo mundo, menos a dele: E é? É. Ao pegar condução, estava entupido de ficar esperando a próxima: Tem nada não, ainda volto pra casa um dia. No metrô, ficava pra trás. Cansado da embromação do transporte público, resolveu comprar um automóvel para não perder o ponto: se não ficasse empancado num engarrafamento o dia inteiro, restava retido numa blitz policial: só pra resolver os documentos e pagar as multas, três dias. Emprego que era bom, não tinha mais, nem que quisesse. Resolveu pela informalidade, profissional autônomo e trocou o carro por uma motocicleta: se não levasse trancas de findar desmantelado num hospital, aparecia o dono do alheio que a levava de deixá-lo a pé: Num é que levaram mesmo? Pois é. Optou por uma bicicleta: quando não era a corrente enganchando entre a catraca e a coroa, dele se esborrachar relando a venta no chão, era a ausência de faixa de ciclista dele ficar feito num mata-burro. Dá não. Fazer meu próprio negócio em casa mesmo. Anúncios e faixas, ninguém aparecia: Vai ver que estou sendo engalobado de novo. Jogava na loteria, acertava os números do concurso anterior: Hem, hem, devia de ter jogado na semana passada, num era? Pronto para vencer no bingo, passava batido: Ah, foi? Se vestia uma roupa limpa e ia caminhar, findava melado de lama – não se livrava nunca dos pneus nas poças. Na hora do voto, errava o número do candidato escolhido: Esqueci o número do fidapeste! No café da manhã, a comida já vinha queimada; no almoço, tudo passado; jantava qualquer coisa para enganar o bucho: Do jeito que vai, findo morrendo de fome. Pra visitar a família ia a pé, porque ou o ônibus ou o trem atrasavam de deixá-lo secando os cambitos o dia todo: Será o Benedito? Taxado de pé frio, não tinha amigos, parentes nem aderentes, todos diziam: O cara é um azarão. Vai que a sorte dele vira pro lado da gente, maior urucubaca, meu! E ele só rindo. Sozinho para onde fosse, resolveu não fazer nada na vida: se faço, dá tudo errado; não vou fazer nada para ver o que acontece. E aconteceu: da primeira vez, um raio acertou-lhe o cocoruto, quase lhe tosta a alma numa enfermaria por quase seis meses; da segunda, não teve jeito, findou torrado de nunca mais ninguém se lembrar dele. Coitado, ainda dizem que raio não cai duas vezes no mesmo lugar, ora, ora. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música da diva da ópera brasileira, a soprano lírico spinto Silviane Bellato: Lo Schiavo de Carlos Gomes, Nel di dela vittoria – Machbeth, Pace Pace Mio Dio – La Forza del Destino & Tosca de Puccini & muito mais nos mais de 2 milhões & 600 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja a entrevista dela aqui & mais dela aqui e aqui.

DITOS & DESDITOS – [...] Nós somos como tartarugas, carregamos a casa. Essa casa são as lembranças. Nós não poderíamos testemunhar o hoje se não tivéssemos por dentro o ontem porque seríamos uns tolos a olhar as coisas como recém-nascidos, como sacos vazios. Nós só podemos ver as coisas com clareza e nitidez porque temos um passado. E o passado se coloca para ajudar a ver e compreender o momento que estamos vivendo. [...]. Extraído da obra Gaveta de guardados (Edusp, 1998), do pintor Iberê Camargo (1914-1994). Veja mais aqui e aqui.

PASSAGENS - [...] o alegorista pega uma peça aqui e ali do depósito desordenado que seu saber põe à sua disposição, coloca-a ao lado de uma e outra e tenta ver se ambas combinam: aquele significado para essa imagem ou esta imagem para aquele significado. O resultado nunca pode ser previsto, pois não existe uma mediação natural entre os dois. Dá-se o mesmo com a mercadoria e o preço. [...] Nunca se poderá saber ao certo por que tal mercadoria tem tal preço, nem no curso de sua fabricação, nem mais tarde quando ela se encontra no mercado. Ocorre exatamente o mesmo com o objeto em sua existência alegórica. Nenhuma fada determinou em seu nascimento qual significado que lhe atribuirá a meditação absorta do alegorista. Porém, uma vez adquirido tal significado, este pode ser substituído por outro a qualquer momento. [...] De fato, o significado da mercadoria é seu preço; como mercadoria, ela não possui outro significado. Por isso o alegorista está em seu elemento com a mercadoria  [...] Tornar cultiváveis regiões onde até agora viceja apenas a loucura. Avançar com o machado afiado da razão, sem olhar nem para a direita nem para a esquerda, para não sucumbir ao horror que acena das profundezas da selva. Todo solo deve alguma vez ter sido revolvido pela razão, carpido do desvario e do mito. É o que deve ser realizado aqui [...] nada a dizer. Somente a mostrar. Não surrupiarei coisas valiosas, nem me apropriarei de formulações espirituosas. Porém, os farrapos, os resíduos: não quero inventariá-los, e sim fazer-lhes justiça da única maneira possível: utilizando-os [...]. Trechos extraídos da obra Passagens (UFMG/IOESP, 2009), do filósofo, ensaísta e critico literário alemão Walter Benjamin (1892-1940). Veja mais aqui e aqui.

UMA PROMESSA QUEBRADA – [...] — Eu não tenho medo de morrer – disse a esposa agonizante —; só há uma coisa que me inquieta neste momento. Gostaria de poder conhecer quem tomará meu lugar nesta casa. — Minha querida — respondeu o marido desolado —, ninguém jamais tomará seu lugar em minha casa. Nunca mais me casarei. No instante em que disse isso, ele falava do fundo de seu coração, pois amava a mulher que estava prestes a perder. — Palavra de samurai? — indagou a esposa, com um débil sorriso nos lábios. — Palavra de samurai — respondeu ele, acariciando seu rosto pálido e magro. — Então, meu querido — disse ela —, você deixará que eu seja enterrada no jardim, próxima daquelas ameixeiras que plantamos lá no fundo? Faz muito tempo que eu queria pedir isso, mas achei que, caso você se casasse novamente, não ia querer meu túmulo tão perto. Agora, você prometeu que nenhuma outra mulher tomará meu lugar, e não preciso mais hesitar em pedi- lo… Eu quero tanto ser enterrada no jardim! Acho que, no jardim, poderei ouvir sua voz de vez em quando e serei capaz de ver as flores na primavera. — Sua vontade será feita — anuiu o esposo. — Mas não fale de enterro: você não está tão doente a ponto de termos perdido toda a esperança. — Eu perdi — retrucou ela —, vou morrer hoje de manhã… Mas você me enterrará no jardim? — Enterrarei — disse ele —, sob a sombra das ameixeiras que plantamos; e você terá um belo túmulo. — E você me dará um pequeno sino? — Um sino? — Sim… Quero que ponha um sino dentro do caixão, um daqueles pequenos sinos que os peregrinos budistas carregam. Posso ter um igual? — Você terá seu sino e o que mais desejar.— Não desejo mais nada — disse ela. — Meu querido, você sempre foi muito bom para mim. Agora posso morrer feliz. Em seguida, ela fechou os olhos e morreu serenamente como uma criança sonolenta que adormecesse. Estava linda quando morreu; e havia um sorriso no seu rosto. Ela foi sepultada no jardim, sob a sombra das árvores que amava; e um pequeno sino foi enterrado com ela. Sobre o túmulo foi erguida uma linda lápide decorada com o brasão da família, com o kaimyo: “Grande Irmã Anciã. Sombra-Luminosa-da-Flor-da-Ameixeira, que reside na Mansão do Grande Mar da Compaixão.” [...] Todavia, 12 meses após o falecimento de sua esposa, os parentes e os amigos do samurai começaram a insistir que ele deveria se casar de novo. “Você ainda é jovem”, disseram, “filho único e sem filhos. É o dever de um samurai se casar. Se você morrer sem deixar filhos, quem estará aqui para fazer as oferendas e recordar seus ancestrais?” Depois de tanta insistência, ele foi enfim persuadido a casar-se novamente. A esposa tinha apenas 17 anos; e ele achou que poderia amá-la ternamente, não obstante a muda repreensão da sepultura no jardim. [...]. Trecho da obra do escritor japonês Lafcadio Hearn (1850-1904).

DOIS POEMAS - EM BAIA: Eu devia ter previsto / que num sonho você teria trazido / alguma coisa adorável, perigosa, / orquídeas empilhadas num belo estojo, / como alguém diria (num sonho), / “Eu lhe envio isto, / alguém que deixou as veias azuis / da sua garganta imbeijada.” / Por que foi que suas mãos / (que nunca tomaram as minhas), / suas mãos que eu pude ver / vagar em pétalas de orquídeas / com tanto cuidado, / suas mãos, tão frágeis, prontas para levantar, / tão gentilmente, a essência frágil da flor  / – ah, ah, como foi isso / Você nunca enviou (num sonho) / a mesma forma, o mesmo cheiro,/ não denso, não libidinoso, / mas perigoso — perigoso — / das orquídeas, empilhadas num belo estojo / e dobradas sob um brilhante pergaminho, / algumas palavras: / “Flor enviada para flor; / para alvas mãos, a menos alva, / menos adorável das folhas de flor,”  / ou / “De amante para amante, sem beijo, / sem toque, mas para todo o sempre assim.” OS QUE DORMEM AO VENTO: Brancos / mais que a crosta / que a maré arrasta, / ardem-nos a areia revirada / e as conchas partidas. / Não dormimos mais / ao vento / — / despertamos, fugindo / ao portão da cidade. / Arranquem — / arranquem um altar pra nós, / puxem os rochedos, / empilhem-nos com pedras brutas — / não dormimos / mais ao vento, / propiciem-nos. / Entoem um ululuar / que nunca cessa, / tracem um círculo e homenageiem / com uma canção. / Quando o rugir da vaga em queda / a interromper, / jorre medido o verbo / de águias-marinhas e gaivotas / e aves marinhas clamando / discórdias. Poemas da poeta estadunidense Hilda Doolittle (1886-1961). Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da artista visual Danielle Carcav
Veja mais aqui.

AGENDA
Seminário de Antropologia Indígena em Pernambuco -10 e 11 de outubro, PPGA Programa de Pós-Graduação em Antropologia - UFPE, organizado e realizado pelo Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Etnicidade (NEPE) & muito mais na Agenda aqui.
&
Dois tempos de Anclotinato aqui & aqui.
&
Lá vai Tomé escapando das suas, Jiddu Krishnamurti, Rainer Maria Rilke, Boaventura de Sousa Santos, Ladislau Dowbor, Alberto da Cunha Melo, Anselm Kiefer, Biblioteca Fenelon Barreto & Paulo Profeta, Peter Gabriel, Tatjana Vassiljeva, Edson Zampronha & Karyme Hass aqui.


segunda-feira, setembro 04, 2017

ASCENSO, PAULO FREIRE, WALTER BENJAMIN, BUÑUEL, JANACÓPULOS, TONI MORRISON, ADRIANA ASTI, MANOEL BENTEVI & CATENDE

VOU DANADO PRA CATENDE – Isso é planta que brilha ou pulga do mato? É o trem das Alagoas, alesado! Eita! Lá vou eu pra terra da morena do cabelo cacheado. – Se assunte, seu cabra! É tupi ou do Congo? Larga de ser folgado, bestão! Ué, homem de Palmares só é macho se tiver furunfado de saia por aqui! Oxe, tais pensando que tais aonde, hem? É cana-caiana, maior canavial, haja cana da boa pra gente chupar! Ih, já chegou! E lá ia eu do Leão XIII pra Árvore da Vida, só pra ver a Mulher da Sombrinha sair meia noite do cemitério, na sexta de Zé-Pereira. Coisa mais bonita de se ver. Ah, como era bão! Saía trocando as pernas pelo arruado da usina até subir pra Serra da Prata e de lá vê o Caudal de Pelópidas, os versos cantados de Bartyra, jogando conversa fora nos copos e meiotas com Marcos Catende, até findar no mundo perdido: - Onde é que eu estou? Isso aqui é bom demais! – Te aquieta, fuleiro! Lá eu namorava as estrelas de todas as constelações! Tinha moça bonita pra passar troco e ficar todo trocado! Uma infieira de moça sestrosa e de tuia! Cada uma mais linda que a outra! Valei-me que assim eu folgo! – Segura o jipe, safado, essa tua cachaça já está passando da conta! Ah, quanto seio bonito, quanta coxa de perna jeitosa, ah, é embaixo duma saia dessa que eu quero me esconder! Eu quero é mandar ver até me perder no trevo pra correr bicho em Lage Grande. – Ah, já passou, tais quase é em Agrestina! Danou-se! Ah, se não tem história, eu invento. Faz a volta, cambiteiro, que o paraíso é lá pra trás. Vambora pra terra de mulher vistosa! Eu só espichando o pixaim, metido a poetar: se o mundo está de pernas pro ar, não sou eu que sozinho vou essa zona consertar. Né, não? E se tudo está troncho de tão desfigurado, é que fazem dum redondo findar mais que quadrado! U-hu! A coisa está bisonha e cheia dos tremeliques, é que não tem nada de sério, vai se ver, é só trambique! O pencó está engrossando, chega mudar de figura! Pois é, tanta chatice tola pra pouca criatura. É gente como a praga de gravata lavada, tem até enxerido sem lenço só dizendo: é descontramantelo da desembestação! É a maior danação! Eu só largando os meus motejos, todo cheio de tantos brocardos, haja quantos adágios entre fogos e ventos, pelos raios dos trovões, pelas clareiras e coivaras, e eu todo bacurau feito flecha entre cunhatãs e cunhãs: quando aparecia a papaceia na boquinha da noite é que as mocinhas biqueiras faziam as onze e eu lá só espiando, mutuca no roçado, só curtindo o cheiro das calcinhas estufadas minando nas intimidades. Ah, quanto cangote cheiroso de moça namoradeira que passa toda reboladeira e eu na tubiba pra fazer sopa. Só se ouvia as mães aflitas gritando: - Segura chinela na sola do pé, menina! E eu só ali amoitando o gingado dela. – Se ajeite, sem-vergonha! Oxe, nunca fui desses mecos! Mentira, foi sim. Vixe! Querem queimar meu filme! Destá! Estou ligado é no percurso dos pés andejos das mocinhas que querem se perder por aí, preu achar agorinha! E quanto mais ela ia pra lá e pra cá, mais eu queria era ficar. E de vez! Nem vontade de voltar dá. Só me perder num fungado e ficar agarrado nela de nunca mais largar, só na cantiga do trem: vou danado pra Catende, Ascenso, vou danado pra Catende, vou danado pra Catende, com vontade de chegar. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ: 24 HORAS NO AR!!!
Hoje na Rádio Tataritaritatá: Ascenso Ferreira, Inezita Barroso, Alceu Valença, Brapo: Brasília Popular Orquestra & Manoel Carvalho, Lucinha Guerra & Punhal de Prata- Alessandra Leão & Rafa Barreto. Para conferir é só ligar o som e curtir.

NOS TEMPOS DA PRAIEIRAO voto livre e universal do povo brasileiro. A plena e absoluta liberdade de comunicar os pensamentos por meio da imprensa; o trabalho como garantia de vida para o cidadão brasileiro; a inteira e efetiva independência dos poderes constituídos; a extinção do Poder Moderador, e do direito de agraciar; o elemento federal na nova organização; completa reforma do Poder Judicial, em ordem a assegurar as garantias dos direitos individuais dos cidadãos; extinção da lei do juro convencional; extinção do atual sistema de recrutamento. Princípios estabelecidos no Manifesto de 1º de janeiro de 1849, extraídos da obra Os tempos da Praieira (Fundação de Cultura Cidade do Recife, 1981), do advogado, jornalista, historiador e político brasileiro Costa Porto (1909-1984). Veja mais aqui.

CERTO TEMPO DEPOIS - [...] Durante séculos, um pequeno número de escritores encontrava-se em confronto com vários milhares de escritores. No fim do século passado, a situação mudou. Mediante a ampliação da imprensa, que colocava sempre à disposição do público novos órgãos políticos, religiosos, científicos, profissionais, regionais, viu-se um número crescente de leitores – de início, ocasionalmente – desinteressar-se dos escritores. A coisa começou quando os jornais abriram suas colunas a um “correio dos leitores” e, daí em diante, inexiste hoje em dia qualquer europeu, seja qual for a sua ocupação, que, em princípio, não tenha a garantia de uma tribuna para narrar a sua experiência profissional, expor suas queixas, publicar uma reportagem ou algum estudo do mesmo gênero. Entre o autor e o público, a diferença, portanto, está em vias de se tornar cada vez menos fundamental. Ela é apenas funcional e pode variar segundo as circunstâncias. Com a especialização crescente do trabalho, cada individuo, mal ou bem, está fadado a se tornar um perito em sua matéria, seja ela de somenos importância; e tal qualificação confere-lhe uma da autoridade. [...] A competência literária não mais se baseia sobre formação especializada, mas sobre uma multiplicidade de técnicas e, assim, ela se transforma num bem comum. [...] a exploração capitalista da indústria cinematográfica recusa-se a satisfazer as pretensões do homem contemporâneo de ver a sua imagem reproduzida. Dentro dessas condições, os produtores de filmes têm interesse em estimular a atenção das massas para representações ilusórias e espetáculos equívocos. [...]. Trechos extraídos da obra A obra de arte na época de suas técnicas de reprodução (Brasiliense, 1994), do filosofo alemão Walter Benjamin (1892-1940). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

DA EDUCAÇÃO E DISCERNIMENTO - [...] Nós nos tornamos hábeis para imaginativa e curiosamente “tomar distância” de nós mesmos, da vida que portamos, e para nos dispormos a saber em torno dela. Em certo momento não apenas vivíamos, mas começamos a saber que vivíamos, mas saber que sabíamos e, portanto, saber que poderíamos saber. [...] Mulheres e homens, somos os únicos seres que, social e historicamente, nos tornamos capazes de apreender. Por isso, somos os únicos em quem aprender é uma aventura criadora, algo, por isso mesmo, muito mais rico do que meramente repetir a lição dada. Aprender para nós é construir, reconstruir, constatar para mudar, o que não se faz sem abertura ao risco e à aventura do espírito. [...]. Trechos extraídos da obra Pedagogia da esperança: um reencontro com a pedagogia do oprimido (Paz e Terra, 2000), do educador, pedagogista e filósofo Paulo Freire (1921-1997), que evidencia na obra Educação e mudança (Paz e Terra, 2014), que: [...] O saber se faz através de uma superação constante. O saber superado já é uma ignorância. Todo saber humano tem em si o testemunho do novo saber que já anuncia. Todo saber traz consigo sua própria superação. [...]. Veja mais aqui e aqui.

PARAÍSO NEGRO - [...] No marulho do mar, uma mulher negra como carvão está cantando. Junto a ela, uma mulher mais nova com a cabeça deitada em seu colo. Dedos estragados desfiam, cabelo castanho, cor de chá. Todas as cores de conchas, areia, rosa, pérola, fundem-se no rosto da mulher mais nova. Seus olhos cor de esmeralda adoram o rosto negro, emoldurado de azul-celeste. Em volta delas, na praia, detritos marítimos rebrilham. Tampas de garrafa cintilam ao lado de uma sandália quebrada. Um pequeno rádio quebrado toca o som das ondas. Nada pode vencer a consolação de que fala a cação de Piedade, embora as palavras evoquem memórias que não são de nenhuma das duas: de envelhecer na companhia de outrem, de palavras partilhadas e pão dividido fumegando no Forno, da plenitude ambivalente de voltar para casa para estar em casa, da simplicidade de retornar para o amor iniciado. Quando o oceano oscila, enviando ritmos de água para a praia, Piedade olha para ver o que veio. Mais um navio, talvez, mais diferente, indo para um ponto, tripulação e passageiros, perdidos e salvos, trementes, pois estão desconsolados há algum tempo. Agora, repousarão antes de enfrentar o trabalho sem fim que foram criados para fazer aqui, no Paraíso. Trecho extraído do romance Paraíso (Companhia das Letras, 1999), da escritora estadunidense e ganhadora do Prêmio Nobel de Literatura de 1993, Toni Morrison. Veja mais aqui.

LE FANTÔME DE LA LIBERTÉ – [...] Em o Fantasma da Liberdade, a própria narrativa inicial não surge espontaneamente, já que introduzida ou ligada a um fato histórico: a invasão da Espanha pelas tropas napoleônicas e sua estada e tropelias praticadas em Toledo, em 1812. Feito que, naturalmente, nada tem a ver com a trama fílmica, mas, que, significativamente, é referido no encerramento do filme como parábola da permanente (e até quando?) violência humana. O sinete inconfundível de Buñuel configura-se não só na engenhosidade dessa construção caleidoscópica, mas, principalmente, na elaboração e condução de cada caso. Nada limita imaginação formada ao influxo do anti-convencionalismo surrealista e batizada pelas preocupações e virtualidades inicialmente enumeradas. A surpresa, o insólito, o nonsense e o exato oposto do habitual e do costumeiro se estabelecem, dominam e medeiam as narrativas. O que se tem, então, é o avesso das coisas dirigido com mestria e informado ou formado por acerba visão critica do comportamento humano. Não da condição humana, que não está em causa. Condicionado por atitude otimista, que, apesar e além de tudo, ainda acredita na espécie humana (daí a ternura ou pelo menos a objetividade com que conduz as personagens), concentra Buñuel seu enfoque ou incisão no modo de agir, no convencional e na hipocrisia do ser humano in societas, no seu interrelacionamento social, mesmo que muito dessa performance origine-se ou seja característica congênita dessa condução. Trecho de O fantasma da liberdade: o avesso das coisas, extraído da obra O cinema de Buñuel, Kurosawa e Visconti: ensaios de crítica cinematográfica (Dimensões, 2013), do advogado e escritor Guido Bilharinho, editor da revista internacional de poesia e autor de livros de Literatura, Cinema e História do Brasil e Regional, sobre a obra O Fantasma da Liberdade (Le Fantôme de la liberté, 1974), do cineasta espanhol Luís Buñuel (1900-1983). Veja mais aqui e aqui. Veja também a Revista Dimensão aqui.

A ARTE DE ADRIANA ASTI
A arte da atriz italiana de teatro, cinema e voz Adriana Asti.

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A mulher da sombrinha aqui.
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OS MOTES GLOSADOS DE MANOEL BENTEVI
Da bobina para o distribuidor
Há um cabo que passa uma centelha clara.
Meto o pé no arranco, ele dispara.
Toda vez que acelero meu motor,
O combustível entra no carburador.
A entrada de ar transforma o gás.
Com a compressão que ele faz,
Forma o jato, o êmbolo vai subindo
Vai queimar na cabeça do cilindro,
A fumaça da gasolina sai por trás.
(Mote: Toda vez que acelero meu motor, a fumaça da gasolina sai por trás)
O meu carro caiu numa rieira,
Era larga, atolava e era funda.
Passei de primeira pra segunda,
E passei de segunda pra primeira.
A buzina do carro era uma campa.
O radiador esquentou, saltou a tampa.
Vi o abismo e fiquei atarantado.
O ajudante pulou e gritou de lado:
Abra o olho, chofer, agora é rampa!
(Mote: Abra o olho, chofer, agora é rampa!)
Poemas extraídos da obra Desmanchando o nordeste em poesia (Bagaço, 1986),
do poeta popular Manoel Bentevi. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da escultura Adriana Janacópulos (1897-1978).
Veja mais aqui.

sexta-feira, maio 13, 2016

WALTER BENJAMIN, LIMA BARRETO, GUIOMAR NOVAES, SLAUGHTER, SERPIERI, SARA VIEIRA, PEDRO SANZ & VERA PANCS


E NUM É QUE A VERA TODA-TUDA VIROU A BRUXA DAS PANCS NA BOCA DO POVO (Imagem: arte do escritor de quadrinhos e ilustrador italiano Paolo Serpieri)- eita, minha gente! Num é que é o maior teitei de conversada, boataria e fofocagem sobre como é que é que a Vera faz pra manter aquele corpão com tudo em cima, mesmo tendo já passado dos trinta. Balzaquiana, aquela? Nunca, nunquinha. Ela já está na casa dos quarenta, uma loba enxutíssima. Que nada, ela é mais velha que a Serra da Prata, já passou dos cinquenta e muito! É uma velha bem gostosona, né, não?! Oxe, não há marmanjo da língua solta, nem linguaruda fofoqueira profissional que não faça uma roda e bote o nome da Vera no meio. Inda ontem mesmo eu soube que numa dessa sexta feira treze passada, ela estava meia noite em ponto, nuínha da silva numa encruzilhada, fazendo a Oração da Cabra Preta para um pacto com o cabrunco, de ficar eternamente jovem e rebucolosa para todo o sempre amém. Nossa! Será o Feliciano? Isso é um vitupério! Que coisa! Ah, você não sabe da maior! Neguinho bebeu no ouvido de outro que ela fazia parte duma sociedade esotérica dum povo que vive no centro da Terra. Como é, rapaz? Num diga, mulher! E que ela, às escondidas, fez uma viagem lá pro toitiço do mundo e encontrou a Pedra Filosofal que lhe deu o Elixir da Vida, a eterna juventude. Santa Filomena da Judiação de Jesus! Isso é coisa que se faça? Benzodeus! Que nada! Ela se associou foi com uma catimbozeira afamada de Cachoeira de São Félix, uma linha de azeite que bate bombo meio dia em ponto de descer o coisa ruim pra ficar formosa pro resto da vida! Valha-me, meu santo! Vai que o DuCunha sabe dum negócio desse! A coisa empreta do dia pra noite de num se ver futuro de salvação alguma! Sangue de Cristo tem poder! Nada disso, a Vera é uma bruxa mesmo! Tome nota! Digo e assevero, é uma daquelas que tem um caldeirão do tamanho do mundo no meio da casa! É mesmo? Num conta! E que toda noite, antes de dormir, pra não ficar uma velha feiosa como as feiticeiras todas, faz um ritual com meio mundo de coisa, pro feitiço deixá-la sempre jeitosona como é. Ave, Maria! Isso não é coisa certa não! Virgem santa! Isso desde do dia que ela descobriu umas Pancs. Oxente! E ela é achegada a essas músicas estrambólica de doido sujo e fedorento, é? Ela parece tão limpinha, toda perfumada! Não é punk, não, sua besta! Tô falando é de Pancs – Plantas Alimentícias Não Convencionais. Que droga é nove? Pronto! Que bicho é esse, hem? Ah, mô fio, ela tem lá um livrão que é um guia escrito por uns gringos de não sei de onde que gota que é, que tem umas plantas, flores, folhas, frutos, cascos, raízes, resinas, ervas, hortaliças, arbustos, uma tranqueira só que mais parece a boba torreiro de tanto mato, que ela descobriu duma raizeira que só vive pelos quintais, brejos, pastos e matas virgens! Virge, será a caipora? Vai ver tem coisa com o saci-pererê e essas coisas de abusão, né não? E a dona lá dos pau e pé de coisas se diz amiga duma tal de Mona Caron que traz umas porqueiras lá do túmulo dum tal de Tutancamon no Egito antigo, e que ela chama de Herbalismo. Danou-se! Que peste é isso, hem? Sei lá! Só seio que dizem que tem perfume, sabor e propriedades medicinais com poderes curativos tirados dos odores celestes em aromas para agradar e apaziguar os deuses. Pronto, agora deu a Besta Fubana! Isso é o fim do mundo, minha véia! Num estranhe não que é tudo na base das essências, extratos, emplastros, óleos, tinturas, unguentos, infusões, cocções, geleia, bálsamos, maceração, linimentos, óleos, vinagres, xaropes, sinapismos, eita! E que previvem males e curam até o mal da cega-Dedé! Virgem em cruz! Cruz-credo! Ela tem mesmo partes com o malquisto, é? Se tem? Deus tape lá suas ouças! Se avie, mulher, prela virar a tiazona, solteirona e toda tuda de boazona, queria que fosse o que? Milagre é que não é, né? Fé em Deus! Se uma coisa num tiver partes com as coisas lá do mandão do inferno, eu cegue! É mesmo, se num for num sei nem o que é que diga, ora! Deus, meu pai! Isso é o apocalipse do sétimo livro! Pois é, ela só vive pra cima e pra baixo com manjericão, hortelã-pimenta, erva-doce, ruibarbo, taioba, urtiga, espinheiro, Ora-pro-nóbis, bertalha, serralha, beldroega, hibisco, dente-de-leão, jacatupé, esses brebotes todos que não se sabe que serventia é que tem! Só pode ser catimbó dos pesados! Oxe, xangô dos brabos! E ela vive só de banhos, chás, garrafadas, infusões, sucos, gargarejos, queimando insenso e falando lá umas coisas na língua dos do outro mundo! Quem já se viu uma coisa dessa? Não tem outra: é coisa de bruxaria daquelas de atacar o povo de noite quando estiver dormindo, né não? Ah, se é! Só pode ser! Minha avó que falava que toda doença tem remédio nas raízes de pau, casco de árvore, essas coisas. Quem acredita nisso! Isso é coisa de despacho! Os índios que usam disso! Tá doido!?! Uma vez eu vi mesmo minha avo curar gente de coisas das piores doenças benzendo com pé-de-planta. Destá. E ainda acredita nisso? Eu vi com meus próprios olhos, ora! Conversa pra boi dormir! Meu avô também batia o pé que esses remédios de médico não curam, só viciam. Pronto, agora deu! É, esses medicamentos, segundo ele, quando resolve uma coisa, empiora noutra. Agora é que é, mesmo! Nem Jesus salva! É isso mesmo, ele dizia que esses cachetes só fazem enganar os bestas que vão pro hospital e só ficam felizes se sair de lá com uma receita pra farmácia. Ah, minha filha, se eu for num médico e ele não me passar remédio, sei logo que não presta. Médico bom é aquele que passa uma tuia de pomada, injeção e comprimido, só assim que se cura. Nada, onde já se viu? Ouvi de uma tia velha que remédio de mesmo só no laboratório da Natureza, in vitro, como dizem, sei lá, laboratório químico e alquímico da Mãe Natura. Isso é conversa de enrolão que vive de engalobar os abestalhados! Mas me diga cá uma coisa, que a Vera tem coisa por debaixo dos panos do brabo pra se manter toda frochosa o tempo todo, ah, isso tem. Só sendo bruxa das perigosas pra se manter toda tuda em riba de todo mundo. Ah, se num tem! Destá. E vamos aprumar a conversa & tataritaritatá. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui e aqui.

Imagem: a arte da artista plástica Sara Vieira.

Curtindo o livro com dois cds Guiomar Novaes do Brasil (Kapa, 2011), dos jornalistas Luciana Medeiros e João Luiz Sampaio, contando a trajetória da pianista brasileira em New York.

PESQUISA
Marxismo, ideologia e literatura (Zahar, 1983), do escritor britânico e professor de Sociologia da Universidade de Bradford, Inglaterra, Cliff Slaughter. Veja mais aqui.

LEITURA 
Os Bruzundangas (Jacinto Ribeiro/Brasiliense, 1922), do escritor Lima Barreto (1881-1922). Veja mais aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA:
[...] Quem quer que tenha saído vitorioso tem participado, até hoje, do desfile triunfal em que os atuais governantes pisam sobre os que jazem prostrados. De acordo com a prática tradicional, os despojos são carregados no desfile. São chamados de tesouros culturais, e o materialista histórico os vê com uma distância cautelosa. Pois, sem exceção, os tesouros culturais têm uma origem que ele não pode ver sem horror. Devem sua existência não só aos esforços dos grandes espíritos e talentos que os criaram, mas também ao trabalho anônimo de seus contemporâneos. Não há documento da civilização que não seja ao mesmo tempo um documento de barbárie. E tal como esse documento não está livre de barbárie, a barbárie mancha igualmente a maneira pela qual foi transmitido de um dono e outro. O materialista histórico dissocia-se, portanto, dele, na medida do possível. Ele acha que sua tarefa é examinar a história contrariando as inclinaçõeos predominantes.
Extraído da VII Tese, da obra Illuminations: Essays and Reflection (Jonathan Cape, 1970), do filosofo alemão Walter Benjamin (1892-1940). Veja mais aqui, aqui e aqui.

Veja mais Pais, Filhos & Família, Friedrich Schiller, Lima Barreto, Raimundo Correia, Murilo Mendes, Nelson Pereira dos Santos, Stevie Wonder, Ana Maria Magalhães, Martha Graham, Georges Braque & Denis de Rougemont aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
 Nude in Orange, do pintor espanhol Pedro Sanz.
Veja mais aqui, aqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Recital Musical Tataritaritatá
Veja aqui.

DIDI-HUBERMAN, LINDA DEANE, ADALYN GRACE & MARINÊS

    Imagem: Acervo ArtLAM .   Das loas & toadas no cavalo-marinho... - O afamado artesão Tirésia já nasceu assim: cego e vaticinado...