quinta-feira, setembro 27, 2018

HILDA DOOLITTLE, LAFCADIO HEARN, SILVIANE BELLATO, IBERÊ, WALTER BENJAMIN, DANIELLE CARCAV & ANCLOTINATO


POR ONDE ANDA ANCLOTINATO? – Imagem: arte da artista visual Danielle Carcav. – Daquele dia em diante nada dava certo para Anclotinato, o que fizesse só dava errado. Como é que pode? A chaleira esquentando no fogão, foi pegar o bule e o pipoco deixou-lo todo cheio de queimadura: Rapaz, a coisa estava quente mesmo! Ao fechar a porta do que fosse, esquecia o dedo machucado: careta medonha abanando a mão dolorida. Calçava o sapato sem se lembrar do calo no calcanhar: Vôte, parece mais que o calçado enconlheu, ora! Fechando o zíper da calça, prendia a piroca por ais e uis: Agora, casar já era! Fazendo a barba, cortava-se todo, haja talhos e esparadrapos na fisionomia, todo remendado: Será a múmia dum faraó fuleiro? Se ía sair de casa em dia ensolarado, logo trovejava de cair temporal: pegava o guarda-chuva, agasalhava-se todo, dava uns dois ou três passos, o Sol abria o quenturão. Se estava disposto a resolver problemas pendentes, tudo se enganchava: Foi mesmo? Findava com cara de anteontem sem entender direito o que havia acontecido. Perseverante, inventou de arrumar uma namorada, todo embecado de ficar nos trinques. Ao se aproximar dela: Que perfume catingoso esse seu, hem? Caríssimo, mandei buscar nos estrangeiros. Pois pra mim, fede da pior inhaca! Vixe! Outra reclamou do seu bafo: Mas eu escovo os dentes seis vezes ao dia! Deve ser com bosta, só sendo. Danou-se. Uma terceira o achou muito feio, aí não teve jeito: jurou que morreria solteiro. Para ele tudo passa e indo para uma festa, se o traje era a rigor, chegava a passeio, ou vice-versa: Você não leu o convite? Que convite? Ah, penetra, pra boca de ponche aqui só tem barrada na cara, viu? Saía se rindo: Ué, vai que cola! Na fila de um banco, chegasse a sua vez, tudo saía do ar, só no outro dia: Como é que pode, três horas na fila? Guichê encerrado – os outros também, fazer o quê? Ao pagar em dia, o código de barras estava errado: Como assim? Não passou na máquina, resultado: só pagava atrasado. Eita, tiborna! Dia de pagamento, saía remuneração de todo mundo, menos a dele: E é? É. Ao pegar condução, estava entupido de ficar esperando a próxima: Tem nada não, ainda volto pra casa um dia. No metrô, ficava pra trás. Cansado da embromação do transporte público, resolveu comprar um automóvel para não perder o ponto: se não ficasse empancado num engarrafamento o dia inteiro, restava retido numa blitz policial: só pra resolver os documentos e pagar as multas, três dias. Emprego que era bom, não tinha mais, nem que quisesse. Resolveu pela informalidade, profissional autônomo e trocou o carro por uma motocicleta: se não levasse trancas de findar desmantelado num hospital, aparecia o dono do alheio que a levava de deixá-lo a pé: Num é que levaram mesmo? Pois é. Optou por uma bicicleta: quando não era a corrente enganchando entre a catraca e a coroa, dele se esborrachar relando a venta no chão, era a ausência de faixa de ciclista dele ficar feito num mata-burro. Dá não. Fazer meu próprio negócio em casa mesmo. Anúncios e faixas, ninguém aparecia: Vai ver que estou sendo engalobado de novo. Jogava na loteria, acertava os números do concurso anterior: Hem, hem, devia de ter jogado na semana passada, num era? Pronto para vencer no bingo, passava batido: Ah, foi? Se vestia uma roupa limpa e ia caminhar, findava melado de lama – não se livrava nunca dos pneus nas poças. Na hora do voto, errava o número do candidato escolhido: Esqueci o número do fidapeste! No café da manhã, a comida já vinha queimada; no almoço, tudo passado; jantava qualquer coisa para enganar o bucho: Do jeito que vai, findo morrendo de fome. Pra visitar a família ia a pé, porque ou o ônibus ou o trem atrasavam de deixá-lo secando os cambitos o dia todo: Será o Benedito? Taxado de pé frio, não tinha amigos, parentes nem aderentes, todos diziam: O cara é um azarão. Vai que a sorte dele vira pro lado da gente, maior urucubaca, meu! E ele só rindo. Sozinho para onde fosse, resolveu não fazer nada na vida: se faço, dá tudo errado; não vou fazer nada para ver o que acontece. E aconteceu: da primeira vez, um raio acertou-lhe o cocoruto, quase lhe tosta a alma numa enfermaria por quase seis meses; da segunda, não teve jeito, findou torrado de nunca mais ninguém se lembrar dele. Coitado, ainda dizem que raio não cai duas vezes no mesmo lugar, ora, ora. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música da diva da ópera brasileira, a soprano lírico spinto Silviane Bellato: Lo Schiavo de Carlos Gomes, Nel di dela vittoria – Machbeth, Pace Pace Mio Dio – La Forza del Destino & Tosca de Puccini & muito mais nos mais de 2 milhões & 600 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja a entrevista dela aqui & mais dela aqui e aqui.

DITOS & DESDITOS – [...] Nós somos como tartarugas, carregamos a casa. Essa casa são as lembranças. Nós não poderíamos testemunhar o hoje se não tivéssemos por dentro o ontem porque seríamos uns tolos a olhar as coisas como recém-nascidos, como sacos vazios. Nós só podemos ver as coisas com clareza e nitidez porque temos um passado. E o passado se coloca para ajudar a ver e compreender o momento que estamos vivendo. [...]. Extraído da obra Gaveta de guardados (Edusp, 1998), do pintor Iberê Camargo (1914-1994). Veja mais aqui e aqui.

PASSAGENS - [...] o alegorista pega uma peça aqui e ali do depósito desordenado que seu saber põe à sua disposição, coloca-a ao lado de uma e outra e tenta ver se ambas combinam: aquele significado para essa imagem ou esta imagem para aquele significado. O resultado nunca pode ser previsto, pois não existe uma mediação natural entre os dois. Dá-se o mesmo com a mercadoria e o preço. [...] Nunca se poderá saber ao certo por que tal mercadoria tem tal preço, nem no curso de sua fabricação, nem mais tarde quando ela se encontra no mercado. Ocorre exatamente o mesmo com o objeto em sua existência alegórica. Nenhuma fada determinou em seu nascimento qual significado que lhe atribuirá a meditação absorta do alegorista. Porém, uma vez adquirido tal significado, este pode ser substituído por outro a qualquer momento. [...] De fato, o significado da mercadoria é seu preço; como mercadoria, ela não possui outro significado. Por isso o alegorista está em seu elemento com a mercadoria  [...] Tornar cultiváveis regiões onde até agora viceja apenas a loucura. Avançar com o machado afiado da razão, sem olhar nem para a direita nem para a esquerda, para não sucumbir ao horror que acena das profundezas da selva. Todo solo deve alguma vez ter sido revolvido pela razão, carpido do desvario e do mito. É o que deve ser realizado aqui [...] nada a dizer. Somente a mostrar. Não surrupiarei coisas valiosas, nem me apropriarei de formulações espirituosas. Porém, os farrapos, os resíduos: não quero inventariá-los, e sim fazer-lhes justiça da única maneira possível: utilizando-os [...]. Trechos extraídos da obra Passagens (UFMG/IOESP, 2009), do filósofo, ensaísta e critico literário alemão Walter Benjamin (1892-1940). Veja mais aqui e aqui.

UMA PROMESSA QUEBRADA – [...] — Eu não tenho medo de morrer – disse a esposa agonizante —; só há uma coisa que me inquieta neste momento. Gostaria de poder conhecer quem tomará meu lugar nesta casa. — Minha querida — respondeu o marido desolado —, ninguém jamais tomará seu lugar em minha casa. Nunca mais me casarei. No instante em que disse isso, ele falava do fundo de seu coração, pois amava a mulher que estava prestes a perder. — Palavra de samurai? — indagou a esposa, com um débil sorriso nos lábios. — Palavra de samurai — respondeu ele, acariciando seu rosto pálido e magro. — Então, meu querido — disse ela —, você deixará que eu seja enterrada no jardim, próxima daquelas ameixeiras que plantamos lá no fundo? Faz muito tempo que eu queria pedir isso, mas achei que, caso você se casasse novamente, não ia querer meu túmulo tão perto. Agora, você prometeu que nenhuma outra mulher tomará meu lugar, e não preciso mais hesitar em pedi- lo… Eu quero tanto ser enterrada no jardim! Acho que, no jardim, poderei ouvir sua voz de vez em quando e serei capaz de ver as flores na primavera. — Sua vontade será feita — anuiu o esposo. — Mas não fale de enterro: você não está tão doente a ponto de termos perdido toda a esperança. — Eu perdi — retrucou ela —, vou morrer hoje de manhã… Mas você me enterrará no jardim? — Enterrarei — disse ele —, sob a sombra das ameixeiras que plantamos; e você terá um belo túmulo. — E você me dará um pequeno sino? — Um sino? — Sim… Quero que ponha um sino dentro do caixão, um daqueles pequenos sinos que os peregrinos budistas carregam. Posso ter um igual? — Você terá seu sino e o que mais desejar.— Não desejo mais nada — disse ela. — Meu querido, você sempre foi muito bom para mim. Agora posso morrer feliz. Em seguida, ela fechou os olhos e morreu serenamente como uma criança sonolenta que adormecesse. Estava linda quando morreu; e havia um sorriso no seu rosto. Ela foi sepultada no jardim, sob a sombra das árvores que amava; e um pequeno sino foi enterrado com ela. Sobre o túmulo foi erguida uma linda lápide decorada com o brasão da família, com o kaimyo: “Grande Irmã Anciã. Sombra-Luminosa-da-Flor-da-Ameixeira, que reside na Mansão do Grande Mar da Compaixão.” [...] Todavia, 12 meses após o falecimento de sua esposa, os parentes e os amigos do samurai começaram a insistir que ele deveria se casar de novo. “Você ainda é jovem”, disseram, “filho único e sem filhos. É o dever de um samurai se casar. Se você morrer sem deixar filhos, quem estará aqui para fazer as oferendas e recordar seus ancestrais?” Depois de tanta insistência, ele foi enfim persuadido a casar-se novamente. A esposa tinha apenas 17 anos; e ele achou que poderia amá-la ternamente, não obstante a muda repreensão da sepultura no jardim. [...]. Trecho da obra do escritor japonês Lafcadio Hearn (1850-1904).

DOIS POEMAS - EM BAIA: Eu devia ter previsto / que num sonho você teria trazido / alguma coisa adorável, perigosa, / orquídeas empilhadas num belo estojo, / como alguém diria (num sonho), / “Eu lhe envio isto, / alguém que deixou as veias azuis / da sua garganta imbeijada.” / Por que foi que suas mãos / (que nunca tomaram as minhas), / suas mãos que eu pude ver / vagar em pétalas de orquídeas / com tanto cuidado, / suas mãos, tão frágeis, prontas para levantar, / tão gentilmente, a essência frágil da flor  / – ah, ah, como foi isso / Você nunca enviou (num sonho) / a mesma forma, o mesmo cheiro,/ não denso, não libidinoso, / mas perigoso — perigoso — / das orquídeas, empilhadas num belo estojo / e dobradas sob um brilhante pergaminho, / algumas palavras: / “Flor enviada para flor; / para alvas mãos, a menos alva, / menos adorável das folhas de flor,”  / ou / “De amante para amante, sem beijo, / sem toque, mas para todo o sempre assim.” OS QUE DORMEM AO VENTO: Brancos / mais que a crosta / que a maré arrasta, / ardem-nos a areia revirada / e as conchas partidas. / Não dormimos mais / ao vento / — / despertamos, fugindo / ao portão da cidade. / Arranquem — / arranquem um altar pra nós, / puxem os rochedos, / empilhem-nos com pedras brutas — / não dormimos / mais ao vento, / propiciem-nos. / Entoem um ululuar / que nunca cessa, / tracem um círculo e homenageiem / com uma canção. / Quando o rugir da vaga em queda / a interromper, / jorre medido o verbo / de águias-marinhas e gaivotas / e aves marinhas clamando / discórdias. Poemas da poeta estadunidense Hilda Doolittle (1886-1961).

A ARTE DE DANIELLE CARCAV
A arte da artista visual Danielle Carcav.

AGENDA
Seminário de Antropologia Indígena em Pernambuco -10 e 11 de outubro, PPGA Programa de Pós-Graduação em Antropologia - UFPE, organizado e realizado pelo Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Etnicidade (NEPE) & muito mais na Agenda aqui.
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Dois tempos de Anclotinato aqui & aqui.
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Lá vai Tomé escapando das suas, Jiddu Krishnamurti, Rainer Maria Rilke, Boaventura de Sousa Santos, Ladislau Dowbor, Alberto da Cunha Melo, Anselm Kiefer, Biblioteca Fenelon Barreto & Paulo Profeta, Peter Gabriel, Tatjana Vassiljeva, Edson Zampronha & Karyme Hass aqui.


EMMA LAZARUS, NADINE GORDIMER, LAGERLÖF, YOURCENAR & JOAN RODRIGUEZ

    Ao som de Pavane por une infante défunte (1899), de Maurice Ravel , com a Orchestre National de France, sob a regência da maestrina fin...