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terça-feira, maio 16, 2017

O LABIRINTO DE GARCÍA MARQUEZ, A ESCOLA DE RUI CANÁRIO & A ESCULTURA DE GÉRÔME

DOS LABIRINTOS QUE BROTAM DE SI PRA VIDA - Quantos labirintos nascem em cada um e se insinua na vida pelas ruas pra onde ir das esquinas, becos, travessas, transversais com seus intricados percursos que dão nas rodovias das estradas sem fim e que se perdem dentro de si e feito Teseu desorientado com a emergência de zis minotauros aos tantos dédalos nas horas e o que fazer entre manhãs e tardes do dia, até sem saber escuridão da noite com todos os gatos que são pardos e equivoca com o que não vê nem prevê a luz plena da compreensão dos pensamentos e ações das complicações paradoxais de ter ido tão longe e perceber que não saiu de lugar algum, como se devaneio fosse aflorando das ideias aos turbilhões das escolhas, qual opção certa e o erro à espreita pras quedas e abissais calamidades que nada mais são que decepções pelo que foi feito em nome do que era correto na esdrúxula convicção e o desapontamento de não ter ido quando deveria chegar junto, despojado do orgulho que impedia sempre de se sentir o mais humano entre humanos e do que era ou sempre foi às vezes do ser e não ser isso ou aquilo, dependendo da conveniência de se esconder de si como se fosse outro, máscaras que se justapõem aos montes e carapuças que se ajustam ao alter ego na confusão do vai não vai, ainda é cedo, já é tarde, e a coragem pros desafios de seguir em frente sem saber ao certo se vale a pena e os desaforos pra prosseguir resiliente contra tudo e todos os embaraços para debater-se aos prantos à constatação do quão ludibriado em suas crenças e certezas ao esbarrar com a Esfinge com os enigmas da existência e seus enredos pro desengano pela sedução de todas as sereias voluptuosas com os acenos das promessas de fortunas e venturas e no fim da meada olhar pra trás e vê-se ao cúmulo do arrependimento por todos os castelos de areia erguidos na faina do progresso, esfacelados aos ventos do seu próprio deserto entre os dedos e no fim da picada ter de ir contra a vontade pela obrigação do compromisso assumido, a enveredar naquilo que não tem o menor domínio, só pelo simples intento de fazer diferente, quem sabe dá certo, vai que cola nas coxas e atira no que viu acertando no que sequer sabia existir a se jogar à deriva das condições ao sabor das ondas rumo ao incerto, naquela do pior que está não pode ficar, e chegar ao fundo do poço enganando a si mesmo uma vitória jactanciosa só por se arvorar a dar volta por cima no lamaçal da integridade, teimando com arrazoados infrutíferos como se tivesse uma carrada de razões para se manter casmurro a qualquer custo, laureado por nenhum prêmio além da vaidade, girando o mundo na órbita do umbigo só por capricho da insensatez na incoerência das alucinações, sem dar conta dos sobressaltos e o frio na barriga, pálido do inesperado, deprimido por resultados adversos e situações aversivas constantes, pronde tu vai? E a cavilação ignota no sinal fechado às cabeçadas e falando sozinho altas horas da noite, regurgitando mágoas, ruminando frustrações remoídas na hibernação solitária, cadê estômago pros batráquios indigestos, quantas caras e bocas pra disfarçar o nocaute com o chute nos testículos inchados, oh não, arriado na porta com a placa avisando não entre, propriedade privada, cão raivoso e sujeito a pipocos de bala a granel pela vigilância indômita para aplacar qualquer invasão, pronde tu vai? Quanta gente infeliz há milênios brigam e rastejam para manter posição e ganhos em detrimento de paz e espiritualidade, a culpa lavando choro na pia, personas no palco da vida, se assunte e tome tento: a vida não é qualquer coisa. © Luiz Alberto Machado. Veja mais aqui.

O GENERAL EM SEU LABIRINTO
[...] Examinou o aposento com a clarividência de quem chega ao fim, e pela primeira vez viu a verdade: a última cama emprestada, o toucador lastimável cujo turvo espelho de paciência não o tornaria a refletir, o jarro d'água de porcelana descascada, a toalha e o sabonete para outras mãos, a pressa sem coração do relógio octogonal desenfreado para o encontro inelutável de 17 de dezembro, à uma hora e sete minutos de sua tarde final. Então cruzou os braços contra o peito e começou a ouvir as vozes radiosas dos escravos cantando a salve-rainha das seis nos trapiches, e avistou no céu pela janela o diamante de Vênus que ia embora para sempre, as neves eternas, a trepadeira nova cujas campânulas amarelas não veria florescer no sábado seguinte na casa fechada pelo luto, os últimos fulgores da vida que nunca mais, pelos séculos dos séculos, tornaria a se repetir.
Trecho extraído da obra O general em seu labirinto (Record, 2000), do escritor, jornalista e ativista político colombiano Prêmio Nobel de Literatura de 1982, Gabriel García Marquez (1927-2014), retratando os últimos dias do General Simón Bolívar – O Libertador. Veja mais aqui.

Veja mais sobre:
História Universal da Temerança, La Divina Increnca de Juó Bananére, Savarasti, Ator e estranhamento de Eraldo Pera Rizzo, a música de Mônica Feijó, a poesia de Colombina, a pintura de Alfred Pellan & Kellie Day aqui.

E mais:
Vamos aprumar a conversa, a poesia de Mario Quintana, a música de Iancu Dumitrescu, o ativismo anarquista de Maria Lacerda de Moura, Toda América de Ronald de Carvalho, Aventuras galantes de Rabelais, Pele de lobo de Artur Azevedo, o cinema de Mario Monicelli & Faith Minton, a pintura de Alfred Pellan & Pierre-Paul Prud'Hon aqui.
Do individualismo ao umbigocentrismo, o pensamento de Gianni Vattimo, A mulher no Diário de um sedutor de Kierkegaard, O poema do haxixe de Baudelaire, Tribo Ik, Antípodas Tropicais de Adriano Nunes aqui.
As delícias do pomar dela, Abre-te Sésamo: Monstesquieu, Declaração de amor de Michael Moore, Imprensa Brasileira & Big Shit Bôbras: o Big Bode aqui.
Princípios de retórica aqui.
A educação na sociologia de Max Weber aqui.
Quem desiste jamais saberá o gosto de qualquer vitória, A ciência da linguagem de Roman Jakobson, Caminhos de Swan de Marcel Proust, a música de Secos & Molhados & Luiza Possi, a pintura de Henry Asencio, a fotografia de Thomas Karsten, a arte de Regina José Galindo & Tortura é crime aqui.
Tudo em mim, mestiço sou, O povo brasileiro de Darcy Ribeiro, A história da vida de Helen Keller, O anarquismo de Emma Goldman. a música de Guilhermina Suggia, Viviane Madu & Os Fofos Encenam, a escultura de Luiz Morrone, a fotografia de Pisco Del Gaiso & a pintura de Martin Eder aqui.
Educação, professor-aluno, gestão escolar & neuroeducação, Livro dos sonhos de Jorge Luis Borges, Neurociência & Educação, Ciência psicológica de Michael Gazzaniga, a música de Ayako Yonetan, a fotografia de Anton Giulio Bragaglia, a pintura de Jean Metzinger & Anthony Gadd aqui.
Cantarau Tataritaritatá, a literatura de John dos Passos, O teatro pobre de Jerzy Grotowski, a música de Carlos Careqa, Estética teatral de José Oliveira Barata, a coreografia de Xavier Le Roy, a arte de Alex Mortensen & Vesselin Vassilev aqui.
Manchetes do dia: ataca o noticiário matinal, Folclore pernambucano de Pereira da Costa, Filosofia da Linguagem, Vinte vezes Cassiano Nunes, a música de Fabian Almazan, a coreografia de Doris Uhlich, a pintura de Nicolai Fechin & a arte de Roberto Prusso aqui.
Fecamepa: quando o Brasil dá uma demonstração de que deve mesmo ser levado a sério aqui.
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PROMESSAS E INCERTEZAS DA ESCOLA
[...] A de construir uma escola onde se aprenda pelo trabalho e não para o trabalho, contrariando a subordinação funcional da educação escolar à racionalidade econômica vigente. É na medida em que o aluno passa à condição de produtor que nos afastamos de uma concepção molecular e transmissiva da aprendizagem, evoluindo da repetição de informação para a produção de saber; a de fazer da escola um sítio onde se desenvolva e estimule o gosto pelo ato intelectual de aprender, cuja importância decorrerá do seu valor de uso para “ler” e intervir no mundo e não dos benefícios materiais ou simbólicos que promete no futuro; a de transformar a escola num sítio em que se ganha gosto pela política, isto é, onde se vive a democracia, onde se aprende a ser intolerante com as injustiças e a exercer o direito à palavra, usando- a para pensar o mundo e nele intervir. [...].
Trecho do artigo A escola: das “promessas” às “incertezas” (Unisinos, 2008), do professor catedrático e doutor em Ciências da Educação, Rui Canário, autor da obra A escola tem futuro? (Artmed, 2009), na qual o autor faz uma reflexão crítica acerca da necessidade de transformação da escola com base em planos fundamentais de pensar a escola a partir da educação não-escolar; caminhar no sentido de desalienar o trabalho escolar, para que o trabalho de aprender possa ser vivido como uma “obra” e transformar a educação, e em particular a escola, através de movimentos sociais. Veja mais aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
 A arte do pintor e escultor academicista francês Jean-Léon Gérôme (1824-1904)
Veja mais aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Paz na Terra: Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
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segunda-feira, abril 24, 2017

BACHELARD, ROGEL SAMUEL, GÉRÔME, WENDY ARNOLD, DE HOMENS, BICHOS & FERAS.


DE HOMENS, BICHOS & FERAS - Imagem: Diógenes (1860), do pintor e escultor academicista francês Jean-Léon Gérôme (1824-1904) - Ainda ontem eu vi o velho Diógenes com sua vigilância e inseparável lanterna pelas ruas de Sinope e alguém lhe perguntou: pra onde vai, mestre, com essa lanterna acesa em plena luz do dia? Procuro um homem com agá maiúsculo. Virou gay, mestre? Não, pra sua mãe, gafanhoto. Mestre! E retirou-se resmungando: melhor pedir esmolas às estátuas. Nesse contratempo, surge o ameaçador e poderoso Xandão Pistola, com sua cara de mi bordão a indagar do velho com ar de repreensão: o que espera do futuro, Diógenes? Para quem saiu do barril e só tem um alforje, um bastão e uma tigela, só espero que não me tire o que não me pode dar. Estranhou Xandão aquela resposta, só entendendo ao ser empurrado pro lado, retirando a sombra que fazia para que o idoso pudesse sentir a luz do Sol em sua pele. Prevendo a tragédia, o discípulo logo acorreu para apaziguar: Não ligue, senhor Xandão, o velho não anda bem da cabeça. Se eu não fosse Xandão, poderoso e rico, eu queria ser Diógenes, admiro a sua coragem. E saiu como uma nuvem negra que vai atemorizar outras paragens. Ao se virar, o discípulo flagra o mestre se masturbando diante da uma estátua nua em plena via pública: mestre, o que é que é isso? Que porra é essa, mestre? O senhor enlouqueceu? Indiferente, respondeu: que pena não se possa viver apenas esfregando a barriga. Mestre, isso é crime! Ah, gafanhoto, quanta gente-lesma se arrasta reprimida e desencorajada a se enojar dos seus próprios excrementos sem se envergonhar dos seus imundos roubos do que é dos outros e querem tudo só pra si; quanta gente-papagaio que é só tagarela repetindo o que bebeu na boca dos outros e se torna pior que as cantigas de grilo remoendo no juízo só pro engano que querem perpetuar; quanta gente-maribondo ferroando a paciência alheia a ensinar o que já se sabe e tirar de quem nada mais tem; quanta gente-cupim a corroer o erário público em nome de uma riqueza que diz ser de todos e que é só pro gozo de si mesmo; quanta gente-vagalume que precisa de luz e plateia para enganar a todos com seus pesadelos mais profundos e sua infelicidade na peçonha que faz todos serem infelizes; quanta gente sangue de barata que não passa de um bando de traiçoeiros tubarões wobbegong nas cruzetas dos sicários, a prear tudo pros seus latifúndios infindáveis; quanta gente-louva-a-deus que se julga a maior tropa de escolhidos dos céus para cometerem as maiores ignomínias em nome da fé e da moral; quanta gente-escorpião com seu rabo homicida a promover discórdias e confusões; quanta gente-lagartixa para servir de lambecus dos dominantes; quanta gente-caranguejo aprisionados por cordas invisíveis, cada qual puxando pra direções opostas na maior das confusões e equívocos; quanta gente-urubu pra se servir da carniça dos miseráveis corrompidos; quanta gente-abutre que abduzem desmiolados pra escravaria; quanta gente-serpente a destilar veneno pra desunião; quanta gente-pavão tão camaleônica a ponto de enganar a todos e a si mesmo; quanta gente-gambá que fede por dentro e por fora e se entope dos aromas para perfumar sua fedentina na luxuria da sociedade corrupta. O que pode ser pior, gafanhoto? Mas o senhor está colocando tudo num mesmo balaio, mestre, ricos e pobres? Não há onde cuspir na casa de um rico, senão na cara dele mesmo! Ah, mestre, existem pessoas boas no mundo! Não duvido, gafanhoto, só não encontro uma, só Fabos. Quem são esses, mestres? Fabricantes de bosta, só o que sabem fazer, comboio de patetas. Mestre! Um dia, os insetos que empestam a vida de todo mundo se reuniram protestado por serem presas dos seus predadores. O aniquilador respondeu: faço isso pra sobreviver e, ao mesmo tempo, aproveitou pra protestar a cadeia alimentar, porque apareceu o homem e fodeu com tudo, derrubando árvores, desmatando pra bagunçar com tudo, matando bichos e feras pra se alimentar e comerciar, escravizando o próprio humano pra se deliciar com a desgraça de tudo, Homo homini lúpus. Mestre, mestre... ah, gafanhoto, prefiro o meu barril que viver como todos: enrustidas lagartas que rastejam com a borboleta aprisionada, por completa falta de coragem de libertá-la, dias piores virão. © Luiz Alberto Machado. Veja mais aqui.

 O que acreditamos saber, claramente ofusca o que deveríamos saber.
Trecho da obra A formação do espírito científico (Contraponto, 1996), do filósofo, crítico literário e epistemólogo francês Gaston Bachelard (1884-1962). Veja mais aqui, aqui e aqui.
[...] Para que memorizar, se máquinas podem fazê-lo melhor e mais rapidamente do que nós? De que adianta conhecer um teorema ou uma receita, se podemos acessá-los facilmente na web? Mas será que devemos concluir que a sociedade da informação conduz a uma sociedade caracterizada pela amnésia e ignorância? Não. A pergunta “quem sabe?” só terá perdido a relevância se confundirmos informação com conhecimento [...] O conhecimento inclui dimensões sociais, ética e políticas que não podem ser reduzidas à tecnologia. Uma sociedade que fosse exclusivamente de informação seria um conjunto de enormes redes interligadas, eficazes e ágeis, mas que não iria produzir inovações [...] Sem o intercâmbio do conhecimento não podem existir avanços econômicos, científicos ou políticos de monta em nível local, regional ou global. A partilha equitativa do conhecimento será a origem da riqueza do amanhã.
Trecho do artigo Quem sabe (Tendências e Debates - Folha de São Paulo, 2003), do sociólogo alemão Jérôme Bindé e do filósofo francês Jean-Joseph Goux. Veja mais aqui.

Veja mais sobre:
Parece que foi ontem ser pai no aniversário da filha, a literatura de Erza Pound, Enterrem meu coração na curva de um rio de Dee Brown, a música de Percorso Ensemble & pintura de Fernand Khnof aqui.

E mais:
Infância, Imagem e Literatura: uma experiência psicossocial na comunidade do Jacaré – AL, a literatura de Ítalo Calvino, Mademoiselle Fifi de Guy de Maupassant, Mandrágora de Nicolau Maquiavel, Serge Gainsbourg & Jane Birkin, a música de Cole Porter, os Poemas de amor de Ivo Korytowski, a arte de Maria de Medeiros, a pintura de Odilon Redon & a coreografia da Quasar Cia de Dança aqui.
Ginofagia: quatro poemetos em prosa de paixão por ela & a pintura de Victoria Selbach aqui.
A arte musical de Ruthe London & outras dicas tataritaritatá aqui.
A honra dos sertões à morte, a literatura de Euclides da Cunha, O julgamento de Frineia, Amarcord de Federico Fellini, a música de Amedée Ernest Chausson, a pintura de Antonio Parreiras, a poesia de Ana Terra & Programa Tataritaritatá aqui.
A filosofia na alcova de Marquês de Sade, a necessidade neurótica do amor de Karen Horney, O tambor de Günter Grass, a música de Chico Buarque, o teatro de Maria Clara Machado, a pintura de Larry Vincent Garrison, a arte de Angela Winkler, a poesia de Luiz Edmundo Alves & o blog de Monica & Monique Justino aqui.
O caso Dora de Freud & Ida Bauer, Contos do Panchatantra, O amante de Marguerite Duras, o teatro de Molière, a música de Muddy Waters, o cinema de Jean-Jacques Annaud & Jane March, a pintura de Maurice de Vlaminck & a Deusa Cibele aqui.
A menstruação mental do Robimagaiver puto da vida, A realidade e os sonhos de Muriel Spark, O mundo da vida cotidiana de Peter L. Berger & Thomas Luckmann, A sociologia econômica de Mark Granovetter, a música de Han-Na Chang, a arte de Marina Abramović, a fotografia de Greg Gorman & Alfred Cheney aqui.
A correnteza do rio me ensinou a nadar, A flor azul de Penelope Fitzgerald, A juventude e as tecnologias de Beatriz Polivanov e Vinicius Andrade Pereira, Intereções e redes na sociedade de Denise Najmanovich & Elina Dabas, a música de Karlheinz Stockhausen & Suzanne Stephens, a arte de Yayoi Kusama & Robert Rauschenberg, a coreografia de Anita Berber, a arte de Otto Dix & Sue Halstenberg, Palmares & Rio Una aqui.
O amor todo dia e o dia todo, O homem ativo & o intelectual de Antonio Gramsci, a literatura de Samuel Rawet, A dialética do concreto de Karel Kosik, a música de Madeleine Peyroux, a fotografia de Rory Banwell, a arte de Luciah Lopez, a pintura de Serge Marshennikov & Amélia Toledo aqui.
Entre topadas e escorregões, eu insisto, persisto, resisto e até persevero, A poesia brasileira de Antonio Cândido, História de um louco amor de Horacio Quiroga, O espelho da alma de Marilena Chauí, a música de Catherine Ribeiro, a coreografia de Caralotta Ikeda, a pintura de Anders Zorn, a fotografia de Spencer Tunick & Maureen Bisilliat aqui.
Poesia não deu, só noutra, o pensamento de Friedrich Nietzsche, a literatura de Nadine Gordimer, A gaia ciência de José D 'Assunção Barros, a música de Dulce Pontes, a fotografia de Kharlos Cesar, a arte de Giovanna Casotto & Jeju Loveland aqui.
História da mulher: da antiguidade ao século XXI aqui.
Palestras: Psicologia, Direito & Educação aqui.
A croniqueta de antemão aqui.
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O AMANTE DAS AMAZONAS, DE ROGEL SAMUEL
[...] Quando a urutu pica, dói muito e incha a carne, que vai ficando escura e roxa, até o aparecimento da hemorragia e da morte. Já a picada da cascavel ataca o sistema nervoso central, a dor desaparece, a vista se perturba, vai ficando cega lentamente, começa a perder os movimentos do corpo, a princípio os dedos. Aí vêm dores na nuca, cada vez mais fortes, a paralisia vai subindo, a gente via ferver o progresso da morte, das extremidades para o centro, o corpo ficando rijo, duro, a morte vem pela rigidez viscosa, por asfixia, quando o diafragma enrijece. A morte vence o corpo, e a coral, obra de ourivesaria, é linda, vermelho-amarelo, cores vivas, e presas curtas, mas raramente pica. Mas não seja enganosa esta beleza, pois picando, mata. Mas pior de todas é a surucucu, grande, agressiva, forte e que, ao contrário das outras, vem e ataca. Tem muito veneno e permanece na tocaia das margens escuras de rios e lagos [...].
Trecho do romance O amante das amazonas (Itatiaia, 2005), do escritor, professor doutor em Letras, webjornalista e colunista cultural, Rogel Samuel, que edita o blog Literatura e foi entrevistado por mim no Guia de Poesia – O referencial Humano. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
AArte da artista plástica neozelandeza Wendy Arnold.
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CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
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domingo, janeiro 24, 2016

A MULHER NOS PRIMÓRDIOS DA HUMANIDADE, WOOLF, ENGELS, WHARTON, POLYDOURI, SAINKHO, FECAMEPA, HANNA CANTORA & MUITO MAIS!!!!!



TODO DIA É DIA DA MULHER: A MULHER NOS PRIMÓRDIOS DA HUMANIDADE – Resultante da revisão da literatura efetuada em meus estudos, foi possível visualizar que nos primórdios da humanidade, o papel da mulher estava definido dentro de uma particularidade: elas eram consideradas como um recurso financeiro e tratada pelos homens das formas tribais mais remotas do planeta, como um animal ou pedaço de terra adquirido. Ela detinha, portanto, uma condição de submissa e subalterna desde as mais remotas eras. Contudo, identificam-se outras diferentes formas de relações entre determinados povos, como os egípcios, os gregos e os judeus. No Egito antigo, por exemplo, havia uma relação de igualdade entre homens e mulheres, tendo ela atuação no comercio, na indústria, na medicina e nas lides do campo. Entre os gregos, todavia, devida a predominância e prazer masculino, além da concorrência dos escravos, a mulher já se encontrava humilhada, escravizada, degradada, sendo, pois, considerada instrumento para simples reprodução. Exemplo disso era o tratamento dispensado pelos espartanos que entendiam a mulher apenas como responsável por uma raça forte, concebendo filhos sadios e belos, sendo obrigadas a educá-los. Já os atenienses dividiam as mulheres em classes, mantendo a esposa legítima quase em clausura e instruindo as que se destinavam às cortesãs. Entre o universo judeu, a mulher detinha uma posição de absoluta inferioridade em relação ao homem, em conformidade com a lei mosaica. Tem-se, com isso, que a opressão sofrida pela mulher é resultado das transformações ocorridas nas relações humanas desde as primeiras sociedades que se conhece, ocorrendo momentos no final da Antiguidade, em que ela era colocada em situações de superioridade e que, em muitas culturas, a mulher era vista como um ser especialmente capaz de realizar certos encantamentos e receber favores das divindades. (Luiz Alberto Machado).

                                                                   PICADINHO
Imagem: The Harem Bathing, do pintor e escultor academicista francês Jean-Léon Gérôme (1824-1904). Veja mais aqui e aqui.
Curtindo o álbum Terra (Leo Records, 2010), da cantora de Tuva na república autônoma da Federação da Rússia a norte da Mongólia, Sainkho Namtchylak.

EPÍGRAFE - COMO CONSTATADO NO FECAMEPA: TUDO NO BRASIL É UM PARTO DA MONTANHA – A expressão “parto da montanha”, foi usada inicialmente pelo filósofo e poeta lírico e satírico romano Quinto Horácio Flaco (65-8aC), em sua Arte Poética: Parturiunt montes; nascetur ridiculus mus. Foi popularidzada pela fábula do fabulista romano Caius Iulius Paedro (15 a.C. – 50 .a.C. – Caio Julio Fedro), Mons Parturiens, retomada pelo poeta e fabulista francês Jean de La Fontaine (1621-1695), no seu La Montagne qui Accouche, mencionando que: Uma montanha em trabalhos de parto fazia tão grande escarcéu, que todos acudindo ao alarido, supunham que daria à luz com certeza uma cidade maior que Paris: ela deu à luz um rato. Posteriormente, o poeta e crítico francês Nicolas Boileau-Despréaux, em sua Arte Poética expressou: Que produzirá o autor depois de tanto alarde? A montanha em trabalho de parto dará à luz um rato. A expressão, então, possui o significado de resultado ridículo que não corresponde à grande expectativa criada em torno de um acontecimento. Diz-se que são partos de montanha as iniciativas inexpressivas que resultam de longas e ruidosas convenções e tudo o mais que não tem correspondência com o esforço despendido. Por isso, reafirmo com o Fecamepa: tudo no Brasil é um parto da montanha! É ou não é? E isso não é de hoje nem de agora, vem desde 1500!!! Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

A MULHER GREGA – No livro Sobre a mulher (Global, 1981), de Karl Marx, Friedrich Engels e Vlaidmir Lenin, encontro o texto que aborda sobre a mulher grega da Antiguidade, do teórico revolucionário alemão Friedrich Engels (1820-1895), que assim se expressa: [...] nos tempos heróicos, encontramos a mulher já humilhada pela predominância do homem e pela concorrência dos escravos. [...] a mulher foi degradada, escravizada, tornou-se escrava do prazer do homem e um simples instrumento de reprodução. Essa condição humilhante para a mulher, tal qual como aparece, notadamente entre os gregos dos tempos heróicos, e mais ainda dos tempos clássicos, foi gradualmente camuflada e dissimulada e também, em certos lugares, revestida de formas mais amenas, mas não foi absoluta suprimida [...] ela não é, para o homem, mais do que a mãe dos seus herdeiros legítimos, a superintendente do seu lar e a diretora das mulheres escravas, das quais ele pode fazer, à sua vontade, concubinas [...]. Veja mais aqui.

ÉPOCA DA INOCÊNCIA – No livro A época da inocência (Companhia das Letras, 2013), da escritora e designer estadunidense Edith Wharton (1862-1937), destaco o trecho: [...] Madame Nilsson, de caxemira branca com nesgas de cetim azul‑claro, uma bolsinha pendurada numa faixa azul e grandes tranças amarelas arrumadas cuidadosamente em ambos os lados da blusa de musselina, ouvia com os olhos baixos o apaixonado galanteio de M. Capoul e afetava uma ingênua incompreensão de suas intenções, sempre que, com a palavra ou com o olhar, ele indicava a janela do andar térreo da casa de tijolos à vista no lado direito do palco. “Que amor!”, pensou Newland Archer, voltando a fitar a jovem com os lírios‑do‑vale. “Ela não faz ideia do que se trata.” E contemplou‑lhe o rosto absorto com um vibrante sentimento de posse em que o orgulho pela própria iniciação masculina se misturava a uma terna reverência pela infinita pureza da moça. “Vamos ler Fausto juntos... à beira dos lagos italianos...”, pensou, vagamente confundindo o cenário de sua planejada lua de mel com as obras‑primas da literatura que, como homem, teria o privilégio de revelar à esposa. Foi só naquela tarde que May Welland lhe disse que “gostaria” (era assim que a donzela devia declarar‑se em Nova York), e já sua imaginação, saltando à frente do anel de noivado, do beijo de noivado e da marcha do Lohengrin, posicionava‑a a seu lado em algum cenário imerso na velha magia europeia. [...]. Veja mais aqui.

SOU A FLOR – Entre os poemas da poeta grega Maria Polydouri (1902-1930), destaco o seu belíssimo Sou a flor: Sou a flor roída pouco a pouco por um verme secreto... / não me fustiga, como as outras, a inexorável tormenta / nem da face pálida arranca-me as pétalas o vento frio. / Tanto aos bons quanto aos maus fados mostro-me sempre ereta e isenta; / só as borboletas à minha volta dão-me calafrios. / Sou a flor roída pouco a pouco por um verme secreto. / Como filho legítimo, aninha-se em meu seio o próprio mal. / Mas sou vida, alegria, destino mais risonho não me importa. / Elevo meu corpo alto e belo como não existe outro igual. / Quando mostra aos astros minhas chagas, eu já estarei morta. Veja mais aqui.

DO QUE ORLANDO ME DISSE – Tive oportunidade assistir no ano de 2006, no Núcleo Bartolomeu de Depoimentos, em São Paulo, à montagem da peça Do que Orlando me disse, uma adaptação do romance Orlando (1928), da escritora inglesa Virginia Woolf (1882-1941), com direção de Georgette Fadel, contando a história de um personagem fantástico que atravessa cinco séculos de existência em uma linguagem que quebra a ilusão teatral ao inserir cenas de improvisação e com situações que se misturam às vividas pela atriz, em uma espécie de espetáculo depoimento. O destaque da encenação fica por conta da atriz Paula Picarelli. Veja mais aqui e aqui.

CACHÉ – O filme Caché (2005), dirigido e roteirizado por Michael Haneke, conta a história de um jornalista e apresentador de um programa literário de TV, que vive tranquilamente em uma casa em Paris, com esposa e filho. Porém, esta tranquilidade é quebrada no dia em que sua esposa recebe o primeiro vídeo anônimo e percebe que sua família é observada de forma anônima e perturbadora. O destaque do longa metragem é para a lindíssima e premiadíssima e dançarina atriz francesa Juliette Binoche. Veja mais aqui e aqui.

IMAGEM DO DIA
Capa do primeiro romance A instrução dos amantes (Planeta, 1992), da escritora portuguesa Inês Pedrosa, contando a história de motoqueiros apaixonados e preocupados apenas com o presente e com os sentimentos que começam a brotar, que estão passando da infância para adolescência, entre as bonecas e os campeonatos de beijos ardentes, vivendo num mesmo bairro, em prédios de classe média.

DEDICATÓRIA
A edição de hoje é dedicada à cantora, compositora e atriz Hanna Cantora.


Veja mais aquiaqui.


 Veja as homenageadas aqui.

terça-feira, setembro 25, 2007

HERMES, SINCLAIR, VALIDIVAR, GIBBONS, MARLY VASCONCELOS & MUITO MAIS!!!



ESCALAVRADURA - Era junho de 1986, plena Copa do Mundo. Minha filha havia se tornado a vencedora do concurso escolar da Rainha do Milho. Meu filho fazia dois dias que estava meio febril e ficara com a vó para que eu pudesse ir aos festejos juninos da filha. Tomei umas e outras, soltei pilhérias e fiquei feliz. Lá para as tantas, bastante manguaçado, voltei pra casa e arriei na cama o sono dos que veem o mundo girar em torno do sol. Ao cochilar, a mãe me acorda porque o menino estava vomitando a casa toda. O vômito era sangue coagulado. Às carreiras peguei o carro e levei-o pro hospital. Por sorte era um médico amigo de infância quem atendeu. O coração pela boca. Depois de uma hora, o meu amigo me aconselhou a levá-lo pra Recife. E ajeitou comigo o banco traseiro do meu carro com balão de oxigênio e soro, zarpei dali na hora. Cheguei no IMIP toda equipe médica já esperava. Levaram-no para UTI. Eu tive que bancar um apartamento no hospital próximo da UTI, para que a mãe ficasse perto do filho vez que não podíamos entrar nas dependências médicas da unidade de tratamento intensivo. Dois dias nisso, nenhum diagnóstico. Só um médico com jeitão de acadêmico teve coragem de, aos prantos, falar comigo: - Ele está com uma hemorragia estomacal crônica e aqui não vai dar jeito. Tem que levar para o Barão de Souza Leão.  - Hospital público, Deus-me-livre! Mas tinha que ser, pois, era o único que podia recebê-lo naquele estado. Nenhum médico do IMIP escondia a cara de choro toda vez que se aproximavam de mim. E o pior: não conseguiam dizer nada, no máximo bater no meu ombro. Uma ambulância levou-nos pro outro hospital. Lá a equipe médica se agitou. Exigiram dez exames de sangue dele em laboratórios diferentes. Eu fiz uns em Recife, Arnaldo conseguiu uns dois em João Pessoa, Rodolfo conseguiu mais uns em Maceió, e a corda da solidariedade deu para em dois dias mais trazer todos os exames requeridos. Quando entreguei tudo, ao cabo de duas horas estava eu e a mãe ao lado de uns vinte e cinco médicos. Diagnóstico: leucemia mieloidal. - Que porra é nove? -, disse eu. - Uma espécie terrível de câncer no sangue. Aqui não trata, talvez em Minas Gerais, ou São Paulo, mas certo mesmo, só nos Estados Unidos onde pode fazer transplante de medula. O transplante, só nos Estados Unidos. Tem dinheiro para isso? Quando ele perguntou fiquei com a cara de tacho mais deslavada e com uma interrogação maior que o prédio do hospital. A mãe desmaiou na hora quando o médico começou a dizer os riscos, como ele teria que viver dali por diante, assim e assado. - Quais as chances? -, perguntei. - 0,01%. - Puta-que-me-pariu, porra! Os médicos me acalmaram, enquanto outros tentavam reanimar a mãe. Eles queriam uma autorização para aplicar uma droga enquanto eu levantava a dinheirama para a viagem. Só me deram uma semana para conseguir e já davam por certa que só nos Estados Unidos que teria jeito. Antes, porém, queriam uma pessoa compatível para fazer o transplante. Mais um dia e chegaram com o resultado de que a minha filha era compatível. Tinha então que correr. E muito. Vendi um carro, dois terrenos, meu pai me deu cinco mil, meu sogro mais cinco mil, saquei umas poupanças e fiquei com uma tuia de dinheiro vivo no bolso. Era sexta-feira e precisava chegar no hospital para encontrar a mãe, a avó e Elita que se revezavam no plantão. Cheguei finzinho da tarde pronto para na segunda ir pro consulado dos Estados Unidos providenciar a viagem. Já no sábado, quando cheguei no hospital os médicos pediram nova autorização para aplicar uma outra droga com o objetivo dele aguentar até que eu resolvesse as coisas todas no consulado. Os efeitos dessa droga eram devastadores a ponto de despelar e cair o cabelo. Foi quando lembrei do horror de meu filho quando passei no vestibular de Direito e fiquei careca. Tinha que fazer alguma coisa. Então subi, fui até ele e disse que ia raspar de novo a cabeça. Ele perguntou-me o motivo e eu disse que ele também ia raspar comigo. Ele abriu os olhões e disse que assim, assim. Não havia sinais nele de doença, nem parecia que estava com aquela enfermidade porque cantava, bulia com os outros meninos da UTI, pegava na bunda das enfermeiras, era muito buliçoso e peraltinha. Quando ele concordou, eu saí para comprar uns pijaminhas para a viagem e estadia no exterior. Mas como uma coisa ruim não vem sozinha, ao cruzar o sinal e entrar na Agamenon Magalhães, meu carro atravessa a pista e finda empancado no meio-fio. Sem saída liguei para Gulu que me socorreu com um guincho. Diagnóstico do carro: rompeu a roda. Era hora do jogo do Brasil, tudo fechado. O guincho levou para uma oficina, por sinal, a única aberta no bairro recifense do IPSEP. Lá conseguimos uma única loja de peças que resolveu vender a peça. Quando voltamos, o mecânico falou que o Brasil ia começar a jogar e só lá pras seis horas da noite que o carro estaria pronto. Tudo bem, fazer o que, hem? Arnaldo chegou e me levou pra casa dele. Assistimos ao jogo que eu fingia acompanhar onde, o Brasil perdeu nos pênaltis para a França de Platini – a partir disso o Brasil nunca mais ganhou pra França. No horário acertado, cheguei à oficina, paguei o conserto, peguei o carro e fui apanhar meu primo Wadson para render a mãe no hospital. Era meu dia de plantão. Cheguei lá umas oito horas da noite e a mãe do meu filho se foi com Wadson para a casa da minha tia Nadeje, que era o nosso quartel-general, e fiquei com o menino que perguntava sobre o jogo, quem ia ser campeão, como é que é isso, aquilo, aqueloutro, até que ele teve uma convulsão, agitou-se, agarrou-se em mim e, depois de um certo tempo, descansou. Dormia tranquilamente. Cansadíssimo, baixei a cabeça e fiquei com ele. Vieram as enfermeiras, medicaram, examinaram e se foram. Já passava da meia noite quando ele dormia tranquilo e eu deitei a cabeça na cama dele. Daqui a pouco uma moça chegou perto de mim e disse que ele tinha parado de respirar. Fiquei atônito, chamei as enfermeiras que tentaram reanimar. Conseguiram, ele se agarrou em mim e descansou. Pouco tempo depois, parou de respirar de novo. Aí vieram novas tentativas para reanimá-lo. Correria medonha, enfermeira, médicos, tudo. Maior escarcéu e nada dele recobrar os sentidos. Depois de horas de tentativas, o médico bate no meu ombro e me dá os pêsames. Nunca chorei tanto na vida. Não conseguia dizer nada, fiquei em estado de choque. Via que as enfermeiras arrumavam os panos da maca, envolvendo meu filho e fazendo dele um pacote. Aquilo me indignou. Fiquei revoltado com a transformação do meu filho num embrulho qualquer. O médico retornou e me pediu que seguisse pro necrotério. Desci, telefonei para a mãe dos meus filhos e não soube dizer nada, estava eu aos prantos. Ela chegou. Choramos juntos e, na mesma hora, acertei o carro fúnebre e determinei ida para Palmares onde seria enterrado no mesmo dia. Chegamos em Palmares perto das dez horas e o corpo dele foi velado no Cepred. Às três horas da tarde, sepultei. E me tranquei três meses dentro de casa, curtindo a vida com a minha agora única filha Patrícia. Nessa clausura eu me perguntei com o pé enfiado na jaca: o que é vida? Contava com vinte e seis anos, demitido do banco e com um futuro incerto e nada promissor. Vambora. Vamos aprumar a conversa aqui.

Imagem: a arte do escultor e pintor francês Jean-Léon Gérôme (1824-1904). Veja mais aqui e aqui.

Curtindo o álbum Out of Season (Interscope, 2002), da cantora britânica Beth Gibbons & do músico britânico Paul Douglas Webb. Veja mais aqui.

EPÍGRAFE -  Talvez a maior parte de nossa insatisfação com a vida venha do fato que nossas buscas da felicidade são numerosas demais. Cada coisa procurada, em si, parece clara como cristal, na alegria que nos trará. Porém, coletivamente elas se depreciam mutuamente e diminuem nosso entusiasmo por qualquer uma delas, como uma variedade de obras de arte empilhadas, trecho extraído do livro Sussurros do eu interior (Renes, 1976), do filósofo e escritor místico Sâr Validivar (1904-1987). Veja mais aqui e aqui.

POIMANDRESNo livro Corpus Hermeticum: discurso de iniciação & A Tábua de Esmeralda (Hemus, 1978), de autoria atribuída pelos neoplatônicos, místicos e alquimistas ao deus egípcio Thoth e identificado como o deus grego Hermes Trismegistus, formado por quarenta e dois livros subdivididos em seis conjuntos, tratando da educação dos sacerdotes, dos rituais do tempo e de geologia, geografia, botânica, agricultura, astronomia, astrologia, matemática, arquiteturas e de hinos em louvor aos deuses. Da obra destaco o trecho denominado Pomandres: Um dia, em que comecei a refletir acerca dos seres e que meu pensamento deixou-se planar nas alturas enquanto meus sentidos corporais estavam como que atados, como acontece àqueles atingidos por um sono pesado pelo excesso de alimentação ou de uma grande fatiga corporal, pareceu que se me antolhava um ser de um talhe imenso, além de toda medida definível, que me chamou pelo meu nome e disse: “Que desejas ouvir e ver, e pelo pensamento aprender e conhecer?” E eu lhe disse: “Mas tu, quem és?” – “Eu”, disse ele, “eu sou Poimandres, o Noüs da Soberania absoluta. Eu sei o que queres e estou contigo em todo lugar”. E eu disse: “Quero ser instruído sobre os seres, compreender sua natureza, conhecer Deus. Oh! Como desejo entender!” Respondeu-me ele por sua vez: “Mantém em teu intelecto tudo o que desejas aprender e eu te instruirei”. A essas palavras mudou de aspecto e, subitamente, tudo se abriu diante de mim em um momento, e vi uma visão sem limites, tudo tornou-se luz, serena e alegre, e tendo-a visto apaixonei-me por ela [...]. Veja mais aqui, aqui e aqui.

BABBITT – No romance Babbitt (1922), do escritor estadunidense e prêmio Nobel de Literatura de 1930, Sinclair Lewis (1885-1930), uma sátira da vida cotidiana americana no início do século XX, em seu comportamento conformista, principalmente da classe média, destaco o trecho: [...] A bruma compadecia-se das construções caducas das gerações precedentes: o edifício dos correios, com a sua mansarda de telhas lisas esbeiçadas, os minaretes de tijolo vermelho das velhas casas pesadonas, as fábricas de janelas embaciadas e fuliginosas, os prédios de madeira cor de lama. A cidade estava cheia dessas caricaturas arquitetônicas, que as galhardas torres cinzentas iam expulsando do centro comercial. Nas colinas mais distantes resplandeciam casas novas, que eram, na aparência, ninhos de riso e de sossego. [...]. Veja mais aqui.

VERBUM & SILÊNCIO – Entre os poemas da poeta e jornalista Marly Vasconcelos, destaco inicialmente Verbum: Uma época escrevi estórias com tanta ansiedade / que não podia comer uma maçã./ Não havia tempo para o detalhe./ Palavra, eu fui palavra. / Poderás avaliar o que é ser palavra? / Fecha os olhos e compõe com tuas lembranças / um território exaurido e descarnado, /             pasto de animais melancólicos, / lagoas, cacimbas secas. / Na terra, debaixo da oiticica, um monte de ossos. / Preço que paguei sendo palavras. E também o poema Silêncio: Atenta para a água que ressoa nos aquários, / o caminhar de passos harmoniosos, / pálpebras que baixam lentamente. /Tudo prenuncia o silêncio. Veja mais aqui.

A QUANTAS ESTAMOS: SANGUE NOVO – No livro Como não escrever uma peça (Lidador, 1968), do escritor e critico de teatro estadunidense Walter Kerr (1913-1996), destaco o trecho O método cansado: Nenhuma forma dramática, boa ou má, tem vitalidade perene. O grande teatro grego, com os seus heróis delicados, sua estrutura escassa e seu coro lírico, esgotou sua inspiração em menos de oitenta anos. O teatro elisabetano, com sua estrutura desenfreadamente complexa e seu realismo poético ruidoso, esgotou as energias em menos de cinquenta e cinco anos. O período áureo do teatro francês, englobando toda a obra profissional de Corneille, Molière e Racine, durou quarenta e dois. Estes foram impulsos dramáticos primordiais, os mais fecundos e mais dinâmicos que conhecemos. Impulsos menores conseguiram arrastar-se por mais tempo, possivelmente graças à pura inercia. Levou quase sessenta anos para que a comedia sentimental inglesa do século dezoito desaparecesse. Mas Plauto e Terêncio não contam com mais de quarenta anos entre os dois e a comedia inglesa da Restauração estava liquidada em vinte e cinco. O que estou querendo dizer é que chega o momento em que todo estilo dramático e, portanto, todo modelo útil se desintegra e desaparece. Se bem que o teatro tenha assistido há bastante tempo, nenhuma das suas manifestações – nenhum grupo de convenções, nenhuma noção do que seja um tema adequado para o palco – conseguiu sobreviver mais do que o mais velho espectador. [...]. Veja mais aqui, aqui e aqui.

JUNEBUG – O drama comédia Junebug (Retratos de família< dirigido por Phil Morrison, conta a história ocorrida na região sul estadunidense, e o jeito simples de seus habitantes que sempre encantaram com uma sofisticada marchand, que se casa e vai conhecer os pais do marido, quando se vê no meio de estranhos desconfiados que não pretendem recebê-la como membro da família, com a única exceção da esposa do irmão mais novo dele George, que se encanta com ela e decide tratá-la como sua mais nova amiga de infância. O destaque do filme é para atriz e cantora estadunidense Amy Adams. Veja mais aqui

VEJA MAIS:
O amor entre os animais, As trelas do Doro, Sêneca, Aretusa, Reri Grist & Bernadette Peters aqui
Karen Horney, Manuel Castels, Carmen Miranda, Mônica Waldvogel, Amelinha, Edson Cordeiro & Branca Tirollo aqui
A primavera de Ginsberg, Ludwig van Beethoven, Roberto Crema, Jane Austen, Olavo Bilac, Teatro Medieval, Regina Pessoa, Victor Brecheret, Ana Terra, Antonio de la Gandara & Flavia Daher aqui.

FECAMEPA (Charge do Ivan Cabral que diz: CPMF no bolso dos outros é refresco! ) Deu no Capital Gaucha: "O presidente da Câmara dos Deputados, Arlindo Chinaglia (PT-SP), convocou sessões extraordinárias para terça, 25, às 12h, às 17h e à noite, a fim de iniciar um 'esforço concentrado' para concluir a votação, em primeiro turno, da proposta de emenda à Constituição que prorroga a cobrança da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF) até o final de 2011. Estão previstas sessões pela manhã, à tarde e à noite também na quarta e na quinta-feira". (Leia mais)E também: "INVESTIGAÇÃO TRIBUTÁRIA PODE UTILIZAR DADOS DA CPMF - Para entendimento do Superior Tribunal da Justiça (STJ) é permitido o uso de dados da CPMF para investigar supostas práticas de crime contra a ordem tributária.E foi dessa prática que o STJ se utilizou em julgamento ocorrido neste mês, que rejeitou o pedido de Habeas Corpus do ajudante de pedreiro Márcio Marques de Miranda, indiciado em inquérito policial". (Leia mais)Por causa disso, todo mundo agora quer saber qual o verdadeiro significado para a sigla CPMF:O compositor & engenheiro Felipe Cerquize trouxe logo 3 definições:CPMF - Congressistas no Planalto Metendo-nos a Faca ou  Caso de Polícia Merecedor de Perícia ou Cachaporra Parlamentar Magistralmente FornicanteAí o Percy Castanho, presidente do Clube dos Compositores do Brasil: Centenas de Políticos Mamando Felizes O ator Manuel Lima trouxe essa: Corrupção Permanente e Muitas Falcatruase a lindamiga Roserlei Martins Alves foi mais contundente: cu de pobre muito fodidoPor isso já se manifestaram: o artista plástico e ator Rolandry Silvério, Cosme Custódio, Ana Lúcia Félix e muita gente que está reunida num balaio só do Fórum do Guia de Poesia.  E mais aqui
  
IMAGEM DO DIA
Todo dia é dia da atriz e cantora estadunidense Amy Adams.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Imagem: desenho do escritor de quadrinhos francês Yannick Corboz
Veja aqui e aqui.



MÁRIO QUINTANA, ANNE BOYER, KATE MANNE & JONES MANOEL

  Imagem: Acervo ArtLAM .   Aroma da memória, flor despetalada... – Bella não era Isabella, a cantora perturbada do Blue Velvet . Nem a...