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segunda-feira, junho 03, 2019

MARGUERITE YOURCENAR, RAIMUNDO CARRERO, LIGIA AMADO, MABELLE BATISTA & PERPETUUM MOBILE


PERPETUUM MOBILE – Ainda tarda de ontens o que me asfixia agora de manhã, apesar de mudar como mudas plantadas: o que habita em mim o vento açoita flores e folhas. A hora passa e os que atravessam não vivem, só olhadas pelos anúncios do rádio e da tevê nos luminosos multiplicados, comida rápida ao relógio, coisas do interesse e desperdício. Quantos se perdem na correria das desocupadas cabeças ocas desorientadas, ah, meu Deus, pelas ruas indecifráveis que desconheço, esquecidas pelos néscios que possuem ali seus endereços e não moram, só zombam dos defeitos alheios e os seus nem dão conta, entediados e mantidos pela estupidez. Todos me são como atletas vigorosos, acrobatas do mundo que se esquecem, tolos pelos ares com suas boas razões duvidáveis e mil maneiras diferentes ou mais etiquetas, só passam às cambalhotas com roupas tão iguais, provas cabais do decisivo por intemperança, tudo tão igual e isso não é vida. Para mim quanta mentira e equivoco, quanta coisa fora de lugar no teatro alvoroçado das bocas tagarelas, tudo é muito cinza no abuso das cores por dentro e fora, o castigo invisível. E ademais tudo se perde para sempre e me desarrumo entre o que apouca e o abundante. Como é pequeno o que se vê no meio de tão grandiosa expectativa: só cacos e frestas, nenhuma vogal solidária, nenhum verbo de amor. Cada qual seu desencanto com a cloaca da humanidade, as roupas na mala, o corpo desnudo, nem sei mais onde moro ou morro, nem sinto fome, ao menos desengasgado pelo anverso das coisas e pressinto entre a sede e o gole, versiprosa cotidiária de quem se perdeu na frase, trovador suicida, fabricando sílabas e ritmos para emprestar ao mundo o sentimento que morreu: a indignação. Ah, não, não era isso que eu queria dizer, meu pentimento. Queria mesmo era falar da tristeza dos citros e o declínio rápido da planta, como meu coração diante de tudo isso, mais pertinente ao ato de escrever: o que viu e viveu, desesperando na palavra, doendo no verso e não dissesse para ninguém o que resta de poeta, crescendo em silêncio. Ninguém tem mesmo nada a ver com isso. Uma vida apenas, nada mais. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS:
Era no tempo do prato quente e gorduroso, suculento e salgado, muito salgado, fumegante e apimentando. Porque também era assim o centro do Recife, de muito sol e frevo. [...] Mas não acabou. Felizmente não acabou. O “era” fica por conta da mudança dos tempos – verbal e físico. Portanto, era no tempo em que o centro da cidade existia com toda a graça e movimentação. [...] Basta pedir e será logo atendido. Lembrando-se sempre da figurona de Ascenso Ferreira, o grande poeta, que depois de duas feijoadas, cantava grave e grosso: “Pernas pro ar que ninguém é de ferro”.
Trecho da crônica Uma cidade feliz. E gorda (FCCR, 2010), do premiado escritor, crítico, editor e jornalista pernambucano Raimundo Carrero. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Arte da artista visual e consultora de RH, Mabelle Marie Batista, integrante da Rede de Hortas do Bem Comum e Felicidade Comunitária e edita o blog Atelier Azul & Rosa. Veja mais aquiaqui e aqui.

A MÚSICA DE LIGIA AMADO
A música da premiada maestrina e engenheira Ligia Amado, atual regente-titular da Orquestra Sinfônica da Universidade de São Paulo (OSUSP) e da Orquestra Sinfônica da Universidade Nacional de Cuyo (Argentina). Ela atuou como produtora e apresentadora do programa Música e Literatura, da Rádio MEC-RJ. Veja mais aqui e aqui

A OBRA DE MARGUERITE YOURCENAR
Ninguém ainda sabe se tudo apenas vive para morrer ou se morre para renascer.
A obra da escritora francesa Marguerite Yourcenar (1903-1987) aqui, aqui & aqui.


segunda-feira, outubro 02, 2017

BACHELARD, RAIMUNDO CARRERO, DUCHAMP, QUESADO, FRANCISCO DE ALMEIDA, MÚSICA DE PAHLEN & AGENDA 21 DA CULTURA

O JANTAR DOS COMPADRES – Imagem: xilogravura da exposição Transfigurações – 20 aos pedaços, do artista plástico Francisco de Almeida. - Mais de trinta anos separava o compadrio figadal entre Dejandro e Zé-Cantão. A amizade entre eles nascera num pacto de sangue embaixo dum abacateiro no quintal da infância, emendado por anos de estripulia pela adolescência, para se perderem nas quebradas da vida. O reencontro dos já sexagenários numa esquina do tempo foi regado a muitos abraços e gaitadas puxadas da memória. Mas, diga lá, compadre Cantão, como vai a comadre Filó? Ah, compadre, aquilo é um estrupício, sempre trambecando pra lá e pra cá, comendo o restinho da minha paciência. E a comadre Filó bonitona? Ah, aquilo é meu pecado mortal, sabe como é, né? E a afilhada? Ah, a Duilinha puxou ao pai, sempre bonita, faceira, me deu dois netos lindos que são a alegria da minha vida. E os seus netos? Ah, quisera, compadre, a Filó é tão ruim que nem me deu filho nem netos. Não diga, compadre! Conversa vai, pilhéria vem, remorsos, sacadas, enterros, feridas, espalhafatos. Um lembrava das astúcias do outro e leseiras da muita na maior risadagem. Debulharam o passado, tantas aprontações, revestrés, ciladas, desatinos. Depois de horas: Olha só, compadre Cantão, sábado eu quero você lá em casa, vou fazer um jantar para selar o nosso reencontro. Quero você e a comadre lá, sem falta, tome aí meu endereço. Ah, pode deixar, compadre Dejão, estararei lá com meu encosto na hora acertada, podexá. E se separaram depois de horas de puxa-encolhe, abraços e promessas. Um dia atrás do outro e, no horário marcado, lá estavam Cantão e Brisa trajando a domingueira e diante dum palacete. Vixe, homem, vamos embora, isso é um palácio, a gente pode ser preso. Vambora, mulher, isso é a casa do compadre, veja aqui o número do endereço, é aqui mesmo, onde é que fica mesmo a cigarra, hem? E eu lá sei, se você que é todo metido a sabichão não sabe, imagine eu. Cala boca, mulher, o homem está vindo. Sim? É aqui a casa do compadre Dejão? Sim, residência do Dr. Dejandro Jacobina, sim, senhor. O que deseja? Ah, eu sou Zé-Cantão, compadre dele. Como? Sou o compadre dele. Um momento, aguardem aí. Demorou um pouco, seguraram nos cambitos a espera e quase hora depois no sereno: Pois não, podem entrar. Vixe, mulher, vê tudo isso? Isso é que casa, macho, pra você tomar vergonha na cara e ver que esses anos todos não fez nada que prestasse na vida. Danou-se, veja como a comadre Brisa continua bonitona, veja! Isso é uma piscina? Ô mulher, sai daí que se cair eu deixo morrer de vez, visse? E se abraçaram e rolou tudo do bom e do melhor: sorrisos, falsidades, supresas, lembranças, pitu, camarão, lagosta, uísque, prato disso, prato daquilo, mordomo, maior fausto de encher os olhos admirados do humilde casal convidado. Já passava das duas da manhã, os compadres se despediram com o acerto de que no próximo sábado o jantar seria na casa do Cantão. Tudo justado nos conformes da amizade: Até sábado, compadre! Inté. Lá se foi Cantão procurando condução madrugada afora, Brisa claudicando e reclamando da falta de sorte deles de não ter nem uma borreia de nada pra levá-los àquela hora pra casa. Rodaram, toraram aço, esperaram no ponto. Lá pras tantas, pegaram o cata-corno e, depois de muita volta, chegaram, finalmente, ao lar. O dia já amanhecia. Ô Cantão, como é que a gente vai fazer sábado que vem? Ah, Filó, vou ter que me virar essa semana pra arrumar dinheiro e fazer uma festa aqui pro compadre. Acredito não. Acredite, mulher, nem que seja a última coisa que eu faça na vida. Não posso fazer desfeita com o compadre! A semana passou mais rápido que de um dia pra outro, foi só piscar o olho: Vixe! Ainda ontem era domingo, hoje já é sábado. Se pudesse voltava pra sábado passado, aquilo sim é que é jantar que se ofereça. Daí a pouco parou um automóvel de luxo na porta e o motorista perguntou: O senhor pode me informar onde fica o palacete do Dr. José Cantão? Ah, que doutor? Dr. José Cantão! Tem esse não, aqui mora Zé-Cantão, seu criado. Foi então que o vidro traseiro arriou e ouviu-se: Está me estranhando, compadre? Ah, compadre, é aqui mesmo, pode encostar aí. Dejandro e Brisa logo desceram e os abraços e risos deram o tom da festa. Cadê a afilhada Duilinha, veio não? Ah, ela não pode vir porque está de plantão no hospital, fica pra próxima. Adentraram a meia-água, se aboletaram no sofá irregular que ameaçava desabar, exigindo ajeitado constante, e tome conversa. O compadre quer tomar uma pinga? Pinga? Sim, posso fazer uma caipirinha tinindo, quer? Pinga, compadre? Sim, ou quer cerveja? Posso mandar comprar na venda ali, quer? Não, não, estou sem beber hoje. Querem um docinho de jaca? Não, comadre, estou de regime. Tome blábláblá. Até que enfim, chegou a hora do jantar: Mulher, não enrole mais não, ajeite a mesa pra gente beliscar. Tudo pronto, venham. Ah, agora sim! O que é isso, compadre? Sopa! Sopa? É, compadre, comprei uns taquinhos de carne hoje na feira e a mulher inventou essa gororoba aí pra gente, e pela cara está pra lá de muito gostosa! Sopa? Sim, sim, compadre, e da boa. Ah, compadre, me dê uma licencinha que eu e a Brisa vamos ali buscar um remédio e a gente volta já, tá? Já passava da meia noite quando Cantão perguntou pra Filó: Será que o compadre ainda volta? © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especiais com a música do compsitor alemão Max Bruch (1838-1920): Scoth Fantasy e Concert Violin 1 com Janine Jansen; a pinista Ligia Moreno interpretando Etude Poétique de Scriabin, Concerto para piano de Grieg & Etude Chopin; cantor, compositor e ator da cena underground brasileira, Carlos Careqa com seus álbuns Palavrão: múisica infantil para adultos, Os homens são todos iguais e Um pouco de veneno; e a cantora e compositora Luiza Possi com os álbuns Seguir cantando, Sobre o amor e o tempo & Bons ventes sempre chegam. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA - O homem é uma criação do desejo, não uma criação da necessidade. [...] É preciso que cada um destrua mais cuidadosamente as suas 'filias' que suas fobias e suas simpatias pelas intuições primeiras [...] o amor é a primeira hipótese científica para a reprodução objetiva do fogo [...] Estas correspondências das imagens com a palavra são as correspondências verdadeiramente salutares., A cura para um psiquismo dolorido, para um psiquismo desorientado, para um psiquismo vazio será ajudada pela frescura do riacho ou do rio. Mas é preciso que esta frescura seja falada. É preciso que o ser infeliz fale com o riacho. Venham, meus amigos, na clara manhã, cantar as vogais do riacho! Onde nosso sofrimento primeiro? É que nós temos hesitado em dizer... Ele nasceu naquelas horas em que acumulamos em nós muitas coisas silenciadas. O riacho lhes ensinará a falar apesar de suas dores e suas recordações, ele lhes ensinará a euforia pelo eufemismo, a energia pelo poema. Ele lhes dirá, a cada instante, alguma bela palavra bem redonda que rola sobre pedregulhos. Trechos extraídos da obra A psicanálise do fogo (Martins Fontes, 1999), do filósofo, crítico literário e epistemólogo francês Gaston Bachelard (1884-1962). Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

HISTÓRIA DA MÚSICA - A vida é som. Continuamente estamos cercados de sons e ruídos oriundos da natureza e das várias formas de vida que ela produz. O homem fala e canta há incalculáveis milhares de anos e, graças ao seu ouvido maravilhosamente construído que se parece a uma harpa com infinidades de cordas, percebe sons e ruídos, embora apenas uma parte insignificante da imensidão de tudo quanto soa [...] Talvez cantassem os raios de sol nas montanhas que se aqueciam todas as manhãs, como ainda hoje cantam misteriosamente nas colunas egipcias de Memnon; durante tempos sem fim deve ter ressoado o órgão natural da gruta de Fingal, muito antes que os celtas lhe chamassem Ilgaimh bin, gruta da música, e muito antes, ainda, que um compositor romântico, Mendelssohn, transferisse aqueles sons naturais para a moderna orquestra. É o estranho ouvido de Dionísio, da Sicilia, aumentou, com certezas, todos os sons que o penetravam, muito antes que um ser humano lá se achasse para comprovar o milagre. A terra a abrir-se na mocidade, as fontes a jorrar, os vulcões e as montanhas a explodir, as águas do dilúvio a subir, tudo deve ter constituído gigantesca sinfonia que ninguém nos descreveu. [...] Davi toca harpa para afugentar os maus pensamentos do Rei Saul; Farinelli, com o auxilio da música, cura a terrível melancolia de Filipe V. Timoteo provoca, por meio de certa melodia, a fúria de Alexandre, o Grande, e acalma-o por meio de outra. Os sacerdotes celtas educam o povo com a música; somente eles conseguem, abrandar os costumes selvagens. Diz-se que Terpandro, tocando flauta, abafou a revolta dos lacedemônios. [...]. Trechos da obra História Universal da Música (Melhoramentos, 1944), do compositor, musicólogo e regente austríaco Kurt Pahlen. Veja mais aqui.

RUÍNAS DA ALMA - [...] Fechou os pequenos ataúdes com pregos. Rezou. Os meninos respiravam,, fiapos de respiração, respiravam. Ismael colocou=os nos braços, pesados, eram bem pesados, ele não imaginava que pesassem daquela forma. Andou, atravessou o mangue, entrou no rio, soltou dos dois brancos, branquíssimos, empurrou-se para longe, para onde ninguém pudesse alcançá-los. Entrou no caixão, exímio artesão, parafusou por dentro. Suor e cansaço. Agora só a lembrança dos meninos nas águas. Dois belos e perfeitos ataúdes correndo para o mar. [...]. Trecho da obra As sombrias ruínas da alma: ficções (Iluminuras, 1999), do premiado escritor, crítico, editor e jornalista pernambucano Raimundo Carrero. Veja mais aqui e aqui.

MOTE GLOSADO - Como dois astros banhados / num clarão puro e divino, / num semblante purpurino, / vi dois brilhantes cravados, / e os anjos, ali, postados, / como que, a Deus, servindo / e ela contente e rindo, / como se no paraíso: / mostrando, de Deus, o riso, / num rosto moreno e lindo. Do poeta-vaqueiro Luís Dantas Quesado (1850-1930), autor da obra Glosqas sertanejas (1922). Veja mais aqui e aqui.


AGENDA 21 DA CULTURAUm compromisso das cidades e dos governos locais para o desenvolvimento cultural - Nós, cidades e governos locais do mundo, comprometidos com os direitos humanos, a diversidade cultural, a sustentabilidade, a democracia participativa e a criação de condições para a paz, reunidos em Barcelona nos dias 7 e 8 de Maio de 2004, no IV Fórum de Autoridades Locais de Porto Alegre para a Inclusão Social, no marco do Fórum Universal das Culturas – Barcelona 2004, aprovamos esta Agenda 21 da cultura como documento orientador das políticas públicas de cultura e como contribuição para o desenvolvimento cultural da humanidade. I. PRINCÍPIOS 1. A diversidade cultural é o principal patrimônio da humanidade. É o produto de milhares de anos de história, fruto da contribuição coletiva de todos os povos, através das suas línguas, imaginários, tecnologias, práticas e criações. A cultura adota formas distintas, que sempre respondem a modelos dinâmicos de relação entre sociedades e territórios. A diversidade cultural contribui para uma “existência intelectual, afetiva, moral e espiritual satisfatória” (Declaração Universal da UNESCO sobre a Diversidade Cultural, artigo 3), e constitui um dos elementos essenciais de transformação da realidade urbana e social.  [...] 35. Convidar criadores e artistas a comprometerem-se com as cidades e com os territórios, identificando problemas e conflitos da nossa sociedade, melhorando a convivência e a qualidade de vida, ampliando a capacidade criativa e crítica de todos os cidadãos e, muito especialmente, cooperando para contribuir à resolução dos desafios das cidades.

Veja mais:
Terceira idade aqui.
A música de Max Bruch aqui.
A arte musical de Ligia Moreno aqui e aqui.
A arte de Carlos Careqa aqui.
A arte de Luiza Possi aqui, aqui e aqui.
Faça seu TCC sem Traumas: livro, curso & consultas aqui.
Livros Infantis do Nitolino aqui.
&
Agenda de Eventos aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do artista francês Marcel Duchamp (1887-1968). 
Veja mais aquiaqui e aqui.
 

domingo, junho 05, 2016

BATAILLE, LORCA, LAURIE ANDERSON, RAIMUNDO CARRERO, MARTA NAEL, CECILY BROWN, OLORUNNISOMO, MS & PAULA VALÉRIA DE ANDRADE

DOMINGO DO QUE FUI E NÃO SOU - (Imagem: Sunday, by Benedict Olorunnisomo) - Um dia como outro qualquer e um sonho na palma da mão. Tudo é espelho no vazio da novidade. As nuvens descansam na sombra e as águas mansas do espelho do céu na vigência da primavera trazem a brisa abissal dos ventos de maio. O verso é apenas o trâmite dos dias na agonia das horas. Sou duas ou três coisas ínfimas na vitrine de tudo. De resto, o que foi feito será a semana do amanhã de nunca, pois valho-me por fazer aquilo que não se vê. Dou-me do que tenho pra não ser só das vísceras coração: os olhos nas estrelas e os pés no chão. Do que fiz das cinzas, ninguém é mais que vivo que eu na solidão: o presente com a silheura de ontem e o adeus do amanhã. Hoje é só deserto do que fizera fonte. Dos caminhos que não fui, outra estrada desaparece e o que é tudo por certo já não tem nenhuma valia. Se tivesse que erguer castelo, não haveria alicerce: a vida vai no vento e tudo se desfaz. O que era pra ser feito na beira dos limites: uma parede intransponível aplaca a trilha das pedras; há mais que sonhos destroçados nas pedras do caminho. Se trago ao peito a mão contrita é que me fiz de réu na noite desgraçada e não mais que um palitó na ombreira do desalinho nas vestes, nem do pouco que foi justo nas horas minguadas e que se fizera inútil mais do que guardado. Se eu tivesse mais que um dia e a tarde fosse mais que a conquista da vitória, não teria eu que juntar cacos e trapos do que sobrou que fui. Hoje é só domingo, é só um dia, igual a outro qualquer. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

Imagem: a arte da pintora, ilustradora e desenhista Marta Nael.

Curtindo o álbum Laurie Anderson Live in New York (Nonesuch Records, 2002), da compositora, escritora e artista experimental estadunidense Laurie Anderson.

PESQUISA
 Os segredos da ficção: um guia para escrever narrativas (Agir, 2005), do premiado escritor, crítico, editor e jornalista pernambucano Raimundo Carrero, no qual o autor revela que a literatura está ao alcance de todos que possuam o impulso da criação pelos caminhos da arte de escrever. Veja mais aqui e aqui.

LEITURA 
O erotismo (Arx, 2004), do polêmico escritor francês Georges Bataille (1897-1962), ensaio ooriginal e perturbador sobre a sexualidade, sua relação com a vida e a morte, a presença oculta na religião e filosofia e temas controversos sobre misticismo, incesto, entre outros. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA:
Diz a tarde: "Tenho sede de sombra!"
Diz a lua: "eu, sede de luzeiros."
A fonte cristalina pede lábios
e suspira o vento
Eu tenho sede de aromas e de sorrisos,
sede de cantares novos
sem luas e sem lírios,
e sem amores mortos.
Um cantar de manhã que estremeça
os remansos quietos
do porvir. E encha de esperança
suas ondas e seus lodaçais.
Um cantar luminoso e repousado
cheio de pensamentos,
virginal de tristezas e de angústias
e virginal de sonhos.
Cantar sem carne lírica que encha
de risos o silêncio
(um bando de pombas cegas
lançadas ao mistério).
Cantar que vá à alma das coisas
e à alma dos ventos
e que descanse por fim na alegria
do coração eterno.
Poema Cantos novos, da Obra poética completa (Martins Fontes/EdUnB, 1989), do escritor e dramaturgo espanhol Federico Garcia Lorca (1898-1936). Veja mais aqui.

IMAGEM DO DIA 
A premiadíssima escritoramiga, designer e diretora de arte Paula Valéria de Andrade, premiada no Salão Internacional do Livro de Turim, pelo texto de literatura infantil A Beija-flor Dodo & Gil Girassol, no Concurso Internacional Literário Amor & Amore, da Associação Cultural Internacional Mandala (A.C.I.M.A), de Turim, Itália. Veja mais aqui e aqui.

Veja mais sobre Federico García Lorca, Martha Argerich, Tereza Costa Rego, Kenny G, Meio Ambiente, Retorno da deusa, Pedro Nava & Zuzu Angel aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
 Imagem: Don't Miss (Berlin 2010), da pintora britânica Cecily Brown.
Veja mais aquiaqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
 Xilogravura do pernambucano MS (Marcelo Alves Soares).
Recital Musical Tataritaritatá
Veja aqui.

domingo, dezembro 20, 2015

JUNG, BAUDELAIRE, ARISTÓTELES, ROHMER, METHENY, CARRERO, SABURIDO & MUITO MAIS!!!!

VAMOS APRUMAR A CONVERSA? FALAR DE DEUS – Toda vez que exponho minhas ideias, seja numa palestra, discurso ou em discussões em sala de aula, curiosamente, sempre surge da plateia uma mesma e repetida pergunta: - Você acredita em Deus? Essa é sempre a primeira pergunta que me fazem e, de pronto, eu respondo com outra indagação: - Se eu sei que existe, preciso acreditar? O interessante é que, com esse meu questionamento, o papo não evolui. E fica nisso mesmo. Isso começou a surgir depois da polêmica apresentação do meu texto teatral A viagem noturna do sol (1983) e, ficou mais aguda, depois que eu publiquei o meu primeiro livro infantil O reino encantado de todas as coisas (Bagaço, 1992), o qual recebeu certa rejeição por parte das escolas confessionais, sob a alegação de que eu estava brincando de Deus na história. Pode até ser, todavia não era esse o meu intuito. Primeiro porque no universo infantil tudo é possível; e segundo, eu apenas começo contando como se desenvolve o processo de criação. Contudo, nunca tive a oportunidade de explicar bem isso. Nem talvez seja interessante, porque, a meu modesto ver, há muito equívoco a respeito. Já vi muito padre, pastor, teólogo ou religioso dizer muita besteira sobre. Tal como eles, já li a Bíblia, como li os Vedas, o Mahabarata, o Alcorão, entre outros livros tidos como bases religiosas e filosóficas, o que me fez não ter filiação nem professar nenhuma crença, nutrindo simpatias, confesso, com o Zen-Budismo, o Taoísmo e com os Quackers. Mais nada. Entretanto, a minha ideia a respeito se alinha com O guardador de rebanhos de Fernando Pessoa: [...] Mas se Deus é as flores e as árvores e os montes e sol e o luar, então acredito nele, então acredito nele a toda a hora, e minha vida é toda uma oração e uma missa, e uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos [...]. Isso quer dizer que tenho na minha essência interior, toda uma comunhão com tudo e todos os seres, o que me faz ter a sensação de que todos nós somos apenas um e tudo, dentro da nossa finitude. Essa é a sensação que tenho desde que entendo por gente: uma harmonização com tudo e todos os seres e coisas, que foi criada em mim por verdadeira comunhão. E isso é o que pra mim é de real valor. Por isso sempre entoo Se eu quiser falar com Deus, de Gilberto Gil, como uma prática dialógica entre eu e todas as coisas e, por consequência, Deus. É isso o que sempre digo a qualquer pessoa que me chega querendo aprofundar o papo que sempre fica em suspenso nas ocasiões públicas. Inclusive, esta semana, em conversa animadíssima com a poetamiga Luciah Lopez, ela me perguntou: - E afinal, o que é Deus? De pronto eu respondi: - É o que você entende de você mesma sobre o que você é. É isso. E vamos aprumar a conversa aqui.

PICADINHO
 
Female nude, do pintor alemão Leopold Schmutzler (1864-1840).

Curtindo Pat Metheny JazBaltica Project Salzau Germany 2003.

JÁ DIZIA O VELHO E BOM JUNG – No livro Psicologia e alquimia (1944 – Vozes, 1998), do psiquiatra e psicoterapeuta suíço Carl Gustav Jung (1875-1961), encontro a acertada dica: “Um consciente inflado é sempre egocêntrico e nada perceba, a não ser a sua própria existência... encontra-se hipnotizado por si mesmo e, consequentemente, não há como argumentar com ele. Atira-se inevitavelmente em direção a calamidades que, certamente, o atingirão de maneira mortal”. Sabedor disso, exercito a sagrada compreensão. Veja mais aqui e aqui.

ENSINANÇAS DO CARRERO - No livro Os segredos da ficção (Agir, 2005), do premiado escritor, crítico, editor e jornalista pernambucano Raimundo Carrero, ele começa com a firmação “Nenhuma grande obra nasce do acaso”. E mais adiante cita Truman Capote na introdução: “Ali, ele dizia que um dia começou a escrever sem saber que estava se escravizando para o resto da vida a um senhor nobre, mas impiedoso. Diz que Deus nos dá um do – este dom, aliás, é dado a todo vivente – homem ou mulher -, porque todos possuímos dons para tudo. Para Capote, era divertido, no princípio. Deixou de ser quando descobriu que a diferença entre o que está bem e o que está mal escrito, entre o que está muito bem escrito e a verdadeira arte é sutil”. Olhe lá, lição a se aprender. Veja mais aqui, aqui e aqui.

QUEM AMA CORRE O RISCO DE NÃO SER FELIZ – Esse é o exemplo deixado pelo poeta maldito Charles Baudelaire (1821-1867), que com suas poesias requintadas, fogosas e mórbidas, de incomparável poder de expressão, harmonia sutil e sugestiva com relevo pela riqueza das imagens, intensidade da expressão e originalidade da harmonia verbal, era profundamente apaixonado por uma atriz e dançarina negra haitiana de teatro de Paris, Jeanne Duval, alcoólatra contumaz, semi-analfabeta e que o desprezava. Ela tornou-se musa e companheira do poeta quando se conheceram em 1842, ocasião que ela deixava o Haiti pela França, a partir disso, ele adota a elegância de um dandi e relaciona-se com ela, a sua "Vênus Negra" e cai nas mãos dos usurários, com o que se iniciam as preocupações econômicas que o atormentaram durante toda a sua vida. Começa compor, então, nessa época as primeiras obras do que viria a ser a reunida na sua obra prima poética "Fleurs du Mal". Escandalizada por seu comportamento, a sua família move-lhe um processo judicial em 1844, que tem como consequência a limitação dos bens e uma uma modesta pensão mensal - a partir daí ele começa a viver miseravelmente. Veja mais aqui e aqui.

A POESIA & A ORIGEM DA TRAGÉDIA E DA COMÉDIA – No livro Poética, do filósofo grego Aristóteles (384 a.C. - 322 a.C.),encontro que: A tragédia nasceu, inicialmente, do improviso (ela e a comédia; aquela a partir dos autores do ditirambo; essa dos cantos fálicos, que ainda hoje, continuam a ter aceitação em muitas cidades), aumentou pouco a pouco, à medida que progrediu o que manifestamente lhe era próprio, e, depois de experimentar muitas modificações tomou forma definitiva, assim que atingiu a plenitude. [...] Quanto ao número de atores, foi Ésquilo o primeiro a passa-lo de um a dois, a diminuir a parte do coro e a dar a primazia à parte falada; Sófocles acrescentou o terceiro ator e os cenários. [...] A comédia é, como dissemos, a imitação de caracteres inferiores, não em todos os seus defeitos, mas apenas na parte ridícula do vício. [...]. Veja mais aqui e aqui.

CONTE DE PRINTEMPS – A comédia romântica Conte de printemps (Conto da Primavera, 1990), do cineasta, crítico de arte, roteirista e professor francês Eric Rohmer (1920-2010), conta a história de uma professora de filosofia um tanto temperamental, mas de espírito aberto, quando seu noivo está para viajar e ela não quer ficar no apartamento dele. Como alugou o seu próprio apartamento para uma prima, ela acaba por aceitar o convite de uma estudante de música que conheceu numa festa, para dormir na sua casa. Ela instala-se no quarto do pai da anfitriã, que por sua vez passa todas as noites com a namorada. A anfitriã conta pra ela a história do desaparecimento do seu colar e da suspeita de que a namorada do pai o tenha roubado. Mais tarde todos encontram-se no jantar numa casa de campo, onde as confusões serão desbaratadas e as suspeitas esclarecidas. O destaque do filme vai para a atriz francesa Florence Darel. Veja mais aqui e aqui.

AS PREVISÕES DO DORO PARA 2016 – As previsões para 2016 do mestre Dorus está bombando na rede. Além de trazer as orientações de procedimentos quanto ao amor, saúde e dia a dia de cada signo, o cara-de-pau ainda dá de troco duas simpatias: a da virada do ano e a Tiro e Queda. Aproveite para conferir e dar boas risadas aqui.

IMAGEM DO DIA
Ativista venezuelana Jacqueline Saburido Garcia que participou de campanha publicitária contra bebidas alcoólicas e que, em 19 de setembro de 1999, enquanto voltava de carro para casa, com dois amigos, sofreu um acidente com um rapaz embriagado. Os dois amigos de Jacqueline morreram. Ela, por causa da explosão e do incêndio, durante 45 segundos sofreu queimaduras que a deixaram com quase 60% do corpo deformado. Nos anos seguintes, ela não se desanimou e fundou uma associação para sensibilizar todos os jovens contra as bebidas alcoólicas, e sobretudo para que não conduzam veículos automotivos quando estiverem embriagados.

DEDICATÓRIA
A edição de hoje é dedicada ao Dia da Bondade: que prevaleça a paz e a compreensão no coração humano.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA

Veja mais aqui.
 

SÓNIA SULTUANE, MARCO NICOLINI, RUBY BRIDGES, JOÃO FALCÃO & MUITO MAIS!!!

    Imagem: Acervo ArtLAM .   Revestrés escatológico pra bufos e ranas... - Para quem não sabia, fingiu ou olvidou, muita coisa passou p...