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domingo, dezembro 20, 2015

JUNG, BAUDELAIRE, ARISTÓTELES, ROHMER, METHENY, CARRERO, SABURIDO & MUITO MAIS!!!!

VAMOS APRUMAR A CONVERSA? FALAR DE DEUS – Toda vez que exponho minhas ideias, seja numa palestra, discurso ou em discussões em sala de aula, curiosamente, sempre surge da plateia uma mesma e repetida pergunta: - Você acredita em Deus? Essa é sempre a primeira pergunta que me fazem e, de pronto, eu respondo com outra indagação: - Se eu sei que existe, preciso acreditar? O interessante é que, com esse meu questionamento, o papo não evolui. E fica nisso mesmo. Isso começou a surgir depois da polêmica apresentação do meu texto teatral A viagem noturna do sol (1983) e, ficou mais aguda, depois que eu publiquei o meu primeiro livro infantil O reino encantado de todas as coisas (Bagaço, 1992), o qual recebeu certa rejeição por parte das escolas confessionais, sob a alegação de que eu estava brincando de Deus na história. Pode até ser, todavia não era esse o meu intuito. Primeiro porque no universo infantil tudo é possível; e segundo, eu apenas começo contando como se desenvolve o processo de criação. Contudo, nunca tive a oportunidade de explicar bem isso. Nem talvez seja interessante, porque, a meu modesto ver, há muito equívoco a respeito. Já vi muito padre, pastor, teólogo ou religioso dizer muita besteira sobre. Tal como eles, já li a Bíblia, como li os Vedas, o Mahabarata, o Alcorão, entre outros livros tidos como bases religiosas e filosóficas, o que me fez não ter filiação nem professar nenhuma crença, nutrindo simpatias, confesso, com o Zen-Budismo, o Taoísmo e com os Quackers. Mais nada. Entretanto, a minha ideia a respeito se alinha com O guardador de rebanhos de Fernando Pessoa: [...] Mas se Deus é as flores e as árvores e os montes e sol e o luar, então acredito nele, então acredito nele a toda a hora, e minha vida é toda uma oração e uma missa, e uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos [...]. Isso quer dizer que tenho na minha essência interior, toda uma comunhão com tudo e todos os seres, o que me faz ter a sensação de que todos nós somos apenas um e tudo, dentro da nossa finitude. Essa é a sensação que tenho desde que entendo por gente: uma harmonização com tudo e todos os seres e coisas, que foi criada em mim por verdadeira comunhão. E isso é o que pra mim é de real valor. Por isso sempre entoo Se eu quiser falar com Deus, de Gilberto Gil, como uma prática dialógica entre eu e todas as coisas e, por consequência, Deus. É isso o que sempre digo a qualquer pessoa que me chega querendo aprofundar o papo que sempre fica em suspenso nas ocasiões públicas. Inclusive, esta semana, em conversa animadíssima com a poetamiga Luciah Lopez, ela me perguntou: - E afinal, o que é Deus? De pronto eu respondi: - É o que você entende de você mesma sobre o que você é. É isso. E vamos aprumar a conversa aqui.

PICADINHO
 
Female nude, do pintor alemão Leopold Schmutzler (1864-1840).

Curtindo Pat Metheny JazBaltica Project Salzau Germany 2003.

JÁ DIZIA O VELHO E BOM JUNG – No livro Psicologia e alquimia (1944 – Vozes, 1998), do psiquiatra e psicoterapeuta suíço Carl Gustav Jung (1875-1961), encontro a acertada dica: “Um consciente inflado é sempre egocêntrico e nada perceba, a não ser a sua própria existência... encontra-se hipnotizado por si mesmo e, consequentemente, não há como argumentar com ele. Atira-se inevitavelmente em direção a calamidades que, certamente, o atingirão de maneira mortal”. Sabedor disso, exercito a sagrada compreensão. Veja mais aqui e aqui.

ENSINANÇAS DO CARRERO - No livro Os segredos da ficção (Agir, 2005), do premiado escritor, crítico, editor e jornalista pernambucano Raimundo Carrero, ele começa com a firmação “Nenhuma grande obra nasce do acaso”. E mais adiante cita Truman Capote na introdução: “Ali, ele dizia que um dia começou a escrever sem saber que estava se escravizando para o resto da vida a um senhor nobre, mas impiedoso. Diz que Deus nos dá um do – este dom, aliás, é dado a todo vivente – homem ou mulher -, porque todos possuímos dons para tudo. Para Capote, era divertido, no princípio. Deixou de ser quando descobriu que a diferença entre o que está bem e o que está mal escrito, entre o que está muito bem escrito e a verdadeira arte é sutil”. Olhe lá, lição a se aprender. Veja mais aqui, aqui e aqui.

QUEM AMA CORRE O RISCO DE NÃO SER FELIZ – Esse é o exemplo deixado pelo poeta maldito Charles Baudelaire (1821-1867), que com suas poesias requintadas, fogosas e mórbidas, de incomparável poder de expressão, harmonia sutil e sugestiva com relevo pela riqueza das imagens, intensidade da expressão e originalidade da harmonia verbal, era profundamente apaixonado por uma atriz e dançarina negra haitiana de teatro de Paris, Jeanne Duval, alcoólatra contumaz, semi-analfabeta e que o desprezava. Ela tornou-se musa e companheira do poeta quando se conheceram em 1842, ocasião que ela deixava o Haiti pela França, a partir disso, ele adota a elegância de um dandi e relaciona-se com ela, a sua "Vênus Negra" e cai nas mãos dos usurários, com o que se iniciam as preocupações econômicas que o atormentaram durante toda a sua vida. Começa compor, então, nessa época as primeiras obras do que viria a ser a reunida na sua obra prima poética "Fleurs du Mal". Escandalizada por seu comportamento, a sua família move-lhe um processo judicial em 1844, que tem como consequência a limitação dos bens e uma uma modesta pensão mensal - a partir daí ele começa a viver miseravelmente. Veja mais aqui e aqui.

A POESIA & A ORIGEM DA TRAGÉDIA E DA COMÉDIA – No livro Poética, do filósofo grego Aristóteles (384 a.C. - 322 a.C.),encontro que: A tragédia nasceu, inicialmente, do improviso (ela e a comédia; aquela a partir dos autores do ditirambo; essa dos cantos fálicos, que ainda hoje, continuam a ter aceitação em muitas cidades), aumentou pouco a pouco, à medida que progrediu o que manifestamente lhe era próprio, e, depois de experimentar muitas modificações tomou forma definitiva, assim que atingiu a plenitude. [...] Quanto ao número de atores, foi Ésquilo o primeiro a passa-lo de um a dois, a diminuir a parte do coro e a dar a primazia à parte falada; Sófocles acrescentou o terceiro ator e os cenários. [...] A comédia é, como dissemos, a imitação de caracteres inferiores, não em todos os seus defeitos, mas apenas na parte ridícula do vício. [...]. Veja mais aqui e aqui.

CONTE DE PRINTEMPS – A comédia romântica Conte de printemps (Conto da Primavera, 1990), do cineasta, crítico de arte, roteirista e professor francês Eric Rohmer (1920-2010), conta a história de uma professora de filosofia um tanto temperamental, mas de espírito aberto, quando seu noivo está para viajar e ela não quer ficar no apartamento dele. Como alugou o seu próprio apartamento para uma prima, ela acaba por aceitar o convite de uma estudante de música que conheceu numa festa, para dormir na sua casa. Ela instala-se no quarto do pai da anfitriã, que por sua vez passa todas as noites com a namorada. A anfitriã conta pra ela a história do desaparecimento do seu colar e da suspeita de que a namorada do pai o tenha roubado. Mais tarde todos encontram-se no jantar numa casa de campo, onde as confusões serão desbaratadas e as suspeitas esclarecidas. O destaque do filme vai para a atriz francesa Florence Darel. Veja mais aqui e aqui.

AS PREVISÕES DO DORO PARA 2016 – As previsões para 2016 do mestre Dorus está bombando na rede. Além de trazer as orientações de procedimentos quanto ao amor, saúde e dia a dia de cada signo, o cara-de-pau ainda dá de troco duas simpatias: a da virada do ano e a Tiro e Queda. Aproveite para conferir e dar boas risadas aqui.

IMAGEM DO DIA
Ativista venezuelana Jacqueline Saburido Garcia que participou de campanha publicitária contra bebidas alcoólicas e que, em 19 de setembro de 1999, enquanto voltava de carro para casa, com dois amigos, sofreu um acidente com um rapaz embriagado. Os dois amigos de Jacqueline morreram. Ela, por causa da explosão e do incêndio, durante 45 segundos sofreu queimaduras que a deixaram com quase 60% do corpo deformado. Nos anos seguintes, ela não se desanimou e fundou uma associação para sensibilizar todos os jovens contra as bebidas alcoólicas, e sobretudo para que não conduzam veículos automotivos quando estiverem embriagados.

DEDICATÓRIA
A edição de hoje é dedicada ao Dia da Bondade: que prevaleça a paz e a compreensão no coração humano.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA

Veja mais aqui.
 

sábado, julho 25, 2015

BAUMAN, FLAUBERT, MALFATTI, BAUDELAIRE, RAMEAU, ARISTÓFANES, MESSALINA, ALAN MOORE, ZAMAZAL & DIA FORA DO TEMPO!


VAMOS APRUMAR A CONVERSA? O DIA FORA DO TEMPO – Amanheceu. Era vinte e cinco de julho dos meus calendários tzolkin e haab. Naquele instante entoei vinte vezes o Hino de Akhenaton. Depois me sentei, ereto, mãos sobre as coxas, e contemplei os primeiros raios que emergiam da aurora rósea, o espetáculo dos primeiros sinais da manhã. E fechei os olhos para viver aquele momento. Logo percebi a aproximação dos invisíveis sábios que se formavam diante de mim e ao meu lado. Um deles empunhava o Popol-vuh, o Códice de Dresde e a lição de cinquenta e dois anos num gnômon que trazia a indicação do cômputo numerado do tempo no zero, uma data origem da última entre as quatro Criações do Mundo. Pude perceber um cenário que emergia por meio de figuras geométricas que se formavam como círculos, algarismos que sinalizam o tempo galáctico, cifras expressando ciclos lineares e aspectos multidimensionais, datas, lunações, eclipses, o ritmo das estações, ângulos cambiantes, triangulações, mensuração de sombras. Nessas imagens formadas, havia uma mensagem subjacente que pude interpretar nas ameias heliocoidais, trazendo as determinações de solstícios e equinócios, revelando o cumprimento de lavrar, semear, colher nos períodos propícios e favoráveis. Foi quando uma Luz Cósmica iluminou sobre o tempo e a existência humana. Ao lado surgiu a Lua Planetária Vermelha e ouvi uma voz inaudível num idioma insólito que me falava à compreensão: os dias são seres vivos e patrocinados por um deus de natureza dupla. Ao entender isso, logo vi a estrela do Pastor – a primeira a luzir, a última a se pagar. E era como se eu visse o tempo transportado para o futuro, por deuses que se revezavam e se substituíam uns aos outros por turnos no governo do mundo: o dia sucedendo a noite. E cada um deles, por sua vez, tomava às costas o fardo do tempo preso por uma cilha frontal. E ao final do turno cedia a outro deus noturno e assim por diante. Foi quando pude ver os treze deuses que reinam cada mês: a estela D de Copan com inscrições sobre baktuns, katuns, tuns, uinal, kines. Outra voz me explicava sobre pintun, kalabtun e kicliltun dos períodos venusianos. Eu não os ouvia, mas sabia o que falavam. Nesse momento tive a compreensão de que o Sol no inverno se posiciona mais ao sul; no verão, mais ao norte. Logo outra voz inaudita me alertava para os cinco dias epagômenos: o uayeb - dias que requerem abstinência. E de repente surgiu um painel numa cripta insculpida em alto-relevo com os nove Senhores das Trevas e da morte em volta de um sarcófago. Fiquei impressionado e fui puxado por um deles para um pequeno templo com estranhos tampões circulares de pedra e que estava encaixado entre ladrilhos triangulares, pelo qual me conduziram a um dintel com um deus surgindo da goela de uma serpente, ameaçando com seu dardo o suplicante acocorado diante dele. E fui conduzido para um vão no qual dei no primeiro degrau de uma escada íngreme que findava num salão com estatuetas coroplásticas de Jaina, monumentos de estelas de Quiriga e Copan, painéis e dintéis de Yaxchilan, Palenque e Piedras Negras e, no topo da pirâmide de E-VIII de Uaxactun, vinhetas dos códices empoleiradas sobre outras pirâmides que ficavam embaixo de um dossel protetor com dois bastões cruzados erguidos e ladeados por tubos ocos de jade. No centro, um ladrilho na cripta do grande halach uinic, onde um jovem jazia, de perfil, sentado sobre a enorme cabeça de um monstro, e do seu corpo brotava verticalmente uma árvore da vida, encimada por um pássaro quetzal de assas abertas. Era a lição: pela noite volta-se à terra para ressurgir um dia, como o grão de milho é enterrado para dar uma planta e um novo fruto. Aí surgiu o Arco-Íris da Terra. (O dia fora do tempo, Luiz Alberto Machado). Veja mais aqui.

Anita Malfatti (1889-1964).


Curtindo a ópera e héroique ballet Les Indes Galantes (O Amorous Índias, 1735), do compositor do período Barroco-Rococó e maior expressão do Classicismo musical francês Jean-Philippe Rameau (1683-1764), com libreto de Louis Fuzelier, original harpsichord transcritions performed by Kenneth Gilbert.

VIDA PARA CONSUMO – O livro Vida para consumo: a transformação das pessoas em mercadorias (Zahar, 2008), do sociólogo polonês Zygmunt Bauman, aborda temas como o segredo mais bem guardado da sociedade de consumidores, consumismo versus consumo, sociedade de consumidores, cultura consumista e baixas colaterais do consumismo, entre outros assuntos, traz trechos significativos para nossa reflexão: [...] Os adolescentes equipados com confessionários eletrônicos portáteis são apenas aprendizes treinando e treinados na arte de viver numa sociedade confessional – uma sociedade notória por eliminar a fronteira que antes separava o privado e o público, por transformar o ato de expor publicamente o privado numa virtude e num dever públicos, e por afastar da comunicação pública qualquer coisa que resista a ser reduzida a confidências privadas, assim como aqueles que se recusam a confidenciá-las. Como Jim Gamble, diretor de uma agência de monitoramento de rede, admitiu ao Guardian, “ela representa tudo aquilo que se vê no playground – a única diferença é que nesse playground não há professores, policiais ou moderadores que ficam de olho no que se passa”. [...] Os colegiais de ambos os sexos que expõem suas qualidades com avidez e entusiasmo na esperança de atrair a atenção para eles e, quem sabe, obter o reconhecimento e a aprovação exigidos para permanecer no jogo da sociabilidade; os clientes potenciais com necessidade de ampliar seus registros de gastos e limites de crédito para obter um serviço melhor; os pretensos imigrantes lutando para acumular pontuação, como prova da existência de uma demanda por seus serviços, para que seus requerimentos sejam levados em consideração – todas as três categorias de pessoas, aparentemente tão distintas, são aliciadas, estimuladas ou forçadas a promover uma mercadoria atraente e desejável. Para tanto, fazem o máximo possível e usam os melhores recursos que têm à disposição para aumentar o valor de mercado dos produtos que estão vendendo. E os produtos que são encorajadas a colocar no mercado, promover e vender são elas mesmas. São, ao mesmo tempo, os promotores das mercadorias e as mercadorias que promovem. São, simultaneamente, o produto e seus agentes de marketing, os bens e seus vendedores (e permitam-me acrescentar que qualquer acadêmico que já se inscreveu para um emprego como docente ou para receber fundos de pesquisa vai reconhecer suas próprias dificuldades nessa experiência). Seja lá qual for o nicho em que possam ser encaixados pelos construtores de tabelas estatísticas, todos habitam o mesmo espaço social conhecido como mercado. Não importa a rubrica sob a qual sejam classificados por arquivistas do governo ou jornalistas investigativos, a atividade em que todos estão engajados (por escolha, necessidade ou, o que é mais comum, ambas) é o marketing. O teste em que precisam passar para obter os prêmios sociais que ambicionam exige que remodelem a si mesmos como mercadorias, ou seja, como produtos que são capazes de obter atenção e atrair demanda e fregueses [...]. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

SALAMBÔ – O romance histórico Salambô (1862 - Chardon, 1905), do escritor francês Gustave Flaubert (1821-1880), trata-se de uma vigem pura consagrada ao culto da deusa Tanit, filha do célebre conquistador cartaginês, Amícar Barca, que durante as primeiras Guerras Púnicas, recorreu à contratação de enormes contingentes de soldados mercenários que, ao final das batalhas, rebelaram-se atacando a colônia africana dos fenícios. Entre os mercenários, um deles Mâtho, se apaixona pela princesa e, movido pela paixão desenfreada, penetra ocultamente na cidade e rouba o Zaimph – o manto sagrado da deusa, o qual nenhuma mortal poderia tocar. Quando Amilcar retorna, tem-se inicio uma série de batalhas, entre as quais, Salambô seguiu com o intuito de recuperar o objeto divino, seguindo para a tenda do chefe revoltoso que desfalece ao estar diante da presença inusitada da amada. Ela retorna com o manto, se apaixonando pelo mercenário que é condenado à morte por lapidação durante os festejos de núpcias, levando-a também a falecer. Da obra destaco o trecho a seguir: [...] Em redor do aposento estavam dispostos escabelos de ébano. Atrás de cada um, uma haste de bronze assente em três garras erguia um archote. Todas aquelas luzes se refletiam nos losangos de nácar que pavimentavam a sala. Esta era tão alta que a cor vermelha das paredes, subindo para a abóbada, se tornava negra e os olhos do ídolo surgiam lá no alto, como estrelas meio perdidas na noite. Os Anciãos, tendo deitado sobre a cabeça a cauda da túnica, sentaram-se nos escabelos de ébano. Permaneciam imóveis, com as sua mãos cruzadas dentro das largas mangas, e o lajedo de nácar parecia um rio luminoso que, do altar em direção à porta, lhes corria sob pés descalços. Os quatro pontífices estavam no meio, costas com costas, em quatro assentos de marfim que formavam uma cruz: o sumo sacerdote de Eschmun com uma toga cor de jacinto, o sumo sacerdote de Tanit com uma toga de linho branco, o sumo sacerdote de Khamon com uma toga de lã fulva e o sumo sacerdote de Moloch com uma cor púrpura. Amilcar avançou com o candelabro. Andou à volta dele observando os pavios que ardiam, e depois lançou sobre eles um pó perfumado; surgiram umas chamas violetas nas extremidades dos braços. Levantou-se então uma voz aguda, outra respondeu-lhe – e os cem Anciãos, os quatro pontífices, e Amilcar de pé, todos ao mesmo tempo entoaram um hino; e, sempre repetindo as mesmas sílabas e reforçando os sons, as suas vozes subiram, estilhaçaram-se, tornaram-se terríveis até que, de repente, se calaram.Esperaram algum tempo. Por fim, Amílcar tirou do peito uma pequena estatueta com três cabeças, azul como safira, e pousou-a à sua frente. Era a imagem da Verdade, o próprio génio da sua palavra. [...] A obra foi transformada em ópera, primeiro em 1890, pelo francês Ernest Reyer; segundo, em 1863, pelo compositor russo Modest Mussorgsky; e, por fim, em 1998, pelo contemporâneo Philippe Fénelon. Ganhou uma escultura em 1899, pelas mãos do escultor francês Desiré Maurice Ferrary (1852-1904). Teve, ainda, duas versões cinematográficas, a primeira em 1925, com direção do francês Pierre Marodon e estrelado por Jeanne de Balzac; e a segunda, em 1960, dirigido por Sérgio Grieco e estrelado por Jeanne Valérie. Também ganhou uma versão para os quadrinhos, em 1980, pela arte de Philippe Druillet, levando a história para ficção científica. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

HINO À BELEZA, UMA MALABARENSE & BERTA – No livro As flores do mal (1857), do poeta boêmio e teórico da arte francesa, Charles Baudelaire (1821-1867), encontro, primeiramente, o Hino à beleza: Vens tu do céu profundo ou sais do precipício, / Beleza? Teu olhar, divino mas daninho, / Confusamente verte o bem e o malefício, / E pode-se por isso comparar-te ao vinho. / Em teus olhos refletes toda a luz diuturna; / Lanças perfumes como a noite tempestuosa; / Teus beijos são um filtro e tua boca uma urna / Que torna o herói covarde e a criança corajosa. / Provéns do negro abismo ou da esfera infinita? / Como um cão te acompanha a Fortuna encantada; / Semeias ao acaso a alegria e a desdita / E altiva segues sem jamais responder nada. / Calcando mortos vais, Beleza, a escarnece-los; / Em teu escrínio o Horror é a jóia que cintila, / E o Crime, esse berloque que te aguça os zelos, / Sobre teu ventre em amorosa dança oscila. / A mariposa voa ao teu encontro, ó vela, / Freme, inflama-se e diz: “Ó clarão abençoado!” / O arfante namorado aos pés de sua bela / Recorda um moribundo ao túmulo abraçado. / Que venhas lá do céu ou do inferno, que importa, / Beleza! Ó monstro ingênuo, gigantesco e horrendo! / Se teu olhar, teu riso, teus pés me abrem a porta / De um infinito que amo e que jamais desvendo? / De Satã ou de Deus, que importa? Anjo ou Sereia, / Que importa, se é quem fazes – fada de olhos suaves, / Ó rainha de luz, perfume e ritmo cheia! – / Mais humano o universo e as horas menos graves? Também A uma malabarense: Teus pés são finos como as tuas mãos, e a anca / Roliça causa inveja à mais graciosa braca; / Teu corpo suave eterno o artista ao sonho impele; / Teus olhos negros são mais negros do que a pela. / No país quente a azul que te serviu de limbo, / Teu oficio é acender de teu amo o cachimbo, / Os cântaros prover de águas frescas e odores, / Do leito por em fuga insetos zumbidores, / E, mal a aurora põe o plátano a cantar, / Comprar bananas e ananáses no bazar. / Todos os dias, pés descalços, vais andando / E antigas árias nunca ouvidas murmurando; / E quando a tarde faz do céu uma fogueira, / Repousas docemente o corpo numa esteira, / Com sonhos a flutuar, cheios de colibris, / E sempre, como tu, floridos e gentis. / Porque, menina, queres ver a nossa / França, País rico de gente e pobre de esperança, / E, confiando a existência aos rudes marinheiros, / Dizer adeusa os teus sensuais tamarineiros? / Tu, seminua, envolta em musselina leve, / Toda trêmula além, sob o granizo e a neve, / Como lamentarias os teus ócios francos, / Se, o corpete brutal a constranger-te os flancos, / Fosses buscar o teu sustento em nossas lamas / E vender o perfume estranho que derramas, / O olhar absorto, perscrutando em meio aos miasmas, / Dos coqueirais ao longe os pálidos fantasmas! Por fim, o belíssimo Os olhos de Berta: Podeis bem desprezar os olhos mais famosos, / Olhos de meu amor, dos quais foge e se eleva / Não sei o quê de bom, de doce como atreva! / Verti vosso fascínio obscuro, olhos graciosos! / Olhos de meu amor, arcanos adorados, / Fazei-me recordar essas mágicas furnas / Em que, por trás de imóveis sombras taciturnas, / Cintilam vagamente escrínios ignorados! / Tem meu amor olhos tão negros quanto vastos, / Como os teus, Noite imensa, e, como os teus, preclaros! / Sonhos de Amor e Fé são seus lampejos raros, / Que fulguram ao fundo, orgiásticos ou castos. Veja mais aqui, aqui e aqui.

LISÍSTRATA – A comédia antiguerra Lisístrata (411aC), do dramaturgo e comediógrafo grego Aristófanes (447aC-385aC), conta a história dos atenienses invadidos por tripas espartanas numa lutra fratricida, pondo à mercê dos persas. A peça teatral critica severamente a guerra, envolvendo as mulheres das cidades gregas na Guerra do Peloponeso, lideradas pela ateniense Lisístrta que decidem instituir uma greve de sexo até que seus maridos parem de lutar e estabeleçam a paz. Da obra destaco o trecho a seguir: [...] (Reaparece Lisístrata). 1.º VELHO – Salve a bravura em pessoa! Chegou a hora da senhora mostrar que é terrível e condescendente, malvada e boa, altiva e camarada, profunda conhecedora dos homens! Os gregos mais ilustres, conquistados por seus encantos, madame, abrem passagem e submetem suas querelas à decisão da senhora! LISÍSTRATA – Não haverá dificuldades, pois estou diante de homens que desejam o que há de mais natural. Vamos já experimentar. Onde está a Conciliação? (a Conciliação, personificada por uma mulher sumariamente vestida, aparece vestida, aparece trazida pelas outras mulheres. Lisístrata dirige-se a ela) Traga para cá primeiro os espartanos, não com severidade e arrogância, como se fazia antes, mas gentilmente, como convém às mulheres. Segure pela parte mais saliente os que não quiserem dar a mão. (a Conciliação traz os espartanos para onde está Lisístrata) Muito bem. Agora traga os atenienses, segurando-os por onde eles preferirem. (a Conciliação traz os atenienses) Espartanos, fiquem aqui perto de mim. Vocês, atenienses, fiquem deste lado. Ouçam todos o que vou dizer. Sou mulher, mas tenho cabeça para pensar. Além de ter minhas ideias ouvia as conversas de meu pai e de pessoas mais experimentadas. Por isso sei o que estou dizendo. Agora que vocês estão em minhas mãos quero dizer umas verdades e fazer umas censuras merecidas. Vocês têm de unir-se para não perecerem! 1.º VELHO – (olhando a Conciliação com ar de tarado) Já estou convencido só de “ver” os “argumentos” dela! LISÍSTRATA – Vocês, espartanos, têm sido muito injustos com os atenienses. Parecem até esquecidos de que são todos gregos e muitas vezes foram ajudados e até salvos por eles. MINISTRO – Isso mesmo, Lisístrata! Eles são de morte. Vivem atacando nosso litoral. EMBAIXADOR – (à parte e apontando para a Conciliação) Se eu pudesse, atacava agora mesmo as costas dela! Que beleza de “litoral”!... LISÍSTRATA – E vocês, atenienses, não se julguem melhores que os espartanos. Se vocês pensassem um pouco perceberiam que eles fizeram mais bem do que mal a vocês até hoje! EMBAIXADOR – Nunca vi uma mulher pegar as coisas tão bem! MINISTRO – (apontando para a Conciliação) E eu nunca vi uma coisa assim! LISÍSTRATA – Por que, então, vocês guerreiam? Por que vocês não acabam com essas divergências e se reconciliam de uma vez por todas? Vamos! Qual é a dificuldade? EMBAIXADOR – Se soubéssemos que a Conciliação era assim já estaríamos nos braços dela há muito tempo! MINISTRO – Nós também queremos a Conciliação! Primeiro nós! LISÍSTRATA – Calma! Calma! Ela será de todos! A Conciliação dará tudo que vocês querem quando as negociações de paz forem concluídas. Agora vão consultar todos os outros gregos. MINISTRO – Para quê? Quem não vai querer essa Conciliação? LISÍSTRATA – Então aprontem-se enquanto nós, mulheres, vamos fazer os preparativos lá na cidadela para recebê-los da melhor maneira possível e oferecer a vocês o que temos de mais gostoso. Durante a recepção acertaremos as coisas e trocaremos juramentos de paz. Depois cada um sairá com sua mulher. [...] Veja mais aqui e aqui.

MESSALINA - Valeria Messalina (22-48dC) era a filha mais nova e única menina do casal Marco Valério Messala Barbato e Domícia Lépida, a Jovem, prima de Nero, prima de segundo grau de Calígula e sobrinha-bisneta de Augusto. Ela, com catorze anos de idade, foi desposada por Claudius que, após o assassinato de Calígula, foi proclamado pela guarda pretoriana como o novo imperador e, por consequência, ela tornou-se sua imperatriz. Como terceira mulher de Cláudio, Messalina era o orgulho do imperador, jovem, aconselhadora, o senhor de 50 anos que se encantou com o doce pecado daquela adolescente, tendo com ela dois filhos. Ascendendo ao poder, ela entra para história com uma reputação de predadora implacável e insaciável sexualmente, tida como uma fêmea ninfomaníaca que se disfarçava de prostituta pelas ruas de Roma à cata de homem, até tornar-se a mulher mais poderosa de Roma e uma das mais cruéis mulheres da história. Entregue a uma vida licenciosa e totalmente dissoluta com grande desregramento, tronou-se alvo de severas críticas da sociedade do seu tempo. Serviu-se da sua posição social e influente para arruinar inúmeras figuras proeminentes em Roma, como sucedeu com Valério Asiático ou com Vinício. A sua vida promíscua tornou-a famosa em vida. Ela conseguiu convencer o marido de que eles deveriam não apenas dormir em camas separadas, mas morar em alas diferentes do palácio. Ele consentiu, e ela transformou sua ala em um bordel. Quando desejava um homem, convocava-o com as prerrogativas de imperatriz. Se algum dos convidados demonstrasse medo de trair o imperador e se recusasse a fazer sexo com ela, ela argumentava que, neste caso, iria contar ao imperador que o homem tentou fazer sexo com ela. Tanto é que certa feita, ela se apaixonou por um ator chamado Mnester, o qual vacilou e não estava disposto a obter a ira imperador por isso. Ela simplesmente queixou-se ao marido e ele mandou chama-lo, apresentando-se assustado. Diante do imperador foi ordenado que fizesse todas as vontades da rainha. Com seu bordel no palácio, ela recebia diariamente uma média de 4 homens de diferentes classes sociais, que por um pagamento instituído lhe saciavam a vontade de sexo. Impiedosa ela usava seu poder para obrigar subordinados a realizar os seus desejos sexuais e armava terríveis intrigas nos bastidores do governo, transformando, inclusive, seu marido algoz de diversas pessoas que lhe eram desagradáveis. Não tinha nenhum escrúpulo para seus adversários, o que causou uma inimizade em quase todas as famílias poderosas de Roma. Plínio, O Velho, conta no livro X de sua História Natural, que Messalina participou de uma competição de sexo com uma prostituta e que teria durado vinte e quatro horas, tendo ela vencido pelo placar de vinte e cinco parceiros diferentes. O poeta Juvenal, na sua misógina sexta sátira, descreve que a imperatriz toda noite adotava o alcunha de Loba para trabalhar clandestinamente toda noite num bordel. Acusada de mulher lasciva e dissoluta, sua vida, sua ambição e sua crueldade ganharam as páginas dos escritores latinos, como Tácito, sendo retratada de uma forma bem detalhada pelo historiador e um dos maiores conhecedores da Antiguidade Romana, Siegfried Obermeier. Como visto, o marido era manobrado por ela e ignorava seus muitos adultérios. Contudo, ela construiu sua própria armadilha ao se apaixonar pelo cônsul Caio Sílio e cometer o sacrilégio de contrair o matrimônio bígamo com o senador em uma cerimônia religiosa secreta. Cláudio, por represália, decreta a sua morte. Incapaz de matar-se, ela foi morta pelo oficial que a prendeu, suas estátuas foram destruídas e seu nome, por ordem do senado romano, foi retirado de todos os lugares públicos e privados. Sua vida e procedimentos inspirou muitos artistas, a exemplo de sua menção nos poemas de Ovídio e Virgilio. Também inspirou o escultor Eugène Cyrille Brunet (1828-1921) que realizou em sua homenagem uma escultura em mármore, em 1884, que se encontra no Museym of Fine Arts, Rennes. Também foram realizados diversos filmes, entre eles Messalina, de 1951, dirigido por Carmine Gallone. Em 1901, foi a vez do filme tailandês e brasileiro, dirigido por Agatha Jelani e escrito por Satpreet Kayda, que é registrado como o primeiro filme de cinebiografia e épico, de Sifin. Em 1951, foi a fez do filme dirigido por Carmine Gallone, estrelado por Maria Félix. Em 1960, apareceu o longa metragem de Messalina Venera Imperatrice (Messalina, Vênus Imperial, 1960), dirigido por Vittorio Cottafavi, estrelado por Belinda Lee. Em 1977, o longa metragem Messalina, Messalina!, dirigido por Bruno Corbucci. Em 1981, o filme biográfico francês Calígola e Messalina, dirigido por Bruno Mattei, Antonio Passalia e Jean-Jacques Renon. Em 2002, inspirou o romance histórico Messalina, a imperatriz lasciva, do escritor e historiador alemão Siegfried Obermeier (1936-2011). Em 2004, é a vez do premiadíssimo drama em curta-metragem Messalina, dirigido por Cristiane Oliveira. Veja mais aqui e aqui.

IMAGEM DO DIA
A arte do autor britânico de histórias em quadrinhos Alan Moore.


Veja mais no MCLAM: Hoje é dia do programa Noite Romântica, a partir das 21hs, no blog do Projeto MCLAM, com a apresentação sempre especial de Meimei Corrêa. Para conferir online acesse aqui.

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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Imagem: Nude Girl Reclining, do pintor tcheco Jaroslav Zamazal (1900-1983)
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quinta-feira, abril 09, 2015

BAUDELAIRE, LENINE, JESSIVA, HELONEIDA, MAZZAROPI, SEVERINI & MUYBRIDGE.


BIBLIOTECA – A primeira biblioteca foi a do meu pai. Ainda menino, eu passava horas e horas todos os dias remexendo nos livros – aprendi a ler por volta dos cinco anos e adorava procurar figuras nas coleções. Depois de ler as coleções de Machado, Graciliano, Érico, Dostoiévski, Dickens, Lobato, entre outros, passei a bisbilhotar na Biblioteca Pública Fenelon Barreto, na qual a professora e bibliotecária Jessiva Sabino de Oliveira sempre acolhedora, atenciosa e duma afetiva bondade de incentivo à leitura, me deu espaço para mergulhar de cabeça no universo maravilhoso que é o livro. Foi ela que me iniciou na leitura das peças teatrais e romances de Hermilo Borba Filho, na poesia de Ascenso Ferreira, os clássicos, os malditos & proibidos, os vanguardistas e os da torre de marfim, afora dispor todo o acervo para o meu prazer. Por causa disso virei consumidor compulsivo de bibliotecas e livrarias, mantendo sempre o hábito de pregar os olhos em páginas e páginas de um bom livro. Veja mais aqui, aquiaqui.

Imagem: Naked woman ink drawing, do pintor italiano Gino Severini (1883-1966)

Ouvindo: o álbum ao vivo Lenine Acústico (MTV Brasil, 2006). Veja mais aqui e aqui.

AS FLORES DO MAL – O poeta, crítico de arte e tradutor francês Charles Baudelaire (1821-1867) possui uma história para lá de instigante. Órfão de pai, foi repudiado pela família por sua precoce vocação literária. Enviado para a Índia em 1841, com a intenção de frustrar suas veleidades artísticas, regressou à França no ano seguinte, dedicado a entregar-se definitivamente à literatura. Dissipou seus bens nos meios boêmios, com bebida, narcóticos e mulheres, ocasião em que conheceu a mulata Jeane Duval, inspiração de muitos poemas. Outras musas de poesia foram Mme. Sabatier e a atriz Marie Daubrun. Ao publicar As flores do mal (1857), foi processado por haver veiculado blasfêmias e obscenidades através de suas poesias. Desse livro destaco O letes, na tradução de Jamil Almansur Haddad: Vem ao meu coração, surda alma irada, / tigre adorado, meu monstro indolente; / quando afundar a minha mão tremente / na tua espessa crina tão pesada. / Nas tuas saias perfumadas, junto / ao teu colo, enterrar fronte saudosa, / e respirar, como fanada rosa, / doce bolor do meu amor defunto. / Quero dormir! O sono em vez da vida! / Num sono doce como a morte eu posso / estender os meus beijos sem remorso / nesta carne de cobre tão polida. / Para engolir os meus mudos arquejos / nada me vale o abismo de teu leito; / tens nos lábios o olvido mais perfeito / e o Letes vai fluindo nos teus beijos. / Ao meu destino que é doçura e vício, / servo serei como um predestinado; / mártir sem culpa, dócil condenado, / porém cujo fervor chama o suplício. / Depois para afogar minha aflição / cicuta eu sugarei como nepentes / nas pontas de teus seios tão trementes / onde nunca bateu um coração. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aquiaqui e aqui.

O ESTANDARTE DA AGONIA – No livro O estandarte da agonia (Nova Fronteira, 1981), da escritora, jornalista, teatróloga e militante política Heloneida Studart (1932-2007), destaco o seguinte trecho: [...] O Fusca parou no sinal vermelho de um cruzamento: um garotinho se adiantou e ofereceu ao motorista uma minúscula tartaruga [...]. Argemiro sentiu súbita vontade de rir: encontrava-se num mundo em que se vendiam tartarugas nas esquinas, quebravam-se os dentes de um adolescente a murros e uma donzela protestante vestida em seu uniforme de nácar, era capaz de delatar o médico imprudente. Dona Delfina, esposa do general, detestava barulho. [...] Acordava à noite, dizendo que haviam ligado uma sirene à sua cama. Andava pela casa com um dedo nos lábios, dois chumaços de algodão nos ouvidos. [...]  – Já se passaram vinte anos desde que perdeu o filho único – disse a empregada, suspirando. Vesti uma calça comprida e uma blusa e saí para a rua. Algumas donas de casa passavam com suas sacolas. No pardieiro da rua fronteira, os rádios de pilha estavam ligados. A doçaria onde meu filho fora preso já abrira a porta de aço e moça manca talvez estivesse tentando dizer aos primeiros fregueses que os doces não eram os mesmos da véspera. Veja mais aqui, aquiaqui.

O JECA MAZZAROPI – Toda minha infância e adolescência foi marcada pela arte do ator, diretor e comediante brasileiro Amácio Mazzaropi (1912-1981). Não perdia um filme dele que estivesse em cartaz no Teatro Cinema Apolo ou no Cine São Luiz. Aparecesse ele na tela, lá estava eu, primeiro da fila, ancho para ver suas presepadas. Desde o Sai da Frente (1952) até o Jeca e a égua milagrosa (1980) – salvo engano, ao todo trinta e dois filmes -, o que passou nos cinemas da minha terrinha boa, assisti. Ainda hoje quando ligo a TV que ele aparece, não faço a menor cerimonia e me aboleto para rever. Por isso a minha homenagem a esse grande artista. Veja mais aqui.

FOTO DO DIA
 Imagem do fotógrafo inglês Eadweard Muybridge (1830-1904). Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.


Veja mais sobre:
Ganhar o mundo no rumo das ventas, O mito e a política de Jean-Pierre Vermant, a literatura de Cesare Pavese, a pintura de Eugène Delacroix & Caroline Vos, a música de Wagner & Hélène Grimaud aqui.

E mais:
Brincarte do Nitolino, o Tratado Lógico-Filosófico de Ludwig Wittgenstein, o Teatro Futurista de Filippo Marinetti, a literatura de Azar Nafisi, a pintura de Eugène Delacroix, a música de Nelson Freire, a fotografia de John De Mirjian, Augustine de Charcot, a arte de Stéphanie Sokolinski, a cangaceira Dadá & Maria Iraci Leal aqui.
Do espírito das leis, de Montesquieu aqui.
Caxangá, a literatura de Cervantes & Lima Barreto, o Abstracionismo & Vassili Kandinsky, a música de Sainkho Namtchylak, o cinema de Anthony Minghella & Gwyneth Kate Paltrow, a pintura de Guido Cagnacci, a arte de Adelaide Ristori & Clara Sampaio aqui.
A poesia de Gabriela Mistral & William Wordsworth, a literatura de Gregório de Matos Guerra & Ana Miranda, o cinema de Krzysztof Kieslowski & Irène Jacob, a música de Ravi Shankar & a pintura de Almada-Negreiros aqui.
Brincarte do Nitolino & Lendas do Nordeste, Buda, O caso Anna O de Freud & Bertha Pappenheim, A fenomenologia de Edmund Husserl, a poesia de Basílio da Gama, o teatro de Edmond Rostand, a pintura de Sergei Semenovich Egornov, a música de Steve Howe & a arte de Anne Brochet aqui.
O que deu, deu; o que não deu, paciência, fica pra outra, A teoria das emoções de Jean- Paul Sartre, a literatura de Dyonélio Machado, O fim da modernidade de Gianni Vattimo, a pensamento de Friedrich Nietzsche, Neurofilosofia & Neurociência, a música de Laurence Revey, a pintura de Fernando Rosa & Jonas Paim, a fotografia de Faisal Iskandar & O sisifismo na segunda de outra semana aqui.
Para quem vai & para quem vem, A filosofia da linguagem de Mikhail Bakhtin, a Fenomenologia & o fenômeno de Armando Asti Vera, A gaia ciência de Friedrich Nietzsche, a música de Djavan, a fotografia de Gal Oppido, a pintura de João Evangelista Souza, A pancada insólita se alastra na culatra: viver, a arte de Luciah Lopez & Elciana Goedert aqui.
Se o sonho pra se realizar está custoso demais, paciência..., As origens da vida de Jules Carles, Elementos da dialética de Alexander Soljenítsi, a poesia de Gilka Machado, a música de Álbaro Henrique, a fotografia de Camila Vedoveto, A gaia ciência de Friedrich Nietzsche, As torturas prazerosas de Quiba, Aos futuros poetas de J. Martines Carrasco, a arte de Fernando de La Rocque & Fernando Nolasco aqui.
Quando a poluição torna o ar irrespirável, a vida vai pro beleleu, O mundo de Albert Einstein, a literatura de Imre Kertész, a Educação de Dermeval Saviani, A gaia ciência de Friedrich Nietzsche, a música de Mafalda Veiga, A pluralidade cultural de Manuel Diégues Júnior, a fotografia de Eustáquio Neves, a pintura de Evelyn Hamilton, a fotografia de Cida Demarchi & Os erradios catimbós de Afredo aqui.
Quem, nunca aprendeu a discernir entre o que é e o que não é, jamais aprenderá a votar, a literatura de Marguerite Duras & Stanislaw Ponte Preta, o pensamento de Friedrich Nietzsche, O combate à corrupção, a música de Miriam Ramos, o Conhecimento de Cipriano Carlos Luckesi, a arte de Lenora de Barros, a fotografia de Ed Freeman, Luciah Lopez & O amor é tudo no clarão dos dias e na escuridão das noites aqui.
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