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quinta-feira, julho 28, 2016

DUCHAMP, BATAILLE, BACH & RACHEL PODGER, ADONIAS FILHO, KARIN VAN DER BROOCKE, JAROSLAV ZAMAZAL, MANOEL MAURÍCIO DE ALBUQUERQUE, VANGUARD, KÉFERA BUCHMANN & PENEDO


BOA NOITE PENEDO, ÀS MARGENS DO SÃO FRANCISCO - Aqui estou, Velho Chico, o sol nos olhos de janeiro e a rua espia a calma das pessoas no seu lar. Aqui estou, menino grande e que o telefone saiba que eu existo neste quarteirão de mundo, a esperar que a cerveja anime uma emoção que valha o filme da televisão, a esperar que o cinzeiro não esborre a quietude de bulir no coração. Aqui estou, Velho Chico, e o Sol, meus companheiros nesse crepúsculo tão maravilhoso. Julgava saber tudo até presenciar escunas burilando meu sangue e eu pudesse dizer ao mundo o quanto é lindo poder viver aqui, neste lugar, nesse recanto de mundo, nessa margem do tempo. A quinta-feira já se despede dizendo ao mundo que a vida prossegue amanhã. E amanhã de manhã estarás aí, Velho Chico, e o Sol nos saudará para que incautos nos possam ver tão mágicos quanto lúcidos na vida. E se o Sol morre agora lá na serra, ele nasce noutra pradaria. E nós, na escuridão da noite, nos despedimos como se fosse a última vez. Pois é, Velho Chico, tua serenidade me seduz pro amor, acaso possa eu ser capaz de tal iniciação na minha teimosia de viver. Se eu sei, quem saberá? Pra quê saber das coisas, dos seres, das gias mais confusas dos pedantes?  Na verdade eu sequer sei, como também não sabes, nem o vórtice da ciência, nem o douto julgador. Pois é, meu velho amigo, dessas horas diminutas, tão miúdas, tão presentes, nem sequer sabemos da poesia tão pobre, tão pura, mera versificação duma louca vontade de dizer até o fim o que a própria deidade mais profana poderia dizer. Dizer do quê? Pra quê dizer? A boca fala do que está cheio o coração em possessão de segundos minutos horas e eu digo que há dias meses anos décadas séculos, quanta sede, quanta explosão de sentimentos tão vulneráveis, tão superficiais, tão fingidos do que deveras sente, a quem é só coração numa noite já sem crepúsculo já sem Sol sem noite sem nada, verdadeira catarse do próprio José sem ter para onde ir não chegou a lugar nenhum. Ah, que eu nem sei nem ousaria saber! Salve nós molambos cegos retraços soltos sujos nojentos bagaços trapos inermes e a infinitude imensa do glutão que abocanharia até plutão! Oh! não! Ah! Só a ti, Velho Chico, a minha segunda catarse. Agora sexta-feira mais íngreme que qualquer outra, mais lúcida que a overdose da criação no estigma do trejeito poético e no anátema das cinzas, a quem o ser não é mais que reduzido a pó, barro que é alma, alma que é sonho, sonho que é nada, nada é o que me faz dizer asneiras loucas próximas do sábio doido que não existe e é infante sem saber de si, sem saber do longe, sem saber do perto, sem saber de ontem ou anteontem, sem saber amanhã de manhã! Que calendário mais hostil prá quem não sabe da desvairada transcendência do triz do cis do pró do pré do pós do mú de escorpião do leirão e da pedra de mó do dó da canção meu sermão sem refrão sem praia sem raiz pra laia mais luzente no sol poente de Alagoas as loas as coisas boas do Pernambuco lavor tão louco do kabuki do trabuco que o homem do canavial carrega nas faces queimadas da safra e espinafra o suor insone de quem pende o outro lado da corda da banda do Chico Buarque de Hollanda polindo o verniz pra gente fiéis mais descrentes da fé mais desvalida do que me diga de Fridda ou de Florbela Espanca ou da mais singular carranca de Caruaru. Já estou nu, Velho Chico, nem mesmo rei mais despido no cós no vestido partido no meio o veio que dá para o mar sabe da sua nudez. Não há mais cabeça pra imaginar o possível no mais contrário factível de se encontrar. Há e por haver imaginação ou loucura teor maior da emanação desvão tresloucado do lado do não. Meu velho amigo Chico, estou na rua alma nua transparente, o que dizer se mente, se ela só sabe lembrar o que dói ou o que alegra, refrega dum labirinto, brinco da loucura e a voz mais pura solfeja o que é amar. Boa noite, Penedo, vou pra Maceió onde o vento canta ao meu ouvido em dó menor. Vou para Maceió descer para Recife e se o que eu disse foi despudor, maior o calor de sentir a emoção do verdadeiro amor. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui e aqui.

 Imagem: a arte do artista francês Marcel Duchamp (1887-1968). Veja mais aqui.

 Curtindo os álbuns Bach: Sonatas & Partitas for violin solo (Channel Classics, 2002), do compositor alemão Johann Sebastian Bach (1685-1750), na interpretação da violinista britânica Rachel Podger.

PESQUISA:
Nomes não lhe faltaram. Enganosos, uns, como o de Ilha de Vera Cruz, retificantes outros, tal o de Terra de Santa Cruz. Pindorama parece haver sido a contrafação indigenista de algum tupi,, que já conhecesse a concepção burguesa de Pátria e houvesse percorrido as páginas sisudas de Martius e de Barbosa Rodrigues [...] Quanto aos ruidosos motivos de Terra dos Papagaios, ainda continuam vivos, embora batendo em retirada, depois de haverem deslumbrado a Europa renascentista e barroca e de figurarem no tropicalismo equivoco da Política de Boa Vizinhança. Brasil, acabou definitivo, salvo mudança gráfica menor. Testemunhava a perenidade dos interesses mercantis quando se assenhoream da riqueza realizada pelo produtor direto. É deste construtor, responsável pela atividade que faz da formação social brasileira uma estrutura viva, em perene transformação [...].
Trecho da obra Pequena história da formação social brasileira (Graal, 1986), do professor, geógrafo e historiador Manoel Maurício de Albuquerque (1927-1981). Veja mais aqui, aqui e aqui.

LEITURA
[...] Tarai Januária, naquele momento justo no couro de boi, não devia dormir. Pensaria nele, Tonho Beré, e nos ossos de Pedro Cobra. Índia pataxó, aquela mãe que tem, capaz de todas as raivas. E ele mesmo, Tonho Beré quanto pataxó não lhe corre nas veias! Deitado, a rede parada, a fogueira. E escuta a voz que, ordenando, exclama: — Eu quero os ossos! [...] Eu vi no momento o sangue do Calupo na terra, morrendo para fazer o que tínhamos, seus ossos no chão. Vi também os umbigos dos meus filhos plantados neste mesmo chão. Tudo isso eu vi, de repente, com a garganta apertando e os olhos já cheios de sangue. Não, nem ele, nem eu, ninguém sairia do que era nosso! Isso eu disse, gritando, e nos prepararmos para a guerra. — Pois então seja assim – Coé concordou. [...].
Trecho da obra As velhas (Civilização Brasileira, 1977), do escritor, jornalista e crítico literário Adonias Filho (1915-1990).

PENSAMENTO DO DIA: 
[...] é triste dizer que a humanidade consciente continua sendo minoria: ela reconhece o direito a adquirir, a conservar, ou a consumir racionalmente, mas ela exclui, em princípio, a despesa improdutiva. [...] o ódio à despesa é a razão de ser e a justificativa da burguesia: ele é, ao mesmo tempo, o princípio de sua assustadora hipocrisia.
Trecho da obra La part maudite (Editions de Minuit, 1967), do escritor francês Georges Bataille (1897-1962).  Veja mais aqui.

IMAGEM DO DIA: 
A arte da fotógrafa Karin van der Broocke.

Veja mais sobre Zine Nascente Poético, Ludwig Feuerbach, Freud & as mulheres, Denis Diderot, Marcel Duchamp, Ernest Chausson, Mário Souto Maior & o Dicionário da Cachaça, Luis Fernando Veríssimo, Sandrine Piau, Ana Maria Magalhães & Claudia Ohana aqui.

DESTAQUE:
A arte da atriz, cantora, vlogueira, apresentadora e escritora Kéfera Buchmann.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do pintor tcheco Jaroslav Zamazal (1900-1983).
Veja mais aquiaqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Zine vietnamita Vanguard, criado por Thanh Nu Mai e Aiden Nguyen, para divulgação das artes visuais e literárias.
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
Veja aqui e aqui.



sábado, julho 25, 2015

BAUMAN, FLAUBERT, MALFATTI, BAUDELAIRE, RAMEAU, ARISTÓFANES, MESSALINA, ALAN MOORE, ZAMAZAL & DIA FORA DO TEMPO!


VAMOS APRUMAR A CONVERSA? O DIA FORA DO TEMPO – Amanheceu. Era vinte e cinco de julho dos meus calendários tzolkin e haab. Naquele instante entoei vinte vezes o Hino de Akhenaton. Depois me sentei, ereto, mãos sobre as coxas, e contemplei os primeiros raios que emergiam da aurora rósea, o espetáculo dos primeiros sinais da manhã. E fechei os olhos para viver aquele momento. Logo percebi a aproximação dos invisíveis sábios que se formavam diante de mim e ao meu lado. Um deles empunhava o Popol-vuh, o Códice de Dresde e a lição de cinquenta e dois anos num gnômon que trazia a indicação do cômputo numerado do tempo no zero, uma data origem da última entre as quatro Criações do Mundo. Pude perceber um cenário que emergia por meio de figuras geométricas que se formavam como círculos, algarismos que sinalizam o tempo galáctico, cifras expressando ciclos lineares e aspectos multidimensionais, datas, lunações, eclipses, o ritmo das estações, ângulos cambiantes, triangulações, mensuração de sombras. Nessas imagens formadas, havia uma mensagem subjacente que pude interpretar nas ameias heliocoidais, trazendo as determinações de solstícios e equinócios, revelando o cumprimento de lavrar, semear, colher nos períodos propícios e favoráveis. Foi quando uma Luz Cósmica iluminou sobre o tempo e a existência humana. Ao lado surgiu a Lua Planetária Vermelha e ouvi uma voz inaudível num idioma insólito que me falava à compreensão: os dias são seres vivos e patrocinados por um deus de natureza dupla. Ao entender isso, logo vi a estrela do Pastor – a primeira a luzir, a última a se pagar. E era como se eu visse o tempo transportado para o futuro, por deuses que se revezavam e se substituíam uns aos outros por turnos no governo do mundo: o dia sucedendo a noite. E cada um deles, por sua vez, tomava às costas o fardo do tempo preso por uma cilha frontal. E ao final do turno cedia a outro deus noturno e assim por diante. Foi quando pude ver os treze deuses que reinam cada mês: a estela D de Copan com inscrições sobre baktuns, katuns, tuns, uinal, kines. Outra voz me explicava sobre pintun, kalabtun e kicliltun dos períodos venusianos. Eu não os ouvia, mas sabia o que falavam. Nesse momento tive a compreensão de que o Sol no inverno se posiciona mais ao sul; no verão, mais ao norte. Logo outra voz inaudita me alertava para os cinco dias epagômenos: o uayeb - dias que requerem abstinência. E de repente surgiu um painel numa cripta insculpida em alto-relevo com os nove Senhores das Trevas e da morte em volta de um sarcófago. Fiquei impressionado e fui puxado por um deles para um pequeno templo com estranhos tampões circulares de pedra e que estava encaixado entre ladrilhos triangulares, pelo qual me conduziram a um dintel com um deus surgindo da goela de uma serpente, ameaçando com seu dardo o suplicante acocorado diante dele. E fui conduzido para um vão no qual dei no primeiro degrau de uma escada íngreme que findava num salão com estatuetas coroplásticas de Jaina, monumentos de estelas de Quiriga e Copan, painéis e dintéis de Yaxchilan, Palenque e Piedras Negras e, no topo da pirâmide de E-VIII de Uaxactun, vinhetas dos códices empoleiradas sobre outras pirâmides que ficavam embaixo de um dossel protetor com dois bastões cruzados erguidos e ladeados por tubos ocos de jade. No centro, um ladrilho na cripta do grande halach uinic, onde um jovem jazia, de perfil, sentado sobre a enorme cabeça de um monstro, e do seu corpo brotava verticalmente uma árvore da vida, encimada por um pássaro quetzal de assas abertas. Era a lição: pela noite volta-se à terra para ressurgir um dia, como o grão de milho é enterrado para dar uma planta e um novo fruto. Aí surgiu o Arco-Íris da Terra. (O dia fora do tempo, Luiz Alberto Machado). Veja mais aqui.

Anita Malfatti (1889-1964).


Curtindo a ópera e héroique ballet Les Indes Galantes (O Amorous Índias, 1735), do compositor do período Barroco-Rococó e maior expressão do Classicismo musical francês Jean-Philippe Rameau (1683-1764), com libreto de Louis Fuzelier, original harpsichord transcritions performed by Kenneth Gilbert.

VIDA PARA CONSUMO – O livro Vida para consumo: a transformação das pessoas em mercadorias (Zahar, 2008), do sociólogo polonês Zygmunt Bauman, aborda temas como o segredo mais bem guardado da sociedade de consumidores, consumismo versus consumo, sociedade de consumidores, cultura consumista e baixas colaterais do consumismo, entre outros assuntos, traz trechos significativos para nossa reflexão: [...] Os adolescentes equipados com confessionários eletrônicos portáteis são apenas aprendizes treinando e treinados na arte de viver numa sociedade confessional – uma sociedade notória por eliminar a fronteira que antes separava o privado e o público, por transformar o ato de expor publicamente o privado numa virtude e num dever públicos, e por afastar da comunicação pública qualquer coisa que resista a ser reduzida a confidências privadas, assim como aqueles que se recusam a confidenciá-las. Como Jim Gamble, diretor de uma agência de monitoramento de rede, admitiu ao Guardian, “ela representa tudo aquilo que se vê no playground – a única diferença é que nesse playground não há professores, policiais ou moderadores que ficam de olho no que se passa”. [...] Os colegiais de ambos os sexos que expõem suas qualidades com avidez e entusiasmo na esperança de atrair a atenção para eles e, quem sabe, obter o reconhecimento e a aprovação exigidos para permanecer no jogo da sociabilidade; os clientes potenciais com necessidade de ampliar seus registros de gastos e limites de crédito para obter um serviço melhor; os pretensos imigrantes lutando para acumular pontuação, como prova da existência de uma demanda por seus serviços, para que seus requerimentos sejam levados em consideração – todas as três categorias de pessoas, aparentemente tão distintas, são aliciadas, estimuladas ou forçadas a promover uma mercadoria atraente e desejável. Para tanto, fazem o máximo possível e usam os melhores recursos que têm à disposição para aumentar o valor de mercado dos produtos que estão vendendo. E os produtos que são encorajadas a colocar no mercado, promover e vender são elas mesmas. São, ao mesmo tempo, os promotores das mercadorias e as mercadorias que promovem. São, simultaneamente, o produto e seus agentes de marketing, os bens e seus vendedores (e permitam-me acrescentar que qualquer acadêmico que já se inscreveu para um emprego como docente ou para receber fundos de pesquisa vai reconhecer suas próprias dificuldades nessa experiência). Seja lá qual for o nicho em que possam ser encaixados pelos construtores de tabelas estatísticas, todos habitam o mesmo espaço social conhecido como mercado. Não importa a rubrica sob a qual sejam classificados por arquivistas do governo ou jornalistas investigativos, a atividade em que todos estão engajados (por escolha, necessidade ou, o que é mais comum, ambas) é o marketing. O teste em que precisam passar para obter os prêmios sociais que ambicionam exige que remodelem a si mesmos como mercadorias, ou seja, como produtos que são capazes de obter atenção e atrair demanda e fregueses [...]. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

SALAMBÔ – O romance histórico Salambô (1862 - Chardon, 1905), do escritor francês Gustave Flaubert (1821-1880), trata-se de uma vigem pura consagrada ao culto da deusa Tanit, filha do célebre conquistador cartaginês, Amícar Barca, que durante as primeiras Guerras Púnicas, recorreu à contratação de enormes contingentes de soldados mercenários que, ao final das batalhas, rebelaram-se atacando a colônia africana dos fenícios. Entre os mercenários, um deles Mâtho, se apaixona pela princesa e, movido pela paixão desenfreada, penetra ocultamente na cidade e rouba o Zaimph – o manto sagrado da deusa, o qual nenhuma mortal poderia tocar. Quando Amilcar retorna, tem-se inicio uma série de batalhas, entre as quais, Salambô seguiu com o intuito de recuperar o objeto divino, seguindo para a tenda do chefe revoltoso que desfalece ao estar diante da presença inusitada da amada. Ela retorna com o manto, se apaixonando pelo mercenário que é condenado à morte por lapidação durante os festejos de núpcias, levando-a também a falecer. Da obra destaco o trecho a seguir: [...] Em redor do aposento estavam dispostos escabelos de ébano. Atrás de cada um, uma haste de bronze assente em três garras erguia um archote. Todas aquelas luzes se refletiam nos losangos de nácar que pavimentavam a sala. Esta era tão alta que a cor vermelha das paredes, subindo para a abóbada, se tornava negra e os olhos do ídolo surgiam lá no alto, como estrelas meio perdidas na noite. Os Anciãos, tendo deitado sobre a cabeça a cauda da túnica, sentaram-se nos escabelos de ébano. Permaneciam imóveis, com as sua mãos cruzadas dentro das largas mangas, e o lajedo de nácar parecia um rio luminoso que, do altar em direção à porta, lhes corria sob pés descalços. Os quatro pontífices estavam no meio, costas com costas, em quatro assentos de marfim que formavam uma cruz: o sumo sacerdote de Eschmun com uma toga cor de jacinto, o sumo sacerdote de Tanit com uma toga de linho branco, o sumo sacerdote de Khamon com uma toga de lã fulva e o sumo sacerdote de Moloch com uma cor púrpura. Amilcar avançou com o candelabro. Andou à volta dele observando os pavios que ardiam, e depois lançou sobre eles um pó perfumado; surgiram umas chamas violetas nas extremidades dos braços. Levantou-se então uma voz aguda, outra respondeu-lhe – e os cem Anciãos, os quatro pontífices, e Amilcar de pé, todos ao mesmo tempo entoaram um hino; e, sempre repetindo as mesmas sílabas e reforçando os sons, as suas vozes subiram, estilhaçaram-se, tornaram-se terríveis até que, de repente, se calaram.Esperaram algum tempo. Por fim, Amílcar tirou do peito uma pequena estatueta com três cabeças, azul como safira, e pousou-a à sua frente. Era a imagem da Verdade, o próprio génio da sua palavra. [...] A obra foi transformada em ópera, primeiro em 1890, pelo francês Ernest Reyer; segundo, em 1863, pelo compositor russo Modest Mussorgsky; e, por fim, em 1998, pelo contemporâneo Philippe Fénelon. Ganhou uma escultura em 1899, pelas mãos do escultor francês Desiré Maurice Ferrary (1852-1904). Teve, ainda, duas versões cinematográficas, a primeira em 1925, com direção do francês Pierre Marodon e estrelado por Jeanne de Balzac; e a segunda, em 1960, dirigido por Sérgio Grieco e estrelado por Jeanne Valérie. Também ganhou uma versão para os quadrinhos, em 1980, pela arte de Philippe Druillet, levando a história para ficção científica. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

HINO À BELEZA, UMA MALABARENSE & BERTA – No livro As flores do mal (1857), do poeta boêmio e teórico da arte francesa, Charles Baudelaire (1821-1867), encontro, primeiramente, o Hino à beleza: Vens tu do céu profundo ou sais do precipício, / Beleza? Teu olhar, divino mas daninho, / Confusamente verte o bem e o malefício, / E pode-se por isso comparar-te ao vinho. / Em teus olhos refletes toda a luz diuturna; / Lanças perfumes como a noite tempestuosa; / Teus beijos são um filtro e tua boca uma urna / Que torna o herói covarde e a criança corajosa. / Provéns do negro abismo ou da esfera infinita? / Como um cão te acompanha a Fortuna encantada; / Semeias ao acaso a alegria e a desdita / E altiva segues sem jamais responder nada. / Calcando mortos vais, Beleza, a escarnece-los; / Em teu escrínio o Horror é a jóia que cintila, / E o Crime, esse berloque que te aguça os zelos, / Sobre teu ventre em amorosa dança oscila. / A mariposa voa ao teu encontro, ó vela, / Freme, inflama-se e diz: “Ó clarão abençoado!” / O arfante namorado aos pés de sua bela / Recorda um moribundo ao túmulo abraçado. / Que venhas lá do céu ou do inferno, que importa, / Beleza! Ó monstro ingênuo, gigantesco e horrendo! / Se teu olhar, teu riso, teus pés me abrem a porta / De um infinito que amo e que jamais desvendo? / De Satã ou de Deus, que importa? Anjo ou Sereia, / Que importa, se é quem fazes – fada de olhos suaves, / Ó rainha de luz, perfume e ritmo cheia! – / Mais humano o universo e as horas menos graves? Também A uma malabarense: Teus pés são finos como as tuas mãos, e a anca / Roliça causa inveja à mais graciosa braca; / Teu corpo suave eterno o artista ao sonho impele; / Teus olhos negros são mais negros do que a pela. / No país quente a azul que te serviu de limbo, / Teu oficio é acender de teu amo o cachimbo, / Os cântaros prover de águas frescas e odores, / Do leito por em fuga insetos zumbidores, / E, mal a aurora põe o plátano a cantar, / Comprar bananas e ananáses no bazar. / Todos os dias, pés descalços, vais andando / E antigas árias nunca ouvidas murmurando; / E quando a tarde faz do céu uma fogueira, / Repousas docemente o corpo numa esteira, / Com sonhos a flutuar, cheios de colibris, / E sempre, como tu, floridos e gentis. / Porque, menina, queres ver a nossa / França, País rico de gente e pobre de esperança, / E, confiando a existência aos rudes marinheiros, / Dizer adeusa os teus sensuais tamarineiros? / Tu, seminua, envolta em musselina leve, / Toda trêmula além, sob o granizo e a neve, / Como lamentarias os teus ócios francos, / Se, o corpete brutal a constranger-te os flancos, / Fosses buscar o teu sustento em nossas lamas / E vender o perfume estranho que derramas, / O olhar absorto, perscrutando em meio aos miasmas, / Dos coqueirais ao longe os pálidos fantasmas! Por fim, o belíssimo Os olhos de Berta: Podeis bem desprezar os olhos mais famosos, / Olhos de meu amor, dos quais foge e se eleva / Não sei o quê de bom, de doce como atreva! / Verti vosso fascínio obscuro, olhos graciosos! / Olhos de meu amor, arcanos adorados, / Fazei-me recordar essas mágicas furnas / Em que, por trás de imóveis sombras taciturnas, / Cintilam vagamente escrínios ignorados! / Tem meu amor olhos tão negros quanto vastos, / Como os teus, Noite imensa, e, como os teus, preclaros! / Sonhos de Amor e Fé são seus lampejos raros, / Que fulguram ao fundo, orgiásticos ou castos. Veja mais aqui, aqui e aqui.

LISÍSTRATA – A comédia antiguerra Lisístrata (411aC), do dramaturgo e comediógrafo grego Aristófanes (447aC-385aC), conta a história dos atenienses invadidos por tripas espartanas numa lutra fratricida, pondo à mercê dos persas. A peça teatral critica severamente a guerra, envolvendo as mulheres das cidades gregas na Guerra do Peloponeso, lideradas pela ateniense Lisístrta que decidem instituir uma greve de sexo até que seus maridos parem de lutar e estabeleçam a paz. Da obra destaco o trecho a seguir: [...] (Reaparece Lisístrata). 1.º VELHO – Salve a bravura em pessoa! Chegou a hora da senhora mostrar que é terrível e condescendente, malvada e boa, altiva e camarada, profunda conhecedora dos homens! Os gregos mais ilustres, conquistados por seus encantos, madame, abrem passagem e submetem suas querelas à decisão da senhora! LISÍSTRATA – Não haverá dificuldades, pois estou diante de homens que desejam o que há de mais natural. Vamos já experimentar. Onde está a Conciliação? (a Conciliação, personificada por uma mulher sumariamente vestida, aparece vestida, aparece trazida pelas outras mulheres. Lisístrata dirige-se a ela) Traga para cá primeiro os espartanos, não com severidade e arrogância, como se fazia antes, mas gentilmente, como convém às mulheres. Segure pela parte mais saliente os que não quiserem dar a mão. (a Conciliação traz os espartanos para onde está Lisístrata) Muito bem. Agora traga os atenienses, segurando-os por onde eles preferirem. (a Conciliação traz os atenienses) Espartanos, fiquem aqui perto de mim. Vocês, atenienses, fiquem deste lado. Ouçam todos o que vou dizer. Sou mulher, mas tenho cabeça para pensar. Além de ter minhas ideias ouvia as conversas de meu pai e de pessoas mais experimentadas. Por isso sei o que estou dizendo. Agora que vocês estão em minhas mãos quero dizer umas verdades e fazer umas censuras merecidas. Vocês têm de unir-se para não perecerem! 1.º VELHO – (olhando a Conciliação com ar de tarado) Já estou convencido só de “ver” os “argumentos” dela! LISÍSTRATA – Vocês, espartanos, têm sido muito injustos com os atenienses. Parecem até esquecidos de que são todos gregos e muitas vezes foram ajudados e até salvos por eles. MINISTRO – Isso mesmo, Lisístrata! Eles são de morte. Vivem atacando nosso litoral. EMBAIXADOR – (à parte e apontando para a Conciliação) Se eu pudesse, atacava agora mesmo as costas dela! Que beleza de “litoral”!... LISÍSTRATA – E vocês, atenienses, não se julguem melhores que os espartanos. Se vocês pensassem um pouco perceberiam que eles fizeram mais bem do que mal a vocês até hoje! EMBAIXADOR – Nunca vi uma mulher pegar as coisas tão bem! MINISTRO – (apontando para a Conciliação) E eu nunca vi uma coisa assim! LISÍSTRATA – Por que, então, vocês guerreiam? Por que vocês não acabam com essas divergências e se reconciliam de uma vez por todas? Vamos! Qual é a dificuldade? EMBAIXADOR – Se soubéssemos que a Conciliação era assim já estaríamos nos braços dela há muito tempo! MINISTRO – Nós também queremos a Conciliação! Primeiro nós! LISÍSTRATA – Calma! Calma! Ela será de todos! A Conciliação dará tudo que vocês querem quando as negociações de paz forem concluídas. Agora vão consultar todos os outros gregos. MINISTRO – Para quê? Quem não vai querer essa Conciliação? LISÍSTRATA – Então aprontem-se enquanto nós, mulheres, vamos fazer os preparativos lá na cidadela para recebê-los da melhor maneira possível e oferecer a vocês o que temos de mais gostoso. Durante a recepção acertaremos as coisas e trocaremos juramentos de paz. Depois cada um sairá com sua mulher. [...] Veja mais aqui e aqui.

MESSALINA - Valeria Messalina (22-48dC) era a filha mais nova e única menina do casal Marco Valério Messala Barbato e Domícia Lépida, a Jovem, prima de Nero, prima de segundo grau de Calígula e sobrinha-bisneta de Augusto. Ela, com catorze anos de idade, foi desposada por Claudius que, após o assassinato de Calígula, foi proclamado pela guarda pretoriana como o novo imperador e, por consequência, ela tornou-se sua imperatriz. Como terceira mulher de Cláudio, Messalina era o orgulho do imperador, jovem, aconselhadora, o senhor de 50 anos que se encantou com o doce pecado daquela adolescente, tendo com ela dois filhos. Ascendendo ao poder, ela entra para história com uma reputação de predadora implacável e insaciável sexualmente, tida como uma fêmea ninfomaníaca que se disfarçava de prostituta pelas ruas de Roma à cata de homem, até tornar-se a mulher mais poderosa de Roma e uma das mais cruéis mulheres da história. Entregue a uma vida licenciosa e totalmente dissoluta com grande desregramento, tronou-se alvo de severas críticas da sociedade do seu tempo. Serviu-se da sua posição social e influente para arruinar inúmeras figuras proeminentes em Roma, como sucedeu com Valério Asiático ou com Vinício. A sua vida promíscua tornou-a famosa em vida. Ela conseguiu convencer o marido de que eles deveriam não apenas dormir em camas separadas, mas morar em alas diferentes do palácio. Ele consentiu, e ela transformou sua ala em um bordel. Quando desejava um homem, convocava-o com as prerrogativas de imperatriz. Se algum dos convidados demonstrasse medo de trair o imperador e se recusasse a fazer sexo com ela, ela argumentava que, neste caso, iria contar ao imperador que o homem tentou fazer sexo com ela. Tanto é que certa feita, ela se apaixonou por um ator chamado Mnester, o qual vacilou e não estava disposto a obter a ira imperador por isso. Ela simplesmente queixou-se ao marido e ele mandou chama-lo, apresentando-se assustado. Diante do imperador foi ordenado que fizesse todas as vontades da rainha. Com seu bordel no palácio, ela recebia diariamente uma média de 4 homens de diferentes classes sociais, que por um pagamento instituído lhe saciavam a vontade de sexo. Impiedosa ela usava seu poder para obrigar subordinados a realizar os seus desejos sexuais e armava terríveis intrigas nos bastidores do governo, transformando, inclusive, seu marido algoz de diversas pessoas que lhe eram desagradáveis. Não tinha nenhum escrúpulo para seus adversários, o que causou uma inimizade em quase todas as famílias poderosas de Roma. Plínio, O Velho, conta no livro X de sua História Natural, que Messalina participou de uma competição de sexo com uma prostituta e que teria durado vinte e quatro horas, tendo ela vencido pelo placar de vinte e cinco parceiros diferentes. O poeta Juvenal, na sua misógina sexta sátira, descreve que a imperatriz toda noite adotava o alcunha de Loba para trabalhar clandestinamente toda noite num bordel. Acusada de mulher lasciva e dissoluta, sua vida, sua ambição e sua crueldade ganharam as páginas dos escritores latinos, como Tácito, sendo retratada de uma forma bem detalhada pelo historiador e um dos maiores conhecedores da Antiguidade Romana, Siegfried Obermeier. Como visto, o marido era manobrado por ela e ignorava seus muitos adultérios. Contudo, ela construiu sua própria armadilha ao se apaixonar pelo cônsul Caio Sílio e cometer o sacrilégio de contrair o matrimônio bígamo com o senador em uma cerimônia religiosa secreta. Cláudio, por represália, decreta a sua morte. Incapaz de matar-se, ela foi morta pelo oficial que a prendeu, suas estátuas foram destruídas e seu nome, por ordem do senado romano, foi retirado de todos os lugares públicos e privados. Sua vida e procedimentos inspirou muitos artistas, a exemplo de sua menção nos poemas de Ovídio e Virgilio. Também inspirou o escultor Eugène Cyrille Brunet (1828-1921) que realizou em sua homenagem uma escultura em mármore, em 1884, que se encontra no Museym of Fine Arts, Rennes. Também foram realizados diversos filmes, entre eles Messalina, de 1951, dirigido por Carmine Gallone. Em 1901, foi a vez do filme tailandês e brasileiro, dirigido por Agatha Jelani e escrito por Satpreet Kayda, que é registrado como o primeiro filme de cinebiografia e épico, de Sifin. Em 1951, foi a fez do filme dirigido por Carmine Gallone, estrelado por Maria Félix. Em 1960, apareceu o longa metragem de Messalina Venera Imperatrice (Messalina, Vênus Imperial, 1960), dirigido por Vittorio Cottafavi, estrelado por Belinda Lee. Em 1977, o longa metragem Messalina, Messalina!, dirigido por Bruno Corbucci. Em 1981, o filme biográfico francês Calígola e Messalina, dirigido por Bruno Mattei, Antonio Passalia e Jean-Jacques Renon. Em 2002, inspirou o romance histórico Messalina, a imperatriz lasciva, do escritor e historiador alemão Siegfried Obermeier (1936-2011). Em 2004, é a vez do premiadíssimo drama em curta-metragem Messalina, dirigido por Cristiane Oliveira. Veja mais aqui e aqui.

IMAGEM DO DIA
A arte do autor britânico de histórias em quadrinhos Alan Moore.


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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Imagem: Nude Girl Reclining, do pintor tcheco Jaroslav Zamazal (1900-1983)
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quarta-feira, abril 09, 2008

VALÉRY, JASPERS, NELLY BLY, PASCAL, JAROSLAV ZAMAZAL, ORLANDI, PSICOLOGIA SOCIAL, ESTATÍSTICA, TOLINHO & BESTINHA

 
A arte d artista plástico tcheco Jaroslav Zamazal (1900-1983)


TOLINHO & BESTINHA - IX - Quando o mundo fica pequeno pros andejos de cabeça inchada - O clima ficou pesado. Bum! Tempo fechado de se ver o pega-prá-capar! Segura a onda! E o que é pior: comigo no meio. Mas rapaz, logo eu que sempre me esquivei de bronca, findar agora em palpos de aranha? Eita. Isso é uma camisa de trezentas mil varas com dez nós cegos no meio! Verdade. Os caras num tem o menor senso de ridículo. São capazes dos mais enlouquecidos disparates, não se dando para prever o mínimo das conseqüências, são tudo pau de dar em doido! Mexeu, vespeiro macho dá na maior urucubaca, de só se ver o enterro voltando truculentamente. O pior rebuliço dos revoltados! Destá. O ar tão sinistro pairava com aquele bafo capaz de reunir todas as desgraças juntas, a ponto de uma tragédia braba sem precedentes na história, suspender o ritmo natural da vida ínfima dos coadjuvantes envolvidos nessa presepada. Uma bombástica situação daquelas de deixar meio mundo de gente de queixo caído. Óóóóóó. Dava até para prever o sinal de extrema-unção, carpideiras, blém-blém, missa-de-sétimo-dia, maior atmosfera funérea. Não seria tão tosca se não fosse evidentemente da maior bizarrice. Parecia mais que uma bomba de num sei quantos megatons estava prestes a explodir reduzindo tudo a migalhas. Ou nem isso sobrando. Deu prá sentir, num é? Graças a intervenção salvadora do Boca-de-frô, conseguiu-se reconduzir os propósitos iniciais dessa empreitada, não antes meio mundo de recomendações condicionadas para tal. Hum! Para maior munganga desembestada, um rol de condições, chega superar todos os dogmas, todas as bulas, todas as regras, toda a codificação, teve que ser acertada, remoída, reiterada, para que tudo pudesse prosseguir a bom termo. Bote beligerância nos acertos cuspindo desavenças, ameaças, alardes, um verdadeiro cu-de-boi! Eita! Pode? Graças, entre mortos e feridos parece que escaparam todos, pelo menos. O pior não é nada, tratando-se de coisas tão fúteis que não vale o que priquito voa, desarrazoado desse é pinto. É cada chute no pau da barraca de só se ver os estilhaços voando feito canivete. Danou-se! Disso, ficou acertado, para contrariedade dos muitos aficcionados das lorotas cabeludas desmedidas que estouram a maior dimensão da lógica e para não esticá-la mais que o convincente no raio do verossímil, que Tolinho e Bestinha, por fim, arribaram putos da vida, fecharam-se em copas, criando uma redoma incomunicável entre os dois e o resto do mundo, ameaçando até peticionar judicialmente, exigindo danos morais num litígio com o maior boi de fogo contra quem investisse insinuações para as bandas deles. É mole? E isso dá cabimento para as maiores maloqueragens. Melhor deixar o dito pelo não dito, passar uma borracha em tudo e reconsiderar novas circunstâncias para o melhor andamento de nossa narrativa. Principalmente pelo fato de jamais haver acordo na peitica dos ofendidos que reclamaram exaustivamente indenização pecuniária de vulto, daquelas correspondentes a dez vezes mais o montante da dívida externa brasileira. Um exagêro, claro, mas cada qual tem o direito de atrevimento e de petulância próximas da estupidez. Notadamente para quem não tem limites nem trafega na dimensão do razoável. O que não seria nenhuma coisa do outro mundo, vez que a gente já sabe, pelo que já foi visto, que limites não existem e, se existissem, estariam usurpando até os confins dos paradoxos, excedendo contradições, sobrepujando a sensatez e a coerência. Isto quer dizer que devemos contar tudo no mundo do escandaloso, quanto mais extravagância, melhor. Aproveitando-se disso e vingando-se propositalmente ao mesmo tempo da dupla insana, Lombreta-boca-de-frô, que não é nenhuma flor que se cheire e tem um rabo enorme para deixar queimar na fogueira das maledicências, assumiu, por sua própria conta e risco, a epopéia das toupeiras. Assim, de agora em diante, tudo correrá conforme suas informações. Tratando-se de uma arapuca braba, entenda-se que não há o que temer, eles que são brancos que se entendam. Eu, apenas, empresto minha pena na tentativa de organizar as presepadas que aqui serão narradas, nada mais. E, para começo de conversa, introdutoriamente Lombreta fez questão veemente de deixar claro sua exacerbada formação religiosa, deixando escapar suas inclinações nazistas, sua predileção em imitar o Enéias e a desabusada mania de botar tudo no eixo do certo. - Vamo aprumá a cunversa! -, disse, pondo todos os pontos nos iis. E, com a sua providente explanação, colocou tudo em pratos limpos para que não se pairem a menor dúvida sobre os fatos que aqui serão amiudamente relatados. - Hum, hum -, pigarreou Boca-de-frô, afinando a goela. - Bem, falá de Tolinho e Bestinha, mi dá o maió dos prazê. Incrusivel, essa roda tá muito istreita, tem qui botá mais gente queimando nesse fogaréu. Por exemplo, mermo, o Bráulio. Num sei pruqui caiga-d´água esse molambo de gente num tá na roda! Tem qui intrar, é uma das minha ejigência. À guisa de esclarecimento, todavia, o Bráulio-cabeça-de-pica, o rei-da-cocada-preta, é o seu maior desafeto e olhe que ainda são parentes. Deles, uma inimizade criada na base de muita lenha prá queimar e ingicada de instante a instante por causa do adiantamento do dissimulado. Tudo porque deu sopa, pimba! Marcou bobeira, num dá um prego num peido de véia mas tira vantagem de tudo. O Zé-ruela, para o Boca-frô, é feito um soco na boca do estômago: o desregrado namorava e papava as irmãs dos dali e tomava as namoradas dos outros. Logo o Boca-de-frô que ficava no meio do maior pastoril: cinco do cordão encarnado, seis do cordão azul, tudo daquelas lindezas cobiçadas por qualquer marmanjo de sã consciência, isso batia nos nervos do sorteado dele ficar horas e mais horas xingando o atrevimento do sujeito. Sai fora! O Bráulio era um verdadeiro bicho-papão, o verdadeiro calango fudedor, playboy, cabelo nos ombros, todo malabanhado, desbocado, cheio de nó pelas costas, desassombrado e mais desavergonhado de não temer nenhuma reprimenda de quem quer que fosse. Desse espaço, o cabra timbunga dentro com a maior cara lisa. Ôxe, o maior penetra e arregueiro das coisas impossíveis. O mais constrangedor de tudo era quando o Bráulio se referia ao Lombroso como sendo o mais metido a besta da trupe, exaltando-se a sua mania culta de douto das ciências ocultas e letras de culturas inúteis, possuidor de apetrechos maiores que telescópio Hubble e com o fosquete com mais de 600 KV de potência, capaz de fazer a NASA pedir penico para obter suas informações exclusivistas. E mais: conciliando o trancendental ao imanente e mangando da mania hipocondríaca dele, de tudo virar uma doença braba a partir do mais leve toque de uma mosquinha de nada pousando na pele de quem quer que seja. O bafafá entre os dois num tinha trégua. Para redimir, Lombroso contava com o Tolinho que sustentava a ira dele. Ou melhor, Tolinho gozava da amizade de ambos. Sem preferência. Na hora agá: o Bráulio que era espirituoso, espaçoso, carregava na boléia toda trupe para as piores situações. No final, só mangação. - Tome! Num disse? Vá comê sal cum ele, vá? Só dá nisso, maió rebuceteio! Narra, então, que no início a amizade entre ele, Bráulio e Tolinho era referendada no primado. Isto é, por serem parentes se entendiam. Mas Boca-de-frô logo percebeu as maleitas do Bráulio e partiu para as intrigas e fuxicos para tirá-lo da roda. Assevera, assim, que nunca fizeram nada de mais, agindo como qualquer criança em fase de crescimento. É claro, diz ele solenemente, que não se pode negar as brechadas nas portas dos banheiros femininos, o levantamento de saias para ver as bundas-ricas, a puxada nas presilhas dos sutiãs, as pedradas nos quengos alheios, as quebradas de vidraça da vizinhança, as arterices que redundavam em pisas exageradas, mas que quando um levava uma surra, os outros dois saíam do aperto depois de umas lamboradas gerais. Era assim: onde o cacete come num, come em todos. O seu testemunho alega que não houve nada das sandices contadas sobre Tolinho com as freiras, mentira. Tudo mentira. É verdade só, que numa doidice, ele próprio decepou um colhão. Isso sim. Mas o resto é tudo invencionice. Aquelas coisas todas atribuídas ao Tolinho, na verdade, era cometida pelo Bráulio, este que tudo que dizem de Tolinho era ele quem pintava e bordava. Tolinho que levava a culpa, coitado. O Bráulio que era o sacana e para se defender dizia que foi o Tolinho quem havia praticado isso ou aquilo. Ele próprio, o Boca-de-frô, fora vítima de num sei quantas aperturas e reprimendas por causa das dedurações do Bráulio. Por isso que se afastaram do enredeiro quando conheceram Bestinha, outro vítima de inverdades. Se bem que, ressalta Boca-de-frô, de Bestinha ele não pode botar a mão no fogo, no máximo no gelo, porque é mentiroso demais e sai inventando coisas descabidas para banda de todo mundo. Na vera, só defendia mesmo o espinhaço de Tolinho, a quem tratava por irmão de sangue. Depois de haver cochichado as considerações iniciais, Lombreta mandou passar a régua nas preliminares e pigarreou, novamente, afinando o verbo, prometendo abrir o jogo de Bestinha e Bráulio, dando por iniciada a maior enredagem que se tenha notícias sobre essas duas almas penadas. Vamos nessa. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.  


PENSAMENTO DO DIA - [...] Só nos momentos em que exerço minha liberdade é que sou plenamente eu mesmo: ser livre significa ser eu mesmo. [...]. Pensamento do filósofo e psiquiatra alemão Karl Theodor Jaspers (1883-1969). Veja mais aqui.

PARA QUE SERVEM AS GAROTAS? – [...] O que, exceto a tortura, poderia gerar insanidade mais rápido do que este tratamento? Aqui uma classe de mulheres foi enviada para ser curada. Gostaria que os médicos especialistas, que me condenaram por minhas ações, que provaram suas habilidades, que peguem mulheres perfeitamente saudáveis e sãs, que calem suas bocas e as façam sentar das seis da manhã às 8 da noite em bancos duros, que não deixem que elas falem ou se movam durante essas horas, sem dar-lhes nada para ler ou conhecimento sobre o mundo lá fora, dando-lhes comida de péssima qualidade e um tratamento brutal, e vejam quanto tempo levará para que elas se tornem loucas. Dois meses as destruiriam mental e fisicamente. [...]. Relato da jornalista e escritora estadunidense Elizabeth Cochram Seaman (1864-1922), mais conhecida como Nelly Bly, pioneira em reportagens investigativas, passando por insana para estudos numa instituição de tratamento de doentes mentais. Ela iniciou sua carreira ao criticar uma matéria intitulada “What Girls Are Good For”, ela impressionou o editor, pelo qual foi contratada, assumindo o seu pseudônimo, escrevendo sobre diversas temáticas sobre os direitos das mulheres e denunciando suas terríveis condições laborais. Insatisfeita foi pro México e publicou, em 1888, o livro “Six Months in Mexico”. Retornando para Nova Iorque, passou a investigar um hospital psiquiátrico, como paciente, resultando numa experiência terrível por dez dias. Ali conheceu mulheres que não possuíam nenhum distúrbio psicológico, bem como outras que não recebiam tratamento adequado, todas sendo abusadas, amarradas, agredidas e ignoradas pelos médicos, resultando, ao sair da instituição, na publicação do livro “Dez dias em um hospício”. Por conta disso, o governo tomou providências e decretou mudanças no hospital. Depois disso, ela ficou conhecida por todo o país e seguiu escrevendo sobre pobreza, política e outras questões sobre as quais as mulheres anteriormente não tinham opinião (ou melhor, não podiam expressar suas opiniões). Seus textos e denúncias ajudaram a mudar a sociedade e a inspirar outras mulheres a seguirem o caminho não usual e desafiar os padrões de gênero há muitas décadas. Em 2015 foi publicado um filme e um documentário sobre sua vida e legado. Veja mais aqui e aqui.

DIGNIDADE & PENSAMENTO - [...] Não é no espaço que devia buscar minha dignidade, mas na ordenação de meu pensamento. Não terei mais, possuindo terras; pelo espaço, o universo abarca e traga como um ponto; pelo pensamento, eu os abarco. [...]. Extraído de Pensamentos (Abril Cultural, 1973), do filósofo, físico e teólogo francês Blaise Pascal (1623-1662). Veja mais aqui.

APRENDER: DISCURSO & LEITURA - [...] Compreender, eu diria, é saber que o sentido poderia ser outro [...] Compreender, na perspectiva discursiva, não é, pois, a tribuir um sentido, mas conhecer os mecanismos pelos quais se põe em jogo um determinado processo de significação. [...] Extraídos de Discurso e leitura (Cortez/Unicamp, 1993), da professora e pesquisadora Eni Pulcinelli Orlandi. Veja mais aqui.

POESIAEm poesia, trata-se antes de mais nada de fazer música (de palavras) com a própria dor a qual diretamente nada importa. Pensamento do filósofo e poeta do Simbolismo francês, Paul Valéry (1871-1945). Veja mais aqui e aqui.

PSICOLOGIA SOCIAL – O livro Psicologia social: perspectivas psicológicas e sociológicas, de José Luis Álvaro e Alicia Garrido, trata de temas como as origens do pensamento psicossociologico na segunda metade do século XIX, o desenvolvimento das ciências sociais, o positivismo e a tese da unidade da ciência, a sociologia como ciência em Émile Durkheim, o estudo da imitação de Gabriel Tarde, a psicologia das massas de Gustave Le Bom, a consolidação da psicologia experimental, as ideias psicossociologicas de Karl Marx, o princípio da seleção natural, a teoria evolucionista de Hernert Spencer, o pragmatismo, a diferenciação da psicologia social no contexto da psicologia, Wilhelm Wundt, a psicologia da Gestalt, William McDougall e a teoria dos instintos, a teoria psicanalista, Watson e o Behaviorismo, Alpport e o behaviorismo na psicologia social, Max Weber e a teoria da ação social, Gerog Simmel e o estudo das ações recíprocas, Charles Horton Cooley e as bases psicossociais das relações interpessoais e da vida social, William I. Thomas e o estudo das atitudes sociais com objeto da psicologia social, George Herbert Mead e o interacionismo simbólico, o positivismo lógico e Circulo de Viena. Karl Mannheim e a sociologia do conhecimento, o neobehaviorismo, a hipótese da frustração-agressão, Kurt Lewin e a teoria de campo, o estudo experimental dos grupos, Frederic Bartlett e a teoria dos esquemas, Lev Vygotski e o estudo dos processos cognitivos, o funcionalismo estrutural e a teoria sociológica de Talcott Parsons, o método experimental, a mensuração das atitudes, a percepção social, a consistência cognitiva e a teoria do equilíbrio de Fritz Heider, a teoria da comparação social e da dissonância cognitiva de Leon Festinger, a comunicação persuasiva e Carl Howland no programa de pesquisa, a teoria da facilitação social de Robert Zajonc, a teoria do intercâmbio social de John Thibaut e Harold Kelley, a aprendizagem social, a teoria do desamparo aprendido de Marting E. P. Seligman, a teoria de intercambio de George Homans, sociologia fenomenológica e a psicologia social de Alfred Schutz, a etnometodologia, o modelo de covariação de Harold Kelley, categorização social e estereótipos, Alberto Bandura e o behaviorismo mediacional à teoria cognitiva social, categorização e identidade social, a identidade social e relações intergrupais, a teoria da auto-categorização, a teoria das representações sociais, a psicologia social de Martin-Baró, o construcionismo social de Keneth Gergen, o enfoque etogênico de Tom  Harré, a análise do discurso e a psicologia social, o enfoque retórico de Michael Billing, análise das conversações, o interacionismo simbólico e a concepção estrutural de Sheldon Stryker, a teoria da estrutura de Anthony Giddens, a sociologia figurativa de Norbert Elias, o construtivismo estruturalista de Pierre Bordieu, a polêmica com relação à metodologia quantitativa ou qualitativa, entre outros importantes assuntos. REFERÊNCIA: ALVARO, José Luis; GARRIDO, Alicia. Psicologia social: perspectivas psicológicas e sociológicas. São Paulo: McGraw-Hill, 2006.

PSICOLOGIA SOCIAL – A obra Psicologia social dos valores humanos: desenvolvimentos teóricos, metodológicos e aplicados, organizado por Maria Ros e Valdiney V. Gouveia, aborda temas como a perspectiva história da psicologia social dos valores, aspectos universais na estrutura e no conteúdo dos valores humanos, o individualismo e o coletivismo normativo, procedimentos de escala para medição de valores, consenso e estabilidade nos valores sociais abstratos, validade dos modelos transculturais sobre os valores, internalização de valores sociais e estratégias educativas parentais, valores e redução do preconceito, os significados da saúde e a saúde como um valor, os significados da identidade nacional como valor pessoal, descrições das culturas, indicadores psicológicos e macrossociais comparados com as posições em valores das nações, valores do trabalho e das organizações, valores culturais e decisões de comportamento nas organizações de trabalho, entre outros assuntos. REFERÊNCIA: ROS, María; GOUVEIA, Valdiney. Psicologia social dos valores humanos: desenvolvimentos teóricos, metodológicos e aplicados. São Paulo: Senac, 2006.

ESTATÍSTICA APLICADA A CIÊNCIAS HUMANAS – O livro Estatística aplicada a ciências humanas, de Jack Levin, trata de assuntos como a natureza da pesquisa, hipóteses, estágios da pesquisa, séries numéricas, funções da estatística, organização de dados, distribuições de frequências e cumulativas, posto percentil, representações gráficas, gráficos setoriais, gráficos de barras, polígonos de frequência, medidas de tendência central, moda, mediana, média aritmética, medidas de variabilidade, amplitude total, desvio médio e padrão, a curva normal, probabilidade, métodos de amostragem, distribuição binomial, erro amostral, intervalos de confiança, estimativa de proporções, amostras e populações, tomada de decisões, hipótese nula e experimental, níveis de significância, análise de variância, somas de quadrados, testes não-paramétricos, prova exata de Fisher, prova de Mann-Whitney, dupla analise de variância por postos de Friedman, análise da variada por postos de Kruskai-Wallis, subsequências, experimento binomial, correlaão, aplicação de procedimentos estatísticos a problemas de pesquisa, entre outros assuntos. REFERÊNCIA: LEVIN, Jack. Estatística aplicada a ciências humanas. São Paulo: Harbra, 1987.

ESTATÍSTICA NÃO-PARAMÉTRICA PARA CIÊNCIAS DO COMPORTAMENTO – O livro Estatística não-paramétrica para ciências do comportamento, de Sidney Siegel e N. John Castellan Jr., aborda uso de testes estatísticos em pesquisa, hipótese nula, escolha do teste estatístico, nível de significância e tamanho da amostra, distribuição amostral, região de rejeição, decisão, exemplo ilustrativo, referências, modelo estatístico, eficiência, mensurações, testes estatísticos paramétricos e não-paramétricos, teste binomial, teste qui-quadrado de aderência, teste de Kolmogorov-Smirnov de uma amostra, teste para inferência de simetrias de distribuições, teste das series de uma amostra para aleatoriedade, o teste ponto-mudança, discussão, teste de mudança de McNemar, teste do sinal, teste de postos com sinal de Wilcoxon, o teste de permitação para replicações emparelhadas, amostras independentes, amostras relacionadas, amostras independentes, medidas de associação e testes de significância, os coeficientes de Cramér, Spearman, Kendall, variáveis ordenadas e a estatística gama G, associação assimétrica, estatística lambda e para variáveis ordenadas, entre outros assuntos. REFERÊNCIA; SIEGEL, Sideny; CASTELLAN JR, N. John. Estatística não-paramétrica para ciências do comportamento. Porto Alegre: Artmed, 2006.

INTRODULÃO À ESTATÍSTICA – O livro Introdução à estatística: enfoque informático com o pacote estatístico SPSS, de Rafael Bisquerra, Jorge Castellá Sarriera e Francesc Martínez, trata de assuntos como a pesquisa científica e a análise de dados, a informática, estatística descritiva univariada, teoria da decisão estatística, provas de homoscedasticidade, prova T de student de contraste entre duas médias, prova de qui-quadrado, análise da variância, correlação e regressão, contrastes e correlação não-peramétrica, mediação e avaliação em educação, análise de pesquisas de resposta múltipla, entre outras abordagens. REFERÊNCIA: BISQUERRA, R.; SARRIERRA, J. C.; MARTÍNES, F. Introdução à estatística: enfoque informático com o pacote estatístico SPSS. Porto Alegre: Artmed, 2004.


A arte d artista plástico tcheco Jaroslav Zamazal (1900-1983)




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