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terça-feira, agosto 09, 2016

JAKOBSON, SCHOPENHAUER, BLUMENFELD, ÍNDIOS, VICENTE DE CARVALHO, LILIANA PORTER, DEBORAH DE ROBERTIS & LAURA NYRO


MINHA ALMA TUPI-GUARANI, MINHA SINA CAETÉ - Resultado de estudos realizados ao longo dos últimos trinta anos sobre a legislação, a educação e o direito indígena no Brasil, por meio de uma revisão da literatura que envolveu autores como Darcy Ribeiro, Caio Prado Junior, Alcida Rita Ramos, Juliana Santilli, Paulo Bessa Antunes, Marco Antonio Barbosa, Roberto Cardoso de Oliveira, João Pacheco Oliveira Filho, Lásaro Moreira Silva, Carlos Frederico Marés de Souza Filho, Fernando Tourinho Neto, entre outros, tenho a constatação de que historicamente os ameríndios povoam as terras do continente americano desde séculos antes da chegada do europeu. Ou seja, desde os tempos de Pindorama, as tribos indígenas nativas firmavam sua moradia, sua agricultura e tinham domínio das florestas e do meio ambiente, praticavam a caça e a pesca, estabeleciam seus rituais religiosos, suas tradições, sua linguagem, sua cultura, enfim, todas as características de um sistema étnico estruturado, como assim poderia ser definido por estudos sócio-antropológicos. Ao longo dos últimos quinhentos, o processo de colonização iniciado no século XVI, com a chegada do europeu começou a alterar as estruturas da população indígena, acarretando problemas que perduram até a atualidade. Tem-se, portanto que além de dizimadas e subjugadas por séculos, as comunidades indígenas tem encontrado muitas dificuldades no processo de desenvolvimento de sua própria existência, como na demarcação de suas terras que são sistematicamente invadidas e, consequentemnete, usurpam seus direitos. Mesmo com a previsão constitucional vigente que consagra o princípio de que essas comunidades são reconhecidamente os primeiros e naturais senhores da terra, passando a se entender que, em razão disso, fica especificada a fonte primária de seu direito que é anterior a qualquer outro. Além do mais, o direito dos índios a uma terra determinada independe de reconhecimento formal, além do reconhecimento de seu direito ao usufruto exclusivo das riquezas do solo, dos rios e dos lagos existentes nas terras que tradicionalmente ocupam. Essa proteção assegura os seus direitos e, ao mesmo tempo, garantem os meios de sua sobrevivência física e cultural, bem como a proteção da biodiversidade brasileira e do conhecimento que permite o seu uso racional. Tem-se, portanto, se tratar de um direito originário que não se submete às regras comuns do usufruto de direito privado ou mesmo de direito administrativo, incidindo sobre toda a universalidade dos bens que formam as terras indígenas, o que inclui o solo, o ar, as águas, as riquezas minerais e até mesmo as da fauna e da flora. Os titulares desses direitos são, com exclusividade, aqueles que tanto podem como devem utilizar as terras por elas tradicionalmente ocupadas de maneira legítima, segundo seus usos, costumes e tradições. Evidencia-se que não cabe qualquer análise que excluam estas proteções e em razão disso, observou-se as discussões acerca da flexibilização e, sua forma mais severa, a desregulamentação das normas protetoras dos índios e de suas terras, que inadvertidamente estão assumindo dimensões significativas no âmbito mundial, notadamente por deixá-los ao sabor das negociações travadas com detentores do poder econômico, sem que a interposição estatal respeite a observância protetiva dos seus direitos. Há que discernir o fato de que indubitavelmente reconhece-se que há necessidade de se rever o Estatuto do Índio, vez que é lei que se encontra obsoleta e, pore isso, inadequada face às previstas garantias já asseguradas constitucionalmente. Requer, todavia, uma discussão madura sobre a temática, devendo-se debater e examinar juridicamente os óbices que vem penalizando essas comunidades, quando da indiscriminada invasão e ocupação de suas terras provocando drástico desrespeito aos seus s direitos perante o poderio econômico desenvolvimentista, que se utiliza das brechas presentes nos conceitos protetivos da Constituição Federal e, também, pela omissa legislação ordinária, causando danos irreparáveis às nossas raízes culturais. É preciso defender a mantença de um núcleo normativo positivado e protegido contra reformas, estabelecendo limites aos desmandos do poder econômico, a fim de propiciar a essas comunidades uma vida condizente com a dignidade humana -  muito embora, seja muito difícil falar disso quando o próprio Governo Federal desrespeita normas constitucionais. Nesse tocante, há que trazer à luz a responsabilidade cabível. Ademais, a proteção e a eficácia constitucional devem prevalecer no sentido de salvaguardar o hipossuficiente na condução do princípio da dignidade humana do índio, que é direito puramente inerente da terra indígena, pois são conjuntos de bens sui generis que não se incluem perfeitamente em nenhuma das categorias de bens públicos normalmente adotados, visto que pertencem à União, por expressa determinação constitucional, mas apenas a título derivado, pois os direitos originários pertencem às comunidades indígenas. É deles, Justiça seja feita. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui

 Curtindo o álbum Laura Nyro live at the Bottom Line (ao vivo – Columbia Recortds, 1989), da cantora, compositora e pianista estadunidense Laura Nyro (1947-1997).

PESQUISA:
A poesia é linguagem em sua função estética. Desse modo, o objeto do estudo literário, não é a literatura, mas a literariedade, isto é, aquilo que torna determinada obra uma obra literária. [...] O futuro também não nos pertence. Daqui a algumas dezenas de anos, seremos chamados, sem qualquer piedade, de gente do milênio passado. Tínhamos apenas cantos apaixonantes sobre o futuro e, de repente, esses cantos, frutos da dinâmica do presente, transformaram-se em fatos da história literária. Quando os cantores são assassinados e as canções, arrastadas ao museu e presas ao passado, a geração atual torna-se ainda mais desolada, mais abandonada e mais perdida, mais deserdada, no sentido verdadeiro da palavra.
Trecho extraído da obra A geração que esbanjou os seus poetas (Cosac Naify, 2001).
do pensador russo, linguista e pioneiro da analise estrutural da linguagem, Roman Jakobson (1896-1982). Veja mais aqui e aqui.

LEITURA
Belos amores perdidos, / Muito fiz eu com perder-vos; / Deixar-vos, sim: esquecer-vos / Fôra de mais, não o fiz./ Tudo se arranca do seio, /— Amor, dezejo, esperança... / Só não se arranca a lembrança / De quando se foi feliz. / Rozeira cheia de rozas, / Rozeira cheia de espinhos, / Que eu deixei pelos caminhos, / Aberta em flor, e aprti: / Por me não perder, perdi-te; / Mas mal posso assegurar-me / — Com te perder e ganhar-me / Si ganhei, ou si perdi...
Saudade, poema extraído do livro Poemas e Canções (Chardon, 1909), do poeta, advogado, jornalista e abolicionista Vicente de Carvalho (1866-1924).

PENSAMENTO DO DIA: DIGNIDADE DO HOMEM
[...] me parece que a um ser de vontade tão pecaminosa, espírito tão limitado, corpo tão frágil e volúvel como é o homem, o conceito de dignidade apenas pode ser aplicado ironicamente: por que há de se orgulhar o homem? Sua concepção é uma culpa, o nascimento, um castigo, a vida, uma labuta, a morte, uma necessidade! [...] com cada pessoa que tenhamos contato, não empreeendamos uma valorização objetiva da mesma conforme valor e dignidade, não consideremos portanto a maldade da sua vontade, nem a limitação do seu entendimento, e a incorreção dos seus conceitos; porque o primeiro poderia facilmente ocasionar ódio, e a última, desprezo; mas observemos somente seus sofrimentos, suas necessidades, seu medo, suas dores. Assim, sempre termos com ela parentesco, simpatia. E, em lugar do ódio e do desprezo, aquela compaixão que unicamente forma a ágape pregada pelo evangelho. Para não permitir o ódio e o desprezo contra a pessoa, a única adequada não é a busca de sua pretensa dignidade, mas, ao contrário, a posição da compaixão.
Trecho extraído da obra Paregma e Paralipomena, do filósofo alemão Arthur Schopenhauer (1788-1860). Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

IMAGEM DO DIA
A arte do fotografo e artista gráfico alemão Erwin Blumenfeld (1897-1969).

Veja mais sobre Fernanda Montenegro, Leonid Andreyev, Paul Claudel, Jean Piaget, Fafá de Belém, Povos Indígenas & Mário Cesariny aqui.

DESTAQUE
Forced Labor, da fotografa, gravurista e artista visual Liliana Porter.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da artista performática e fotógrafa Deborah De Robertis.
Veja mais aquiaqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Paz na Terra
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
Veja  aqui e aqui.



domingo, junho 26, 2016

MARCEL PROUST, JAKOBSON, SECOS & MOLHADOS, ASENCIO, LUIZA POSSI, REGINA GALINDO & THOMAS KARSTEN


QUEM DESISTE JAMAIS SABERÁ O GOSTO DE QUALQUER VITÓRIA - A vida dá muitas voltas, feliz de quem entra na onda e consegue sair dela. O que hoje é tido no maior valor, amanhã poderá não valer nada. Ou o mais ínfimo de agora, a fortuna de amanhã. Nunca se sabe. Cada coisa possui sua razão de ser e, de onde menos se espera, acontece o que diz o escritor estadunidense John Gardner (1933-1982): “Por trás de todo problema existe uma oportunidade brilhantemente disfarçada”. Vale o olhar da descoberta e as lições advindas das experiências. Nada mais. O que virá depois, nunca se sabe, realmente. Algumas ideias chegam promissoras e prontas pro sucesso; muitas – ou quase todas -, ao contrário, fadadas ao fracasso. Para alguns, êxito é pura sorte; para outros: resultados da determinação. Ou seja, cada qual sua sina de Perseu diante da Medusa: ou prospera degolando a cabeça de todas as adversidades, ou se petrifica diante do primeiro obstáculo. Aos que vencem, louros; aos derrotados, o amargor da decepção. Todos seguem pra novo desafio. Alguns compram na esquina, não sabem o real valor de ser e ter. Entretanto, a vida, na vera, é outra coisa. Por isso, é preciso ter coragem para arrebentar as redomas intransponíveis, tirar a corda do pescoço, livrar-se da espada de Dâmocles, arrancar as mordaças da resignação, abrir as vistas vendadas pelo sectarismo, sair daquela do sal se pisando, deixar de pagar pato indébito, saber ralar no trampo, sentir o gosto ruim das derrocadas. Quantas tempestades, mínimas bonanzas; quantos aperreios de arrancar os cabelos, quantas noites em claro, quantos trejeitos dos que são do contra suplantando os cacoetes dos que estavam a favor, quantas portas na cara, quantos planos abortados, quantas somas noves fora nada, quantas projeções invalidadas, quantos nocautes de última hora. Se não aprendeu, refaz a lição. O usual é se há perigo iminente, abandono do navio, o último que apague a luz: a covardia ou esperteza como expediente da fuga. Há outra coisa: é como a semente não se ver raiz, a raiz não se saber tronco, o tronco desconhecer dos galhos, os galhos não enxergarem folhas, flores e frutos. Ao primeiro vendaval se perde a vontade de experimentar o segredo dos abismos, a valia da queda, o gosto da perda, a dor de aprender os mistérios do visível e do invisível ao nosso redor. A quem persevera é dado o prazer de segurar a primavera nos dentes. Quem desiste, nunca saberá o gosto de qualquer vitória. E vamos aprumar a conversa! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

 Imagem: arte do artista plástico estadunidense Henry Asencio. Veja mais aqui.

Curtindo o álbum Sobre amor e o tempo (Radar Records, 2013), da cantora e compositora Luiza Possi. Veja mais aqui.

PESQUISA
O livro Relações entre a ciência da linguagem e as outras ciências (Bertrand/Martins Fontes, 1974), do pensador russo, linguista e pioneiro da analise estrutural da linguagem, Roman Jakobson (1896-1982). Veja mais aqui.

LEITURA 
Nos caminhos de Swan (Globo, 2006), do escritor francês Marcel Proust (1871 - 1922), conta a história de um refinado personagem da aristocracia, narrando a sua infância e adolescência. Veja mais aqui.

PENSAMENTO DO DIA:
Imagem: capa do álbum de estreia da banda Secos & Molhados (Continental, 1973), formado por Ney Matogrosso (vocais), João Ricardo (Vocais, violão e harmônica), Gerson Conrad (vocais e violão) e Marcelo Frias (bateria).
Quem tem consciência para ter coragem
Quem tem a força de saber que existe
E no centro da própria engrenagem
Inventa a contra-mola que resiste
Quem não vacila mesmo derrotado
Quem já perdido nunca desespera
E envolto em tempestade decepado
Entre os dentes segura a primavera
Letra da música Primavera nos Dentes, de João Ricardo & João Apolinário.

IMAGEM DO DIA 
A arte da performática artista guatemalteca Regina José Galindo.

Veja mais sobre Michel Maffesoli, Ernesto Sábato, Gilberto Gil, Isabel Câmara, Beatriz Segall, Eliane Caffé, Ludovic Florent, Howard Chandler, Edvard Munch & Leo Lobos aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
 
 Imagem: Moments of Intensity, do fotográfo e arquiteto holandês Thomas Karsten (1884-1945)
Veja mais aqui, aquiaqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Recital Musical Tataritaritatá.
Veja aqui.


segunda-feira, fevereiro 25, 2008

LYGIA FAGUNDES TELLES, ROMAN JAKOBSON, PASOLINI, FERNANDO VERÍSSIMO, ROSANA PALAZYAN, PÉRICLES RAMOS & BIG SHIT BÔBRAS

 
A arte da artista visual e arquiteta Rosana Palazyan.


PENSAMENTO DO DIA – [...] Nós nos havíamos comprometido com demasiado ímpeto e avidez com o futuro, para que restasse algo do passado. Rompera-se a conexão dos tempos. Vivíamos demasiado o futuro, pensando nele, acreditando nele. Para nós, não havia atualidade auto-suficiente. Havíamos perdido o sentido de presente. Éramos testemunhas e participantes de grandes cataclismos sociais, científicos e outros. [...] Mas o futuro tampouco nos pertence. Em poucas décadas estaremos marcados como produtos do milênio anterior. Tudo o que tínhamos eram urgentes canções do futuro; e de repente estes cantos já não formam parte da dinâmica da história, pois que se transformaram em dados histórico-literários. Quando se matam os cantores e as suas canções são arrastadas aos museus e cravadas na parede do passado, a geração que representam permanece ainda mais desolada, órfâ e perdida; empobrecida no sentido real da palavra. Pensamento extraído da obra Arte verbal, signo verbal (Fondo de Cultura Economico, 1992), do pensador russo, linguista e pioneiro da analise estrutural da linguagem, Roman Jakobson (1896-1982). Veja mais aqui e aqui.

JOVENS INFELIZES, LINGUAGEM & EXPRESSÃO - [...] A linguagem da empresa é por definição uma linguagem puramente comunicativa: os “lugares” onde é produzida são aqueles onde a ciência é “aplicada”, isto é, lugares do pragmatismo puro. Os técnicos usam entre si um jargão especializado, é claro, mas numa função estritamente, rigidamente comunicativa. O padrão lingüístico que vigora dentro da fábrica tende a se expandir também para fora: é claro que aqueles que produzem querem manter com aqueles que consumem uma relação de negócios absolutamente clara. Existe apenas um caso de expressividade - mas de expressividade aberrante — na linguagem puramente comunicativa da indústria: é o caso do slogan. De fato, para impressionar e convencer, o slogan deve ser expressivo. Mas sua expressividade é monstruosa porque se torna imediatamente estereotipada e se fixa numa rigidez que é o contrário da expressividade, que é eternamente mutável e se oferece a uma interpretação infinita. A falsa expressividade do slogan é assim o ponto extremo da nova língua técnica que substitui a língua humanista. E o símbolo da vida lingüística do futuro, isto é, de um mundo inexpressivo, sem particularismos nem diversidade de culturas, perfeitamente padronizado e aculturado. [...] Nenhum centralismo fascista conseguiu fazer o que fez o centralismo da sociedade de consumo... Por meio da televisão, o Centro assimilou o país inteiro, que era historicamente tão diferenciado e rico em culturas originais. Começou uma obra de padronização destruidora de qualquer autenticidade e concretude. Ou seja, impôs os seus modelos: os modelos desejados pela nova industrialização, que não mais se contenta com “um homem que consuma”, mas pretende ainda que se tornem inconcebíveis outras ideologias que não as do consumo. Trechos extraídos da obra Os jovens infelizes (Brasiliense, 1990), do cineasta, poeta e escritor italiano Pier Paolo Pasolini (1922-1975). Veja mais aqui e aqui.

O DIREITO DE NÃO AMAR - Se o homem destrói aquilo que mais ama, como afirma Oscar Wilde, a vontade de destruição se aguça demais quando aquilo está amando um outro. O egoísmo, sem dúvida o traço mais poderoso de qualquer sexo, transborda então intenso e borbulhante como água em pia entupida, artérias e canos congestionados na explosão aguda: “Nem comigo nem com ninguém!” Deste raciocínio para o tiro veneno ou faca, vai um fio. A segunda porta foi a que escolheu aquele meu colega de Academia quando descobriu que a pior das vinganças é não matar, mas deixar o objeto amado viver, viver à vontade, “pois que ela viva!” – decidiu ele na sua fúria vingativa. Amou-a perdidamente. Acho que nunca vi ninguém amar tanto assim, talvez com a mesma intensidade com que ela amava o primo, disse isso mesmo numa hora de impaciência, estou apaixonada por outro, quer ter a bondade de desaparecer da minha frente? Mas o meu colega (vinte anos?) acreditava na luta e como ele lutou, meu Deus, como ele lutou! Tentou conquistá-la com presentes, era rico. Depois, com intermináveis poemas de amor, era poeta. Na fase final, no auge da cólera – era violento – começou com as ameaças. Ela guardou os presentes, rasgou os poemas, fez a queixa a um tio que era delegado da seção de homicídios e foi cair nos braços do primo sem os recursos da rima e dos diamantes, mas que conseguia fazê-la palpitar mais branca e perfumada do que a açucena do campo. Meu colega dava murros nas paredes, nos móveis. Puxava os cabelos, “ela não tem o direito de me fazer isso!” Com a débil voz da razão, tentei dizer-lhe que ela bem que tinha esse direito de amar ou não amar vê se entende essa coisa tão simples! Mas ele era só ilogicidade e desordem: “Vou lá, dou-lhe um tiro no peito e me mato em seguida!” – jurou. Mas a tantos repetiu esse juramento que fiquei mais tranqüilizada, com a esperança de que a energia canalizada para o ato acabaria se exaurindo nas palavras. O que aconteceu. Uma noite me procurou todo penteado, todo contido, com um sorrisinho no canto da boca, meio sinistro, mas lúcido: “Vou ficar quieto, que se case com esse tipo, ótimo que se casem depressa porque é nesse casamento que está minha vingança. No casamento e no tempo. Se nenhum casamento dá certo, por que o deles vai dar? Vai ser infeliz à beça!” Pobre, com um filho debilóide, já andei investigando tudo, ele tem retardados na família, ih! O quando ela vai se arrepender, por que não me casei com outro? Vai ficar gorda, tem propensão para engordar e eu estarei jovem e lépido porque sou esportista e rico, vou me conservar, mas ela, velha, obesa, ô delícia. Há ainda uma terceira porta, saída de emergência para os desiludidos do amor, não, nada de matar o objeto da paixão ou esperar com o pensamento negro de ódio que ela vire uma megera jogando moscas na sopa do marido hemiplégico, mas renunciar. Simplesmente renunciar com o coração limpo de mágoa ou rancor, tão limpo que em meio do maior abandono (difícil, hem!) ainda tenha forças para se voltar na direção da amada como um girassol na despedida do crepúsculo. E desejar ao menos que ela seja feliz. Extraído da obra A disciplina de amar (Nova Fronteira, 1980), da escritora premiada e membro da Academia Brasileira de Letras do Brasil e de Lisboa, Lygia Fagundes Telles. Veja mais aqui.

OUTRA DO ANALISTA DE BAGÉLindaura, a recepcionista do analista de Bagé – segundo ele, “mais prestimosa que mãe de noive” – tem sempre uma chaleira com água quente pronta para o mate. O analista gosta de oferecer chimarrão a seus pacientes e, como ele diz, “charlar passando a cuia, que loucura não tem micróbio”. Um dia entrou um paciente novo no consultório. ― Buenas, tchê ― saudou o analista. ― Se abanque no más. O moço deitou no divã coberto com um pelego e o analista foi logo lhe alcançando a cuia com erva nova. O moço observou: ― Cuia mais linda. ― Cosa mui especial. Me deu meu primeiro paciente. O coronel Macedônio, lá pras banda de Lavras. ― A troco de quê? ― quis saber o moço, chupando a bomba. ― Pues tava variando, pensando que era metade homem e metade cavalo. Curei o animal. ― Oigalê. ― Ele até que não se importava, pues poupava montaria. A família é que encrencou com a bosta dentro de casa. ― A la putcha. O moço deu outra chupada, depois examinou a cuia com mais cuidado. ― Curtida barbaridade. ― Também. Mais usada que pronome oblíquo em conversa de professor. ― Oigatê. E a todas estas o moço não devolvia a cuia. O analista perguntou: ― Mas o que é que lhe traz aqui, índio velho? ― É esta mania que eu tenho, doutor. ― Pos desembuche. ― Gosto de roubar as coisas. ― Sim. Era cleptomania. O paciente continuou a falar, mas o analista não ouvia mais. Estava de olho na sua cuia. ― Passa ― disse o analista. ― Não passa, doutor. Tenho esta mania desde piá. ― Passa a cuia. ― O senhor pode me curar, doutor? ― Primero devolve a cuia. O moço devolveu. Daí para diante, só o analista tomou chimarrão. E cada vez que o paciente estendia o braço para receber a cuia de volta, ganhava um tapa na mão. Extraído da obra Outras do analista de Bagé (L&PM, 1982), do escritor, cartunista, tradutor, roteirista e autor teatral Luis Fernando Veríssimo. Veja mais aqui.

COMUNHÃO - O homem que pensa é uma dádiva, / é como o pão, / é como os rios. / O homem que pensa é franco e generoso, / é pura chuva, / tem o coração voltado para os outros. / O homem que pensa é fonte e hóstia, /  é musgo e noite, / é cor de sangue, cor de Sol a pino. / O homem que pensa é justo e solidário: / o pensamento é trigo / a partilhar na mesa dos convivas; / o pensamento não é fruto, é todo o horto das nogueiras. / O pensamento é comunhão: bebei do vinho, / que esse é o vinho do Homem que não morre; / o pensamento é comunhão/ e se oferece para que o homem seja mais humano / e viva mais humanamente: / a Lua não é Lua quando não é vista, / porém é Lua, e Lua mais terrena e mais perfeita / quando figura, cheira, em pleno céu, / a dar-se toda no ato de brilhar, / a desfazer-se em luz por sobre todos. Poema extraído da obra Poesia quase completa (José Olympio, 1972), do poeta, tradutor, professor e crítico literário Péricles Eugênio da Silva Ramos (1919-1992).


BIG SHIT BÔBRAS: QUANDO DERAM UM JORGE E DEPOIS UMA JÚLIA NUM ENCONTRO DE QUARTO GRAU COM UM ET - A REAPARIÇÃO DO PADRE BIDÃO! SERÁ?!

Quando Zé Bilola apareceu para anunciar a tarefa do dia, eis que surgiu uma nave irreconhecível que pousara sobre o sobrado e deixou todo mundo hipnotizado por horas.



A luminosidade ofuscou qualquer identificação dos acontecimentos. Além do mais, todos sentiram que a casa foi vasculhada e logo em seguida abandonada com todos os viventes dali completamente atabalhoados.  A emissora passou uma fração de segundos fora do ar, tempo em que todos das cercanias anunciaram ter visto o Padre Bidião num disco voador com uns ETs muito doido. Teve um transeunte que fotografou o Padre Bidião com a cabeça fora da nave. Eis a feição dele na última aparição.


Imagem: última aparição do Padre Bidião.

Depois disso, a Vera veementemente reiterou que fora estuprada por um ET naquela hora. O mesmo ocorreu com a Xica Doida. E outras disseram que o padre Bidião fez imundícies no derriére delas. E agora, a quem reclamar? Onde ajuizar ação por estupro e assédio sexual? Que tribunal irá apurar, sentenciar e punir os culpados? Como? Ora, surgiu então entre eles uma pergunta que não quer calar: como o padre Bidião poderia ter aparecido num OVNI se ele havia saído a poucos instantes daquele recinto?



Acontece, porém, que é necessário fazer uns esclarecimentos mais aprofundados acerca deste pastor polêmico. Foi apurado ser o padre Bidião um cientista com a divinização de avatar por ser um druida iniciado no continente perdido de Atlântida, um hermético haríolo versado em cabala e alquimia, também no culto de Mitra, nos ensinamentos de Toth desde a Tábua de Esmeralda até Pistis Sophia, especialista no Talmude, mestre no der nibelungem not, doutor no memorial de Tecpan-Atlitan, nas mil e uma noites e nas várias descrições do pathos sobrenatural, ter se tornado recentemente um raelino que vive arrodeado de várias andróides voluptuosas e encantadoras, como a Barbarella, a Velta e outras reboculosas de formas generosas. Além de tudo isso, corre solto o boato de que existe alguns clones dele feito pelo cientista francês Claude Vorilhon e pela química Brigitte Boisselier. Também o italiano Severino Antinori fez outros tantos clones dele, o que deixa claro que ele pode estar em vários lugares ao mesmo tempo. E no meio dessa boataria toda, ainda apareceram outros mais cabeludos fuxicos dando conta que ele foi visto inúmeras vezes nas muitas aparições de OVNIS, como a da ilha de Urubuqueçaba, também em Morocco, depois em Corrientes e mais nos outros contatos de terceiro e quarto graus na Ilha da Trindade, na sonda do Capão Redondo, no Novo México, em Varginha, com Barney e Betty Hill e em milhares de outras ocasiões não narradas muito menos tomadas em conhecimento, mas que todo mundo está careca de saber, está mesmo. Afora o fato da grande descoberta dele...


Imagem: Foto da boneca inflável criada pelo Padre Bidião.


Conta-se aos cochichos que o padre criou na Suécia uma boneca de silicone de vários tamanhos, totalmente sensorial, sonorizada, durável com garantia por 2 anos sob utilização sem sair de cima, regulável, disposta e ao gosto do freguês, senha exclusiva para topar tudo, não-elétrica, muda, sem menstruação, não engravida, não vê novela, não peitica com nada, não gasta, não tem sogra, não nega fogo nunca, não engorda, não se corre o risco de cobrar pensão quando a gente não quiser mais, nem arenga em juizado nenhum e nem deixa a gente na mão. Preço? Ah, o preço que for é barato por causa das qualidades expostas, não acha?



Ocorreu, na verdade, que o padre entrou no recinto com seus capangas ETs e passou o maior jorge na turma: um verdadeiro toque de arrodeio. Enquanto isso, a Prazeres do Céu invadia o recinto gritando que vira duma só vez uns 10 padres Bidião tudo junto e todos de pau-duro. Será que ela não está se auto-enlouquecendo? Não, repetia ela que ele realmente, pelo visto, possuía clones e que ninguém mais sabia quem era quem, ou seja, quem o padre e quem o clone. Resultado: a cara de todo mundo ficou uma interrogação maior que a ignorância deles. Com essa constatação Prazeres do Céu soltou uma gargalhada horripilante quando foi abduzida por uma nave espacial indefinível. Na verdade, ela deu uma júlia: passou a perna em todo mundo.



A cara de todo mundo era um verdadeiro “O” bem maiúsculo. Nem piscavam o olho nem conseguiam balbuciar coisa que fosse. Tudo estático e em estado de choque. Porém, na verdade verdadeira, o padre está acoloiado com os extraterrestres para pressionar a humanidade contra aquele deputado israelense, um tal de Shlomo Benizri, de um certo partido Shass, que anda vociferando no Knesset com base no Talmude culpando os homossexuais de Jerusalém pelos terremotos de 5 graus na escala Richter e cataclismos avassaladores ocorridos por aquelas bandas, principalmente no Mar Morto, no Vale do Jordão, no deserto de Arava e mo Mar Vermelho que cientificamente se encontram sobre a falha sírio-africana, local de freqüente atividade sísmica. O padre Bidião advoga que a bichice é a alegria da humanidade alegando: se não houver um fresco na face da terra, a vida não tem alegria!
Neste sentido, o padre tem se movimentado por meio de seus clones para a criação em cada vila, distrito ou cidade de todos os países, uma associação de proteção aos viados, já tendo, inclusive, conseguido o apadrinhamento de muitas autoridades políticas e até eclesiásticas para o seu feito.
No fim das contas, tudo terminou em frevo, protestos e apoio à causa promovida pelo pároco.

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Proezas do Biritoaldo: Quando a corda arrebenta, a covardia fica de plantão aqui.
A Mulher Assíria-Babilônia, João Guimarães Rosa, Mário Quintana, Pedro Nonato da Cunha & outras tiradas aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Leitora parabenizando o Tataritaritatá (Arte Ísis Nefelibata).
Veja aqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Paz na Terra
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
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SÓNIA SULTUANE, MARCO NICOLINI, RUBY BRIDGES, JOÃO FALCÃO & MUITO MAIS!!!

    Imagem: Acervo ArtLAM .   Revestrés escatológico pra bufos e ranas... - Para quem não sabia, fingiu ou olvidou, muita coisa passou p...