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domingo, janeiro 25, 2026

GERMAINE GREER, SUHEIR HAMMAD, AHED TAMIMI & PALLY SIQUEIRA

 

Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som dos álbuns Palavra e Som (2017), Fiz uma Viagem – Songs of Dorival Caymmi (2017),  50 (2018), Brasileiras Canções (2022) e o Mar É Mulher (2025), da cantora, compositora e instrumentista Joyce (Joyce Silveira Moreno), autora dos livros Fotografei Você na Minha Rolleiflex (1997) e Aquelas Coisas Todas (2020), das séries Cantos do Rio (1999) e No Compasso da História (2010) e do projeto Pequenos Notáveis (2012). Veja mais aqui & aqui.


 

Parlenda de Truvunca & Quelônia, Acta est fabula... – Virado da breca esse Truvunca, pense numa criatura fuçadora: apronta as suas semostradoras presepadas e, eximindo-se do revide das lapadas, abre um buraco no chão e se entoca de ninguém mais vê-lo. De tanto cavar túneis disparatados, logo viu-se enamorado pela Maria Fumaça, o que parecia ser um bom negócio pra ele, claro. Mas, não. Ela nem nem: só andava na linha e, pra encará-la, só de papel passado. Vixe! Perdeu a viagem e pinotou fora. O melhor era mesmo da loca explorando forames, caboucos, antros, covas, grotas, cavernas e grutas. E de tanto desbravar bateu no domicílio duma Branquiura, eita, saia-justa: caxangá, siri siripuã! Ela: Qual é a tua, dasipodídeo? Tava passando por perto... Tais pensando que o céu é perto? Não... Segura a carapaça senão finda leproso, visse! Vim só dá boa tarde! Ela então abriu a porta e mostrou uma tuia de aratu, caranguejo-uçá e azul, guaiamu, boca-cava-terra, grauçá, chama-maré, Maria-farinha e santola, tudo de boca aberta para tirar proveito: Vem cá, tatu, que eu quero fazer charango! Quirquincho, venha dançar fandango! Quero fazer cesto e do rabo a flauta! Quero comer aaru, meu beiju, peralta! S’esconda não, bota fumaça na toca que eu quero pegá-lo! Oba, banquete com a carne de todos os outros animais! Pulou fora, evadiu-se. Depois dessas tentativas malogradas, jurou nunca se apaixonar. E como cuspiu pra cima e debaixo não saiu, nem deu tempo de sustentar a promessa: viu-se enredado num grande amor com Araminta de Goldoni, uma beldade tracajá. Foi de peito aberto, a plenos pulmões: esmerou-se no vinco, alinhou-se no ajeitado, dançou e melou; ao resolver os documentos do casório, ela se enjicou com ele, arriando o rosário, cabum! Debulhando o miúdo da surpresa: era uma Arsínoe de Molière, uma cágada desaforada: Já enganei onça e só gosto de carniça e rabo de lagarto! Ih! Tem coragem ou vai abrir da vela? Mas, mas... Sai pra lá, banguela! E sacudiu-se toda pras bandas dum Zé-prego que apareceu vistoso, dele ficar só com as mãos balando e a ver navios. Essa doeu dele despencar de vertigens, falta de ar, perdeu a noção das coisas, claudicante, arrastou-se pela lama, findou sofrente na sarjeta: as grandes dores deixam marcas indeléveis, dele cambalear por muito tempo, até levar uma topada e pegar no tranco. Ufa! Nem se resguardara direito, lá estava ele se enrolando com Ródope de Hebbel – uma jabota sonhando Gyges und Sein Ring. Diante de tanta formosura, ele mergulhou de cabeça e caiu com toda boca na botija, chega lambuzar-se todo. Calma, meu nego, que vexame é esse, tatu eté? Vem cá, frochosa! Tatu peba de capote, com seu chapéu voador, parece mais um caçote que perdeu o seu andor! Dou-lhe tudo de meu! E foi de topete desembestado. Alto lá! Pra quê retranca? Enrole, não! Tô gamado! Então, procure outra, papa defunto! Danou-se! E quando viu: estava ela enganchada no pescoço dum carumbe. Ele deu a porra e virou das catrâmbias, encolheu-se feito bola, zonzinho da silva: sucumbira de novo aos tormentos do seu inferno particular, quase perecer de amargura. Foi difícil segurar as pontas, curto-circuito e dor-de-cotovelo: doíam os chifres e, na recaída, quase bota todos os bofes boca a fora: tatu também é gente, também morre em sofrimento! Caiu na gandaia feito um Aretino injuriado: pintou resoluto, bordou dissoluto e arretou-se determinado a se emburacar no chão e sair do outro lado do mundo! Assim fez e findou atribulado num aquífero. Eita! Quando voltou a si: Onde estou? Você quase morre afogado! Quem é você? Sou Quelônia, muito prazer. Você me salvou? Só puxei você pra praia. Quer casar comigo? Já vejo que retomou os sentidos e agora está melhor, até. Não, pelamordedeus, preciso agradecer. De nada. E ela se foi pelas ondas do mar aberto, deixando-o inconsolável. Não fosse a prestimosa intervenção dum primo distante, jamais sairia do seu embotamento. Como é que tá, parente? Tamanduá, você viu aquela? Vi, sim. Quem é ela, hem? Ah, parente, nem queira saber: a cosmófora! Que é isso? A reencarnação de Vishnu, Bodhisattva. Quem? Os 4 pilares da origem algonquina! Piorou. O escudo de Órion dos maias. Deixa de onda! Ela é o pilar que segura o céu. Tais de brincadeira! Ela é a cítara de Mercúrio, a esposa do Sol dos Vaupés! A sabedoria no Bhagavad Gita! Peraí. Uma vez ela subiu num poste. Como assim? Mistério... Oxe! Não entendeu ainda? Quero casar com ela! Não é pro seu bico! Ajuda, primo! Tire o cavalinho da chuva, meu! Preciso, vai! E no meio de disso e daquilo, lá estava ele com o aparentado remando num barco mar adentro. Lá no alto, só as águas beirando o céu, o remador foi ajeitar a direção e, sem querer, derrubou Truvunca tragado pelas ondas revoltas: Pronto, agora reze prela salvar e tudo feito! A sorte está lançada! Deu-se então um tsunami. Lascou! E aí? Um dia lá, muito tempo depois: viram-se à praia. Eita, pensei que o parente estivesse ido dessa pra melhor desde daquele tempo; mas não, tá com a anja da guarda, né? Eu e tu fomos salvos por ela, bestão! Que bom. Casamos e vamos aprender a voar. Calma, disse ela. Também sei nadar! Mas quase se empirulitou por duas vezes, não acha que já tá bom desse brincar de morrer, não? Hum? Veja só: Voar é outra coisa, cuidado com gente! Os humanos só fazem guerra! Pois é. Então, ali ela entregou pra ele um arco e duas espigas de milho: uma madura para semear, outra leitosa para grelhar. O que faço com isso? Ensinou-lhe o hino homérico a Hermes: Saúdo-te, natureza amável, és para mim de um mui feliz presságio... Levar-te-ei à minha casa... Ah, tá, Cabeçuda! Repetiu tudo e ela fez volta-no-meio do tatu-velho! Sou seu capitari, piloso primo do canastra-gigante, do tamanduá e do bicho-preguiça, que quero mais? Segure o fandango! Aí, lá pras tantas resolveram juntar os Tês seguidos por uma enfieira de têzinhos que espoucavam seguindo o rastro dos festeiros: Tartu-bola, peba, mão amarela, tartupoiú! Tartu-cascudo, peludo, rabo-de-couro, galinha do sul! Como é que pode? Ora. Acta est fabula, parlenda: Salve, tartaruga; e viva o rabo do tatu! Até mais ver.

 

Linda Buck: Faça algo que te apaixone, algo que você simplesmente precise entender, porque é daí que vem a alegria, e também, eu acho, é daí que vêm as grandes descobertas... Veja mais aqui.

Mairead Corrigan: Se quisermos colher os frutos da paz e da justiça no futuro, teremos que semear as sementes da não violência, aqui e agora, no presente... Veja mais aqui, aqui & aqui.

Shirley Hazzard: Existe equilíbrio na vida, mas não existe justiça. Na verdade, não se ganha nada com a experiência; aprende-se apenas a prever o próximo erro. Às vezes, certamente, a verdade está mais próxima da imaginação ou da inteligência, do amor, do que dos fatos? Ser preciso não é o mesmo que estar certo... Veja mais aqui, aqui & aqui.

 

OF WOMAN TORN

Imagem: Acervo ArtLAM.

Filha de palestine \ fazer amor pode ser tão perigoso \ como toques de recolher quebrados \ guerrilheiros escondidos \ você se junta agora aqueles que não vão embora \ a terra assombra minha \ dormir quem observa o meu \ de volta sempre que eu colocar \ os suicídios forçados o \ mortes por dote e \ nora \ decapitado por \ seu pai sobre seu proibido \ lua de mel ele desfilou \sua cabeça através \ cairo para provar sua \ masculinidade isso é 1997 \ e eu só posso esperar \ você tinha uma canção especial a \ poema memorizado um segredo \ que te fez sorrir \ Isto é um amor \ poema cause i love \ você agora mulher \ quem viveu tentou \ amor neste mundo de \ facões e pecado \ Eu sinto o cheiro de suas cinzas \ de zaatar e amêndoas \ sob a minha pele \ Eu carrego seus ossos.

Poema da escritora e ativista político palestino-estadunidense Suheir Hammad, autora das obras Born Palestinian, Born Black (Harlem River Press, 1996), Drops of This Story (Harlem River Press, 1996), Zaatar Diva (Cypher Books, 2006) e Breaking Poems (Cypher Books, 2008).

 

SOBRE O ESTUPRO – [...] Se um homem lhe der um soco no olho, não se espera que você tenha implorado para que ele não o fizesse para que o crime seja considerado agressão. Se você estiver sentada no caixa e alguém exigir o dinheiro, você não será acusada de consentimento se simplesmente entregar o dinheiro. Somente em casos de estupro é que a prova de resistência se torna relevante. [...] Assim como não é o pênis que comete estupro, nem a testosterona que o motiva, nem mesmo um desejo sexual avassalador, a castração, seja cirúrgica ou química, não eliminará o ódio dos homens pelas mulheres. [...]. Trechos extraídos da obra On Rape (Bloomsbury Publishing, 2018), da escritora e jornalista australiana Germaine Greer. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

ME CHAMARAM DE LEOA: A LUTA DE UMA MENINA PALESTINA PELA LIBERDADE – [...] O riso transmite uma mensagem poderosa: ainda estamos vivos, ainda estamos rindo e amamos a vida. [...] Não somos cidadãos de Israel; tampouco temos voz ou direitos políticos no Estado que controla todos os aspectos de nossas vidas. Estamos presos à incapacidade de planejar nosso futuro, de viajar livremente ou mesmo de nos deslocarmos pelo nosso território de cidade em cidade sem ter que cruzar postos de controle militar. Precisamos de permissão para construir nossas casas, para viajar, para trabalhar — todos os direitos e liberdades básicos que você poderia considerar garantidos vivendo em uma sociedade civil simplesmente não existem quando se vive sob ocupação militar. Não é uma vida fácil, e ainda assim, é a única que conheço. [...] Peço também que se lembrem da sua humanidade, porque é ela que vai determinar o que farão quando virarem estas últimas páginas e fecharem este livro. Vão se solidarizar com a causa palestina e ajudar da forma que puderem — seja conscientizando outras pessoas, pressionando o governo ou se informando mais sobre o que está acontecendo? Ou vão ignorar o que aprenderam, largar este livro e seguir com a vida como sempre? A escolha é sua. [...] Os palestinos representam 20% da população de Israel e, apesar de viverem em sua própria pátria, Israel os relega a um status de cidadãos de segunda ou até terceira classe. Um dos meus colegas descobriu que mais de cinquenta leis discriminam os cidadãos palestinos de Israel com base unicamente em sua etnia. Outro comentou como os recursos governamentais são desproporcionalmente direcionados aos judeus, deixando os palestinos com os piores padrões de vida na sociedade israelense, com as escolas para crianças palestinas recebendo apenas uma fração do investimento governamental destinado às escolas judaicas. Eles também falaram sobre a dificuldade que os palestinos enfrentam para obter terras para moradia, negócios ou agricultura, porque mais de 90% das terras em Israel pertencem ao Estado ou a agências paraestatais (como o Fundo Nacional Judaico) que discriminam os palestinos. E lamentaram o fato de que, se eles ou algum parente se casassem com um palestino da Cisjordânia ou da Faixa de Gaza, não poderiam transmitir a cidadania israelense ao cônjuge, devido à Lei de Cidadania e Entrada em Israel. O cônjuge sequer conseguiria obter o status de residente para morar com eles em Israel. Isso significaria que seriam forçados a deixar Israel e se separar de suas famílias para viver com o cônjuge. […]. Trechos extraídos da obra They Called Me a Lioness: A Palestinian Girl’s Fight for Freedom (One World, 2022), da ativista palestina Ahed Tamimi.

 

A ARTE DE PALLY SIQUEIRA

Queremos, sim, mais produções lideradas por mulheres, protagonizadas por mulheres e com questões pertinentes a nós. Somos a maioria da população e já estamos fartas de ocupar o segundo plano... As pessoas em sua maioria se sentem perdidas, cheias de dúvidas, eu me enquadro muito nessa porcentagem. Mas o que me assusta tem sido ver a onda fascista que tem se levantado, eles agem de uma forma muito organizada e bélica. Quando perdemos a capacidade da empatia algo está errado...

Trechos da entrevista concedida ao jornalista Vinícius Nader (Correio Brasiliense, 2018), pela atriz, autora e artista plástica Pally Siqueira. Veja mais aqui & aqui.

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Selma do Coco aqui.

Antônio Nóbrega aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

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Luiz Marinho aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

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segunda-feira, julho 21, 2025

IDA VITALE, ABNOUSSE SHALMANI, JOACINE KATAR MOREIRA & ANTONIO NÓBREGA

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som de Disquiet (2005), Until I Become Human (2006), Hiraeth (2015), Something for the Dark (2016), The Blue Hour (2017), Embrace (2018), Forward Into Light (2020), Eye of Mnemosyne (2023) e Drink the Wild Ayre (2024), da compositora estadunidense Sarah Kirkland Snider.

 

Sabaribadô: prodígios de audacioso mitômano... – Sabe aquela mentira cabeluda? Tó Zeca insistia que era de linhagem aristocrática. Num brinca! Batia o pé. Prova? Timóteo não-sei-de-quê! Nem ele mesmo sabia pronunciar o nome completo. Mesmo? Lá pelos 17 anos de idade, sua querida vovó chamou num canto de alerta: Chegou a hora, seja homem! E deu-lhe um livro e um cajado. O que é isso? A macróbia pacientemente soletrou o nome dele, só entendeu o Timóteo, o resto: blábláblá. Leu e releu os sobrenomes aos tropeços da língua: Brunsich vun Brunn Munchausen. Do Barão? A provecta contou que o famoso barão ao enviuvar casou-se com uma jovem 50 anos mais nova. Ela se chamava Bernardine e era Frederiike e também Louise e, no meio desse matrimônio conturbado, nasceu Maria Wilhermina, que não teve por ele o reconhecimento da paternidade. Foram brigas num litígio de décadas pelos tribunais. No meio das arengas, a filha resolveu torrar a fortuna paterna em viagens pelo mundo e, ao passar pela costa brasileira, foi sequestrada por uma tuia de corsários ingleses, usada e abusada. Coitada. Foi salva por um parrudo quilombola fugitivo, com um providente nocaute dos branquelos, amasiando-se pruma prole dumas 30 filhas – o pintudo também era faminto, deu pra ver. Ela viveu mais de 200 anos, o que lhe deu tempo de escrever um livro sobre seu aprendizado com um cajado herdado da mãe e dado a ela pelo irreconhecível pai. Na verdade, ela é a sua hexavó que, por sucessivas Bernardinas, Louises, Fredericas e Wilherminas, como eu e sua mãe, desenharam a sua árvore genealógica. E minha mãe? Morreu do parto no seu nascimento. Ave! Findava com ela a odisseia e, de agora em vante, você é o único homem detentor dessa herança. Aí ele viu-se num delírio edificante: o cajado e o livro - Sabaribadô. Vôte! Significa o quê? Leia. A partir daí começaram as suas façanhas que foram muitas e que estão registradas nas páginas dum outro secreto volume ainda inédito e recôndito em lugar incerto e não sabido até agora. Ciente de ser o escolhido, aprontou-se para receber o seu chamado. Não tardou e providenciou alistamento no exército, para compor a tropa dos 25 mil soldados da Força Expedicionária Brasileira, contra o Eixo, durante a 2ª grande guerra, na Itália. Estava lá entre os combatentes na conquista de Monte Castelo, de lá foi todo ufano por ser o único sulamericano a caminho de Castel Nuovo e na ofensiva da Linha Gótica, ostentando a insígnia da Cobra Fumando. Foi durante os bombardeios que ele se deu conta de seus poderes transcendentais, fazendo jus ao epônimo e encarou: Quem mandou? Não bula com quem está quieto! Todo mundo em pé de guerra! Bastava dizer a palavra mágica: Sabaribadô! E avançava sobre o inimigo, acabando tudo em três tempos, salvando milhares e só lamentou não ter conseguido resgatar os 500 que morreram por lá. Era o começo dos seus feitos e retornou festejado pela bravura de pracinha e valentia de grande heroísmo. Foi daí que ele começou a bater dos calcanhares e sair voando; balançava os braços, levitava, qual beija-flor; estava calor, estalava os dedos e fazia chover; era cheio das mungangas e foco de risadagens: Esse cara é doido! Todo cheio dos pantins, uma vez mergulhou no rio e, dali a pouco, só se viu ele agarrado aos murros num tubarão, que ele prendeu duas tábuas amarradas com fiapos do bigode, pra servir de motor, enquanto surfava subindo as ondas do rio Una. Vixe! Quando não era isso era contando das aventuras intrépidas com parelhas feito Malasartes, Camonge e Cancão de Fogo, engrossando os versos do cordel duns tantos cantadores na maior farra. A conversa era muita e sua notabilidade usurpou estases e êxtases indiscriminados, aos apupos. Seus prodígios passaram aos do Cancioneiro da Vaticana, notadamente pelo fato de um dia lá agarrar uma traíra gigante e, de dentro dela, tirar Calibã que estava louco, para dar-lhe uma pisa bem dada. Muitas ele contava até o dia em que teve de provar pra si e pra não sei quem mais, ao que veio. Na verdade, era lua cheia e lá ia na sua fubica Brasinha – uma Brasília 71, incrementada de quase cair em bandas, quando ele que era o piloto de todas as manobras e circuitos, o astro de todas as plateias, quem já tinha enfrentado todo tipo de fera, besta, brutamontes, enamorado zis mocreias no xodó pelos fuás, deu de cara com a mais formosa entre as mulheres na beira da pista. Danou-se! Ao vê-la quase teve uma polução instantânea, a ponto de dar um cavalo-de-pau e parar rodando bem ao lado dela na janela do passageiro: Pronde a madame deseja ir? Ela apoiou os cotovelos cruzados sobre o vidro lateral, os peitões no decote à mostra, lambeu os beiços, piscou um olho e bafejou: Estava só esperando você chegar, bonitão! Oxe! Ele puxou bruto da maçaneta, abriu a porta emperrada, desceu, arrodeou o carro para agir como um cavalheiro de responsa: Madame dessa tem que ser tratada como rainha! Ela então pegou na beca dele e tascou-lhe um beijo afetado. Ih! Nem deu tempo de abrir a porta do automóvel, logo sacou na má fé da frochosa, ao oferecer-lhe uma maçã supostamente saborosa. Desconfiou, aguçou as ventas e atinou que estava embebida com atropina para zumbificá-lo e roubar sua memória. Deu ré de um salto e caiu em si: era Diabolina, a súcubos que destronou o capeta e era da pior qualidade: Al duwayce - com lâminas afiadas nos lábios vaginais, sabia?! Quer me capar, é? Viu-lhe a insígnia pendurada no bico de um dos seios dela: a orquídea cabeça do diabo. Deu outro passo tonto atrás, bateu as mãos para acessar as armas de Catarina de Bolonha e a armadura de Efésios, nada adiantou. Cascavilhou a salvação de Papini para abolir de vez aquele inferno e erradicar a diabologia de vez da face da Terra, não deu. Tentou exorcizar-se, nada. Então, ela armou-se pro bote com todas as pragas e flagelos multitudinários, aquela catinga de tiocetona subindo na poeirada, e ele no meio daquela fantosmia, chega a sua própria sombra acovardou-se e se escafedeu. Valha-me! Foi tomado por todos os temores pueris, mas segurou a bosta na tripa gaiteira, perscrutou, fungou, a vista turvou, titubeou, peidou-se todo, perdeu-se de si com aquele fedor nauseante: Será que virei aquele Inexistente Cavaleiro de Calvino: Cadê eu?!? Nem em sonho jamais vira tão infligido por tais circunstâncias. Buscou fôlego, tomou impulso, tombou no caqueado, buscou ideia e na hora deu peleja glosando motes prum desafio no martelo agalopado. Ela só lá, balançando o pé. Pegou versos no balaio do quengo e virou-se cabra macho feito o Riachão do Leandro Gomes de Barros, não arredou e chamou pra quebra-de-braço. Ela no bocejo. Foi quando deu fé que estava numa encruzilhada: Lasquei-me! Ô desconforto, logo numa hora dessas! E ela desatou-se em risadas estarrecedoras, rindo-se por mofa e invectivas. Teve de enfrentar as torpezas, o fogo dos vaticínios, os esgares, de deixá-lo cego, surdo, mudo, paralisado de tão perdido no meio duma comédia de Goldoni. Tôfu! Ficou entupido de raiva ao ser qualificado pícaro: Essa não! Ela sentou-se no capô do carro, abriu as pernas: Venha! Uma ventania puxou-lo de quase não se segurar em pé. E agora? Ele atinou: Vou pegar a camisinha! Ela deu uma estrondosa gargalhada. Aí ele provocou: Num vai dar nem uma chupadinha? E ela: Com todo prazeeeeeer! E abriu a bocarra traiçoeira. Foi aí que se deu ao veloz e danou o cajado na boca da danada: Sabaribadô! Aí ousou na sua pseudologia fantástica, deu-se um pipoco de quando a poeira baixou o canto mais limpo. A coisa sumiu de restar só uma bengalinha envergada quase sem préstimo. Hem, hem. Aí bateu nos peitos: a astuta foi engalobada pela esperteza do mancebo. Mas foi treta! Pense num trupé, dele chega ver o outro lado das coisas. Endoideceu? Para quem ganhava a vida entretendo o povo, tornou-se figura lendária – até se gabava: O que faz um batuta não é o que se diz dele, mas os seus feitos! Vivia sem perder de vista um pouco disso, outro daquilo, cobrando contas prometidas, nenhuma promessa cumprida, só às lorotas, libido e aporias. Vai lá que não tinha nada do Gatsby de Fitzgerald, nem do Iago de Otelo e discordava frontalmente do Littlefinger: o caos não era uma escada, mas um labirinto. Era tudo no verossímil, propendia neosofista e se identificava com Pinóquio embalado pela infância, às gaitadas! Estava mais para Próspero da Tempestade e, diante de sua avó quase morta pela terceira vez, mencionou: “Não fiz nada além de cuidar de você”. Quebrou o que restou do cajado e enterrou junto com o livro pra nunca mais. E aí? Com a definitiva morte de sua avó já contando o vigésimo velório dela ou por aí, danou-se pelas quebradas do mundo. Dizem que foi pras bandas Bodenwender, Rinteli, coisa assim pros lados da Alemanha, pra ver se ainda restava alguma vultosa herança. Afinal, uma cabra cabriolé comeu-lhe todos os documentos, não deixando a menor prova de que tenha existido. Taí. E qual é o fim da hestória? Ora, ora. Até mais ver.

 

Silvina Ocampo: Quando você escreve, tudo é possível, até o oposto do que você é... As casas sonham que são barcos à noite... Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

Cassandra Clare: Escreva o que você ama - não se sinta pressionado a escrever prosa séria se o que você gosta é ser engraçado... Veja mais aqui & aqui.

Geraldine Brooks: Uma coisa que eu acredito completamente é que o coração humano continua sendo o coração humano, não importa como nossas circunstâncias materiais mudam à medida que nos movemos juntos através do tempo... Veja mais aqui, aqui & aqui.

 

QUADRADO DA DISTÂNCIA

Imagem: Acervo ArtLAM.

Não importa se você está \ no palco do verão, \ no centro de sua provocação. \ Longe de seus incêndios, \ você caminha sozinho \ entre estátuas nevadas, \ ao longo das pedras da \ Ponte Carlos, infinita. \ Você se vê caminhando, \ observando como o gelo se coagula \ em ilhas efêmeras, \ correndo rio abaixo, \ se juntando em um ponto \ distante \ — o quê aqui? — \ entre novas praias. \ O relâmpago é indizível. \ Retorna, pois, na direção oposta, \ recupera usos e costumes, \ mar, \ areia morta, \ esta claridade, \ enquanto podes. \ Mas preserva no teu sangue, \ como um peixe, \ o doce choque da distância.

Poema da poeta, tradutora, ensaísta, professora e crítica literária uruguaia Ida Vitale. Veja mais aqui.

 

A MULHER & A REPRESSÃO - Sou apenas uma mulher que passa a impressão de racista quando teme pelo futuro de outras mulheres... A mente aberta é apenas uma forma de lavar as mãos... Cada cultura tem sua própria prisão feminina... Pensamento da jornalista e escritora iraniana-francesa Abnousse Shalmani, que numa entrevista Estamos pagando por nossa covardia diante da retórica indutora de culpa e enganosa dos islamistas (Global Watch Analysis, 2024), ela expressou: [...] Algumas pessoas, muitas demais, na minha opinião, achavam que podíamos "negociar" com os obscurantistas, que um acordo era possível. Acordo nunca funciona com radicais, nunca! [...]. Ela é autora dos livros Laïcité, j’écris ton nom (Éditions de l’Observatoire, 2024) e Khomeini, Sade et moi (World Editions, 2016).

 

GAGUEJA AO FALAR, FIRME AO PENSAR... - Sou mulher, sou negra, venho de uma família com dificuldades econômicas e, como se não bastasse, ainda gaguejo impecavelmente... Trecho extraído da entrevista Eu gaguejo. Isso não me impede de rigorosamente nada (Diário de Notícias, 2019), da historiadora e ativista luso-guineense Joacine Katar Moreira (Joacine Elysees Katar Tavares Moreira), que foi eleita deputada ao parlamento português e, em 2020, passou à condição de deputada não-inscrita. Na entrevista citada ela ainda expressa que: [...] Quando eu nasci, os meus pais tinham 18/19 anos. A minha mãe estudava mas o meu pai já dava aulas, porque o Estado guineense exigia que os alunos que acabassem um determinado nível de ensino dessem aulas aos mais novos. A minha avó era uma mulher absolutamente feminista, embora ela não faça ideia disso. Era uma mulher independente, uma enfermeira respeitada, divorciada, que, mesmo sem ter altos recursos financeiros, educou os filhos dela, os filhos dos irmãos, os filhos dos filhos. Era muito organizada, obcecada com a higiene e muito amorosa. A minha avó nunca levantou a mão para dar uma palmada a ninguém, mas o olhar dela - nem era de austeridade, era um olhar de desilusão - era suficiente para nos dizer tudo. [...] Quando entrei para a universidade nem sabia que eram precisos 25 euros para fazer a inscrição. Cheguei ao ISCTE e não tinha o dinheiro, tive de telefonar a tios e amigos. Se eu nem sequer tinha 25 euros para a inscrição, como é que iria fazer para tirar o curso? Tinha de trabalhar. Eu autossustentava-me, nunca pedi nada aos meus pais. Pelo contrário. Sempre foi minha opção ajudar os meus pais e com os meus ordenados comprava bicicletas para os meus irmãos, levava-os a passear, a ver um filme, a ir almoçar fora - porque na minha infância eu nunca tinha ido almoçar num restaurante e achava que essa experiência era importante para eles, para não sentirem as ansiedades e as inseguranças provocadas pela segregação social, urbana, económica, arquitetónica. A ansiedade provocada por entrar num edifício enorme, moderno, espelhado, como se nós não estivéssemos no nosso espaço. Há uns anos isto inibia-me de entrar em determinados espaços. É a maneira como nos olham, mas também a maneira como nós nos sentimos, o nosso olhar sobre nós mesmos, a incorporação da discriminação. Não se fala muito disto, mas os centros comerciais foram importantes porque contribuíram para democratizar determinados espaços. E eu achava que os meus irmãos não tinham de atravessar aquele deserto enorme que eu atravessei. No último ano da universidade economizei dinheiro e fui para a Guiné, visitar a minha avó. Foi a primeira viagem que fiz. [...] A Europa debate-se com um problema enorme com os migrantes - que são refugiados, mas não são chamados assim porque isso iria exigir uma resposta das instituições. O que nós achamos é que a Europa só pode ser verdadeiramente democrática quando não excluir ninguém e quando quer o Parlamento Europeu quer os parlamentos nacionais forem um reflexo das nossas sociedades multiétnicas, multirreligiosas, multiculturais, com homens e mulheres, heterossexuais, homossexuais, etc. Não há homogeneidade. Para isso temos de resgatar os valores da Europa. Porque é nesses valores que vamos encontrar os instrumentos para combater as ideologias fascistas, ultraconservadoras, misóginas, sexistas, elitistas. [...] Sempre gaguejei e isso nunca me inibiu. Os meus pais e a minha avó relativizaram sempre muito a minha forma de falar, brincavam com a minha gaguez e sempre me fizeram sentir à vontade. Mesmo no colégio, eu era a apresentadora das festas de Natal e, em situações importantes, eu era a escolhida para ler em voz alta e para falar. Todos os meus castigos eram porque eu estava a falar de mais. Tudo isso alterou-se no 12.º ano com a ansiedade de entrar na universidade. Comecei a sentir nos ombros o enorme peso de ser alguém de uma família que não tinha recursos. Tomei consciência de que não estava numa posição favorável. E, além do mais, gaguejava. Sabia que tinha de enfrentar situações em que seria avaliada pelo meu aspeto, por aquilo que dizia, pela maneira como falava. Foi o início de uma inibição. Comecei a optar por ficar calada. [...]. Ela estreou como atriz no filme Mudança (2020), realizado pelo cineasta guineense Welket Bungué. Em maio de 2021, Joacine lançou o livro Matchundadi: Género, Performance e Violência Política na Guiné-Bissau (Documenta - Sistema Solar, 2020), que tem por base a sua tese de doutoramento e coloca a luz sobre a dominação dos conceitos tradicionais de masculinidade na vida política e social da Guiné-Bissau. Em 2023 ela recebeu Prémio Mulher Referência Chá de Beleza Afro (CBA), depois que foi vítima da mais violenta e mais vil campanha de ódio, racismo e xenofobia de que há memória na história da democracia portuguesa.

 

A ARTE DE ANTÔNIO NÓBREGA

Antonio Nóbrega em Paisagens (pós) Armoriais: Semeando, Fertilizando e Florescendo (Insular, 2019), livro de Luís Adriano Mendes Costa, sobre o Movimento Armorial do Nordeste, destacando o poeta, cantor, instrumentista, dançarino e multiartista Antonio Nóbrega. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

ITINERARTE – COLETIVO ARTEVISTA MULTIDESBRAVADOR:

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segunda-feira, fevereiro 27, 2023

ROSALÍA DE CASTRO, GAYATRI SPIVAK, EDNA MILLAY & DUDA DO RECIFE

 

Ao som dos álbuns Maestro Duda & Orquestra de Frevo (Vols, 1, 2,3 e 4, 1999), e o concerto Suíte Nordestina (Arranjadores – Orquestra Experimental de Repertório, São Paulo, 2012) do maestro, arranjador, compositor e instrumentista Duda do Recife (José Ursicino da Silva), Patrimônio Vivo de Pernambuco. Veja mais aqui.

 

TRÍPTICO DQP: - Nunca pense antes de começar, faça... - Chegou a horagá, havia de mudar: inadiável. Logo me vi na mesma situação elegíaca de Manguel e comecei pela parte mais difícil: encaixotar os livros. Era uma tarefa das mais dolorosas, apertava o peito. Os invisíveis guardiões cabisbaixos me davam a sensação dos que pereceram nos repositórios do saber e remédios da alma – como se chegasse ao ponto da biblioteca de Alexandria com Hypatia soterrada, ou das desaparecidas de Nínive, Bergamo ou Menin e todo aprendizado milenar às cinzas. Era triste. Quantas vezes, confesso, não vivi na pele de Stephan Dédalos ou do Copperfield de Dickens, personagens outros quase íntimos saltavam dos volumes e invadiam os espaços da casa perpetuando fatos e memórias para meu regalo. Os meus rascunhos, palimpsestos muitos juntos às garrancheiras e aos da cabeceira como se fossem da Babel de Borges, os das páginas que mais risquei, grifando frases e rabiscos pelas margens com as hestórias flagradas por trás das palavras escritas, os que foram emprestados e jamais devolvidos, os que me esperavam pela leitura e os que sepultei sabendo que me matava junto cada vez mais. Nesta hora Gayatri Spivak: A autobiografia é uma ferida onde o sangue da história não seca... Agora me sentindo mais solitário que nunca, tombei alguns pra doação à biblioteca municipal, mais da metade de todo acervo. Tanto doía a ponto de ouvir alguém dizer sem saber quem: Na escuridão eles vão, os sábios e os amáveis... Sabia dos que jamais os leram e preferiam queimá-los todos, dos muitos que quando não detestavam mais zombavam daqueles que liam e que era coisa de doido essa coisa de queimar pestana sem pregar o olho sobre brochuras, capas duras e publicações grossas, gente que tinha horror às impressões, quando não abominavam quem inventou estudo. O que me consolava era a oportunidade de muitos outros o acesso aos que li. Era o que dava alguma satisfação, pelo menos isso. Os demais que ficaram comigo, amontoados agora nalgum canto esquecido e inacessível.


 

Diário das facécias... – Imagem da artista plástica Márcia Gebara, integrante do Grupo Ateliê Virtual 2022. - Com o ocorrido fiquei tão deslocado: os ideais me levaram ao desespero, a vida afundou no lamaçal, inconsolável, deprimente. Havia de superar e eu menino outra vez, uma mão na frente, outra atrás. Em meu consolo Edna Millay: A infância não vai do nascimento até certa idade, e a certa altura a criança está crescida, deixando de lado as coisas de criança. A infância é o reino onde ninguém morre... Tentei desfazer o nó na garganta e, quase refeito, segui adiante sobrecarregado de novas esperanças. Não fosse Elizabeth George estaria numa encruzilhada: As expectativas destroem nossa paz de espírito. São decepções futuras, planejadas com antecedência. O passado não pode ser mudado, pode? Isso só pode ser perdoado... E lá ia eu Senécio de Klee, pseudo Arlequim de Goldoni – nem para isso eu servia, levando tudo nos peitos como desse, no meu soturno ensimesmamento...


 

Só diga até amanhã, nada mais... – Imagem do artista visual Ricardo Aydar, integrante do Grupo Ateliê Virtual 2022. – Entre as mãos, a surpresa do momento: o livro que ela me dera. Sim, foi numa tarde de décadas atrás, ela se parecia com A moça do brinco de pérola de Vermeer, sobressaindo-se a lágrima dos deuses iluminando seus olhos e lábios na face quase oriental. Pediu-me um favor e gratificou minha gentileza com Marlowe: Quem pode dizer que amou sem ter amado à primeira vista? Todos vivem para morrer e sobem para cair... Despediu-se graciosamente e, no dia seguinte, quase Hannah do Der Varleser de Schlink, quase a personagem de Kate Winslet das cenas do The Reader de Stephen Daldry, assim, ambivalente, na verdade, eloquentemente bela e muito mais que antes a me presentear um livro. Mais que grato, agora em dívida, ouvi-lhe Rosalía de Castro: Eu vejo meu caminho, mas não sei onde ele leva. Não saber para onde vou é o que me inspira a percorrê-lo... Para mim era o hálito da deusa Hator que debruava sobre mim, tratado agora como se fosse xilógrafo ou toreumatólogo pelo terraço perfumado pela presença daquela estranha simpática e a me mostrar o busto de quartzita rosada da Nefertiti, enquanto apontava para os desenhos das figuras nas paredes das grutas de Altamira e Lascaux. Estava, confesso, perdido e ela aproximando-se mais da parede, deslizou o dedo indicador acrescentando sorridente outros desenhos aos dali expostos. Sorriu com tanta graça que me flagrou olhos nela completamente aturdido. Não levou em conta a minha desorientação, começou a gesticular no ar e a paisagem ia mudando e já era outra localidade aos meus olhos ali na hora. Viu-me espantado, tomou minhas mãos às suas e levou-me a dançar uma ciranda envolvente corredor adentro, as vestes se soltando ao vento, deitando-se desnuda a um canto como se fosse a Vênus de Agatarco para me premiar muito mais por dias e noites. Quase um sonho, a névoa onírica se dissipava e previ ao longo do tempo a despedida. Pedi-lhe apenas um até amanhã, nem me disse adeus e nunca mais. Até mais ver.

 

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quinta-feira, fevereiro 27, 2020

GOLDONI, SOPHIE SCHOLL, RABINOVITCH, TALLULLAH BANKEHEAD, MILENA MORAES, TEREZA LIMA & PERNAMBUCO


TODO DIA É DIA DA MULHER – UMA: A FOLIA DO CARNAVAL TRAZ DUAS BOMBRAS PRO BRASIL - A primeira bomba é a de que o Coisonário & sua coisada trupe, convocaram seu batalhão de coisominions no carnaval, para protestarem no próximo dia 15 de março, contra o Congresso Nacional e o STF. Como a estupidez, a desinformação e a indiferença de grande parte da população e da maioria das autoridades constituídas estão no pico do sensômetro beirando o descabível, faz-se necessário observar que tal ato conflita com o previsto no inciso II do art. 85 CF/88, que dispõe: São crimes de responsabilidade os atos do Presidente da República que atentem contra a Constituição Federal e, especialmente, contra: [...] II - o livre exercício do Poder Legislativo, do Poder Judiciário, do Ministério Público e dos Poderes constitucionais das unidades da Federação; [...]. Como tem muita gente levando nas coxas e deixando essas coisas pra lá, uma sacadinha só: para qualquer simples entendedor isto significa: golpe! Ou não? Nesse caso, mais um, né? Huummmm... A segunda: são as notícias calamitosas de supostos casos do coronavírus no Brasil, sobretudo em São Paulo e em Pernambuco. Eita! Em tempos sombrios como os atuais, não seria nunca demais recorrer a quem entendia do riscado, como o caso da Marie Curie (1867-1934): “A vida não é fácil para nenhum de nós. Temos que ter persistência e, acima de tudo, confiança em nós mesmos. Cada pessoa deve trabalhar para o seu aperfeiçoamento e, ao mesmo tempo, participar da responsabilidade coletiva por toda a humanidade”. É isso aí. DUAS: EM TEMPOS SOMBRIOS, ONDE O AMOR? – De 2015 para cá a coisa começou mesmo a desandar dum jeito desarrumado. A bronca tem ficado séria demais: lapadas de golpes, umas atrás das outras, tem deixado tudo muito imprevisível. Mesmo com tudo isso, das duas, uma: ou os corações apaixonados estão roendo a maior dor de cotovelo de não verem mais nada; ou estão amando com urgência demais que não conseguem sacar a situação desesperadora que estamos atravessando. Da minha parte, vou de Adélia Prado: “Estou no começo do meu desespero, e só vejo dois caminhos: ou viro doida, ou santa”. Acho que já endoidei o suficiente na vida, nunca tive vocação para santo. Estou, portanto, num mato sem cachorro. Como não vejo solução para o meu caso, melhor levar o assunto para o coração e destacar outro recado dela: “Amor pra mim é ser capaz de permitir que aquele que eu amo exista como tal, como ele mesmo. Isso é o mais pleno amor. Dar a liberdade dele existir ao meu lado do jeito que ele é”. Assim, sim. TRÊS: RAZÃO X EMOÇÃO - Nunca é demais levantar a bola dos equívocos que a gente costuma secularmente meter o bedelho. O mundo ocidental – leia-se: esse mesmo que a gente vive, ora! -, não encontra conciliação entre o que deve prevalecer: a razão ou a emoção. A segunda ganha de feio, razão pela qual a gente flagra todo dia muita pisada na bosta no noticiário, parecendo mais que a gente gosta mesmo de fazer muita merda. A primeira, por sua vez, uma frieza que sai da academia com despreparados de nariz empinado, só para contaminar a indiferença daqueles que se acham os sabidos intelectuais acima da mundiça. Coisa de ficar puxando prum lado ou pro outro, no desgraçado maniqueísmo dos sectários. Melhor, acho eu, a da sábia Mayana Zatz: “Um olho na razão, outro no coração”. Aí, sim, ora, ora, vamos aprumar a conversa, gente! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS: [...] PLÁCIDA – Se voltarmos a levar comédias dell’arte, estaremos bem arranjados. O mundo está farto de ver sempre as mesmas coisas e de ouvir sempre as mesmas palavras; o público já sabe de antemão o que Arlequim vai dizer, antes mesmo que abra a boca. Por mim, senhor Horácio, digo francamente que em poucas peças antigas ainda trabalharei; estou encantada com o novo estilo. [...] PLÁCIDA – Meu caro poeta, o senhor é um louco. (Sai) [...]. Trechos da Cena 2 do 1º Ato da peça teatral O teatro cômico (Companhia Teatro de Almada, 2011), do dramaturgo veneziano Carlo Goldoni (1707-1793), escrita em 1743 para a grande atriz florentina, Anna Boccherini, La donna di Garbo, sua primeira comédia regular totalmente escrita, entregando aos atores o texto completo, da primeira à última palavra. Trata-se da primeira das dezesseis comédias, a peça representa uma inovação na produção do autor, na qual discute o estado atual da comédia, corrompido e muitas vezes vulgar, e apresenta seu projeto para colocar em nova honra as boas práticas da tradição, enquanto mostra cenas e personagens fiéis à vida real. É uma comédia metateatral que enfatiza o status da peça como encenada. Os personagens são atores que, para interpretar uma comédia, colocam máscaras e nomes da tradicional Commedia dell'Arte, revelando as problemáticas do tempo em que a peça foi escrita: a precariedade da vida dos atores, a crise do melodrama, o desemprego, a fome que atormenta a classe dos artistas, mostrando a solidariedade que une os trabalhadores do teatro e que dá sentido à aventura humana e teatral. O espaço cênico exibe o trabalho que cada ator deverá levar a cabo – ou seja, trata-se aqui do teatro dentro do teatro, de uma viagem entre o imaginário e a realidade, na forma de uma alegoria que desvenda os processos do teatro para aproximá-lo do seu público. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

RESISTIR É PRECISO - Não nos calaremos, somos a sua consciência pesada; a Rosa Branca não os deixará em paz! O que escrevemos e falamos é o que muitas pessoas pensam, mas não têm coragem de dizer. Como podemos esperar que a justiça prevaleça, quando dificilmente alguém se dispõe a se entregar por uma causa justa? Levante-se pelo que você acredita, mesmo que isso signifique levantar-se sozinho. O que importa a minha morte se, através do nosso exemplo, milhares de pessoas acordarão e começarão a agir. Palavras da pacifista alemã Sophie Scholl (1921-1943), a jovem que enfrentou Hitler, como membro do movimento de resistência antinazista, Rosa Branca, que se opôs ativamente ao Terceiro Reich durante a Segunda Guerra Mundial. Ela foi presa pela Gestapo, em 18 de fevereiro de 19043, enquanto distribuía panfletos na Universidade de Munique e na Baviera com trechos apocalípticos da Bíblia, condenada por traição e executada na guilhotina, tornando-se mártir e heroína alemã da causa, juntamente com seu irmão, Hans Scholl, e um colega universitário, Christoph Probst, 24 horas depois de condenados. Esse fato foi tema do filme A Rosa Branca (Die Weiße Rose - 1982), de Michael Verhoeven, baseado na história dos estudantes alemães que protestaram contra o regime nazista. Em seguida, a atriz Lena Stolze, que interpretou Sophie Scholl, reprisou seu papel em The Last Five Days (1982) e, logo após, no Sofphie Scholl: The Final Days (2005). Outro filme também retrata a cena vivida, a exemplo do premiado Shophie Scholl – Diez letzten Tage (Uma mulher contra Hitler, 2005), dirigido por Marc Rothermundo e Fred Breinersdorfer, estrelado por Julia Jentsch.

A ARTE TEATRAL DE TALLULLAH BANKEHEAD
Se eu pudesse voltar à juventude, cometeria todos aqueles erros de novo. Só que mais cedo. Eu sou séria sobre o amor. Estou bem séria sobre isso agora... Não tive um caso por seis meses. Seis meses! É bem longo... Se há alguma coisa comigo agora, não é o estado de espírito de Hollywood ou Hollywood... O assunto comigo é, quero um homem!... Seis meses é muito, muito tempo. Eu quero um homem! Ninguém pode ser exatamente como eu. Algumas vezes eu mesmo tenho problemas sendo assim. São as boas garotas que escrevem diários; as más nunca têm tempo. Já não se fazem espelhos como antigamente.
TALLULLAH BANKEHEAD - A arte da atriz estadunidense Tallullah Bankehead (1902-1968), conhecida por sua atuação no teatro em comédias e dramas, personalidade vibrante, sagacidade devastadora e voz rouca, tornando-se um ícone de personalidade e atuação tempestuosa e atraente, com uma voz única e maneirismos que costumavam beirar a imitação e a paródia. Teve marcante participação em causas como os movimentos por direitos civis, abrigos para crianças abandonados e às famílias vítimas da Guerra Civil Espanhola e na Segunda Guerra Mundial. Atuou também no cinema, no rádio e na televisão. Teve uma vida sexual desinibida, lutando contra o alcoolismo e o vicio em drogas. Veja mais aqui.
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A ATRIZ MILENA MORAES
Se o que você faz não é relevante de fato, não tem por que fazer. Eu comecei a fazer teatro em 1994, mas foi a partir de 2001 que considero o primeiro trabalho profissional com ‘Uma Mulher Só’, solo que tratava de uma personagem que sofre violência doméstica e é presa em casa. Gosto de trabalhar com espaços não convencionais, esse deslocamento é potente. O teatro não precisa acontecer no teatro. E também acho importante manter o intercâmbio com autores latinos vivos por que afinal, somos todos latinos, e dessa maneira conseguimos manter o diálogo aberto. Quem faz humor faz qualquer coisa. Em todos os meus trabalhos vai ter uma pitada de humor. Na vida é assim, tem humor em tudo. Para que o drama tenha densidade também é necessário que existam momentos de leveza e ironia. Como vou saber o que é triste se não sei o que é ser alegre?
MILENA MORAES - A arte da atriz Milena Moraes, fundadora da companhia teatral Cia La Vaca, participando por festivais e tendo integrado o Teatro de Quinta. Ela já representa em Mi Muñequita (2008), Kassandra (2012), UZ (2014) e Odiseo.com (2014). Veja mais aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do fotógrafo e pedagogo ucraniano Ben Magid Rabinovitch (1884-1964), autor da monografia instrutiva, How To Learn Photography, que permaneceu impressa durante sua vida. Veja mais aqui & aqui.

TODO DIA É DIA DA MULHER PERNAMBUCANA
Ana Lins & a Revolução Pernambucana de 1817 aqui.
A poesia do poeta, jornalista, professor e memorialista Mauro Mota (1911-1984) aqui, aqui & aqui.
A crônica do jornalista e escritor Ronildo Maia Leite (1930-2009) aqui e aqui.
A Cronologia pernambucana, do jornalista, historiador, pesquisador, lexicógrafo e compositor Nelson Barbalho (1918-1993) aqui, aqui & aqui.
A pintura de Marisa Lacerda aqui
A cigana Rejane Soares Cavalcanti aqui
A cana: dos coronéis aos mamoeiros aqui, aqui & aqui.
O município de Primavera aqui & aqui
O blog da professora e ativista cultural Tereza Lima aqui.
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OFICINAS ABI
Veja detalhes das oficinas da ABI aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.


ANNE CARSON, FRANÇOISE VERGÈS, TAHMIMA ANAM & SETÍGONO

    Imagem: Pulsações caósmicas , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Em rota de colisão, a sorte...