sexta-feira, fevereiro 21, 2014

ÁGORA, O FILME


ÁGORA, O FILME



O filme espanhol Alexandria, cujo título original é Ágora, lançado em 2009 sob a direção de Alejandro Amenábar, com roteiro escrito pelo próprio diretor em parceria com Mateo Gil, retrata a Alexandria do antigo Egito, entre os anos de 355 e 415 d.C. Tem-se, portanto, que a narrativa é desenvolvida no cenário do politeísmo pagão dos egípcios, dominada pela soberania romana com as tradições gregas e levada pelos conflitos e tensões entre cristão e judeus.
O drama envolve dois aspectos: o primeiro deles de natureza histórica, envolvendo questões político-religiosas do período ocorrido no final do séc. IV d.C., compreendendo as relações entre pagãos, cristãos e judeus. A segunda, de natureza filosófica.
O primeiro aspecto histórico traduz as relações de domínio do Império Romano confrontando o paganismo que adotava a condução politeísta da classe dominante, e o confronto entre judeus e cristãos nas disputas de poder na luta pela soberania religiosa, econômica e política da antiguidade. Demonstra o período de intolerância religiosa que efetivou a conversão de pagãos ao cristianismo e o seu convívio com o judaísmo e a cultura greco-romana. A intolerância religiosa cristã despreza a condição feminina, principalmente atacando Hypatia de ateia e bruxa, o que afronta sua proteção pelo prefeito Orestes, um pagão convertido ao Cristianismo pelas conveniências políticas da época.
Nesse aspecto histórico, o filme torna aguda a grande contradição que envolve a morte de Jesus, levando a seguinte indagação: como Jesus foi assassinado pelos judeus, se no ato de sua crucificação ele foi considerado pela tabuleta com as inscrições INRI (Jesus de Nazaré, rei dos judeus)? Essa contradição persegue até os dias atuais, tornando-se clara, como demonstrado no filme, a intolerância de todas as partes envolvidas na trama. Além do mais, mostra o sentido oposto que foi adotado pelos cristãos, contrariando os ensinamentos de Jesus na defesa do amor, da paz, da liberdade e da justiça.
O aspecto filosófico envolve a astrônoma, filósofa e professora Hypatia de Alexandria (370 d.C. – 415 d.C.), filha do matemático, diretor do Museu e da Biblioteca do lugar, Théon, confrontando o heliocentrismo do astrônomo e matemático grego Aristarco de Samos (320 a.C.-250 a.C.), contrapondo-se as ideias de Pitágoras, Heráclides e do cientista grego Claudio Ptolomeu (90 d.C.-168 d.C.), que defendiam o geocentrismo.
Para Aristarco, a terra girava em torno do sol, proposta que seria quase dois mil anos mais tarde reafirmada por Nicolau Copérnico, John Kepler e Galileu Galilei. Contudo, o sistema ptolomaico se manteve por catorze séculos, sendo substituído apenas no Séc. XVI.
A filósofa que se manteve solteira e livre para estudar e lecionar, não se submetendo a autoridade de qualquer homem, é envolvida por dois amores dedicados, o do prefeito que era pagão convertido ao Cristianismo, Orestes, e do escravo também convertido cristão, Davus, enquanto ela se dedicava aos estudos astronômicos, matemáticos e filosóficos, principalmente levada pelas ideias de Aristarco do movimento da terra em torno do sol. Por se negar à conversão cristã, optando em se manter neutra na questão e devotando sua crença apenas à Filosofia, ela é apedrejada até a morte em 415 d.C.
Por conclusão, o filme traz a mensagem de como o conhecimento, a Filosofia e a Ciência foram oprimidas pelo sectarismo e pela intolerância religiosa, bem como pela sede de poder que caracterizou o apogeu do Cristianismo no Ocidente. Veja mais aqui e aqui.

* Resenha apresentada à disciplina Bases Filosóficas e Epistemológicas da Psicologia, ministrada pelo Professor Álvaro Queiroz.


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