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domingo, outubro 31, 2021

PINTANDO NA PRAÇA, ALEJO CARPENTIER, JULIE MEHRETU, BILL MCKIBBEN & MATTHEW HERBERT

 

 

TRÍPTICO DQP – Acerto de contas... - Ao som do álbum Plat du jour (Accidental Records, 2005), do compositor britânico Matthew Herbert. – As incertezas todas e eu insistindo em ser feliz, como se ainda pudesse no meio dessa tragicomédia paradoxal, e se só restava uma esperança minada pelas lápides, arquivos e fotografias desbotadas. Apesar de tudo, persigo coração pulsante e partido porque carrego comigo o inferno dos outros em carne viva, o delírio de desembaraçar as linhas tênues de um passado perdido na memória. Se me dera a sorrir era porque ali estava Djuna Barnes insistentemente: O que é uma ruína senão o tempo diminuindo sua resistência? Corrupção é a Idade do Tempo. O insuportável é o início da curva da alegria. Um homem só é completo quando leva em consideração sua sombra e também a si mesmo - e o que é a sombra de um homem senão seu espanto ereto? O pior era ter de encarar T. S. Eliot me cuspir na cara o sarcasmo: O tempo presente e o tempo passado estão ambos talvez presentes no tempo futuro. O que dissesse ou fizesse depois disso, não adiantava, era como se Arthur Miller me jogasse para protagonizar After the fall (Depois da queda, 1964) e me restasse ecoando: Não posso chorar nem por minha própria mãe... Não sei como sofrer, ao que parece... Deus, por que será a traição a única verdade que se agarra à gente! Tive que acender todas as luzes para não sucumbir inteiro no obscurecimento geral. No meio da minha louca sofreguidão, a surpresa com a emergência radiante de Maria Della Costa, como se fosse a Marilyn Monroe nua de todos os sonhos impossíveis, me trazer de novo, depois da entrega, o que olvidara do escritor cubano Alejo Carpentier (1904-1980): Os mundos novos tem de ser vividos, mais do que explicados. Aqueles que aqui vivem não o fazem por convicção intelectual; acreditam simplesmente que a vida suportável é está e não a outra. Não havia como evitar, era o acerto de contas com todos os meus equívocos edulcorados na incerteza e nada se acabava porque era a verdade que inventei.

 


Todos no mesmo barco... - Imagem: arte da artista etíope Julie Mehretu. - A solidão é o meu refúgio e sei que nunca estarei só, mesmo que tudo se pareça inconsolável. Não sei se ainda posso me salvar da asfixia do tempo, ou se já defuntei e sirvo apenas da lembrança do que vivi. Às vezes duvido, sobretudo ao ouvir o trecho severo do jornalista ambiental estadunidense, Bill McKibben, no The end of nature (Random House, 2014): Embora durante décadas a civilização tenha pilhado e poluído a Terra, no passado esse ataque era relativamente localizados; nos dias atuais, com as mudanças globais causadas pelos gases-estufa e a depleção de ozônio, o homem alterou a maioria dos processos de vida em toda a parte, e o mundo ao ar livre, a natureza em si mesma, tem se tornado o equivalente a uma enorme sala aquecida... Sim, um calor enorme, invencível, irrespirável. A ponto de me pegar a casa incendiada e salvei o fogo de Cocteau. Era o que deveria ter sido feito porque sempre disse sim! Como se conjugasse o verbo de Raymond Queneau: Eu sim, nós gozamos... eles sinzam. E reiterei tal como e.e.cummings: Sim é o mundo. E mesmo que o patético da agonia me mostrasse tantas benemerências escondendo a hipocrisia e que havia mais que um estrondo e tantos suspiros - quanta contrafação nos capítulos teratológicos do presente degenerado, seria preciso dar um basta na cafajestice, tudo é demais em torpezas, sordidez e anestesiados. Sim e assumi o passado porque o presente nunca será impune e o sonho nunca existiu: os testemunhos da solidão. Enfim, estamos todos no mesmo barco.

 


Cant&pintando na praça... - Desta vez não cantamos, mas estávamos lá, eu&Ripe&Linaldo solidários de sempre, como se cochichássemos a nossa Nênia. Desde a minha primeira em 2017, como de costume, o sábado estava lindo! E que ninguém nos ouça mesmo, porque tão lindo estava para a maravilha que não foi pouca, porque coroada pelos alunos da SEMED, inquietos e a postos: traços, tintas & moldes – do papel à tela, mãos à massa! Chega dava vontade de traquinar entre eles! Parecia: ensino, pesquisa & extensão! Tomara, coisa tão boa de ver! Aproveitamos, então, tudo no meio do movimento de curiosos e arteiros, a bela Secretária desfilando um cortejo e enchendo os olhos de uma vontade louca de teimar, o Profeta era a Nalva num sorriso só, enquanto Alexandre Freitas sapecava pinceladas ensinando o que é do talento, Isaac Vieira a cometer belezas na manhã que entardecia mais colorida, Rute Costa com seu tapete de leituras e simpatias para alegria de olhares perdidos, Epifânio trazia recados das suas artesanias, Tylla de Jahfari cantava no meu coração pro Erick Nelson solar tantos tons ao meu ouvido & eu testemunhava ainda ali o Poema vivo de Admmauro Gommes que a Poesia lhe dera. Tudo parecia como se fosse um primeiro passo para a práxis da Ação Cultural para a Liberdade, numa das homenagens tácitas ao saudosíssimo centenário Paulo Freire. Ali eu sabia: na praça central a minha cidade renascia. Até mais ver.

 

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quarta-feira, outubro 14, 2020

LOU SALOMÉ, CUMMINGS, KHATERINE MANSFIELD, JACOB BOEHME, MARTA SOARES, HÉLIO FEIJÓ & O TEMPO DE ALSONDONS


  

TRÍPTICO DQC: PRÓLOGO DA TIRINETA – Perdi a completa noção do tempo. O que fazer, não sabia. De repente meti a mão no bolso, nenhuma cédula ou moeda, mas havia algo lá causando incômodo. Puxei do fundo, saquei um punhado de sonhos! Nossa! Cuidadosamente tive de deixá-los intocáveis, bem acomodados onde estava. Um deles buliçoso ficou na minha mão. Soltei e fez-se uma sombra de ave desconhecida que tomava vulto. Ficou enorme, assustei-me. Possivelmente nem era um sonho meu, devia nem ter mexido. Aos poucos a certidão: todo ambiente transformou-se no quintal da infância nunca mais visto: o aroma aprazível, o ruído da pisada agradável nas folhas do chão, o gosto de fruteira no ar, os galhos do abacateiro que eu gostava de me atrepar, o gorjeio dos pássaros em polvorosa, os calangos correndo em ziguezague pelo muro, a vaga entre as folhas da bananeira na parte do muro que eu gostava de me pendurar nas traquinagens, coisas distantes e inesquecíveis. O desejo da criancice imperou e me fez apoiar o pé na raiz da mangueira, mãos pelo reboco até avistar, por cima do parapeito, uma desconhecida a se banhar nua na lavanderia. Aquietei-me. Não era aquela que meus olhos infantis costumavam apreciar. Essa era mais morena, corpanzil robusto, formas bem delineadas. Percebi seus grandes olhos negros agateados ao me flagrar. Foi muito rápido. Outra olhadela e, a constatação, que era muito bonita com seus lábios ressaltados, seios eminentes, ancas simpaticamente arredondadas sobre coxas e pernas vigorosas, um verdadeiro milagre da natureza. Ao ser novamente descoberto, esquivo na timidez e ela pouco se importava, até sorriu-me graciosa. Com a minha insistência em vê-la, acenou-me: Vem! Eita! Pulei imediatamente e um lodaçal no outro lado do muro me deixou em apuros, como se estivesse entre areias movediças. Ela estendeu-me a mão em socorro e não consegui me segurar. Escapuli para despencar num poço sem fundo de nunca mais parar de cair e ouvi-la Lou Salomé: A vida humana – ah / A vida sobretudo – é poesia. ; Inconscientes, nós a vivemos, dia a dia / passo a passo – mas em sua intangível / plenitude ela vive e se nos traduz em poesia. / Longe, muito longe da antiga frase / ‘Faz de tua vida uma obra de arte!’; / Não somos nós nossa obra de arte. Não sabia onde ia parar, sei que a vertigem foi maior.

 


A TRAMA ABSURDA – Havia então perdido toda noção de tempo e espaço, não sabia nem onde estava. Vi um cotoco de vela e marquei para aprumar direção. Adiantou nada. Pensei haver por ali uma lamparina ou clepsidra ou ampulheta, sandglasse, merkhet, gnômon, pêndulos, cronômetros, ou os pneumáticos de Popp e Resch, o acrônimo Atmos, o de Flora, ora, ora, no meio da roda viva nem preciso mais de nada da horometria, marcador nenhum de tempo é preciso, para quê? É o mesmo de contar o inexistente. Se não sei mais onde estou, de necessário mesmo, prefiro o mais curioso deles no lugar onde fui parar: em Alsondons. Sim, soube por Robert-Martin Lesuire, François-Augustin Quillau e Victor Desenne, na publicação do L’aventurier français, mémories de Grégoire Merveil (Paris, 1792 – Nabu Press, 2013): [...] o velho método de medir o tempo, no qual uma menina de seios nus sobe num pedestal situado na praça principal e um rapaz põe as mãos nos seis dela, contando em voz alta as batidas de seu coração: cada batida corresponde a um segundo. E era a minha mão no seio da vizinha que reaparecera e eu contando as batidas do seu coração. O dia amanheceu e, de repente, Jacob Boehme ecoou na minha fantasia: No Amor, há certa grandeza e expansão do coração que é inexprimível, pois dilata a alma tanto quanto a inteira criação de Deus. E isso será verdadeiramente experimentado por ti, para além de todas as palavras, quando o Trono do Amor se estabelecer em teu coração. Nós, homens, temos um livro em comum que aponta para Deus. Cada um tem isso dentro de si, que é o inestimável Nome de Deus. Sim, ouvi atento. Ela ao meu lado a tudo também ouviu, deitou minha cabeça em seu seio desnudo e cantarolou um sensual acalanto para que eu dormisse em sua carne e não mais soubesse de nada além da vida nela, porque lá fora todos se matavam e se beijavam num estrepitoso morticínio.

 


EPÍLOGO DAS CULMINÂNCIASImagem: cena da instalação coreográfica de dança, performance e vídeo O banho (2004), da premiada coreógrafa e bailarina Marta Soares, refletindo sobre a subjetividade de Sebastiana de Mello Freire (1887-1961), dona Yayá, uma homenagem à mulher da elite paulistana que foi diagnosticada como doente mental entre 1919/1961: Eu trabalho nas minhas criações, entre outras coisas, os traumas de ter crescido em uma pequena cidade do Interior de São Paulo, durante a ditadura militar, numa sociedade patriarcal. Acredito ser esse um dos motivos pelo qual venho criando danças sobre a impossibilidade de dançar. – Estávamos na banheira, seu sexo aprisionava o meu mordiscando-o deliciosamente, suas pernas me envolvia não me permitindo qualquer afastamento. Atracados prazerosamente, ela me beijava sussurrando sua vida, passado, desapontamentos, traumas e frustrações. Na voz dela Katherine Mansfield: Realmente, não creio na alma humana, nem nunca cri. Tenho a convicção de que as pessoas são como as malas: cheias de coisas diversas, são expedidas, atiradas, empurradas, lançadas ao chão, perdidas e reencontradas, até que, por fim um Último Transportador as atira para o Último Comboio. Beijei-a com poemas e canções que fiz para ela e leu-me um poema de Cummings: Não ser ninguém a não ser você mesmo, / num mundo que faz todo o possível, noite e dia, / para transformá-lo em outra pessoa / significa travar a batalha mais dura / que um ser humano pode enfrentar; / e, essencialmente, jamais parar de lutar. Dos seus olhos saltavam estrelas e ela as colocava como adereços nos cabelos, aformoseando-se para jogá-las aos beijos para mim, deixando-me iluminado com a sua saliva e, desejando-a cada vez mais, deitou sua cabeça sobre o meu ventre alisando carinhosamente meu sexo rijo entre os lábios e dedos para que tudo fosse recheado pela magia dos prazeres. E se entre a vida e a morte redivivos desfalecíamos e tornava-nos a ressuscitar porque ela bailava nua no meu corpo e eu no dela às voltas do planeta. Até mais ver.

 

A ARTE DE HÉLIO FEIJÓ

A arte do premiado poeta, pintor, desenhista e arquiteto Hélio Feijó (1913-1991), um dos mais completos e inovadores artistas na história da arte pernambucana, fundador do Grupo dos Independentes (1933) e da Sociedade de Arte Moderna (1947). Veja mais aqui & aqui.

 



sexta-feira, abril 13, 2018

NÉLIDA PIÑON, CUMMINGS, HEIDEGGER, HERBERT READ, JOHN CURRIN, CHARLES LLOYD & ALA.NI

NEM SABIA O QUE SUCEDEU – Imagem: arte do pintor estadunidense John Currin. - A vida e o espanto logo ali, o caminho é uma lâmina afiada lambendo minhas pegadas. A mulher me olha e eu quase esqueço a escorregar, olhos vivos demais na minha caligem, quase nem enxergo o vulto, só o seu olhar atento, imantado. Às vezes vou incólume na travessia, nem sempre, escapei por pouco e poucas vezes, é que conheço bem o fundo do poço, por isso voo livre como quem não sabe. Ela foi até a esquina e voltou. Eis-me por um fio, nada a declarar, o triz uma eternidade e eu jamais sei como voltar, embora queira jamais sair. Quem dera houvesse um tempo de ir e voltar sem ter que atravessar ruas com tanta gente com a fisionomia exaltada de noites mal dormidas. Ela me sorri entre apressados que quase lhe levam a face e chegada. Ah, se engraçam de si mesmos, ar de insatisfação, e eu andante sem que tivesse que cair a tarde toda vez que o amor desse a volta para nunca mais. Ela sequer sabe que desgarrado da matilha, nunca mais porto seguro com tantas intrigas e facadas pelas costas, só o contorno da enseada para me afogar na primeira poça de sangue ou escarrada. Há de haver outra hora, outro lugar, nunca a mesma coisa que insistem em recontar, como se debulhassem seus rosários para presságios dos outros. Ela vira a face pros pássaros enquanto, cá comigo, será que ontem de manhã eu achei o que havia perdido, e hoje nem lembro mais, ah, como é frívolo querer o que não tem, o quintal do vizinho é mais meu, ele nem sabe o tanto, sequer passa na cabeça da sua fortuna lugar tão belo e desabitado. Os pássaros dali são meus, ela nem sabe, ninguém se dá conta e torram a paciência alheia com seus arroubos ou queixumes. Do que tive quase nem sei, talvez nem sequer me lembre, ela se foi sem aceno e dobrou a esquina, valho-me do que tenho e sou feliz mesmo que tudo se derrube e eu possa singrar as avarias para ver do outro lado da ruína o que é por demais esperado noitedia, a viver com o bem-querer guardado no coração. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música do saxofonista e músico de jazz estadunidense Charles Lloyd New Quartet: Oslo Jazz Festival, Heineken Jazzaldia & Jazz Baltica; da cantora e musicista francesa Ala.Ni: Festival Jazz Sous Les Pommiers, 2Voor 12 Session & Le Ring; & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] No poetar do poeta, como no pensar do filósofo, de tal sorte se instaura um mundo, que qualquer coisa, seja uma árvore, uma montanha, uma casa, o chilrear de um pássaro, perde toda monotonia e vulgaridade [...]. Pensamento extraído da obra Introdução à Metafísica (Rio, 1969), do filósofo alemão Martin Heidegger (1889-1976). Veja mais aqui.

A VIDA & A ARTE - [...] o artista proporciona mais do que uma consolação momentânea de nossas misérias; ele vai além do véu que oculta a fonte de nossa depressão e nos apresenta provas da vitória do impulso sobre as forças da destruição [...] Nossa necessidade de beleza nasce da tristeza e sofrimento que experimentamos com os nossos impulsos destrutivos em relação aos nossos objetos bons e amados. [...]. Trecho extraído da obra As origens da forma na arte (Zahar, 1981), do poeta anarquista e crítico de arte britânico Herbert Read (1893-1968).

I LOVE MY HUSBAND - [...] atraído pelo meu cheiro e do animal em convulsão, ia pedindo de joelhos o meu amor. Sôfrega pelo esforço, eu sorvia água do rio, quem sabe em busca da febre que estava em minhas entranhas e eu não sabia como desperta. A pele ardente, o delírio, e as palavras que manchavam os meus lábios pela primeira vez, eu ruborizava de prazer e pudor, enquanto o pajé salvava-me a vida com seu ritual e seus pelos fartos no peito. Com a saúde nos dedos, da minha boca parecia sair o sopro da vida e eu deixava então o Clark Gable amarrado numa árvore, lentamente comido pelas formigas. Imitando a Nayoka, eu descia o rio que quase me assaltara as forças, evitando as quedas-d’água, aos gritos proclamando liberdade, a mais antiga e miríade das heranças. [...] sacrifico-me outra vez para não vê-lo sofrer. Será que apagando o futuro agora ainda há tempo de salvar-te? [...]. Conto extraído da obra O calor das coisas (Record, 2009), da premiadíssima escritora e imortal da Academia Brasileira de Letras, Nélida Piñon. Veja mais aqui.

POEMANenhum homem, se os homens deuses são / mas se os deuses homens devem ser. / E algumas vezes um homem é isto / (mais comum para cada angústia é sua pena / e para a sua alegria é mais, alegria, muito raro). / Um diabo, se os diabos falam a verdade, / se os anjos ardem pela própria, generosa, e toda luz, / um anjo, ou (como vários mundos ele rejeita / antes que falhe a imensurável sina). / Covarde, traidor, palhaço, idiota, sonhador, uma besta. / Assim foi um poeta e assim será e é / o que resolverá a profundidade do horror/ só para defender a arquitetura / do raio do sol com a sua própria vida. / E talha a floresta imortal do desespero / só para conservar o bater do coração / da montanha em sua mão. Poema do poeta estadunidense Edward Estlin Cummings ( e.e.cummings 1894-1962). Veja mais aquiaqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do pintor estadunidense John Currin.
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&
Sorria pra viver, a literatura de Albert Camus, o pensamento de Charlie Chaplin, O rapto de Prosérpina de Jan Peter Van Baurscheit & a arte de Ricardo Ponce aqui.



sábado, outubro 14, 2017

ÍTALO CALVINO, ARENDT, NIETZSCHE, CECÍLIA KERCHE, CUMMINGS, WOLF VOSTELL, RENATO JANINE, MAKABRESKU, O SOL & A LUA.

O SOL E A LUA - No tempo em que o Sol e a Lua eram gente, certo dia, o curumin caeté Fiietó brincava de caçar na mata, quando encontrou uma linda menina e se aproximou dela: Você está brincando de caçar? Tô não, tô perdida. Perdida? Sim, saí atrás de uma linda bobroleta e perdi o caminho de volta pra casa. Onde você mora? Não sei, estou perdida. Qual a sua tribo? Sou caingang. Nunca ouvi falar. Acho que corri demais atrás da borboleta de não perceber tão longe que fui. E você, é de qual tribo? Ah, sou caeté. Nunca ouvi falar, também. E agora? Não sei, estou perdida. Vamos brincar por ali pela lagoa, aí você, quem sabe, não encontra o caminho de de sua casa, hem? É, vamos. Como é seu nome? Iaravi. E o seu? Fiietô. Ah, tá, vamos pra lagoa? Vamos. E saíram os dois até chegarem à lagoa e ficaram brincando de mergulhar com os peixes. Pulavam, timbungavam, maior festa. Vamos ver de nós dois quem atira cipó mais longe dentro d’água? Nunca brinquei disso. Ah, porque você é menina, não sabe como é brincar coisa de menino. É, então vamos, quero aprender. E ficavam pegando gravetos e cipós no chão da mata e jogavam dentro d’água. Os peixes pulavam pra pegar as coisas jogadas no ar. Virou uma competição. Aí Fiietó gritou: Saiam, não é pra vocês pegarem, estamos apostando quem joga mais longe. Ah, os peixes nem deram conta, pulavam mesmo assim e interceptavam tudo no ar. Vocês estão atrapalhando nossa brincadeira! Ah, deixa, eles estão brincando com a gente, vamos nadar com eles? Então, vamos. E saíram nadando com os peixes e estes, para provocar os dois, ficavam apenas com o rabinho fora d’água só pra provocá-los a virem nadando atrás deles. Iaravi ia prum lado atrás dos que via, Fiietó ia pro outro com o mesmo objetivo. Tanto foram pra lados opostos que se distanciaram e, quando menos esperavam, esbarraram um no outro. Eita! Batemos com a cabeça. Foi. Estou cansada com esses peixes, eles me botaram para nadar muito. Eu também, vamos voltar pra margem? Vamos. E retornaram, ficaram olhando o brinquedo dos peixes pulando fora d’água e se riam muito com isso. Já estava escurecendo quando Iaravi ficou preocupada em voltar: E agora? Como volto pra casa? Ah, a gente se esqueceu de procurar o caminho, vamos ver se a gente encontra. Saíram, andaram, andaram, nada de Iaravi achar, quando Fêetó resolveu levá-la pra tribo dele. Lá chegando os dois se juntaram aos demais, cearam e foram dormir. No outro dia acordaram, tiraram o jejum e foram ver se achavam o caminho de volta pra casa dela. Foram pra mata e lá começaram a brincar de esconde-esconde, o que é que é, até que encontraram uns pica-paus e ele pediu um chapéu daquele cor de fogo feito os deles. Logo um dos pica-paus retirou um e deu pra ele, fazendo-o de leque. Bonito? Sim. E pra ela? Outro pica-pau deu um pra Iaravi. Eu estou bonita agora? Está. Vamos? Vamos. E ambos brincaram comos pássaros, de pula-pula e correr e voar. Lá pras tantas os pica-paus se despediram e foram embora, eles estavam felizes com os leques feitos chapéus cor de fogo na cabeça. Ah, agora você se faz de cega preu brincar de lhe guiar pela mata, tá bom. Nessa brincadeira ela muito tropicou nos galhos quebrados e secos, nas raízes e muitas pedras, a ponto de invocar-se e não querer mais brincar disso não. Ao abrir os olhos avistou uma casa de marimbondos. Vixe! Vamos embora, corre, olha ali uma casa de marimbondos. Era tarde, correram tanto que findaram mergulhados dentro da lagoa. Alguns peixes pularam e comeram alguns dos marimbondos que não resistiram e foram embora. Visse? Não fosem os peixes, a gente ia morrer afogado. Era mesmo, ainda me ferraram. E Fiietó realmente constatou inchaço nas faces e nas costas de Iaravi. Está doendo? Está. Vamos lá pra minha tribo cuidar disso. E voltaram. Chegaram lá, foram pro feiticeiro que passou uns ungüentos na pele de Iaravi e lhe deu um remédio para beber, demorou um pouquinho, a dor passou, mas continuava com a face e as costas inchadas. Ela então se deitou no chão da oca e ali adormeceu. Será que ela vai ficar boa? Vai, é só efeito do remédio que eu dei, logo ela acorda e volta a brincar com você. No outro dia Iaravi acordou e foram brincar de esconde-esconde de novo, ela tanto se escondeu que Fiietó não mais encontrou. Perdeu-se, sumiu-se. Caçou ele por tantos lugares e lonjuras, não mais encontrou Iaravi. Ele ficou muito triste, estava com saudades dela. Encostou-se numa pedra perto da lagoa e logo os peixes apareceram pulando na água. Ela desapareceu, não achei mais não. Queria era crescer, ficar grande, para encontrá-la. Quem sabe, ela esteja perdida na mata. Nessa hora um peixe deu um pulo maior e com um toque de barbatanas fez Fiietó crescer, agora um rapaz forte, bonito, guerreiro. Obrigado, amigos peixes, agora vou procurar Iaravi, se vocês encontrarem me avisem, viu? Vamos. E saiu morro acima, montanha abaixo, terras distantes nunca vistas. Bem distante dali, estava Iaravi soluçando na beira de um rio distante, quando os peixes pularam foram d’água. Ah, amigos peixinhos, que bom encontrar vocês por aqui. Viram Fiietó? E um dos peixes pulou, bateu a barbatana e Iaravi cresceu, tornando-se uma linda cunhã. Os peixinhos ficaram pulando como se a chamassem para nadar. Vocês sabem onde está Fiietó? Eles mais pulavan, ela entendeu que era pra segui-los. E ela nadou dias e noites. E Fiietó procurou por ela noites e dias. Cansavam, descansavam, tornavam a procurar um pelo outro, ao cabo de uma semana, quando ambos já haviam perdido as esperanças, sentaram cada qual na beira oposta de um grande rio, extenuados e sem mais esperanças. Estavam desapontados por não reencontrarem um ao outro. Ela olhava tudo ao redor, o céu, a terra, o mato, quando percebeu os peixes pulando de novo e não entendia. Vieram os pica-paus em bandos cantando, ah, os amiguinhos pica-paus, que vocês querem? Não entendia. Da mesma forma, na outra margem do grande rio, também os peixes e os pica-paus faziam o mesmo com Fiietó e ele não entendia. O que vocês querem? Os peixes mais pulavam e os pica-paus mais bicavam no ar, como se mandando ele a segui-los. E assim foi, ele mergulhou no grande rio e pôs-se a nadar acompanhando os peixes e os pássaros. Lá longe Iaravi avistava outros pica-paus voando aos pulos dos peixes na água, enquanto os que estavam com ela aumentavam no bater das asas e nos pulos na água. Demorou pra ela perceber umas braçadas firmes de gente na água, acompanhando os pulos dos peixes e o vôo dos pássaros, vindo em sua direção. Mais um pouco os braços se aproximavam e os pica-paus que vinham se encontravam com os outros que estavam com ela e, na água, aumentou em muito os pulos com muitos peixes até a chegada dele na beira do rio. Era Fiietó. Ela ficou feliz. Fiietó? Iaravi? Era o reencontro. E se abraçaram, se beijaram e juraram nunca mais se afastarem um do outro. Tanto é que passaram a tomar conta do mundo, ele de dia passou a ser o soberano Sol brilhando do amanhecer até o final das tardes, e ela, de noite, tornou-se a radiante Lua com suas fases para iluminar o caminho dos que se perdem. (Recriação a partir das lendas indígenas amazônicas recolhidas de Notícia dos Ofaié-Xavante (Revista Museu Paulista, 1951), de Darcy Ribeiro, e Os apinajé (Boletim do Museu Paraense Emiolio Goeldi, 1956), de Curt Nimuendaju). © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aquiaqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especiais com a música do compositor, regente orquestral, professor e jornalista Gilberto Mendes (1922-2016): O anjo esquerdo da história, Alegres trópicos - um baile na mata atlântica & Qualquer música; a saudosa cantora Elis Regina (1945-1982) ao Vivo, em Montreaux & Trem azul; do multi-instrumentista, músico, compositor e ativista nigeriano Fela Kuti (1938-1997): Afordisiac, Go slow & Gentleman; e da cantora Irah Caldeira: Flor do dia, Quero ter você, A natureza das coisas, Sem segredo & Avoante com Santanna, o Cantador. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA - Houve também quem, embora literato da cabeça aos pés, não sentiu nenhum complexo de inferioridade diante da história, mas, antes, teve certeza de que foi ele a nutri-la e enriquecê-la com toda a sua fantasia e cultura. Trecho de Assunto encerrado (Companhia das Letras, 2009), do escritor italiano Ítalo Calvino (1923-1985). Veja mais aqui.

TEMPOS SOMBRIOS - [...] Em nossa época, parece-me, nada é mais dúbio do que nossa atitude em relação ao mundo, nada menos assente que a concordância com o que aparece em público, imposta a nós pela homenagem, a qual confirma sua existência. Em nosso século, mesmo o gênio só pôde se desenvolver em conflito com o mundo e o âmbito público, embora, como sempre, encontre naturalmente sua concordância própria particular com sua platéia. Mas o mundo e as pessoas que nele habitam não são a mesma coisa. O mundo está entre as pessoas, e esse espaço intermediário — muito mais do que os homens, ou mesmo o homem (como geralmente se pensa) — é hoje o objeto de maior interesse e revolta de mais evidência em quase todos os países do planeta. Mesmo onde o mundo está, ou é mantido, mais ou menos em ordem, o âmbito público perdeu o poder iluminador que originalmente fazia parte de sua natureza. Um número cada vez maior de pessoas nos países do mundo ocidental, o qual encarou desde o declínio do mundo antigo a liberdade em relação à política como uma das liberdades básicas, utiliza tal liberdade e se retira do mundo e de suas obrigações junto a ele. Essa retirada do mundo não prejudica necessariamente o indivíduo; ele pode inclusive cultivar grandes talentos ao ponto da genialidade e assim, através de um rodeio, ser novamente útil ao mundo. Mas, a cada uma dessas retiradas, ocorre uma perda quase demonstrável para o mundo; o que se perde é o espaço intermediário específico e geralmente insubstituível que teria se formado entre esse indivíduo e seus companheiros homens. [...] Bem, a esse respeito, os últimos trinta anos dificilmente trouxeram algo que se pudesse chamar de novo. [...]. Trechos da obra Homens em tempos sombrios (Companhia das Letras, 2008), da filósofa política alemã de origem judaica Hannah Arendt (1906-1975). Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

OS HOMENS & A MORAL - [...] sob que condições o homem inventou para si os juízos de valor “bom” e “mau”? E que valor têm eles? Obstruíram ou promoveram até agora o crescimento do homem? São indícios de miséria, empobrecimento, degeneração da vida? Ou, ao contrário, revela-se neles a plenitude, a força, a vontade da vida, sua coragem, sua certeza, seu futuro? [...] Já em princípio a palavra “bom” não é ligada necessariamente a ações “não egoístas”, como quer a superstição daqueles genealogistas da moral. É somente com um declínio dos juízos de valor aristocráticos que esta oposição “egoísta” e “não egoísta” se impõe mais à consciência humana. [...] Na origem, toda a educação e os cuidados do corpo, o casamento, a medicina, a agricultura, a guerra, a palavra e o silêncio, as relações entre os homens e as relações com os deuses, pertenciam ao domínio da moralidade: esta exigia que prescrições fossem observadas, sem pensar em si mesmo como indivíduo. [...] Em toda a parte onde existe comunidade e, por conseguinte, moralidade dos costumes, reina a ideia de que a punição pela violação dos costumes recai em primeiro lugar sobre a própria comunidade. [...] Para poder dispor de tal modo do futuro, o quanto não precisou o homem aprender a distinguir o acontecimento casual do necessário, a pensar de maneira causal, a ver e antecipar a coisa distante como sendo presente, a estabelecer com segurança o fim e os meios para o fim, a calcular, contar confiar – para isso, o quanto não precisou antes tornar-se ele próprio confiável, constante, necessário, também para si, na sua própria representação, para poder enfim, como faz quem promete, responder por si como porvir! [...]. Trechos da obra Genealogia da moral: uma polêmica. (Companhia das Letras, 1998), do filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900). Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

ENSINO & ESCOLHASVivemos uma enorme demanda de conhecimento qualificado, cientifico, acadêmico. Isso é ótimo: o berço rico, a propriedade da terra, a carteira em banco não bastam mais para o sucesso na vida sem a inteligência e o estudo. [...] O acesso ao melhor conhecimento nem sempre é democrático, porque fica diferenciado pelo dinheiro que se tem. A demanda é democrática, a oferta nem tanto. [...] Da cabeça aos pés, cada um de nós veste a ciência que não existia cinco anos atrás. Mas a ciência também leva a uma consciência mais apurada do mundo. [...] Num país preconceituoso com o conhecimento (Monteiro Lobato sobre a preguiça mental: se desse a cem fazendeiros a escolha de ler meia hora ou derrubar uma mata de peroba, num instante ouviria 101 machados retumbando!), isso é formidável. A universidade também sabe, hoje, que para se legitimar precisa firmar alianças com a sociedade – inclusive, mas não só, o mundo empresarial. Isso diz respeito à sua estratégia. Deveria montar cursos de extensão oferecidos à larga, presenciais ou não. Mas falta dinheiro. Por isso, hoje é fora da academia que se supre essa necessidade. [...]. Trecho do artigo A corrida do ensino: a crise da universidade e a voga dos cursos de extensão (Bravo, março 2005), do filósofo, escritor e professor da USP, Renato Janine Ribeiro.

A ARTE DE CECILIA KERCHE
A arte da bailarina Cecília Kerche.

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DOIS POEMAS DE E. E. CUMMINGS
I
quando o meu amor vem ter comigo é
um pouco como música,um
pouco mais como uma cor curvando-se(por exemplo
laranja)
contra o silêncio,ou a escuridão….
a vinda do meu amor emite
um maravilhoso odor no meu pensamento,
devias ver quando a encontro
como a minha menor pulsação se torna menos.
E então toda a beleza dela é um torno
cujos quietos lábios me assassinam subitamente,
mas do meu cadáver a ferramenta o sorriso dela faz algo
subitamente luminoso e preciso
—e então somos Eu e Ela….
o que é isso que o realejo toca
II
a lua esconde-se no
cabelo dela.
O
lírio
do céu
cheio de todos os sonhos,
desce
encobre a sua brevidade em canto
cerca-a de intricados débeis pássaros
com margaridas e crepúsculos
Aprofunda-a,
Recita
sobre a sua
carne
as pérolas
da chuva uma a uma murmurando.
Poemas extraídos da obra Livro de poemas (Assírio & Alvim, 1999), do poeta estadunidense Edward Estlin Cummings ( e.e.cummings 1894-1962). Tradução de Cecília Rego Pinheiro. (Imagens: arte da fotógrafa polonesa Laura Makabresku). Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do pintor, videoartista e escultor suíço Wolf Vostell (1932-1998).
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quarta-feira, outubro 14, 2015

ARENDT, STANISLAW, CUMMINGS, RAVACHE, KERCHE, CALIXTO, SIMON & GARFUNKEL, BRINCARTE DO NITOLINO & TOMÉ & VITALINA.

VAMOS APRUMAR A CONVERSA? DO CUSTOSO CASO DE TOMÉ & VITALINA - Tem gente que vê dente de coelho em tudo! Pronto, esse é o Tomé, sujeito mão-de-figa mais desconfiado que esse tá pra existir na face da terra. O bocó é tão precavido que até da sombra ele interpela: - Pronde é que você vai? -, duvidando logo qualquer ruína ou má-fé até dela. Imagina? Pirangueiro que só, seu ditado é: - Não gosto de gastar. Parece mais disco arranhado num samba de uma nota só. Bote avareza e, por prevenção, anda com uma pata leporina no bolso. E sempre com um pé atrás: - Ué, pode ser que seja, pode ser que não seja. Homem prevenido vale por dois! Assim é ele que vê a vigência da teoria da conspiração pra todo lado e que chega até a ter parecença com aquele exótico Giorgio Tsoukalos do History Channel, de tanto suspeitar que está sendo ludibriado por alguma coisa. Tanto é que passou mais de trinta e cinco anos de sua vida zelando por sua castidade, sem arrumar uma que fosse por namorada. Quando encontrou, foi justo Vitalina, pense duas trepeças juntas. Pra se ter ideia, eles nasceram no mesmo dia, mês e ano! Um achado. A diferença é que ele era duma localidade denominada Casa de Caixa Pregos e ela num lugar duma lonjura tão grande que o povo só conhecia como Fim de Mundo. Não deixa de ser mais uma coincidência, né não? Apois, foi. Ele um hesitante que só anda com o pé direito na frente para evitar o sestro agouro; ela, uma crédula devota de todos os credos e sincretismos, que não sai de casa sem antes passar o horóscopo, fazer simpatias com todas as orações do rosário e viver de catar fórmulas e ocultidões para livrá-la de malsinações. Pronto, está feito o pacto mais perfeito. Sem saber se vai dar certo ou não, o certo mesmo é que embromaram no relacionamento por quase quinze anos entre achegamentos pudicos, meu bem pra lá e pra cá, com as inevitáveis divergências ocasionais que quase viraram definitivas, não cedessem diante da fortaleza de personalidade de ambos. Entre altos exultantes e baixos deprimentes, conseguiram empacar na novela do casamento depois de tanto tempo na identificação das afinidades e, um detalhe, sem noivado. A bronca vai até hoje. Por que? Ora, primeiro não conseguiram avançar do estágio de namoro pra nubente por completa falta de segurança – vai ver que um ou outro desista e não querem passar por esse vexame. Por via de dúvidas, prosseguiram na deles. Resolveram então pular a etapa e foram logo pro casório, não antes testarem de tudo: de fidelidade até conferência da vida dos familiares de cada um. Vencido o estágio de verificação se havia alguma pá virada entre os parentes deles, passaram para a cerimônia, não antes se desentenderem no descarte do celebrante, findando apenas no juiz e mais ninguém. Foram superando divergências de credo, de gastos, de convivas, de acomodação e muitas tantas outras que os dois emperraram de se engancharem em mata-burros intransponíveis, até chegarem pra escolha do dia pro matrimônio: não pode ser uma segunda porque ela nunca será a outra, vire; terça é dia de carnaval e ela não está pra ser deixada na folia, foi; quarta lembra a de cinzas, cruz-credo!; quinta, ela não quer ser categorizada como imprestável, arreda!; sexta, não quer sofrer como uma crucificada, sai-te!; sábado, é dia da libertinagem de Zé-Pereira, pula; domingo... hum, domingo. Ela refletiu que pode ser um domingo. Será? Depois da maior lengalenga, agora o nó-cego é escolher o mês, pois ela precisa passar no conferido da numerologia, das cartas e de todas as superstições inimagináveis de sua ciosa certificação. E isso leva tempo. Pelo jeito não será tão cedo. E vamos aprumar a conversa aqui.

 Imagem: Crianças (1892, Óleo sobre Tela Dim. : 51 x 63 cm), do pintor, desenhista, professor, historiador e astrônomo Benedito Calixto de Jesus (1853-1927).


Curtindo o álbum Bridge over Troubled Water (Columbia Records, 1970), da dupla Paul Simon e Art Garfunkel, que inspirou a canção Ponte sobre águas turvas, que compus sobre poema de Juareiz Correya. Veja aqui.

BRINCARTE DO NITOLINO – Hoje é dia de reprise do programa Brincarte do Nitolino para as crianças de todas as idades, nos horários das 10hs e das 15hs, no blog do Projeto MCLAM e com apresentação de Ísis Corrêa Naves. Na programação especial do Dia das Crianças, com duas horas de duração, atrações especiais chamando a meninada com Chico Buarque & Vinicius de Moraes, Turma da Mônica, Moraes Moreira, Toquinho, Lucinha Lins, Paulinho Boca de Cantor, Vida de criança, Menino da beira do rio, Balão Mágico & Djavan, Trem da Alegria, Meimei Corrêa, Disco Clube da Criança, Nita - Pais, mães, crianças e brinquedos, Galinha Pintadinha, Isabella Taviani, Chaves & muito mais No reino encantado de todas as coisas. No blog, muitas dicas de Educação, Psicologia, Direito das Crianças e Adolescentes, Teatro, Música e Literatura infantil, com destaque pro Brincar da Criança e as historias em quadrinhos dos Aventureiros do Una. Para conferir ao vivo e online clique aqui ou aqui.

A CRISE NA EDUCAÇÃO – No livro A crise na educação (Partisan Review, 1957), da filósofa política alemã Hannah Arendt (1906-1975), destaco o trecho seguinte: [...] O papel desempenhado pela educação em todas as utopias políticas, desde a Antiguidade até aos nossos dias, mostra bem como pode parecer natural querer começar um mundo novo com aqueles que são novos por nascimento e por natureza. No que diz respeito à política há aqui, obviamente, uma grave incompreensão: em vez de um indivíduo se juntar aos seus semelhantes assumindo o esforço de os persuadir e correndo o risco de falhar, opta por uma intervenção ditatorial, baseada na superioridade do adulto, procurando produzir o novo como um fait accompli, quer dizer, como se o novo já existisse. É por esta razão que, na Europa, a crença de que é necessário começar pelas crianças se se pretendem produzir novas condições tem sido monopólio principalmente dos movimentos revolucionários com tendências tirânicas, movimentos esses que, quando chegam ao poder, retiram os filhos aos pais e, muito simplesmente, tratam de os endoutrinar. Ora, a educação não pode desempenhar nenhum papel na política porque na política se lida sempre com pessoas já educadas. Aqueles que se propõem educar adultos, o que realmente pretendem é agir como seus guardiões e afastá-los da atividade política. Como não é possível educar adultos, a palavra «educação» tem uma ressonância perversa em política — há uma pretensão de educação quando, afinal, o propósito real é a coerção sem uso da força. Quem quiser seriamente criar uma nova ordem política através da educação, quer dizer, sem usar nem a força e o constrangimento nem a persuasão, tem que aderir à terrível conclusão platônica: banir todos os velhos do novo estado a fundar. Mesmo no caso em que se pretendem educar as crianças para virem a ser cidadãos de um amanhã utópico, o que efetivamente se passa é que se lhes está a negar o seu papel futuro no corpo político pois que, do ponto de vista dos novos, por mais novidades que o mundo adulto lhes possa propor, elas serão sempre mais velhas que eles próprios. Faz parte da natureza da condição humana que cada nova geração cresça no interior de um mundo velho, de tal forma que, preparar uma nova geração para um mundo novo, só pode significar que se deseja recusar àqueles que chegam de novo a sua própria possibilidade de inovar. [...] Deste modo, o que faz com que a crise da educação seja tão especialmente aguda entre nós é o temperamento político do país, o qual luta, por si próprio, por igualar ou apagar tanto quanto possível a diferença entre novos e velhos, entre dotados e não dotados, enfim, entre crianças e adultos, em particular, entre alunos e professores. É óbvio que este nivelamento só pode ser efetivamente alcançado à custa da autoridade do professor e em detrimento dos estudantes mais dotados. No entanto, é igualmente óbvio para quem alguma vez esteve em contato com o sistema educativo americano que esta dificuldade, enraizada na atitude política do país, tem também grandes vantagens, não apenas do ponto de vista humano, mas no plano da educação. De qualquer forma, estes factores gerais não podem explicar a crise em que nos encontramos no presente nem justificar as medidas que a precipitaram. [...]. Veja mais aqui, aqui e aqui.

HISTÓRIA DE UM NOME – No livro O homem do lado (José Olympio, 1958), do escritor, radialista, jirnalista e compositor Sérgio Porto (1923-1968) - o magistral Stanislaw Ponte Preta -, encontro História de um nome: No capítulo dos nomes difíceis têm acontecido coisas das mais pitorescas. Ou é um camarada chamado Mimoso, que tem físico de mastodonte, ou é um sujeito fraquinho e insignificante chamado Hércules. Os nomes difíceis, principalmente os nomes tirados de adjetivos condizentes com seus portadores, são raríssimos, e é por isso que minha avó a paterna - dizia: — Gente honesta, se for homem deve ser José, se for mulher, deve ser Maria! É verdade que Vovó não tinha nada contra os joões, paulos, mários, odetes e — vá lá — fidélis. A sua implicância era, sobretudo, com nomes inventados, comemorativos de um acontecimento qualquer, como era o caso, muito citado por ela, de uma tal Dona Holofotina, batizada no dia em que inauguraram a luz elétrica na rua em que a família morava. Acrescente-se também que Vovó não mantinha relações com pessoas de nomes tirados metade da mãe e metade do pai. Jamais perdoou a um velho amigo seu — o "Seu" Wagner — porque se casara com uma senhora chamada Emília, muito respeitável, aliás, mas que tivera o mau-gosto de convencer o marido de batizar o primeiro filho com o nome leguminoso de Wagem — "wag" de Wagner e "em" de Emília. É verdade que a vagem comum, crua ou ensopada, será sempre com "v", enquanto o filho de "Seu" Wagner herdara o "w" do pai. Mas isso não tinha nenhuma importância: a consoante não era um detalhe bastante forte para impedir o risinho gozador de todos aqueles que eram apresentados ao menino Wagem. Mas deixemos de lado as birras de minha avó — velhinha que Deus tenha, em Sua santa glória — e passemos ao estranho caso da família Veiga, que morava pertinho de nossa casa, em tempos idos. "Seu" Veiga, amante de boa leitura e cuja cachaça era colecionar livros, embora colecionasse também filhos, talvez com a mesma paixão, levou sua mania ao extremo de batizar os rebentos com nomes que tivessem relação com livros. Assim, o mais velho chamou-se Prefácio da Veiga; o segundo, Prólogo; o terceiro, Índice e, sucessivamente, foram nascendo o Tomo, o Capítulo e, por fim, Epílogo da Veiga, caçula do casal. Lembro-me bem dos filhos de "Seu" Veiga, todos excelentes rapazes, principalmente o Capítulo, sujeito prendado na confecção de balões e papagaios. Até hoje (é verdade que não me tenho dedicado muito na busca) não encontrei ninguém que fizesse um papagaio tão bem quanto Capítulo. Nem balões. Tomo era um bom extrema-direita e Prefácio pegou o vício do pai - vivia comprando livros. Era, aliás, o filho querido de "Seu" Veiga, pai extremoso, que não admitia piadas. Não tinha o menor senso de humor. Certa vez ficou mesmo de relações estremecidas com meu pai, por causa de uma brincadeira. "Seu" Veiga ia passando pela nossa porta, levando a família para o banho de mar. Iam todos armados de barracas de praia, toalhas etc. Papai estava na janela e, ao saudá-lo, fez a graça: — Vai levar a biblioteca para o banho? "Seu" Veiga ficou queimado durante muito tempo. Dona Odete — por alcunha "A Estante" — mãe dos meninos, sofria o desgosto de ter tantos filhos homens e não ter uma menina "para me fazer companhia" - como costumava dizer. Acreditava, inclusive, que aquilo era castigo de Deus, por causa da idéia do marido de botar aqueles nomes nos garotos. Por isso, fez uma promessa: se ainda tivesse uma menina, havia de chamá-la Maria. As esperanças já estavam quase perdidas. Epílogozinho já tinha oito anos, quando a vontade de Dona Odete tornou-se uma bela realidade, pesando cinco quilos e mamando uma enormidade. Os vizinhos comentaram que "Seu" Veiga não gostou, ainda que se conformasse, com a vinda de mais um herdeiro, só porque já lhe faltavam palavras relacionadas a livros para denominar a criança. Só meses depois, na hora do batizado, o pai foi informado da antiga promessa. Ficou furioso com a mulher, esbravejou, bufou, mas — bom católico — acabou concordando em parte. E assim, em vez de receber somente o nome suave de Maria, a garotinha foi registrada, no livro da paróquia, após a cerimônia batismal, como Errata Maria da Veiga. Estava cumprida a promessa de Dona Odete, estava de pé a mania de "Seu" Veiga. Veja mais aqui, aqui e aqui.

QUARENTA POEM(A)S -  No livro 40 poem(a)s (Brasiliense, 1986), do poeta estadunidense Edward Estlin Cummings ( e.e.cummings 1894-1962), destaco inicialmente o poema 19: platão lhe / disse: ele não / quis ouvir (jesus / lhe disse; ele / não soube / ouvir) lao / tse / certamente lhe / disse, e o general / (sim / senhora) / shreman: / e até / (acredite / ou / não) você / lhe disse: eu lhe / disse: nós lhe dissemos / (ele não ouviu, não / senhor) foi preciso / um pedaço niponizado do / velhor elevado da 6ª / avenida; / no meio da testa: pra que ele ou / visse. Também o poema 24: quando as serpentes paguem para ser serpentes / e o sol para ganhar seu pão recorra à greve - / quando o espinho olhe a rosa com suspeita / e o arco-íris faça seguro contra a neve / quando tordo nenhum puder cantar enquanto / todos os mochos não fizerem a censura / - e os mares tenham que fechar para balanço / se as ondas não tiverem posto a assinatura / quando o carvalho pedir vênia ao vidoeiro / para gerar seu fruto – o vale casse a vista / dos montes, porque são altos, e fevereiro / acuse março de ser terrorista / então acreditaremos nessa incri / vel humanidade inanimal (e só aí). Veja mais aqui.

ACONTECEU EM IRKUTSK & OS HOMENS SÃO DE MARTE - A trajetória da atriz de teatro, cinema e televisão Irene Ravache começou em 1961, quando atuou como atriz na peça Aconteceu em Irkutsk. Em 1962 quando começou a fazer um curso de interpretação na Fundação Brasileira de Teatro (FBT) e, no ano seguinte, atuou na peça Eles não usam black-tie e, também, Aonde vais, Isabel? Em 1964, fez um novo curso de interpretação no Teatro dos Quatro. Em 1966 é a vez da peça Pindura a Saia e, em 1968, A cozinha. Nos anos de 1970 faz curso de técnica vocal no Método Espaço Direcional e, em São Paulo, frequentou aulas de Butoh. A partir de então vieram as atuações nas peças A ratoeira (1971), Os inocentes (1972), Roda cor de roda (1975), Os filhos de Kennedy (1977), Bodas de papel (1978), Tem um psicanalista na nossa cama (1980), Pato com Laranja (1980), Afinal uma mulher de negócios (1981), Filhos do silêncio (1982), De braços abertos (1984), Uma relação tão delicada (1989), Eu me lembro (1995), Brasil S/A (1996), Inseparaveis (1997), Intimidade indecente (2001) e A reserva (2008). Atuando como diretora nas peças teatrais As avestruzes (1979), A gema do ovo da ema (1979), Beijo de humor (1995), Clarice em casa (1995) e As vantagens de ser bobo (1998). No cinema ela estreia com Geração em fuga (1972), seguindo-se O supermanso (1974), Lição de amor (1975), Curumim (1978), Doramundo (1978), Que bom te ver viva (1989), Ed Mort (1997), Até que a vida nos separe (1999), Amores possíveis (2001), Viva sapato! (2002), Depois daquele baile (2005) e Os homens são de marte... e é pra lá que eu vou (2014). Também atuou em novelas e series de tv, tornando-se uma atriz, diretora e produtora de teatro respeitada com indicação internacional. Veja mais aqui.

ESPELHO D’ÁGUA – O belíssimo e premiado drama Espelho d'Água: Uma Viagem no Rio São Francisco (2004), dirigido por Marcus Vinicius Cesar, com roteiro do diretor Yaya Wursch e Lara Francischetti, e música de Naná Vasconcelos. O filme foi ganhador do premio de melhor ator coadjuvante para Francisco Carvalho e melhor atriz coadjuvante para Regina Dourado no Cine PE – Festival do Audiovisual, tendo sido realizado após quatro anos de pesquisa e um minucioso período de preparação e e escolha de locações antes do inicio das filmagens que aconteceram durante oito semanas, em 2001. O filme é encantador e fascinante com destaque pro elenco e pra trilha sonora, bem como ser construído num cenário paradisíaco com uma história para lá de tocante. Veja mais aqui.

IMAGEM DO DIA
Todo dia é dia da bailarina brasileira Cecília Kerche.

Veja mais no MCLAM: Hoje é dia do programa Quarta Romântica, a partir das 21hs, no blog do Projeto MCLAM, com apresentação sempre especial e apaixonante de Meimei Corrêa. Em seguida, o programa Mix MCLAM, com Verney Filho e na madrugada Hot Night, uma programação toda especial para os ouvintes amantes. Para conferir online acesse aqui .

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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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MARY OLIVER, ROSI BRAIDOTTI, VERONICA GORRIE & CHACRINHA

  Imagem: Acervo ArtLAM .   O segredo da brochura artesanal... - Uma fedentina tomou conta do lugar: Que fedor! De onde vem? Tem defunto...