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domingo, outubro 31, 2021

PINTANDO NA PRAÇA, ALEJO CARPENTIER, JULIE MEHRETU, BILL MCKIBBEN & MATTHEW HERBERT

 

 

TRÍPTICO DQP – Acerto de contas... - Ao som do álbum Plat du jour (Accidental Records, 2005), do compositor britânico Matthew Herbert. – As incertezas todas e eu insistindo em ser feliz, como se ainda pudesse no meio dessa tragicomédia paradoxal, e se só restava uma esperança minada pelas lápides, arquivos e fotografias desbotadas. Apesar de tudo, persigo coração pulsante e partido porque carrego comigo o inferno dos outros em carne viva, o delírio de desembaraçar as linhas tênues de um passado perdido na memória. Se me dera a sorrir era porque ali estava Djuna Barnes insistentemente: O que é uma ruína senão o tempo diminuindo sua resistência? Corrupção é a Idade do Tempo. O insuportável é o início da curva da alegria. Um homem só é completo quando leva em consideração sua sombra e também a si mesmo - e o que é a sombra de um homem senão seu espanto ereto? O pior era ter de encarar T. S. Eliot me cuspir na cara o sarcasmo: O tempo presente e o tempo passado estão ambos talvez presentes no tempo futuro. O que dissesse ou fizesse depois disso, não adiantava, era como se Arthur Miller me jogasse para protagonizar After the fall (Depois da queda, 1964) e me restasse ecoando: Não posso chorar nem por minha própria mãe... Não sei como sofrer, ao que parece... Deus, por que será a traição a única verdade que se agarra à gente! Tive que acender todas as luzes para não sucumbir inteiro no obscurecimento geral. No meio da minha louca sofreguidão, a surpresa com a emergência radiante de Maria Della Costa, como se fosse a Marilyn Monroe nua de todos os sonhos impossíveis, me trazer de novo, depois da entrega, o que olvidara do escritor cubano Alejo Carpentier (1904-1980): Os mundos novos tem de ser vividos, mais do que explicados. Aqueles que aqui vivem não o fazem por convicção intelectual; acreditam simplesmente que a vida suportável é está e não a outra. Não havia como evitar, era o acerto de contas com todos os meus equívocos edulcorados na incerteza e nada se acabava porque era a verdade que inventei.

 


Todos no mesmo barco... - Imagem: arte da artista etíope Julie Mehretu. - A solidão é o meu refúgio e sei que nunca estarei só, mesmo que tudo se pareça inconsolável. Não sei se ainda posso me salvar da asfixia do tempo, ou se já defuntei e sirvo apenas da lembrança do que vivi. Às vezes duvido, sobretudo ao ouvir o trecho severo do jornalista ambiental estadunidense, Bill McKibben, no The end of nature (Random House, 2014): Embora durante décadas a civilização tenha pilhado e poluído a Terra, no passado esse ataque era relativamente localizados; nos dias atuais, com as mudanças globais causadas pelos gases-estufa e a depleção de ozônio, o homem alterou a maioria dos processos de vida em toda a parte, e o mundo ao ar livre, a natureza em si mesma, tem se tornado o equivalente a uma enorme sala aquecida... Sim, um calor enorme, invencível, irrespirável. A ponto de me pegar a casa incendiada e salvei o fogo de Cocteau. Era o que deveria ter sido feito porque sempre disse sim! Como se conjugasse o verbo de Raymond Queneau: Eu sim, nós gozamos... eles sinzam. E reiterei tal como e.e.cummings: Sim é o mundo. E mesmo que o patético da agonia me mostrasse tantas benemerências escondendo a hipocrisia e que havia mais que um estrondo e tantos suspiros - quanta contrafação nos capítulos teratológicos do presente degenerado, seria preciso dar um basta na cafajestice, tudo é demais em torpezas, sordidez e anestesiados. Sim e assumi o passado porque o presente nunca será impune e o sonho nunca existiu: os testemunhos da solidão. Enfim, estamos todos no mesmo barco.

 


Cant&pintando na praça... - Desta vez não cantamos, mas estávamos lá, eu&Ripe&Linaldo solidários de sempre, como se cochichássemos a nossa Nênia. Desde a minha primeira em 2017, como de costume, o sábado estava lindo! E que ninguém nos ouça mesmo, porque tão lindo estava para a maravilha que não foi pouca, porque coroada pelos alunos da SEMED, inquietos e a postos: traços, tintas & moldes – do papel à tela, mãos à massa! Chega dava vontade de traquinar entre eles! Parecia: ensino, pesquisa & extensão! Tomara, coisa tão boa de ver! Aproveitamos, então, tudo no meio do movimento de curiosos e arteiros, a bela Secretária desfilando um cortejo e enchendo os olhos de uma vontade louca de teimar, o Profeta era a Nalva num sorriso só, enquanto Alexandre Freitas sapecava pinceladas ensinando o que é do talento, Isaac Vieira a cometer belezas na manhã que entardecia mais colorida, Rute Costa com seu tapete de leituras e simpatias para alegria de olhares perdidos, Epifânio trazia recados das suas artesanias, Tylla de Jahfari cantava no meu coração pro Erick Nelson solar tantos tons ao meu ouvido & eu testemunhava ainda ali o Poema vivo de Admmauro Gommes que a Poesia lhe dera. Tudo parecia como se fosse um primeiro passo para a práxis da Ação Cultural para a Liberdade, numa das homenagens tácitas ao saudosíssimo centenário Paulo Freire. Ali eu sabia: na praça central a minha cidade renascia. Até mais ver.

 

E mais:

CANTARAU & OUTRAS POETADAS

POEMAGENS & OUTRAS VERSAGENS

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Vem aí o Programa Tataritaritatá. Enquanto isso, veja mais aqui.

 


terça-feira, outubro 22, 2019

DORIS LESSING, NATHALIE SARRAUTE, NELSON PEREIRA DOS SANTOS, FRANCISCO DOS SANTOS & PINTANDO NA PRAÇA


DOS IDOS & ACONTECIDOS - UMA: SERÁ QUE VAI CHOVER HOJE? - De manhãzinha, DuCoice olhou pro céu ensolarado e indagou sinal chuva. Boko-Moko que tinha sempre uma ideia de tudo, ia passando, ouviu e disse: Eu não ouvi o Amana-manha não! Quem? 1º de janeiro caiu pé-d’água? E eu sei, cara! 12 de fevereiro caiu toró? Sei lá, doido! Se aguou novembro, é mau sinal! Vixe? A porta da casa do João-de-barro tá pro nascente ou poente? Quem lá sabe, meu Deus! Tá um calorzão, para garoar tem que contrariar o santo, senão vamos morrer tudo enturido! Pronto, endoidou, o que tem a ver uma coisa com outra? Rapaz, o negócio tá feio! Que foi? O pencó tá solto em Brasília! Como assim? Você tá aonde, hem, meu filho, o Brasil todo está de pernas pro ar e você nem aí. Hem? O Brasil só não, o Chile, o Equador, Líbano, Hong Kong, Haiti, Catalunha, Iraque... Hum!? Só sei que para empiorar caiu um avião e periga chover meteoros! Santa Bárbara, pelamordedeus! Só Jesuis na causa, meu! DOIS: BOLO DO ANEL – Enquanto isso, as anjas da morte, Teté & Loló peiticavam para dar fim ao caritó. O que a gente faz, mulher? Ninguém quer servir de enfeite para vassoura, né? Vamos fazer a corrida do anel! Eita, é mesmo! E foi o maior puxa-encolha: chamaram a patota das vitalinas, cada uma mais devota que a outra, com suas figas, galhos de arruda, azeviche, escapulários, terços, pés-de-coelho, trevos, carântulas, veneras, nôminas – isso escondido nas mãos apertadas, pendurados no pescoço, costurado nos cós das saias, escondido no sutiã e por aí vai –, tudo para o culto antonino. Treze dias, elas lá: orações de joelhos, preces devotadas, ao pé da letra com as trezenas e a recitação do responso. Entre elas o maior cochichado: Quem será a sortuda que achará o anel do bolo, hem? TRÊS, A SAIDEIRA: O PRINCESO DELA – No ano passado a sortuda foi a Dinha! Quem? A Decildita, mulher! Hum? Aquela irmã daquele que a casa caiu em cima! Ah, sim, que foi que houve? Foi ela que no ano passado ganhou a corrida do anel e um princeso apareceu! Ah, eu já sei, mas aquele traste é lá príncipe, mulher! Oxe, ele é todo jeitosão! Meu marido mesmo disse que aquilo vivia comendo coração de anum pensando nela e depois ficava atocaiando ela aparecer, pegava o bico da ave comida e esfregava no chão por onde ela passasse. Anum? Sim, senhora. E o que tem? É pra ela ficar doida de paixão por ele, é tiro e queda, minha filha! É mesmo? É. E funciona? Você mesma disse que ela foi a sortuda e, na verdade, não era, né? Por quê? Aquilo lá é um aru! Vôte, que é que é isso, hem? Um sapo peba desses que vira gente arrumada só pra buscar a mãe da mandioca que mora nas cabeceiras do rio, só para visitar roçado e mais nada, some para nunca mais. Danou-se! Você tem visto o sujeito por aí? Coitada, anjo não tem costas mesmo! E vamos aprumar a conversa, gente! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS: [...] À tarde elas saíam juntas, levavam a vida das mulheres. Ah! Como aquela vida era incrível! Iam aos "chás", comiam doces que escolhiam com delicadeza e certo ar de gula: bombas de chocolate, bolinhos e tortas. O ambiente era como um viveiro barulhento, caloroso, alegremente iluminado e decorado. Elas ficavam lá, sentadas, apertadas em volta de suas mesinhas, e falavam. Havia, em volta delas, um clima de excitação, de animação, uma leve inquietação cheia de felicidade, a lembrança de uma escolha difícil, sobre a qual ainda tinham dúvidas (aquilo combinaria com o tailleur azul e cinza?, mas claro, ficaria maravilhoso), a perspectiva de uma metamorfose, de uma evidência súbita de suas personalidades, de um brilho. Elas, elas, elas, elas, sempre elas, vorazes, barulhentas e delicadas. O rosto delas parecia marcado por alguma tensão interior, seus olhos indiferentes deslizavam sobre a aparência, sobre a máscara das coisas, analisavam-na por um instante (aquilo era bonito ou feio?), depois deixavam-na cair novamente. E os disfarces davam a elas um brilho duro, um frescor sem vida. Elas iam aos chás. Ficavam lá, sentadas durante horas, enquanto tardes inteiras desapareciam. [...] Sempre disseram a elas coisas daquele tipo. Elas sempre ouviram falar de coisas assim, elas sabiam: os sentimentos, o amor, a vida, eram essas suas especialidades. Isso lhes pertencia. E elas falavam, incessantemente, repetindo e girando as mesmas coisas, depois girando-as novamente, de um lado, depois do outro, moldando-as, moldando-as, enrolando sem parar entre os dedos aquela matéria ingrata e pobre que tinham extraído de suas vidas (aquilo que elas chamavam de "vida", suas especialidades), moldando essa matéria, esticando-a, enrolando-a, até que ela não passasse de um montinho entre seus dedos, uma pequenina bola cinza. [...]. Trechos extraídos da obra Tropismos (Luna Parque, 2017), da escritora e advogada francesa Nathalie Sarraute (Natacha Tcherniak - 1900-1999). Veja mais aqui.

O CINEMA DE NELSON PEREIRA DOS SANTOS
O cinema brasileiro, hoje, é tematicamente plural e expressa identidades regionais diversas.
NELSON PEREIRA DOS SANTOS – Já publicado diversas vezes por aqui, a trajetória do cineasta Nelson Pereira dos Santos (1928-2018) compreende desde a sua incursão na área com o curta-metragem de 1949, Juventude, até os documentários A música segundo Tom Jobim e A luz do Tom, ambos de 2012, passando por Mandacaru vermelho (1961), Boca de Ouro (1962), Vidas secas (1963), Tenda dos milagres (1977), Memórias do cárcere (1984), Jubiabá (1987), A terceira margem do rio (1994), Brasília 18% (2004), entre tantos outros. Ele foi o primeiro cineasta a ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras e foi homenageado in memoriam na cerimônia do Oscar 2019. Confira mais aqui, aqui & aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do escultor e pintor português Francisco dos Santos (1878-1930). Veja mais aquiaqui.

A OBRA DE DORIS LESSING
Tudo o que você deve fazer, faça agora. As condições são sempre impossíveis.
A obra da escritora britânica Doris Lessing (1919-2013) aqui, aqui, aqui & aqui.
&
PINTANDO NA PRAÇA
Veja detalhes aqui & aqui.


segunda-feira, outubro 29, 2018

WALMIR AYALA, ZÉLIA DUNCAN, SANDRA REIS & PINTANDO NA PRAÇA


PINTANDO NA PRAÇA – Numa manhã ensolarada de sábado de outubro, aconteceu a quinta edição do Projeto Pintando na Praça que foi uma verdadeira festa artística. O projeto desenvolvido pelo poetamigo & artista plástico Paulo Profeta, por meio do Instituo de Belas Artes Vale do Una, de Palmares – PE, tem alcançado seus objetivos e engrandecendo o cenário cultural palmarense e da região Mata Sul de Pernambuco. Tive a oportunidade de participar da edição anterior e constatar o processo evolutivo e a adesão cada vez maior de artistas da região e de outros estados, como também da população palmarense. Dessa vez não ficou por menos, pois, além de possibilitar o reencontro com o amigo artista plástico José Durán y Duran & a escritoramiga Socorro Durán, também teve a presença efusiva da arte do inquieto e criativo imaginauta Gugha Távora, do professor Clovis Eraldo Parízio, as canções do cantor e compositor parceiramigo Zé Ripe, do projeto Lendo na Praça Pública da amiga Rute Costa, do artesanato dos jovens Epifanio Bezerra (Palmares) & Celso Madeira (Igarapeba), a arte do jovem Wil de Igarapeba, pinturas & desenhos, conversas com Marquinhos & todo pessoal da Fundação de Hermilo, com João Paulo & Mary Filha da Biblioteca Fenelon Barreto, com o acadêmico escritor Reginaldo Oliveira, os radialistas Toínho DuRego & Alberto Passos, afora trocar ideias e mandar ver na participação geral. Marcaram presença os artistas plásticos da capital pernambucana, Fernando Lúcio, Sebastião Rosa, Vandrade, Zé de Moura, Ricardo Carvalheira, Robertson Rodrigues, Fábio Santos, Leo Luna, Marcelo Marroquin, Nadilson Junior, Alexandre Freitas, Maycon e Eduarda Tenório, alguns entre os quais participantes das edições anteriores e já destacados aqui no blog. Para tanto, foram montados dois estandes na Praça Paulo Paranhos, um em frente do anfiteatro e, o outro, no centro da praça. Nestes espaços pintores, desenhistas, artistas visuais, escritores, artesãos, músicos e público em geral, puderam interagir corpo a corpo, numa comunhão entre a arte e a vida. Sem dúvida trata-se de um dos mais importantes eventos da região que a cada ano vai ganhando prestígio e se tornando marca carimbada dos acontecimentos que ocorrem anualmente. Nada mais representativo que ver em plena praça pública artistas e público interagindo num evento ímpar como este. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] Pensei na felicidade que a arte pode trazer, no bem que pode fornecer ao mundo. Porque esta educação visual não está divorciada de nenhum outro plano, mas implica, numa harmonização total e ampla. A arte pode trazer um bem no mundo na medida em que consiga impor seu caráter construtivista, muitas vezes a partir de uma urgente iconoclastia. [...]
Trecho extraído da obra A criação plástica em questão (Vozes. 1970), do poeta, teatrólogo, romancista e critico de arte Walmir Ayala (1933-1991). Veja mais aqui.

A ARTE PINTANDO NA PRAÇA
Veja mais do Pintando na Praça aqui e aqui.

O Professor Cloves Parízio

O artista visual & imaginauta Ghugha Távora. Veja mais aqui.

O artesanato de Epifanio Bezerra (Palmares) & Celso Madeira – Acervo do Barro Igarapeba.

O desenho de Wilmison da Silva Calado (Wil de Igarapeba) aluno do Instituto promotor & demais participantes do evento.

AGENDA: 
LENDO EM PRAÇA PÚBLICA
O Projeto Lendo em Praça Pública é desenvolvido pela professora especialista em Linguistica e Coordenadora de Lingua Portuguesa do Ensino Fundamental da Semed-Palmares, Rute Costa, e realizado nos finais de semana na Praça da Luz e em outras praças locais. O evento conta com exposição de livros disponíveis para leituras de pais e estudantes participantes. 
&
POEMAS DE INDOLORES
AMAR – Amar seria simples, se fosse fácil amar... / mas, amar é renúncia e ninguém quer / a si mesmo renunciar.
DESEJO – Te desejo que / todos os dias e noites / penses, sonhes, / planejes, desejes / estar comigo. / Assim, como eu / não consigo ficar sem.
SEXO – Hoje é sexo por sexo, / ficar por ficar. / É desejo nada além, / é apenas carne, pele e suor. / Oh, carne pecaminosa / que me deixa desejar / mesmo ciente que não devo / essa matéria alimentar.
AMOR X LUXÚRIA – Viver é verbo que não conjugo. / Ver é verbo que pratico, / por não ser louca o suficiente / para dela me desfazer. / Ninguém jamais deu importância / aos sentimentos de um pobre / como o de Romeu à Julieta / acham ser luxo exclusivo dos ricos. / Seus bens por idolatria, valorizam, / morrem de medo de perdê-los. / Jamais morrem por amor / nunca por conhecê-lo.
AUSÊNCIA – Abraça-me com ternura / toca-me com o coração / permita-me ver a beleza / do afeto em sua doação. / Saudades do beijo na face / de quando trocávamos carinhos / quanta compreensão trocada / estando hoje, toda esquecida. / Por onde anda o afeto? / Sinto que a emoção desertou / foi furtada por um beijo, / ou pelo simples desejo de ser / compreendido e correspondido?
INDOLORES: POÉTICAS & MEMÓRIAS – Poemas extraídos do livro Indolores: poéticas & memórias (Rascunhos, 2019), da escritora e professora Rute Costa, que desenvolve o projeto Leitura na Praça e é integrante da Amigos da Biblioteca. Veja sua entrevista aqui.

 &
Duzentos & cinquenta & um golpes, Frida Kahlo, Nélida Piñon, Lya Luft, Karl Backman, Barreiros, Bartyra Soares, Zé Ripe, George Harrison, Rita Lee, Camargo Guarnieri & Rachel Dolly d’Alba aqui.
&
O dia é hoje, agora! Carlos Fuentes, Noémia Sousa, Gayatri Chakravorty Spiva, Giácomo Sinapsi, Ivo Korytowski, Lagoa dos Gatos, Humor jurídico de Carlos Cavalcante, Djavan, Bidú Sayão, Daniela Spielmann & Zé Ripe aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje curta na Rádio Tataritaritatá a música da cantora, compositora e atriz Zélia Duncan: Pelo sabor do gesto em cena ao vivo, Tudo Esclarecido, Tô tatiando & Raridades, novidades e colaborações  & muito mais nos mais de 2 milhões & 800 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui, aquiaqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aqui.


terça-feira, outubro 10, 2017

JOÃO CABRAL, NIETZSCHE, MAFFESOLI, ROSÁRIO FUSCO, BARBARA MARCZEWSKA & PINTANDO NA PRAÇA

CUROU, MORREU – Jardelito era bem servido de nariz. Pense numa lapa de venta! Cyrano de Bengerac era pinto perto dele. Há quem diga que aquilo no meio da cara dele não era outra coisa senão um pênis: Ah, ele não passa aperto na horagá com a mulherada. Cheio de recursos! Aquilo era um pinto encolhido, feito o que estava amuado entre os colhões. É que na hora de precisão, bastava amolegar e virava uma bicanca com um chapéu de vaqueiro estendido pra sua satisfação e de quem mais fosse ter com ele. Era ele só na sua, pra tapiar tocava instrumento de sopro, diziam: que sax que nada, aquilo é a extensão do narigudo, só na moita. A tragédia foi quando ele gripou: uma bica escorria pelos septos nasais: atchim! Uma constipação inquietante, na mesma hora do espirro, o frosquete solidário: poin! Eita. E ele: dá pra tirar o maior som, meu: espirra-peida. Era só: atchim, poin! atchim, poin! atchim, poin! Aí deu de se amostrar com seus pendores artísticos, até então nem mesmo jamais desconfiados. Já que é assim, vai que cola e deu certo. Com o resfriado, ele assoava no narigão fazendo força, muco como a peste para ensopar papel higiênico, lenços, trapos e retalhos, e era só: atchim, poin! atchim, poin! atchim, poin! Maior catarreiro escorrendo. Assopra mais, desgraçado! E numa dessa estourou os tímpanos. Pode? Ouvia mais nada. Aí era uma orelha de abano imitando Beethoven, isso aliado a uma tosse de cachorro, daquelas de botar os bofes todos pra fora: cof, cof, cof, poin. atchim, conf, poin! atchim, cof, poin! Vixe! Aí virou espirra, tosse, peida: atchim, cof, poin! Danou-se! atchim, cof, poin! Pelo jeito, ia era virar a bandinha do coreto, no maior matinê. atchim, conf, poin! atchim, cof, poin! O pior mesmo era aguentar a fedentina, uma orquestra fedorenta, espirra, tosse, peida: atchim, conf, poin! atchim, cof, poin! Foi assim que ele passou a abusar dos seus dotes musicais. Um dia, três, uma semana, um mês, nada do resfriado passar: atchim, conf, poin! atchim, cof, poin! Maior coriza escorrendo, defluência que não dava fim, mas como não ouvia nem cheirava, nem sentia gosto de nada, era só: espirra, tosse, peida: atchim, conf, poin! atchim, cof, poin! Aí ele conferindo nada nas ouças, nos cheiros, nos gostos, gritou: Ah, tô curado! E quem tinha coragem de avisar pro cabra que ele já tinha passado dessa pra melhor, hem? Pois é, o povo sempre disse que para curar dessa gripe, só morrendo. Curou, morreu. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especiais com a música do compositor japonês Tōru Takemitsu (1930-1996): Archipelago, Nostalghia & Qotation of dream – Say sea, take me; da pianista, solista e camerista Maria Helena de Andrade: Piano, A seguida de Francisco Mignoni, Concerto nº2 de Beethoven & do Clássico ao Choro; do violonista, compositor, cantor e professor Paulinho Nogueira (1927-2003): Antologia do Violão, Violão & Samba, O Fino do Violão & A nova bossa é violão; e da cantora e compositora Isabella Taviani: Eu Raio X ao vivo & outras músicas. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] O lirismo encontrado nas canções pop, na ficção escapista e nas estórias das revistas para adolescentes é muito esclarecedor a esse respeito. Não é o conteúdo de tal lirismo que conta, mas o seu significante. O que está sendo dito não é tão importante, desde que seja algo que possa dar estrutura à comunidade, uma forma de estruturação para o qual o "discreto" nicho uterino da pequena comunidade local ou da aldeia é particularmente propício. Assim, pode-se perceber que o recurso à privacidade é extremamente comum e representa a renovação dos vínculos com a comunidade que pode ser assinalada ao longo de toda história humana e sem a qual não poderia ocorrer nenhuma das cristalizações específicas da vida social (tais como as civilizações, os costumes, as instituições e os governos). Mas enquanto que essas cristalizações deram origem a uma historiografia capaz de as articular, a privacidade que as alicerça não tem outra garantia de sobrevivência além de sua própria persistência. [...]. Trecho de Privacidade, do sociólogo francês Michel Maffesoli, extraído da obra Dicionário do pensamento social do século XX (Zahar, 1996), organizado por William Outhwaite e Tom Bottomore. Veja mais aqui e aqui.

O CÍNICO E O CINISMO - [...] O cínico percebe o nexo entre as dores mais numerosas e mais fortes do homem superiormente cultivado e a profusão de suas necessidades; ele compreende, portanto, que a pletora de opiniões sobre o belo, o conveniente, decoroso, prazeroso, deveria fazer brotarem ricas fontes de gozo, mas também de desprazer. Em conformidade com tal percepção ele regride no desenvolvimento, ao renunciar a muitas dessas opiniões e furtar-se a determinadas exigências da cultura; com isso, ganha um sentimento de liberdade e de fortalecimento; e aos poucos, quando o hábito lhe torna suportável o modo de vida, passa realmente a ter sensações de desprazer mais raras e mais fracas que os homens cultivados, e se aproxima da condição do animal doméstico; além do mais, sente tudo com o fascínio do contraste – e pode igualmente xingar a seu bel-prazer: de modo a novamente se erguer muito acima do mundo de sensações do animal. – O epicúrio tem o mesmo ponto de vista do cínico; entre os dois existe, em geral, apenas  uma diferença de temperamento. O epicúrio utiliza sua cultura superior para se tornar independente das opiniões dominantes; eleva-se acima destas, enquanto o cínico fica apenas na negação. Aquele anda, digamos assim, por caminhos sem vento, bem protegidos, penumbrosos, enquanto acima dele as copas das árvores bramem ao vento, denunciando-lhe a veemência com que o mundo lá fora se move. O cínico, por outro lado, vagueia nu na ventania, por assim dizer, e se endurece até perder a sensibilidade. [...]. Trechos extraídos da obra Humano, demasiado humano (Abril Cultural, 1978), do filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900). Veja mais aqui e aqui.

SOLITÁRIOS ANÔNIMOS – [...] Pela instabilidade cromática da aura dele, de qualquer modo indicadora analógica da possível recuperabilidade do sujeito, a curto ou a longo prazo, mas recuperabilidade, eu lhe diria o seguinte: meu prezado, peço-lhe perdão por não ser como você é. Se o ilustre fosse como eu, quem eu seria? Não direi que eu esteja satisfeito como que sou, por ser o que sou: em outras palavras, insisto que sentimento e razão não rimam. [...] Vivemos dizendo que só há responsabilidade dentro da liberdade. Mas será o homem realmente livre de todos os seus pensamentos, palavras e atos, se tudo o que ele pensa, diz e faz, ontologicamente já é um condicionado de infinitesimais condicionados? [...] Pigarreou: – Não é um discurso: é uma advertência dos bons  espíritos, que recebo e transmito, na condição de amigo e colega de tarefa. Compreende? – Não. – De conformidade com os postulados da filosofia oriental do que corre... porque ocorre (percebe?), realmente não é fácil. Os ventos e as chuvas modelam as pedras, dando-lhes formas animais. As águas fabricam os seixos, seios e nádegas, redemoinhos dos rios, onde os peixes proliferam sem pecar na carne, pela carne. No intervalo, os homens esbanjam os dias na disputa de títulos honoríficos, cargos e posições, digerem o fígado, o baço, os rins... perfuram os pulmões e os intestinos, alimentam o câncer geral, esclerosam as veias, engrossam o sangue, que entope o coração e o cérebro, ao mesmo tempo em que, devagarinho, vão enforcando as almas nos pênis que a idade reduz a uma polegada, sendo, por isso, muitas vezes obrigados a recorrer ao suicídio pra apressar o fim de seus tormentos. Compreende, afinal, a indigente parábola? – Ainda não. – Nesse caso, vamos mudar de conversa: e cuidar de coisa mais compatível com o tempo de duração de nossa estada nesse rolante depósito de sorridentes e auto-satisfeitos imbecis. Trechos de A.S.A – Associação dos Solitários Anônimos (Ateliê, 2003), do escritor, dramaturgo, jornalista, advogado e critico literário Rosário Fusco (1910-1977).

TECENDO A MANHÃUm galo sozinho não tece uma manhã: / ele precisará sempre de outros galos. / De um que apanhe esse grito que ele / e o lance a outro; de um outro galo / que apanhe o grito de um galo antes / e o lance a outro; e de outros galos / que com muitos outros galos se cruzem / os fios de sol de seus gritos de galo, / para que a manhã, desde uma teia tênue, / se vá tecendo, entre todos os galos. / E se encorpando em tela, entre todos, / se erguendo tenda, onde entrem todos, / se entretendo para todos, no toldo / (a manhã) que plana livre de armação. / A manhã, toldo de um tecido tão aéreo / que, tecido, se eleva por si: luz balão. Poema extraído da obra A educação pela pedra (Nova Fronteira, 1996), do poeta e diplomata João Cabral de Melo Neto (1920-1999). Veja mais aqui e aqui.

PROJETO PINTANDO NA PRAÇA
Acontecerá neste mês de outubro, a quarta educação do projeto Pintando na Praça, realizado pelo Instituto Belas Artes Vale do Una, que terá exposições na Biblioteca Fenelon Barreto e culminará com artistas do Recife, alunos da UFPE e artistas locais pintando na Praça Paulo Paranhos. Veja mais aqui e aqui.

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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Art by Barbara Marczewska.
Veja mais aqui.



MÁRIO QUINTANA, ANNE BOYER, KATE MANNE & JONES MANOEL

  Imagem: Acervo ArtLAM .   Aroma da memória, flor despetalada... – Bella não era Isabella, a cantora perturbada do Blue Velvet . Nem a...