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domingo, outubro 31, 2021

PINTANDO NA PRAÇA, ALEJO CARPENTIER, JULIE MEHRETU, BILL MCKIBBEN & MATTHEW HERBERT

 

 

TRÍPTICO DQP – Acerto de contas... - Ao som do álbum Plat du jour (Accidental Records, 2005), do compositor britânico Matthew Herbert. – As incertezas todas e eu insistindo em ser feliz, como se ainda pudesse no meio dessa tragicomédia paradoxal, e se só restava uma esperança minada pelas lápides, arquivos e fotografias desbotadas. Apesar de tudo, persigo coração pulsante e partido porque carrego comigo o inferno dos outros em carne viva, o delírio de desembaraçar as linhas tênues de um passado perdido na memória. Se me dera a sorrir era porque ali estava Djuna Barnes insistentemente: O que é uma ruína senão o tempo diminuindo sua resistência? Corrupção é a Idade do Tempo. O insuportável é o início da curva da alegria. Um homem só é completo quando leva em consideração sua sombra e também a si mesmo - e o que é a sombra de um homem senão seu espanto ereto? O pior era ter de encarar T. S. Eliot me cuspir na cara o sarcasmo: O tempo presente e o tempo passado estão ambos talvez presentes no tempo futuro. O que dissesse ou fizesse depois disso, não adiantava, era como se Arthur Miller me jogasse para protagonizar After the fall (Depois da queda, 1964) e me restasse ecoando: Não posso chorar nem por minha própria mãe... Não sei como sofrer, ao que parece... Deus, por que será a traição a única verdade que se agarra à gente! Tive que acender todas as luzes para não sucumbir inteiro no obscurecimento geral. No meio da minha louca sofreguidão, a surpresa com a emergência radiante de Maria Della Costa, como se fosse a Marilyn Monroe nua de todos os sonhos impossíveis, me trazer de novo, depois da entrega, o que olvidara do escritor cubano Alejo Carpentier (1904-1980): Os mundos novos tem de ser vividos, mais do que explicados. Aqueles que aqui vivem não o fazem por convicção intelectual; acreditam simplesmente que a vida suportável é está e não a outra. Não havia como evitar, era o acerto de contas com todos os meus equívocos edulcorados na incerteza e nada se acabava porque era a verdade que inventei.

 


Todos no mesmo barco... - Imagem: arte da artista etíope Julie Mehretu. - A solidão é o meu refúgio e sei que nunca estarei só, mesmo que tudo se pareça inconsolável. Não sei se ainda posso me salvar da asfixia do tempo, ou se já defuntei e sirvo apenas da lembrança do que vivi. Às vezes duvido, sobretudo ao ouvir o trecho severo do jornalista ambiental estadunidense, Bill McKibben, no The end of nature (Random House, 2014): Embora durante décadas a civilização tenha pilhado e poluído a Terra, no passado esse ataque era relativamente localizados; nos dias atuais, com as mudanças globais causadas pelos gases-estufa e a depleção de ozônio, o homem alterou a maioria dos processos de vida em toda a parte, e o mundo ao ar livre, a natureza em si mesma, tem se tornado o equivalente a uma enorme sala aquecida... Sim, um calor enorme, invencível, irrespirável. A ponto de me pegar a casa incendiada e salvei o fogo de Cocteau. Era o que deveria ter sido feito porque sempre disse sim! Como se conjugasse o verbo de Raymond Queneau: Eu sim, nós gozamos... eles sinzam. E reiterei tal como e.e.cummings: Sim é o mundo. E mesmo que o patético da agonia me mostrasse tantas benemerências escondendo a hipocrisia e que havia mais que um estrondo e tantos suspiros - quanta contrafação nos capítulos teratológicos do presente degenerado, seria preciso dar um basta na cafajestice, tudo é demais em torpezas, sordidez e anestesiados. Sim e assumi o passado porque o presente nunca será impune e o sonho nunca existiu: os testemunhos da solidão. Enfim, estamos todos no mesmo barco.

 


Cant&pintando na praça... - Desta vez não cantamos, mas estávamos lá, eu&Ripe&Linaldo solidários de sempre, como se cochichássemos a nossa Nênia. Desde a minha primeira em 2017, como de costume, o sábado estava lindo! E que ninguém nos ouça mesmo, porque tão lindo estava para a maravilha que não foi pouca, porque coroada pelos alunos da SEMED, inquietos e a postos: traços, tintas & moldes – do papel à tela, mãos à massa! Chega dava vontade de traquinar entre eles! Parecia: ensino, pesquisa & extensão! Tomara, coisa tão boa de ver! Aproveitamos, então, tudo no meio do movimento de curiosos e arteiros, a bela Secretária desfilando um cortejo e enchendo os olhos de uma vontade louca de teimar, o Profeta era a Nalva num sorriso só, enquanto Alexandre Freitas sapecava pinceladas ensinando o que é do talento, Isaac Vieira a cometer belezas na manhã que entardecia mais colorida, Rute Costa com seu tapete de leituras e simpatias para alegria de olhares perdidos, Epifânio trazia recados das suas artesanias, Tylla de Jahfari cantava no meu coração pro Erick Nelson solar tantos tons ao meu ouvido & eu testemunhava ainda ali o Poema vivo de Admmauro Gommes que a Poesia lhe dera. Tudo parecia como se fosse um primeiro passo para a práxis da Ação Cultural para a Liberdade, numa das homenagens tácitas ao saudosíssimo centenário Paulo Freire. Ali eu sabia: na praça central a minha cidade renascia. Até mais ver.

 

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terça-feira, outubro 27, 2015

GRACILIANO, DYLAN THOMAS, DELLA COSTA, VANESSA-MAE, EDUCAÇÃO, DELLA FRANCESCA, ZIZI SMAIL, BETHLEM & CHATO DE GALOCHA!

VAMOS APRUMAR A CONVERSA? INGRESIA DUM CHATO DE GALOCHA - Quem na vida ainda não se defrontou com um chato de galocha? A gente vê logo que, das três, uma: ou a gente acordou com a braguilha virada, ou de ovo trocado, ou pisado em rastro de corno! Êta, dia, hem? Santa malagueta no oiti-goroba do caiporento. Bem, como não temo superstição, nem alinhavo reza pra devotado, sei que ninguém está isento de tais incongruências, principalmente naqueles dias em que a gente vê que a vida menstruou ou está perto disso e, por mais que o sujeito se esforce, até a tpm dela deixa a sorte de quem joga no ataque, sempre levando a bola pro gol contra (será que a CBF também anda se metendo com a minha vida, hem? Num basta a desgraceira do futebol brasileiro?). E olhe que a nuvem preta parece mais um dos daqueles mísseis teleguiados da artilharia de última geração norte-americana, duvide não. Também num adianta abrir um chão e se socar, nem dar uma de avestruz, a coisa tatua no toitiço do imputado dele fazer careta por tempos imprevisíveis. Principalmente porque esta raça de peitica está sempre nos lugares onde a gente precisa resolver alguma coisa. Ou na vizinhança querendo botar gosto ruim em tudo, dono da verdade, autosuficiente, pabo, que atanaza mais que dor de dente queiro. Verdade! Tem biqueiro assim que bota gosto ruim até em domingo ensolarado. É feito cólica de diarréia, daquela de deixar fissura na tripa gaiteira. E o fedor, hem? Pior que mijatório masculino! Hum! Essa estirpe de munganguento dá-se ao luxo de promover enlace matrimonial dum cachorro da Vera Loyola, ao som de Mendhelson e celebrado pelo Papa João-de-não-sei-das-quantas-III. Ou mesmo cultuam a filosofia dos ruralistas: a bosta dum mangalarga marchador ou dum quarto-de-milha valem mais que o respirado de gente, num é não ex-presidente? Bem feito, tanta gente passando fome e as dondocas numa cerimônia tão desproposital e os direitistas aprontando no arroto do mando, do mundo girar segundo sua vontade. Mania mais sem jeito! A quizília desses amolestados fica no osso do mucumbu escolhendo colhão para ferroar. É cada trincada do nego ver estrelas meio dia em ponto. Um verdadeiro angu-de-caroço, daquele que a gente engulha mal chegando na goela. Esse bicho cricri é um chute no saco, uma pisadela no calo inflamado do pé (justo nele!), um cricrilar no ouvido amolando o juízo de trincar o dente da gente de raiva. É todo cheio da chicanada de não poder disfarçar suas birras com a pacutia do cabuloso, chega dar nos nervos: primeiro, vem com aquela soberba adiantada caluniando tudo; segundo, vem o escárnio de gravata com sua diatribe acerba, fazendo estrago na boa vontade do cristão; terceiro, vem a patacoada do recalcamento se passando por missa-seca a nos dizer o que está certo ou errado, obstáculos buscados nos cafundós burocráticos da má-vontade e que só se resolverá em meses vindouros, dependendo do alinhamento dos planetas no dia aprazado. Vai-te pruma porra, indigesto! Besteira, é só precisar de órgão público e na lata a gente vê ele se aliviando na avania: - O seu cadastramento foi efetuado em duplicidade, temos que renomear seus dados para amanhã o senhor vir saber se já foi efetuada a alteração necessária! Isso depois do sujeito coarar por horas numa fila de quinhentos metros com meio mundo de gente de maus bofes, injuriados até a sêxtupla geração. Ou: - Olhe, o sistema está fora do ar, sem previsão de retorno! - Essa é de deixar o cara abatumado, mais constrangido que goleiro quando engole frango. Ou, ainda: - Os seus dados estão incorretos, o seu Luiz aqui está com "z", e nos nossos arquivos está com "s", infelizmente, o senhor terá de procurar naquele outro guichê para se recadastrar! -, essa anima a paciência? Precisa de mais exemplos para se ter uma ideia da urucubaca? Oxente, bichim! Deixa disso. O pior não é nada, é o pitaco. Peru de jogo com cartas marcadas. Ou, então, anos sonhando em adquirir aquele utensílio da maior utilidade para vida mais confortável e descanso do guerreiro, quando o enfaroso: - Num presta! Foi caro, bom mesmo é o .... iiiihhhhh! O melanose provoca maior discórdia em tudo, o do contra, abufelado com aquela cáustica mania de querer consertar tudo segundo o seu juízo insano, no maior convício dos despautérios. Abelhudo azedo com ferrão em riste, bota defeito em tudo. E não se toca, menor senso de ridículo. Quem se depara com um traste desses num vê a hora de se livrar da borrasca que fica pinicando todo corpo do ser vivente. Esse tipo de povinho gosta mesmo de comprar animosidade duma rixa gratuita, percebeu? Incha até fazer enfisema no juízo feito uma tijolada no quengo. Se o Brasil ganha ficam puto porque o povo tá zanolho comemorando enquanto o governo pratica as maiores impropriedades; se perde, acham bem empregado porque os caras da bola estão rico e o povo passando fome. Só vota se Jesuisizinho descer do céu e se candidatar, ou nem isso, enquanto trata o resto de farinha do mesmo saco. Não vê solução em nada, nem mesmo no gênio dele. Não gosta de música, detesta futebol e tem repugnância por pobre como se fosse um condenado divino. Pois bem, já trabalhei com alguns desses, já fui vizinho dessa laia imprestável e ainda hoje encontro muitos deles que implicam com o mínimo ou com o eixo do sol ou com a cor do mar. Um desses que conheci, igual a todos os outros quizilentos porque são menores que seu próprio tamanho, era mais conhecido como caga-raio, ruim dos bofes, doente de raiva. Era casado com uma bonitona cobiçada, reboculosa e simpaticíssima. O oposto, mesmo. Ele costumava chamar todo mundo de corno e esquecia de olhar pro rabinho dele se queimando na mais profunda maledicência. Em casa mesmo, servia de enfeite; nem falar, falava. Quando abria a porta e via o mundo, o pimponete se transformava num piririca inclemente criando dares-e-tomares com sua alrotaria. Nem aí pro seu sal que se pisava. Ôxe, podia pisar, ele nem-nem. Menor remorso. Cá comigo: é dessa gente que se faz a hierarquia nos empregos e formam o reino da incompetência que se alastra em nosso país. Por isso, quando eu me vejo importunado por um desse tipo, eu sorrio com a inteligência mínima dos mandantes. Ó, meu Brasil! E vamos aprumar a conversa aqui.

 Imagem: Nymphe A La Piece DEau, do pintor do Quattrocento italiano, Piero della Francesca (1415-1492).


Curtindo o álbum Toccata & Fugue (1995), da musicista, atleta e violinista singapuriana Vanessa-Mae.

NÃO IMPORTA APRENDER – No livro Humor e alegria na educação (Summus, 2006), organizado por Valéria Amorim Arantes, destaco o trecho Não importa aprender, do capítulo Uma pedagogia lúdica, de João Batista Freire: [...] Numa sociedade de resultados, aprender vale menos que ser aprovado. Os vestibulares tornaram-se a referencia nacional de ensino, um manancial inesgotável da mediocrização de sucessivas gerações de jovens. Tenho a impressão de que há, no ar, uma conclusão não explicita: do jeito que a escola é, a ideia não é a de ensinar os conteúdos que estão definidos nos programas escolares, mas de estabelecer um filtro de mérito que faça chegar ao fim da linha pessoas habilitadas para ingressar em determinado ponto de alguma engrenagem. De tal maneira as peças, em cada corporação, estão organizadas que não se requer grandes habilidades para inserir as pessoas em qualquer ponto delas. A não ser, evidentemente, determinados cargos que exigem certas decisões. Por exemplo, para dar conta dos conteúdos das universidades, não passa pela cabeça de ninguém que os jovens deveriam ser bem formados no ensino básico, mas sim que precisam passar nos exames vestibulares. Desde que a escola foi inventada, passaram-se séculos. Muitas coisas mudaram na sociedade, para melhor ou para pior; as próprias pessoas mudaram muito, mas a escola praticamente não mudou. [...] Viver numa sociedade disciplinar significa reduzir a vida a espaços de confinamento insistentemente vigiados. [...] Não se trata, acima de tudo, de incorporar padrões de comportamento, ou informações para o vestibular, mas de aprender a pensar, a criar, a se expressar, a apreciar o belo, a se relacionar, a lidar com as emoções. Iguais devem ser os direitos humanos, as oportunidades. No mais, ser igual é ser prisioneiro. Veja mais aqui, aqui e aqui.

MEMÓRIAS DO CÁRCERE – A obra em dois volumes Memórias do cárcere (Martins, 1969), do escritor e jornalista Graciliano Ramos (1892-1953), conta o fato ocorrido em março de 1936, quando acusado — sem que a acusação fosse formalizada — de ter conspirado no mal-sucedido levante comunista de novembro de 1935, ele é demitido, preso em Maceió e enviado a Recife, onde é embarcado com destino ao Rio de Janeiro no navio "Manaus" com outros 115 presos, entre os quais, inúmeros que participaram da insurreição Comunista de Natal, estado do Rio Grande do Norte. O país estava sob a ditadura de Vargas e do poderoso coronel Filinto Müller. No período em que esteve preso no Rio, até janeiro de 1937, passou pelo Pavilhão dos Primários da Casa de Detenção, pela Colônia Correcional de Dois Rios (na Ilha Grande), voltou à Casa de Detenção e, por fim, pela Sala da Capela de Correção. Da obra destaco o trecho da primeira parte: [...] Alguém cochichou-me, atraiu-me a um canto; ouvi o nome de Miguel Bezerra, um moço de casquete, moreno e magro, que se pôs a falar com abundância. No começo não entendi o que ele dizia, recordo somente uma declaração repetida: Não somos comunistas. Bem, eu os supunha vagabundos; surgiam-me dúvidas agora. Donde vêm os senhores? Tinham embarcado no Rio Grande do Norte. Mas não somos comunistas. Perfeitamente. Porque a insistência? Entrei a conversar e logo duas surpresas me assaltaram Miguel parecia alegre, as minhas palavras soavam-me aos ouvidos como se fossem pronuncia das por outra pessoa. Doidice rir em semelhante inferno. Ou então me sensibilizara em demasia, os horrores que estivera a desenvolver tinham existência fictícia. Possivelmente o meu enjôo e a raiva do capitão Mata provinham da mudança repentina: se nos houvessem feito percorrer escalas, não nos abalaríamos tanto. Lembro-me de ter afirmado isto mentalmente. De qualquer modo nos arranjaríamos, chegaríamos a um porto. Assim falava no interior e dizia coisas diferentes: pausadas, maquinais; pareciam gravadas num disco de vitrola. Deviam ter significação, pois o diálogo se prolongou, mas não me seria possível reproduzi-lo. A declaração inicial voltava com freqüência: Não somos comunistas. Porque inocentar-se? A certeza de que estavam ali os revoltosos de Natal acirrou-me a curiosidade, embora não me arriscasse a pedir informações ao desconhecido cauteloso. Duas mulheres achegaram-se, uma branca, nova, bonita, uma pequena cafuza de olhos espertos. Fiquei sabendo que a primeira se chamava Leonila e era casada com Epifânio Guilhermino. [...] Somos animais bem esquisitos. Depois daquela noite, o primeiro contato com a vida me provocou uma gargalhada. Não o riso lúgubre dos doidos, manifestação ruidosa e divertida, que me causava espanto e era impossível conter. Foi este o caso. Logo ao clarear o dia, saltei do estrado, busquei o vizinho do compartimento inferior, para agradecer-lhe os fósforos, e percebi um caboclo baixo, membrudo, hirsuto, a camisa de algodão aberta, deixando ver um rosário de contas brancas e azuis misturadas à grenha que ornava o peito largo. Esse instrumento devoto me produziu a hilaridade: O senhor usa isso, companheiro? O sujeito endureceu a cara, deitou-me o rabo do olho, formalizou-se e grunhiu: Quando a nossa revolução triunfar, ateus assim como o senhor serão fuzilados. Esqueci os agradecimentos e afastei-me a rir, dirigi-me ao ponto onde, na véspera, tinha ouvido o rapaz de casquete: esperava tornar a vê-lo, pedir informações a respeito do estranho revolucionário. Logo soube que se chamava José Inácio e era beato. Homem de religião, homem de fanatismo, desejando eliminar ateus, preso como inimigo da ordem. Contrasenso. Como diabo tinha ido ele parar ali? Vingança mesquinha de político da roça, denúncia absurda, provavelmente e ali estava embrulhado um eleitor recalcitrante, devoto bisonho do padre Cícero. Com certeza havia outros inocentes na multidão, de algumas centenas de pessoas. A luz do dia, várias figuras começavam a delinear-se, nomes próprios chegavam-me aos ouvidos, mas tudo se confundia e era-me impossível distinguir João Anastácio de Miguel Bezerra, duas criaturas muito diferentes. Miguel Bezerra, o moço de casquete, exibia inquietação constante no rosto fino como um focinho de rato; João Anastácio tinha a cara imóvel, de múmia cabocla: sério, os olhos miúdos, parecia muito novo ou muito velho, não tinha idade. O primeiro se mexia demais e falava com exuberância, desdizendo-se: falava como se quisesse inutilizar o efeito de palavras largadas inconsideradamente; o segundo me examinava em silêncio, desconfiado uma coruja. Essas coisas só foram percebidas muito depois. Naquela manhã tudo se atrapalhava, a luz que vinha de cima e entrava pelas vigias era escassa. E perturbado, no meio novo, esforçava-me por achar um canto onde pudesse respirar. dispersaram-se. [...]. Veja mais aqui e aqui.

ENTRE OS MORTOS NO BOMBARDEIO AO AMANHECER HAVIA UM HOMEM DE CEM ANOS – No livro Poemas reunidos (1934-1953/José Olympio, 1991), do poeta inglês Dylan Thomas (1914-1953), destaco inicialmen te o poema Entre os mortos no bombardeio ao amanhecer havia um homem de cem anos, na tradução de Ivan Junqueira: Quando a manhã despetava sobre a guerra, / ele vestiu as calças e caminhou para a morte, / suas madeixas bocejaram soltas a uma rajada de vendo as dispersou, / tombou onde amava, sobre as pedras arrancadas à calçada / e as fúnebres sementes do solo massacrado. / Dizei à sua rua lá no fundo que ele deteve um sol / e que da cratera de seus olhos brotaram fogos e balaços / quando todas as chaves saltaram das fechaduras e retiniram. / E não mais escaveis em defesa das algemoas de seu grisalho coração. / A ambulância celeste arrastada por uma constelação de chagas / aguarda o tinir da espada na gaiola. / Oh retirai seus ossos desse veículos banal, / a manhã est5á voando com as asas de sua idade / e uma centena de cegonhas pousa na mão direita do sol. Tambem o poema O amor no hospício: Uma estranha chegou / a dividir comigo um quarto nessa casa que anda mal da cabeça, / uma jovem louca como os pássaros, / que trancava a porta da noite com seus braços, suas plumas. / Espigada no leito, em desordem, / ela tapeia com nuvens penetrantes a casa à prova dos céus, / até iludir com seus passos o quarto imerso em pesadelo, / livre como os mortos, / ou cavalga os oceanos imaginários do pavilhão dos homens. / Chegou possessa, / aquela que admite a ilusória luz através do muro saltitante, / possuída pelos céus. / Ela dorme no catre estreito e, no entanto, vagueia na poeira / e, no entanto, delira à vontade / sobre as tábuas do manicômio, aplainadas por minhas lágrimas deâmbulas. / E arrebatado pela luz de seus braços, enfim, meu Deus, enfim, / posso, de fato, / suportar a primeira visão que incendeia as estrelas. Veja mais aqui e aqui.

A MORENINHA & TÍPICO ROMÂNTICO - A atriz Maria Della Costa (1926-2015) estreou como show-girl e no teatro em 1944, com a peça A Moreninha. Vai para Portugal estudar arte dramática, voltando ao Brasil para integrar o grupo Os comediantes, para participar dos espetáculos Rainha Morta (1946), As terras do sem-fim (1947), Vestido de Noiva (1947) e Não sou eu (1947). Em 1948, funda o Teatro Popular de Arte que estreia a peça Anjo Negro. Em 1954, inaugura o seu Teatro Maria Della Costa, em São Paulo, montando Tobacco Road (1948), A Prostituta Respeitosa (1948), A ralé (1951), Manequim (1962), O canto dda cotovia (1954), Com a Pulga Atrás da Orelha (1955), A moratória (1955), Mirandolinda (1955), A casa de Bernarda Alba (1956), Moral em concordata (1956), Rosa Tatuada (1956), e A Alma Boa de Setsuan (1958), Gimba (1959), Society em Baby Doll (1960), O marido vai à caça (1962), Armadilha para um homem só (1962), Pindura saia (1963), Depois da queda (1964), Homens de Papel (1967), Tudo no Jardim (1968), Abra a janela e deixa entra o ar e o sol da manhã (1968), Bodas de sangue (1973), Tome conta de Amélia (1974), Motel Paradiso (1982), Alice, que delícia (1986), Temos que refazer a casa (1988) e Típico romântico (1992). No cinema ela atuou O Cavalo 13 (1946) e O Malandro e a Grã-fina (1947), Inocência (1949); Caminhos do Sul (1949), Areião (1952), Moral em Concordata (1959). Ela também em diversas novelas da televisão brasileira. Veja mais aqui.

ESPELHO DA CARNE – O filme Espelho da carne (1984), dirigido por Antonio Carlos Fontoura, conta a história a respeito de um espelho, adquirido em leilão e que influencia o comportamento sexual das personagens que nele se refletem. Um jovem executivo, casado, arremata num leilão um sofisticado espelho art déco, que tinha pertencido ao antigo Palácio dos Prazeres, uma casa de encontros amorosos. Assim que o espelho é instalado no seu luxuoso apartamento, ele passa a emanar um estranho poder. Um poder que envolve o jovem, sua mulher, um casal de amigos, a vizinha desquitada e até mesmo a empregada, num frenesi erótico que rompe com todas as barreiras morais e psicológicas desses personagens. O filme transcorre com o espelho exercendo seus estranhos poderes em diferentes situações, aliando a inquietação psicológica a um humor e uma ironia sublimes. Até que o prazer torna-se horror: o espelho revela-se possuidor de algo demoníaco. O destaque vai para todo elenco, em especial para a atriz e produtora Maria Zilda Bethlem, que estreou nas telas com o filme A Intrusa (1979), seguindo-se Eu matei Lucio Flavio (1979), Parceiros da Aventura (1980), O grande palhaço (1980), O segredo da múmia (1982) e Bete Balanço (1984), antes de atuar no filme em referência. Veja mais aqui.

IMAGEM DO DIA
 A arte do escultor Zizi Smail

  Veja mais no MCLAM: Hoje é dia do programa Tataritaritatá, a partir das 21hs (horário de verão), com a apresentação sempre especial e apaixonante de Meimei Corrêa. Em seguida, o programa Mix MCLAM, com Verney Filho e na madrugada Hot Night, uma programação toda especial para os ouvintes amantes. Para conferir online acesse aqui .

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aqui.

sexta-feira, setembro 11, 2015

HERMILO, KEPPE, PIAF, LAWRENCE, HESÍODO, DELLA COSTA, DE PALMA & DEVAS.

VAMOS APRUMAR A CONVERSA? A OBRA DE HERMILO – Era ainda eu um desses adolescentes de bigodinho ralo e descobrindo a vida nas ruas e zonas de Palmares, quando me apareceu o livro Deus no Pasto, de Hermilo Borba Filho, jogado pela janela de um seu parente irado e repudiando não só essa como toda obra dele. Confesso que nem sabia quem era aquele autor, pirralho que era. Olhei o volume, a capa rasgada, as páginas bufentas, quase que soltas do volume; mesmo assim, acolhi, levei para casa e deixei-o num canto da minha estante improvisada, aguardando um momento propício para conhecê-lo, já que eu era afeito a leituras madrugada adentro desde menino, imitando meu pai que ficava horas e horas mergulhado na biblioteca dele. Meninote ainda eu mesmo ficava cutucando as idéias, investigando a razão do meu genitor ficar ali debruçado sobre volumes e mais volumes por noites a fio. Devia de ter algum segredo recôndito naquelas páginas, aduzia. Dias ou meses depois, imantado pelo volume com um título intrigante, folheei as primeiras páginas e não consegui desgrudar. Ao cabo de alguns mais, havia já devorado tudo. Estava estupefato. Fui então na biblioteca municipal e instei da professora e madrinha dos artistas locais, Jessiva Sabino, sobre Hermilo. Ela meio que intrigada e atônita com a minha indagação, me pediu para baixar o tom da voz e me encaminhou para uma das estantes empoeiradas dali. Deu-me, às escondidas, o Margens da Lembrança, sob a condição de lê-lo sem estardalhaço e por tempo determinado de oito dias. Foi de um fôlego só. Depois foi a vez de Os Ambulantes de Deus; e veio O General está pintando, Os Caminhos da Solidão, As meninas do sobrado, Sol das Almas, A Porteira do Mundo, O cavalo da noite e Agá – tudo lido e relido no maior dos deleites. Foi noutra ocasião, quando ensaiava os primeiros passos no teatro, que me deparei com a obra dele para a área e mergulhei nas suas peças. Esse nome eu conheço, disse, e anos mais tarde isso me levou até a adaptar, dirigir e musicar uma delas, a João sem terra. Mas voltando ao princípio, certa feita, numa sala de aula, outra professora de Língua e Literatura Nacional, já do colegial, quase teve um troço quando eu falei que havia lido a obra dele. - Que é isso, hem? - inquiria eu. Para onde eu me virasse era um desconforto, um pigarreado, uma mudança de assunto, uma lividez, ora. - Tô falando do anticristo, por acaso? -, na verdade não, mas que repulsavam mesmo, nossa! A minha trupe adolescente ficou curiosa e danávamos a consumí-lo caindo em discussões calorosas regadas já a uns pilequinhos na praça em frente da igreja presbiteriana. Bote arroubos e declamações azucrinando passante desavisado. A gente quase que foi, todo mundo da roda, excomungado. Foi nesse ínterim que o poeta Juarez Correia, mais velho que a maioria da gente, chegou recontando todas as historietas de Hermilo e indicando um a um dos personagens e os motivos da execração da cidade, ampliando motivos para nossa algazarra. Era tudo muito estranho porque Hermilo dizia aos quatro cantos do mundo: "Palmares é a minha marca para toda vida". Não se dava para encontrar razões para o repúdio da população. Isso tudo ocorreu nos idos dos anos 70, pouco tempo depois de sua morte. Era uma maldição mesmo, a ponto de quase não se conseguir, já nos idos dos anos 80, criar a Fundação Casa da Cultura Hermilo Borba Filho, em Palmares, cidade natal dele e centro da Mata Sul de Pernambuco. A gente teve de comprar a briga do Juarez e sair berrando na imprensa e nos ouvidos moucos dos timoratos a importância de tal feito. Felizmente, conseguimos. Mas foi tanta resistência, pacutia, muxôxo, imbróglios, má-vontade, vôte! Bote maré contrária no remado. E daí se angariou simpatias de fora entre gente importante do cenário recifense e de outros estados, e resgatou-se, finalmente, a gratidão da cidade ao seu importante nome. Depois dessa, outra ocorre hoje: não se vê mais uma reedição da obra de Hermilo Borba Filho. Parece que a maldição que extirpamos dali, está presente nas editoras que só se interessam pelas edições garantidas dos best-sellers. Até as revistas especializadas sequer abordam sua obra. Parece, assim, que mais uma luta terá de ser travada: a de trazer Hermilo ao seu lugar na Literatura Brasileira. ADENDO: Quando estive nos últimos dias lá na Fenelivro, em Olinda, depois de uma boa conversada com minha conterrâneamiga, Inez Khoury, tive a grata satisfação de encontrar entre os títulos da editora conterrânea, as Edições Bagaço – a qual tive e tenho a honra de ver nascer e crescer -, a reedição das obras de Hermilo em volumes muito bonitos e bem produzidos graficamente. Fiquei de alma lavada. E pra meu regozijo ainda maior, recebo o convite do amigo Juarez Carlos para prestigiar o lançamento do seu livro A grande viagem intelectual, exatamente a respeito do que estou falando. Posso dizer que estou de alma lavada! Salve, Hermilo! E o que me resta, na condição de leitor, é convidar todo mundo pra conhecer a obra deste grande escritor! (Luiz Alberto Machado, publicado originalmente em 2002, no Guia de Poesia do Projeto SobreSites – RJ). E veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

 Imagem: Nude Woman Seated Hand Signed (Oil Painting), do pintor britânico Anthony Devas (1911-1958).


Curtindo: Hymne à l'amour (1950/2007), da cantora francêsa Edith Piaf (1915-1963)

SOCIOPATOLOGIA – O livro Sociopatologia: estudo sobre a patologia social – bases para a nova civilização do 3º milênio (Proton, 2002), do psicanalista, filósofo, cientista social e físico brasileiro Norbert R. Keppe, trata sobre a sociedade e o falso conhecimento criados a priori, patologia social oriunda da matemática e impedindo o desenvolvimento da humanidade, a matemática constitui o centro da patologia de toda história da humanidade, o pensamento a priori como o da matemática é a principal fonte das doenças sociais e humanas, a matemática é responsável pela existência de grande número de desequilibrados mentais, a filosofia apriorista derivada da matemática domina o pensamento moderno, a matemática vem destruindo sistematicamente a cultura, o ser humano e a civilização; como geradora da falsa religiosidade com toda a sua gama de superstições, causa do obscurantismo da Idade Media, base de argumentação da sociedade que advem do princípio de autoridade, o atraso das orientações religiosas, as grandes filosofias aprioristas modernas, as filosofias apriorísticas do racionalismo e iluminismo, período fanático da história da civilização, a causa da sociopatologia alemã, as ciências atuais apriorísticas interrompendo o desenvolvimento e colocando a humanidade em perigo, o encarceramento das instituições universitárias, o apriorismo das ciências psicológicas, a humanidade dividida, agressiva e inculta; a sociedade organizada a posteriori, a estética como fundamento de toda a civilização, a arte moderna com a função principal de denunciar os erros sociais, a lógica advinda da arte, o fundamento da vida e da civilização, a sociedade unificada, esquema sobre a realidade humana e social, a vontade é o principal elemento determinador da existência, a experimentação constitui a base de todo o conhecimento, o conhecimento formado a posteriori, a ação como base e finalidade de todas as coisas, entre outros assuntos. O autor desenvolveu a Trilogia Analítica considerada a Psicanálise Integral, unificando a ciência à filosofia e à teologia. Da obra destaco o trecho: [...] O ser humano (sabendo ou não), à medida em que age participa na do plano humano e divido; toda ação é natural e sobrenatural concomitantemente – mesmo que a neguemos; neste sentido pode se dizer que ela é divina; mas no caso de ser uma oposição ou destruição do bem, será diabólica. Ação é manifestação de pensamentos e principalmente dos sentimentos; por este motivo, semente quando o indivíduo trabalha é que mostra o que é. Quando se fala que um ser é bom, é porque realiza a bondade; se ele é verdadeiro, é porque faz a verdade – o ser supõe o ato. A terceira fase da humanidade será a a da realização, praticamente a do trabalho; temos de admitir que até agora não produzimos o suficiente para conseguir o bem-estar e alcançar a finalidade humana: porque o nosso tipo de atividade foi escravagista; por isso mesmo, extremamente parcializada; fora do verdadeiro fim. O individuo faz o que pensa, mas vive segundo a sua conduta; por esta razão a ação é mais importante que o pensamento – a ideia constitui apenas uma faceta de seu comportamento, que é movido em parte por ela (a ideia) e mais basicamente ainda pelo sentimento (o afeto). Veja mais aqui e aqui.


O AMANTE DE LADY CHATTERLEY – A novela O amante de Lady Chatterley (Companhia das Letras, 2010), do escritor inglês David Herbert Lawrence (1885-1930), conta a história de um romance entre uma mulher burguesa e um homem da classe trabalhadora, com uma narrativa que causou escândalo por ser uma história baseada em eventos infelizes da vida doméstica do próprio autor quando ele viveu em Derbyshire. Da obra destaco o trecho: [...] Tanto Hilda quanto Constance tiveram suas primeiras experiências amorosas em torno dos dezoito anos. Os rapazes com quem conversavam com tanta paixão, cantavam com tanta ânsia e acampavam com tamanha liberdade sob as árvores sempre queriam, claro, a conexão amorosa. As jovens tinham muitas dúvidas, mas afinal falava-se tanto dessa coisa, supostamente tão importante. E os rapazes se mostravam tão humildes e suplicantes. Por que então uma jovem não podia portar-se como uma rainha e conceder a ele a dádiva de si mesma? De maneira que tinham concedido as dádivas de si mesmas, cada uma ao rapaz com quem tinha as discussões mais íntimas e sutis. As conversas, as discussões, eram o que importava: o amor físico, a conexão, era apenas uma espécie de reversão primitiva, e em boa parte um anticlímax. Depois dela, sentiam-se bem menos apaixonadas pelo rapaz e até um pouco inclinadas a odiá-lo, como se ele tivesse violado a privacidade e a liberdade interior de cada uma. Pois obviamente, no caso das moças, toda a dignidade, todo o sentido da vida, consistia na conquista de uma liberdade absoluta, perfeita, pura e majestática. O que mais podia significar a vida de uma jovem? Desembaraçar-se das antigas e sórdidas conexões e submissões. E, por mais que se pudesse sentimentalizá-la, toda essa história de sexo era uma das conexões e submissões mais sórdidas e antigas que existiam. Os poetas que a glorificaram eram quase todos homens. As mulheres sempre souberam que existia uma coisa melhor e mais elevada. E agora sabiam disso mais definitivamente que nunca. A linda e pura liberdade da mulher era infinitamente mais magnífica que qualquer amor sexual. A única dificuldade é que nessa matéria os homens estavam muito mais atrasados que as mulheres. E faziam questão da coisa do sexo, como cães. E a mulher tinha de ceder. O homem era como uma criança, com seus apetites. A mulher tinha de conceder o que o homem queria ou o mais provável era que ele, igual a uma criança, perdesse o controle, debatendo-se pelo chão e arruinando o que sempre tinha sido uma ligação muito agradável. Mas a mulher podia ceder sem entregar ao homem o que ela possuía de mais interior e de mais livre. Que os poetas e os que falavam tanto sobre sexo não pareciam levar na devida conta. A mulher podia aceitar um homem sem na verdade entregar-se a ele. E certamente podia aceita-lo sem se entregar ao seu poder. Em vez disso, podia usar essa coisa do sexo para adquirir poder sobre ele. Pois bastava ela se conter na relação sexual, deixa-lo acabar e esgotar-se sem chegar ela própria à crise, para em seguida prolongar a conexão e chegar a seu orgasmo e sua crise tendo-o como um simples instrumento. As irmãs já haviam tido suas experiências amorosas quando a guerra chegou e precisaram voltar às pressas para a Inglaterra. Nenhuma das duas jamais se apaixonara por um rapaz a menos que os dois estivessem verbalmente muito próximos: melhor dizendo, a menos que estivessem profundamente interessados, conversando muito um com o outro. A emoção extraordinária, profunda e inacreditável que podia haver em conversas apaixonadas com um jovem realmente inteligente, por muitas horas, retomada dia após dia — disto elas só foram saber quando lhes aconteceu. A promessa desse paraíso: Terás homens com quem conversar! jamais fora proferida. Mas cumpriu-se antes que soubessem o quanto era preciosa. E se, depois da intimidade despertada por essas conversas animadas que iluminavam a alma, a coisa do sexo se tornava mais ou menos inevitável, então que assim fosse. Era sempre a forma de assinalar o fim de um capítulo. E também tinha seu apelo: um estranho apelo que vibrava no fundo do corpo, um espasmo final de autoafirmação, como a última palavra, estimulante, e muito parecida com a linha de asteriscos que podem ser usados para demonstrar o final de um parágrafo e uma guinada no tema. [...] Veja mais aqui e aqui.

OS TRABALHOS E OS DIAS – A obra Os trabalhos e os dias (Segesta, 2012), do poeta oral grego Hesíodo (750-650aC), é um poema didático que além do seu fim pedagógico possui algumas alusões a estrela mais brilhante do céu vista da terra, Sirius, no qual o poeta vê-se a si mesmo com um papel distinto a desempenhar. Do livro destaco o Proêmio e As duas lutas: Proêmio - Musas da Piéria, que dais glória com canções, / vinde; em hinos cantai Zeus, vosso pai. / Através dele os homens mortais ficam igualmente sem fama e famosos; / deles se fala ou se silencia por meio de Zeus grande. / Ele facilmente fortalece, facilmente os fortes esmaga; / facilmente diminui o ilustre e exalta o obscuro, / endireita o torto e o arrogante enfraquece, / Zeus altitonante que habita excelsos palácios. / Escuta, Zeus, vendo e ouvindo, e com justiça endireita as sentenças! / Quanto a mim, gostaria de dizer a Perses / verdades. As duas lutas / Ora, não houve apenas um nascimento de Lutas, mas sobre a terra / existem duas. / Quando alguém observa uma delas, considera louvável; / a outra é digna de censura: elas têm ânimos diversos. / Pois uma promove a guerra má e a disputa, / é a cruel. Nenhum mortal a ama, mas por necessidade, / pela vontade dos deuses, têm de honrar a Luta pesada. / A outra, a primeira, gerou-a a Noite escura, /e o filho de Crono, Zeus sentado em alto trono, / habitante do éter, colocou-a nas raízes da terra; é bem melhor para os homens: / ela leva ao trabalho mesmo a pessoa sem meios. / Pois um homem sente falta de trabalho ao olhar para outro / que, rico, apressa-se a arar, plantar / e administrar bem sua casa, e um vizinho procura igualar o outro / que se apressa em alcançar a fartura. Essa Luta é boa para os mortais. / O oleiro irrita-se com o oleiro, o carpinteiro com o carpinteiro; / o mendigo inveja ao mendigo, o poeta ao poeta. / Ó Perses, coloca essas coisas no teu espírito, / e que a Luta que se compraz no mal não te afaste do trabalho / para assistir a litígios, atento aos discursos da praça pública. / Na verdade, litígios e discursos pouco importam / a quem não possui em estoque sustento abundante / colhido no tempo certo, os frutos de Deméter, que a terra traz. / Estando deles saciado, poderias promover litígios e disputas / sobre bens alheios. Não te será possível, contudo, uma segunda vez / assim agir, mas, sem mais, decidamos nosso litígio / com julgamentos justos, que vêm de Zeus, os melhores. / Pois de fato já tínhamos dividido a herança, e tu muitas outras coisas / agarravas e levavas, prestando grandes honras aos reis / devoradores de presentes, que se dispõem a dar esse veredicto. / Tolos! Não sabem quanto a metade é maior do que o todo, / nem quão grande proveito existe na malva e no asfódelo. [...] Veja mais aqui e aqui.

DA RAINHA MORTA À MORAL EM CONCORDATA – A trajetória da atriz, modelo, produtora e empresaria Maria Della Costa (1926-2015), teve sua estreia no teatro em 1944, com A Moreninha, seguindo para Portugal estudar arte dramática. De volta ao Brasil em 1946, passa a integrar o grupo Os Comediantes e participa do espetáculo Rainha Morta (1945), Terras do Sem Fim, Vestido de Noiva e Não sou eu. Em 1948, funda o Teatro Popular de Arte, estreiando com a peça Anjo Negro. A partir de então seguem espetáculos que fizeram dela uma triunfante carreira nos palcos teatrais com Ralé (1951), Manequim (1952), O canto da cotovia (1954), Com a pulga atrás da orelha (1955), A Mirandolina (1955), A casa de Bernarda Alba (1956), Moral em concordata (1956), A rosa tatuada (1956), A alma boa de Set-Suan (1958), Gimna (1959), Society em Baby Doll (1960), O marido vai à caça (1962), Armadilha para um homem só (1962), Pindura saia (1963), Depois da queda (1964), Homens de papel (1967), Tudo no jardim (1968), Abra a janela e deixa entrar o ar puro e o sol da manhã (1968), Bodas de sangue (1973), Toma conta da Amélia (1974), Motel Paradiso (1982), Alice, que delícia (1986), Temos que refazer a casa (1988) e Típico romântico (1992). No cinema ela atuou em diversos filmes, entre eles O cavalo 13 (1946), O malandro e a grã-fina (1947), Inocência (1949), Caminhos do Sul (1949) Areião (1952) e Moral em corcordata (1959). Nossos eternos aplausos a esta grande atriz. Veja mais aqui.

PASSION – O thriller erótico Passion (A paixão, 2012), dirigido e roteirizado pelo cineasta estadunidense Brian De Palma, é uma refilmagem do filme Crise de amor, de 2010, estrelado por Rachel McAdams e Noomi Rapace, contando a história sobre o envolvimento profissional entre duas mulheres que entram em conflito por poder no trabalho e no mundo dos negócios e da publicidade, que envolve vingança, intrigas e conflitos, desenvolvendo-se um jogo perverso recheado de humilhações e dominações que se prolonga ao longo do filme, numa história de suspense, desajustes e erotismo, com o sexual beirando ao sádico com egocentrismo e espelhos que vai desembocar numa tragédia inesperada e carregada de simulacros e simulações. O filme é envolvente, instigante e chama a atenção para o relacionamento feminino e destaca a reflexão sobre esse universo maravilhoso que é o da mulher, um ser que tem cumprido um papel digno de nota na trajetória do inventário humano. Veja mais aqui.

IMAGEM DO DIA
Convite de lançamento do livro A grande viagem intelectual, de Juarez Carlos, que acontecerá neste sábado, dia 12/09, às 14hs, na Biblioteca Pública Fenelon Barreto, em Palmares – PE, em evento patrocinado pela Academia Palmarense de Letras (APL), sobre a obra de Hermilo Borba Filho.


Veja mais no MCLAM: Hoje é dia do programa Some Moments, a partir das 21hs, no blog do Projeto MCLAM, com a apresentação sempre especial e apaixonante de Meimei Corrêa. Em seguida, o programa Mix MCLAM, com Verney Filho e na madrugada Hot Night, uma programação toda especial para os ouvintes amantes. Para conferir online acesse aqui.

VAMOS APRUMAR A CONVERSA?
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aqui.


GONÇAL MAYOS, MARINE PETROSSIAN, PÉTER NÁDAS & IRANDHIR SANTOS

  Imagem: Arrostar aporias , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Fábula dos embeiçados desavindos... ...