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segunda-feira, setembro 11, 2017

D. H. LAWRENCE, SMUTS & HOLÍSTICA, ADORNO & HORKHEIMER, BRIAN DE PALMA, ENYA, DANIEL SENISE & DERY NASCIMENTO

AS DORES IMPREVISÍVEIS DA FELICIDADE - Imagem: Reino I, do artista plástico e engenheiro civil Daniel Senise. - Lucrecilda era extremamente bela, verdadeira beldade na flor dos seus vinte e um anos de idade: olhos negros vivos e vistosos, cabelos lisos e sedosos sobre os ombros, um corpo escultural e exuberante de mulher. Mantinha uma vida regrada e sem vícios, religiosamente compenetrada, respirando o ar de uma normalidade exemplar. Tudo conspirava a seu favor, seus pais, um ideal casal bem de vida, formado por uma madura juíza numa vara familiar de voz prepotente e inclemente na defesa das causas feminina e do que julgasse para de justiceira; o pai, um emergente assessor jurídico de empresas regionais e de associações e grupos de novos ricos empreendedores com seus negócios legais e escusos, folgando por vitoriosa ascensão social. Tudo favorável para uma educação esmerada sob os auspícios das contritas condutas pras bênçãos confessionais. Um dia, em um retiro espiritual, ela conheceu Dermevaldito, filho de promissores jovens pais detentores de conglomerado do setor do agronegócio, do mesmo tope dela, parecia até feitos um pro outro de tão achegados e simpatizantes. Para ela, tudo aquilo era como um acontecimento de convergências santificadas pelas coisas divinas que premiavam a sua vida para lá de maravilhosa. Namoraram sob as bênçãos familiares, noivaram e contraíram núpcias numa engalanada e concorrida festa. Nada de melhor poderia ocorrer, meses depois, para premiar o casal, que o anúncio da chegada de um bebê, consolidando a alegria de todos. Nada, absolutamente nada ameaçaria a harmoniosa convivência entre eles todos, novos parentescos formados, laços amplos e estreitados, tudo com a santa graça da fé deles. Na primeira visita ao médico, Lucrecilda só queria saber se o seu filho seria bonito, normal, perfeito e saudável. Conselhos e cuidados reiteravam essa possibilidade. Era a coroação da mais plena felicidade, nada de melhor poderia acontecer para aqueles que se viam privilegiados pela santa graça dos céus. Ao encontrar a mãe, ela efusivamente festejou: - Mãe, o médico falou que o meu bebê será bonito, normal, perfeito e saudável. Abraços, beijos, ela não cansava de repetir que teria um neném bonito, normal, perfeito e saudável, até contaminar o marido que reverberava para todos achegados e inesperados presentes, aquela maravilha de contentamento da esposa, indo além até dos seus vínculos de amizade. E nove meses se passaram, enfim o nascimento para coroar a santa vida deles. Quando a enfermeira trouxe o recém-nascido para depositá-la ao seio, ela assustou-se e gritou: - Esse não é meu filho! E gritou, esperneou e rejeitou a criança, aos prantos de desespero. A mãe ao ver o neto, berrou: - Médico filho da puta, vou acabar com a sua vida! O pai: - O que foi? Esse não é o meu neto, quero meu neto, exijo! Calma! Nada disso, quero meu neto! A intranqüilidade reinou naquele recinto, às correrias. – Chamem o médico, quero vê-lo agora! E a revolta e as insistentes exigências tomaram conta de todos os próximos, em meio a carteiradas, esconjuros e fúria desmedida. Lucrecilda agarrada ao marido, ambos aos prantos, aumentavam o tormento naquela área hospitalar. Um entra e sai de médicos, enfermeiras, psicólogo, intermediários amigos e familiares, explicações, discussões, exaltados bate-bocas ente avós e profissionais que pediam calma no clima tenso que mais se alterava em ofensas e acusações, gerando reuniões que visavam contornar a situação, tornando o caso ainda mais conflituoso entre os insatisfeitos. Ao cabo de horas de xingamentos e ásperas negociações, a normalidade instaurando uma circunstância ainda de extrema insegurança, Lucrecilda e Dermevaldito, completamente desfigurados pela infelicidade de não terem um filho bonito, normal, perfeito e saudável, desconhecendo ambos os castigos de uma justiça divina a qual julgavam nunca merecedores, perguntando-se entre eles o que fizeram para serem punidos pelo que nunca fizeram, acompanhados dos genitores desconsolados que clamavam por sua devoção para a remissão daquela tragédia que se abatia sobre eles, quando foram surpreendidos pela bisavó – avó do Dermevaldito, dizem que ela não batia bem da bola e enxergava tudo ao contrário - que entrou e começou a brincar com a criança recém-nascida: - Cadê meu bisnetinho! Hummm. É feiosinho, parece um japonês com esses olhinhos apertados, um monstrinho das pernas e pés tronchinhos, será afilhado da Cumade Fulôsinha? Ah, meu bisnetinho vai ser cuidado pela bisavozinha, viu? E cantarolando lararis e lararás saiu levando o bebê, para surpresa e alívio de todos os presentes. Nunca mais se ouviu falar nem de Lucrecilda, nem de Dermevaldito, casal perfeito agora desfeito, pois, o que se sabe é que ela jurou nunca mais ter filhos e passou a execrar o marido que, para ela, ele e a família dele, um bando de ignominiosas e detestáveis pessoas, responsáveis pelo infortúnio que afligira sua vida para sempre. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui & aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ: 24 HORAS NO AR!!!
Hoje na Rádio Tataritaritatá: especiais São Paulo Brasil & Solo Brasileiro do pianista e arranjador Cesar Camargo Mariano; Sonatas & Liebstod de Wagner com a pianista alemã Silke Avenhaus; Hope you enjoy, da cantora, instrumentista e compositosa irlandesa Enya; e Suíte Palmares, Qualquer coisa que pareça com 68, Reencontro e Quando o pensamento voa, do compositor e maestro Dery Nascimento & suas parcerias Walkin 1 & 2, com Efrank & Orquestra Invisível. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Uma das lições que a era hitlerista nos ensinou é a de como é estúpido ser inteligente. Quantos não foram os argumentos bem fundamentados com que os judeus negaram as chances de Hitler chegar ao poder, quando sua ascensão já estava clara como o dia! Tenho na lembrança uma conversa com um economista em que ele provava, com base nos interesses dos cervejeiros bávaros, a impossibilidade da uniformização da Alemanha. Depois, os inteligentes disseram que o fascismo era impossível no Ocidente. Os inteligentes sempre facilitaram as coisas para os bárbaros, porque são tão estúpidos. São os juízos bem informados e perspicazes, os prognósticos baseados na estatística e na experiência, as declarações começando com as palavras: “Afinal de contas, disso eu entendo”, são os statements conclusivos e sólidos que são falsos. Hitler era contra o espírito e anti-humano. Mas há um espírito que é também anti-humano: sua marca é a superioridade bem informada. [...] Trecho de Contra os que têm resposta para tudo, extraído da obra Dialética do esclarecimento: Fragmentos filosóficos (Zahar, 1985), do filósofo, sociólogo, musicólogo e compositor alemão Theodor Adorno (1903-1969) e do filósofo e sociólogo alemão Max Horkheimer (1895-1973). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

BASES DO PARADIGMA HOLÍSTICO – [...] O Homem tem por base ambos os mundos; enquanto mantém um pé plantado no plano mecanicista, o outro está firmemente assentado no plano holístico, com uma distinta inclinação para este. Ele é essencialmente um ser espiritual e holístico, não de um tipo mecanizado, com categorias de ordens mental e ética sui generis [...] A liberdade não é, portanto, um conceito meramente formal, senão uma atividade real, na qual o Holismo molda e desenvolve a personalidade individual [...] Assim como um campo físico tem suas linhas de força, também o campo orgânico da natureza, que resulta da interpenetração de todos os campos de conjuntos que a compõem, tem suas próprias curvas estruturais de progresso. Na sociedade humana vemos como o campo social ou atmosférico torna-se um sistema de controle, uma influência moldadora à qual todos os membros nele introduzidos estão sujeitos [...]. Trechos extraídos da obra Holism and Evolution (1926), do estadista, advogado e visionário sul-africano Jan Christiaan Smuts (1870-1950), privilegiando os todos sociais (do grego holos, o todo), o todo na sua inteireza. Em termos gerais, todas as perspectivas que consideram que o todo é superior à soma das respectivas parcelas. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

MULHERES APAIXONADAS – [...] continuava andando, através de toda aquela mesquinhez, pela rua arenosa e feia. Ia exposta a todos os olhares, como que se força voluntariamente a um tormento. Era estranho ter querido voltar, sujeitando-se a tanta coisa desagradável! Por que se teria ela exposto ao cenário ignominioso que a torturava, à presença daquele gente desagradável, naquele recanto característico da província? Experimentava a sensação de um escaravelho lutando contra a poeira. Sentia náuseas. Mudando de rumo, contornaram a mancha escura de uma horta, onde troncos fuliginosos se erguiam impudentemente. Ninguém sentia vergonha, ninguém tinha vergonha de coisa alguma. [...] se sentiu tomada de uma cólera súbita e violenta, cheia de desejos homicidas. Sentiu vontade de aniquilar aquela gente, arrasar tudo aquilo de modo que o mundo ficasse inteiramente desimpedido. Tinha horror de fazer aquele trajeto, de galgar a escadaria e de pisar a passadeira vermelha, sempre acompanhada pelos olhares dos outros [...] “o lobo é o seu totem – pensou ela – “e a mãe é uma loba velha e rebelde”. E logo a seguir experimentou um verdadeiro paroxismo, puro arrebatamento, como se tivesse fieto uma descoberta incrível, desconhecida de todas as pessoas da terra. Um estranho êxtase a tomou e por todas as suas veias correu seiva dolorosa e violenta. “Meu Deus”, exclamou no seu intimo, “o que é isto?”. E depois, passada a primeira sensação, murmurou, agora mais calma. “Preciso saber tudo a respeito desse homem”. Torturava-a o desejo de tornar a vê-lo, espécie de saudade, de imperioso desejo de o contemplar de novo; necessidade de certificar-se de que não tinha havido engano, de que não iludira a si mesma, que sentira, de fato, em face dele, tão extraordinária impressão – conhecimento do individuo em sua própria essência, percepção dominadora e cruel! “Estarei realmente marcada, de qualquer maneira, para ele?” [...] A vida de qualquer pessoa está sujeita a meras eventualidades. [...] Tudo se equilibra no mundo, no mais profundo dos sentidos. [...] Sei disso, e acho que não é bom provocar esse espírito de rivalidade. Desorganiza o sangue. E o sangue corrompido vai-se acumulando. [...] Ninguém esmurra o semelhante a não ser que este mostre vontade de ser esmurrado. Eis a pura verdade. É preciso duas pessoas para haver um crime: o assassino e a vítima. A vítima é uma criatura assassinável; e quem apresenta esta qualidade, tem profundo, embora oculto, o desejo de ser assassinado. [...] É o espírito – acrescentou – é, portanto, a morte. – Encarou-o novamente e repetiu, contraindo o corpo em um movimento convulso: - Não é o espírito que nos mata? Não é ele que destrói toda a nossa espontaneidade, todos os nossos instintos? E essas pequeninas criaturas, que estão crescendo agora, não teriam sido atingidas pela morte antes mesmo de experimentarem a vida? [...] – Em todos os sentidos – afirmou Birkin. – Somos terrivelmente mentirosos. O que nos anima é só a ideia de mentirmos a nós próprios. Temos o ideal de um mundo perfeito, correto, eficaz e decente. Mas, em seguida, cobrimos a terra de imundícies; a vida é um pântano de fadigas, nós, um amontoado de insetos debatendo-nos no charco, a fim de que o mineiro tenha um piano na sala e você um mordomo e um automóvel na sua casa modernizada; e todos, como nação, podemos divertir-nos no Ritz ou no Empire, com a Gabuh Deslys e com os jornais de domingo. É lúgubre, meu amigo! [...] – Você devia partir de exemplos concretos – disse Gerald. (A esta contestação Birkin não respondeu nada). – Devemos ter algum fim na vida e não sermos apenas gado que pasta e que não sabe fazer mais nada. [...] Os homens são vampiros e as coisas são todas fantasmagóricas [...] A vida de qualquer pessoa está sujeita a meras eventualidades [...] Uma das coisas mais difíceis desse mundo é o ato de espontaneidade [...]Não se faz instintivamente o que não se pode [...] Quando, na realidade, queremos qualquer coisa melhor, tratamos primeiro de destruir o que existe [...] No fique de contas a humanidade não é senão uma expressão do incompreensível [...] Todos começamos por beber leite, depois comemos pão e carne, todos queremos andar de automóvel; eis o começo e o fim da fraternidade entre os homens. A igualdade não existe [...] Mas a humanidade não passa de uma árvore que secou, coberta de belas e brilhantes frutas secas, que somos nós [...]As pessoas precisam é de ódio, ódio e nada mais. E em nome da justiça e do amor, não fazem senão espalhá-lo! [...] Ainda que o homem seja dono dos animais domésticos, continuo a achar que não tem direito de violentar os sentimentos de seres que lhe são inferiores [...]O amor é uma direção que exclui quaisquer outras [...] Nunca lamento os mortos, uma vez que estão mortos. O pior é que se agarram aos vivos e nunca mais os largam [...] quando preenchemos nossa existência, o melhor é morrer, exatamente como um fruto maduro que se desprende do ramo [...] Preciso de alguém a quem possa falar com o coração nas mãos [...] O desejo vale mais que a posse [...]. Trechos extraídos da obra Mulheres Apaixonadas (Record, 1987), do escritor britânico D. H. Lawrence (1885-1930), centrada nos problemas psicológicos e sociais, tratando ousadamente a questão das relações entre o homem e a mulher, questionando seu significado e analisando os problemas sexuais que surgem. Em 1970, a obra foi transformada em romance dramático no filme homônimo dirigido por Ken Russel, narrando casos amorosos que se desenrolam na década de 1920, de forma complexa, quando dois senhores se apaixonam em plena confraternização ao ar livre por duas mulheres irmãs de pensamentos diferentes sobre o amor e o sexo, retratando a essência entre o amor e o sexo na Inglaterra conservadora. Veja mais aqui e aqui,

TERAPIA DE DOIDOS – A comédia independente Terapia de Doidos (Home movies, 1980), dirigida pelo cineasta estadunidense Brian De Palma, conta a historia de um homem que desempenha a função de instrutor de filmes, quando um aluno passa a filmar tudo o que acontece em casa, registrando incidentes paternos, favorecimentos familiares, explosões dramáticas e conflitantes, como se ocorresse um processo terapêutico em expressões espontâneas e pouco usuais entre os envolvidos: o pai um cirurgião e um filósofo em série, a esposa depressiva obcecada com as infidelidades do marido, o irmão que é um líder culto auto-absorvido, a noiva com um espírito livre e louco e o irmão mais novo que é um voyeur tímido que registra tudo com sua câmera de 16mm. Veja mais aqui, aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do artista plástico e engenheiro civil Daniel Senise.
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A ARTE & ENTREVISTA DE DERY NASCIMENTO
Entrevista do compositor, maestro, radialista e crítico musical Dery Nascimento. Veja aqui e aqui.

sexta-feira, setembro 11, 2015

HERMILO, KEPPE, PIAF, LAWRENCE, HESÍODO, DELLA COSTA, DE PALMA & DEVAS.

VAMOS APRUMAR A CONVERSA? A OBRA DE HERMILO – Era ainda eu um desses adolescentes de bigodinho ralo e descobrindo a vida nas ruas e zonas de Palmares, quando me apareceu o livro Deus no Pasto, de Hermilo Borba Filho, jogado pela janela de um seu parente irado e repudiando não só essa como toda obra dele. Confesso que nem sabia quem era aquele autor, pirralho que era. Olhei o volume, a capa rasgada, as páginas bufentas, quase que soltas do volume; mesmo assim, acolhi, levei para casa e deixei-o num canto da minha estante improvisada, aguardando um momento propício para conhecê-lo, já que eu era afeito a leituras madrugada adentro desde menino, imitando meu pai que ficava horas e horas mergulhado na biblioteca dele. Meninote ainda eu mesmo ficava cutucando as idéias, investigando a razão do meu genitor ficar ali debruçado sobre volumes e mais volumes por noites a fio. Devia de ter algum segredo recôndito naquelas páginas, aduzia. Dias ou meses depois, imantado pelo volume com um título intrigante, folheei as primeiras páginas e não consegui desgrudar. Ao cabo de alguns mais, havia já devorado tudo. Estava estupefato. Fui então na biblioteca municipal e instei da professora e madrinha dos artistas locais, Jessiva Sabino, sobre Hermilo. Ela meio que intrigada e atônita com a minha indagação, me pediu para baixar o tom da voz e me encaminhou para uma das estantes empoeiradas dali. Deu-me, às escondidas, o Margens da Lembrança, sob a condição de lê-lo sem estardalhaço e por tempo determinado de oito dias. Foi de um fôlego só. Depois foi a vez de Os Ambulantes de Deus; e veio O General está pintando, Os Caminhos da Solidão, As meninas do sobrado, Sol das Almas, A Porteira do Mundo, O cavalo da noite e Agá – tudo lido e relido no maior dos deleites. Foi noutra ocasião, quando ensaiava os primeiros passos no teatro, que me deparei com a obra dele para a área e mergulhei nas suas peças. Esse nome eu conheço, disse, e anos mais tarde isso me levou até a adaptar, dirigir e musicar uma delas, a João sem terra. Mas voltando ao princípio, certa feita, numa sala de aula, outra professora de Língua e Literatura Nacional, já do colegial, quase teve um troço quando eu falei que havia lido a obra dele. - Que é isso, hem? - inquiria eu. Para onde eu me virasse era um desconforto, um pigarreado, uma mudança de assunto, uma lividez, ora. - Tô falando do anticristo, por acaso? -, na verdade não, mas que repulsavam mesmo, nossa! A minha trupe adolescente ficou curiosa e danávamos a consumí-lo caindo em discussões calorosas regadas já a uns pilequinhos na praça em frente da igreja presbiteriana. Bote arroubos e declamações azucrinando passante desavisado. A gente quase que foi, todo mundo da roda, excomungado. Foi nesse ínterim que o poeta Juarez Correia, mais velho que a maioria da gente, chegou recontando todas as historietas de Hermilo e indicando um a um dos personagens e os motivos da execração da cidade, ampliando motivos para nossa algazarra. Era tudo muito estranho porque Hermilo dizia aos quatro cantos do mundo: "Palmares é a minha marca para toda vida". Não se dava para encontrar razões para o repúdio da população. Isso tudo ocorreu nos idos dos anos 70, pouco tempo depois de sua morte. Era uma maldição mesmo, a ponto de quase não se conseguir, já nos idos dos anos 80, criar a Fundação Casa da Cultura Hermilo Borba Filho, em Palmares, cidade natal dele e centro da Mata Sul de Pernambuco. A gente teve de comprar a briga do Juarez e sair berrando na imprensa e nos ouvidos moucos dos timoratos a importância de tal feito. Felizmente, conseguimos. Mas foi tanta resistência, pacutia, muxôxo, imbróglios, má-vontade, vôte! Bote maré contrária no remado. E daí se angariou simpatias de fora entre gente importante do cenário recifense e de outros estados, e resgatou-se, finalmente, a gratidão da cidade ao seu importante nome. Depois dessa, outra ocorre hoje: não se vê mais uma reedição da obra de Hermilo Borba Filho. Parece que a maldição que extirpamos dali, está presente nas editoras que só se interessam pelas edições garantidas dos best-sellers. Até as revistas especializadas sequer abordam sua obra. Parece, assim, que mais uma luta terá de ser travada: a de trazer Hermilo ao seu lugar na Literatura Brasileira. ADENDO: Quando estive nos últimos dias lá na Fenelivro, em Olinda, depois de uma boa conversada com minha conterrâneamiga, Inez Khoury, tive a grata satisfação de encontrar entre os títulos da editora conterrânea, as Edições Bagaço – a qual tive e tenho a honra de ver nascer e crescer -, a reedição das obras de Hermilo em volumes muito bonitos e bem produzidos graficamente. Fiquei de alma lavada. E pra meu regozijo ainda maior, recebo o convite do amigo Juarez Carlos para prestigiar o lançamento do seu livro A grande viagem intelectual, exatamente a respeito do que estou falando. Posso dizer que estou de alma lavada! Salve, Hermilo! E o que me resta, na condição de leitor, é convidar todo mundo pra conhecer a obra deste grande escritor! (Luiz Alberto Machado, publicado originalmente em 2002, no Guia de Poesia do Projeto SobreSites – RJ). E veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

 Imagem: Nude Woman Seated Hand Signed (Oil Painting), do pintor britânico Anthony Devas (1911-1958).


Curtindo: Hymne à l'amour (1950/2007), da cantora francêsa Edith Piaf (1915-1963)

SOCIOPATOLOGIA – O livro Sociopatologia: estudo sobre a patologia social – bases para a nova civilização do 3º milênio (Proton, 2002), do psicanalista, filósofo, cientista social e físico brasileiro Norbert R. Keppe, trata sobre a sociedade e o falso conhecimento criados a priori, patologia social oriunda da matemática e impedindo o desenvolvimento da humanidade, a matemática constitui o centro da patologia de toda história da humanidade, o pensamento a priori como o da matemática é a principal fonte das doenças sociais e humanas, a matemática é responsável pela existência de grande número de desequilibrados mentais, a filosofia apriorista derivada da matemática domina o pensamento moderno, a matemática vem destruindo sistematicamente a cultura, o ser humano e a civilização; como geradora da falsa religiosidade com toda a sua gama de superstições, causa do obscurantismo da Idade Media, base de argumentação da sociedade que advem do princípio de autoridade, o atraso das orientações religiosas, as grandes filosofias aprioristas modernas, as filosofias apriorísticas do racionalismo e iluminismo, período fanático da história da civilização, a causa da sociopatologia alemã, as ciências atuais apriorísticas interrompendo o desenvolvimento e colocando a humanidade em perigo, o encarceramento das instituições universitárias, o apriorismo das ciências psicológicas, a humanidade dividida, agressiva e inculta; a sociedade organizada a posteriori, a estética como fundamento de toda a civilização, a arte moderna com a função principal de denunciar os erros sociais, a lógica advinda da arte, o fundamento da vida e da civilização, a sociedade unificada, esquema sobre a realidade humana e social, a vontade é o principal elemento determinador da existência, a experimentação constitui a base de todo o conhecimento, o conhecimento formado a posteriori, a ação como base e finalidade de todas as coisas, entre outros assuntos. O autor desenvolveu a Trilogia Analítica considerada a Psicanálise Integral, unificando a ciência à filosofia e à teologia. Da obra destaco o trecho: [...] O ser humano (sabendo ou não), à medida em que age participa na do plano humano e divido; toda ação é natural e sobrenatural concomitantemente – mesmo que a neguemos; neste sentido pode se dizer que ela é divina; mas no caso de ser uma oposição ou destruição do bem, será diabólica. Ação é manifestação de pensamentos e principalmente dos sentimentos; por este motivo, semente quando o indivíduo trabalha é que mostra o que é. Quando se fala que um ser é bom, é porque realiza a bondade; se ele é verdadeiro, é porque faz a verdade – o ser supõe o ato. A terceira fase da humanidade será a a da realização, praticamente a do trabalho; temos de admitir que até agora não produzimos o suficiente para conseguir o bem-estar e alcançar a finalidade humana: porque o nosso tipo de atividade foi escravagista; por isso mesmo, extremamente parcializada; fora do verdadeiro fim. O individuo faz o que pensa, mas vive segundo a sua conduta; por esta razão a ação é mais importante que o pensamento – a ideia constitui apenas uma faceta de seu comportamento, que é movido em parte por ela (a ideia) e mais basicamente ainda pelo sentimento (o afeto). Veja mais aqui e aqui.


O AMANTE DE LADY CHATTERLEY – A novela O amante de Lady Chatterley (Companhia das Letras, 2010), do escritor inglês David Herbert Lawrence (1885-1930), conta a história de um romance entre uma mulher burguesa e um homem da classe trabalhadora, com uma narrativa que causou escândalo por ser uma história baseada em eventos infelizes da vida doméstica do próprio autor quando ele viveu em Derbyshire. Da obra destaco o trecho: [...] Tanto Hilda quanto Constance tiveram suas primeiras experiências amorosas em torno dos dezoito anos. Os rapazes com quem conversavam com tanta paixão, cantavam com tanta ânsia e acampavam com tamanha liberdade sob as árvores sempre queriam, claro, a conexão amorosa. As jovens tinham muitas dúvidas, mas afinal falava-se tanto dessa coisa, supostamente tão importante. E os rapazes se mostravam tão humildes e suplicantes. Por que então uma jovem não podia portar-se como uma rainha e conceder a ele a dádiva de si mesma? De maneira que tinham concedido as dádivas de si mesmas, cada uma ao rapaz com quem tinha as discussões mais íntimas e sutis. As conversas, as discussões, eram o que importava: o amor físico, a conexão, era apenas uma espécie de reversão primitiva, e em boa parte um anticlímax. Depois dela, sentiam-se bem menos apaixonadas pelo rapaz e até um pouco inclinadas a odiá-lo, como se ele tivesse violado a privacidade e a liberdade interior de cada uma. Pois obviamente, no caso das moças, toda a dignidade, todo o sentido da vida, consistia na conquista de uma liberdade absoluta, perfeita, pura e majestática. O que mais podia significar a vida de uma jovem? Desembaraçar-se das antigas e sórdidas conexões e submissões. E, por mais que se pudesse sentimentalizá-la, toda essa história de sexo era uma das conexões e submissões mais sórdidas e antigas que existiam. Os poetas que a glorificaram eram quase todos homens. As mulheres sempre souberam que existia uma coisa melhor e mais elevada. E agora sabiam disso mais definitivamente que nunca. A linda e pura liberdade da mulher era infinitamente mais magnífica que qualquer amor sexual. A única dificuldade é que nessa matéria os homens estavam muito mais atrasados que as mulheres. E faziam questão da coisa do sexo, como cães. E a mulher tinha de ceder. O homem era como uma criança, com seus apetites. A mulher tinha de conceder o que o homem queria ou o mais provável era que ele, igual a uma criança, perdesse o controle, debatendo-se pelo chão e arruinando o que sempre tinha sido uma ligação muito agradável. Mas a mulher podia ceder sem entregar ao homem o que ela possuía de mais interior e de mais livre. Que os poetas e os que falavam tanto sobre sexo não pareciam levar na devida conta. A mulher podia aceitar um homem sem na verdade entregar-se a ele. E certamente podia aceita-lo sem se entregar ao seu poder. Em vez disso, podia usar essa coisa do sexo para adquirir poder sobre ele. Pois bastava ela se conter na relação sexual, deixa-lo acabar e esgotar-se sem chegar ela própria à crise, para em seguida prolongar a conexão e chegar a seu orgasmo e sua crise tendo-o como um simples instrumento. As irmãs já haviam tido suas experiências amorosas quando a guerra chegou e precisaram voltar às pressas para a Inglaterra. Nenhuma das duas jamais se apaixonara por um rapaz a menos que os dois estivessem verbalmente muito próximos: melhor dizendo, a menos que estivessem profundamente interessados, conversando muito um com o outro. A emoção extraordinária, profunda e inacreditável que podia haver em conversas apaixonadas com um jovem realmente inteligente, por muitas horas, retomada dia após dia — disto elas só foram saber quando lhes aconteceu. A promessa desse paraíso: Terás homens com quem conversar! jamais fora proferida. Mas cumpriu-se antes que soubessem o quanto era preciosa. E se, depois da intimidade despertada por essas conversas animadas que iluminavam a alma, a coisa do sexo se tornava mais ou menos inevitável, então que assim fosse. Era sempre a forma de assinalar o fim de um capítulo. E também tinha seu apelo: um estranho apelo que vibrava no fundo do corpo, um espasmo final de autoafirmação, como a última palavra, estimulante, e muito parecida com a linha de asteriscos que podem ser usados para demonstrar o final de um parágrafo e uma guinada no tema. [...] Veja mais aqui e aqui.

OS TRABALHOS E OS DIAS – A obra Os trabalhos e os dias (Segesta, 2012), do poeta oral grego Hesíodo (750-650aC), é um poema didático que além do seu fim pedagógico possui algumas alusões a estrela mais brilhante do céu vista da terra, Sirius, no qual o poeta vê-se a si mesmo com um papel distinto a desempenhar. Do livro destaco o Proêmio e As duas lutas: Proêmio - Musas da Piéria, que dais glória com canções, / vinde; em hinos cantai Zeus, vosso pai. / Através dele os homens mortais ficam igualmente sem fama e famosos; / deles se fala ou se silencia por meio de Zeus grande. / Ele facilmente fortalece, facilmente os fortes esmaga; / facilmente diminui o ilustre e exalta o obscuro, / endireita o torto e o arrogante enfraquece, / Zeus altitonante que habita excelsos palácios. / Escuta, Zeus, vendo e ouvindo, e com justiça endireita as sentenças! / Quanto a mim, gostaria de dizer a Perses / verdades. As duas lutas / Ora, não houve apenas um nascimento de Lutas, mas sobre a terra / existem duas. / Quando alguém observa uma delas, considera louvável; / a outra é digna de censura: elas têm ânimos diversos. / Pois uma promove a guerra má e a disputa, / é a cruel. Nenhum mortal a ama, mas por necessidade, / pela vontade dos deuses, têm de honrar a Luta pesada. / A outra, a primeira, gerou-a a Noite escura, /e o filho de Crono, Zeus sentado em alto trono, / habitante do éter, colocou-a nas raízes da terra; é bem melhor para os homens: / ela leva ao trabalho mesmo a pessoa sem meios. / Pois um homem sente falta de trabalho ao olhar para outro / que, rico, apressa-se a arar, plantar / e administrar bem sua casa, e um vizinho procura igualar o outro / que se apressa em alcançar a fartura. Essa Luta é boa para os mortais. / O oleiro irrita-se com o oleiro, o carpinteiro com o carpinteiro; / o mendigo inveja ao mendigo, o poeta ao poeta. / Ó Perses, coloca essas coisas no teu espírito, / e que a Luta que se compraz no mal não te afaste do trabalho / para assistir a litígios, atento aos discursos da praça pública. / Na verdade, litígios e discursos pouco importam / a quem não possui em estoque sustento abundante / colhido no tempo certo, os frutos de Deméter, que a terra traz. / Estando deles saciado, poderias promover litígios e disputas / sobre bens alheios. Não te será possível, contudo, uma segunda vez / assim agir, mas, sem mais, decidamos nosso litígio / com julgamentos justos, que vêm de Zeus, os melhores. / Pois de fato já tínhamos dividido a herança, e tu muitas outras coisas / agarravas e levavas, prestando grandes honras aos reis / devoradores de presentes, que se dispõem a dar esse veredicto. / Tolos! Não sabem quanto a metade é maior do que o todo, / nem quão grande proveito existe na malva e no asfódelo. [...] Veja mais aqui e aqui.

DA RAINHA MORTA À MORAL EM CONCORDATA – A trajetória da atriz, modelo, produtora e empresaria Maria Della Costa (1926-2015), teve sua estreia no teatro em 1944, com A Moreninha, seguindo para Portugal estudar arte dramática. De volta ao Brasil em 1946, passa a integrar o grupo Os Comediantes e participa do espetáculo Rainha Morta (1945), Terras do Sem Fim, Vestido de Noiva e Não sou eu. Em 1948, funda o Teatro Popular de Arte, estreiando com a peça Anjo Negro. A partir de então seguem espetáculos que fizeram dela uma triunfante carreira nos palcos teatrais com Ralé (1951), Manequim (1952), O canto da cotovia (1954), Com a pulga atrás da orelha (1955), A Mirandolina (1955), A casa de Bernarda Alba (1956), Moral em concordata (1956), A rosa tatuada (1956), A alma boa de Set-Suan (1958), Gimna (1959), Society em Baby Doll (1960), O marido vai à caça (1962), Armadilha para um homem só (1962), Pindura saia (1963), Depois da queda (1964), Homens de papel (1967), Tudo no jardim (1968), Abra a janela e deixa entrar o ar puro e o sol da manhã (1968), Bodas de sangue (1973), Toma conta da Amélia (1974), Motel Paradiso (1982), Alice, que delícia (1986), Temos que refazer a casa (1988) e Típico romântico (1992). No cinema ela atuou em diversos filmes, entre eles O cavalo 13 (1946), O malandro e a grã-fina (1947), Inocência (1949), Caminhos do Sul (1949) Areião (1952) e Moral em corcordata (1959). Nossos eternos aplausos a esta grande atriz. Veja mais aqui.

PASSION – O thriller erótico Passion (A paixão, 2012), dirigido e roteirizado pelo cineasta estadunidense Brian De Palma, é uma refilmagem do filme Crise de amor, de 2010, estrelado por Rachel McAdams e Noomi Rapace, contando a história sobre o envolvimento profissional entre duas mulheres que entram em conflito por poder no trabalho e no mundo dos negócios e da publicidade, que envolve vingança, intrigas e conflitos, desenvolvendo-se um jogo perverso recheado de humilhações e dominações que se prolonga ao longo do filme, numa história de suspense, desajustes e erotismo, com o sexual beirando ao sádico com egocentrismo e espelhos que vai desembocar numa tragédia inesperada e carregada de simulacros e simulações. O filme é envolvente, instigante e chama a atenção para o relacionamento feminino e destaca a reflexão sobre esse universo maravilhoso que é o da mulher, um ser que tem cumprido um papel digno de nota na trajetória do inventário humano. Veja mais aqui.

IMAGEM DO DIA
Convite de lançamento do livro A grande viagem intelectual, de Juarez Carlos, que acontecerá neste sábado, dia 12/09, às 14hs, na Biblioteca Pública Fenelon Barreto, em Palmares – PE, em evento patrocinado pela Academia Palmarense de Letras (APL), sobre a obra de Hermilo Borba Filho.


Veja mais no MCLAM: Hoje é dia do programa Some Moments, a partir das 21hs, no blog do Projeto MCLAM, com a apresentação sempre especial e apaixonante de Meimei Corrêa. Em seguida, o programa Mix MCLAM, com Verney Filho e na madrugada Hot Night, uma programação toda especial para os ouvintes amantes. Para conferir online acesse aqui.

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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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segunda-feira, setembro 24, 2007

SCHOPENHAUER, COMENIUS, CASCUDO, JÚLIA LEMMERTZ, SANDRA DUAILIBE, WANDERLÚCUA WELERSON & MUITO MAIS!



BAMBAQUERÊ NO ELASTÉRIO - Por volta de 1983 a correria era grande, trabalho, faculdade, preparativos pro show. Já havia lançado o meu segundo livro de poesia, o A intromissão do Verbo. Também o Grupo III Produções Artísticas, sob a direção de José Manoel Sobrinho, fez a leitura do meu segundo texto teatral A viagem noturna do sol, na sala Clênio Wanderley, na Casa da Cultura de Recife. Nem os atores gostaram do texto, imagine. José Manoel como era teimoso, preparava a direção de um show meu com participação especial de Augusto César. Preparava porque não fosse eu acometido por um acidente brabo, a coisa ia dar para lá de certo. Certa manhã eu saí de casa ainda ressacado da correria e da cerveja, quando perdi a paciência de esperar o ônibus Pinheiros sempre atrasado e sem hora para passar, e desci a avenida até o cruzamento com a rua Arquiteto Luis Nunes. Cheguei na guarita e fiquei conversando com uns vizinhos enquanto aguardava a condução. Eis que dois automóveis entabacados e fizeram o maior embucetamento! Era o cruzamento entre as duas vias e colidiram. Um deles me pegou quando eu estava escorado num poste e embaixo da marquise. O carro errou o poste e me acertou. Por sua vez, eu arrastei mais uns três comigo. Fiquei com a cara enfiada na lama entre o meio-fio e o asfalto. Socorreram os outros porque me deram por já falecido, amém. Não sei quanto tempo depois, eu me virei querendo berrar. Foi que me socorreram e me jogaram numa maca no Hospital da Restauração. Lá, pelo que pude ver, tinha mais de quinhentas macas jogadas ao abandono, embaixo de umas bocas de ar condicionado que engelharam meus dedos e me prepararam para uma tuberculose. Ia morrer de qualquer jeito. Cheguei lá no monturo por volta dumas oito horas da manhã e só uma hora da tarde foi que me atenderam, quando a assistente social do banco chegou com meus familiares. Começaram a me examinar, tiraram raio X, costuraram a ponto cru um samboque atrás da minha orelha esquerda – a anestesia não pegava porque eu ainda estava com aquele famoso bafo de cachaça peculiar. O médico providente antes de costurar o talho, mandou retirar todas as mulheres do recinto porque sabia que eu ia me estuporar todo. E foi: ele cerzia meu juízo e eu comia a mulher dele, a filha dele, a mãe dele e o cu dele e de todos os que estivessem por ali. Uma dor da porra! Depois disso, enrolaram meu braço esquerdo numa tipoia para lá de malfeita e me arrastaram para ambulância que findou me metendo dentro do carniceiro Neuro. Quando cheguei lá, às carreiras me sacolejaram para uma enfermaria, fizeram uma bandagem apertada no meu braço esquerdo e me deixaram lá com a cabeça zunindo, o braço doendo e o mundo reduzido a um velho que estava deitado de lado e só mexia os olhos. Do outro lado, um sujeito nu com uma bala na nuca e cheio de soro e sangue por todo o corpo. Anoiteceu e a bicharada comeu a noite toda: insetos e viados. Era cada mutuca que levantava uns calombos doloridos na minha carne. Os viados – nada contra, mas que fui maltratado, fui! - eram os enfermeiros que chegavam na maior risadagem perguntando se eu não queria mijar. Como estava com o braço esquerdo inutilizado, eles queriam fazer a festa comigo. E fizeram: e me levaram pro banheiro, arrearam meu pijama, pegaram no pingolim, esperaram eu mijar e depois ficaram acariciando meu membro e ainda diziam: - Não reclame, nem faça nada, deixe com a gente senão você se fode. Coitado de mim, eles brincaram com meu mijador um bocado de tempo, mesmo eu desminlinguido com a cabeça rodando de um zoadeiro sem fim e sem força pra fazer nada. Eles amolegavam tanto que quando viram que eu não levantava nada, iam embora para lá de chateados. Dois dias depois abandonado ali, comecei a espernear até que meus parentes puderam entrar e eu convencê-los de que queria sair dali urgentemente. A assistente social contrapondo o meu desejo alegou que, por se tratar de acidente do trabalho, se eu saísse o banco não teria mais nenhuma responsabilidade comigo. Ainda mais tinha a ameaça médica de que eu poderia endoidecer a qualquer momento. Bem, doido sempre fui. Uma loucura a mais, não faria a menor diferença. Saí assim mesmo. Foram três meses e meio de fisioterapia na clínica de fraturas. E ainda fui levado pela polícia para depor sobre o acidente: - Eu estava de costas, escorado num poste, embaixo da marquise da guarita de passageiros. Quando dei fé, só ouvi o barulho da frenagem e depois de um tempo, me acordei ensanguentado deitado no asfalto, foi o que vi. Escapei dessa, quase bato as botas de verdade. Ponto final. Veja mais aqui. 

Imagem: Nu, do artista visual Malcolm Liepke. Veja mais aqui.

Curtindo o álbum Do princípio ao sem-fim (2006), da cantora Sandra Duailibe. Veja mais aqui.

EPÍGRAFE – Os eruditos são aqueles que leram livros; mas os pensadores, os gênios, os iluminadores do mundo e os promotores do gênero humano são aqueles que leram diretamente no livro do mundo, trecho do filósofo alemão Arthur Schopenhauer (1788-1860). Veja mais aqui e aqui.

COMUNHÃO – O educador, cientista e escritor checo Comenius - Jan Amos Komenský (1592-1670), é autor de diversas obras, entre elas Labirinto do Mundo (1623), O Anjo da Paz (1667) e A Única Coisa Necessária (1668), entre outras, das quais destaco o trecho: Queremos que os seres humanos, individual e coletivamente, jovens ou velhos, ricos ou pobres, nobres ou plebeus, homens ou mulheres, possam ser plenamente educados e se tornar seres humanos realizados. Queremos que sejam perfeitamente instruídos e informados, não apenas sobre um ou outro ponto, mas também sobre tudo o que permite ao ser humano realizar integralmente sua essência, aprender a conhecer a verdade, não ser enganado por falsos pretextos, amar o bem e a não ser seduzido pelo mal, fazer o que deve ser feito e evitar o que precisa ser evitado, falar com sabedoria de tudo em com todos, e nunca se desviar de seu objetivo maior, que é a felicidade. Veja mais aqui.

TRÊS CIDRAS DE AMOR – No livro Literatura oral no Brasil (Itatiaia, 1984), do historiador, antropólogo, advogado e jornalista Luís da Câmara Cascudo (1898-1986), no qual destaco a narrativa das Três cidras de amor: Um príncipe andando à caça encontrou três cidras e abriu a primeira quando teve sede. Apareceu uma formosa menina, pedindo água e morreu por não a beber. O mesmo sucedeu à segunda. A terceira, ainda mais bonita, viveu porque o moço lhe deu água. Levou-a para o palácio e como estivesse despida fê-la subir a uma árvore e esperar que ele voltasse, trazendo roupa. A moça ficou oculta entre a folhagem dos ramos. Uma preta veio encher a cantarinha d’água e, vendo refletida na fonte a face da moça encantada, julgou ser a própria e fritou, quebrando o pote: - menina tão bonita não deve andar a carregar água. A moça riu e a preta, avistando-a, acariciou-a muito, indo catar0lhe a cabeça e meteu-lhe um alfinete num ouvido, transformando-a em pomba. Quando o príncipe voltou e viu a negra, feia e preta, perguntou pela moça. – Sou eu, príncipe, que fiquei crestada pelo sol! O príncipe levou-a e casou com ela. O hortelão do rei quando regava as flores, viu uma pomba branca que perguntava pelo rei e pela preta Maria. O hortelão respondia e a ave se queixava de viver perdida. O rei, sabendo do fato, mandou armar um laço de fita para pegá-la. Inutilmente. Substituíram-no por um de prata e só se deixou cair em um de ouro. O rei começou a afaga-la e deparando a cabeça do alfinete, puxou-o, tirando-o. A moça desencantou, sendo reconhecida. Mataram a preta e viveram felizes para sempre. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

ILUSÃO – Entre os poemas da escritora, pedagoga, psicóloga e professora Wanderlúcia Welerson Sott Meyer, destaco o seu belíssimo poema Ilusão: Há muito deixei de correr atrás das borboletas / São encantadoras, mas dificilmente criam laços... / Não estabelecem vínculos. / Prefiro observá-las / Inebriar-me com a desenvoltura de suas asas / Deixá-las livres para que sigam seu destino. / Enquanto contemplo / Entrego-me aos sonhos... / Indagação sincera... / Como seria se permanecessem ao meu lado? / Encantariam com sua beleza? / Ou se converteriam em realidade? Veja mais aqui e aqui.

DAS AMOROSAS AO MOGLI - A atriz de teatro, cinema e televisão Júlia Lemmertz, estreou sua carreira de atriz ainda criança, tendo feito a sua primeira atuação no cinema, aos cinco anos de idade, ao lado da mãe, no filme As amorosas (1968). Mais tarde, em 1971, atuou no filme Cordélia, Cordélia. Ela começa no teatro com a Lição de Anatomia (1982) e seguem-se Gemini (1983), O que o mordomo viu? (1986), Orlando (1989), Viagem ao centro da terra (1992), Hamlet (1993), Eu sei que vou te amar (1994), As três irmãs (1999), Molly Sweeney (2006), Rastro de Luz (2009) Maria Stuart (2010), entre outras. No cinema atuou nos filmes As aventuras de Mário Fofoca (1982), Patriamada (1984), Mal Star (1984), A cor do seu destino (1986), Lua de cristal (1990), Vaidade (1990), Amor materno (1993), Jenipapo (1995), Glaura (1997), Mangueira, amor à primeira vista (1997), A hora mágica (1998), Um copo de cólera (1999), Até que a vida nos separe (1999), Amor que fica (1999), Tiradentes (1999), Nelson Gonçalves (2001), Joana e Marcelo, amor (quase) perfeito (2002), Poeta de sete faces (2002), Acquária (2003), Cristina quer casar (2003), As três Marias (2003), Jogo subterrâneo (2005), Gatão de meia idade (2006), Onde andará Dulce Veiga? (2007), Mulheres sexo verdades mentira (2008), Meu nome não é Johnny (2008), Bela noite para voar (2009), Do começo ao fim (2009), Amor? (2011) e Mogli, o menino lobo (2016). Também fez muito sucesso na televisão participando de diversas novelas. Veja mais aqui e aqui.

FEMME FATALE – O filme de suspense Femme Fatale (2002), dirigido pelo cineasta estadunidense Brian De Palma, é baseado no livro de James Ellroy e conta a historia de uma mulher que depois de enganar seus parceiros foge com diamantes. Sete anos depois ela muda de nome e se casa com o embaixador dos Estados Unidos e passa a morar na França. Mas os fantasmas de seu passado voltam a atormentá-la quando um fotógrafo tira uma foto sua. O destaque do filme é para a atriz e modelo estadunidense de origem holandesa Rebecca Romijn. Veja mais aqui e aqui.


VEJA MAIS:
As trelas do Doro, Doris Lessing, Maria Martins, Jean-Claude Brisseau, Virginie Legeay, Octave Tassaert & Jade da Rocha aqui. 
Martin Buber, Julio Verne, Abelardo e Heloisa, Pier Paolo Pasolini, Vangelis, Gustave Courbert, Rick Wakeman & Arriete Vilela aqui.  
Wolfgang Amadeus Mozart, Bronislaw Malinowski, Lendas Africanas, Silvio Rabelo, Bertrand Bonello, Anna Wakitsch, Sharon Bezaly, Paul Gustave Doré, Ju Mota, Jaci Bezerra & Ivoneide Lopes aqui.  

FECAMEPA - Gentamiga do meu Brasil do piriri-pororó!Depois que o Governo Federal respondeu minha crôniqueta "Quando o troço da CPMF entra no oba-oba do ora veja!" (veja detalhes no post abaixo), parece que a coisa mais se assanhou! Afinal, a intenção é uma; a destinação, é outra. É ou não é? Pergunto: se tem CPMF por que a saúde está em petição de miséria? Só tem saúde no Brasil quem pode usufruir de uma previdência privada. E os outros? ou melhor: e a grande maioria dos brasileiros, hem? Hum.... me responda quem for capaz.Pois bem, mais gente se manifestou a respeito e registramos as palavras de:Sônia van Dijck, escritora, poeta e professora universitária Antonio Washington de Almeida Gondim, professor universitárioSilas Correa Leite, poeta Revista Veja e mais:Celso Corrêa de Freitas, Carmen Sodré, Manoel Lima, Ligia Tomarchio, Floro Dória, Marcus Aranha, Eloy & Sally, Gorete Oliveira e Walter Medeiros (veja mais manifestações nos posts abaixo).Para ver tudo que já foi manifestado é só checar no Fórum do Guia de Poesia. E mais aqui.


 IMAGEM DO DIA
Mulher nua, do pintor, artista gráfico e ilustrador estadunidense Edward Hopper (1882-1967). Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja aqui e aqui.

GONÇAL MAYOS, MARINE PETROSSIAN, PÉTER NÁDAS & IRANDHIR SANTOS

  Imagem: Arrostar aporias , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Fábula dos embeiçados desavindos... ...