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domingo, outubro 31, 2021

PINTANDO NA PRAÇA, ALEJO CARPENTIER, JULIE MEHRETU, BILL MCKIBBEN & MATTHEW HERBERT

 

 

TRÍPTICO DQP – Acerto de contas... - Ao som do álbum Plat du jour (Accidental Records, 2005), do compositor britânico Matthew Herbert. – As incertezas todas e eu insistindo em ser feliz, como se ainda pudesse no meio dessa tragicomédia paradoxal, e se só restava uma esperança minada pelas lápides, arquivos e fotografias desbotadas. Apesar de tudo, persigo coração pulsante e partido porque carrego comigo o inferno dos outros em carne viva, o delírio de desembaraçar as linhas tênues de um passado perdido na memória. Se me dera a sorrir era porque ali estava Djuna Barnes insistentemente: O que é uma ruína senão o tempo diminuindo sua resistência? Corrupção é a Idade do Tempo. O insuportável é o início da curva da alegria. Um homem só é completo quando leva em consideração sua sombra e também a si mesmo - e o que é a sombra de um homem senão seu espanto ereto? O pior era ter de encarar T. S. Eliot me cuspir na cara o sarcasmo: O tempo presente e o tempo passado estão ambos talvez presentes no tempo futuro. O que dissesse ou fizesse depois disso, não adiantava, era como se Arthur Miller me jogasse para protagonizar After the fall (Depois da queda, 1964) e me restasse ecoando: Não posso chorar nem por minha própria mãe... Não sei como sofrer, ao que parece... Deus, por que será a traição a única verdade que se agarra à gente! Tive que acender todas as luzes para não sucumbir inteiro no obscurecimento geral. No meio da minha louca sofreguidão, a surpresa com a emergência radiante de Maria Della Costa, como se fosse a Marilyn Monroe nua de todos os sonhos impossíveis, me trazer de novo, depois da entrega, o que olvidara do escritor cubano Alejo Carpentier (1904-1980): Os mundos novos tem de ser vividos, mais do que explicados. Aqueles que aqui vivem não o fazem por convicção intelectual; acreditam simplesmente que a vida suportável é está e não a outra. Não havia como evitar, era o acerto de contas com todos os meus equívocos edulcorados na incerteza e nada se acabava porque era a verdade que inventei.

 


Todos no mesmo barco... - Imagem: arte da artista etíope Julie Mehretu. - A solidão é o meu refúgio e sei que nunca estarei só, mesmo que tudo se pareça inconsolável. Não sei se ainda posso me salvar da asfixia do tempo, ou se já defuntei e sirvo apenas da lembrança do que vivi. Às vezes duvido, sobretudo ao ouvir o trecho severo do jornalista ambiental estadunidense, Bill McKibben, no The end of nature (Random House, 2014): Embora durante décadas a civilização tenha pilhado e poluído a Terra, no passado esse ataque era relativamente localizados; nos dias atuais, com as mudanças globais causadas pelos gases-estufa e a depleção de ozônio, o homem alterou a maioria dos processos de vida em toda a parte, e o mundo ao ar livre, a natureza em si mesma, tem se tornado o equivalente a uma enorme sala aquecida... Sim, um calor enorme, invencível, irrespirável. A ponto de me pegar a casa incendiada e salvei o fogo de Cocteau. Era o que deveria ter sido feito porque sempre disse sim! Como se conjugasse o verbo de Raymond Queneau: Eu sim, nós gozamos... eles sinzam. E reiterei tal como e.e.cummings: Sim é o mundo. E mesmo que o patético da agonia me mostrasse tantas benemerências escondendo a hipocrisia e que havia mais que um estrondo e tantos suspiros - quanta contrafação nos capítulos teratológicos do presente degenerado, seria preciso dar um basta na cafajestice, tudo é demais em torpezas, sordidez e anestesiados. Sim e assumi o passado porque o presente nunca será impune e o sonho nunca existiu: os testemunhos da solidão. Enfim, estamos todos no mesmo barco.

 


Cant&pintando na praça... - Desta vez não cantamos, mas estávamos lá, eu&Ripe&Linaldo solidários de sempre, como se cochichássemos a nossa Nênia. Desde a minha primeira em 2017, como de costume, o sábado estava lindo! E que ninguém nos ouça mesmo, porque tão lindo estava para a maravilha que não foi pouca, porque coroada pelos alunos da SEMED, inquietos e a postos: traços, tintas & moldes – do papel à tela, mãos à massa! Chega dava vontade de traquinar entre eles! Parecia: ensino, pesquisa & extensão! Tomara, coisa tão boa de ver! Aproveitamos, então, tudo no meio do movimento de curiosos e arteiros, a bela Secretária desfilando um cortejo e enchendo os olhos de uma vontade louca de teimar, o Profeta era a Nalva num sorriso só, enquanto Alexandre Freitas sapecava pinceladas ensinando o que é do talento, Isaac Vieira a cometer belezas na manhã que entardecia mais colorida, Rute Costa com seu tapete de leituras e simpatias para alegria de olhares perdidos, Epifânio trazia recados das suas artesanias, Tylla de Jahfari cantava no meu coração pro Erick Nelson solar tantos tons ao meu ouvido & eu testemunhava ainda ali o Poema vivo de Admmauro Gommes que a Poesia lhe dera. Tudo parecia como se fosse um primeiro passo para a práxis da Ação Cultural para a Liberdade, numa das homenagens tácitas ao saudosíssimo centenário Paulo Freire. Ali eu sabia: na praça central a minha cidade renascia. Até mais ver.

 

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sexta-feira, novembro 06, 2015

SHAKESPEARE, PESSOA, CHAPLIN, MARILYN, MENEGUELLO, JOÃO UBALDO, FELDON & CARTOLA.


VAMOS APRUMAR A CONVERSA? A VIDA, UM SORRISO - A cada dia que se passa mais me convenço que as pessoas se tornam cada vez mais rígidas. Quanto mais conheço e me relaciono com pessoas, mais sérias elas estão e é assim que a mim se demonstram. Muita cara fechada, sisudez, inflexibilidade. Raro um momento de educação, de descontração, de sorriso. As pessoas pedem desculpas como se fosse por, sei lá, qualquer coisa, ou conveniência, mas não há um mínimo de sentimento nisso. Parecem-me pessoas blindadas, como se ao sorrir traíssem a carapuça de toda sua defesa, ou se desgovernassem irremediavelmente, ou se desmoronassem vulneráveis. Talvez seja mesmo o reino da autodefesa: não te conheço, sai pra lá. A definição do território: não és dos meus, para os amigos todos os favores do mundo; aos inimigos, todos os rigores da lei. Se bateu, levou; fica lá que fico cá. Assim se relacionam no dia a dia. Não admitem a menor simpatia. Não sabem, por exemplo, do provérbio latino que foi seguido à risca por Moliére na Commedia dell’Arte, redigida pelo poeta Jean de Santeul: ao rir é que se corrigem os costumes. Ôpa! Ah, mas o riso é uma expressão linda, nada mais lindo que o riso de Elis Regina, o misterioso da Mona Lisa – La Gioconda de Da Vinci, que a língua de fora de Einstein, das crianças ao brincar. Como é lindo o sorriso. Como diz o poeta Mário Quintana: O sorriso enriquece os recebedores sem empobrecer os doadores. Além do mais, o sorriso tem o poder de deixar tudo mais leve, flexível e democratizado, sem formalidades, nem rituais. Abre portas, oportunidades. A poeta e jornalista estadunidense Ella Wheeler Wilcox professa que: Ri, e o mundo rirá contigo; chora, e chorarás sozinho. Isso traz uma clarividente possibilidade: o riso comunga, é a figura extrema da irmanação. É como o Sol amanhecendo, sorrindo, paratodos. É como o abraço amigo, de quem chega, de quem faz parte dos nossos afetos, de quem nos dirige um ato de ternura e solidariedade. É como o momento da nossa mais feliz inteireza: ao filho que nos completa, aos pais que nos criou, aos que fazem parte do nosso coração e os que poderão também fazer parte dessa comunhão, afinal somos um só na vida do planeta Terra. Comigo guardo a lição do poeta Cartola, na sua belíssima e imortal O sol nascerá: A sorrir eu pretendo levar a vida... E veja mais aqui.

 Imagem: Secret Smile, do artista plástico Connie Chadwell

SMILE
 (Charles Chaplin / G. Parsons / J. Turner - Vs. Braguinha)
Sorri quando a dor te torturar
E a saudade atormentar
Os teus dias tristonhos vazios
Sorri quando tudo terminar
Quando nada mais restar
Do teu sonho encantador
Sorri quando o sol perder a luz
E sentires uma cruz
Nos teus ombros cansados doridos
Sorri vai mentindo a sua dor
E ao notar que tu sorris
Todo mundo irá supor
Que és feliz
Smile


HUMOR & EDUCAÇÃO – O livro A canção da inteireza: uma visão holística da educação (Summus, 1995), do filósofo e professor Clodoaldo Meneguello Cardoso, trata sobre as mudanças paradigmáticas, fundamentos filosóficos, teoria da aprendizagem, pratica de ensino, bases axiológicas, contribuições para a educação, entre outros assuntos. Da obra destaco o trecho: [...] Educar holisticamente, portanto, é estimular no aluno o desenvolvimento harmonioso das dimensões da totalidade pessoal: física, intelectual, emocional e espiritual. E esta, por sua vez, participa de outros planos de totalidade: o comunitário, o social, o planetário e o cósmico. Todos estes planos devem também ser desenvolvidos concomitantemente no processo educacional. Não se entende o homem somente a partir de si mesmo, como centro e senhor da natureza, mas como parte de um todo. Questões como autoconhecimento, liberdade, realização, justiça e paz são enfocadas levando sempre em conta o contexto da interdependência dos fenômenos, nos diversos planos sistêmicos dos quais o homem é parte. [...] É fundamental manter um ambiente de alegria e de ludicidade na classe. Sem humor, o educador não experiencia o encontro existencial como o educando e bloqueia o próprio processo ensino-aprendizagem. A educação tradicional colocou as virtudes: atenção, dedicação e responsabilidade como incompatíveis com a alegria e a descontração. Tradicionalmente, sorrir era sinônimo de imaturidade e irresponsabilidade, daí a expressão “muito riso pouco siso”. O sorriso, entretanto, é a expressão simples de felicidade por estar vivo. Veja mais aqui.


Marilyn Monroe, by Parziwal

O SORRISO DO LAGARTO – O romance O sorriso do lagarto (Nova Fronteira, 1989), do escritor, jornalista e professor João Ubaldo Ribeiro (1941-2014), trata de um apanhado de situações- muito bem encadeadas e recheadas de diálogos primorosos, em que se identifica o naturalismo, a degradação do individuo, o cientificismo, o político, o homossexualismo, a engenharia genética, o consumo de drogas por parte da elite, a degradação da saúde, a igreja e os pobres, o comportamento sexual feminino. Da obra destaco os trechos: [...] - Aqui na ilha, se morre de tudo, não tem essa conversa de que aqui não acontece certas mortes – disse Mero Doido, que desde as cinco horas estava fazendo um levantamento dos mortos ligados ao Mercado e das causas de suas mortes. – Você não diz uma doença, inclusive das mais modernas, que alguém aqui não tenha morrido. Até umas doenças que não são nem bem doenças aqui se morre, como Galo Cego, que teve uma espinha no nariz que foi virando câncer e comeu a cara dele toda e ele morreu fedendo e com a cara toda comida. Isso de uma espinha. Filu foi de hidropisi, Nandá foi derrame, Roque Feio foi diabete, Lazarão foi tifo, mosquete foi tuberculose, Unha Grande foi doença de Chagas e Zoinho dizem que foi de Aids. Até Aids já deu aqui, e Zoinho não era falso ao corpo, pelo contrário. Aqui dá tudo. E agora o neto mais velho de Quatinga morreu de tumor no cérego. [...] - Não quero discutir questões de fé com o senhor, para mim isso tem importância, para o senhor não tem. Mas veja o problema moral contido nisso, o problema político. O poder político plasmando a Humanidade e a Natureza. - Isso é inevitável. Quem chegou, chegou, quem não chegou, não chega mais. O poder hoje dispõe de tais instrumentos que se sedimentou definitivamente, jamais vai mudar realmente de mãos e a tendência é isso se acentuar. Isso é bom. Isso significa maiores possibilidades de controle racional. Não haverá revolução, nem alteração radical na estrutura do poder, nem entre nações, nem entre classes sociais, nesse sentido a História acabou. Sempre digo que democracia é um mito supersticioso, assim como a igualdade e outros chavões. Há muito tempo que a democracia não é mais praticada em lugar nenhum, a não ser microscopicamente, e temos que colocar essa situação a nosso favor, ou seja, aperfeiçoar o homem de todas as formas possíveis. - Para mim, isso é extinguir a Humanidade, tal como a conhecemos. Para mim, é o homem se tornando inimigo do homem, deixando o adversário que traz dentro de si vencer, fazendo com que se volte contra si mesmo. É como se fosse a obra de Satanás. - Sim, Satanás, ha-ha! Satanás quer dizer “inimigo”, não é? Neste caso, eu seria Satanás, ou pelo menos um satanás, pois creio que há controvérsia na própria Igreja sobre a existência de um ou vários satanases. Engraçado, desculpe-me por estar rindo, muito engraçado mesmo – Satanás. Pois, olhe, eu aceito, e acho tecnicamente certa sua inferência. Eu sou inimigo de Deus, sim, embora o considere um inimigo fictício, vocês me arranjaram esse inimigo fictício, que eu preciso combater. [...] Deus não existe e, se existe, é preciso tomar dele o poder, ele não tem sido competente, para um onipotente tem um desempenho muito pouco satisfatório. E então, diante do exposto, o senhor tem razão, de fato eu sou Satanás, o senhor tem razão, é mais do que lógico. Vade retro, pensou Monteirinho [...] Aquilo tudo era terrível mesmo, e mais terrível ainda por se passar daquela forma irresistível, como Lúcio Nemésio dissera tão convincentemente. João Pedroso tentara resistir e fora eliminado. Sim, fora eliminado, agora tinha certeza, embora não pudesse provar, embora jamais pudesse dizer a ninguém. Tinha certeza, certeza absoluta de que João fora morto por obra de Ângelo Marcos, ao sedescobrir enganado – não sabia como, mas fora. E, assim, esse agente do Mal cumpriu sua missão, removeuum obstáculo. Tudo se encaixava, o Mal havia tido grande vitória. Dedicaria à vida, tinha dito João, dedicaria a vida a lutar contra aquilo. Mas apenas perdeu a vida, martirizou-se anonimamente. [...]. Veja mais aqui e aqui.

SORRISO
(Fernando Pessoa)

Sorriso audível das folhas,
Não és mais que a brisa ali.
Se eu te olho e tu me olhas,
Quem primeiro é que sorri?
O primeiro a sorrir ri.
Ri, e olha de repente,
Para fins de não olhar,
Para onde nas folhas sente
O som do vento passar.
Tudo é vento e disfarçar.
Mas o olhar, de estar olhando
Onde não olha, voltou;
E estamos os dois falando
O que se não conversou.
Isto acaba ou começou.

AS ALEGRES MATRONAS DE WINDSOR – A comédia de costumes farseca em cinco atos The Merry Wives of Windsor (As alegres matronas de Windsor, 1602), do poeta, dramaturgo e ator inglês William Shakespeare (1564-1616), baseada nos costumes da classe média provinciana da época, conta a história de um cavalheiro falido, Sir John Falstaff, que se encontra num período de falta de sorte e resolve inventar um plano para enriquecer. Da obra destaco o trecho da festa e da alegria da canção: [...] (Entram o reverendo Hugo Evans, disfarçado de sátiro; Pistola, como duende; Ana Page, como rainha das fadas, seguida do irmão e de outras pessoas, disfarçadas de fadas, com tochas de cera na cabeça.) ANA - Fadas verdes e brancas, matizadas, que aqui brincais nas noites enluaradas, herdeiras e órfãs do fatal destino, alegres acorrei! Entoemos o hino dos duendes e das fadas. Alegria! PISTOLA - Atenção, elfos! Cesse a correria dos espíritos aéreos! Grifo, salta para as chaminés de Windsor, onde uma alta lide vais ter, que a cinza ainda está quente e, por varrer, os lares. Complacente não sejas com as zagalas; beliscões em todas dá, de produzir vergões azuis como o mirtilo. Nossa rainha não suporta imundície tão daninha. FALSTAFF - São fadas. Se eu falar com algumas delas, sou homem morto. Assim, sem mais aquelas, vou me deitar e tapar bem o rosto. Homem nenhum em vê-las acha gosto. EVANS - Vai, Bode; e onde encontrares rapariga que as orações três vezes sempre diga antes de se deitar, com alegria, estimula-lhe a bela fantasia, porque ela, como criança na aparência, possa dormir o sono da inocência. Mas se achares alguma descuidada que ao se deitar não tenha dito nada, belisca-lhe à vontade o corpo lasso, pescoço, braços, pernas e o espinhaço. ANA - Trasguinhos, começai! Todo o castelo de Windsor varejai; sorte espalhai a flux, alegremente, porque possa durar eternamente, sem decair jamais em abandono, como convém ao seu mui digno dono. Seiva esfregai em todas as cadeiras, das plantas mais preciosas e fagueiras; abençoados se tornem sempre mais seus leais brasões e as cotas imortais, e como a jarreteira, elfos, à roda, em círculo cantai a noite toda. Que a vossos passos tornem-se virentes e mais férteis os prados adjacentes.  "Honny soit qui mal y pense" à volta escrevei dos canteiros em recolta, em tufos brancos, rubros e azulados, como pedras preciosas nos bordados, que aos joelhos curvos da cavalaria conferem elegância e altanaria. Com flores escrevei, pois, em porfia. Vamos, principiai! Antes de uma hora, como de hábito, vinde sem demora dançar em torno do carvalho de Herne. EVANS - Que cada um com o vizinho o passo alterne. Em ordem. Mãos com mãos. Vinte luzentes pirilampos levai como pingentes, porque vos possam dirigir o passo sem vos perderdes nada em pouco espaço. Mas vejo um ser do mundo intermediário! FALSTAFF - O céu me defenda desse duende galense, para que ele não me transforme num pedaço de queijo. PISTOLA - De nascimento, ó verme, és ordinário! ANA - A chama quente lhe encostas no dedo. Sendo ele casto, não mostrará medo, pois não se queimará. Mas se gritar, é que é carne corrupta e mui vulgar. PISTOLA - Eia, a postos! EVANS - Façamos a experiência. (Queimam Falstaff com os archotes.) FALSTAFF - Oh! Oh! Oh! ANA - Corrupto, Corrupto! É só concupiscência! Cantai-lhe fadas, algo zombeteiro e, ao dançardes, picai-o o tempo inteiro. Fora a doente fantasia, a incontinência, a fobia! Loucura é fogo abrasante que o sangue deixa escaldante. Brota do coração em alta chama, que o pensamento mais e mais inflama. Beliscai-o com vontade, por sua muita ruindade. Beliscai-o, queimai-o, até que a lua se esconda e a noite seu rondar conclua. (Durante a canção, as fadas beliscam Falstaff; o doutor Caius entra por um lado e rouba uma fada de vestido verde; Slender, por outro, leva uma fada de branco; depois entra Fenton e sai com Ana Page. Ouve-se barulho de caçada; as fadas saem a correr; Falstaff arranca da cabeça os chifres e se levanta. Entram Page, Ford, a senhora Page e a senhora Ford, que seguram Falstaff) [...]. Veja mais aqui e aqui.

SMILE – O satírico drama-comédia Smile (Sorriso, 1975), dirigido por Michael Ritchie, com roteiro de Jerry Belson sobre um concurso de beleza na Califórnia, satiriza a cidade pequena na América do Norte, suas peculiaridades, hipocrisias e artificio dentro de um concurso de beleza. Conta como um vendedor de veículos usados se torna juiz principal e como um alcoólatra e sua esposa se tornam diretores executivos que vão se enredando em subtramas que denunciam infelicidade, rituais humilhantes, conspirações e sabotagens, aproveitamento dos participantes, cinismo, incompetência na realização de cerimonias extravagantes, e tudo vai transcorrendo em clima de drama e comédia. O destaque do filme é pra legendária atriz estadunidense Barbara Feldon, a que se imortalizou como Agente 99 do seriado Get Smart, dos anos 1960. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
The Sweetest Smile, by Jeremy Holton.
Veja mais aqui.


Veja mais no MCLAM: Hoje é dia do programa Some Moments, a partir das 21hs (horário de verão), com a apresentação sempre especial e apaixonante de Meimei Corrêa. Em seguida, o programa Mix MCLAM, com Verney Filho e na madrugada Hot Night, uma programação toda especial para os ouvintes amantes. Para conferir online acesse aqui .

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quinta-feira, julho 02, 2015

HESSE, WISLAWA, XENÓFANES, GLUCK, JALIL, GEIGER, MARILYN, BIA SION & BIG SHIT BÔBRAS.


VAMOS APRUMAR A CONVERSA? NEM TE CONTO! - O Doro depois de tanto pelejar pela vida, passou a dar uma de conformado, só na zona de conforto e a tudo referenciado como normal. Parece que o cara definitivamente ficou às sopas, no limbo da ocasião. Não dá outra, seja o que for, ele tasca: - É normal. Para até disco arranhado na radiola. Pra se ter ideia, ele passou duas horas na fila bancária para receber a mixaria, quando um outro revoltado baixou o decoro na maior palmatória do mundo: - Isso é um vitupério! Nesse banco não se respeita o direito do consumidor! -, e virou-se pro Doro com a maior cara de interrogação. E ele, como se não estivesse nem aí para quem pintou a zebra, na maior cara lisa, balbuciou o refrão: - É normal. O cara saiu revoltando xingando todos os seus antepassados. Até o Robimagaiver, pariceiro da mesma laia e moquém, chegou todo trombudo e na maior apertura, reclamando em ponto de bala: - Rapaiz, tô qui nem capim: quando não chove, não nasce; quando nasce o boi come! -, e ele, como se dissesse que quem tem cabeça de cera não se expõe ao sol, simplesmente largou de forma peculiar: - É normal. Deu nos nervos do parceiro. Ninguém aguentava mais aproximar-se dele que tudo, para ele, estava nos conformes da normalidade. Subiu a conta da luz? Normal. Aumento da gasolina? Oxe. Presunto sumido achado no matagal? Comum. Carestia comendo no centro? Nada demais. Foi aí que Zé Corninho apareceu virado na breca pela constatação de que a sua décima segunda esponsal havia lhe coroado com duas de quinhentos. O Doro, como sempre, pra seu consolo, remediou o seu: - É normal. – Normal, uma porra! -, azedou Zé Corninho: - Chifre de corno ninguém vê, mas que desarruma o juízo, isso faz! E saiu jurando que se ele só tinha dois votos, acabou de perder todos. E ele de si pra si: - É normal, eu num mi inlegeria mermo! Será o Benedito? Não, é a hipnose do Big Shit Bôbras, mesmo! E vamos aprumar a conversa! Veja mais aqui e aqui.

Imagem: A reclining female nude, do artista plástico húngaro Richard Geiger (1870-1945).

Curtindo a ópera Orfeo ed Euridice (Philips, 1994), do compositor alemão Christoph Willibald Gluck (1714-1787), performer Sylvia McNair & Monteverdi Choir Orchestra & English Baroque Soloists, conductor John Eliot Gardiner. Veja mais aqui, aqui e aqui.

A NATUREZA, ELEGIAS & SÁTIRAS - O poeta, sábio e rapsodo grego Xenófanes de Colofão (570-528aC), foi o fundador da escola eleática expondo suas concepções filosóficas em um poema doutrinal A Natureza, do qual só restam fragmentos. Criticou severamente o politeísmo e o antropomorfismo de Homero e Hesíodo, lançando as bases do monismo, acósmico, caracterizada pelos eleatas. A sua filosofia foi toda escrita em versos, entre eles destaco Ateneu X: Agora o chão da casa está limpo, as mãos de todos / e as taãs; um cinge as cabeças com guirlandas de flores, / outro oferece odorante mirra numa salva; plena de alegria, ergue-se uma cratera, / à mão está outro vinho, que promete jamais faltas, / vinha doce, nas jarras cheirando a flor; / pelo meio perpassa sagrado aroma de incenso, / fresca é a água, agradável e pura; / ao lado estão pães tostados e suntuosa mesa / carregada de queijo e espesso mel; / no centro está um altar todo recoberto de flores, / canto e graça envolvem a casa. / É preciso que alegres os homens primeiro cantem aos deuses / com mitos piedosos e palavras puras. / Depois de verter libações e pedir forças para realizar / o que é justo – isto é que vem em primeiro lugar -, / não é excesso beber quanto te permita chegar / à casa sem guia, se não fores muito idoso. / É de louvar-se o homem que, bebendo, revela atos nobres / como a memoria que tem e o desejo de virtude, / sem nada falar de titãs, nem de gigantes, / nem de centauros, ficções criadas pelos antigos, / ou de lutas civis violentas, nas quais nada há de útil. / Ter sempre veneração pelos deuses, isto é bom. Veja mais aqui e aqui.

O LOBO DA ESTEPE – O romance O lobo da estepe (Der Steppenwolf, 1927 - Record, 1995), do escritor alemão e Prêmio Nobel de 1946, Hermann Hesse (1877-1962), conta a história de outsider e misantropo de meia idade, alcoolátra e intelectualizado, angustiado por não ver saída da tormentosa condição e que se envolve em incidentes fantásticos e inesperados que o conduzem ao despertar de um longo sonho ao conhecer uma mulher e um músico, numa história surpreendente. Da obra destaco o trecho: [...] Quando voltei a mim, vi Mozart sentado ao meu lado como antes, tocando-me nos ombros e dizendo-me: — Acabou de ouvir a sentença. Já pode ir-se acostumando a ouvir a música de rádio desta vida. Isso lhe fará bem. O senhor é extraordinariamente mal dotado, não passa de um cabeça-dura; mas irá compreendendo pouco a pouco o que se espera do senhor. Tem de aprender a rir, isso é o que se exige. Tem de compreender o humor da vida, o humor patibular. Mas, é claro, o senhor está preparado no mundo para tudo, menos para o que se lhe pede! Está preparado para matar mocinhas, para deixar-se julgar solenemente, decerto também está preparado para mortificar-se durante cem anos e mesmo flagelar-se, não é verdade? — É verdade! Estou preparado de todo o coração — exclamei em minha miséria. — Naturalmente! O senhor está disposto a qualquer tolice que careça de humor, meu caro; para tudo o que seja patético e destituído de graça. Mas eu não estou disposto a dar-lhe nem wcapfennig por toda a sua romântica penitência. O senhor quer ser julgado, quer que lhe cortem a cabeça, ó sanguinário! Por esse estúpido ideal seria capaz de dar outras dez punhaladas. O senhor está disposto a morrer, seu covarde, mas não a viver. Ao diabo! mas terá de viver! Seria bem merecido que o condenássemos ã pena máxima. — Oh! e qual seria essa pena? — Podíamos, por exemplo, ressuscitar a moça e casá-lo com ela. — Não, a isso não estaria disposto. Seria uma desgraça. — Como se não fosse uma desgraça toda a confusão que o senhor já preparou! Mas vamos acabar de vez com todo o patético e os golpes mortais. Já está na hora de ser razoável. O senhor tem de viver e aprender a rir. Tem de aprender a escutar a maldita música de rádio da vida, tem de reverenciar o espírito que existe por trás dela e rir-se da algaravia que há na frente. É tudo o que exigimos do senhor. Lentamente, por entre dentes cerrados, perguntei: — E se eu não me submeter? E se eu vos negar, Sr. Mozart, o direito de dispor do Lobo da Estepe e de vos imiscuirdes em meu destino? — Então — disse Mozart, calmamente — eu o convido a fumar um dos meus maravilhosos cigarros. Dizendo isto, e enquanto tirava num passe de mágica um cigarro do bolso do colete e mo oferecia, deixou de ser Mozart, e fitando-me calidamente com seus olhos exóticos, converteu-se em meu amigo Pablo, bem assim no homem que me havia ensinado a jogar com as figurinhas no tabuleiro de xadrez. — Pablo! — exclamei, palpitando. — Pablo, onde estamos? Pablo deu-me o cigarro e ofereceu-me fogo. — Estamos — disse rindo — em meu teatro mágico, e se quiseres aprender a dançar o tango ou ser um general ou conversar com Alexandre o Grande, tudo isto estará à tua disposição da próxima vez. Mas devo dizer-te, Harry, que me decepcionaste bastante. Esqueceste horrivelmente de ti, quebraste o humor do pequeno teatro e cometeste uma felonia; mataste a punhaladas e manchaste o nosso belo mundo de imagens com as nódoas da realidade. Isso não foi correto de tua parte Espero, pelo menos, que o tenhas feito por ciúmes, quando viste Hermínia dormindo nos meus braços. Infelizmente, não soubeste manejar essa figura; imaginei que havias aprendido o jogo melhor. Espero que procedas melhor da próxima vez. Apanhou Hermínia, que se havia convertido, de súbito, numa figurinha de xadrez em seus dedos, e guardou-a no mesmo bolso do colete de que antes havia tirado o cigarro. Prazerosamente saboreei o doce e pesado fumo do cigarro, senti-me exausto e disposto a dormir um ano inteiro. Oh! agora compreendia tudo: compreendia Pablo, compreendia Mozart, ouvia algures atrás de mim seu riso espantoso, sabia ter em meu bolso centenas de milhares de figurinhas do jogo da vida, suspeitava emocionado o sentido, tinha a intenção de iniciar de novo o jogo, de voltar a estremecer diante de seus desatinos, de voltar a percorrer o inferno do meu interior, não uma vez, mas sempre. Da próxima vez saberia jogar melhor. Da próxima vez aprenderia a rir. Pablo me esperava. Mozart também. Veja mais aqui, aqui e aqui.

REPENSO O MUNDO – O livro Poemas (Companhia das Letras, 2011), da poeta, critica literária e tradutora polonesa e Prêmio Nobel de Literatura, Wislawa Szymborska (1923-2012), reúne quarenta e quatro poesias da autora, entre as quais destaco Repenso o mundo: Repenso o mundo, segunda edição, / segunda edição corrigida, / aos idiotas o riso, / aos tristes o pranto, / aos carecas o pente, / aos cães botas. / eis um capítulo: / a Fala dos Bichos e das plantas, / com um glossário próprio / para cada espécie. / mesmo um simples bom-dia / trocado com um peixe, / a ti, ao peixe, a todos / na vida fortalece. / essa há muito pressentida, / de súbito revelada, / improvisação da mata. / essa épica das corujas! / esses aforismos do ouriço / compostos quando imaginamos / que, ora, está só adormecido! / o tempo (capítulo dois) / tem direito de se meter / em tudo, coisa boa ou má. / porém — ele que pulveriza montanhas / remove oceanos e está / presente na órbita das estrelas, / não terá o menor poder / sobre os amantes, tão nus / tão abraçados, com o coração alvoroçado / como um pardal na mão pousado. / a velhice é uma moral / só na vida de um marginal. / ah, então todos são jovens! / o sofrimento (capítulo três) / não insulta o corpo. / a morte chega com o sono. / e vais sonhar / que nem é preciso respirar, / que o silêncio sem ar / não é uma música má, / pequeno como uma fagulha, / a um toque te apagarás. / morrer, só assim. Dor mais dolorosa / tiveste segurando nas mãos uma rosa / e terror maior sentiste ao som / de uma pétala caindo no chão. / o mundo, só assim. / Só assim viver. / E morrer só esse tanto. / E todo o resto — é como Bach / tocado por um instante num serrote. Veja mais aquiaqui.

DA PRINCESINHA MIMADA AO TISTU – A atriz, locutora, escritora, cantora e compositora Bia Sion tem desenvolvido uma trajetória nas artes, entre a televisão, o teatro, o rádio e a música – só pra ficar nisso, pois ela é duma versatilidade ímpar e transita por onde o talento der. No teatro ela estreou com A princesinha mimada (1977), depois Festa no Sábado (1978), O girassol mágico (1979), Eu chovo, tu choves, ele chove (1979), Don Quixote de la Pança (1980), Viagem à Imaginação (1981), Band Age (1982), Tistu, o menino do dedo verde (1983), Sapatinho de Cristal (1984), Isadora e Oswald (1984), Feliz Ano Velho (1985), Filumena Marturano (1987), Vira Lats (1989), Ensina-me a viver (1990), Noturno – sonetos e canções de Shakespeare (1991), Antes de ir ao baile (1991), Música divina música (1992), A balada de um palhaço (1993), Os saltimbancos (1984), Fazendo amigos na fazenda (2002) e Tistu (2005). Ela também lançou o disco A levada do Jazz (2008) e tem perseguido sua estrada com muito talento e competência. Veja mais aqui e aqui.

LADIES OF THE CHORUS – O musical Ladies of the Chorus (Mentira Salvadora, - Columbia Pictures, 1948), dirigido pelo cineasta estadunidense Phil Karlson (1908-1985), baseado na história do roteirista russo Harry Sauber (1885-1967), contando a história de uma dançarina que se apaixona por um homem rico. Foi este o primeiro que assisti estrelado por Marilyn Monroe e marcando definitivamente a imagem dessa bela mulher na minha adolescência: ela cantando, ela sorrindo, ela dançando, caminhando, enfim, de todas as formas da sua expressão na tela. Acho que vi e revi o filme na época umas trocentas vezes, ficando marcado na minha memória, a ponto de guarda no nome Peggy Martin muito bem guardado no meu apreço. Veja mais aqui, aqui e aqui.

 IMAGEM DO DIA
 
Grabados – Serie América & Ex Libri, do artista plástico argentino Osvaldo Jalil. Veja mais aqui e aqui.

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A lenda do açúcar e do álcool, Educação não é privilégio de Anísio Teixeira, História da Filosofia de Wil Durant, a música de Yasushi Akutagawa, Não há estrelas no céu de João Clímaco Bezerra, Cumade Fulosinha & Menelau Júnior, a pintura de Madison Moore, João Pirahy & Pulsarte aqui.

E mais:
Sorria, Canto geral de Pablo Neruda, A desobediência civil de Henry David Thoreau, O feijão e o sonho de Orígenes Lessa, Revolução na América do Sul de Monteiro Lobato & Brincarte do Nitolino, a pintura de Amedeo Modigliani, a música de Sebastião Tapajós, Marcelo Soares aqui.
Psicologia social e educação, a poesia de Pablo Neruda, a pintura de Amedeo Modigliani, a música de Yasushi Akutagawa, a arte de Regina Espósito & Ju Mota aqui.
Recitando Castro Alves: Navio Negreiro aqui.
Devagar e sempre, A monadologia de Leibniz, Estudo do poema de Antônio Cândido, Meu país de Dorothea Mackellar, A arte da comédia de Lope de Vega, o ativismo de Emma Goldman, a arte de Gilvan Samico, a música de Alceu Valença, a xilogravura de Amaro Francisco Borges, Brincarte do Nitolino & a pintura de Nina Kozoriz aqui.
A vida dupla de Carolyne & sua cheba beiçuda, Psicologia da arte de Lev Vygotsky, a poesia de William Butler Yeats, A República de Platão, a pintura de Raphael Sanzio & Boleslaw von Szankowski, a música de Leonard Cohen, o cinema de Paolo Sorrentino & World Erotic Art Museum - WEAM aqui.
Divagando na bicicleta, Onde andará Dulce Veiga de Caio Fernando Abreu, Os elementos de Euclides de Alexandria, O teatro e seu duplo de Peter Brook, a música de Billie Myers, a fotografia de Alberto Henschel, a pintura de Jörg Immendorff & Oda Jaune aqui.
A conversa das plantas, Memória da guerra de Duarte Coelho, a poesia de Cruz e Sousa, Arquimedes de Siracusa, a música de Natalie Imbruglia, a arte de Hugo Pratt & Tom 14 aqui.
Leitoras de James leituras de Joyce, a fotografia de Humberto Finatti, a arte de Henri Matisse & Wayne Thiebaud aqui.
Incipit vita nuova, As raízes árabes da arte nordestina de Luís Soler, A divina comédia de Dante Alighieri, a música de Galina Ustvolskaya, a pintura de Jack Vetriano & Paul Sieffert, as gravuras de Gustave Doré & a arte de Luciah Lopez aqui.
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