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segunda-feira, agosto 07, 2017

BIBLIOTECA FENELON, HERMILO, MILTON SANTOS, GILBERTO FREYRE, ROGER CHARTIER & JURANDIR FREIRE COSTA


A VIDA ENTRE LIVROS & LEITURAS – Imagem: foto da Biblioteca Pública Municipal Fenelon Barreto - Sempre fui um menino travesso de fechaduras, brechas, postigos e combongós. Fresta que fosse, lá estava eu curioso peregrino e contumaz. Vencia buliçoso todas as dependências da casa, exceto um cômodo sempre de portas fechadas. Bastava eu me aproximar, surgia a advertência de mãe para eu me afastar dali. Vez ou outra eu esbarrava nela, sempre fechada, inheto por vencer a barreira, um interdito. Só muito depois, certa feita, estava entreaberta, invadi: lá estava meu pai entre livros e estantes. Ousei tocar um deles, logo a censura: mexa não! Tomava distância, fazendo de nem nem, só esperando momento oportuno para atacar. Doutra feita, meu pai levantou-se, remexeu nalguma coisa e me entregou um volume colorido que muito me deixou afoito no afã de descobri o segredo ali contido. Sentei-me no chão todo ancho pela posse, a folhear fisgado nas figuras. Daí a pouco minha mãe ralhava: venha, seu pai está trabalhando. Trabalho? Sim, trabalho. Maínha, trabalho. Não, seu pai está ocupado, venha. Bastava ela descuidar e eu lá mexedor ao lado dele: Maínha, trabalho. E imitava meu pai concentrado nos impressos. Eles riam. Outra vez, inadvertidamente, puxei um volume maior do que eu na estante, um desastre. Acorreram em socorro e me assustei com a aflição deles, enquanto eu repetia sem parar: trabalhar, maínha, trabalhar. Nem adiantava. Assim fui crescendo e aprendendo furtivamente a invadir aquele ambiente, vasculhando volumes e páginas às escondidas. Não sei quantas vezes fui flagrado por minha mãe enquanto eu babava com as imagens de mulheres nuas, as que mais me apeteciam. O tempo passou até aprender a ler e adquiri o hábito até hoje, tornando-me um leitor assíduo. Com essas leituras aprendi que o desejo é uma força de ação latente, somos todos seres de desejos entre escolhas, tornando-nos deuses-homens criadores de um mundo fragmentado e escravizados pelas ilusões do orgulho, da vaidade, das ambições, arrogâncias, apegos, envolvidos entre o ter e o ser. Com os livros compreendi e optei pelo ser, o ter seria uma consequência, nada mais. Com as recorrentes leituras me preparei para experimentar do sofrimento, do sacrifício, das falhas, de suportar as provas circunstanciais, enfrentando de forma reflexiva aos acontecimentos. Passei a discernir que todo sofrimento e adversidades infligidas nada mais eram que aprendizados que não careciam de explicação, apenas sentir e apreender. A despeito de todos os obstáculos, nunca me dei conta das dores e tribulações porque enriqueceram minha espiritualidade, vez que ao me harmonizar com a aflição do mundo, pude me tornar mais complacente e tolerante, e isso me fez senhor de mim mesmo: as minhas experiências me ensinaram as lições da vida. Graças a elas fortaleci meu caráter e me libertei dos apetites, disciplinando a mente para o trabalho construtivo com o estabelecimento de propósitos para uma vida útil e plena: a de um buscador sincero da verdade, com senso de moral e responsabilidade de prático e realista na direção da concretização digna do meu projeto de vida. Nunca desisti. Não me vi vencido pelas vicissitudes que serviram para promover um ideal voltado para o desenvolvimento e oportunidade para servir à humanidade. Se não venci aos olhos alheios, pouco importa, purguei falsas concepções, conheci o amor, a felicidade e a verdade da vida, a natureza humana e o propósito real da existência. Valeu a pena, só valeu a pena. Reconheci que trabalhei e sofri por um ideal: difundir a Luz em um mundo obscuro de plena barbárie. Fiz disso a minha habilitação e passei a ter a noção da força motriz pro incentivo, satisfação e entusiasmo de superar os desafios lançados na capacidade de criar oportunidades e na construção de um ideal altruístico: o acesso para todos à informação e ao conhecimento no desenvolvimento do pensamento e bem-estar humanos. Aliando as experiências vividas ao hábito da leitura para reflexão, passei a sabedor do quão importante é viver e interagir com a experiência dos outros: eu vivo porque aprendi a viver com todos. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

 
Imagem: com o bibliotecário João Paulo e alunos da rede pública municipal durante a Semana do Centenário de Hermilo Borba Filho, na Biblioteca Pública Municipal Fenelon Barreto, em Palmares – Pernambuco.

CONFIDENCIAL

Fenelon Barreto

... E agora é a gente vil nos censurando! É o riso
Das amantes que eu tive e das mulheres feias.
Meia dúzia de maus, de cérebros sem juízo,
Que desejam colher aquilo que semeias.
Querem mesmo findar o sonho que idealizo.
Gostam também de entrar nas relações alheias,
Tão cínicas enfim, que às vezes é preciso
Mostrarmos o rancor que ferve em nossas veias.
Crê em minha afeição, minha jovem rosada!
E longe dessa turba estúpida e maldita
Teremos algum dia a paz desejada!
E após ouvir-me assim, ei-la a sorrir... repleta
Desse orgulho que tem toda mulher bonita
Convicta de possuir o coração de um poeta.
Poema extraído da antologia Poetas de Palmares (Palmares, 1973), seleção e introdução de Juareiz Correya.

FENELON BARRETO – O dramaturgo, advogado, professor e poeta palmarense Fenelon Barreto, colaborou em diversos jornais e revistas, deixando inéditos uma gramática portuguesa e um livro sobre contabilidade. Autor de peças teatrais como Adoração, O náufrago da Mafalda, entre outras tantas tragédias que foram encenadas. Veja mais aqui.

A BIBLIOTECADesde Alexandria, o sonho da biblioteca universal excita as imaginações ocidentais. [...] a leitura pública supõe que a biblioteca saia dos seus muros, vá ao encontro dos leitores, com ônibus-bibliotecas, as bibliotecas circulantes instaladas nos bairros, as bibliotecas nas empresas. [...] É um movimento cuja inspiração continua sendo útil. Neste mesmo momento em que estamos conversando, está ocorrendo uma revolução técnica, com o que ela tem de promissor e temerário. É por isso que se deve conservar, no interior do debate sobre a biblioteca eletrônica, senão as fórmulas ou os instrumentos da leitura pública, ao menos o espírito que ela possuía. [...] as bibliotecas, sejam elas nacionais, públicas, ou universitárias, tornam-se um recurso absolutamente indispensável [...]. Trechos extraídos da obra Aventura do livro: do leitor ao navegador (Unesp, 1998), de Roger Chartier. Veja mais aqui & aqui.

OS AMBULANTES DE DEUS – [...] O período foi de calamidade: houve um carnaval triste porque tudo o que ia acontecer estava pairando no ar, na cidade e no rio [...] é, houve um carnaval triste, com uns pobres caboclinhos descendo a ladeira, arcos e flechas na batida monótona e sem gosto, penas descoloridas, cocares desbotados, dançava prum lado e outro pra nem-te-ligo, mal acertava, o passo, assim mesmo persistiram na beira do rio os três dias convencionais, mas os da jangada nem bem nem mal prestavam atenção, não prestavam, estavam mesmo encafifados, havia coisa no ar, estava para acontecer, aconteceu. Houve um golpe militar, um tritíssimo golpe militar em nome da liberdade; e nesse golpe militar viam-se cabeça rolando no meio da rua, pernas penduradas nos fios elétricos, testículos nos açougues, intestinos enlaçados; e houve a morte lenta, conseguida depois de cada centímetro de dor; e houve um morto em cada casa e os homens se transformaram em inimigos dos homens e houve paradas militares e os civis se refugiaram em tocas de bichos; e a jangada teve de permanecer parada à espera de ordens; e houve viúvas puxando pelos cabelos os cadáveres dos maridos no meio da rua; e houve mortos que mesmo depois de mortos vinham passear no meio da rua, as feridas abertas, de cara triste, e os soldados passavam e atiravam neles e abriam novas feridas e riam e bebiam; e houve quem dissesse que ia chegar um vaso de guerra para bloquear a fuga dos subversivos pelo rio e as patrulhas passaram a policiar as margens e vez por outra, por desfastio, davam rajadas de metralhadoras nos viajantes da jangada; e houve mais: missas negras, necrofilia, torturas do coração, luto perene, lágrimas de sangue, empalamentos, pesadelos revividos, interrogatórios indolores, fornos de cremação, hinos nacionais, oratória democrática e desfiles. [...] De há muito já não eram mais eles mesmos, também ninguem o era na cidade, mas disto não sabiam; e quem era nos antigamentes  gente humana podia ser agora uma pedra, uma partícula de pó, um fruto podre, ou no vice-versa, quem fora um torrão de areia, nos presentes podia ser um homem que gritava ou uma mulher que chorava, uma criança que engatinhava, descangotada a certeza, tudo nos arrevesados da sorte e do destino, cidade quase vaia de tão culposa, a galiqueira campeando pelos males da fornicação e por mui fermosas que ainda fossem as adolescentes a sustança dos tutanos aquosa era, o que as tornava umas desinfelizes com olhos-de-peixe-morto, a alegria ida [...]. Trechos extraídos da obra Os ambulantes de deus (Civilização Brasileira, 1976), do escritor, dramaturgo, tradutor e advogado Hermilo Borba Filho. (1917-1976). Veja mais aqui.

URBANIZAÇÃO BRASILEIRA - [...] Em nosso país, já conhecemos desde muito uma flexibilização tropical do trabalho, que é o mecanismo pelo qual se criam tantos empregos urbanos, evitando a explosão das cidades. A forma como se dá o processo de involução urbana assegura trabalho para centenas de milhares de pessoas dentro das cidades. Essa é uma pergunta crucial: como será o trabalho nos próximos anos? Da forma como ele for, dependerá a forma como a urbanização se dará, também, porque aí pode estar a semente de nova consciência política. Ora, a vontade política é o fator por excelência das transfursões sociais. Nesse particular, as tendências que a urbanização assume neste fim, de século aparecem como dado fundamental para admitirmos que o processo irá adquirir dinâmica política própria, estrutural, apontando para uma evolução que poderá ser positiva se não for brutalmente interrompida. Trecho extraído da obra A urbanização brasileira (EdUsp, 2009), do geógrafo e professor Milton Santos (1926-2001. Veja mais aqui.

A MULHER - [...] Mas através de toda a época patriarcal – época de mulheres franzinas o dia inteiro dentro da casa, cosendo, embalando-se na rede, tomando o ponto dos doces, gritando para as mulecas, brincando com os periquitos, espiando os homens estranhos pela frincha das portas, fumando cigarro e às vezes charuto, parindo, morrendo de parto; através de toda a época patriarcal, houve mulheres, sobretudo senhoras de engenho, em quem explodiu uma energia social, e não simplesmente domesrtica, maior que a do comum dos homens. Energia para administrar fazendas, como as Donas Joaquinas do Pompeu; energia para dirigir a política partidária da família, em toda uma região,c Omo as donas Franciscas do Rio Formoso; energia guerreira, como a das matronas pernambucanas que se distinguiram durante a guerra contra os holandeses, não só nas duas marchas, para as Alagoas e para a Bahia, pelo meio das matas e atravessando rios fundos, como em Tejecupapo, onde é tradição que elas lutaram bravamente contra os hereges. Trecho do estudo socioantropologico A mulher e o homem, extraído da obra Sobrados e mocambos: decadência do patriarcado rural e desenvolvimento do urbano (José Olympio, 1968), do sociólogo Gilberto Freyre (1900-1987). Veja mais aqui.

O AMOR HOJE - [...] O amor romântico, ameaçado de perder o que lhe dava vitalidade – os atrativos do sentimento, da privacidade e da formação da identidade -, parece cada dia mais restrito aos episódios de êxtase sentimental e sexual. Seu estatuto é semelhante ao dos ideais emocionais arcaicos: belos e luminosos no passado ou em recintos fechados; frágeis e desbotados no presente e ao ar livre. Resta, portanto, como aconselha Solomon, procurar inventar um “neo-romantismo” mais comprometido com o mundo e, até lá, “ser humildes quanto a nosso entusiasmo” pelo amor erótico. Sem isso, o declínio do amor-paixão pode deixar um vazio identitário que não sabemos como ocupar. Durante séculos, a metáfora amorosa nos ensinou a buscar a felicidade na companhia do outro e a acreditar que esse ideal era imortal. Hoje, trata-se de pensar no que significa “outro”, “companhia”, “felicidade” e “ideal imortal”, para não termos de nos perguntar, como a Macabéa de Clarice Lispector, para que serve a felicidade. Trecho extraído da obra Sem fraude nem favor: estudos sobre o amor romântico (Rocco, 1998), do psicanalista e professor Jurandir Freire Costa. Veja mais aqui.

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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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domingo, maio 08, 2016

GORKI, JORGE TUFIC, DENISE FRAGA, GOTTMAN, CAETANO, KLIMT, LENA GAL & LUCIAH LOPEZ



MÃE (imagem: Maria Alcina, da artista plástica da artista plástica Lena Gal) - Mãe, me deste a benção para Deus me seguir. E eu, louvado, a ti dedico o amor infinito das estrelas. Hoje sigo errante com o sentimento esconjurado. Longe do teu seio nada tem mais vigor. Por isso eu te dedico minha canção perene, a minha desatinada canção de amor perdida nos desencontros do meu país. Sou da tua carne o fruto, o teu sacrifício, a tua dor mulher. Foi no teu seio que encontrei amparo. Foi no teu seio que fui feliz. Foi no teu seio que aprendi a justiça. E nele vivi a sede eterna e o ter na repartição da coragem no chão. Sou a vez do teu ventre na queda do rio incólume. Sou ainda aquela criança com os olhos de amanhã roçando tua pele e descobrindo a vida na tua dedicação. Sou ainda aquela criança espevitada correndo peralta pelas névoas da lembrança no meio do mormaço da tarde. Sou ainda aquela criança que não sabe a distância entre o sim o não nos cacos de sonho. Sou aquela criança que sonhava a paixão pela professora dedicada e prestimosa fazendo um barulho que lateja no meu sexo, peito e cabeça. Sou aqueles olhos vermelhos com todos os sustos da roda gigante pelas labaredas do medo. Sou aquele menino arriado com as dores de fígado dentro da noite com vômitos surpreendentes na sala de aula. Sou a teimosia infantil no insulto da vó empunhando chicote que marcaram bolhas estigmatizadas no termo das coisas. Nada mais sou que aquele do namoro inocente com a tia, das aventuras amarradas no pano do pescoço, da barulhada imitando todas as máquinas dos motores ensurdecedores. Foi preciso a vida de 30 anos para sentir o desterro de Água Preta, a violenta decepção dos anos, o fumo logo cedo e as aprontações no Ginásio Municipal. Foi preciso a vida de mais de 30 anos para rever as noites insones com vô em Badalejo, a solidão eterna dos canaviais que expeliam a fumaça e eu tossia mais que tuberculoso. Foi preciso a vida de mais de 30 anos para saber que Batman era o sonho dos desenhos na televisão com a revolucionária Aninha mandando ver nas arengas e a passiva Anginha olhando tudo e aplaudindo com seu jeito tatibitati e o mimo exagerado por Geórgia abrindo a festa com tantas outras formas de não se saber dizer o que fazer. Foi preciso mais que 30 anos para entender que o dia não era um só nas coleções de gibi, no medo do coração de Jesus, na adoração fanática pelo pai, na fuga pro mundo ainda precoce pé na bunda e tataritaritatá! Foi preciso a vida de mais de 30 anos para que revisse a correria na bolinha jogada no campo de barro pelo bairro adolescente, no esgoelar desafinado na cantoria imaculada, no namoro escondido, no casório antecipado, na colhida de Carma quando a fuga era a saída para o sorriso e nas safadezas de Pai Lula ensinando que a vida não é só uma reza boba no cantinho do quarto. Foi preciso mais que 30 anos para saber da reprovação na escola, no ginásio e no colégio doendo nos corredores da faculdade por causa da pressa louca de conhecer o amanhã logo amanhã de manhã. Foi preciso mais que 30 anos para que tudo sinalizasse nos desejos que chegaram muito cedo com as moças e mulheres que rodeavam meu dengo e mimavam minhas vontades. Hoje sigo errante com todos os mitos daquela manhã religiosa comigo, o cérebro azeitado e a cabeça nas nuvens, a ternura fria de todos, a minha embriagues sempre exaltada, o exílio voluntário, a separação, a lâmina cortando a carne, o adulto órfão, o tempo e mais nada. Hoje sigo errante e ainda brotam desejos nas ilusões montadas pelas quimeras que desabam na certeza incontida de vencer o mundo em alta velocidade e já. Hoje sigo errante na penúria e luxo disfarçados. Entre o riso na cara lavada e o choro guardado no peito. Porque quando me vires abatumado pelos recantos de toda geografia deste país, é que estou vigilante eterno do meio onde vivo e da natureza de nossa vida. Quando me vires gritando pelas esquinas é que sustento o choro no peito de milhares de filhos deserdados e amaldiçoados de sempre. Quando me vires marchando nas ruas é que estou cantando o meu canto no futuro. Quando me vires varando de noite é porque não encontrei amparo no dia. Quando me vires chorar é que ainda não fui feliz. Quando me vires rompendo divisas é porque continuo a semear o melhor de ti, lutando incansavelmente pelos caminhos duros do amanhã. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui, aqui e aqui

 Imagem: Mother and Child (detail from The Three Ages of Woman, 1905), do pintor simbolista austríaco Gustav Klimt (1862-1918). Veja mais aqui.

MÃE
(Caetano Veloso)
Palavras, calas, nada fiz, estou tão infeliz
Falasses, desses, visse não, imensa solidão
Eu sou um Rei que não tem fim que brilhas dentro aqui
Guitarras, salas, vento, chão, que dor no coração
Cidades, mares, povo, rio, ninguém me tens amor
Cigarra, camas, colos, ninhos, um pouco de calor
Eu sou um homem tão sozinho, mas brilhas no que sou
E o teu caminho e o meu caminho é um nem vais nem vou
Meninos, ondas, becos, mãe e só porque não estais
És para mim que nada mais na boca das manhãs
Sou triste, quase um bicho triste e brilhas mesmo assim
Eu canto, grito, corro, rio e nunca chego a ti.
Veja mais aqui e aqui.

PESQUISA
Inteligência Emocional e a arte de educar nossos filhos (Objetiva, 1997), do psicólogo e professor John Gottman, que defende que os pais que lidam com as emoções são mais bem-sucedidos na arte de educar e, em conformidade com as ideias de Daniel Goleman, formadoras de pessoas emocionalmente inteligentes. Veja mais aqui.

LEITURAS 
A mãe (Civilização, 2015), do escritor e dramaturgo russo Máximo Gorki (1868-1936). Veja mais aqui e aqui.

Retrato de Mãe (Expressão, 2012), do poeta e jornalista Jorge Tufic (trecho da coletânea de de 15 poemas que se multiplicam em 210 versos de saudade, encanto e nostalgia).
Em tudo, minha mãe, te vejo e sinto.
Neste verniz antigo, neste cheiro
suavíssimo que vinha do teu corpo,
do pólen de tuas mãos, do hortelãzinho.
Em tudo, minha mãe, teu vulto amado
se desenha mais firme, e, lentamente,
vem dizer-me aos ouvidos qualquer coisa
desses anos que pesam sobre mim.
Em tudo, minha mãe, vejo este lenço
que à passagem da dor recolhe o traço
do sorriso que foste a vida inteira.
E, mesmo quando morta, entre açucenas,
ainda ressai de ti, poder divino,
a canção que adormece o teu menino.
Veja mais aqui.


Travessura de mãe (Globo, 2010), da atriz, escritora e mãe Denise Fraga com os relatos da sua maternidade. Veja mais aqui.

AS MÃOS DE MINHA MÃE (para minha mãe Dª Ira, com amor, by Luciah Lopez)
...eram mãos de fada! Mãos pequenas, delicadas e sempre prontas para um carinho. Minha mãe não está mais comigo (fisicamente) há muitos anos, mas ainda sinto o seu carinho e o seu amor. As lembranças sempre ponteiam os meus dias trazendo-a sempre para perto, não apenas no dia das mães, mas muitas vezes ela está comigo no dia a dia em detalhes pequenos que me fazem lembrar do cotidiano em minha casa, quando todos ainda morávamos juntos e dividíamos o seu amor. Infinito era o amor, eu diria. E dentre as minhas lembranças, estão as rosas de papel crepom que minha mãe criava. Flores coloridas de cores suaves que ela delicadamente modelava para depois de prontas, muitas vezes, adornar o altar da Virgem Maria -, quando no mês de Maio, passava a noite em nossa sala. Essas pequenas rosas nunca saíram das minhas lembranças porque junto com elas sempre as mãos delicadas que me faziam carinho e me seguravam firme quando por qualquer motivo, eu sentisse medo. A saudade é um misto de dor e tristeza, mas eu sei que minha mãe deve estar lá céu , ainda fazendo rosas para enfeitar os caminhos de todos que por lá chegarem.
Veja mais aqui.

PENSAMENTO DO DIA 
Pela mãe-joana & as coitadas das mães do guarda, do juiz de futebol e dos políticos salafrários!!!

Veja mais István Mészarós, Keith Jarret, Aníbal Machado, Pigmaleão & Galatéia, Almeida Junior, André Helbo, J. J. Sobral, Roberto Rossellini, Anna Magnani & Jean-Léon Gérome aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da artista plástica Lena Gal.
Veja mais aqui, aqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Recital Musical Tataritaritatá
Veja aqui.

segunda-feira, março 07, 2016

ANITA MALFATTI, ALEXANDRE CABANEL & O TRAUMA DA MOÇA


O TRAUMA DA MOÇA (Foto Acervo LAM) – Brunilda acordou feliz com as suas dezesseis primaveras. Ela ganhou de presente nesse aniversário aquilo que desejava como a razão pra sua própria vida: um telefone celular novinho. Era o desejo de um aparelho sofisticado e assim o foi. Custou os olhos da cara do pai, mas sua vontade foi satisfeita. Agora ela podia conversar, filmar, fotografar, ouvir música, baixar e enviar arquivos, enfim, era tudo que precisava para ser feliz. A sua felicidade dependia disso. Agora sim, ela podia dizer que estava à altura das amiguinhas, não mais a última do grupinho a se atualizar na moda. De certa forma, entendia porque o pai, quando estava em casa nos últimos dias, fazia contas e mais contas. Devia de ter comprado numa valsa interminável de não sei quantas prestações, isso não importa, não vem ao caso, o que importa mesmo é que estava exultante por estar na moda e agora esquiparada às colegas do seu rol de amizade. Já se sentia excluída, infeliz e um nada de gente. Agora não, agora era gente de verdade. E foi se arrumar com suas roupas de grife combinado com aquela novidade. Podia agora estufar o peito e dizer: estou na onda. E se arrumando já pensava em como chegar pra turma da classe e exibir-se com aquilo que a traria de volta à imponência de ser gente de posse, gente fina e não uma pé rapado como estava se sentindo nos últimos tempos. Agora sim, agora ela podia ir fazer o trabalho escolar com dignidade e altivez, aproveitaria para mostrar pra turma do colegial o seu presente. O trabalho era uma coisa que desgostava, porém era o seu momento de se mostrar. Trabalho em equipe, hummmmm, isso lhe causava certa antipatia e mal-estar. Por que? Ninguém até agora lhe explicou direito a razão de se estudar literatura e ter que ler um texto de mais de cem anos, um tal de O espelho, de um certo escritor Machado não sei que lá, que ela não sabia quem era e que vivia num tempo que não era o dela, não tendo nada que ver com a sua vida, nem com seus sonhos. Ela já não gostava de ler e vinha essa obrigação forçosa de que tinha que ler e interpretar! Coisa mais sem propósito para ela isso de ter que ler, pensar e adivinhar o que o tal escritor queria dizer, isso é muito chato pra ela. Ficava aborrecida com isso, mas destá, ela preferia que fosse uma letra de música para decorar, principalmente se fosse de um funck novo, ou alguma poesia romântica. Mas os da escola? Tudo chato. Pra que estudar? Para que ler literatura, tudo uma velharia, passado, ela queria viver o presente, isso sim. Essas coisas do colégio são tudo chatas, os professores uns porres e os assuntos piores ainda. O que tinha a ver com a vida dela equações, fórmulas, leis, essas coisas tudo uma chatura da braba. O que é a vida? Para ela, com certeza, a vida não era nenhum dos conteúdos ministrados na sala de aula. Pra ela, viver é cantar, dançar, comprar, passear, ficar, curtir os amigos no shopping ou no cinema, nos barzinhos, nas festinhas e, sobretudo ficar e, se der certo e firme, namorar com um garoto lindo que será seu príncipe encantado para sempre. Antes disso, só beijar na boca e ficar muiiiiiiito. Ah, ela resolveu dar um chute na chateação e se arrumar melhor pra mostrar o seu presente pra galera, desfilando suas grifes, se mostrando presente e no ranking da moda. Foi aí que ajeitou-se toda, pôs o par de fones no ouvido e saiu dando um tchau breve pra mãe. Apressada, abriu e fechou a porta, livrou-se do portão e já na calçada saiu embalada com o som que rolava nos fones, curtindo o último lançamento dos funkeiros. Lá se ia contente e maravilhada na calçada da rua pro ponto pegar a condução, acompanhando a marcação da música, quase já coreografando com o andar a dança do seu universo, seu mundo, não via ninguém nem nada, só a música, seus sonhos, seu momento de felicidade. Nem deu conta de uma motocicleta parando ali perto, quase na sua frente e o passageiro descer da garupa e se dirigir até ela, assustando-se com a aproximação. Nem deu conta da mãozada que lhe deu de deixá-la estendida no chão. Três dias depois acordava ela na cama de um apartamento de hospital: afundamento craneano, duas costelas e o braço esquerdo fraturados, o olho esquerdo fechado e o pau da venta inchadíssimo, hematomas e escoriações. Quando tomou conta da situação viu sua mãe chorosa, seu pai aos pés da cama, seus dois irmãos encostados na parede, tudo muito triste. Ela olhou para cada um, olhou do lado e quando ousou falar, sentiu dificuldade. Conseguiu balbuciar esforçando-se: - Cadê meu celular? Ah, foi aí que tomou ciência: fora assaltada e espancada. E o seu presente de aniversário, no assalto, o dono levou. Um pranto inconsolável encheu o ambiente. (Luiz Alberto Machado). Veja mais aqui.

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Imagem: a arte da pintora, desenhista, gravadora e professora brasileira Anita Malfatti (1889-1964). Veja mais aqui e aqui.

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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
 Imagem Nu, do pintor do Neoclassicismo francês Alexandre Cabanel (1823-1889).
Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.


HILDA HILST, HANNAH CRITCHLOW, DANIELLE STEEL & ONILDO ALMEIDA

  Imagem: Acervo ArtLAM .   Fábula hodierna ... - Dois irmãos uterinos, duas irmãs órfãs consanguíneas. Assim: Prometeu brechava fascín...