segunda-feira, março 07, 2016

DOSTOIÉVSKI, ANA ISTARÚ, BENAVENTE, HIGHSMITH & RESSURRETO DAS ENCRUZILHADAS


O TRAUMA DA MOÇA (Foto Acervo LAM) – Brunilda acordou feliz com as suas dezesseis primaveras. Ela ganhou de presente nesse aniversário aquilo que desejava como a razão pra sua própria vida: um telefone celular novinho. Era o desejo de um aparelho sofisticado e assim o foi. Custou os olhos da cara do pai, mas sua vontade foi satisfeita. Agora ela podia conversar, filmar, fotografar, ouvir música, baixar e enviar arquivos, enfim, era tudo que precisava para ser feliz. A sua felicidade dependia disso. Agora sim, ela podia dizer que estava à altura das amiguinhas, não mais a última do grupinho a se atualizar na moda. De certa forma, entendia porque o pai, quando estava em casa nos últimos dias, fazia contas e mais contas. Devia de ter comprado numa valsa interminável de não sei quantas prestações, isso não importa, não vem ao caso, o que importa mesmo é que estava exultante por estar na moda e agora esquiparada às colegas do seu rol de amizade. Já se sentia excluída, infeliz e um nada de gente. Agora não, agora era gente de verdade. E foi se arrumar com suas roupas de grife combinado com aquela novidade. Podia agora estufar o peito e dizer: estou na onda. E se arrumando já pensava em como chegar pra turma da classe e exibir-se com aquilo que a traria de volta à imponência de ser gente de posse, gente fina e não uma pé rapado como estava se sentindo nos últimos tempos. Agora sim, agora ela podia ir fazer o trabalho escolar com dignidade e altivez, aproveitaria para mostrar pra turma do colegial o seu presente. O trabalho era uma coisa que desgostava, porém era o seu momento de se mostrar. Trabalho em equipe, hummmmm, isso lhe causava certa antipatia e mal-estar. Por que? Ninguém até agora lhe explicou direito a razão de se estudar literatura e ter que ler um texto de mais de cem anos, um tal de O espelho, de um certo escritor Machado não sei que lá, que ela não sabia quem era e que vivia num tempo que não era o dela, não tendo nada que ver com a sua vida, nem com seus sonhos. Ela já não gostava de ler e vinha essa obrigação forçosa de que tinha que ler e interpretar! Coisa mais sem propósito para ela isso de ter que ler, pensar e adivinhar o que o tal escritor queria dizer, isso é muito chato pra ela. Ficava aborrecida com isso, mas destá, ela preferia que fosse uma letra de música para decorar, principalmente se fosse de um funck novo, ou alguma poesia romântica. Mas os da escola? Tudo chato. Pra que estudar? Para que ler literatura, tudo uma velharia, passado, ela queria viver o presente, isso sim. Essas coisas do colégio são tudo chatas, os professores uns porres e os assuntos piores ainda. O que tinha a ver com a vida dela equações, fórmulas, leis, essas coisas tudo uma chatura da braba. O que é a vida? Para ela, com certeza, a vida não era nenhum dos conteúdos ministrados na sala de aula. Pra ela, viver é cantar, dançar, comprar, passear, ficar, curtir os amigos no shopping ou no cinema, nos barzinhos, nas festinhas e, sobretudo ficar e, se der certo e firme, namorar com um garoto lindo que será seu príncipe encantado para sempre. Antes disso, só beijar na boca e ficar muiiiiiiito. Ah, ela resolveu dar um chute na chateação e se arrumar melhor pra mostrar o seu presente pra galera, desfilando suas grifes, se mostrando presente e no ranking da moda. Foi aí que ajeitou-se toda, pôs o par de fones no ouvido e saiu dando um tchau breve pra mãe. Apressada, abriu e fechou a porta, livrou-se do portão e já na calçada saiu embalada com o som que rolava nos fones, curtindo o último lançamento dos funkeiros. Lá se ia contente e maravilhada na calçada da rua pro ponto pegar a condução, acompanhando a marcação da música, quase já coreografando com o andar a dança do seu universo, seu mundo, não via ninguém nem nada, só a música, seus sonhos, seu momento de felicidade. Nem deu conta de uma motocicleta parando ali perto, quase na sua frente e o passageiro descer da garupa e se dirigir até ela, assustando-se com a aproximação. Nem deu conta da mãozada que lhe deu de deixá-la estendida no chão. Três dias depois acordava ela na cama de um apartamento de hospital: afundamento craneano, duas costelas e o braço esquerdo fraturados, o olho esquerdo fechado e o pau da venta inchadíssimo, hematomas e escoriações. Quando tomou conta da situação viu sua mãe chorosa, seu pai aos pés da cama, seus dois irmãos encostados na parede, tudo muito triste. Ela olhou para cada um, olhou do lado e quando ousou falar, sentiu dificuldade. Conseguiu balbuciar esforçando-se: - Cadê meu celular? Ah, foi aí que tomou ciência: fora assaltada e espancada. E o seu presente de aniversário, no assalto, o dono levou. Um pranto inconsolável encheu o ambiente. (Luiz Alberto Machado). Veja mais abaixo e mais aqui & aqui.

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DITOS & DESDITOS

O verdadeiro amor não se conhece por aquilo que exige, mas por aquilo que oferece... Todo mundo pensa que ter talento é uma questão de sorte; ninguém pensa que sorte pode ser uma questão de talento... Bem-aventurados aqueles que nos imitam, porque herdarão as nossas faltas...

Pensamento do dramaturgo e produtor cinematográfico espanhol, Jacinto Benavente (1866-1954), Prêmio Nobel de Literatura, de 1922.

 

ALGUÉM FALOU:

Concedo a todos os principiantes o crédito de os considerar escritores, já que tencionam, para o melhor e para o pior, arriscar expor à curiosidade pública as suas emoções, o seu íntimo, a sua atitude para com a vida. As pessoas sempre se apaixonam por coisas que não podem ter. Eu acho que as pessoas muitas vezes tentam encontrar através do sexo coisas que são muito mais fáceis de encontrar de outras maneiras. Não consigo compreender as pessoas que gostam de fazer barulho e consequentemente receio-as e como as receio, odeio-as. É um círculo vicioso emocional. Sinto que estou no deserto com as mãos estendidas e você está chovendo sobre mim. Um brinde de véspera de ano novo: a todos os demônios, luxúrias, paixões, ganâncias, invejas, amores, ódios, desejos estranhos, inimigos fantasmagóricos e reais, o exército de lembranças com as quais luto - que nunca me dêem paz. A justiça que recebi, devolverei...

Pensamento da escritora estadunidense Patricia Highsmith (1921-1995). Veja mais aqui, aqui & aqui.

 

A LENDA DO GRANDE INQUISIDOR – [...] Aliócha apenas escolheu um caminho oposto ao de todos os outros. Mal ele, depois de meditar seriamente, deixou-se fascinar pela convicção de que a imortalidade e Deus existem, ato contínuo disse naturalmente para si mesmo: “Quero viver para a imortalidade, e não aceito meio compromisso”. De maneira exatamente igual, se tivesse resolvido que não existem imortalidade nem Deus, teria ido juntar-se aos ateus e aos socialistas (porque o socialismo não é apenas uma questão dos operários ou do chamado quarto Estado, mas é predominantemente a questão do ateísmo, da encarnação atual do ateísmo, a questão da Torre de Babel construída precisamente sem Deus, não para alcançar o céu a partir da terra, mas para fazer o céu descer à terra) [...] A vida é dor, a vida é medo, e o homem é um infeliz. [...] Hoje o homem ama a vida porque ama a dor e o medo. [...] Hoje o homem ainda não é aquele homem. Haverá um novo homem, feliz e altivo. Aquele para quem for indiferente viver ou não viver será o novo homem. Quem vencer a dor e o medo, esse mesmo será Deus. E o outro Deus não existirá. - Então haverá uma nova vida, então haverá um novo homem, tudo novo... Então a história será dividida em duas partes: do gorila à destruição de Deus e da destruição de Deus... - À mudança física da terra e do homem. O homem será deus e mudará fisicamente. O mundo mudará, e as coisas mudarão, e mudarão os pensamentos e todos os sentimentos. - Matarão o engano. Aquele que desejar a liberdade essencial deve atrever-se a matar-se. Aquele que se atrever a matar-se terá descoberto o segredo do engano. Além disso não há liberdade; nisso está tudo, além disso não há nada. - Aquele que se matar apenas para matar o medo imediatamente se tornará Deus [...] Deem a todos esses mestres supremos modernos a possibilidade cabal de destruir a antiga sociedade e de construí-la de novo e isso resultará em caos e escuridão, em algo tão grosseiro, cego e desumano que todo este edifício irá ruir, sob as maldições da humanidade, antes mesmo de ser concluído. Uma vez rejeitado Cristo, a mente humana pode alcançar resultados espantosos. Isso, sim, é um axioma [...] - Outros têm outro assunto, mas nós, os bisonhos, precisamos antes de tudo resolver problemas eternos, eis a nossa preocupação. Hoje toda a Rússia jovem só fala de questões eternas. [...] - Questões universais, não outra coisa: Deus existe, existe imortalidade? E os que não acreditam em Deus vão falar de socialismo e de anarquismo, da reconstrução de toda a sociedade humana segundo um novo princípio, e então só o diabo sabe o que sairá daí, sempre as mesmas questões, só que vistas de um outro ângulo. E hoje uma infinidade, dos mais originais rapazinhos russos não fazem outra coisa a não ser falar de questões eternas [...] Sim, a verdadeira questão russa: Deus existe ou não, existe imortalidade ou não, ou, como tu dizes, são questões colocadas de outro ângulo, é claro, as questões primordiais e prioritárias, e é assim que deve ser [...] Por isso eu te declaro que aceito Deus com franqueza e simplicidade. Mas eis, entretanto, o que preciso ressaltar: se Deus existe e ele criou a Terra, então como é de nosso conhecimento absoluto, ele a criou com base na geometria euclidiana, e criou a inteligência humana apenas com o conceito das três dimensões do espaço. Por outro lado, houve e há até hoje geômetras e filósofos, e inclusive dos mais notáveis, que duvidam de que todo o universo ou, em termos mais amplos, todo o ser tenha sido criado unicamente com base na geometria euclidiana; eles se permitem inclusive a fantasia de que duas paralelas, que, segundo Euclides, jamais poderão encontrar-se na Terra, talvez venham a encontrar-se em algum lugar do infinito. Eu, meu caro, resolvi que se nem isso consigo compreender, então quem sou eu para entender o que toca a Deus? Reconheço humildemente que não tenho nenhuma capacidade de resolver tais problemas, minha inteligência é euclidiana, terrena, portanto, como iríamos resolver aquilo que não é deste mundo? Aliás, eu também te aconselho a nunca pensar nisso, amigo Aliócha, e menos ainda a respeito de Deus: Ele existe ou não? Todas essas questões são absolutamente impróprias para uma inteligência criada apenas com a noção das três dimensões. Portanto aceito Deus, e não só de bom grado como, além disso, aceito sua sabedoria e seus fins, que nos são totalmente desconhecidos, acredito na ordem, no sentido da vida, acredito na harmonia eterna na qual nós todos nos fundiríamos, creio no Verbo ao qual aspira o universo, que também “está em Deus” e é o próprio Deus, etc., etc. e assim sucessivamente no sentido do infinito. Parece que estou no bom caminho, não? Pois bem, imagina que o resultado definitivo disso é que eu não aceito esse mundo de Deus e, mesmo sabendo que ele existe, não o admito absolutamente. Não é Deus que não aceito, entende isso, é o mundo criado por ele, o mundo de Deus que não aceito e não posso concordar em aceitar. Faço uma ressalva: estou convencido, como uma criança, de que os sofrimentos hão de cicatrizar e desaparecer, de que toda a injuriosa comédia das contradições humanas desaparecerá como uma miragem deplorável, como uma invencionice torpe de uma inteligência humana euclidiana fraca e pequena como o átomo, de que, enfim, na consumação do mundo, no momento da eterna harmonia, acontecerá e aparecerá algo tão precioso que bastará a todos os corações, para suavizar todas as indignações, para redimir todas as perversidades dos homens, todo o sangue por eles derramado, chegará para que seja possível não só perdoar como também compensará tudo o que aconteceu com os homens – oxalá, oxalá tudo isso aconteça e se revele, mas eu não aceito nem quero aceitar! Oxalá até as paralelas se encontrem e eu mesmo o veja: verei e direi que se encontraram, mas ainda assim não aceitarei. Eis a minha essência, Aliócha, eis a minha tese. [...] Eu queria falar do sofrimento humano em geral, porém é melhor que a gente se detenha no sofrimento só das crianças. Isso reduz em umas dez vezes a abrangência de minha argumentação, mas é melhor que falemos apenas das crianças. Isso não me favorece, é claro. Todavia, em primeiro lugar, podem-se amar as crianças até de perto, até as crianças sujas, inclusive as feias de rosto (entretanto, parece-me que as crianças nunca são feias de rosto). Em segundo, ainda não vou falar dos adultos porque, além disso, eles são repugnantes e não merecem amor, neles só há vingança: comeram a maçã, conheceram o bem e o mal e se tornaram “algo como deuses”. Até hoje eles continuam a comê-la. Mas as criancinhas não comeram nada e por enquanto ainda não têm culpa de nada. [...] Se elas também sofrem terrivelmente na Terra, é claro que é por seus pais, elas foram castigadas no lugar de seus pais, que comeram a maçã – mas esse é um raciocínio de outro mundo, incompreensível ao coração do homem aqui na Terra. Um inocente não pode sofrer por outro, e ainda mais um inocente como esse! [...] - Compreendes quando um pequeno ser, que ainda não tem condição sequer de entender o que se faz com ele, trancado naquele lugar sórdido, no escuro e no frio, bate com seus punhozinhos minúsculos no peitinho martirizado e chora suas lágrimas de sangue, complacentes e dóceis, pedindo ao “Deusinho” que o proteja ali – tu entendes esse absurdo, meu amigo e para que foi criado? Sem ele, dizem, o homem nem conseguiria viver na Terra, pois não teria conhecido o bem e o mal. Para que conhecer esse bem e esse mal dos diabos a um preço tão alto? Sim, porque neste caso o mundo inteiro do conhecimento não valeria essas lágrimas de uma criancinha dirigidas ao seu “Deusinho”. Não falo dos sofrimentos dos adultos, estes comeram a maçã e o diabo que os carregue, e carregue a todos, mas elas, as crianças! [...] Se todos devem sofrer para com seu sofrimento comprar a harmonia eterna, o que as crianças têm a ver com isso? É incompreensível por que elas também teriam de sofrer e por que comprar essa harmonia com seus sofrimentos? Por que também serviram de material e estrumaram com sua vida a futura harmonia para não sei quem? A solidariedade entre os homens no pecado eu compreendo, compreendo a solidariedade também no castigo, mas não essa solidariedade com as criancinhas no pecado, e se a verdade está realmente em que elas são solidárias com os pais em todos os crimes dos pais, então, é claro, essa verdade não é deste mundo e eu não a compreendo. Algum brincalhão dirá, talvez, que, seja como for, a criança há de crescer e ter tempo de pecar, mas acontece que não cresceu e foi estraçalhada por cães aos oito anos de idade [...] - Revolta? Eu não gostaria de ouvir essa palavra de tua parte – disse sinceramente Ivan. Pode-se, talvez, viver com revolta, mas eu quero é viver. Dize-me francamente, eu te conclamo, responde: imagina que tu mesmo eriges o edifício do destino humano com o fim de, concluída a obra, fazer as pessoas felizes e finalmente lhes dar paz e tranquilidade, mas para isto é necessário e inevitável supliciar uma única e minúscula criaturinha – aquela mesma criancinha que bateu com o punhozinho no peito – e sobre suas lágrimas não vingadas fundar esse edifício; tu aceitarias ser o arquiteto em tais condições? Responde e não mintas! [...] Ele passa calado entre eles com o sorriso sereno da infinita compaixão. O sol do amor arde em Seu coração, os raios da Luz, da Ilustração e da Força emanam de Seus olhos e, derramando-se sobre as pessoas, fazem seus corações vibrarem de amor recíproco. Ele estende as mãos para elas, as abençoa, e só de tocá-Lo, ainda que apenas em sua roupa, irradia-se a força que cura [...] o mais terrível tempo da Inquisição, quando, pela glória de Deus, as fogueiras ardiam diariamente no país [...] - O próprio velho lhe observa que ele não tem nem o direito de acrescentar nada ao que já dissera antes. Talvez esteja aí o traço essencial do catolicismo romano, ao menos em minha opinião: “tu, dizem, transferiste tudo ao papa, portanto, tudo hoje é da alçada do papa, e quanto a ti, ao menos agora não me apareças absolutamente por aqui, quando mais não seja não me atrapalhes antes do tempo”. Eles não só falam como escrevem nesse sentido, os jesuítas pelo menos. Isso eu mesmo li nas obras de seus teólogos [...] Porque só agora (ou seja, ele está falando evidentemente da Inquisição) se tornou possível pensar pela primeira vez na liberdade dos homens. O homem foi feito rebelde; por acaso os rebeldes podem ser felizes? Tu foste prevenido – diz-lhe -, não te faltaram avisos e orientações, mas não deste ouvido às prevenções, rejeitaste o único caminho pelo qual era possível fazer os homens felizes, mas por sorte, ao te afastares, transferiste a causa para nós. Tu prometeste, tu o confirmaste com tua palavra, tu nos deste o direito de ligar e desligar e, é claro, não podes sequer pensar em nos privar desse direito agora. Por que vieste nos atrapalhar? [...] Porque nessas três questões está como que totalizada e vaticinada toda a futura história humana, e estão revelados os três modos em que confluirão todas as insolúveis contradições históricas da natureza humana em toda Terra. Naquele tempo isso ainda não podia ser tão visível porque o futuro era desconhecido, mas hoje, quinze séculos depois, vemos que naquelas três questões tudo estava tão vaticinado e predito, e se justificou a tal ponto, que nada mais lhes podemos acrescentar ou diminuir [...] Lembra-te da primeira pergunta: mesmo não sendo literal, seu sentido é este: “Queres ir para o mundo e está indo de mãos vazias, levando aos homens alguma promessa de liberdade que eles, em sua simplicidade e em sua imoderação natural, sequer podem compreender, da qual têm medo e pavor, porquanto para o homem e para a sociedade humana nunca houve nada mais insuportável do que a liberdade! Estás vendo essas pedras neste deserto escalvado e escaldante? Transforma-as em pão e atrás de ti correrá como uma manada a humanidade agradecida e obediente, ainda que tremendo eternamente com medo que retires a tua mão e cesse a distribuição de seus pães‟. Entretanto, não quiseste privar o homem da liberdade e rejeitaste a proposta, pois pensaste: que liberdade é essa se obediência foi comprada com pão? [...] Sabes tu que passarão os séculos e a humanidade proclamará através da sua sabedoria e da sua ciência que o crime não existe, logo, também não existe pecado, existem apenas os famintos? “Alimenta-os e então cobra virtude deles!‟ – eis o que escreverão na bandeira que levantarão contra ti e com a qual teu templo será destruído [...] No lugar do teu templo será erigido um novo edifício, será erigida uma nova e terrível torre de Babel e ainda que esta não se conclua, como a anterior, mesmo assim poderias evitar essa torre e reduzir em mil anos os sofrimentos dos homens, pois é a nós que eles virão depois de sofrerem mil anos com sua torre! Eles nos reencontrarão debaixo da terra, nas catacumbas em que nos esconderemos (porque novamente seremos objeto de perseguição e suplício), nos encontrarão e nos clamarão: “Alimentai-nos, pois aqueles que nos prometeram o fogo dos céus não cumpriram a promessa‟. E então nós concluiremos a construção de sua torre, pois a concluirá aquele que os alimentar, e só nós os alimentaremos em teu nome e mentiremos que é em teu nome que o fazemos. Oh, nunca, nunca se alimentarão sem nós! Nenhuma ciência lhes dará o pão enquanto eles permanecerem livres, mas ao cabo de tudo eles nos trarão sua liberdade e a porão a nossos pés, dizendo: “É preferível que nos escravizeis, mas nos deem de comer‟. Finalmente compreenderão que, juntos, a liberdade e o pão da terra em quantidade suficiente para toda e qualquer pessoa são inconcebíveis, pois eles nunca, nunca saberão dividi-los entre si! Também hão de persuadir-se de que nunca poderão ser livres porque são fracos, pervertidos, insignificantes e rebeldes [...] Tu lhes prometeste o pão dos céus, mas torno a repetir: poderá ele comparar-se com o pão da terra aos olhos da tribo humana, eternamente impura e eternamente ingrata? E se em nome do pão celestial te seguirem milhares e dezenas de milhares, o que acontecerá com os milhões e dezenas de milhões de seres que não estarão em condições de desprezar o pão da terra pelo pão dos céus? Ou te são caras apenas as dezenas de milhares de grandes e fortes, enquanto os outros milhões de fracos, numerosos como a areia do mar, mas que te amam, devem apenas servir de material para os grandes e fortes? Não os fracos também nos são caros. São pervertidos e rebeldes, mas no fim das contas se tornarão também obedientes [...] Nós os enganaremos mais uma vez, pois não deixaremos que tu venhas a nós. É nesse embuste que consistirá nosso sofrimento, porquanto deveremos mentir. Foi isso que significou aquela primeira pergunta no deserto, e eis o que rejeitaste em nome de uma liberdade que colocaste acima de tudo [...] Aceitando os “pães‟ haverias de responder a este tédio humano universal e eterno, tanto de cada ser individual quanto de toda humanidade em conjunto: “a quem sujeitar-se?‟. Não há preocupação mais constante e torturante para o homem do que, estando livre, encontrar depressa a quem sujeitar-se. Mas o homem procura sujeitar-se ao que já é irrefutável, e irrefutável a tal ponto que de uma hora para outra todos os homens aceitam uma sujeição universal a isso. Porque a preocupação dessas criaturas deploráveis não consiste apenas em encontrar aquilo a que eu ou outra pessoa deve sujeitar-se, mas em encontrar algo em que todos acreditem e a que se sujeitem, e que sejam forçosamente todos juntos. Pois essa necessidade da convergência na sujeição é que constitui o tormento principal de cada homem individualmente e de toda a humanidade desde o início dos tempos. Por se sujeitarem todos juntos eles se exterminaram uns aos outros a golpes de espada. Criavam os deuses e conclamavam uns aos outros: “Deixai vossos deuses e vinde sujeitar-se aos nossos, senão será a morte para vós e os vossos deuses!‟. E assim será até o fim do mundo, mesmo quando os deuses também desaparecerem na Terra: seja como for, hão de prosternar-se diante dos ídolos. Tu o conhecias, não podias deixar de conhecer esse segredo fundamental da natureza humana, mas rejeitaste a única bandeira absoluta que te propuseram com o fim de obrigar que todos se sujeitassem incondicionalmente a ti – a bandeira do pão da terra, e a rejeitaste em nome da liberdade e do pão dos céus [...] Não existe nada mais sedutor para o homem que sua liberdade de consciência, mas tampouco existe nada mais angustiante [...] Sem uma sólida noção da finalidade de viver o homem não aceitará viver e preferirá destruir-se a permanecer na Terra ainda que cercado só de pães. É verdade, mas vê em que deu isso: em vez de assenhorear-se da liberdade dos homens, tu a aumentaste ainda mais! Ou esqueceste que para o homem a tranquilidade e até a morte são mais caras que o livre arbítrio no conhecimento do bem e do mal? Não existe nada mais sedutor para o homem que sua liberdade de consciência, mas tampouco existe nada tão angustiante. Pois em vez de fundamentos sólidos para tranquilizar para sempre a consciência humana, tu lançaste mão de tudo o que há de mais insólito, duvidoso e indefinido, lançaste mão de tudo o que estava acima das possibilidades dos homens, e por isso agiste como que sem nenhum amor por eles – e quem fez isto: justo aquele que veio dar a própria vida por eles! Em vez de assenhorear-se da liberdade dos homens, tu multiplicaste e sobrecarregaste com seus tormentos o reino espiritual do homem para todo o sempre. Desejaste o amor livre do homem para que ele te seguisse livremente, seduzido e cativado por ti. Em vez da firme lei antiga, doravante o próprio homem deveria resolver de coração livre o que é o bem e o que é o mal, tendo diante de si apenas a tua imagem como guia – mas será que não pensaste que ele acabaria questionando e renegando até tua imagem e tua verdade se o oprimissem com um fardo tão terrível como o livre arbítrio? Por fim exclamarão que a verdade não está em ti, pois era impossível deixá-los mais ansiosos e torturados do que o fizeste quando lhes reservaste tantas preocupações e problemas insolúveis [...] O homem é mais fraco e foi feito mais vil do que pensavas sobre ele! Pode, pode ele realizar o mesmo que realizas tu? Por estimá-lo tanto, agiste como se tivesses deixado de compadecer-se dele, porque exigiste demais dele – e quem fez isso foi o mesmo que o amou mais do que a si mesmo! Se o estimasses menos, menos terias exigido dele, e isto estaria mais próximo do amor, pois o fardo dele seria mais leve. Ele é fraco e torpe [...] E que culpa têm os outros, os restantes, os fracos, por não terem podido suportar aquilo que suportaram os fortes? Que culpa tem a alma fraca de não ter condições de reunir tão terríveis dons? Será que vieste mesmo destinado apenas aos eleitos e só para os eleitos? E se é assim, então aí existe um mistério e não conseguimos entendê-lo. Mas se é um mistério, então nós também estaríamos no direito de pregar o mistério e ensinar àquelas pessoas que o importante não é a livre decisão de seus corações nem o amor, mas o mistério, ao qual eles deveriam obedecer cegamente, inclusive contrariando suas consciências. Foi o que fizemos. Corrigimos tua façanha e lhes demos por fundamento o milagre, o mistério e a autoridade. E os homens se alegraram porque de novo foram conduzidos como rebanho e finalmente seus corações ficaram livres de tão terrível dom, que tanto suplício lhes causara [...] Não estamos contigo, mas com ele, eis o nosso mistério! Faz muito tempo que já não estamos contigo, mas com ele, já se vão oito séculos. Já faz exatos oito séculos que recebemos dele aquilo que rejeitaste com indignação, aquele último dom que ele te ofereceu ao tem mostrar todos os reinos da Terra: recebemos dele Roma e a espada de César, e proclamamos apenas a nós mesmos como reis da Terra, os únicos reis, embora até hoje ainda não tenhamos conseguido dar plena conclusão à nossa obra [...] a quem sujeitar-se, a quem entregar a consciência e como finalmente juntar todos no formigueiro comum, incontestável e solidário, porque a necessidade da união universal é o terceiro e último tormento dos homens [...] Aceitando esse terceiro conselho do poderoso espírito, tu terias concluído tudo o que o homem procura na Terra, ou seja: a quem sujeitar-se, a quem entregar a consciência e como finalmente juntar todos no formigueiro comum, incontestável e solidário, porque a necessidade da união universal é o terceiro e o último tormento dos homens. A humanidade, em seu conjunto, sempre ansiou por uma união forçosamente universal. Houve muitos grandes povos com uma grande história; no entanto, quanto mais elevados eram esses povos, mais infelizes, pois compreendiam mais intensamente que os outros a necessidade de união universal dos homens. Os grandes conquistadores, os Tamerlães e os Gengis Khan, passaram como um furacão pela Terra, procurando conquistar o universo, mas até eles traduziram, ainda que de forma inconsciente, a mesma grande necessidade de união geral e universal experimentada pela humanidade. Se aceitasses o mundo e a púrpura de César, terias fundando o reino universal e dado a paz universal. Pois, quem iria dominar os homens senão aqueles que dominam suas consciências e detêm o seu pão em suas mãos? Nós tomamos a espada de César e, ao tomá-la te renegamos, é claro, e o seguimos [...] Então lhe daremos uma felicidade serena, humilde, a felicidade dos seres fracos, tais como eles foram criados. Oh, nós finalmente os persuadiremos a não se orgulharem, pois tu os encheste de orgulho e assim os ensinaste a ser orgulhosos; nós lhes demonstraremos que eles são fracos e que não passam de míseras crianças, mas que a felicidade infantil é mais doce de que qualquer outra. Eles se tornarão tímidos, e passarão a olhar para nós e a grudar-se a nós por medo, como pintinhos à galinha choca. Hão de surpreender-se e horrorizar-se conosco, e orgulhar-se de que somos tão poderosos e tão inteligentes que somos capazes de apaziguar um rebanho tão violento de milhares de milhões [...] Nessa ocasião a besta rastejará até nós, lamberá nossos pés e nos borrifará com as lágrimas sangrentas que sairão de seus olhos. E montaremos na besta, e ergueremos a taça, na qual estará escrito: “Mistério‟! É aí, e só aí que chegará para os homens o reino da paz e da felicidade [...] A liberdade, a inteligência livre e a ciência os porão em tais labirintos e os colocarão perante tamanhos milagres e mistérios insolúveis que alguns deles, insubmissos e furiosos, exterminarão a si mesmos; outros, insubmissos porém fracos, exterminarão uns aos outros, e os restantes, fracos e infelizes, rastejarão até nossos pés e nos bradarão: „Sim, os senhores estavam com a razão, os senhores são os únicos, só os senhores detinham o mistério d’Ele, estamos de volta para os senhores, salvem-nos de nós mesmos‟. Ao receberem os pães de nossas mãos, eles, evidentemente, verão com clareza que os pães, que são seus, que eles conseguiram com as próprias mãos, nós os tomamos para distribuí-los entre eles sem qualquer milagre, verão que não transformamos pedras em pães e, em verdade, estarão mais alegres com o fato de receberem o pão de nossas mãos do que com o próprio pão! Hão de lembrar-se demais de que antes, sem nós, os próprios pães que eles mesmos obtiveram transformaram-se em pedras em suas mãos, e quando voltaram para nós as mesmas pedras se transformaram em pães. Apreciarão demais, demais o que significa sujeitar-se de uma vez por todas! [...] Hão de tremer sem forças diante de nossa ira, suas inteligências ficarão intimidadas e seus olhos se encherão de lágrimas como os das crianças e mulheres, mas, a um sinal nosso, passarão com a mesma facilidade à distração e ao sorriso, a uma alegria radiosa e ao cantar feliz da infância. Sim, nós os faremos trabalhar, mas nas horas livres do trabalho organizaremos sua vida como um jogo de crianças, com canções infantis, coro e danças inocentes. Oh, nós lhes permitiremos também o pecado, eles são fracos e impotentes e nos amarão como crianças pelo fato de lhes permitirmos pecar. Nós lhes diremos que todo pecado será expiado se for cometido com nossa permissão; permitiremos que pequem, porque os amamos, e assumiremos o castigo por tais pecados; que seja. Nós o assumiremos e eles nos adorarão como benfeitores que assumiram seus pecados diante de Deus. E não haverá para eles nenhum segredo de nossa parte. Permitiremos ou proibiremos que vivam com suas mulheres e suas amantes, que tenham ou não tenham filhos – tudo a julgar por sua obediência -, e eles nos obedecerão felizes e contentes. Os mais angustiantes mistérios de sua consciência – tudo, tudo, eles trarão a nós, e permitiremos tudo, e eles acreditarão em nossa decisão com alegria porque ela os livrará também da grande preocupação e dos terríveis tormentos atuais de uma decisão pessoal e livre [...] E todos serão felizes, todos os milhões de seres, exceto as centenas de milhares que os governam. Por que só nós, nós que guardamos o mistério, só nós seremos infelizes. Haverá milhares de milhões de crianças felizes e cem mil sofredores, que tomaram a si a maldição do conhecimento do bem e do mal. Morrerão serenamente, serenamente se extinguirão em teu nome, e no além-túmulo só encontrarão a morte. Mas conservaremos o segredo e para felicidade deles os atrairemos com a recompensa celestial eterna. Porquanto ainda que houvesse mesmo alguma coisa no outro mundo, isto, é claro, não seria para criaturas como eles [...] é absolutamente impossível haver um tipo fantástico como esse teu inquisidor. Que pecados dos homens são esses que eles assumiram? Que detentores do mistério são esses que assumiram uma maldição qualquer para salvar os homens? Onde já se viu tipos assim? Conhecemos os jesuítas, fala-se mal deles, mas serão assim como estão em teu poema? Não são nada disso, nada disso... São apenas o exército de Roma para o futuro reino universal na Terra, com o imperador – o pontífice de Roma à frente... Esse é o ideal deles, mas sem quaisquer mistérios e tristeza sublime.... O mais simples desejo de poder, dos sórdidos bens terrenos, da escravização... uma espécie de futura servidão para que eles se tornem latifundiários... eis tudo o que eles têm em mente. Talvez eles nem acreditem em Deus. Teu inquisidor sofredor é mera fantasia... [...] A quem se juntou, a que homens inteligentes? – exclamou Aliócha quase entusiasmado. - Nenhum deles tem semelhante inteligência nem tais mistérios e segredos... Todo o segredo deles se resume unicamente ao ateísmo. Teu inquisidor não crê em Deus, eis todo o seu segredo! [...] Até que enfim adivinhaste. E de fato é assim, de fato é só nisso que está todo o segredo, mas por acaso isso não é sofrimento, ainda que seja para uma pessoa como ele, um homem que destruiu toda a sua vida numa façanha no deserto e não se curou do amor à humanidade? No crepúsculo dos seus dias ele se convence claramente de que só os conselhos do grande e terrível espírito poderiam acomodar numa ordem suportável os rebeldes fracos, “as criaturas experimentais inacabadas, criadas por escárnio”. Pois bem, convencido disto ele percebe que precisa seguir a orientação do espírito inteligente, do terrível espírito da morte e da destruição, e para tanto adotar a mentira e o embuste e conduzir os homens já conscientemente para a morte e a destruição, e ademais enganá-los durante toda a caminhada, dando um jeito de que não percebam aonde estão sendo conduzidos e ao menos nesse caminho esses míseros cegos se achem felizes. E repare, o embuste é em nome daquele cujo ideal o velho acreditara apaixonadamente durante toda a sua vida! Acaso isso não é infelicidade? [...] Eles têm a ciência, e na ciência só aquilo que está sujeito aos sentidos. Já o mundo do espírito, a metade superior do ser humano, foi rejeitada inteiramente, expulsa com certo triunfo, até com ódio. O mundo proclamou a liberdade, sobretudo ultimamente, e eis o que vemos dessa liberdade deles: só escravidão e suicídio! Porque o mundo diz: “Tens necessidades e por isso satisfaze-as, porque tens os mesmos direitos que os homens mais ilustres e ricos. Não temas satisfazê-las e até procura multiplicá-las” – eis a atual doutrina do mundo. É nisso que veem a liberdade. E o que resulta desse direito à multiplicação das necessidades? Para os ricos o isolamento e o suicídio espiritual, para os pobres, a inveja e o assassinato, porquanto esses direitos foram concedidos mas ainda não se indicaram os meios de satisfazer as necessidades. [...] Compreendendo a liberdade como a multiplicação e o rápido saciamento das necessidades, deformam sua natureza porque geram dentro de si muitos desejos absurdos e tolos, os hábitos e as invenções mais disparatadas. Vivem apenas para invejar uns aos outros, para a luxúria, a soberba. Dar jantares, viajar, possuir carruagens, posição social e criados escravos eles já consideram uma necessidade, e para saciá-la sacrificam até a vida, a honra, o amor ao homem e até se matam se não conseguem saciá-la. Entre os pobres o não saciamento das necessidades e a inveja ainda são abafados pela bebedeira. Em breve, em vez do vinho haverão de embebedar-se com sangue, para isto estão sendo conduzidos. Eu vos pergunto: esse homem é livre? [...] É por isso que no mundo vem-se extinguindo cada vez mais a ideia de servir à humanidade, a ideia da fraternidade e da integridade dos homens, pois, em verdade, essa ideia já está sendo recebida até com zombaria; porque, como esse escravo se afastaria de seus hábitos, para onde iria se está tão acostumado a saciar as infinitas necessidades que ele mesmo inventou? Ele está isolado e pouco se importa com o todo. Eles chegaram a um ponto em que acumularam objetos demais, porém ficaram com alegria de menos [...] Então quando é que os senhores erguerão seu edifício e se organizarão com justiça guiados apenas por sua inteligência, sem Cristo? E se afirmam que eles, ao contrário, é que caminham para a união, em verdade só acreditam nisso os mais ingênuos dentre eles. Em verdade há mais fantasia sonhadora neles que em nós. Pensam organizar-se em forma justa, mas tendo renegado Cristo, acabarão por dar um banho de sangue no mundo, porque sangue chama sangue, e aquele que desembainhar a espada à espada morrerá. E se não fosse a promessa de Cristo, acabariam mesmo exterminando uns aos outros até que restassem dois homens na terra. E estes dois últimos não conseguiriam deter um ao outro, de sorte que o último exterminaria o penúltimo e depois a si mesmo. E isto aconteceria não fosse a promessa de Cristo de que esse tempo seria abreviado em prol dos dóceis e humildes [...] - Porque toda a vontade passou a ser minha. Será que ninguém, em todo planeta, depois de ter eliminado deus e acreditado no arbítrio, não se atreve a proclamar o arbítrio no seu aspecto mais pleno? É o que ocorre com aquele pobre que recebe uma herança, fica assustado e não se atreve a chegar-se ao saco por se achar fraco para possuí-lo. Quero proclamar o arbítrio. Ainda que sozinho o farei [...] Não, sai por aí negando, sem negação não haveria crítica, e que revista poderia passar sem um „departamento de crítica? Sem crítica, só haveria Hosana. Mas, para viver, só o Hosana não basta, é preciso que esse Hosana passe pelo crisol da dúvida [...]. Trechos extraídos da obra Os Irmãos Karamázov (34, 2012), do escritor, filósofo e jornalista russo Dostoiévski (Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski – 1821-1881), na qual critica de forma inteligente os principais problemas da Rússia do final do século XIX – especialmente a questão da pobreza e da situação financeira da população russa daquela época. Estes problemas são descritos por alguns personagens no livro, através de diálogos e narrações, citadas por causa da experiência pessoal do próprio escritor que viveu em um país em decadência financeira e sentiu de perto toda a problemática da Rússia czarista. A obra é dividida em livros: no Livro I: História de uma família, apresenta a família Karamázov e relata a história de seu passado distante e recente, descrevendo as personalidades bem diversas dos três irmãos e as circunstâncias que levaram ao seu retorno à cidade e termina com a misteriosa ordem religiosa dos startzí a que Aliócha se afeiçoou. O Livro II: Uma reunião inoportuna, começa quando a família Karamázov chega no mosteiro local, para que o stárietz Zossima possa agir como mediador entre Dmitri e seu pai Fiódor em seu conflito em torno da herança de Dmitri. Aparentemente foi ideia do pai, como um gracejo, fazer a reunião num local tão sagrado na presença do stárietz. Dmitri chega atrasado, e a reunião logo degenera e apenas exacerba a briga entre Dmitri e Fiódor. Esta parte também contém uma cena onde o stárietz Zossima consola uma mulher que chora a morte de seu filho de três anos. A dor da pobre mulher compara-se à própria tragédia de Dostoiévski com a perda de seu filho jovem Aliócha. O Livro III: Os lascivos, fornece mais detalhes do triângulo amoroso que irrompeu entre Fiódor, seu filho Dmitri e Grúchenka. A personalidade de Dmitri é explorada na conversa entre este e Aliócha, quando Dmitri se esconde perto da casa do pai para ver se Grúchenka chegará. Nessa mesma noite, Dmitri irrompe na casa do pai e o ataca, enquanto ameaça voltar e matá-lo no futuro. Também apresenta Smierdiakóv e suas origens, bem como a história de sua mãe, Lizavieta Smierdiáschaia. Na conclusão, Aliócha é testemunha da humilhação de Catierina, noiva de Dmitri, por Grúchenka, resultando num terrível constrangimento e escândalo para essa mulher orgulhosa. Vem a Segunda parte e o Livro IV: Mortificações, na qual apresenta uma história secundária que ressurgirá em mais detalhes adiante no romance. Começa com Aliócha observando um grupo de meninos atirando pedras em um de seus colegas, o doentio Iliúcha. Quando Aliócha chama a atenção dos meninos e tenta ajudar, Iliúcha morde o dedo de Aliócha. Mais tarde fica-se sabendo que o pai de Iliúcha, um capitão reformado chamado Snieguirióv, foi atacado por Dmitri, que o arrastou pela barba para fora de um bar. Aliócha logo toma conhecimento dos infortúnios presentes no lar de Snieguirióv e oferece ao capitão reformado dinheiro como desculpas pelo seu irmão e para ajudar a esposa doente e filhos de Snieguirióv. Após inicialmente aceitar o dinheiro com alegria, Snieguirióv atira-o de volta para Aliócha por orgulho e corre para sua casa. Vem o Livro V: Pró e contra, no qual a ideologia racionalista e niilista que permeava a Rússia naquela época é defendida e adoptada entusiasticamente por Ivan Karamázov ao se encontrar com o irmão Aliócha em um restaurante. No capítulo intitulado "Rebelião", Ivan proclama que rejeita o mundo que Deus criou porque foi erguido sobre uma base de sofrimento. No capítulo O Grande Inquisidor, Ivan narra para Aliócha seu poema imaginado que descreve um líder da Inquisição Espanhola e seu encontro com Jesus, que retornou à Terra. Aqui, Jesus é rejeitado pelo Inquisidor que o lança na prisão. O Grande Inquisidor diz que Jesus não deveria ter dado aos humanos a "carga" do livre arbítrio. Ao final dessas discussões, Jesus silenciosamente dá um passo à frente e beija o velho homem nos lábios. O Grande Inquisidor, atônito e comovido, ordena que Ele nunca mais volte ali, e o solta. Aliócha, após ouvir a história, vai até Ivan e o beija suavemente, com uma emoção inexplicável, nos lábios. Ivan grita de alegria, porque o gesto de Aliócha foi tirado diretamente de seu poema. Os irmãos então se despedem. A questão: Se Deus não existe, tudo é permitido? Contextualiza-se o enredo o qual a história se passa na cidade de Sevilha, na Espanha, durante o auge da Inquisição Espanhola, tratando-se de um poema em prosa contado pelo personagem Ivan Karamázov ao seu irmão mais novo, o noviço Aliôcha, como parte de um debate filosófico sobre o sofrimento humano e a existência de Deus. Conta-se que Jesus retorna à Terra "por um instante", misturando-se à multidão no dia seguinte a uma grande fogueira (auto de fé) onde dezenas de hereges foram queimados. O povo o reconhece imediatamente e ele realiza milagres, como curar cegos e ressuscitar uma menina. O Grande Inquisidor — um cardeal de 90 anos — observa a cena, reconhece Jesus e manda guardas prendê-lo em silêncio, pois Ele está "atrapalhando" a missão da Igreja. À noite, o Inquisidor visita Jesus na cela escura e trava um longo monólogo (enquanto Jesus apenas escuta e permanece em silêncio): O Inquisidor acusa Cristo de ter cometido um erro ao rejeitar as três tentações de Satanás no deserto (o pão material, o milagre/mistério/autoridade, e o poder temporal dos reinos do mundo). Segundo o Inquisidor, Jesus deu ao homem o livre-arbítrio, mas superestimou a força humana. Para o cardeal, a liberdade de consciência é o fardo mais pesado e insuportável para a maioria das pessoas, que preferem a segurança, o pão de cada dia e a certeza dogmática. O Inquisidor afirma que a Igreja corrigiu a obra de Cristo. Ao aliar-se a César, ela assumiu o controle, trocou a liberdade espiritual pela gestão da fraqueza humana, oferecendo milagre, mistério e autoridade para manter o rebanho seguro e "feliz", mesmo que à custa de uma ilusão. Quando o Inquisidor termina de falar, esperando uma réplica ou uma condenação severa, Jesus se aproxima em silêncio e beija nos lábios o velho cardeal de noventa anos. O Inquisidor fica profundamente abalado ("o beijo lhe arde no coração"), mas não muda de ideia; ele abre a porta da cela e diz para Jesus ir embora e nunca mais voltar. Vem o Livro VI: Um monge russo relatando a vida e história do stárietz Zossima no leito de morte em sua cela. Zossima explica que encontrou sua fé em sua juventude rebelde, em meio a um duelo, consequentemente decidindo tornar-se monge. Zossima prega que as pessoas devem perdoar as outras reconhecendo seus próprios pecados e culpa perante os outros. Explica que nenhum pecado é isolado, tornando todos responsáveis pelos pecados de seus vizinhos. "Tudo é como o oceano, tudo corre e se toca, tu tocas em um ponto e teu toque repercute no outro extremo do mundo".[4] Zossima representa uma filosofia que responde à de Ivan, que desafiara a criação de Deus no livro anterior. Na Terceira parte, o Livro VII: Aliócha começa imediatamente após a morte de Zossima. Acredita-se na cidade, e no mosteiro também, que os corpos de homens realmente santos são incorruptos, ou seja, não sucumbem à putrefação. Assim a expectativa em torno do stárietz Zossima é que seu falecido corpo não se decomponha. A cidade inteira fica chocada quando o corpo de Zossima não só se decompõe, mas começa o processo quase imediatamente após sua morte. No primeiro dia, o cheiro do corpo de Zossima já é insuportável. Para muitos isso põe em dúvida seu respeito e admiração anteriores por Zossima. Aliócha fica particularmente devastado pela mancha na imagem de Zossima devido a nada mais que a corrupção de seu corpo morto. Um dos colegas de Aliócha no mosteiro chamado Rakítin usa a vulnerabilidade de Aliócha para marcar um encontro entre este e Grúchenka. Contudo, em vez de Aliócha se corromper, consegue renovar sua fé e esperança com Grúchenka, enquanto a mente atribulada de Grúchenka começa a trilha da redenção espiritual por sua influência: eles se tornam amigos próximos. O livro termina com a regeneração espiritual de Aliócha ao abraçar e beijar a terra fora do mosteiro e chora convulsivamente até finalmente voltar ao mundo, como instruído por Zossima, renovado. Vem o Livro VIII: Mítia que trata basicamente da busca desenfreada e confusa de dinheiro por Dmitri para que possa fugir com Grúchenka. Dmitri deve dinheiro à sua noiva Catierina e se considerará um ladrão se não devolvê-lo antes de embarcar em sua busca por Grúchenka. Essa procura louca de dinheiro leva Dmitri do benfeitor de Grúchenka para uma cidade vizinha atrás de uma falsa promessa de negócio. Enquanto isso Dmitri morre de medo de que Grúchenka possa ir até seu pai Fiódor e desposá-lo, porque este já dispõe dos meios financeiros para satisfazê-la. Quando Dmitri retorna de seu negócio fracassado na cidade vizinha, acompanha Grúchenka até a casa de seu benfeitor, mas logo descobre que esta o enganou e saiu de lá cedo. Furioso corre até a casa do pai com um pilão de cobre na mão, e o espia pela janela. “Odeio a papada dele, o nariz dele, os olhos dele, sua zombaria desavergonhada. Sinto um asco pessoal.” Ele arranca o pilão do bolso. Depois ocorre uma descontinuidade na ação, e Dmitri está subitamente fugindo da propriedade do pai, atingindo o criado Grigori na cabeça com o pilão com resultados aparentemente fatais. Dmitri é depois visto atordoado na rua, coberto de sangue, com uma pilha de dinheiro na mão. Logo fica sabendo que o primeiro amante de Grúchenka retornou e a levou a uma estalagem em Mókroie, uma aldeia próxima. Ao saber disso, Dmitri enche uma carroça de comida e bebida e paga por um enorme festim para enfim confrontar Grúchenka na presença de sua velha paixão, com a intenção de se matar depois ao alvorecer. O "primeiro e legítimo amor", porém, é um polonês rude que trapaceia num jogo de cartas. Quando essa fraude é revelada, ele foge, e Grúchenka logo revela a Dmitri que na verdade está apaixonada por ele. O festim prossegue, e justo quando Dmitri e Grúchenka estão planejando se casar, a polícia entra na estalagem e informa a Dmitri que ele está preso, acusado do assassinato de seu pai. No Livro IX: Investigação preliminar, apresenta os detalhes do assassinato de Fiódor e descreve o interrogatório de Dmitri ao ser interrogado pelo crime que sustenta que não cometeu. O suposto motivo do crime é roubo. Dmitri sabidamente estava sem dinheiro nenhum no início daquela noite, mas subitamente foi visto na rua com milhares de rublos logo após o assassinato do pai. Enquanto isso, os 3 mil rublos que Fiódor Karamázov havia reservado para Grúchenka despareceram. Dmitri explica que o dinheiro que gastou naquela noite veio dos 3 mil rublos que Catierina lhe entregara para que ele enviasse à irmã dela. Ele gastou metade em seu primeiro encontro com Grúchenka — outra bebedeira — e costurou a outra metade num saquinho, pretendendo devolvê-lo a Catierina em nome da honra, ao que diz. Os advogados não se convencem. Todos os indícios apontam contra Dmitri; a única outra pessoa na casa no momento do assassinato era Smierdiakóv, que estava incapacitado devido a um ataque epiléptico que aparentemente sofrera no dia anterior. Como resultado dos indícios esmagadores contra ele, Dmitri é formalmente acusado de parricídio e levado à prisão para aguardar o julgamento. Na Quarta parte o Livro X, começa pela apresentação do menino Kólia Krassótkin. Kólia é um menino brilhante que proclama seu ateísmo, socialismo e crença nas ideias da Europa. Parece destinado a seguir as pegadas espirituais de Ivan Karamázov. Kólia está entediado com a vida e constantemente assusta sua mãe ao se expor ao perigo. Como parte de uma brincadeira, Kólia deita-se entre os trilhos de uma ferrovia enquanto o trem passa por cima e torna-se uma espécie de lenda devido à façanha. Todos os outros meninos respeitam Kólia, especialmente Iliúcha. É aqui que Kólia trava conhecimento com Aliócha e começa a reavaliar suas crenças niilistas. O Livro XI: O irmão Ivan Fiódorovich, relata a influência destrutiva de Ivan Karamázov sobre aqueles à sua volta e sua queda na loucura. É neste livro que Ivan encontra-se três vezes com Smierdiakóv, o encontro final culminando com a confissão dramática de Smierdiakóv de que havia simulado seu ataque epiléptico, assassinado Fiódor Karamázov e roubado o dinheiro, que apresenta a Ivan. Smierdiakóv expressa descrença na pretensa ignorância e surpresa de Ivan. Smierdiakóv alega que Ivan foi cúmplice no assassinato ao informar Smierdiakóv de quando estaria partindo da casa de Fiódor, e principalmente ao inculcar em Smierdiakóv a crença de que em um mundo sem Deus “tudo é permitido”. Termina com Ivan tendo uma alucinação em que é visitado pelo diabo, que atormenta Ivan ao zombar de suas crenças. Aliócha encontra Ivan desvairado e informa-lhe que Smierdiakóv se matou logo após o encontro final deles. O Livro XII: Um erro judiciário, detalha o julgamento de Dmitri Karamázov pelo assassinato de seu pai Fiódor. Os homens na multidão são apresentados como ressentidos e vingativos, e as mulheres sentem-se irracionalmente atraídas pelo romantismo do triângulo amoroso entre Dmitri, Catierina e Grúchenka. A loucura toma conta de Ivan e ele é carregado para fora da sala do tribunal após narrar seu encontro final com Smierdiakóv e a mencionada confissão. O ponto de virada no julgamento é o depoimento condenador de Catierina contra Dmitri. Enfurecida pela doença de Ivan que acredita resultar de seu suposto amor por Dmitri, ela apresenta uma carta escrita por Dmitri bêbado dizendo que mataria Fiódor. A seção se encerra com as observações finais eloquentes do promotor e da defesa, e o veredicto de que Dmitri é culpado. No Epílogo ocorre a discussão de um plano desenvolvido para a fuga de Dmitri de sua sentença de vinte anos de trabalhos forçados na Sibéria. O plano não chega a ser plenamente descrito, mas parece envolver Ivan e Catierina subornando uns guardas. Aliócha aprova, primeiro porque Dmitri não está emocionalmente preparado para se submeter a uma sentença tão dura, segundo porque é inocente, e terceiro porque nenhum guarda ou funcionário seria prejudicado ao ajudar na fuga. Dmitri e Grúchenka planejam fugir para a América e trabalharem como agricultores ali por vários anos, e depois retornarem à Rússia sob nomes americanos falsos, porque ambos não conseguem conceber viverem fora da Rússia. Dmitri implora que Catierina o visite no hospital, onde está se recuperando de uma doença antes de ser enviado à Sibéria. Nessa visita, Dmitri pede desculpas por tê-la magoado; ela por sua vez pede desculpas por ter apresentado a carta acusadora durante o julgamento. O romance termina no funeral de Iliúcha, onde seu amigos ouvem o “Discurso Junto À Pedra” de Aliócha. Este promete lembrar Kólia, Iliúcha, e todos os outros meninos e mantê-los no coração, embora tenha de deixá-los e possa não vê-los de novo até que muitos anos tenham decorrido. Implora que amem uns ao outros e que sempre recordem Iliúcha, mantendo sua lembrança viva em seus corações e lembrando aquele momento junto à pedra quando estiveram todos juntos e amaram uns ao outros. Aliócha então narra a promessa cristã de que um dia se reunirão após a Ressurreição. Chorando, os doze meninos prometem cumprir aquilo que Aliócha lhes pede, dão as mãos e retornam à casa de Snieguirióv para o jantar do funeral, gritando: "Hurra, Karamázov!". Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

UM POEMA – Abra-se, sexo. Abra-se, \ sexo, \ como uma flor que se abre, \ destranque as portas do seu eremitério, deixe \ escapar \ o nadador atormentado, \ desista, não contenha \ seus saltos frágeis, \ abra-se ousadamente, \ como uma varanda que emerge \ e exibe seus gerânios ao ar. \ Desenhe, \ ó poça do crepúsculo, seu mistério. \ Não interrompa a jornada do navegador. \ Não importa que sua despedida \ a fira como um vento norte, \ como um raio de gelo que crava seus fragmentos na pélvis \ Abra-se, sexo, \ torne-se uma cachoeira, \ esqueça sua tristeza. \ Deixe ir a criança \ que vive em seu meio-sonho. \ Abra galantemente \ seus portões quentes \ para este pedaço de mel, \ para este animal que estremece \ como uma brisa, \ para este fruto enrugado \ que mergulhará na luz com êxtase, \ para buscar como uma corça de olhos fechados \ os mamilos do ar, os dois seios do dia. Poema da escritora e atriz costarriquenha Ana Istarú (Ana Soto Marín), autora dos livros Verbo Madre (1995) e La estación de fiebre y otros amaneceres (1991).

 


RESSURRETO DAS ENCRUZILHADAS: O MUNDO DE PERNAS PRO AR! - Nem bem botei os pés na calçada fora da biblioteca para as providências, logo notei um alvoroço de sirenes, viaturas policiais a toda velocidade para lá e para cá, ambulância, o povo na maior correria, pensei comigo: O que teria acontecido? Olhei pros lados e me certifiquei da balbúrdia que as ruas se transformaram. Num ponto de parada uma jovem estava assistindo tudo, atarantada como eu, e lhe perguntei e que tinha havido e soube de chofre: Que foi que houve? Sei lá, sei que ia passando, meio mundo de gente na praça, a polícia chegou, meteu o cacete pra cima, saiu bala, tiro que só, só vi a correria e estou aqui escondida morrendo de medo. Mas o que foi mesmo? Já disse, não sei, quero é ir para casa, não quero morrer não. O negócio estava para lá de problemático, logo um pipoco estourou e corri feito um doido pra resolver minhas coisas. O que me inquietou é que nunca tinha visto tanta polícia na rua, tanto azáfama, uma verdadeira loucura. Nem deu tempo de agradecer à moça a informação que ela me deu e, meio que aturdido com aquilo sem saber o que estava acontecendo, corri pra escola. Lá chegando estava tudo de pernas pro ar, ninguém sabia de nada, mas consegui, por fim da força, saber que a professora Myriam de Magdala havia sido chamada com urgência na Secretaria de Educação para uma reunião emergencial e só retornaria no turno da tarde. Fiquei sem saber o que fazer, pensei em voltar na biblioteca e avisar à professora Lauricélia a respeito, é isso, foi o que resolvi fazer, mas ao chegar na biblioteca, ela já havia saído e a cidade toda estava no maior escarcéu. Resolvi ir para casa, era o melhor a fazer, pois não conseguia concatenar direito as coisas, era uma situação nova, estava tudo de pernas pro ar. No caminho encontrei um grupo reunido ouvindo o noticiário. Parei e fiquei escutando, era a notícia de que a polícia reprimiu uma aglomeração em torno de um comício acabado na bala, tinha morrido uns quatro nisso, outros tantos feridos e um tanto de hospitalizados em estado grave. Ouvi alguém dizer: Não visse o locutor dizer que inclusive o candidato estava hospitalizado, todos sob proteção policial? Ué, se foi a polícia quem desarranjou tudo, como é que pode está protegendo? Sei lá, deixa de fazer pergunta e vamos escutar. Senti um gosto de sangue na língua, algo me dizia que aquele não era um bom momento para zanzar pela rua e resolvi retomar o caminho de casa. Lá chegando, encontrei meu padrinho cabisbaixo, marasmódico além da conta. A cabeça apoiada em uma das mãos. Vi-o assim e cada vez mais constatava que não era um bom momento para perguntas ou conversa, segui, entrei em casa, minha madrinha estava me esperando de braços abertos, meio assustada, com um vexame que a fez me abraçar, dando graças por eu estar vivo, agoniada com a situação. Conduziu-me pro quarto e me disse exaltada: Hoje você não sai de casa, é perigoso estar pelas ruas neste momento. O que houve, madrinha? Você não soube? Ela estava desencontrada! Ela então me explicou e só muitos dias depois é que soube direito: um comício do candidato da oposição encrencando com as autoridades, juntou gente na praça, gritaria e alvoroço, a polícia e os capangas do Coronelão apareceu e acabou tudo embaixo de bala. Coisa mais sem pé nem cabeça, parecia, mas era verdade e juntou muita gente. A polícia não aliviou e foi logo chegando e reprimindo a multidão embaixo das maiores cacetadas. No rebuceteio, morreu um bocado, uns duzentos feridos e outros tantos internados em estado grave, com escoriações que os deixaram molezinhos entre a vida e a morte. No fim das contas, não se apurou nada, os opositores desaparecidos, Mas voltando ao assunto que estava dedicado naquele dia, minha madrinha fechou-se e disse: Vai ficar em casa, aqui comigo e deixe tudo para lá até a poeira baixar. Mas, madrinha, isso não tem nada a ver com a gente! Sim, mas aqui é terra do Coronelão e quando ele está irado não poupa ninguém, nem inocentes, nem com quem não tem nada a ver com a cor da chita, ele simplesmente faz o que quer desde sempre e será assim mesmo para sempre, até o dia que esse desalmado tenha um troço e desapareça de vez da face da terra. Mas enquanto ele viver, a gente tudo corre risco de morrer do nada, é assim as coisas com ele, faz e desmanda e fica tudo por isso mesmo. Mas, madrinha a gente nem sabe se ele tá nisso, além disso tenho que ir na escola pegar a relação dos documentos para providenciá-los e fazer a matrícula no curso, foi o que a professora Lauricélia mandou. E expliquei que fui procurar a professora Myriam de Magdala para pegar a relação deles, mas ela tinha ido para uma reunião de emergência na Secretaria de Educação e que só retornaria de tarde. Você não vai sair de casa! Mas hoje é dia de recomeço das aulas e tenho que fazer a matrícula para o curso. Não vai sair de casa, não me contrarie! Tá certo, madrinha, não sairei. E fique no quarto, você não vê a correria da polícia e o povo todo em polvorosa? Vi, sim. Sempre foi assim, sempre que aparece alguém que quer enfrentar o poderoso, acaba em desgraça, entra e sai ano, de eleição em eleição, nas quatro festas do ano, se alguém empombar metido a cavalo do cão e de se assanhar querendo mudar e reclamar das coisas aqui, é assim, sempre foi e será, então, melhor ficar em casa. Aqui você não está sujeito às loucuras desse povo nem do Coronelão. Fique aí. Vou providenciar o almoço e não saia deste quarto, está ouvindo? Sim, senhora. E saiu. Nunca tinha visto minha madrinha tão transtornada, nunca havia me tratado com rispidez, sempre generosa, carinhosa, terna, foi uma situação nova para mim. Será que ela havia deixado de gostar de mim? É possível. Ela mudou do dia pra noite, até hoje de manhã quando saí, ela se mantinha como sempre, amável. Ontem de noite, repetimos o que sempre fizemos no prazer. Agora ela mudou da água pro vinho, estava implacável, acho que tudo se acabou, não me deixava mais sair de casa, preso no quarto, as coisas acontecendo lá fora e ela ligada no desenrolar das coisas... Veja mais aqui.

 

Imagem: a arte da pintora, desenhista, gravadora e professora brasileira Anita Malfatti (1889-1964). Veja mais aqui e aqui.

E veja mais: É pra ela, Carlos Gomes, Silviane Bellato, a lenda munduruci Quando mandavam as mulheres, Neila Tavares, Heloneida Studart, Maria Esther Maciel, Monica Bellucci, Giuseppe Tornatore, Piet Mondrian, Edwin Landseer & Meimei Corrêa aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
 Imagem Nu, do pintor do Neoclassicismo francês Alexandre Cabanel (1823-1889).

 ELA SUNTUOSAMENTE BELA...

Ela à cadeira, nua e linda, tanto bela, quanto divina. A musa Marie-Clémentine que se foi tragicamente, como a segunda musa qual Vênus renascida, a minha Phédre lânguida, a Cleópatra com os testes venenosos nos prisioneiros, a frágil e melancólica Ophelia shakespeariana, a moabita Ruth, a dramática Thamar, a Catharine, Arabela, a de Keller e de Clermont-Tonnerre, todas elas, amada única.

 Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.



ANNE CARSON, FRANÇOISE VERGÈS, TAHMIMA ANAM & SETÍGONO

    Imagem: Pulsações caósmicas , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Em rota de colisão, a sorte...