DITOS & DESDITOS
O verdadeiro amor não se conhece por aquilo
que exige, mas por aquilo que oferece... Todo mundo pensa que ter talento é uma
questão de sorte; ninguém pensa que sorte pode ser uma questão de talento... Bem-aventurados
aqueles que nos imitam, porque herdarão as nossas faltas...
Pensamento do dramaturgo e produtor
cinematográfico espanhol, Jacinto Benavente (1866-1954), Prêmio Nobel de
Literatura, de 1922.
ALGUÉM FALOU:
Concedo a todos os principiantes o crédito
de os considerar escritores, já que tencionam, para o melhor e para o pior,
arriscar expor à curiosidade pública as suas emoções, o seu íntimo, a sua
atitude para com a vida. As pessoas
sempre se apaixonam por coisas que não podem ter. Eu acho que as pessoas muitas
vezes tentam encontrar através do sexo coisas que são muito mais fáceis de
encontrar de outras maneiras. Não consigo compreender as pessoas que gostam de fazer barulho
e consequentemente receio-as e como as receio, odeio-as. É um círculo vicioso
emocional. Sinto que estou no
deserto com as mãos estendidas e você está chovendo sobre mim. Um brinde de
véspera de ano novo: a todos os demônios, luxúrias, paixões, ganâncias,
invejas, amores, ódios, desejos estranhos, inimigos fantasmagóricos e reais, o
exército de lembranças com as quais luto - que nunca me dêem paz. A justiça que
recebi, devolverei...
Pensamento da escritora estadunidense Patricia
Highsmith (1921-1995). Veja mais aqui, aqui & aqui.
A
LENDA DO GRANDE INQUISIDOR
– [...] Aliócha apenas escolheu um caminho oposto ao de todos os outros. Mal
ele, depois de meditar seriamente, deixou-se fascinar pela convicção de que a
imortalidade e Deus existem, ato contínuo disse naturalmente para si mesmo:
“Quero viver para a imortalidade, e não aceito meio compromisso”. De maneira
exatamente igual, se tivesse resolvido que não existem imortalidade nem Deus,
teria ido juntar-se aos ateus e aos socialistas (porque o socialismo não é
apenas uma questão dos operários ou do chamado quarto Estado, mas é
predominantemente a questão do ateísmo, da encarnação atual do ateísmo, a
questão da Torre de Babel construída precisamente sem Deus, não para alcançar o
céu a partir da terra, mas para fazer o céu descer à terra) [...] A vida
é dor, a vida é medo, e o homem é um infeliz. [...] Hoje o homem ama a
vida porque ama a dor e o medo. [...] Hoje o homem ainda não é aquele
homem. Haverá um novo homem, feliz e altivo. Aquele para quem for indiferente
viver ou não viver será o novo homem. Quem vencer a dor e o medo, esse mesmo
será Deus. E o outro Deus não existirá. - Então haverá uma nova vida, então
haverá um novo homem, tudo novo... Então a história será dividida em duas
partes: do gorila à destruição de Deus e da destruição de Deus... - À mudança
física da terra e do homem. O homem será deus e mudará fisicamente. O mundo
mudará, e as coisas mudarão, e mudarão os pensamentos e todos os sentimentos. -
Matarão o engano. Aquele que desejar a liberdade essencial deve atrever-se a
matar-se. Aquele que se atrever a matar-se terá descoberto o segredo do engano.
Além disso não há liberdade; nisso está tudo, além disso não há nada. - Aquele
que se matar apenas para matar o medo imediatamente se tornará Deus [...] Deem
a todos esses mestres supremos modernos a possibilidade cabal de destruir a
antiga sociedade e de construí-la de novo e isso resultará em caos e escuridão,
em algo tão grosseiro, cego e desumano que todo este edifício irá ruir, sob as
maldições da humanidade, antes mesmo de ser concluído. Uma vez rejeitado
Cristo, a mente humana pode alcançar resultados espantosos. Isso, sim, é um
axioma [...] - Outros têm outro assunto, mas nós, os bisonhos,
precisamos antes de tudo resolver problemas eternos, eis a nossa preocupação.
Hoje toda a Rússia jovem só fala de questões eternas. [...] - Questões
universais, não outra coisa: Deus existe, existe imortalidade? E os que não
acreditam em Deus vão falar de socialismo e de anarquismo, da reconstrução de
toda a sociedade humana segundo um novo princípio, e então só o diabo sabe o
que sairá daí, sempre as mesmas questões, só que vistas de um outro ângulo. E
hoje uma infinidade, dos mais originais rapazinhos russos não fazem outra coisa
a não ser falar de questões eternas [...] Sim, a verdadeira questão
russa: Deus existe ou não, existe imortalidade ou não, ou, como tu dizes, são
questões colocadas de outro ângulo, é claro, as questões primordiais e
prioritárias, e é assim que deve ser [...] Por isso eu te declaro que
aceito Deus com franqueza e simplicidade. Mas eis, entretanto, o que preciso
ressaltar: se Deus existe e ele criou a Terra, então como é de nosso
conhecimento absoluto, ele a criou com base na geometria euclidiana, e criou a
inteligência humana apenas com o conceito das três dimensões do espaço. Por
outro lado, houve e há até hoje geômetras e filósofos, e inclusive dos mais
notáveis, que duvidam de que todo o universo ou, em termos mais amplos, todo o
ser tenha sido criado unicamente com base na geometria euclidiana; eles se
permitem inclusive a fantasia de que duas paralelas, que, segundo Euclides,
jamais poderão encontrar-se na Terra, talvez venham a encontrar-se em algum
lugar do infinito. Eu, meu caro, resolvi que se nem isso consigo compreender,
então quem sou eu para entender o que toca a Deus? Reconheço humildemente que
não tenho nenhuma capacidade de resolver tais problemas, minha inteligência é
euclidiana, terrena, portanto, como iríamos resolver aquilo que não é deste
mundo? Aliás, eu também te aconselho a nunca pensar nisso, amigo Aliócha, e
menos ainda a respeito de Deus: Ele existe ou não? Todas essas questões são
absolutamente impróprias para uma inteligência criada apenas com a noção das
três dimensões. Portanto aceito Deus, e não só de bom grado como, além disso,
aceito sua sabedoria e seus fins, que nos são totalmente desconhecidos,
acredito na ordem, no sentido da vida, acredito na harmonia eterna na qual nós
todos nos fundiríamos, creio no Verbo ao qual aspira o universo, que também “está
em Deus” e é o próprio Deus, etc., etc. e assim sucessivamente no sentido do
infinito. Parece que estou no bom caminho, não? Pois bem, imagina que o resultado
definitivo disso é que eu não aceito esse mundo de Deus e, mesmo sabendo que
ele existe, não o admito absolutamente. Não é Deus que não aceito, entende
isso, é o mundo criado por ele, o mundo de Deus que não aceito e não posso
concordar em aceitar. Faço uma ressalva: estou convencido, como uma criança, de
que os sofrimentos hão de cicatrizar e desaparecer, de que toda a injuriosa
comédia das contradições humanas desaparecerá como uma miragem deplorável, como
uma invencionice torpe de uma inteligência humana euclidiana fraca e pequena como
o átomo, de que, enfim, na consumação do mundo, no momento da eterna harmonia,
acontecerá e aparecerá algo tão precioso que bastará a todos os corações, para
suavizar todas as indignações, para redimir todas as perversidades dos homens,
todo o sangue por eles derramado, chegará para que seja possível não só perdoar
como também compensará tudo o que aconteceu com os homens – oxalá, oxalá tudo
isso aconteça e se revele, mas eu não aceito nem quero aceitar! Oxalá até as
paralelas se encontrem e eu mesmo o veja: verei e direi que se encontraram, mas
ainda assim não aceitarei. Eis a minha essência, Aliócha, eis a minha tese.
[...] Eu queria falar do sofrimento humano em geral, porém é melhor que a gente
se detenha no sofrimento só das crianças. Isso reduz em umas dez vezes a
abrangência de minha argumentação, mas é melhor que falemos apenas das
crianças. Isso não me favorece, é claro. Todavia, em primeiro lugar, podem-se
amar as crianças até de perto, até as crianças sujas, inclusive as feias de
rosto (entretanto, parece-me que as crianças nunca são feias de rosto). Em
segundo, ainda não vou falar dos adultos porque, além disso, eles são
repugnantes e não merecem amor, neles só há vingança: comeram a maçã,
conheceram o bem e o mal e se tornaram “algo como deuses”. Até hoje eles
continuam a comê-la. Mas as criancinhas não comeram nada e por enquanto ainda
não têm culpa de nada. [...] Se elas também sofrem terrivelmente na
Terra, é claro que é por seus pais, elas foram castigadas no lugar de seus
pais, que comeram a maçã – mas esse é um raciocínio de outro mundo,
incompreensível ao coração do homem aqui na Terra. Um inocente não pode sofrer
por outro, e ainda mais um inocente como esse! [...] - Compreendes
quando um pequeno ser, que ainda não tem condição sequer de entender o que se
faz com ele, trancado naquele lugar sórdido, no escuro e no frio, bate com seus
punhozinhos minúsculos no peitinho martirizado e chora suas lágrimas de sangue,
complacentes e dóceis, pedindo ao “Deusinho” que o proteja ali – tu entendes
esse absurdo, meu amigo e para que foi criado? Sem ele, dizem, o homem nem
conseguiria viver na Terra, pois não teria conhecido o bem e o mal. Para que
conhecer esse bem e esse mal dos diabos a um preço tão alto? Sim, porque neste caso
o mundo inteiro do conhecimento não valeria essas lágrimas de uma criancinha
dirigidas ao seu “Deusinho”. Não falo dos sofrimentos dos adultos, estes
comeram a maçã e o diabo que os carregue, e carregue a todos, mas elas, as
crianças! [...] Se todos devem sofrer para com seu sofrimento comprar a
harmonia eterna, o que as crianças têm a ver com isso? É incompreensível por
que elas também teriam de sofrer e por que comprar essa harmonia com seus sofrimentos?
Por que também serviram de material e estrumaram com sua vida a futura harmonia
para não sei quem? A solidariedade entre os homens no pecado eu compreendo,
compreendo a solidariedade também no castigo, mas não essa solidariedade com as
criancinhas no pecado, e se a verdade está realmente em que elas são solidárias
com os pais em todos os crimes dos pais, então, é claro, essa verdade não é
deste mundo e eu não a compreendo. Algum brincalhão dirá, talvez, que, seja
como for, a criança há de crescer e ter tempo de pecar, mas acontece que não cresceu
e foi estraçalhada por cães aos oito anos de idade [...] - Revolta? Eu
não gostaria de ouvir essa palavra de tua parte – disse sinceramente Ivan.
Pode-se, talvez, viver com revolta, mas eu quero é viver. Dize-me francamente,
eu te conclamo, responde: imagina que tu mesmo eriges o edifício do destino
humano com o fim de, concluída a obra, fazer as pessoas felizes e finalmente
lhes dar paz e tranquilidade, mas para isto é necessário e inevitável supliciar
uma única e minúscula criaturinha – aquela mesma criancinha que bateu com o
punhozinho no peito – e sobre suas lágrimas não vingadas fundar esse edifício;
tu aceitarias ser o arquiteto em tais condições? Responde e não mintas!
[...] Ele passa calado entre eles com o sorriso sereno da infinita
compaixão. O sol do amor arde em Seu coração, os raios da Luz, da Ilustração e
da Força emanam de Seus olhos e, derramando-se sobre as pessoas, fazem seus corações
vibrarem de amor recíproco. Ele estende as mãos para elas, as abençoa, e só de
tocá-Lo, ainda que apenas em sua roupa, irradia-se a força que cura [...] o
mais terrível tempo da Inquisição, quando, pela glória de Deus, as fogueiras
ardiam diariamente no país [...] - O próprio velho lhe observa que ele
não tem nem o direito de acrescentar nada ao que já dissera antes. Talvez
esteja aí o traço essencial do catolicismo romano, ao menos em minha opinião:
“tu, dizem, transferiste tudo ao papa, portanto, tudo hoje é da alçada do papa,
e quanto a ti, ao menos agora não me apareças absolutamente por aqui, quando
mais não seja não me atrapalhes antes do tempo”. Eles não só falam como escrevem
nesse sentido, os jesuítas pelo menos. Isso eu mesmo li nas obras de seus
teólogos [...] Porque só agora (ou seja, ele está falando evidentemente
da Inquisição) se tornou possível pensar pela primeira vez na liberdade dos
homens. O homem foi feito rebelde; por acaso os rebeldes podem ser felizes? Tu
foste prevenido – diz-lhe -, não te faltaram avisos e orientações, mas não
deste ouvido às prevenções, rejeitaste o único caminho pelo qual era possível fazer
os homens felizes, mas por sorte, ao te afastares, transferiste a causa para
nós. Tu prometeste, tu o confirmaste com tua palavra, tu nos deste o direito de
ligar e desligar e, é claro, não podes sequer pensar em nos privar desse
direito agora. Por que vieste nos atrapalhar? [...] Porque nessas três
questões está como que totalizada e vaticinada toda a futura história humana, e
estão revelados os três modos em que confluirão todas as insolúveis
contradições históricas da natureza humana em toda Terra. Naquele tempo isso
ainda não podia ser tão visível porque o futuro era desconhecido, mas hoje,
quinze séculos depois, vemos que naquelas três questões tudo estava tão
vaticinado e predito, e se justificou a tal ponto, que nada mais lhes podemos
acrescentar ou diminuir [...] Lembra-te da primeira pergunta: mesmo não
sendo literal, seu sentido é este: “Queres ir para o mundo e está indo de mãos
vazias, levando aos homens alguma promessa de liberdade que eles, em sua
simplicidade e em sua imoderação natural, sequer podem compreender, da qual têm
medo e pavor, porquanto para o homem e para a sociedade humana nunca houve nada
mais insuportável do que a liberdade! Estás vendo essas pedras neste deserto
escalvado e escaldante? Transforma-as em pão e atrás de ti correrá como uma
manada a humanidade agradecida e obediente, ainda que tremendo eternamente com
medo que retires a tua mão e cesse a distribuição de seus pães‟. Entretanto, não quiseste privar o homem da liberdade e
rejeitaste a proposta, pois pensaste: que liberdade é essa se obediência foi
comprada com pão? [...] Sabes
tu que passarão os séculos e a humanidade proclamará através da sua sabedoria e
da sua ciência que o crime não existe, logo, também não existe pecado, existem
apenas os famintos? “Alimenta-os e então cobra virtude deles!‟ – eis o que escreverão na bandeira que levantarão contra ti e com a qual teu templo será
destruído [...] No
lugar do teu templo será erigido um novo edifício, será erigida uma nova e
terrível torre de Babel e ainda que esta não se conclua, como a anterior, mesmo
assim poderias evitar essa torre e reduzir em mil anos os sofrimentos dos
homens, pois é a nós que eles virão depois de sofrerem mil anos com sua torre!
Eles nos reencontrarão debaixo da terra, nas catacumbas em que nos esconderemos
(porque novamente seremos objeto de perseguição e suplício), nos encontrarão e
nos clamarão: “Alimentai-nos, pois aqueles que nos prometeram o fogo dos céus
não cumpriram a promessa‟.
E então nós concluiremos a construção de sua torre, pois a concluirá aquele que
os alimentar, e só nós os alimentaremos em teu nome e mentiremos que é em teu
nome que o fazemos. Oh, nunca, nunca se alimentarão sem nós! Nenhuma ciência
lhes dará o pão enquanto eles permanecerem livres, mas ao cabo de tudo eles nos
trarão sua liberdade e a porão a nossos pés, dizendo: “É preferível que nos
escravizeis, mas nos deem de comer‟.
Finalmente compreenderão
que, juntos, a liberdade e o pão da terra em quantidade suficiente para toda e
qualquer pessoa são inconcebíveis, pois eles nunca, nunca saberão dividi-los
entre si! Também hão de persuadir-se de que nunca poderão ser livres porque são
fracos, pervertidos, insignificantes e rebeldes [...] Tu lhes prometeste o pão dos
céus, mas torno a repetir: poderá ele comparar-se com o pão da terra aos olhos
da tribo humana, eternamente impura e eternamente ingrata? E se em nome do pão
celestial te seguirem milhares e dezenas de milhares, o que acontecerá com os
milhões e dezenas de milhões de seres que não estarão em condições de desprezar
o pão da terra pelo pão dos céus? Ou te são caras apenas as dezenas de milhares
de grandes e fortes, enquanto os outros milhões de fracos, numerosos como a
areia do mar, mas que te amam, devem apenas servir de material para os grandes
e fortes? Não os fracos também nos são caros. São pervertidos e rebeldes, mas
no fim das contas se tornarão também obedientes [...] Nós os enganaremos
mais uma vez, pois não deixaremos que tu venhas a nós. É nesse embuste que
consistirá nosso sofrimento, porquanto deveremos mentir. Foi isso que
significou aquela primeira pergunta no deserto, e eis o que rejeitaste em nome
de uma liberdade que colocaste acima de tudo [...] Aceitando os “pães‟ haverias de responder a este tédio humano universal e eterno, tanto de
cada ser individual quanto de toda humanidade em conjunto: “a quem sujeitar-se?‟. Não há preocupação mais constante e torturante para o homem
do que, estando livre, encontrar depressa a quem sujeitar-se. Mas o homem
procura sujeitar-se ao que já é irrefutável, e irrefutável a tal ponto que de
uma hora para outra todos os homens aceitam uma sujeição universal a isso.
Porque a preocupação dessas criaturas deploráveis não consiste apenas em
encontrar aquilo a que eu ou outra pessoa deve sujeitar-se, mas em encontrar
algo em que todos acreditem e a que se sujeitem, e que sejam forçosamente todos
juntos. Pois essa necessidade da convergência na sujeição é que constitui o
tormento principal de cada homem individualmente e de toda a humanidade desde o
início dos tempos. Por se sujeitarem todos juntos eles se exterminaram uns aos
outros a golpes de espada. Criavam os deuses e conclamavam uns aos outros: “Deixai
vossos deuses e vinde sujeitar-se aos nossos, senão será a morte para vós e os
vossos deuses!‟. E
assim será até o fim do mundo, mesmo quando os deuses
também desaparecerem na Terra: seja como for, hão de prosternar-se diante dos
ídolos. Tu o conhecias, não podias deixar de conhecer esse segredo fundamental
da natureza humana, mas rejeitaste a única bandeira absoluta que te propuseram
com o fim de obrigar que todos se sujeitassem incondicionalmente a ti – a
bandeira do pão da terra, e a rejeitaste em nome da liberdade e do pão dos céus [...] Não existe nada mais sedutor para
o homem que sua liberdade de consciência, mas tampouco existe nada mais
angustiante [...] Sem uma sólida noção da finalidade de viver o homem
não aceitará viver e preferirá destruir-se a permanecer na Terra ainda que
cercado só de pães. É verdade, mas vê em que deu isso: em vez de assenhorear-se
da liberdade dos homens, tu a aumentaste ainda mais! Ou esqueceste que para o
homem a tranquilidade e até a morte são mais caras que o livre arbítrio no
conhecimento do bem e do mal? Não existe nada mais sedutor para o homem que sua
liberdade de consciência, mas tampouco existe nada tão angustiante. Pois em vez
de fundamentos sólidos para tranquilizar para sempre a consciência humana, tu
lançaste mão de tudo o que há de mais insólito, duvidoso e indefinido, lançaste
mão de tudo o que estava acima das possibilidades dos homens, e por isso agiste
como que sem nenhum amor por eles – e quem fez isto: justo aquele que veio dar
a própria vida por eles! Em vez de assenhorear-se da liberdade dos homens, tu
multiplicaste e sobrecarregaste com seus tormentos o reino espiritual do homem
para todo o sempre. Desejaste o amor livre do homem para que ele te seguisse
livremente, seduzido e cativado por ti. Em vez da firme lei antiga, doravante o
próprio homem deveria resolver de coração livre o que é o bem e o que é o mal,
tendo diante de si apenas a tua imagem como guia – mas será que não pensaste
que ele acabaria questionando e renegando até tua imagem e tua verdade se o
oprimissem com um fardo tão terrível como o livre arbítrio? Por fim exclamarão
que a verdade não está em ti, pois era impossível deixá-los mais ansiosos e
torturados do que o fizeste quando lhes reservaste tantas preocupações e
problemas insolúveis [...] O homem é mais fraco e foi feito mais vil do
que pensavas sobre ele! Pode, pode ele realizar o mesmo que realizas tu? Por
estimá-lo tanto, agiste como se tivesses deixado de compadecer-se dele, porque
exigiste demais dele – e quem fez isso foi o mesmo que o amou mais do que a si mesmo!
Se o estimasses menos, menos terias exigido dele, e isto estaria mais próximo
do amor, pois o fardo dele seria mais leve. Ele é fraco e torpe [...] E
que culpa têm os outros, os restantes, os fracos, por não terem podido suportar
aquilo que suportaram os fortes? Que culpa tem a alma fraca de não ter
condições de reunir tão terríveis dons? Será que vieste mesmo destinado apenas
aos eleitos e só para os eleitos? E se é assim, então aí existe um mistério e
não conseguimos entendê-lo. Mas se é um mistério, então nós também estaríamos
no direito de pregar o mistério e ensinar àquelas pessoas que o importante não
é a livre decisão de seus corações nem o amor, mas o mistério, ao qual eles
deveriam obedecer cegamente, inclusive contrariando suas consciências. Foi o
que fizemos. Corrigimos tua façanha e lhes demos por fundamento o milagre, o
mistério e a autoridade. E os homens se alegraram porque de novo foram
conduzidos como rebanho e finalmente seus corações ficaram livres de tão
terrível dom, que tanto suplício lhes causara [...] Não estamos contigo,
mas com ele, eis o nosso mistério! Faz muito tempo que já não estamos contigo,
mas com ele, já se vão oito séculos. Já faz exatos oito séculos que recebemos
dele aquilo que rejeitaste com indignação, aquele último dom que ele te
ofereceu ao tem mostrar todos os reinos da Terra: recebemos dele Roma e a
espada de César, e proclamamos apenas a nós mesmos como reis da Terra, os
únicos reis, embora até hoje ainda não tenhamos conseguido dar plena conclusão
à nossa obra [...] a quem sujeitar-se, a quem entregar a consciência e
como finalmente juntar todos no formigueiro comum, incontestável e solidário,
porque a necessidade da união universal é o terceiro e último tormento dos
homens [...] Aceitando esse terceiro conselho do poderoso espírito, tu
terias concluído tudo o que o homem procura na Terra, ou seja: a quem
sujeitar-se, a quem entregar a consciência e como finalmente juntar todos no
formigueiro comum, incontestável e solidário, porque a necessidade da união
universal é o terceiro e o último tormento dos homens. A humanidade, em seu conjunto,
sempre ansiou por uma união forçosamente universal. Houve muitos grandes povos
com uma grande história; no entanto, quanto mais elevados eram esses povos,
mais infelizes, pois compreendiam mais intensamente que os outros a necessidade
de união universal dos homens. Os grandes conquistadores, os Tamerlães e os
Gengis Khan, passaram como um furacão pela Terra, procurando conquistar o
universo, mas até eles traduziram, ainda que de forma inconsciente, a mesma
grande necessidade de união geral e universal experimentada pela humanidade. Se
aceitasses o mundo e a púrpura de César, terias fundando o reino universal e
dado a paz universal. Pois, quem iria dominar os homens senão aqueles que
dominam suas consciências e detêm o seu pão em suas mãos? Nós tomamos a espada
de César e, ao tomá-la te renegamos, é claro, e o seguimos [...] Então
lhe daremos uma felicidade serena, humilde, a felicidade dos seres fracos, tais
como eles foram criados. Oh, nós finalmente os persuadiremos a não se
orgulharem, pois tu os encheste de orgulho e assim os ensinaste a ser
orgulhosos; nós lhes demonstraremos que eles são fracos e que não passam de
míseras crianças, mas que a felicidade infantil é mais doce de que qualquer
outra. Eles se tornarão tímidos, e passarão a olhar para nós e a grudar-se a
nós por medo, como pintinhos à galinha choca. Hão de surpreender-se e
horrorizar-se conosco, e orgulhar-se de que somos tão poderosos e tão
inteligentes que somos capazes de apaziguar um rebanho tão violento de milhares
de milhões [...] Nessa ocasião a besta rastejará até nós, lamberá nossos
pés e nos borrifará com as lágrimas sangrentas que sairão de seus olhos. E montaremos
na besta, e ergueremos a taça, na qual estará escrito: “Mistério‟! É aí, e só aí que chegará para os homens o reino da paz e da felicidade [...] A liberdade, a inteligência livre
e a ciência os porão em tais labirintos e os colocarão perante tamanhos
milagres e mistérios insolúveis que alguns deles, insubmissos e furiosos,
exterminarão a si mesmos; outros, insubmissos porém fracos, exterminarão uns
aos outros, e os restantes, fracos e infelizes, rastejarão até nossos pés e nos
bradarão: „Sim, os senhores estavam com a razão, os senhores são os únicos, só
os senhores detinham o mistério d’Ele, estamos de volta para os senhores,
salvem-nos de nós mesmos‟.
Ao receberem os pães
de nossas mãos, eles, evidentemente,
verão com clareza que os pães, que são seus, que eles conseguiram com as
próprias mãos, nós os tomamos para distribuí-los entre eles sem qualquer
milagre, verão que não transformamos pedras em pães e, em verdade, estarão mais
alegres com o fato de receberem o pão de nossas mãos do que com o próprio pão!
Hão de lembrar-se demais de que antes, sem nós, os próprios pães que eles
mesmos obtiveram transformaram-se em pedras em suas mãos, e quando voltaram
para nós as mesmas pedras se transformaram em pães. Apreciarão demais, demais o
que significa sujeitar-se de uma vez por todas! [...] Hão de tremer sem forças diante
de nossa ira, suas inteligências ficarão intimidadas e seus olhos se encherão
de lágrimas como os das crianças e mulheres, mas, a um sinal nosso, passarão
com a mesma facilidade à distração e ao sorriso, a uma alegria radiosa e ao
cantar feliz da infância. Sim, nós os faremos trabalhar, mas nas horas livres
do trabalho organizaremos sua vida como um jogo de crianças, com canções
infantis, coro e danças inocentes. Oh, nós lhes permitiremos também o pecado,
eles são fracos e impotentes e nos amarão como crianças pelo fato de lhes permitirmos
pecar. Nós lhes diremos que todo pecado será expiado se for cometido com nossa
permissão; permitiremos que pequem, porque os amamos, e assumiremos o castigo
por tais pecados; que seja. Nós o assumiremos e eles nos adorarão como
benfeitores que assumiram seus pecados diante de Deus. E não haverá para eles
nenhum segredo de nossa parte. Permitiremos ou proibiremos que vivam com suas
mulheres e suas amantes, que tenham ou não tenham filhos – tudo a julgar por
sua obediência -, e eles nos obedecerão felizes e contentes. Os mais angustiantes
mistérios de sua consciência – tudo, tudo, eles trarão a nós, e permitiremos
tudo, e eles acreditarão em nossa decisão com alegria porque ela os livrará
também da grande preocupação e dos terríveis tormentos atuais de uma decisão
pessoal e livre [...] E todos serão felizes, todos os milhões de seres,
exceto as centenas de milhares que os governam. Por que só nós, nós que
guardamos o mistério, só nós seremos infelizes. Haverá milhares de milhões de
crianças felizes e cem mil sofredores, que tomaram a si a maldição do
conhecimento do bem e do mal. Morrerão serenamente, serenamente se extinguirão
em teu nome, e no além-túmulo só encontrarão a morte. Mas conservaremos o segredo
e para felicidade deles os atrairemos com a recompensa celestial eterna.
Porquanto ainda que houvesse mesmo alguma coisa no outro mundo, isto, é claro,
não seria para criaturas como eles [...] é absolutamente impossível
haver um tipo fantástico como esse teu inquisidor. Que pecados dos homens são
esses que eles assumiram? Que detentores do mistério são esses que assumiram
uma maldição qualquer para salvar os homens? Onde já se viu tipos assim?
Conhecemos os jesuítas, fala-se mal deles, mas serão assim como estão em teu
poema? Não são nada disso, nada disso... São apenas o exército de Roma para o futuro
reino universal na Terra, com o imperador – o pontífice de Roma à frente...
Esse é o ideal deles, mas sem quaisquer mistérios e tristeza sublime.... O mais
simples desejo de poder, dos sórdidos bens terrenos, da escravização... uma
espécie de futura servidão para que eles se tornem latifundiários... eis tudo o
que eles têm em mente. Talvez eles nem acreditem em Deus. Teu inquisidor
sofredor é mera fantasia... [...] A quem se juntou, a que homens
inteligentes? – exclamou Aliócha quase entusiasmado. - Nenhum deles tem
semelhante inteligência nem tais mistérios e segredos... Todo o segredo deles
se resume unicamente ao ateísmo. Teu inquisidor não crê em Deus, eis todo o seu
segredo! [...] Até que enfim adivinhaste. E de fato é assim, de fato é
só nisso que está todo o segredo, mas por acaso isso não é sofrimento, ainda
que seja para uma pessoa como ele, um homem que destruiu toda a sua vida numa façanha
no deserto e não se curou do amor à humanidade? No crepúsculo dos seus dias ele
se convence claramente de que só os conselhos do grande e terrível espírito
poderiam acomodar numa ordem suportável os rebeldes fracos, “as criaturas
experimentais inacabadas, criadas por escárnio”. Pois bem, convencido disto ele
percebe que precisa seguir a orientação do espírito inteligente, do terrível
espírito da morte e da destruição, e para tanto adotar a mentira e o embuste e
conduzir os homens já conscientemente para a morte e a destruição, e ademais enganá-los
durante toda a caminhada, dando um jeito de que não percebam aonde estão sendo
conduzidos e ao menos nesse caminho esses míseros cegos se achem felizes. E
repare, o embuste é em nome daquele cujo ideal o velho acreditara
apaixonadamente durante toda a sua vida! Acaso isso não é infelicidade? [...]
Eles têm a ciência, e na ciência só aquilo que está sujeito aos sentidos. Já
o mundo do espírito, a metade superior do ser humano, foi rejeitada inteiramente,
expulsa com certo triunfo, até com ódio. O mundo proclamou a liberdade,
sobretudo ultimamente, e eis o que vemos dessa liberdade deles: só escravidão e
suicídio! Porque o mundo diz: “Tens necessidades e por isso satisfaze-as,
porque tens os mesmos direitos que os homens mais ilustres e ricos. Não temas
satisfazê-las e até procura multiplicá-las” – eis a atual doutrina do mundo. É
nisso que veem a liberdade. E o que resulta desse direito à multiplicação das
necessidades? Para os ricos o isolamento e o suicídio espiritual, para os
pobres, a inveja e o assassinato, porquanto esses direitos foram concedidos mas
ainda não se indicaram os meios de satisfazer as necessidades. [...] Compreendendo
a liberdade como a multiplicação e o rápido saciamento das necessidades,
deformam sua natureza porque geram dentro de si muitos desejos absurdos e
tolos, os hábitos e as invenções mais disparatadas. Vivem apenas para invejar
uns aos outros, para a luxúria, a soberba. Dar jantares, viajar, possuir carruagens,
posição social e criados escravos eles já consideram uma necessidade, e para
saciá-la sacrificam até a vida, a honra, o amor ao homem e até se matam se não
conseguem saciá-la. Entre os pobres o não saciamento das necessidades e a
inveja ainda são abafados pela bebedeira. Em breve, em vez do vinho haverão de
embebedar-se com sangue, para isto estão sendo conduzidos. Eu vos pergunto:
esse homem é livre? [...] É por isso que no mundo vem-se extinguindo
cada vez mais a ideia de servir à humanidade, a ideia da fraternidade e da
integridade dos homens, pois, em verdade, essa ideia já está sendo recebida até
com zombaria; porque, como esse escravo se afastaria de seus hábitos, para onde
iria se está tão acostumado a saciar as infinitas necessidades que ele mesmo
inventou? Ele está isolado e pouco se importa com o todo. Eles chegaram a um
ponto em que acumularam objetos demais, porém ficaram com alegria de menos [...]
Então quando é que os senhores erguerão seu edifício e se organizarão com
justiça guiados apenas por sua inteligência, sem Cristo? E se afirmam que eles,
ao contrário, é que caminham para a união, em verdade só acreditam nisso os
mais ingênuos dentre eles. Em verdade há mais fantasia sonhadora neles que em
nós. Pensam organizar-se em forma justa, mas tendo renegado Cristo, acabarão
por dar um banho de sangue no mundo, porque sangue chama sangue, e aquele que
desembainhar a espada à espada morrerá. E se não fosse a promessa de Cristo,
acabariam mesmo exterminando uns aos outros até que restassem dois homens na terra.
E estes dois últimos não conseguiriam deter um ao outro, de sorte que o último
exterminaria o penúltimo e depois a si mesmo. E isto aconteceria não fosse a
promessa de Cristo de que esse tempo seria abreviado em prol dos dóceis e
humildes [...] - Porque toda a vontade passou a ser minha. Será que
ninguém, em todo planeta, depois de ter eliminado deus e acreditado no
arbítrio, não se atreve a proclamar o arbítrio no seu aspecto mais pleno? É o
que ocorre com aquele pobre que recebe uma herança, fica assustado e não se
atreve a chegar-se ao saco por se achar fraco para possuí-lo. Quero proclamar o
arbítrio. Ainda que sozinho o farei [...] Não, sai por aí negando, sem
negação não haveria crítica, e que revista poderia passar sem um „departamento
de crítica? Sem crítica,
só haveria Hosana.
Mas, para viver, só o Hosana não basta, é preciso que esse Hosana passe pelo
crisol da dúvida [...].
Trechos extraídos da obra Os Irmãos Karamázov (34, 2012), do escritor,
filósofo e jornalista russo Dostoiévski (Fiódor Mikhailovitch
Dostoiévski – 1821-1881), na qual critica de forma inteligente os principais
problemas da Rússia do final do século XIX – especialmente a questão da pobreza
e da situação financeira da população russa daquela época. Estes problemas são
descritos por alguns personagens no livro, através de diálogos e narrações, citadas
por causa da experiência pessoal do próprio escritor que viveu em um país em
decadência financeira e sentiu de perto toda a problemática da Rússia czarista.
A obra é dividida em livros: no Livro I: História de uma família, apresenta a
família Karamázov e relata a história de seu passado distante e recente, descrevendo
as personalidades bem diversas dos três irmãos e as circunstâncias que levaram
ao seu retorno à cidade e termina com a misteriosa ordem religiosa dos startzí
a que Aliócha se afeiçoou. O Livro II: Uma reunião inoportuna, começa quando a
família Karamázov chega no mosteiro local, para que o stárietz Zossima possa
agir como mediador entre Dmitri e seu pai Fiódor em seu conflito em torno da
herança de Dmitri. Aparentemente foi ideia do pai, como um gracejo, fazer a
reunião num local tão sagrado na presença do stárietz. Dmitri chega atrasado, e
a reunião logo degenera e apenas exacerba a briga entre Dmitri e Fiódor. Esta
parte também contém uma cena onde o stárietz Zossima consola uma mulher que
chora a morte de seu filho de três anos. A dor da pobre mulher compara-se à
própria tragédia de Dostoiévski com a perda de seu filho jovem Aliócha. O Livro
III: Os lascivos, fornece mais detalhes do triângulo amoroso que irrompeu entre
Fiódor, seu filho Dmitri e Grúchenka. A personalidade de Dmitri é explorada na
conversa entre este e Aliócha, quando Dmitri se esconde perto da casa do pai
para ver se Grúchenka chegará. Nessa mesma noite, Dmitri irrompe na casa do pai
e o ataca, enquanto ameaça voltar e matá-lo no futuro. Também apresenta
Smierdiakóv e suas origens, bem como a história de sua mãe, Lizavieta
Smierdiáschaia. Na conclusão, Aliócha é testemunha da humilhação de Catierina,
noiva de Dmitri, por Grúchenka, resultando num terrível constrangimento e
escândalo para essa mulher orgulhosa. Vem a Segunda parte e o Livro IV:
Mortificações, na qual apresenta uma história secundária que ressurgirá em mais
detalhes adiante no romance. Começa com Aliócha observando um grupo de meninos
atirando pedras em um de seus colegas, o doentio Iliúcha. Quando Aliócha chama
a atenção dos meninos e tenta ajudar, Iliúcha morde o dedo de Aliócha. Mais
tarde fica-se sabendo que o pai de Iliúcha, um capitão reformado chamado
Snieguirióv, foi atacado por Dmitri, que o arrastou pela barba para fora de um
bar. Aliócha logo toma conhecimento dos infortúnios presentes no lar de
Snieguirióv e oferece ao capitão reformado dinheiro como desculpas pelo seu
irmão e para ajudar a esposa doente e filhos de Snieguirióv. Após inicialmente
aceitar o dinheiro com alegria, Snieguirióv atira-o de volta para Aliócha por
orgulho e corre para sua casa. Vem o Livro V: Pró e contra, no qual a ideologia
racionalista e niilista que permeava a Rússia naquela época é defendida e
adoptada entusiasticamente por Ivan Karamázov ao se encontrar com o irmão
Aliócha em um restaurante. No capítulo intitulado "Rebelião", Ivan
proclama que rejeita o mundo que Deus criou porque foi erguido sobre uma base
de sofrimento. No capítulo O Grande Inquisidor, Ivan narra para Aliócha seu
poema imaginado que descreve um líder da Inquisição Espanhola e seu encontro
com Jesus, que retornou à Terra. Aqui, Jesus é rejeitado pelo Inquisidor que o
lança na prisão. O Grande Inquisidor diz que Jesus não deveria ter dado aos
humanos a "carga" do livre arbítrio. Ao final dessas discussões,
Jesus silenciosamente dá um passo à frente e beija o velho homem nos lábios. O
Grande Inquisidor, atônito e comovido, ordena que Ele nunca mais volte ali, e o
solta. Aliócha, após ouvir a história, vai até Ivan e o beija suavemente, com
uma emoção inexplicável, nos lábios. Ivan grita de alegria, porque o gesto de
Aliócha foi tirado diretamente de seu poema. Os irmãos então se despedem. A questão:
Se Deus não existe, tudo é permitido? Contextualiza-se o enredo o qual a
história se passa na cidade de Sevilha,
na Espanha, durante o auge da Inquisição Espanhola, tratando-se de um poema em prosa contado pelo personagem
Ivan Karamázov ao seu irmão mais novo, o noviço Aliôcha, como parte de um debate filosófico sobre o sofrimento humano e
a existência de Deus. Conta-se
que Jesus retorna à Terra
"por um instante", misturando-se à multidão no dia seguinte a uma
grande fogueira (auto de fé) onde dezenas de hereges foram
queimados. O povo o reconhece imediatamente e ele
realiza milagres, como curar cegos e ressuscitar uma menina. O
Grande Inquisidor — um cardeal de 90 anos — observa a
cena, reconhece Jesus e manda guardas prendê-lo em silêncio, pois Ele está
"atrapalhando" a missão da Igreja. À noite, o Inquisidor visita Jesus na cela escura e trava um
longo monólogo (enquanto Jesus apenas escuta e permanece em silêncio): O
Inquisidor acusa Cristo de ter cometido um erro ao rejeitar as três tentações
de Satanás no deserto (o pão material, o milagre/mistério/autoridade, e o poder
temporal dos reinos do mundo). Segundo o Inquisidor, Jesus deu ao homem o livre-arbítrio,
mas superestimou a força humana. Para o cardeal, a liberdade de consciência é o
fardo mais pesado e insuportável para a maioria das pessoas, que preferem a
segurança, o pão de cada dia e a certeza dogmática. O Inquisidor afirma que a
Igreja corrigiu a obra de Cristo. Ao aliar-se a César, ela assumiu o controle,
trocou a liberdade espiritual pela gestão da fraqueza humana, oferecendo milagre,
mistério e autoridade para manter o rebanho seguro e "feliz", mesmo
que à custa de uma ilusão. Quando
o Inquisidor termina de falar, esperando uma réplica ou uma condenação severa,
Jesus se aproxima em silêncio e beija
nos lábios o velho cardeal de
noventa anos. O Inquisidor
fica profundamente abalado ("o beijo lhe arde no coração"), mas não
muda de ideia; ele abre a porta da cela e diz para Jesus ir embora e nunca mais
voltar. Vem o Livro VI: Um monge russo relatando a vida e história do stárietz
Zossima no leito de morte em sua cela. Zossima explica que encontrou sua fé em
sua juventude rebelde, em meio a um duelo, consequentemente decidindo tornar-se
monge. Zossima prega que as pessoas devem perdoar as outras reconhecendo seus
próprios pecados e culpa perante os outros. Explica que nenhum pecado é
isolado, tornando todos responsáveis pelos pecados de seus vizinhos. "Tudo
é como o oceano, tudo corre e se toca, tu tocas em um ponto e teu toque
repercute no outro extremo do mundo".[4]
Zossima representa uma filosofia que responde à de Ivan, que desafiara a
criação de Deus no livro anterior. Na Terceira parte, o Livro VII: Aliócha começa
imediatamente após a morte de Zossima. Acredita-se na cidade, e no mosteiro
também, que os corpos de homens realmente santos são incorruptos, ou seja, não
sucumbem à putrefação. Assim a expectativa em torno do stárietz Zossima é que
seu falecido corpo não se decomponha. A cidade inteira fica chocada quando o
corpo de Zossima não só se decompõe, mas começa o processo quase imediatamente
após sua morte. No primeiro dia, o cheiro do corpo de Zossima já é
insuportável. Para muitos isso põe em dúvida seu respeito e admiração
anteriores por Zossima. Aliócha fica particularmente devastado pela mancha na
imagem de Zossima devido a nada mais que a corrupção de seu corpo morto. Um dos
colegas de Aliócha no mosteiro chamado Rakítin usa a vulnerabilidade de Aliócha
para marcar um encontro entre este e Grúchenka. Contudo, em vez de Aliócha se
corromper, consegue renovar sua fé e esperança com Grúchenka, enquanto a mente
atribulada de Grúchenka começa a trilha da redenção espiritual por sua
influência: eles se tornam amigos próximos. O livro termina com a regeneração
espiritual de Aliócha ao abraçar e beijar a terra fora do mosteiro e chora
convulsivamente até finalmente voltar ao mundo, como instruído por Zossima,
renovado. Vem o Livro VIII: Mítia que trata basicamente da busca desenfreada e
confusa de dinheiro por Dmitri para que possa fugir com Grúchenka. Dmitri deve
dinheiro à sua noiva Catierina e se considerará um ladrão se não devolvê-lo
antes de embarcar em sua busca por Grúchenka. Essa procura louca de dinheiro
leva Dmitri do benfeitor de Grúchenka para uma cidade vizinha atrás de uma
falsa promessa de negócio. Enquanto isso Dmitri morre de medo de que Grúchenka
possa ir até seu pai Fiódor e desposá-lo, porque este já dispõe dos meios
financeiros para satisfazê-la. Quando Dmitri retorna de seu negócio fracassado
na cidade vizinha, acompanha Grúchenka até a casa de seu benfeitor, mas logo
descobre que esta o enganou e saiu de lá cedo. Furioso corre até a casa do pai
com um pilão de cobre na mão, e o espia pela janela. “Odeio a papada dele, o
nariz dele, os olhos dele, sua zombaria desavergonhada. Sinto um asco pessoal.”
Ele arranca o pilão do bolso. Depois ocorre uma descontinuidade na ação, e
Dmitri está subitamente fugindo da propriedade do pai, atingindo o criado
Grigori na cabeça com o pilão com resultados aparentemente fatais. Dmitri é
depois visto atordoado na rua, coberto de sangue, com uma pilha de dinheiro na
mão. Logo fica sabendo que o primeiro amante de Grúchenka retornou e a levou a
uma estalagem em Mókroie, uma aldeia próxima. Ao saber disso, Dmitri enche uma
carroça de comida e bebida e paga por um enorme festim para enfim confrontar
Grúchenka na presença de sua velha paixão, com a intenção de se matar depois ao
alvorecer. O "primeiro e legítimo amor", porém, é um polonês rude que
trapaceia num jogo de cartas. Quando essa fraude é revelada, ele foge, e
Grúchenka logo revela a Dmitri que na verdade está apaixonada por ele. O festim
prossegue, e justo quando Dmitri e Grúchenka estão planejando se casar, a
polícia entra na estalagem e informa a Dmitri que ele está preso, acusado do
assassinato de seu pai. No Livro IX: Investigação preliminar, apresenta os
detalhes do assassinato de Fiódor e descreve o interrogatório de Dmitri ao ser
interrogado pelo crime que sustenta que não cometeu. O suposto motivo do crime
é roubo. Dmitri sabidamente estava sem dinheiro nenhum no início daquela noite,
mas subitamente foi visto na rua com milhares de rublos logo após o assassinato
do pai. Enquanto isso, os 3 mil rublos que Fiódor Karamázov havia reservado
para Grúchenka despareceram. Dmitri explica que o dinheiro que gastou naquela
noite veio dos 3 mil rublos que Catierina lhe entregara para que ele enviasse à
irmã dela. Ele gastou metade em seu primeiro encontro com Grúchenka — outra
bebedeira — e costurou a outra metade num saquinho, pretendendo devolvê-lo a
Catierina em nome da honra, ao que diz. Os advogados não se convencem. Todos os
indícios apontam contra Dmitri; a única outra pessoa na casa no momento do
assassinato era Smierdiakóv, que estava incapacitado devido a um ataque
epiléptico que aparentemente sofrera no dia anterior. Como resultado dos indícios
esmagadores contra ele, Dmitri é formalmente acusado de parricídio e levado à
prisão para aguardar o julgamento. Na Quarta parte o Livro X, começa pela
apresentação do menino Kólia Krassótkin. Kólia é um menino brilhante que
proclama seu ateísmo, socialismo e crença nas ideias da Europa. Parece
destinado a seguir as pegadas espirituais de Ivan Karamázov. Kólia está
entediado com a vida e constantemente assusta sua mãe ao se expor ao perigo.
Como parte de uma brincadeira, Kólia deita-se entre os trilhos de uma ferrovia
enquanto o trem passa por cima e torna-se uma espécie de lenda devido à
façanha. Todos os outros meninos respeitam Kólia, especialmente Iliúcha. É aqui
que Kólia trava conhecimento com Aliócha e começa a reavaliar suas crenças
niilistas. O Livro XI: O irmão Ivan Fiódorovich, relata a influência destrutiva
de Ivan Karamázov sobre aqueles à sua volta e sua queda na loucura. É neste
livro que Ivan encontra-se três vezes com Smierdiakóv, o encontro final
culminando com a confissão dramática de Smierdiakóv de que havia simulado seu
ataque epiléptico, assassinado Fiódor Karamázov e roubado o dinheiro, que
apresenta a Ivan. Smierdiakóv expressa descrença na pretensa ignorância e
surpresa de Ivan. Smierdiakóv alega que Ivan foi cúmplice no assassinato ao
informar Smierdiakóv de quando estaria partindo da casa de Fiódor, e
principalmente ao inculcar em Smierdiakóv a crença de que em um mundo sem Deus
“tudo é permitido”. Termina com Ivan tendo uma alucinação em que é visitado
pelo diabo, que atormenta Ivan ao zombar de suas crenças. Aliócha encontra Ivan
desvairado e informa-lhe que Smierdiakóv se matou logo após o encontro final
deles. O Livro XII: Um erro judiciário, detalha o julgamento de Dmitri
Karamázov pelo assassinato de seu pai Fiódor. Os homens na multidão são
apresentados como ressentidos e vingativos, e as mulheres sentem-se
irracionalmente atraídas pelo romantismo do triângulo amoroso entre Dmitri,
Catierina e Grúchenka. A loucura toma conta de Ivan e ele é carregado para fora
da sala do tribunal após narrar seu encontro final com Smierdiakóv e a
mencionada confissão. O ponto de virada no julgamento é o depoimento condenador
de Catierina contra Dmitri. Enfurecida pela doença de Ivan que acredita
resultar de seu suposto amor por Dmitri, ela apresenta uma carta escrita por
Dmitri bêbado dizendo que mataria Fiódor. A seção se encerra com as observações
finais eloquentes do promotor e da defesa, e o veredicto de que Dmitri é
culpado. No Epílogo ocorre a discussão de um plano desenvolvido para a fuga de
Dmitri de sua sentença de vinte anos de trabalhos forçados na Sibéria. O plano
não chega a ser plenamente descrito, mas parece envolver Ivan e Catierina
subornando uns guardas. Aliócha aprova, primeiro porque Dmitri não está
emocionalmente preparado para se submeter a uma sentença tão dura, segundo
porque é inocente, e terceiro porque nenhum guarda ou funcionário seria
prejudicado ao ajudar na fuga. Dmitri e Grúchenka planejam fugir para a América
e trabalharem como agricultores ali por vários anos, e depois retornarem à
Rússia sob nomes americanos falsos, porque ambos não conseguem conceber viverem
fora da Rússia. Dmitri implora que Catierina o visite no hospital, onde está se
recuperando de uma doença antes de ser enviado à Sibéria. Nessa visita, Dmitri
pede desculpas por tê-la magoado; ela por sua vez pede desculpas por ter
apresentado a carta acusadora durante o julgamento. O romance termina no
funeral de Iliúcha, onde seu amigos ouvem o “Discurso Junto À Pedra” de
Aliócha. Este promete lembrar Kólia, Iliúcha, e todos os outros meninos e
mantê-los no coração, embora tenha de deixá-los e possa não vê-los de novo até
que muitos anos tenham decorrido. Implora que amem uns ao outros e que sempre
recordem Iliúcha, mantendo sua lembrança viva em seus corações e lembrando
aquele momento junto à pedra quando estiveram todos juntos e amaram uns ao
outros. Aliócha então narra a promessa cristã de que um dia se reunirão após a
Ressurreição. Chorando, os doze meninos prometem cumprir aquilo que Aliócha
lhes pede, dão as mãos e retornam à casa de Snieguirióv para o jantar do
funeral, gritando: "Hurra, Karamázov!". Veja mais aqui, aqui, aqui,
aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.
UM
POEMA – Abra-se, sexo.
Abra-se, \ sexo, \ como uma flor que se abre, \ destranque as portas do seu
eremitério, deixe \ escapar \ o nadador atormentado, \ desista, não contenha \ seus
saltos frágeis, \ abra-se ousadamente, \ como uma varanda que emerge \ e exibe
seus gerânios ao ar. \ Desenhe, \ ó poça do crepúsculo, seu mistério. \ Não
interrompa a jornada do navegador. \ Não importa que sua despedida \ a fira
como um vento norte, \ como um raio de gelo que crava seus fragmentos na pélvis
\ Abra-se, sexo, \ torne-se uma cachoeira, \ esqueça sua tristeza. \ Deixe ir a
criança \ que vive em seu meio-sonho. \ Abra galantemente \ seus portões
quentes \ para este pedaço de mel, \ para este animal que estremece \ como uma
brisa, \ para este fruto enrugado \ que mergulhará na luz com êxtase, \ para
buscar como uma corça de olhos fechados \ os mamilos do ar, os dois seios do
dia. Poema da escritora e atriz costarriquenha Ana Istarú (Ana Soto
Marín), autora dos livros Verbo Madre (1995) e La estación de fiebre
y otros amaneceres (1991).
RESSURRETO DAS ENCRUZILHADAS: O MUNDO DE PERNAS PRO AR! - Nem bem botei os pés na calçada fora da
biblioteca para as providências, logo notei um alvoroço de sirenes, viaturas
policiais a toda velocidade para lá e para cá, ambulância, o povo na maior
correria, pensei comigo: O que teria acontecido? Olhei pros lados e me
certifiquei da balbúrdia que as ruas se transformaram. Num ponto de parada uma
jovem estava assistindo tudo, atarantada como eu, e lhe perguntei e que tinha
havido e soube de chofre: Que foi que houve? Sei lá, sei que ia passando, meio
mundo de gente na praça, a polícia chegou, meteu o cacete pra cima, saiu bala,
tiro que só, só vi a correria e estou aqui escondida morrendo de medo. Mas o
que foi mesmo? Já disse, não sei, quero é ir para casa, não quero morrer não. O
negócio estava para lá de problemático, logo um pipoco estourou e corri feito
um doido pra resolver minhas coisas. O que me inquietou é que nunca tinha visto
tanta polícia na rua, tanto azáfama, uma verdadeira loucura. Nem deu tempo de
agradecer à moça a informação que ela me deu e, meio que aturdido com aquilo
sem saber o que estava acontecendo, corri pra escola. Lá chegando estava tudo
de pernas pro ar, ninguém sabia de nada, mas consegui, por fim da força, saber
que a professora Myriam de Magdala havia sido chamada com urgência na Secretaria
de Educação para uma reunião emergencial e só retornaria no turno da tarde.
Fiquei sem saber o que fazer, pensei em voltar na biblioteca e avisar à
professora Lauricélia a respeito, é isso, foi o que resolvi fazer, mas ao
chegar na biblioteca, ela já havia saído e a cidade toda estava no maior
escarcéu. Resolvi ir para casa, era o melhor a fazer, pois não conseguia
concatenar direito as coisas, era uma situação nova, estava tudo de pernas pro
ar. No caminho encontrei um grupo reunido ouvindo o noticiário. Parei e fiquei
escutando, era a notícia de que a polícia reprimiu uma aglomeração em torno de um
comício acabado na bala, tinha morrido uns quatro nisso, outros tantos feridos e
um tanto de hospitalizados em estado grave. Ouvi alguém dizer: Não visse o
locutor dizer que inclusive o candidato estava hospitalizado, todos sob
proteção policial? Ué, se foi a polícia quem desarranjou tudo, como é que pode
está protegendo? Sei lá, deixa de fazer pergunta e vamos escutar. Senti um
gosto de sangue na língua, algo me dizia que aquele não era um bom momento para
zanzar pela rua e resolvi retomar o caminho de casa. Lá chegando, encontrei meu
padrinho cabisbaixo, marasmódico além da conta. A cabeça apoiada em uma das
mãos. Vi-o assim e cada vez mais constatava que não era um bom momento para
perguntas ou conversa, segui, entrei em casa, minha madrinha estava me
esperando de braços abertos, meio assustada, com um vexame que a fez me
abraçar, dando graças por eu estar vivo, agoniada com a situação. Conduziu-me
pro quarto e me disse exaltada: Hoje você não sai de casa, é perigoso estar
pelas ruas neste momento. O que houve, madrinha? Você não soube? Ela estava desencontrada!
Ela então me explicou e só muitos dias depois é que soube direito: um comício
do candidato da oposição encrencando com as autoridades, juntou gente na praça,
gritaria e alvoroço, a polícia e os capangas do Coronelão apareceu e acabou
tudo embaixo de bala. Coisa mais sem pé nem cabeça, parecia, mas era verdade e
juntou muita gente. A polícia não aliviou e foi logo chegando e reprimindo a
multidão embaixo das maiores cacetadas. No rebuceteio, morreu um bocado, uns
duzentos feridos e outros tantos internados em estado grave, com escoriações
que os deixaram molezinhos entre a vida e a morte. No fim das contas, não se
apurou nada, os opositores desaparecidos, Mas voltando ao assunto que estava
dedicado naquele dia, minha madrinha fechou-se e disse: Vai ficar em casa, aqui
comigo e deixe tudo para lá até a poeira baixar. Mas, madrinha, isso não tem
nada a ver com a gente! Sim, mas aqui é terra do Coronelão e quando ele está
irado não poupa ninguém, nem inocentes, nem com quem não tem nada a ver com a cor
da chita, ele simplesmente faz o que quer desde sempre e será assim mesmo para
sempre, até o dia que esse desalmado tenha um troço e desapareça de vez da face
da terra. Mas enquanto ele viver, a gente tudo corre risco de morrer do nada, é
assim as coisas com ele, faz e desmanda e fica tudo por isso mesmo. Mas,
madrinha a gente nem sabe se ele tá nisso, além disso tenho que ir na escola
pegar a relação dos documentos para providenciá-los e fazer a matrícula no
curso, foi o que a professora Lauricélia mandou. E expliquei que fui procurar a
professora Myriam de Magdala para pegar a relação deles, mas ela tinha ido para
uma reunião de emergência na Secretaria de Educação e que só retornaria de
tarde. Você não vai sair de casa! Mas hoje é dia de recomeço das aulas e tenho
que fazer a matrícula para o curso. Não vai sair de casa, não me contrarie! Tá
certo, madrinha, não sairei. E fique no quarto, você não vê a correria da
polícia e o povo todo em polvorosa? Vi, sim. Sempre foi assim, sempre que
aparece alguém que quer enfrentar o poderoso, acaba em desgraça, entra e sai
ano, de eleição em eleição, nas quatro festas do ano, se alguém empombar metido
a cavalo do cão e de se assanhar querendo mudar e reclamar das coisas aqui, é
assim, sempre foi e será, então, melhor ficar em casa. Aqui você não está
sujeito às loucuras desse povo nem do Coronelão. Fique aí. Vou providenciar o
almoço e não saia deste quarto, está ouvindo? Sim, senhora. E saiu. Nunca tinha
visto minha madrinha tão transtornada, nunca havia me tratado com rispidez,
sempre generosa, carinhosa, terna, foi uma situação nova para mim. Será que ela
havia deixado de gostar de mim? É possível. Ela mudou do dia pra noite, até
hoje de manhã quando saí, ela se mantinha como sempre, amável. Ontem de noite,
repetimos o que sempre fizemos no prazer. Agora ela mudou da água pro vinho,
estava implacável, acho que tudo se acabou, não me deixava mais sair de casa,
preso no quarto, as coisas acontecendo lá fora e ela ligada no desenrolar das
coisas... Veja mais aqui.
Ela à cadeira, nua
e linda, tanto bela, quanto divina. A musa Marie-Clémentine que se foi
tragicamente, como a segunda musa qual Vênus renascida, a minha Phédre
lânguida, a Cleópatra com os testes venenosos nos prisioneiros, a frágil e
melancólica Ophelia shakespeariana, a moabita Ruth, a dramática Thamar, a
Catharine, Arabela, a de Keller e de Clermont-Tonnerre, todas elas, amada
única.



