domingo, março 06, 2016

A MORTE E A MORTA



A MORTE E A MORTA

Luiz Alberto Machado

As mãos trêmulas de João Albano seguravam a xícara de café. Juliana, gasguita e inexcrupulosamente ensaiava severa reclamação pela procedência dele de haver chegado alta hora da noite. As mãos nos quartos e a cara de poucos amigos dela, ingresiava inexorável pelando a alma e a vergonha do sujeito mole. E estava tudo certo, no pensar dele, e conferindo direitinho ela tinha lá suas razões. Afinal, dera motivos para tanto vez que chegara exatamente às duas e meia da manhã, oriundo de duvidosa noite. Por isso ela ampliava aquela lamurienta situação vexatória com alguns dos seus prediletos palavrões, daqueles capazes de destronar Deus e o diabo num tom bastante provocador. Eram xingamentos, ameaças, lamúrias, gastando saliva sob a honrosa justificativa de desprotegida na situação, decepcionada com o comportamento dele agora, depois de tantos anos casados. Aquilo tudo remoía por dentro como uma cólica aguda extirpando as intimidades. A voz dela batia fundo nas suas entranhas, assanhando os nervos, alfinetando a pleura, furando os tímpanos, revirando seu íntimo metabolismo. E quando ela pegava forte arrepiava até na lua. Mais fosse e mais teria o que desonrar.

João mesmo assim ficava impassível, ressacado, absôrto, nada ouvia; ele até já sabia que não adiantaria nada revidar aqueles impropérios. Assim era, assim tinha de ser: - eu hem?

Em seu sermão Juliana justificava o quiprocó em que se metera, em confiar naquele homem, antes tão solícito, tão compreensivo, tão caseiro, tão merecedor do casamento e naquele bolo lindo na cerimônia, na igreja, nos aparatos, grinaldas, nas porta-alianças, os padrinhos, o festival de arroz, jurando amor e fidelidade para todo o sempre, amém, revelando ali que um nascera para o outro, representados pelas duas imagens, a de São Lúcio e Santa Bona, os bem casados, ela tal qual a santa com o queijo na mão direita e ele o santo com uma faca para partirem no céu o queijo da castidade. Ela reivindicava hoje o João Albano de ontem, um homem diferente, igual aquele romântico de antes, enamorado, atencioso. Mas não, hoje era outro metido com as de saias soltas, perdidas nos antros da safadeza, não ligando mais para ela, cadê aquele homem tão sonhado dos anos de namoro? Cadê-lo? Evanesceu-se. Verdade, ele era um outro, não mais aquele de antes. Ela, também, descabelada, subtraída, faltando um pedaço de tudo, posses tivesse estava nas mãos de um analista, se culpando, gorducha, desperançada, destrambelhada.

Terminada a ceia matinal, João levantara-se até a porta para espreitar o panorama ali fora, acendendo um cigarro, dando-lhe umas baforadas espertas, construindo suas ilusões na fumaça, se perdendo no tempo e no espaço, desintonizado dali, de férias das chateações.

Os resmungos continuavam da parte de Juliana, que de lá para cá, no interior do quarto, da cozinha, do banheiro, sempre renovando seu repertório de pacutia. Ele, ao contrário, continuava fumando em silêncio absoluto, ouvido para nada. 


Afastando-se da porta, ele arrastou os chinelos até o banheiro onde depositou no amaro bocão uma baita diarréia, fruto da cachaçada noturna no bar do Dudé com porrinha, mão-de-vaca, caldinho, dominó, baralho e regados a uma boa dosagem de aguardente da mais original da redondeza, divertindo a ideia. Estava desaranjado, o corpo e o destino, tudo desapontado. E não havia fio de prumo que endireitasse aquela desavença. Tudo troncho, desinretado, torto. Nem ânimo possuía para recolocar as coisas em seu devido lugar. Deixa estar, tudo, com o tempo, se acomoda. Vamos ver no que dá, pensava.

Agora o momento era outro, ressacado, se acabando pelo fundo feito panela, pensando sugerir à mulher que lhe fizesse um chazinho de boldo, tencionando sanear os intestinos e o fígado, pois que de instante em instante era cada cólica de arrepiar qualquer seboso já vestindo casaca de infiel. Pensou mais uma vez e sequer ousou a solicitação uma vez que os disparates prosseguiam agora do fundo do quintal. Um verdadeiro boi de fogo.

- Aquela quenga! –, repudiou implacavelmente Juliana – tenho certeza que ele tava com aquela safada, mas destá, destá.

Juliana já desconfiava da safadeza dele em conluio com Marildita, uma cabocla tesuda das terras da vizinha cidade Água Barrenta, tirando-lhe o sossego do lar.

- Só pode ter mulher nesse meio, só pode ser isso! Não acredito que um homem passe a tarde inteira entrando pela noite, madrugada adentro, fora de casa, sem nada fazer, inda mais dizendo que tava trabalhando, ora, só pode ser mulher balançando saia por perto! Tem rabo de saia nessa história! -, reclamava ela enquanto espatifava os bisquís no chão, não se cansando da injúria que crescia em denúncias avassaladoras e João mantendo-se impassível, pensando apenas nas vendas, nas trocas pelos  engenhos oficializando seu sustento e a sua profissão de prestamista, um ambulante que oferecia e comprava de tudo. Quando não dava expediente na feira, era pelos engenhos oferecendo brebotes, bugigangas e utensílios por preços razoáveis e condições elásticas de pagamentos; trocando tudo, comprando o impossível e vendendo o inexplicável. O seu caderninho registrava toda transação e, vez por outra, conferia as anotações totalizando créditos e lucros. Empertigava-se toda vez que concluídas as contas observava que o lucro previsto já se havia consumido. Quanto mais trabalhava mais ficava devendo e o preço de uma compra hoje, corrigida em cem ou duzentos por cento, não dava para adquirir a mesma mercadoria amanhã pois que já se reajustara de acordo com a sua impossibilidade. Injuriado alegava sustentar os comerciantes com o seu próprio suor; aborrecera-se com esta conclusão. Irado, contou um molho de dinheiro, depositando o correspondente à feira da semana num jarro, separando umas notas para o bolso e destinando outras tantas para um presente para Juliana, atitude que não tomava ao longo de anos, aliás, desde que se casara que nunca presentiara nada além de si próprio, assim se julgara. Presenteá-la agora, claro, com o objetivo de lhe diminuir a fúria e conseguir a anuência para dar uma saidinha, escapulida até os braços da Marildita. Então, chamou Juliana a um canto, contou as cédulas e fez-lhe o tencionado. No inicio ela fitou o dinheiro com asco, não dizendo nada. Depois, pensando melhor, deu-lhe um bote, escondendo-o no porta-seio com um meio sorriso e um silêncio consagrador. Suborno praticado, João se passou por incólume na situação, ligou o rádio sentando-se na cadeira de balanço da sala e danou-se a pensar. Viajava nas cantigas do tempo do ronca nas ondas radiofônicas. Nostalgia, um ôco no peito. Um afã de aprumar apesar dos revezes. Nada. Juliana por sua vez estava entre aborrecida e feliz, arrependida pelas palavras ásperas que havia dirigido ao seu marido, mas ele só fazia a vez de presenteador quando havia despeita entre ambos e sabia que ele só tinha feito aquilo para enganá-la, para acalmá-la, enrolá-la na maior das arteirices de um condenado seboso filho de uma égua. João conseguia sempre encetar esse tipo de malabarismo, confiante de que assim nunca sentiria o assalto de qualquer embaraço e, para tanto, armava-se de todas as cautelas e precauções possíveis e imagináveis, salvando-se das suspeitas, desconfianças e maledicências para o seu lado. Àquela hora pensava em Marildita, jeitosa e cobiçada, tinha que levar a obrigação da semana para que outro não lhe assaltasse em surpresa e, ao mesmo tempo, fazer uma sacanagenzinha embaixo do lençol saciando sua sede. Isto ocupava seu pensamento por horas em coloridas imagens que fabricava na sua indisposição de pensar em algo mais sério de maior proveito para a sua vida.

Bastaram duas dúzias de palavras mais alguns motivos esdrúxulos para convencer a mulher de que precisava sair para realizar um negócio qualquer na cidade. A abestalhada engolia a conversa mole. Assim dito, assim feito.

Já estava ele embarcando de cara lisa rumo a Água Barrenta e lá se encontrando com a desejada dos seus sonhos, repleta de luxúria e concupiscência. Marildita estava como nunca, decotada, arrumada, vitaminada e apetitosa. Nem pensou duas vezes e o saculejo já estava solto no quarto rangendo cama, gemendo corpos; era remexido agoniado, impado sôfrego, buliçoso. Serviço feito, desleixe. Um beijinho na testa, apalpadela na bundinha dela e uma derramada de dinheiro no porta-jóias da pitisqueira, além da certeza de um retorno daqui alguns dias. Mandou-se probo.

Regressando de sua missão, chegou em Alagoinhanduba, uma passadela no bar do Dudé, referencial inesquecível de seus dias para alinhar os planetas, onde ali estavam proseando, jogando ou negaceando em qualquer pedra ou carta, saboreando comidas típicas ou mesmo ingerindo petiscos, tira-gostos e bebidas.

Juliana em casa pensava nos dezenove anos de casados, no exemplo de marido que era João, no primeiro filho, sonho dele, hoje um desmantelo, o menino copiando suas mandingas. Lembrou, certa vez, antes de parir ele trouxe para ela uma raiz de mandrágora e colocou no pescoço da parturiente num colar com um saquinho cheio de pedras de aras dentro para quando a dor do parto chegasse, ensinando a ela segurar numa das mãos o cordão de São Francisco, as orações para Nossa Senhora do Bom Parto, do Bom Sucesso, do Ó, da Conceição, das Dores, dos Anjos, de Lourdes, e das Graças; deixando o cabelo dela crescer, em longos cachos, ofertados à imagem do senhor Bom Jesus dos Passos. Dezenove anos de casados, pensava ele, quinze de putaria e de bar com os mesmos amigos, afora os tres últimos que se ajeitava com Marildita, a mancebia que lhe corría nas vísceras.

Nesses últimos anos conseguira amoldar seus negócios e intenções de forma adequada, obtendo sempre êxito nas investidas, conseguindo se safar da vexatória situação precária sem o menor drama de consciência. Porém, nesses casos, há sempre um dia de urucubaca nas costelas do distinto que desmantela toda engrenagem, deixando-o abilolado, nu com a mão no bolso, assim se dera.

Sob aconselhamento de más línguas e botadores de gosto ruim na comida dos outros, Juliana, conduzida pelo inesperado e sob a ira de todas as traições, pegou em flagrante delito o desejo de João com a mão na botija de Marildita – olha a volta do enterro! – zoada das grandes devido recalcitrância dele, às falações gasguitas da esposa traída, sem acordo, sem lero-lero, na maior pauleira da paróquia e mais o testemunho miúdo de duas centenas de gente curiosa, fuxiqueira, ávida por escândalos, reprovando tudo e empenando a situação pra banda dele. Deu-se de fato. Um rebuliço dos grandes. Desmantelo armado, um seu parente conduziu a chorosa Juliana para casa, enquanto dispersava os interrogadores vizinhos prontos para bisbilhotar o acontecido perguntando de tudo. Até que a situação fora se normalizando e João chegando à sua residência fora assaltado pela surpresa, fugiu-lhe o sangue do corpo, lívido, exangue, não acreditou e, lá estava, em letras garrafais um bilhete: “Fui com meus filhos para longe da sua sujeira. Vou para nunca mais voltar, para nunca mais ter que passar por vergonha tão violenta e para dar paz ao meu coração e a dos meus filhos”.

Assaltado pelo inopinado, os neurônios se escapuliram diante da maior sem saída, o raciocínio de férias e o juízo se escondendo por trás da maior loucura, estarrecido ele instou os vizinhos que não sabiam de nada nem para que lado da venta tenha ela havia tomado e se perdido nas tantas veredas do mundo para que pudesse envidar qualquer perseguição e consequente captura dos seus e dela, ao seu lar sagrado. Inquiriu familiares e nenhuma informação recebera que subsidiasse sua busca. Nada feito. E agora? Que revestrés mais sem propósito, Deus meu? Até das fotos do álbum de família era sumira.

Tres meses passados, cansado de tanto rebuscar cada centímetro do continente como um cão farejador, depois de interrogar os ventos, a chuva e o destino, ficara numa espera ansiosa a qualquer baque de coisa se julgava encontrá-la, desapontado com a certificação de que não seria nada, era a sua imaginação exagerada. E só.

Ao cabo de uns meses depois mudara definitivamente para o convívio estreito com Marildita, esta também não estava para boas recepções, desgostosa ao tomar ciência de que aquele homem a quem dedicara seu amor era comprometido com outra mulher, sem ter a consideração de pelo menos revelar-lhe essa oculta situação civil; e o que é pior: aguçou ciumeira braba nela, aprisionando-o em casa, cheirando sua roupa, fiscalizando sua cueca, procurando marca de batom na gola da camisa ou no lenço, perseguindo perfumes, hálitos e até intenções. Colada que só zagueiro na cacunda de atacante goleador. Marcação cerrada, laço justo.


Passaram-se anos e devido essa ciumeira dizem que ela foi acometida de uma doença que não teve jeito e aos poucos sucumbira de morte instantânea. Desta vez ficara sozinho o nosso João Albano, sem ter a quem recorrer nas noites de frio, nas horas de silêncio, nos cômodos da casa. Na solidão pensava na vida e se condenando pela revolta da mulher de ir-se embora com seus filhos; a outra inventou logo de morrer justo numa hora daquelas sem o menor propósito, merda de vida, tanto trabalhei para ter conforto que na hora agá fico sozinho com a vela na mão sem mar para navegar. - secou tudo! Restava apenas a posse de algumas coisas como duas casas, uma mercearia arrendada e uma bodega num engenho, fruto de vários anos de trabalho e agiotagem. Pensou muito e um estalo veio na ideia: foi ter com o cartório oficializar o falecimento da dita cuja, providenciando o óbito e o sepultamento com todas as honras funerais. Sob tramóia engenhosa, ninguém sabe como, conseguiu que o obituário registrasse o nome da falecida como sendo o de Juliana Pereira de Antão, a esposa legítima que fugira com os filhos. Ocultou sua sujeira num caixão hermeticamente fechado alegando razão de doença contagiosa, organizou tudo direitinho, sem testemunhas, acumulando para si só os bens do casal e procedeu com os últimos rituais do enterro. Foi um plano bastante audaz, o suficiente para usufruir sozinho no inventário, negando a existência de filhos uma vez que eles ainda não haviam sido registrados civilmente, arquitetando subornar todos e conseguir seu intento. Agora viúvo não almejava mais uma vida regular com qualquer inhazinha da beira do rio sem sequer demorar mais de duas semanas esquentando os pés e procurando nova guarida. Virou de uma hora para outra um bom partido para as moças casadouras, virgens encardidas, viúvas ardentes, senhoras adúlteras e meretrizes sonhadoras, além do centro das atenções de debutantes, dondocas, casadas, desquitadas e até beatas que sonhavam com o seu príncipe encantado, nele encarnado pelas posses, jeitão másculo e idade quase já passando no ponto, pois que a nenhuma delas dava trela, seduzindo-as e depois se desfazendo arguto de qualquer compromisso.

Ao longo de dez anos vividos e passados do acontecido, dividiu emoções com putas desbocadas, coroas enxutas, esponsais assanhadas, anciãs depravadas, potrancas e descabeladas, até que uma tuberculose crônica suspendeu sua devassidão, jogando-o nos confins de uma enfermaria hospitalar. Tratara-se e depois perdera um rim, um baço, o apêndice e nunca mais conseguira ser o mesmo. Caducara antes do tempo até que numa tarde de janeiro agonizou sem mais nem menos, de um minuto pro outro, pronto, juntou os pés e nunca mais respirara seus devaneios. Nem parentes ou amigos para prestar-lhe exéquias.

A notícia andou por longe e aguçou a piedade de Juliana que tencionando ainda encontrá-lo com vida, estava disposta a perdoar o passado e cuidar do seu velho como uma mulher solidária. Ela não pensara encontrá-lo com a outra, longe disso, mas sozinho e indefeso, sem ter a quem recorrer e estaria ali, como uma vingança tácita, a dar-lhe uma verdadeira tapa de luva, provando a estirpe de mulher que era. Qual não fora o seu pranto ao encontrá-lo sepultado, condenando-se a si própria a responsabilidade pela vida breve que teve. Suspendendo o choro voltou ao local de origem para satisfazer as exigências da lei, na qualidade de viúva e, para seus filhos, se apossar dos bens materiais deixados pelo defunto. Teve, portanto, com um rábula da província, com o intuito de regularizar aquela situação, deixando tudo preto no branco, legalizando os papéis requerendo seus direitos à justiça quando foi surpreendida pela notícia de que estaria mortinha da silva, vítima de enfermidade incurável há mais de dez anos atrás. Por conta disso, deu-se uma correria no ambiente causando nela um profundo estranhamento.

- Oxente! Que correria mais besta desse povo! Tá tudo doido, tá? © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui e aqui

 Imagem: arte da pintora do Modernismo brasileiro Tarsila do Amaral (1897-1973). Veja mais aqui, aqui e aqui.

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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Imagem: Omphale, do pintor indiano Byam Shaw (1872-1919)
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