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domingo, novembro 08, 2020

MICHAEL SANDEL, CHRISTER HENNIX, KERTÉSZ, ANNE SEXTON, TURGUÊNIEV, MUHAMMAD IQBAL, TORQUATO NETO, CURRIN, DIVA DE FARIA & PAULO DINIZ

 


 

TRÍPTICO DQC: POEMANDANTE, PALAÁVORAS - (Aos acordes da canção Pronta pra cantar, de Caetano Veloso, nas vozes de Nina Simone & Maria Bethânia) – A minha vida à janela, pés no chão ao rés da vida - as nuvens namoram os morros limítrofes e os cobrem com as suas saias brancas por dias sem fim, enquanto o Sol cochila manso com a algazarra dos pássaros que mudam de cor a cada gorjeado, cruzando uns aos outros, num colorido de vida. Sou levado, velovoz minha primaveraneio, chuvoutonal, sai do rio pelo canavial, atravessa a província morracima, quedabaixo, estradependali acolalhures - e a cidade ora é um pastoril com margens opostas aos desaforos e injurias mútuas, quem do cordão encarnado que venha, quem do cordão azul que se vá; ora é a farra pelos quatro cantos de velas, fé e perdição. Ah, essa manada catatônica para lá e para cá noites e dias de finados, feiras e bissextos, provam apenas que o mundo é uma bola e as anedotas e desgraças pairam no ar e aquecem a vida e os sonhos dos munícipes, sempre grados e furiosos, ora com o calor escaldante, ora com o frio das névoas dos terrores. As mulheres, ah, as mulheres, todas sempre radiantes e fogosas no meu coração com sua carne incendiária, elas nem sabem que vão e carregam os olhares de cobiça no desfile delas, impunes e sedentas, como são aprazíveis e talvez a melhor entre as melhores coisas daqui. E os homens, cabeças de fósforos, vivem de alisar o polegar ao anular, coçando os escrotos e pensando que tudo é possível como nos sonhos e pesadelos: vivem de atrapalhar a si e a vida dos outros, quando não mudam de ideia e querem que o curso dos rios siga aos caprichos de forte sobre mais fracos e submissos. Entre os endinheirados devotam comícios de aplausos – meia dúzia de alma penada que amealhou, sabe-se lá como, muque, punho e munheca, e alternam poderes nas quatro festas do ano, feriados e celebrações umbigocentristas. Outros, entre os menos abastados, fazem e desfazem conforme o apadrinhamento e interesse. Entediante, senão desapontador tudo isso. Levanto a vista e o cenário superior é melhor e logo me aparece Torquato Neto da Paupéria: Uma palavra é mais que uma palavra, além de uma cilada. E riu e muito. No meio da sua gaitada frouxa emergiu o poeta e filósofo paquistanês Muhammad Iqbal (1877-1938): A vida é um movimento de assimilação progredindo sem cessar. No seu caminho suprime todos os obstáculos, assimilando-os. A sua essência é a criação contínua de desejos e de ideais. O Eu procura libertar-se eliminando todos os obstáculos à sua passagem. Em parte é livre, em parte é determinado. Numa palavra a vida é um esforço no sentido da liberdade. E rimos muito e muito. Foram embora e me deixaram sozinho apreciando a panorâmica da janela. É hora de ir e lá vou eu Quixote & Bispo do Rosário, almanhã, noitadeus, velavoz galapada & peitaberto: do meu pro seu txai coração.

 


ESSA TAL MERITOCRACIA, QUAL É, HEM? – Curtindo Symphonie op.21 (1928), do compositor austríaco Anton Webern (1883-1945), com a Berliner Philharmoniker, Pierre Boulez conducts (Deutsche Grammophon, 1996) - Sim, sim. No Brasil a educação é uma fôrma! Sim, isso mesmo, todos moldados no que é cristão, militarista, servil e, com aquela sabe como é - de fazer o certo, muito embora aqui o certo seja bastante escuso! Estou com Mark Twain do primeiro ao quinto, dezena, centena e milhar! Principalmente depois do fanatismo do evangélico neopentecostal! E por falar nisso, o que é da meritocracia, hem? Ah, nada melhor que ao livro A tirania do mérito: o que aconteceu com o bem comum? (José Olympio, 2020), do filósofo e escritor estadunidense, Michael J. Sandel: Quem faz sucesso tende a achar que é graças a si mesmo. Destaca ele com todas as letras que A ênfase constante na ascensão individual através da educação superior tinha um insulto implícito: se você não tiver obtido um diploma universitário e se não tiver prosperado na nova economia, seu fracasso é culpa sua. Não há ninguém a quem culpar exceto a você mesmo. Parte do problema é que as elites meritocráticas de hoje em dia sofrem uma falta de humildade. É o que chamo de arrogância meritocrática, e desafiá-la é um primeiro passo importante. E sobre a pandemia? Ele solta na lata: Uma pandemia salienta nossa dependência mútua e exige um alto nível de solidariedade social. À medida que o vírus avançava, ia ficando cada vez mais claro que aqueles que suportavam as cargas mais pesadas e realizavam os maiores sacrifícios, e que sofriam mais perdas de vidas, eram aqueles que tinham sido deixados para trás na prosperidade das últimas quatro décadas. Nem pude digerir direito, chegou logo o Ivan Turguêniev em cima da bucha: As pessoas fracas nunca põem fim a nada – ficam à espera do fim. Se esperarmos o momento em que tudo, absolutamente tudo, esteja pronto, nunca começaremos nada. Sim? Nem tomei fôlego direito e era o Imre Kertész: Não se pode viver a liberdade no mesmo lugar onde se viveu a servidão. Claro, viver é outra forma de nos matarmos a nós próprios: a desvantagem é que é um processo horrivelmente longo. Bombardeio deste, quem sai com o juízo aprumado no meio dos algoritmos & noticiários com suas ideologias de mercado e consumo mundializado, hem? Minha orelha espreita um ninho de pulgas desconfiadas, viu?

 


DO AMOR NOS TEMPOS DE TORTURA & REPRESSÃO – Imagem: arte do artista visual estadunidense John Currin. Curtindo Unbegrenzt (Blank Forms, 2020), da artista sonora, escritora, compositora, filósofa e matemática sueca Catherine Christer Hennix, associada à música drone e filiada ao AI Lab do MIT no final dos anos 70 e mais tarde foi empregada como professora de pesquisa em matemática na SUNY New Paltz - Era ela, como sempre, inusitada no palco do meu coração: Sou Diva, Maria Diva de Faria: Teve uma tortura que aconteceu na véspera do Sete de Setembro. Sei que foi esse dia porque a gente escutava o ensaio das bandas. Me levaram para uma sala com acústica de madeira. Tocava uma música de enlouquecer. Era um som como se estivessem arranhando a parede. A música foi aumentando cada vez mais. Quando eu saí de lá, minha cabeça estava latejando. Por pouco eu não enlouqueci. Lá no DOI-Codi, todo dia eu ia para o interrogatório, e as torturas eram de todas as formas, como na cadeira do dragão, e sempre nua. E eles ameaçavam as pessoas que a gente conhecia. Um dia me chamaram e eu vi o Paulo Stuart Wright encapuzado. Reconheci-o pelo terno que ele estava usando, que fui eu quem tinha dado para ele, e também pela voz. Os torturadores falavam muito das presas, ridicularizavam, gritando para você ouvir. Eram coisas libidinosas, como do tamanho da vagina de uma pessoa que eu conhecia. Uma vez, eles me chamaram para um interrogatório com um homem negro que diziam ser um psicólogo. Isso foi muito tocante para mim, porque é claro que chamaram um homem negro para eu me sentir identificada. Um dia, eles me chamaram no pátio e lá estava o satanás encarnado, o capitão Ubirajara (codinome do delegado de polícia Laerte Aparecido Calandra), apoiado num carro, e um outro ao lado dele em pé, e um bando de homens do outro lado. Ele me pôs para marchar na frente dele, para lá e para cá, para lá e para cá, durante um bom tempo. E os homens falando: “Ô negra feia. Isso aí devia estar é no fogão. Negra horrorosa, com esse barrigão. Isso aí não serve nem para cozinhar. Isso aí não precisava nem comer com essa banhona, negra horrorosa”. E eu tendo de marchar. Imagine só, rebaixar o ser humano a esse ponto… Sim, sou Diva, enfermeira presa e que até hoje não esqueço essas tiranias. Sou também, como ela, Gastone Lúcia, sou Nilda, Izabel, Iara, Rose, Heleny, Marilena, Helena, Labibe e Alceri & todas as Filhas da Dor & dói demais ser viva e mulher! Fui para perto dela, beijei suas pálpebras ensopadas de lágrimas e meu abraço guardou o seu soluço por longo tempo. Depois ela levantou-se e caminhou no meu quarto, tudo cantava ao seu redor, invicta beleza e giravalada certeira que me amparava pelos cantos entre agrados e favores, a sua fome fêmea e a festa do corpo. Depois de zanzar para lá e para cá, acercou-se de mim e recitou a escritora estadunidense Anne Sexton (1928-1974): Viva ou morra, mas não envenene tudo. Eu estou sozinha aqui em minha mente. Não há mapa e não há estrada. Sim, mapas não temos, estradas quaisquer. Para mim, abraçá-la era o mesmo que a sorte de estar vivo diante da deusamante, deusalada, o privilégio de habitá-la e o beijo de sua boca vinho algum revida. Até mais ver.

 

A MÚSICA DE PAULO DINIZ

Meu nome é marca ferrada / Ferrada com sangue e suor / Que o fogo da vida castiga / Castiga sem pena e sem dó / Nos longos caminhos da lida / Mistura de água e pó / Meu nome é marca ferrada / Porteira fechada de quem anda só / Eu chego lá, eu chego lá / Eu chego em cima / No alto da colina / Ninguém vai me derrubar.

É Marca ferrada (1978), música do cantor, locutor, ator e compositor Paulo Diniz, que teve entre seus parceiros Odibar e Juhareiz Correya, e musicou poemas de Drummond, Gregório de Matos, Augusto dos Anjos, Jorge de Lima e Manuel Bandeira. Entre seus álbuns musicais figuram Brasil, brasa, braseiro (1967), Quero voltar pra Bahia (1970), Paulo Diniz (1971), E agora, José? (1972), Lugar Comum (1973), Paulo Diniz (1974), Estradas (1978), É marca ferrada (1978), Canção do exílio (1984), Pegou de jeito (1985) e reviravolta (2004), entre outros. Veja mais aqui, aqui e aqui.

 



terça-feira, maio 29, 2018

CAETANO VELOSO, JUAN JIMÉNEZ, ALFONSINA STORNI, HUIZINGA, CHESTERTON, KÜHNER & GHUHA TÁVORA


MISSIVA RENASCIDA - Imagem: arte do artista visual Ghuga Távora - Amanheço com as zis cores do amor no coração e da janela quase não sobra mais nenhuma delas no cinza de tanto desalento. Acordar é difícil num momento em que tudo é inseguro. Abro a porta e caminho ao derradeiro amor de cidade em cidade, onde sou lá de baixo ou de cima no fogo aceso dos galopes insones pra garimpar a imensidão do céu, com o perfume de incenso de estranha casa flutuante na frieza dos que se escondem pra se safar do que causam aos sofrimentos alheios e a se perguntar o que fazer numa hora dessas, mais dia, menos dia, a avalanche do desespero catatônico. Sigo entre estrondos e migalhas e não sabia por onde o morro trêmulo no meio da curva com grilhões de ferro nas trevas sobre-humanas, a ninguém interessa a minha e a nossa tristeza, quem se importa, pode não mais existir ou sucumbiu deprimido pela inglória de ser vivo num tempo tão sem alma. A audácia de muitos escolheu outros caminhos mais curtos e menos tortuosos, para encherem seus bolsos e nem aí pra mais nada de si e do mundo, não sabem as labaredas queimando seus próprios rastros. As ruas atravessam meu peito pro passo em uma entre tantas direções dos meus pés fugidios, pelas trincheiras de dias terríveis, e despejo a minha alma sem desperdiçar um único afago, mesmo que me submetam ao fuzilamento da discórdia, não haverei de mudar, mesmo que eu seja o alvo do ódio e a minha boca sangre com o espinho da rosa anímica pro coágulo de sangue último na imagem do rosto de pedra no norte gelado, amarrada ao pescoço pelo nó apertado dos horrores na face desfigurada entre flores e ervas oferecidas. Sigo em frente e das minhas vértebras emerge o imigrante coração da via láctea e a mão próxima solta as minhas que se perde com nenhum brilho no teto da noite e nenhuma palavra de dor fosse ouvida de ninguém, mas fui vencido pela cúpula fria dos que abafam o gemido alheio. Quem dera eu fosse os oceanos para ensinar a vida e afugentar a sombra da morte que ameaça e ronda o planeta estremecido. Quem dera da plena manhã tomasse uns versos alegres para o verão de todas as oportunidades paratodos. Quem dera da tarde eu tivesse a primavera das conquistas e distribuísse a quem chegasse. Quem dera da noite eu pudesse ao outro do aprendizado pro descanso e da minha voz fazer coisas possíveis nas flores dos sorrisos das minhas para todas as mãos e me atirar de cabeça pra reinventar a vida no júbilo de ser vivo e poder comungar da festa dos seres e coisas da Terra. Quem dera, um dia mais outro, nem há de esquecer, é a vida. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música do músico, produtor, arranjador e escritor Caetano Veloso & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Se queremos, pois, salvar esta civilização [...] torna-se, sem dúvida, necessário que todos os viventes compreendam bem até que ponto a decadência já avançou [...]. Pensamento extraído da obra Nas sombras do amanhã: diagnóstico da enfermidade espiritual do nosso tempo (Armênio Amado, 1944), do professor e historiador neerlandês Johan Huizinga (1872-1945), que em outra obra L’uomo e la cultura (La Nuova Italia, 1948), expressa que: Nós todos queremos vê-la segura, esta cultura [...] protegida daquela terrível selvageria que em nossa volta se propaga. E nós sabemos que se a cultura deve ser recuperada, isso deve ser a tarefa de nós homens [...]. Veja mais aqui.

MANDANDO VER - A comédia do homem sobrevive à sua tragédia. As falácias não se tornam menos falácias porque se tornaram modas. Costumes são, geralmente, generosos. Hábitos, são quase sempre, egoístas. Acredito que o que realmente acontece na história é o seguinte: o homem idoso está sempre errado; e os jovens estão sempre errados sobre o que está errado. A forma prática que isso toma é a seguinte: enquanto o homem idoso se apega a algum costume estúpido, o homem jovem sempre o ataca, com alguma teoria que se mostra igualmente estúpida. Ultimamente não temos tido boas óperas cômicas, pois, o mundo real tem sido mais cômico que qualquer ópera imaginável. Quando homens instruídos começam a usar a razão, então, geralmente, descubro que eles não a têm. O esteta aspira à harmonia, não à beleza. Se seu cabelo não combina com o purpúreo por do sol, contra o qual ele se posta, ele rapidamente tinge seu cabelo com uma sombra de púrpura. Se sua esposa não combina com o papel de parede, ele se divorcia. O reformador está sempre certo sobre o que está errado. Ele, geralmente, está errado sobre o que está certo. Os primeiros dois fatos que um menino ou menina saudável sentem sobre o sexo são: primeiro que é bonito e depois que é perigoso. Trechos recolhidos de textos publicado no International Lunar Network, escritos pelo escritor, filósofo, dramaturgo, jornalista e crítico de arte inglês, Gilbert Keith Chesterton (1874–1936).

O MENINO E A FONTE – [...] Na aridez abrasada de sol do grande lago poeirento que, por mais leve que se pise, cobre a gente, até os olhos, de branca poeira peneirada, o menino e a fonte formam um grupo risonho e esplêndido, cada qual com a sua alma. Embora ali não haja uma única árvore, o coração, em chegando, se enche de uma palavra que os olhos fixam, gravada no céu azul da Prússia, com grandes letras de luz: OÁSIS. A manhã já tem um calor de sesta e a cigarra chia nas oliveiras, para as bandas do cercado de San Francisco. O sol bate em cheio na cabeça do menino. Ele, porém, distraído com a água, não sente. Estendido no chão, está com a mão sob o jorro vivo, e a água lhe põe na palma um borbotante tesouro de frescura e de graça que seus negros olhos comtemplam em êxtase. Fala sozinho, respira fundo, coça-se aqui e ali, com a outra mão. O tesouro, sempre igual e diferente sempre, desfaz-se às vezes. O menino, então, se retrai, apruma-se, concentra-se para que nem essa pulsação do sangue que, como um espelho que se movesse sozinho, muda a sensível imagem do caleidoscópio, roube à água a primitiva forma surpreendida. Platero, não sei se entenderás ou não o que te digo: mas esse menino tem a minha alma em sua mão. [...]. Trecho extraído da obra Platero e eu (Martins Fontes, 2010), do poeta espanhol e Prêmio Nobel de Literatura de 1956, Juan Ramón Jiménez (1881-1958). Veja mais aqui.

DOIS POEMASPRESSENTIMENTO: Tenho o pressentimento de que viverei pouco. / Esta minha cabeça, semelhante ao crisol, / Purifica e consome. / Mas sem nenhuma queixa, sem nenhum sinal de horror, / Quero para o meu fim que em uma tarde sem nuvens, / Sob o límpido sol, / Nasça de um grande jasmim uma serpente branca / Que doce, docemente, me pique o coração. DOCE TORTURA: Poeira de ouro em tuas mãos foi minha melancolia; / Em tuas mãos compridas esparramei minha vida; / Minhas doçuras às tuas mãos ficaram presas; / Agora sou uma ânfora de perfumes vazia. / Quanta doce tortura quietamente sofrida, / Quando, ferida a alma de tristeza sombria, / Ciente de enganos, eu passava os dias / Beijando as duas mãos que me sugavam a vida! Poemas da poeta argentina Alfonsina Storni (1892-1938).

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da dramaturga, escritora e pesquisadora, Maria Helena Kühner, é autora de diversas obras já destacadas aqui, entre elas Teatro em Tempo de Síntese (Paz e Terra, 1971) e Teatro Popular: Uma Experiência (Francisco Alves, 1974), entre outras. 
Veja mais aquiaqui e aqui.
2º Aberto de Xadrez da Escola Municipal Lauro Chaves & muito mais na Agenda aqui.
&
A arte do artista visual Ghuga Távora
&
Brasil a sério, não ria!, a literatura de Manuel Scorza, o cinema de Michelangelo Antonioni, Fecamepa, a arte de Marina Abramovic, Andrey Kuzmin & Vitor Loli aqui.
 

quarta-feira, fevereiro 21, 2018

JOSÉ PAULO PAES, ANAÏS NIN, VYGOTSKY, CAETANO VELOSO & MARIA BETHÂNIA, JORGE LARROSA, EDUARDO AFONSO VIANA & ESTATUTO DA PESSOA COM DEFICIÊNCIA

E SE NADA ACONTECESSE... NADA VALERIA! – Imagem: Revolta das bonecas (1916), do pintor português Eduardo Afonso Viana (1881-1967). - UMA: O QUE FEZ OU DEIXOU DE FAZER – No princípio era a escuridão, quanto tempo, não sei, nove meses, ou oito, ou sete, sei lá, sei a porteira do mundo se abriu e à palmada eu chorei, nada sabia o que me reservava, apenas perdia a face de Deus ancorado na dispersão. Para quem merece, era eu um entre milhares ou milhões, outra vida dentro de outras que era a minha e outra e quase dela e quase minha, vencia as madrugadas, renovado a cada treva, cada sombra, de quase não salvar a graça nem a integridade. Eu mesmo me tinha por outro, não sabia, era eu e ela uma coisa só, aos olhos o que não era visto mas que existia e sempre existiu e existirá, não coisa de outro mundo, senão deste mesmo, nem isso sabia, sentia. Em nome da minha própria vida quantos verões invernaram nas primaveras estivaise eu sempre me vesti de mim mesmo, mesmo que me fizessem por outro, a roupa do corpo o que sempre tive por viagens sem volta, sem vestígios e eu seguia o meu e era um caminho contrário ao de todos, a minha própria biografia, minha história fora de todos os moldes, formas e fórmulas, a minha vida, nada mais. Monarca da minha miséria eu crescia a me rebelar da cegueira e da surdez por barulhentas travessias, a me perder no meio da paixão, povoado de sonhos e lendas, e a imaginação miúda sabia o que nunca foi lido, escondido por trás de toda obviedade. Procurei a tomada do êxito, não era, era mastigando caligens, exumando o passado entre alguns mansos e tantos zangados, poucos lembram, muitos esqueceram e eu falando em voz alta com a solidão, a insólita imagem do meu próprio rosto e eu na minha desolação mais via a face de Deus, quando o meu poema saiu do sótão e foi pro inferno: o preço da liberdade. Fui capaz de atiçar o ímpeto da carne e sem medir palavras o alarme geral me denunciou e me vi sujeito a choques enquanto simulava o anonimato, até ser flagrado pela disciplina da fôrma, a confusão da dor nas veias a me arrastar, até chegar ao morro alto, tão alto, do frio esquentar os dedos nas estrelas quando tudo era inútil. Até aí eu era tantos e os outros eram em mim invisíveis tomando a vez e o caos para aprender o amor a me aprimorar, rejuvenescer, revitalizar, mas isso era nada, eu também nada no mundo no qual só valia ter e não tinha nada pra vender nem pra trocar, apenas viver. DUAS: SALA DE AULA - Era eu e muitos sequiosos aboletados, olhos às nucas, enfileirados no espaço, quase centena onde só caberia não mais de algumas dezenas, sardinhas na lata, quantos interditos e nenhum pio pra sapiência absoluta deitar imbróglios com seus apodos à queima-roupa e gestos de ordem, sanções de lâmina fria e afiada na fala siderada com suas exegeses menores que suas próprias palavras e seu próprio tamanho diante do nariz e quase ofensa, quem era quem, quem disse o quê e transigir, era a psicologia da manada engolindo todos e qualquer passo em falso já me delatavam desertos, a queda de quem queria ocupar uma porção da vida sem saber ao certo onde ela pudesse estar porque tudo era a torre da derrota no apontamento da ideologia, pra depois se esvair na purgação voluntária e marcas indeléveis, dilacerantes hesitações povoando a mente com a sedutora serpente falante fabricando o desordenado, o desequilibrado, as angústias em não sei quantas páginas do caderno de zis matérias, e a cada sete anos as sombras de insanidade por epifanias até a perda do paraíso, quantas questões e efusões amorosas, hierofanias para tantas impossibilidades, não havia o que aprender, só repetir e decorar, tudo aos pedaços como se fosse a mais poderosa verdade e não era. Assim, desde que o mundo é mundo. Na primeira investida da dúvida: Sai pra lá, lambaio! Em bom português: Te vira, meu! E metia o sarrafo no pomba-lesa e saia arrolando os pormenores do atoleiro por catábases que davam pra morte tomada a prestação, numa raiz quadrada com a prova dos nove para um posto avançado no fim do mundo, cheio de charcos e descampados, mil conjeturas, pelos rodeios pro lamaçal de coisas insensatas, a meter medo de coisas que não fazia a menor ideia, o pavor dos mortos e dos fantasmas com seus horrores de segunda mão e isso era o certo como dois e dois são quaisquer coisas que quisessem os superiores donos da razão e do saber. Para ser franco, nos atalhos do raposário e aos maus conselhos do tinhoso, era dado como caso perdido, um sujeito malcriado e respondão à mercê de tantas esquisitices do tempo de ninguém, até se achava ao direito de mesuras, reprimendas fatais e zombarias pra tonto: Você é doido ou está se fazendo, hem? Ora, faça-me um favor! Davam o que falar, azo para mexericos, ah, cara ou coroa do tempo das cavernas, vigarices, esporros e bisturis morais, quejandos do contra, haja jogo de cintura, cada um com seu cada qual: dialetos, etiquetas, grunhidos, tacapes, manias de assepsia, recriminações, insanidade e amputações, cirurgias de não, suturas de deveres, curativos de enquadramento, quantos naufrágios. Ao soçobrar, um raio nas pálpebras e os sons incomuns das novidades, cenários insólitos, os olhos sabiam ver para desvendar, mas não deixavam, teve que dar um bico nas questões atinentes ao tempo e ao espaço, causa ou efeito, noções intuitivas, afinal tudo é uma teia de relações entre as diversas partes de um todo unificado. Como não era de decorar o ditado nem copiar o escrito alheio de próprio punho por obrigação, havia uma ponta de dignidade e amor próprio e, por opção, escolheu a liberdade e a vida, por conta disso tanto fazia estar no topo do monte ou morrendo afogado numa poça d’água qualquer. TRÊS: A SAIDEIRA DA DESARRUMAÇÃO - Ainda ontem eu vi coisas de hoje em dia: gente revanchista com arrazoado meter o pau no projeto futuro pelo que não amealhou no passado e agora, levar tudo nas coxas sem a menor articulação, falar por falar com carradas de razão, cuspir desavença dono da verdade, chamar na grande o que não sabia por não enxergar um palmo além do nariz, protestar sem vergonha pelo que desdizia, revogar o proposto por entender ao contrário, pleitear o diverso em detrimento do próprio anseio e, surpreendentemente, condenar o próprio interesse por não entender o que defendia, rebelde sem causa pra ser simplesmente do contra e quando o resultado final é o malogro constatado, aí não, ah, quer que todo processo legítimo seja anulado simplesmente porque contrariou tudo que defendia, ou melhor, acusava, ou sei lá o que realmente queria. Ora, ora. Qualquer semelhança não é só mera coincidência como coisa comum no dia a dia. Gente é coisa muito complicada, hem? © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá é dia de especial com o cantor, compositor, músico, produtor, arranjador e escritor Caetano Veloso: Zii & Zie ao vivo, Multishow ao vivo & Circuladô de fulô; e a cantora e compositora Maria Bethânia: O canto do Pajé, Maricotinha ao vivo & Amor festa devoção; & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA – [...] O que somos ou, melhor ainda, o sentido de quem somos,d epende das histórias que contamos e das que contamos a nós mesmos. Em particular, das construções narrativas nas quais cada um de nós é, ao mesmo tempo, o autor, o narrador e personagem principal. Por outro lado, essas histórias são construídas em relação às histórias que escutamos, que lemos e que, de alguma maneira, nos dizem respeito na medida em que estamos comelidos a produzir nossa história em relação a elas. [...]. Pensamento extraído de Tecnologias do eu e educação (Vozes, 1994), do professor e educador Jorge Larrosa. Veja mais aqui

PENSAMENTO & PALAVRA - [...] A relação entre o pensamento e a palavra não é uma coisa mas um processo, um movimento continuo de vaivém, engre a palavra e o pensamento; nesse processo a relação entre o pensamento e a palavra sofre alterações que, também elas, podem ser consideradas como um desenvolvimento no sentido funcional. As palavras não se limitam a exprimir o pensamento: é por elas que este acede à existência... O pensamento e a palavra não são talhados no mesmo modelo: em certo sentido há mais diferenças do que semelhanças entre eles. A estrutura da linguagem não se limita a refletir como num espelho a estrutura do pensamento; é por isso que não se pode vestir o pensamento com palavras, como se de um ornamento se tratasse. O pensamento sofre muitas alterações ao transformar-se em fala. Não se limita a encontrar expressão na fala; encontra nela a sua realidade e a sua forma. Trecho extraído da obra Pensamento e linguagem (Antídoto, 1979), do cientista e psicólogo russo Lev Vygotsky (1896-1934). Veja mais aqui e aqui.

MARIANNE – [...] Essa jovem, Marianne, era pintora, e datilografava à noite para ganhar um dinheiro. Tinha uma aureola de cabelos dourados, olhos azuis, rosto redondo, seios fartos e firmes, mas tinha tendência a ocultar a opulência de seu corpo em vez de exibi-la, de disfarça-la sob trajes boêmios disformes, jaquetas folgadas, saias de colegial, capas de chuva. Ela vinha de uma cidade pequena. Tinha lido Proust, Krafft-Ebing, Marx, Freud. (…) Nada a havia tocado profundamente. Ainda era virgem. Eu podia sentir isso quando ela entrava na sala. Do mesmo modo que um soldado não deseja admitir que está amedrontado, Marianne não queria admitir que era fria, frigida. Mas estava fazendo psicanálise. Trecho extraído de Delta de Vênus (Artenova, 1978), da escritora francesa Anaïs Nin (1903-1977). Veja mais aqui e aqui.

CONVITE - Poesia / brincar com palavras / como se brinca / com bola, papagaio, pião. / Só que / bola, papagaio,pião / de tanto brincar / se gastam. / As palavras não: / quanto mais se brinca / com elas / mais novas ficam. / como a água do rio / que é água sempre nova. / como cada dia / que é sempre um novo dia. / Vamos brincar de poesia? Poema do poeta, ensaísta, jornalista e tradutor José Paulo Paes (1926-1988). Veja mais aqui.

ESTATUTO DA PESSOA COM DEFICIÊNCIA
Art.1 É instituída a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Estatuto da Pessoa com Deficiência), destinada a assegurar e a promover, em condições de igualdade, o exercício dos direitos e das liberdades fundamentais por pessoa com deficiência, visando à sua inclusão social e cidadania. Parágrafo único. Esta Lei tem como base a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência e seu Protocolo Facultativo, ratificados pelo Congresso Nacional por meio do Decreto Legislativo nº 186, de 9 de julho de 2008, em conformidade com o procedimento previsto no § 3º do art. 5º da Constituição da República Federativa do Brasil, em vigor para o Brasil, no plano jurídico externo, desde 31 de agosto de 2008, e promulgados pelo Decreto nº 6.949, de 25 de agosto de 2009, data de início de sua vigência no plano interno. Art. 2º Considera-se pessoa com deficiência aquela que tem impedimento de longo prazo de natureza física, mental, intelectual ou sensorial, o qual, em interação com uma ou mais barreiras, pode obstruir sua participação plena e efetiva na sociedade em igualdade de condições com as demais pessoas. § 1º A avaliação da deficiência, quando necessária, será biopsicossocial, realizada por equipe multiprofissional e interdisciplinar e considerará: I – os impedimentos nas funções e nas estruturas do corpo; II – os fatores socioambientais, psicológicos e pessoais; III – a limitação no desempenho de atividades; e IV – a restrição de participação. § 2º O Poder Executivo criará instrumentos para avaliação da deficiência.
Trechos da Lei nº 13.146/2015 - Estatuto da pessoa com deficiência (Senado Federal/CET, 2015). Veja mais aqui, aqui e aqui.
  
Veja mais:
Existe gente pra tudo!, Vanmegaprana, a escultura de Josefina de Vasconcelos, Todo dia é dia da mulher, a música de Anelis Assumpção, a arte de Harriet Hosmer & Banksy aqui.
Simulacros, Roberto Remiz & Nina Kozoriz aqui.
Bernardo Guimarães, Nina Simone & Darel Valença Lins aqui.
António Damásio, Pierre-Jean de Béranger & Marcia Lailin aqui.
Descartes & Margarethe Von Trotta aqui.
Coelho Neto & Logoterapia aqui.
A poesia de Wystan Hugh Auden, a literatura de Stanislaw Ponte Preta & Anaïs Nin, A música de Francisco Manuel da Silva, A pintura de Alberti Leon Battista, Maria de Medeiros & Luli Coutinho aqui.
Hypatia & Ágora, o filme aqui.
Inesquecível viagem ao prazer & Lucia Helena Galvão Maya aqui.
Proezas do Biritoaldo: Quando a corda arrebenta, a covardia fica de plantão aqui.
O pensamento de Baruch Espinoza aqui, aqui e aqui.
Conversa de pé de ouvido, As presepadas de Doro, Erasmo de Roterdam, O peido & a Educação, Fernando Fiorese, A primavera de Ginsberg, Graciliano Ramos & Alagoas aqui.
A balsa da Medusa aqui.
Meu ensino de Jacques Lacan & Disco Friends aqui.
Antígona de Sófocles aqui.
Reflexões de metido em camisa de onze varas, Ralph Waldo Emerson, Síndrome de Klüver-Bucy, Isaac Newton, Viviane Mosé, Carl Gustav Jung & Sabina Spielrein, Cloltilde de Vaux & Auguste Comte aqui.
Remexendo as catracas do quengo e queimando as pestanas com coisas, coisitas e coisões, Débora Massmann, Boaventura de Souza Santos, Terêncio, O Fausto de Goethe, Ética, Saúde no Brasil & Big Shit Bôbras aqui.
A música de Nando Lauria aqui.
Charles Baudelaire, Gianni Vattimo, Sören Kierkegaard, Tribo Ik, Adriano Nunes & Do individualismo possessivo ao umbigocentrismo da futilidade aqui.
Pobreza aqui.
Paulo Leminski, Mestre Eckhart, Moisés Maimônides, Píndaro, A oniomania & o Shopaholic, Gilton Della Cella & Programa Tataritaritatá aqui.
A explosão do prazer no Recife, Educação, Manoel de Barros, Gaston Bachelard, Luiz Ruffato, John Dewey, Marcelino Freire, Ottto Maria Carpeaux, Armando Freitas Filho & Programa Tataritaritatá aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do pintor português Eduardo Afonso Viana (1881-1967).
Veja mais aqui.

terça-feira, abril 25, 2017

EINSTEIN, CAETANO, RUTH RACHOU, AMOR EM SAMPA & ÁLBUM DE FOTOGRAFIAS

ÁLBUM DE FOTOGRAFIAS - Entre o espelho e a foto, a vida por um fio: do cordão umbilical ao esquecimento, quantas lembranças de menino do quintal nas rodagens de Badalejo: o carro de boi trazia novidades. Quando não, o olho nas fechaduras e nos manequins de mulher nua, quanta correria. parece que foi ontem, paisagens outras: quintais e troços que nem existem mais. A Rua do Rio se perdeu no tempo, o ginásio municipal ainda incendeia o moleque que queria atravessar o rio Una e o Pirangi, o canavial até o pescoço, coisas de mãos dadas e a vista no chão. Ainda sou no carinho de Pai Lula e Carma nos brinquedos da tarde por manhãs e noite, na garupa do cavalo de vô Arlindo e na reinação pela bodega de vó Benita, vou como sou: ambulante de Deus. Tudo era mais que zorra no rádio de pilha colado ao pé do ouvido cantando de tudo e a imaginação na fantasia do artista nos palcos da vida e aplausos. Não menos me metia nas peladas dos campinhos e o perna de pau no futebol como se fosse um craque da seleção de 70. Queria tudo, tudo ao alcance da mão e o reino do faz de conta desde o teatro no colégio, a música na varanda de Gulu, a filosofia nos copos, a vida pelas calçadas das ladeiras, o cinismo bobo de todas as errâncias, a arte a pulso e contra tudo e todos: fragmentos de mim, pedaços de quimeras que ruíram do tédio e das lassidões, simulacros, parafilias. Ah, entre cães raivosos e mugidos, eu seguia a toda pelos matagais entre estampidos, caçotes, mosquitos, piparotes. Muitos alaridos que vinham de longe pras galhofas, pedradas nas vidraças e pés na bunda, maior bagaceira! Coisas que não aprendi a lidar entre moitas, chãs e capoeiras. Seria mané-gostoso, não fossem tantas travessuras e maloqueragens na expectativa do improvável e solos de violas pras aspirações impossíveis, quantos sonhos no horizonte flutuante, esmurrando ventos, chutando lata, olhando pro relógio a hora de ir e achar a tabela periódica um tabuleiro de jogo, a invasão de domicilio por cima do muro, o quase não se conter em si na Festa do Dia 8, presepadas e carrosséis. Dos garranchos pra péssima caligrafia havia o tombo das sentenças, registro de processos e protocolos de intimação – o direito nem passava pela cabeça, um destro cabeça nas nuvens e anjo torto às esquerdas. Quase sempre correria me safando dos pintos na gaveta, as noites insones, as queimações de filme, a fotografia 3x4 e tantas perguntas adivinhando respostas, closes e poses, caras e lugares. Em qualquer esquina eu me valia do que desse com as mulheres da rua, cocô de pombos, louco varrido no meio de pilhérias pelo lamaçal do barro, as rieiras e trilhas no capinzal, o arame farpado e avelois, putas, caboetas e cheleleus. Haja vista os que se foram pra nunca mais, outros se perderam nos atalhos e vielas, amigos que se tornaram inimigos e eu nem sabia disso – a gente nunca se lembra do que faz aos outros, só ao se dar conta de que todos sumiram, ou se afastaram de fininho e não sobrou ninguém pra servir de ombro ou mão em socorro. Parece até que tudo foi pro beleleu, quantas rememorações no travesseiro tentando fugir do Hades, como quem se esquece do ruim e só lembrar das boas no clique do tempo que para pro Dorian Gray. Quantos risos, choros esquecidos, o pior é ter que recuperar o tempo perdido e correr atrás, a reconstrução das perdas nas imagens distorcidas: lembranças vivas nas molduras da memória, sensações recorrentes de que tudo parou, apesar de tudo mudado, déjà-vu: sonhos e pesadelos reais na data da carteira de identidade, bilhetes e cartas perdidas, quantas extraviadas, tantas segredadas que não seguiram pros destinatários, gente da mais alta estima, as recordações e o abandono, eu acho, envelheci. Dentro de mim a criança teima em brincar e fugir. O espelho diz que não, nem vi o tempo passar na condenação de esquecido. Parece que tudo foi ontem, mesmo. Eu nem sabia, até. Ah, se tenho passado é porque vivo, estou perdido e vou adiante. © Luiz Alberto Machado. Veja mais aqui.

AMAR A CIDADE
O musical Amor em Sampa (2016), dirigido por Carlos Alberto Riccelli e Kim Riccelli com roteiro da Bruna Lombardi, vale mais as cinco histórias que transitam com pano de fundo: a campanha de amor à cidade. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.
Alguma coisa acontece no meu coração
Que só quando cruzo a Ipiranga e Avenida São João
É que quando eu cheguei por aqui eu nada entendi da dura poesia concreta de tuas esquinas, da deselegância discreta de tuas meninas.
Ainda não havia para mim Rita Lee, a tua mais completa tradução
Alguma coisa acontece no meu coração
Que só quando cruza a Ipiranga e avenida São João.
Quando eu te encarei frente a frente e não vi o meu rosto
Chamei de mau gosto o que vi, de mau gosto, mau gosto
É que Narciso acha feio o que não é espelho
E à mente apavora o que ainda não é mesmo velho, nada do que não era antes quando não somos mutantes e foste um difícil começo
Afasto o que não conheço e  quem vende outro sonho feliz de cidade
Aprende depressa a chamar-te de realidade porque és o avesso do avesso do avesso do avesso
Do povo oprimido nas filas, nas vilas, favelas
Da força da grana que ergue e destrói coisas belas
Da feia fumaça que sobe, apagando as estrelas
Eu vejo surgir teus poetas de campos, espaços
Tuas oficinas de florestas, teus deuses da chuva
Pan-Américas de Áfricas utópicas, túmulo do samba mas possível novo quilombo de Zumbi e os Novos Baianos passeiam na tua garoa
E novos baianos te podem curtir numa boa.
Sampa, música do álbum Muito – dentro da estrela azulada (Universal Music, 1978) compositor, cantor, produtor, arranjador e escritor Caetano Veloso. Veja mais aqui, aqui e aqui.

Veja mais sobre:
Dois quentes & um fervendo, a poesia de James Joyce, A música viva de Koellreutter & Carlos Kater, a pintura de Jan Sluijters, a arte de Karel Appel, a música de Brahms & Giorgia Tomassi aqui.

E mais:
Exercício de admiração de Emil Cioran, Abril despedaçado de Ismail Kadaré, o teatro de Meyerhold, a arte de Fridha Khalo, a música de Badi Assad, a pintura de Karel Appel, o cinema de Carla Camurati & Marieta Severo, Carlota Joaquina & Clube Caiubi de Compositores aqui.
Doro na Caixa do Fecamepa aqui.
Constitucionalização do direito penal aqui.
Literatura Infantil, a poesia de Hermann Hesse, o teatro de Constantin Stanislavski, Leviatã de Thomas Hobbes, o cinema de Krzysztof Kieslowski & Juliette Binoche, a música de Tom Jobim & Lee Ritenour, Tiquê: a deusa da fortuna, a arte de Bette Davis, a pintura de Jean-Honoré Fragonard & Alexey Tarasovich Markov aqui.
O lado fatal de Lya Luft, a literatura de Marcia Tiburi, Afrodite & o julgamento de Páris, a música de Diana Kral, o teatro de Cacilda Becker & José Celso Martinez Corrêa, o cinema de Krzysztof Kieslowski & Julie Delpys, a arte de Jeanne Hébuterne, a pintura de Débora Arango & Enrique Simonet aqui.
A salvação bidiônica depois da bronca, o pensamento de István Mészarós, Mal de amores de Ángeles Mastretta, Horror econômico de Viviane Forrester, A gaia ciência de Friedrich Nietzsche, a pintura de Auguste Chabaud, a música de Tatjana Vassiljeva, a arte de Lia Chaia & Wesley Duke Lee aqui.
Colocando os pingos nos iiiiis, A teoria da viagem de Michel Onfray, Discurso & argumentação de Débora Massmann, A gaia ciência de Friedrich Nietzsche, Neurofilosofia & Neurociência, a música de Natalia Gutman, a poesia de Viviane Mosé, a fotografia de Cris Bierrenbach, a arte de Mira Schendel, Conversa de bar & filho não reconhece pai & Quando se pensa que está abafando, das duas, uma: ou contraria ou se expõe ao ridículo. Cadê o simancol, meu aqui.
A gente tem é que fazer, nunca esperar que façam por nós, O enigma do artista de Ernest Kris & Otto Kurz, Os catadores de conchas de Rosamunde Pilcher, As viagens de Marco Polo, A gaia ciência de Friedrich Nietzsche, Respeito aos idosos, a música de Silke Avenhaus, a arte de Beth Moyses & Antonio Saura, Os passos desembaraçados nos emaranhados caminhos & Quando os ventos sopram a favor, tudo fica mais fácil aqui.
Que coisa! Quando eu ia, todos já voltavam, a poesia de Sylvia Plath, Estruturas sociais da economia de Pierre Bourdieu, Rede e movimentos sociais de Maria Ceci Misoczky, Gravidez na adolescência de Laura Maria Pedrosa de Almeida, A gaia ciência de Friedrich Nietzsche, a música de Coeur de Pirate, a arte de Luciah Lopez, O feitiço do amor & Quando algo der errado, não adianta chilique: cada um aprende mesmo é com suas escolhas aqui.
No reino da competição todo mundo tem de ser super-homem – o ser humano não é nada, As causas da pobreza de Simon Schwatzman, A crise da educação de Hannah Arendt, a literatura de Abraham B. Yehoshua, Aprender e suportar o equivoco de Clemencia Baraldi, A gaia ciência de Friedrich Nietzsche, A primeira paixão de Ximênia, a música de Ernesto Nazareth & Maria Teresa Madeira, a pintura de Arturo Souto & Mikalojus Konstantinas Ciurlionis aqui.
História da mulher: da antiguidade ao século XXI aqui.
Palestras: Psicologia, Direito & Educação aqui.
A croniqueta de antemão aqui.
Fecamepa aqui e aqui.
Livros Infantis do Nitolino aqui.
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
arte da bailarina, atriz, coreógrafa, diretora e professora Ruth Rachou.
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CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Paz na Terra: Quando agredida, a natureza não se defende: apenas se vinga, pensamento do físico teórico alemão Albert Einstein (1879-1955).
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
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MÁRIO QUINTANA, ANNE BOYER, KATE MANNE & JONES MANOEL

  Imagem: Acervo ArtLAM .   Aroma da memória, flor despetalada... – Bella não era Isabella, a cantora perturbada do Blue Velvet . Nem a...