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quarta-feira, setembro 05, 2018

NICANOR PARRA, JOSUÉ DE CASTRO, OSCAR WILDE, FAUSTO WOLFF, KARITA MATTILA, CAMPANELLA, ILIA POPKHADZE, SALOMÉ & O INCÊNDIO DA BIBLIOTECA


O INCÊNDIO DA BIBLIOTECA – Imagem: The destruction of the Great Library of Alexandria - A Biblioteca Pública de Alagoinhanduba atendia o público no expediente normal e, ao cerrar suas portas de noite, servia de entretenimento para seus fantasmas. Isso era o que todos diziam entre cochichos e ouvidos. Diariamente, ao abrir o atendimento de manhã, estudantes acorriam para realizar seus trabalhos, ou visitas de classes escolares ao acervo, afora a costumeira presença de maníacos que se passavam por bibliófilos, ou de personagens que fugiam das suas histórias para nunca mais dar sinal de vida, ou mitômanos que renovavam seus repertórios em longas consultas, ou obcecados que mais endoidavam com as leituras, ou mortos que não foram avisados e ainda insistiam em achar que estavam vivos, ou malucos que se envultavam entre as páginas para retornarem assumindo a identidade de seus heróis. Assim era todos os dias até o início da noite. Quando davam as vinte e uma horas, era uma correria: não ficava ali ninguém, todos saiam às pressas para não toparem com os famigerados fantasmas que ouviam dizer ali existirem. É que ao longo dos anos a população denunciava que a biblioteca era malassombrada. E diziam que durante toda noite ouvia-se o som do maior festejo. Ninguém tinha coragem de conferir, quem era doido? Tanto é que depois das enchentes que devastaram a cidade, todos iam logo conferir se haviam destruído aquele recinto. Nada, enxurrada que fosse, a cidade quase desaparecia, mas ela ficava, intacta, só com o acervo destruído. O prédio, na verdade, aguentou tsunamis de todo jeito. O acervo, realmente, aniquilado: móveis suntuosos e antigos doados pelo Império e pela elite açucarocrata, registros históricos, descobertas arqueológicas, objetos desconhecidos, discos, gravuras, utensílios folclóricos, livros antigos e luxuosos, fitas de filmes antigos, jornais de antanho, obras e documentos raros, fotos antiquíssimas, quadros, esculturas, artesanato, enfim, tudo aquilo que a população inteira chamava de velharia havia sido sucateado ou surrupiado por sabidos da Administração Pública. Tinha até o disse-me-disse de gente da cidade e de Ribigudo que possuía mobiliários e bibliotecas privadas só com o que sumira do seu acervo. Boato ou não, ninguém perdia tempo em investigar. Pois bem, a exemplo das tantas bibliotecas públicas do Brasil, a de lá também sofria com o descaso da administração: quadro funcional regularmente reduzido, prédio em petição de desabamento, instalações com infiltrações e riscos de curtos nos circuitos elétricos e etc e tal. Foi por conta dessa penúria que, uma noite lá, os fantasmas resolveram tomar conta da situação. Fizeram um levantamento dos problemas e resolveram inicialmente reverter a situação e ajudar os funcionários. O primeiro a chegar ao trabalho, ao deparar com aquela assembleia, saiu na carreira de findar internado num manicômio, repetindo a todo instante: É verdade, tem fantasma na biblioteca! Os demais, aos poucos, mulheres corajosas, mesmo aos sustos e redobrados receios de serem atacadas, comedidamente mantiveram contato com os rebelados e tomaram pé da proposta deles. Como eram duas ou três apenas, aceitaram desconfiadas a colaboração sobrenatural, vez que ao chegarem tudo já estava limpinho e organizado para o início das atividades diárias. Com o passar dos dias já se acostumavam com a intervenção deles no atendimento de crianças e jovens que acorriam ali com dificuldades para pesquisas, ou nas visitas escolares, ou mesmo desavisados que por ali passavam equivocados com o endereço de algo que precisavam. Os assíduos apareciam com um pé atrás, mas logo entraram na roda e se metiam com os alienígenas em contações de históricas, encenações de obras ou mesmo saraus, recitais e serenatas que começavam logo de manhã e duravam a semana inteira por anos. Isso até o dia em que os boatos se avolumaram e arrepiaram fanáticos religiosos que entraram em pé de briga com aquela insolência misteriosa do mundo dos mortos entre vivos. O fato era que, como crianças, jovens e mulheres estreitavam relações com aquele absurdo, logo as religiões correriam o risco de perder esses fiéis entre as suas fileiras, o que levou a um ecumenismo geral que findou num ataque de exorcismo, com o objetivo de expulsar aqueles intrusos. Nada adiantou. A revolta religiosa logo passou do nível razoável para o mais aguerrido, a ponto de se preparar a destruição total daquele despropósito. Foi, então, que contando com o apoio da gestão pública que achava melhor acabar com aquilo do que manter um local cheio de obsoletas tranqueiras, aliado a policiais e gente que sempre odiou estudo, reuniram-se em frente da igreja da matriz e de lá partiram para acabar de vez com aquela farra. Invadiram de forma violenta o recinto, findando por provocar desabamentos ruidosos, resultando num incêndio sem precedentes de restar nem cinzas na memória da população sobre aquela biblioteca. Era uma vez. O fogo queimou com altas labaredas por dias e semanas, até ser tudo consumido de restar apenas um buraco onde antes estava aquele estabelecimento. De peito lavado, a população fez uma festa, comemorou o fim dos abusos sobrenaturais que tanto atormentavam os munícipes mais temerosos, regado a muita roda gigante, montanha russa, bailes e assustados, bebidas e orações. Agora não precisam mais de ler nada, nem lembrar nada, a vida segue como sempre fora: um passeio pelos dias de sol a sol com a noite no meio, nada mais. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música da soprano finlandesa Karita Mattila: Salomé de Richard Strauss, Myrskyluodon Maija, Erwartung op. 17 de Arnold Schönberg & Triunphant Return NYC & muito mais nos mais de 2 milhões & 600 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui, aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA – [...] A fome no Brasil é consequência, antes de tudo, de seu passado histórico, com os seus grupos humanos sempre em luta e quase nunca em harmonia com os quadros naturais. Luta, em certos casos, provocada e por culpa, portanto, da agressividade do meio, que iniciou abertamente as hostilidades, mas quase sempre por inabilidade do elemento colonizador, indiferente a tudo que não significasse vantagem direta e imediata para os seus planos de aventura mercantil. Aventura desdobrada em ciclos sucessivos de economia destrutiva ou, pelo menos, desequilibrante da saúde econômica da nação: o do pau-brasil, o da cana-de-açúcar, o da caça ao índio, o da mineração, o da “lavoura nômade”, do café, o da extração da borracha e, finalmente, o da industrialização artificial baseada no ficcionismo das barreiras alfandegárias e no regime de inflação. É sempre o mesmo espírito aventureiro se iniciando, impulsionando mas, logo a seguir, corrompendo os processos de criação de riqueza no país. É o “fique rico” tão agudamente estigmatizado por Sérgio Buarque de Holanda em Raízes do Brasil, a impaciência nacional do lucro turvando a consciência dos empreendedores e levando-os a matar sempre todas as suas “galinhas de ovos de ouro”. Todas as possibilidades de riqueza que a terra trazia em seu bojo [...]. Trecho extraído da obra Geografia da fome - o dilema brasileiro: pão ou aço (Antares, 1984), do médico, professor catedrático, pensador, ativista político e embaixador do Brasil na ONU, Josué de Castro (1908-1973). Veja mais aqui e aqui.

CIDADE DO SOL – [...] As artes mais fatigantes obtêm maior estima, como a do artífice, a do pedreiro, etc. ninguém se recusa a exercitá-las, porque a elas se aplicam pela particular tendência revelada na infância, e também porque o trabalho é distribuído de modo que nunca possa ser nocivo à pessoa, mas, ao contrário, deve torná-la e conservá-la melhor [...] As mulheres exercem as artes menos pesadas. Todas devem ser hábeis na natação, e reservatórios especiais de água foram preparados não longe da cidade [...] À Cidade do Sol costumam chegar comerciantes das diferentes partes do mundo, que compram dos solares o supérfluo. Os habitantes não recebem dinheiro, mas trocam com as mercadorias de que precisam, sendo que, muitas vezes, também as compram com moedas. Mas, de todo o coração, riem-se os meninos solares ao verem tanta abundância de coisas deixadas por tão poucas bagatelas; não se riem, porém, os velhos. A fim de que a cidade não seja corrompida pelos maus costumes dos servos e dos estrangeiros, fazem todo o comércio nos portos, vendendo os prisioneiros de guerra ou mandando-os para fora da cidade a cavar fossas e para outros trabalhos fatigantes [...] Possuem de tudo com fartura, desejando cada qual mostrar-se o primeiro no trabalho, que não fatiga e é útil. Os seus ânimos são dóceis e assim obedecem a quem preside aos mesteres, chamando-lhe rei. Nem esse nome lhes desagrada, pois é criação dos habitantes solares, que não o entendem à maneira dos ignorantes [...]. Não ofendem ninguém, mas também não toleram injúrias, brigando só quando agredidos. Dizem que o mundo alcançará tanta sabedoria que os homens viverão como eles. Admiram a religião cristã e esperam, neles e em nós, a confirmação da vida dos apóstolos [...]. Trechos extraídos da obra A cidade do Sol (Guimarães, 1980), do filósofo e poeta italiano Tommaso Campanella (1568-1639). Veja mais aqui.

À MÃO ESQUERDA[...] Uma noite de inverno em que o minuano parecia querer cortar as orelhas da gente de tanto frio, ele, que devia ter então uns sete anos, levantou os olhinhos pra mim e perguntou, vozinha triste: “Por que é que isto está acontecendo com a gente?” Rapaz, me deu uma agonia por dentro, como se tivesse vidro quebrado no estômago. Me senti burro, infeliz, miserável e triste. Eu não sabia por que aquilo estava acontecendo com a gente! […] Que Deus ruim é esse que faz uma moça bonita como a minha mãe se casar com um homem bonito como o meu pai, ter noves filhos, para depois matá-la? Por que faz nascer uma criança com o nome de Querido de Deus para depois deixar ele apanhar toda noite, sem um beijo, sem um carinho, sem uma lágrima morna de mulher para confortar a cabecinha dele? [...] Começo falando um assunto, entra outro na minha cabeça, desvio e, quando quero voltar, já esqueci. [...] Para se casar, um rapaz precisa ter pelo menos 480 mil metros quadrados de terra, que recebe do pai ou que vai pagando a ele aos poucos. As filhas, quando se casam, ganham de presente da família um cavalo de montaria, utensílios de cozinha […]. Se o rapaz é pobre, o casal se estabelece em terras devolutas. Irmãos e cunhados solteiros ajudam na preparação da terra e na construção da casa. Logo após o casamento, o casal inicia a vida de colono e procura ter o maior número de filhos. Os homens são mais bem-vindos por causa da força física […]. Em Esperança, a virgindade é fundamental e controlada pela comunidade. [...] Depois que se meteu nesse negócio de escrever, nunca mais teve de suar o couro para ganhar o dinheiro dele. […] A não ser que vocês considerem que escrever é trabalho. [...] Se algum dia alguém ler este meu diário, talvez se espante com o fato de uma colona se expressar tão bem em português. [...] Pronto, já está sorrindo, não é mamãe? É a morfina. Está viciada, não é mesmo? Eu sei que é bom. Já experimentei, sabia? Só que a senhora está morrendo e eu, não. Estou morta, mas não como a senhora. Quem morreu dentro de mim foi a moça que queria ser feliz e a senhora matou. […] Estou com cinquenta e cinco anos, mamãe, e a senhora está morrendo com quase oitenta. Mas não podia deixá-la morrer sem saber quanto a odeio. A senhora, provavelmente, não lembra, mas tive uma oportunidade de ser feliz muitos anos atrás. Ele era professor e comunista.[...] Aliás, meu filho, seu neto Anibale, é um homossexual incansável, conhecido em todas as saunas da cidade. Certamente, vai morrer de Aids, sabia? [...] Eu, porém, nunca o amei, e uma mulher tem direito de amar uma vez na vida, não é mesmo? Embora soubesse que quase todas as minhas amigas tinham amantes, eu era uma mulher ingênua. Estava à espera do meu príncipe encantado. [...] A senhora aproveitou para convidá-lo para a nossa casa de praia em Fregene. Deu-lhe um porre, fez ele jogar pôquer com seus amigos e perder alguns milhões de liras. Ele teve de pedir dinheiro emprestado para cobrir os cheques que assinou. [...] Quando voltei, a senhora ameaçou me deserdar se eu continuasse com ele. Lembra o que me disse? Se você precisa tanto de sexo, minha filha, arranje um gigolô, mas arranje um profissional discreto que sai muito mais barato [...] O que, mamãe? Fale mais alto, sua vaca, ou acha que eu não sei que a senhora traía papai com titio, sua santarrona, que trepou até com o mordomo. [...] A senhora nunca foi sodomizada, mamãe? Nunca felaciou ninguém? Claro que sim. Eu também. Já fui para a cama com negros, com mulheres, com prostitutos e prostitutas [...] Eu amava aquele homem, mamãe. Foi o sentimento mais bonito que já tive por alguém e a senhora acabou com ele para me transformar no que sou: uma puta rica. [...] Acordei mais cedo e depois de tomar banho, em vez de me vestir, descer e dar as ordens do dia aos empregados, me surpreendi olhando meu corpo nu no espelho. Nos meus trinta e seis anos de vida nunca vi outra mulher nua, nem a minha mãe ou minhas irmãs mais moças, Yolanda, Amália e Ofélia. O que vi no espelho não me desagradou. Tenho um rosto simpático, seios firmes, cabelos e olhos negros e um sorriso que raramente aparece em meu rosto, mas que quando aparece todos elogiam. Sou mulher honesta e virgem. Tenho um defeito grave: meço um metro e oitenta e dois e sou mais alta que a grande maioria dos homens que conheço [...]. Trechos extraídos da obra À mão esquerda (Leitura, 2007), do jornalista e escritor Fausto Wolff (1940-2008). Veja mais aqui.

MUDANÇAS DE NOMES - Aos amantes das belas letras / anuncio o meu maior desejo: / mudarei os nomes de algumas coisas / Minha posição é esta: / o poeta não cumpre sua palavra / se não mudar o nome das coisas. / Com que razão o sol / há de continuar chamando sol? / Peço que se chame Micifuz / das botas de quarenta léguas / Meus sapatos parecem ataúdes? / Saibam que de hoje em diante / os sapatos se chamam ataúdes, / comunique-se, anote-se, publique-se / que os sapatos mudaram de nome / desde agora se chamam ataúdes. / É certo que a noite é longa / e todo poeta que se preze / deve ter seu próprio dicionário / e antes que eu me esqueça / há de se mudar o nome de Deus / cada qual o chame como queira / pois esse é um problema pessoal. Poema do poeta e matemático chileno Nicanor Parra (1914-2018).

SALOMÉ
[...] Ah! Beijei a tua boca, Iokanann! Beijei a tua boca! Os teus lábios têm um gosto amargo. Era gosto de sangue? Não! Foi talvez o gosto do amor... dizem que o amor tem um gosto amargo... mas que importa? Que importa? Beijei a tua boca, Iokanaan, beijei a tua boca!...
Trecho da peça teatral Salomé (Itatiaia, 1989), do escritor e dramaturgo britânico Oscar Wilde (1854-1900). Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

AGENDA
V Feira de Leitura: Territórios Interculturais da Leitura & muito mais na Agenda aqui.
&
Leitura & aprendizagem aqui, aqui e aqui.
&
Os fantasmas da biblioteca aqui.
&
CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do artista georgiano Ilia Popkhadze.
Veja mais aqui.
&
Gratidão de ser em doar, Peter Sloterdijk, Josué de Castro, Lygia Fagundes Telles, Encarnación Sobriño, Luís da Câmara Cascudo, Guillaume Cornelis van Beverloo, Gleidistone Antunes da Silva, Nós & a Biodiversidade, Cláudio Santoro, Marija Mihajlovic, Criolo & Eleonora Falcone aqui.


sábado, setembro 05, 2015

AMAZÔNIA, CAGE, JOSUÉ DE CASTRO, UGARTE, FENELON, KARITA, SONREL & WELSH.

VAMOS APRUMAR A CONVERSA? DIA DA AMAZÔNIA – Encontra-se nas enciclopédias que, no Brasil, chama-se Amazônia, a região amazônica ou simplesmente região Norte, a parte setentrional do país, cujas características são: uma vasta bacia hidrográfica, densa cobertura florestal e extrema rarefação demográfica. Dentro do Brasil, a Amazônia compreende os Estados do Pará, Amazônas, Acre, Rondonia, Roraima e Amapá. Nessa região se encontra a floresta amazônica, a maior selva equatorial do mundo. No livro Amazônia, a Menina dos Olhos do Mundo (Civilização Brasileira, 1992), o poeta Thiago de Mello assim se refere a ela: A questão amazônica pode ser complexa, mas não é complicada. Trata-se do encontro do equilíbrio entre a ocupação, a utilização das riquezas da floresta e a preocupação do que ela tem de melhor e mais precioso para o benefício da vida humana. Quer dizer, o que ela guarda dentro dela, nasce dela e vive dela. Ninguém pretende que a floresta seja intocável e conservada como se fosse um museu. Afinal, desde que o primeiro Índio abateu a primeira árvore para fazer a sua canoa ou o esteio de sua maloca e matou a primeira onça e derrubou o primeiro pavão para adornar-se com as suas penas coloridas – que o homem vem convivendo e usando a floresta. Convivência, entretanto harmoniosa. Como a que ainda hoje mantém com a floresta o caboclo a que habita o coração das matas. O que se pretende é uma utilização racional, respeitosa, que nem degrade nem acabe com ávida do verde. Do jeito que o homem a vem maltratando, sobretudo nos últimos vinte anos, o futuro da floresta pode ser negro, ou vermelho, que é a cor, que segundo os cientistas, terá o deserto que a ela se transformaria. E curtindo as imagens cinematográficas ao som dos acordes de A floresta amazônica de Heitor Villa-Lobos e o Amazonia de Egberto Gismonti, posso entoar a minha crença: Convem lembrar da vida aos olhos de todas as manhãs. Convém lembrar que há a terra dos pés de todas as cores, coisas, raças e crenças. Convém lembrar que há pra vida todos os ventos, do rio de todos os peixes, todas as canoas, brejos, lagos e lagoas. De todos os mares, oceanos e marés. De todas as várzeas, todos os campos, todos os quintais de todas as frutas e infâncias, de todas as selvas dos bichos de todas as feras e mansas, de todas as matas, de todas as flores e folhas, de todas as aves, répteis e batráquios. E de tudo que brilha pra gente um outro sentido de vida. Convém lembrar, acima de tudo, o direito de viver e deixar viver. (Vida verde viva – Canto Verde, Luiz Alberto Machado. Primeira Reunião: Bagaço, 1992). Veja mais aqui, aqui e aqui

 Imagem: The Poetess Sappho, do pintor francês Jacques-Louis David (1748-1825).


Curtindo a peça para solo de piano Music of Changes (1951 – Reissue, 1988), do compositor e escritor estadunidense John Cage (1912-1992), com o pianista alemão Herbert Henck. Veja mais aqui e aqui.

JOSUÉ DE CASTRO E O BRASIL – O livro Josué de Castro e o Brasil (Fundação Perseu Abramo, 2003), escritor por Manuel Correia de Andrade, José Graziano da Silva, Walter Belik, Maya Takagi, Humberto Costa, Malaquias Batista Filho, Luciano Vidal Batista, Djalma Agripino de Melo Filho, José Arlindo Soares, Paulo Santana, Renato Duarte e Michel Zaidan Filho, trata sobre o trabalho e obra do escritor, nutrólogo, geógrafo e ativista Josué de Castro (1908-1973), abordando os deconhecimentos e reconhecimentos no Brasil e no mundo, as políticas de combate à fome, 50 anos depois de Geografia da fome, quando a fome começa antes do nascimento, uma hermenêutica do ciclo do caranguejo, releitura crítica, representações sociais da miséria no Nordeste, a geopolítica da fome: dos tempos de Josué de Castro aos tempos atuais, as evidências científicas da fome dispensável, entre outros assuntos. Da obra destaco o trecho: A fome não poderia continuar sendo um “tema proibido”, ou “bastante delicado e perigoso”, como à época em que a redescobria, ou revelava cientificamente, o seu maior estudioso. O livro Geografia da fome completou 56 anos. Mais de meio século, portanto, desde que o pernambucano Josué de Castro tentou, com ele, quebrar a “conspiração do silêncio” em torno do assunto. Com êxito parcial. A pesquisa e seu fruto, o documento contundente e revelador, merecem celebração. Assim como o seu autor. Respeitado em todo o mundo, reconhecido até hoje nos círculos acadêmicos, trata-se o ilustre pernambucano de um quase desconhecido para a imensa maioria da população brasileira [...] O Josué de Castro universal, que transcendeu fronteiras e levou o mundo a reconhecer feridas, pagou um alto preço pela distância forçada do país natal. Sua obra ganhou o mundo e ele perdeu a luta contra a violência do desterro. Impossível ser mais local, sendo global, como o foi Josué, em todos os postos e lugares pelos quais passou. Entretanto, a notoriedade no exterior não se traduziu aqui, no seu canto. Não foi ele o Pernambucano do Século na opinião de seus conterrâneos, mesmo que lá fora, caso existisse um título similar, estendido aos brasileiros, o seu nome despontasse indiscutivelmente como um dos mais fortes concorrentes. Josué de Castro era extremamente atuante, corajoso e desbravador, o que o transforma em autor e pesquisador inesquecível, na magnitude do papel cumprido, na consistência das obras legadas à humanidade. E já é tempo de tirá-lo da quase clandestinidade. Chega ao fim o exílio, Josué precisa ocupar o Brasil. Se esta é a realidade local, vale reconhecer que, mesmo privado do convívio com o seu país, no seu íntimo Josué de Castro jamais o abandonou. E foi vivendo de forma intensa, e não poucas vezes tensa, que partiu, preservando-se da dor imposta pelas portas fechadas – e o consequente impedimento de promover, no seu locus, a transformação vislumbrada. Josué construiu-se como um humanista, um articulador, um cientista, reunindo qualidades que justificavam largamente a condição que ocupou em vida e até hoje, ainda que o reconhecimento se restrinja a setores da sociedade. “Nós nos reconhecemos em Josué de Castro”, resume poeticamente Abbé Pierre, no filme de Sílvio Tendler, Josué de Castro – Cidadão do Mundo , um impressionante encontro de personalidades nacionais e internacionais sob um único propósito: reverenciá-lo. Muitos se reconhecem em Josué, embora nem todos o reconheçam, infelizmente [...]. Veja mais aqui e aqui.

OS CAVALOS SELVAGENS – Nos livros Manuel Ugarte: o sonho da pátria grande (Insular, 2014), de Victor Ramos, e Maravilhas do conto hispano-americano (Cultrix, 1968), organizado por Diaulas Riedel, encontro que o escritor, diplomata e intelectual socialista argentino Manuel Ugarte (1875-1951), era um dos defensores da unidade latino-americana, relacionando as ideias do internacionalismo socialista com as do nacionalismo, reivindicando uma retomada do programa bolivariano de integração e emancipação. Da sua lavra, destaco os trechos do conto Os cavalos selvagens: [...] Quando nos encontramos ante a primeira estacada da propriedade, Julio fez correr o fecho, sem descer do cavalo, e continuamos a correria. Daí à casa havia ainda meia hora. Os animais começaram a fraquejar, mas ferimo-lhes desesperadamente os flancos e continuaram a galopar com relinchos lamentosos de pobres animais que ignoram por que são sacrificados. Ao sair de um bosquezinho de pinheiros, divisamos as primeiras luzes da vivenda. O edifício desaparecia na sombra e só se viam os retângulos da luz das janelas. Abrimos o fecho de outro portão, entramos no jardim, e a primeira claridade do dia assomava no horizonte, quando nos encontramos na porta da casa. A mãe de Julio saiu a receber-nos, e deixou-se cair nos nossos braços, sem atinar com nada para dizer. Julio separou-se nervosamente... abriu a porta e, mudo, desequilibrado, como se não se inteirasse das coisas, entrou no salão... No meio do quarto havia dois ataúdes rodeados de círios e de gente enlutada. Quis atirar-se sobre os cadáveres; mas precipitamo-nos sobre ele, impedindo-o. Então começou uma luta espantosa durante a qual lhe contaram com palavras entrecortadas o que tinha acontecido. O cavalo de Margarida, acometido por uma raiva louca, tinha tomado o freio nos dentros perto das brenhas que contornavam o arroio e tinha fugido, levando-a pelos campos para o horizonte. D. Antonio picou as esporas e correu atrás para lhe prestar ajuda. Da casa seguiram-no com os olhos naquela corrida vertiginosa. D. Antonio perdeu o equilíbrio e caiu ao inclinar-se para refrear o cavalo da sua filha. Margarida continuou sozinha... primeiro manteve-se e lutou por conter o cavalo desbocado... depois saltou da montada... o seu pé ficou prisioneiro no estribo... e o cavalo continuou... tropeçando o corpo contra as árvores e as pedras, até que um movimento brusco o libertou da carga que arrastava, deu um salto mais elástico e perdeu-se, junto com o outro, na planura... Quando chegaram para socorrê-los, D. Antonio agonizava e Margarida era um montão de carnes sangrentas cobertas de lodo. Julio não escutou os detalhes. Pelos seus olhos passou uma chama de loucura e aproximou-se da janela aberta enxugando a fronte... muito longe, roçando quase os campos, no dintel do dia, o sol pendurava o seu lampião chinês vermelho. Um bando de cavalos selvagens passou para o norte, com as crinas ao vento, num desses pânicos que os arrebatam no pampa. Entre eles iam os dois com freio e sela... Julio fez, ao vê-los, um gesto brusco; agarrou uma carabina que estava pendurada na parede e apontou. As detonações soaram uma atrás das outras, com um ruído sinistro, na quietação daquele quarta onde havia dois cadáveres. Um dos animais caiu e rebolou no chão, lançando um relincho agudo. Os outros perderam-se na distância... E Julio, como um colosso vencido pela barbárie da natureza, começou por fim a chorar e mostrou-lhes os punhos. Veja mais aqui.

CIDADE DE PALMARES, CONFIDENCIAL & CAIXA DE FÓSFOROS – No livro Poetas dos Palmares (Nordeste, 1987), organizada pelo poeta Juareiz Correya, encontro os poemas do dramaturgo, advogado, professor e poeta Fenelon Barreto, entre os quais destaco, inicialmente, Cidade de Palmares: Quando quiseres ver os esplendores / da vida, entesourando um mundo lindo, / terra de Deus, de sonhos e de amores, / dos canteiros florindo e reflorindo,  quando quiseres, em deleite infindo, / ouvir o canto pelos seus cantores, / poemas de plumas, de astros refulgindo, / das lindas moças que só vestem flores, / quando quiseres ver azuis e pretas, / essas bailando em todos os matrizes, / lindos pana-canás de borboletas, / Palmares te contempla e te convida! / Vem ver como aqui todos são felizes, / esquecendo o destino e amando a vida. Também o seu poema Confidencial: ...E agora é a gente vil nos censurando! É o riso / das amantes que tive e das mulheres feias, / meia dúzia de meus, de cérebros sem juízo, / que desejam colher aquilo que semeias. / Querem mesmo findar o sonho que idealizo. / Gostam também de entrar nas relações alheias, / tão cínicas enfim, que às vezes é preciso / mostrarmos o rancor que ferve em nossas veias. / Crê em minha afeição, minha jovem rosada! / E longe dessa turba estúpida e maldita / teremos algum dia a paz desejada! / E após ouvir-me assim, ei-la a sorrir... repleta / desse orgulho que tem toda mulher bonita, / convicta de possuir o coração de um poeta. Por fim, Caixa de Fósforos: Ontem quando a comprei ao merceeiro, / tão valiosa quanto imprescindível, / achei que era absurdo indiscutível / pagar por ela apenas um cruzeiro. / Uma caixa de fósforos-dinheiro / não paga o preço desse combustível; / luz, que é vida, valor imperecível, / luz, entre os elementos, o primeiro, / Uns fósforos tomei-lhe, bem poupados, / mais outros, outros mais e em leve assomo, / notei todos os fósforos queimados. / A vida humana é a mesma fantasia: / poder, orgulho, tudo acaba. É como / essa caixa de fósforos vazia. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

AS FESTAS MEDIEVAIS – No livro Traité de scénographie (Biblioteca Theatre, 1984), do arquiteto, designer e teórico de teatro, Pierre Sonrel (1903-1984), encontro o estudo sobre As festas medievais, o qual destaco os trechos: O mundo antigo não legara ao mundo medialval qualquer forma dramática viva. A arte teatral em Roma perdera-se, por fim, nos jogos grandiosos e bárbaros do circo, onde os primeiros cristãos desempenharam sobretudo o papel de mártires. É a igreja que, sem o ter procurado, vai dar ao teatro uma vida nova e um novo sentido. Da mesma maneira, de fato, que a celebração dos ritos dionisíacos está na origem da tragédia e da comedia gregas, também o teatro clássico moderno nasce do desenvolvimento da liturgia da missa, a pouco e pouco dilatada com a representação de cenas extraídas das sagradas escrituras. [...] Os primeiros dramas litúrgicos desenrolaram-se nas igrejas, onde constituíam um desenvolvimento mimado e dialogado dos textos do ofício e das cerimônias rituais. Depois com o nome de mistérios e de milagres, realizaram-se verdadeiras representações teatrais; mas sempre inspiradas nos textos bíblicos e evangélicos e traduzindo, em linguagem vulgar e em cenas variadas, os ensinamentos contidos no latim e nas rubricas da liturgia. [...] Durante séculos, todos estes espetáculos se multiplicaram e renovaram, sem que surgisse, em toda a cristandade, um único poeta que, como o construtor das catedrais seu contemporâneo, dominasse e ordenasse os seus elementos, soubesse criar uma forma típica, um quadro estável no qual se moldassem os impulsos dramáticos e líricos dos autores e dos interpretes. Sobre a encenação e a decoração destes espetáculos só temos muito raros documentos e os eruditos limitam-se a conjeturas. Não chegou até nós nenhum testemunho gráfico referente às representações religiosas dadas entre os séculos X e XV. O mistério de Adão e Eva do século XII é, sem dúvida, o mais antigo texto dramático de língua francesa que existe [...] Alegorias e fábulas mitológicas, música e cantos, luzes, trajos suntuosos, máquinas e aparições aéreas, tais são os elementos essenciais que se encontram nestes espetáculos precursores do bailado e da ópera. Como nos mistérios, toda a cidade colaborava nestas festas sob a direção dos artistas de maior nomeada na cidade ou na província que, depois de terem concebido a ideia, vigiavam a execução. Assim, encontra-se na obra destes pintores a arte que consiste em dispor as personagens, em prever as suas evoluções, em valoriza-las com fundos apropriados, em coloca-las sobre degraus, numa palavra, encenando, concebendo cenografia e movimentos das celebrações tanto religiosas como civis, antepassadas do nosso teatro. Veja mais aqui

BEDAZZLED – A comédia britânica Bedazzled (O diabo é meu sócio, 1967), dirigido por Stanley Donem, conta a história de um jovem introvertido e perdedor infeliz que vende sua alma ao diabo em troca de sete desejos, mas com a dificuldade para conquistar a garota de seus sonhos, entra em desespero por sua paixão não correspondida, levando-o ao processo de completa incompetência para a tentativa de suicídio. Uma releitura cômica da lenda do Fausto, traz não só a infelicidade do personagem central que representa os sete pecados capitais, como a disputa do diabo com Deus, na tentativa de reunir bilhões de almas, com o objetivo de ser, ao conseguir tal reunião, seria admitido no céu. O destaque do filme é a atriz e cantora estadunidense Raquel Welsh – a sempre bela Jo Raquel Tejada. Veja mais aqui.

IMAGEM DO DIA
As diversas poses da soprano finlandesa Karita Mattila.


Veja mais no MCLAM: Hoje é dia do programa Noite Romântica, a partir das 21hs, no blog do Projeto MCLAM, com a apresentação sempre especial e apaixonante de Meimei Corrêa. E para conferir online acesse aqui.

VAMOS APRUMAR A CONVERSA?
Dê livros de presente para as crianças & aprume aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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quarta-feira, março 05, 2008

BLANCHOT, ORIDES FONTELA, KARITA MATTILA, HOMERO, REZENDE MARTINS, AGOSTINHO, PSICOLOGIA TURISMO & HOTELARIA

 Curtindo os CDs/DVDs Karita Mattila at the Finnish National Opera in Helsinki (2006), com o pianist Martin Katz & a opera Tosca de Pucccini (Erato, 2010), com a soprano e atriz finlandesa Karita Mattila. Veja mais aqui.

O DESEJO NA MADRUGADA - Ela dormia nua embaixo do lençol, de lado, eu acompanhando o seu sono, seu respirar macio, seus suspiros. Vez em quando lambia os lábios ou mordia o lábio inferior. Ela sempre linda, alisava seus cabelos, contornava com a ponta dos dedos os seus ombros, beijei-os, enquanto contornava a sua face aveludada, seu jeito angelical de menina sapeca, a testa, as sombrancelhas, alisava seu perfil, entre lábios, queixo, pescoço, carícias nos seios à mão cheia, o ventre, o sexo umedecido. Removi o lençol e beijei seus pés, calcanhares e expus minha língua entre suas pernas, coxas espremendo o ventre. Ao alcançar-lhe o joelho, senti-lhe a pele arrepiada e mais lambia como quem percorre o caminho do seu esconderijo mais desejado. Beijei-lhe os lábios vaginais, enquanto ela juntava os pés para se esfregarem ao meu pênis rijo, e lhe lambia a fonte, e sorvia seus sabores mais íntimos, a chupar-lhe o sexo exposto pra minha gula insaciável. E puxou-me pelo pescoço até o ventre para que respirasse afogueada a agonia da tesão, para alcançar-lhe os seios, mordicando com meus lábios seus mamilos, brincando de lá e loa, ela me puxando à força pros seus beijos loucos, forçando com as pernas meu sexo contra o seu, esfregando-o contra o seu desejo, instigando-me penetrá-la para resfolegar enlouquecida o prazer de ser possuída naquele momento mágico da nossa paixão. E lhe enfiei o meu membro mansamente a deslizar lento enquanto aos beijos nos procovámos e ela inquieta, remexedora, arreganhada, querendo mais da minha inteira compleição dentro até alcançar-lhe a fundura abissal do seu gozo por orgasmos infindáveis por manhas e dengos que ela me assanhava, mãos selvagens aos apertos e esfregões até nos redimir no uníssono prazer mútuo. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.


PENSAMENTO DO DIA – Todo agir humano pressupõe uma interpretação das situações objetivas vividas no passado e no presente, e uma vontade conformnada mediante intenções, metas, objetivos. A história exprime, assim, a cultura dimensionada no tempo. Essa cultura se constitui pela cadeia da memória. Pensamento do sociólogo, filósofo, historiador e professor Rezende Martins.Veja mais aqui.

O LIVRO POR VIR – [...] E porque as Sereias, que eram apenas animais, lindas em razão do reflexo da beleza feminina, podiam cantar como cantam os homens, tornavam o canto tão insólito que faziam nascer, naquele que os ouvia, a suspeita da inumanidade de todo canto humano. Teria sido então por desespero que morreram os homens apaixonados por seu próprio canto? Por um desespero muito próximo do deslumbramento [...] Isto não é uma alegoria. Há uma luta muito obscura travada entre toda narrativa e o encontro com as Sereias, aquele canto enigmático que é poderoso graças a seu defeito. […] O que chamamos de romance nasceu dessa luta. Com o romance, o que está em primeiro plano é a navegação prévia, a que leva Ulisses até o ponto de encontro. Essa navegação é uma história totalmente humana. Ela interessa ao tempo dos homens, está ligada à paixão dos homens, acontece de fato e é suficientemente rica e variada para absorver todas a forças e toda a tenção dos narradores. Quando a narrativa se torna romance, longe de parecer mais pobre, torna-se a riqueza e a amplitude de uma exploração, que ora abarca a imensidão navegante, ora se limita a um quadradinho de espaço no tombadilho, ora desce às profundezas do navio onde nunca se soube o que é a esperança do mar [...] É verdade que Ulisses navegava realmente e, um dia, em certa data, encontrou o canto enigmático. Ele pode portanto dizer: agora, isto acontece agora. Mas o que acontece agora? A presença de um canto que ainda estava por vir. E o que ele tocou no presente? Não o acontecimento do encontro tornado presente, mas a abertura do movimento infinito que é o próprio encontro, o qual está sempre afastado do lugar e do momento em que ele se afirma, pois ele é exatamente esse afastamento, essa distância imaginária em que a ausência se realiza e ao termo da qual o acontecimento apenas começa a ocorrer, ponto em que se realiza a verdade própria do encontro, do qual, em todo caso, gostaria de nascer a palavra que o pronuncia [...] é a realidade do espaço próprio da linguagem, do qual somente o poema – livro futuro – é capaz de afirmar a diversidade dos movimentos e dos tempos, que o constituem como sentido ao mesmo tempo que o reserva como fonte de sentido [...]. Trechos extraídos da obra O livro por vir (Martins Fontes, 2005), do escritor, ensaísta e crítico de literatura Maurice Blanchot (1907-2003), abordando na primeira parte – O canto das sereias -, o encontro do imaginário, a experiência de Proust, o segredo da escrita, a espantosa paciência; na segunda parte, A questão literária, trata sobre Não haverá chance de acabar bem, Artaud, Rousseau, Joubert e o espaço, Autor sem livro, escritor sem escrito, versão de Mallarmé, Claudel e o infinito, a palavra profética, o segredo do Colem, O infinito literário: o Aleph, o malogro do demônio: a vocação; na terceira parte, Uma arte sem futuro, abordando sobre o extremo, Broch, os sonâmbulos: a vertigem e a lógica, a morte de Virgilio: a busca da unidade, A volta do parafuso, Musil, a paixão da indiferença, a experiência do outro estado, a dor do diálogo, a claridade romanesca, a busca de si mesmo, o jogo dos jogos, o diário íntimo e a narrativa, a narrativa e o escândalo; e na quarta e última parte, Para onde vai a literatura?, trata sobre o desaparecimento da literatura, a busca do ponto zero, onde e quem agora, morte do último escritor, o livro por vir, Ecce liber, um novo entendimento do espaço literário, o poder e a glória.

CANTO DAS SEREIAS – [...] Primeiro, encontrarás as duas Sereias; elas fascinam todos os homens que se aproximam. Se alguém, por ignorância, se avizinha e escuta a voz das Sereias, adeus regresso! Não tornará a ver a esposa e os filhos inocentes sentados alegres a seu lado, porque, elas o fascinam, sentadas na campina, em meio a montões de ossos de corpos em decomposição, cobertos de peles amarfanhadas. [...]. Trecho do poema épico Odisseia (sec. VIII aC), do poeta grego Homero (928aC-898aC). Veja mais aqui e aqui.

QUATRO POEMASMEIO-DIA: Ao meio-dia a vida / é impossível. / A luz destrói os segredos: / a luz é crua contra os olhos / ácida para o espírito. / A luz é demais para os homens. / (Porém como o saberias / quando vieste à luz / de ti mesmo?) / Meio-dia! Meio-dia! / A vida é lúcida e impossível! TÓPICOS DE UMA CALEIDOSCÓPICA ESCRITA: O fluxo obriga / qualquer flor / a abrigar-se em si mesma / sem memória. CORUJA: Vôo onde ninguém mais - vivo em luz / mínima / ouço o mínimo arfar - farejo o / sangue / e capturo / a presa / em pleno escuro. MÃOS: Com as mãos nuas / lavrar o campo: / as mãos se ferindo / nos seres, arestas / da subjacente unidade / as mãos desenterrando / luzesfragmentos / do anterior espelho / com as mãos nuas / lavrar o campo: / desnudar a estrela essencial / sem ter piedade do sangue. Poemas extraídos da obra Poesia reunida (1969-1996 – Cosac Naify, 2006), da poeta Orides Fontela (1940-1998). Veja mais aqui.

A arte da soprano e atriz finlandesa Karita Mattila no DVD da ópera Salomé (Sony, 2011), do compositor Richard Strauss, baseado na obra de Oscar Wilde, no Metropolitan Opera. Veja mais  aqui.


CIDADE DE DEUS -No primeiro capítulo da obra “A cidade de Deus”, Agostinho de Hipona, remete sua posição na defesa da Cidade divina, contra os inimigos impiedosos ou adversários perversos que blasfemam contra Cristo, sinalizando pela ingratidão das trevas eternas. No segundo capítulo, autor chama atenção para o fato de que em havendo guerras nunca os vencedores perdoaram os vencidos, submetendo-os à escravização e dominação. No capítulo terceiro, o autor chama atenção ao erro romano de adotar deuses na ingratidão perversa dos blasfemadores de Cristo, atribuindo-lhe os males quando este perdoou a todos. No capítulo quarto, o autor chama atenção para o templo de Juno, em Tróia, comparando-o com as basílicas dos apóstolos, quando o primeiro, a ninguém protegeu dos gregos; enquanto que o segundo, a todos protegeu dos bárbaros, demonstrando a injustiça que se faz ao atacar a imagem do Cristo. No quinto capítulo, o autor demonstra o posicionamento de César com relação ao estilo comum dos inimigos destruidores de cidades vencidas, quando Roma detém em seu poder os seus próprios inimigos. No capítulo sexto, é observado a forma como os romanos tomaram as cidades sem que perdoassem os vencidos refugiados nos templos. No sétimo capítulo, ele chama atenção à crueldade na destruição de Roma, quando ceifaram vítimas impiedosamente, demonstrando, pois, que quando houve clemência, este se deu em nome de Cristo. No oitavo capítulo, ele chama atenção para as desgraças infligidas tanto a bons como a maus, bem como a graça alcançada pelas pessoas, assinalando “[...] Assim, malgrado partilharem das mesmas angústias, bons e maus não se misturam, por estarem confundidos nas provações. A semelhança dos sofrimentos não elimina a diferença entre os sofredores e a identidade dos tormentos não estabelece identidade alguma do vício e da virtude. Sob a ação da mesma chama, o ouro brilha, fumega a palha. [...] Não interessa tanto o que a gente sofre, mas como sofre. Remexidos de igual maneira, o lodo exala horrível mau cheiro, o unguento, suave perfume” (p. 64), observando, pois, que o sofrimento para todos ocorre de maneira igual, e somente a graça é alcançada pela bênção divina. No capítulo nono, ele relata as causas dos corretivos que flagelam por igual bons e maus, assinalando que: “[...] Embora as pessoas de bem odeiem a vida do mau e tal aversão as preserve do abismo que espera os réprobos, à saída deste mundo, essa fraqueza indulgente com as mortais iniquidades, por medo a represálias contra as próprias faltas, faltas leves e veniais, diga-se de passagem, essa fraqueza, salva da eternidade dos suplícios, é de justiça que seja com o crime castigada pelos flagelos temporais, é de justiça que, no envio providencial das aflições, sinta o amargor da vida que, embriagando-a com doçuras, a dissuadiu de oferecer aos maus a taça salutar da amargura”. Assim sendo, observa ele que outra causa de serem as pessoas de bem submetidas aos flagelos temporais, é querer Cristo revelar ao espírito humano a força de sua piedade e permitir ao homem demonstrar o amor desinteressado que lhe tem. No décimo capítulo, reflete Santo Agostinho sobre o fato de que prejuízo algum causa aos santos a perda das coisas temporais, considerando que: “[...] mesmo que tenha havido, quem, nos tormentos, confessasse a santa pobreza, confessava, sem dúvida alguma, Jesus Cristo. Vítima de bárbara incredulidade, nenhum confessor da santa pobreza poderia sofrer, sem alcançar celeste recompensa” (p. 70). No capítulo onze, Santo Agostinho trata acerca da vida temporal, defendendo que “[...] A morte não representa nenhum mal, se sucede a vida santa” (p. 70), chamando a atenção que a morte do pobre dedicado ao bem e sendo bom, é melhor que a morte de um rico que descansa na riqueza mas que será atormentado na vida eterna. No capítulo doze, o autor trata do sepultamento do corpo humano que de nada priva o cristão, embora lhe seja negado com ultraje, mas que na Cidade divina todos serão recompensados. No capítulo treze, o autor trata acerca do sepultamento do corpo dos santos, defendendo que “[...] a falta de coisas necessárias à mantença da vida, como o alimento e o vestuário, provação cruel, mas impotente contra a inalterável paciência do homem virtuoso, longe de desarraigar-lhe do coração a piedade, a exercita e fecunda” (p. 73), chamando atenção para a paciência, a virtuosidade e crença em Deus para que todos os males sejam superados. No capítulo catorze, o autor fala acerca do cativeiro dos santos a quem jamais faltou consolo divino, adiantando, pois, no capítulo seguinte, sobre o régulo de quem fica exemplo de cativeiro espontaneamente sofrido por motivos religiosos, que, apesar de tudo, não lhe puderam ser de proveito, porque adorava deuses, considerando que: “[...] Como, porém, se agitou o caso dos cristãos levados cativos, que os imprudentes e impudentes escarnecedores da religião salvadora reflitam em tal exemplo e se calem. [...] e em mãos dos inimigos esgotado, em prolongada agonia, todos os refinamentos de inaudita crueldade, com que direito exprobrar a fé cristã pelo cativeiro de vários fiéis, que, à espera infalível da pátria celeste, se sabem estrangeiros no próprio lar” (p. 76), chamando atenção para o fato de que mesmo submetidos aos horrores da guerra e do cativeiro, sempre haverá consolo na Cidade divina. No capítulo dezesseis, trata também dos padecimentos das santas virgens no cativeiro, chamando atenção para “[...] fique assentado que a virtude, principio essencial de vida santa, de sua sede, a alma comanda os membros do corpo e o corpo é santificado pelo uso de vontade santa. Enquanto essa vontade permanecer constante e firme, advenha o que advir ao corpo ou do corpo, se impossível evitá-lo sem pecado, somos inocentes do que lhe acontece. Das violências, porém, de que o corpo é passível algumas há capazes de nele produzirem outra sensação, diferente de dor” (p. 77), observando que a dedicação à Cidade divina, leva o sofrimento ao prazer da glória eterna. No capítulo dezessete trata da morte voluntária por medo à desonra ou à pena. Em seguida, aborda a violência e libido alheia que no corpo, forçado, contra a vontade, sofre a mente, defendendo que “A santidade corporal, com efeito, não consiste na integridade dos membros preservados de todo contato, porque em muitas circunstâncias ficam expostos a violências, ferimentos e com freqüência sua saúde exige operações horríveis de ver.[...] enquanto a alma permanece pura, o corpo oprimido pela violência nada perde da santidade” (p.79), sustentando que se a vontade permanece casta, quando o corpo sucumbe, o crime não é da vítima, mas do opressor. No capítulo dezenove, trata acerca de Lucrecia que se matou por haverem-na estuprado e, no capítulo seguinte, aborda a questão de que não existe autoridade alguma que seja em qual for o caso, conceda ao cristão o direito de matar-se voluntariamente. Logo após, no capítulo vinte e um, trata dos homicídios não considerados criminosos, considerando que “[...] Algumas vezes, seja como lei geral, seja como ordem temporária e particular, Deus ordena o homicídio”, (p. 83), não sendo, pois, moralmente homicida quem deve à autoridade o encargo de matar, excetuando-se, pois o homicídio ordenado por lei geral e justa ou por ordem expressa de Deus, fonte de toda justiça. Do contrário, quem mata o irmão ou a si mesmo é réu do crime de homicídio. No capítulo vinte e dois, o autor trata acerca da morte voluntária que jamais pode ser atribuída à grandeza de ânimo e, logo no capítulo posterior, trata da espécie que pertence o exemplo de Catão que, não podendo suportar a vitória de César, se matou. Já no capítulo vinte e quatro, observa a questão de na virtude em que Régulo se avantajou a Catão, entendendo que “[...] esses ilustres e magnânimos defensores da pátria terrestre, adoradores, mas adoradores em verdade, de deuses de mentira, cujo nome não juram em vão, apesar das usanças e do direito de guerra permitirem matar o inimigo vencido, não querem, vencidos pelos inimigo, matar-se e preferem as humilhações do cativeiro à morte, que abordariam sem temor. Não é, por conseguinte, grande dever do cristão, servidor do verdadeiros Deus e suspiroso pela celeste pátria, abster-se de tal crime, quando, seja como provação, seja como castigo, a Providência o entrega por algum tempo ao poder dos inimigos” (p. 87), isto em virtude de que todos os seres humanos passam por privações e provações, mas que estarão, enfim, na Cidade divina gozando das benesses celestiais. No capítulo vinte e cinco, o autor defende que pecado algum deve ser declinado por outro e, logo em seguida, trata da razão de dever crer nas coisas ilícitas feitas pelos santos, observando a questão do suicídio da seguinte forma: “[...] Ninguém deve matar-se, nem para fugir das aflições temporais, para não cair nos abismos eternos, nem por causa dos pecados alheios, porquanto a fuga a crime alheio que nos deixa puros vai arrastar-nos a crime pessoal, nem por causa de pecados antigos, pois a penitência, ao contrário, tem necessidade da vida para curá-los, nem pelo desejo de vida melhor, cuja esperança está depois do falecimento, porque o porto de vida melhor no além-túmulo não se abre para os suicidas” (p. 90). E é no capítulo logo em seguida que aborda a questão da morte voluntária esquivando-se do pecado, onde assinala que “[...] Tendes grande e verdadeira consolação, caso vossa consciência vos dê sincero testemunho de não terdes consentido no pecado que se permitiu contra vós” (p. 91). No capítulo vinte e oito, o autor trata da razão por que o juizo de Deus se permitiu que a libido do inimigo se cevasse no corpo dos castos, observando que “[...] haverem muitos podido considerar a continência com dom corporal desses que duram enquanto o corpo se conserva puro de toda mancha estranha, não como bem dependente da força de vontade apenas, auxiliada pela graça divina, santificadora da carne e do espírito, não como bem cuja perda se torne impossível, sem consentimento interior. Talvez devam ser libertadas de tamanho erro. Quando pensam, com efeito, na sinceridade de coração com que serviram a Deus, inquebrantável fé guarda-as de acreditarem possa Ele abandonar quem o serve e invoca assim; sabem quanto lhe agrada a castidade e concluem, com evidente certeza, que jamais permitiria adviesse às santas semelhante infortúnio, se a santidade que lhes deu e nelas ama pudesse perder-se assim” (p. 92), passando, portanto, logo após, a considerar o que deve responder aos infiéis à família de Cristo, quando lhe lançam em rosto não havê-la Cristo livrado do furor dos inimigos e, por conseguinte, tratar da inconfessável prosperidade que deseja gozar quem se queixa dos tempos cristãos, observando que “[...] e o apetite ao domínio, de todas as paixões do gênero humano a que mais embriaga qualquer alma romana, depois de vencer alguns dos mais poderosos, encontra acabrunhados e abatidos os restantes e o oprime-os com o jugo da escravidão” (p. 95), levando em consideração, no capítulo a seguir, a gradação de vícios com que foi crescendo os romanos a paixão de reinar, uma vez que “[...] não fora revelada às nações a celeste doutrina que eleva ao céu, até mesmo acima dos céus, o coração humano purificado pela fé, lhe transforma o amor em humilde piedade e o liberta da soberba tirania dos espíritos de malícia” (p. 96). Por esta razão, aborda no capítulo trinta e dois a instituição dos jogos cênicos, em que são realizados os verdadeiros espetáculos da infâmia, libertinagem e vaidade, estando, pois, a Cidade divina incólume de tais blasfêmias e considerando o que aborda no capítulo logo em seguida, sobre os vícios romanos que a destruição da pátria não emendou, onde “[..] viceja por mercê de Deus, cuja clemência vos convida a vos corrigirdes pela penitência, de Deus, que já permitiu a vossa ingratidão escapar, sob o nome de servidores seus, nos monumentos de seus mártires, à sanha de vossos inimigos” (p. 98). Com isso, exalta no capítulo trinta e quatro, a clemência de Deus amenizando a destruição da Urbe e, no trinta e cinco, tratando dos falsos cristão existentes na Igreja e os filhos da Igreja encobertos entre os ímpios, sob a alegação de que “[...] A respeito da origem, progresso e do fim que as aguarda é que quero desenvolver meus pensamentos, com a divina assistência e para glória da Cidade de Deus, que o cotejo de tantos contrastes há de tornar mais resplandecente” (p. 99). No capítulo trinta e seis, o autor falará acerca do discurso subseqüente, tratando a necessidade de consolidação da Cidade de Deus que servirá a beatitude e a salvação de todos os cristão.

PSICOLOGIA APLICADA AO TURISMO E HOTELARIA - O livro A Psicologia aplicada ao turismo e hotelaria, segunda edição dos textos acadêmicos escritos por Fernando Brasil Silva, trata, em geral, da aplicação de critérios psicológicos por parte dos profissionais das áreas epigrafadas quando do atendimento de sua clientela. Em seu capítulo primeiro, é observado pelo autor a maneira geral de aplicação de princípios e conceitos psicológicos comparando os termos usuais pertinentes ao tema psicologia, seus desdobramentos e implicações, no sentido de localizar e fundamentar o profissional da área de turismo e hotelaria, assenhoreando-o para melhor desenvolvimento de suas atividades cotidianas. Enquanto isso, o capítulo segundo, o autor discorre sobre a questão da personalidade analisando-a em sua diversidade de traço e de como esta forma o caráter dos indivíduos, possibilitando, assim, ao profissional das áreas em referência, conhecer a dimensão que se faz necessário obter conhecimento sobre o assunto. Por fim, no quarto capítulo, é evidenciado perturbações comportamentais inerentes aos seres humanos, desde o orgulho até a insegurança, passando ainda pela arrogância, prepotência, entre outros comportamentos que acometem, invariavelmente, a clientela, apresentando modalidades de posturas mediante a confrontação de tais incovenientes, bem como a melhor maneira do profissional abordar seus clientes no caso de qualquer incidência que se incorra no ambiente de trabalho. O livro, assim, é de suma importância para aqueles que desenvolvem atividades nas áreas de turismo e hotelaria, no sentido de que estes, cônscio de tais formas de comportamento, possam melhor desempenhar e qualitativamente desenvolver suas atividades funcionais. REFERÊNCIAS: SILVA, Fernando Brasil. A psicologia aplicada ao turismo e hotelaria. São Paulo: Cenaum /Unibero, 2000



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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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