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domingo, junho 14, 2026

FRANÇOIS JULLIEN, EILEEN CHONG, STARHAWK & GUEL ARRAES

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som dos álbuns Glamorous Life (2017), Very Special (2017), Tea Times (2016), Self Portrait (1997) e Cruisin' (1993), da pianista japonesa Junko Onishi.

 


O sacrifício da heroína & as façanhas acanhadas do mancebo... - Aperturam libra: Zeca Biu já contava com seus 17 castos anos e a mãe dele, dona Adélia, desde que vencida a puerícia dele, se corroía há tempos por preocupações: o alistamento militar e cadê a namoradinha dele? Toda mãe é sagrada, há de se perdoar até as ideias extravagantes dela: Será? O filho até então não se servia pro metier, ou se passasse a desmunhecar e, o pior: a zooerastia, valei-me, afora o risco da peste no pipocar dos furúnculos. Em confidências hesitantes e sucessivas com a Viscondessa, a constatação do pânico: Puxou ao pai? Talqualzinho. O mal-estar angustiante: careciam de providências urgentíssimas. Idas e vindas. Ele lá alheio a tudo: inepto donzelo Príapo, no vice-versa da escola pro oitão da bicharada: seu meio de ganho com estimado gosto, cada dia o seu pão e sequer um sinalzinho dum pé de gente por amizade. Nem se incomodava mais com o desplante dos vizinhos furiosos com o fedor do criatório. A genitora partiu pra cima da vocação hereditária, traquejo da vida, que seja: ou vai ou racha! Inventava todo dia um folguedo pra reunir as amigas e suas filhas, esperançosa de que dali uma que fosse caísse nas graças dele. E inventava pândegas de Príncipe Encantado, levada pela festa do boi do Barão, tudo para destabocar a curiosidade das convidadas, resultando, ao final de cada festejo, num desfile amuado de Zeca Biu, todo sem jeito, só pra que todas vissem a filiação de um bom partido. Não dava cloro. Apelou pro anjo da guarda deles, fez careta com as omissões, a cada batida do coração uma vontade escapulia e quase tudo se perdia, de não desperdiçar outra vez, uma chance, a única, descartada? Nunca. Desenganava: Ele que bote suas astúcias pra fora, lavo as mãos não. O pubescente parecia já ter tirado a catinga do mijo e de tão tabacudo nem aí. Ela fez finca-pé: recorreu à inarredável Viscondessa e lá, na sepultura dela, ajoelhava-se de rezar e orar por horas, pedia permissão e rogava um sinal de seu consentimento. Na hora: uma nuvem larga escureceu e caiu o maior pé d’água, logo o Sol raiou: casamento da raposa. Era o que precisava, saiu efusiva pronta pra deixar tudo nos conformes, louvando seus rogos pro Santoínho. Dissimulada lá e cá, dissuadia: Cadê a paquera? Ele gaguejava retraído, desconversava, tudo vez nada: quão e tão sombra sem voga, pernas e braços cruzados, todo encabulado quanto ao assunto, constrangia-se a qualquer insinuação. Ô meu filho, tá na hora de pensar em casar, num tá não? Casar? Ora, se. O mancebo alesado: Quem? Um espirro, só na babaquice de queijudo. Ô homem sem jeito! Sujeito retraído, abria e fechava os olhos; levantou-se e foi até longe no alto do morro e confidenciou sua indignação: Casar? Foi pra casa dormir que já era breu pra madrugar. Aí ele sonhou com uma cigana jeitosa: Qual a sua missão? Despertou agoniado sem entender patavina. Eis que amanhecera e distraído no quintal, apareceu do nada Dorcelimesia, a Dodô, também afeiçoada a bicho. Ela trouxe pela coleira um gambá de estimação – tipo rato-do-mato. Ele receptivo: Também gosto de cassaco, saruê, mucura, timbu, sariguê, tenho desses não no meu zoo, só uma ticaca perdida por aí. Quer? Pra você eu dou. É macho? Sei lá. Deixe ver: agora temos um casal. E riram-se. É que a mãe dela ralhava: Quero isso aqui não, rouba ovos de galinha. Oxe! E se riam da leseira dela. Assim se viam manhãs, tardes e noites, até foram juntos prum concurso e todo mundo fugiu. Ué! Quem aguentaria a bufa dum da orelha-preta? Nisso a felizarda genetriz benzeu-se, foi ver de perto e um tênue alívio repousara no seu coração: estava ali, naquela menina, a sua redenção. Aproveitou-se achegando-se: aguava o pagode ensinando as manhas pra moça e tudo fez força preles se estreitarem: No dia dos namorados, Almofadinha e Melindrosa, brincava. A menina gostou tanto, da viúva sogra, dela correr antecipada pros pais da afeiçoada: Vamos ajeitar o casório! Como? Está mais do que na hora de juntar os dois pombinhos. E virava os olhos sonhando com epitalâmios no ritual do matrimônio e bruguelos saltando pelo himeneu: Vovó! Voltou pra casa e contou logo pra sua agora suposta nora: Pronto, agora vão brincar no quintal com a Paz de Deus. Oxe! Os dois subiam e desciam pelas árvores, buliam com a bicharada, pulavam muro, escorregavam no pó-de-serra, atravessavam o brejo, viravam cambota, bundacanasca. A cunhã viçava, mais atirada, taluda, destemida, determinada, o instinto materno adotivo; ele tão medroso na estase franzina da ingenuidade, achava dela uma coisa tão chochinha, vixe! Passava. E se empolgaram tanto dele contar um segredo. Havia do que se falar: juntando montes e esburacados, deu numa panela cheia, dinheirama. Mesmo? Uma botija por achado, segredou. E aí? Fez pelos avessos: dividiu em caçarolas menores para semear em pequenas covinhas esparsas pela imensidão. Tais rico, então? Só eu e você, chiiiii. Daí ele pegava o chilreio da passarada para guardá-lo atrevido no bolso da blusinha dela: Pra você, todos! Ela sorria dourada quase tarde ensolarada. E roubavam algodão doce das nuvens baixinhas ao alcance das mãos, botando os pedaços um na boca do outro. Se sentiam como na epopeia do camelo & a zebra, era a amizade deles nascendo escondido, tímida, clandestina, embaixo de 7 capas. Não despregava as vistas da titela dela que cochichava cócegas às suas ouças; o riso, respiração profunda. Trocavam azuis por rosas, roxos por amarelos, verdes por vermelhos. Ela gostava de ver o bando dos bichos, até da criatura com o dobro de braços e pernas. Quem? Oxe, apareceu agora. Deu fé até dum ET. Danou-se tudo! Aí ardiloso pras bandas dela: Vê aquele negócio ali! Ela foi, arreou-se conferente e ele, inadvertidamente, viu-lhe o cofrinho robusto no lance da calcinha. Caiu a ficha, zarolho, empertigado: Fazer o quê, meu Deus? Um inadvertido prurido ventral emergiu com a brejeirice dela sem empecilhos, descobria a polução involuntária, aprendia a função onanista. O zerola lambia os beiços, súbito fugitivo. Dodô virou-se: Cadê-lo. Sumira. Caçou-lo pela redondeza e pegou-lo acuado ensandecido numa touceira escondida. Cobra? Foi ajudá-lo e pegou dum jeito que ele sentiu o efeito na hora: maior meladeiro. O que foi isso? Titubeou desajeitado, mas e nãos e sins. Não é venenosa não, né? Não era. Ela apurou direito dos olhos quase pularem fora: Você tem três pernas ou isso é um aleijão? Tartamudeava lívido, acabrunhado. Deixe ver direito? Um abismo. Não! Ele fugou aos desembestos. Ela no encalço. Cansados da correria, se agacharam esbaforidos à sombra do cajueiro. Tomavam fôlego. Cabeça baixa, olhos fechados, ele não sabia o que dizer, língua enrolada, juízo deu nó. Quando ela olhou pra ele ali acocorado, arregalou-se com o bico da piroca pendurada, escapulindo coxa abaixo. Que bicho é esse? Hum? Não se mexa, vou pegar! E, como a maior de todas as heroínas, encarou destemida. Deu-se a lavação da jega, dele bater forte nos possuídos dela, uma peiada macha, de levá-lo à rebordosa: viciado, via-se logo famélico, olhos fundos, desapaziguado, só os ossos. Qualquer gesto dela e sacudia-se, deseganchado da toleima, atirava-se sobre os seus costados deles esquecerem o almoço depois do meio dia, a janta na boquinha da noite e assaltados pela surpresa de que já era tarde da noite, hora de cada um se recolher-se ao seu domicílio. Não era de reprimenda e apartavam-se meio que desastrados até bufarem sono pesado pela noite folgazã, cada qual na sua cama. No outro dia Zeca Biu, todo ancho, procurou Dodô. O canto mais limpo. Cadê-la? Os pais se mudaram. Pra onde? Quem sabe! O seu mundo pipocou esfarelado e, na mais espessa escuridão, piongos, mãe e filho, desconsoláveis: fazer o quê dali pra diante. Dias depois bateram à porta. Duas envelopes por baixo da porta. Inadvertida a mãe as apanhou: É pra você! Escolheu logo a da caligrafia dela estampada no bilhete: Vou fugir de casa praí! Ele alvoroçou-se todo. Contudo, conteve-se: os olhos maternos chorosos: Que foi? Entendeu-lhe o papel: era hora de servir a uma das forças armadas. Acta est fabula. Até mais ver.

 

Jürgen Habermas: Somente quem assume o controle da própria história de vida pode enxergar nela a realização de si mesmo. A responsabilidade de assumir o controle da própria biografia significa ter clareza sobre quem se quer ser... Veja mais aqui, aqui & aqui.

Joyce Carol Oates: Somos todos regionalistas em nossas origens, por mais 'universais' que sejam nossos temas e personagens, e sem nossas queridas cidades natais e paisagens infantis para nos nutrir, seríamos como plantas colocadas em solo raso. Nossas almas devem criar raízes - quase literalmente... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Salman Rushdie: Sociedades livres... são sociedades em movimento, e com o movimento vêm a tensão, a dissidência, o atrito. Pessoas livres produzem faíscas, e essas faíscas são a melhor prova da existência da liberdade... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

BÚSSOLA

Imagem: Acervo ArtLAM.

EU - Minha mãe me colocou na água. \ Ela me deitou de costas. Algum instinto \ manteve meu pescoço rígido e minha cabeça erguida. \ A fotografia se perdeu. No álbum \ da minha mente, vejo o pânico nos meus punhos cerrados. \ Ainda sinto o frio da água ao meu redor.

II - Ele disse que iríamos jogar um jogo. \ Todos nós pulamos de susto. Ele segurou minha mão com força. \ No fundo, contamos. Bolhas \ prateadas subiram à superfície. Então, eu saí correndo. \ de ar. Eu não conseguia me soltar. Ao \ subir, ele me chutou. A água: tão pesada.

III - À tarde, eu tinha muita alegria \ em encher a pequena chaleira e levá-la \ para o meu avô na sala de estar. \ Ele colocava a chaleira na chapa quente e deixava \ a água ferver. Folhas de chá na chaleira. \ O aroma de bambu. A infusão amarga.

IV - Meu pai sempre dizia: onde há água, \ há chineses; onde há chineses, \ há hakka. Tenho cinco frases: \ comer, dormir, tomar banho, cagar, não entendo. \ Para contar os inhames: descascamos os inhames. \ Cozinhamos, amassamos, adicionamos farinha e amassamos \ até virar massa. As mulheres em fila, moldando \ as bolinhas com covinhas. Nunca entendi toda essa confusão. \ Óleo cobre meus lábios, meus dentes e minha língua.

V - Sinto muita falta da banheira. \ Nas manhãs de inverno, eu acordava e preparava \um banho quente. Um calor insuportável, escaldante. \ Vapor subindo da água. Sal dissolvendo-se \ instantaneamente. A imersão sublime — \ um retorno ao útero, ou a um caixão.

VI - Às três horas da manhã, \ minha avó resolveu esfregar \ o chão do banheiro. \ Ela escorregou, cortou a testa \ num cano e caiu de cara no chão. \ Sangue e dois olhos roxos. \ Essa mulher lutou a vida inteira. \ À noite, trava uma batalha consigo mesma. \ O suor encharca seus lençóis.

VII - Nunca soube que tinha um gosto doce. \ Como mel da rocha— \ Sermões monótonos ecoavam pelo meu teto \ enquanto eu lia o Cântico em silêncio. \ De cânticos, salmos e provérbios. \ Versículos como as marés. Meu primeiro \ Poema, o oceano da minha ruína.  \ No fundo: uma bússola de lata, \ sua agulha selvagem e inquisitiva.

Poema da poeta singapuriana Eileen Chong (Eileen Chong Pei Shan), radicada na Austrália e autora dos livros Burning Rice (2012), Peony (2014), Painting Red Orchids (2016) e Rainforest (2018).

 

CIDADE DE REFÚGIO - […] Que o vento carregue seu espírito suavemente, que o Fogo liberte sua alma, que a Água a purifique, que a Terra a acolha, que a Deusa a tome em seus braços e a guie para o renascimento. [...] Mesmo uma gota de felicidade poderia colorir um poço inteiro de miséria. [...] Trabalhamos muito, estávamos conseguindo nos manter — aí eles aumentaram as taxas de juros, ou fecharam as escolas, ou mudaram as leis... [...]. Trechos extraídos da obra City of Refuge: The Fifth Sacred Thing (Califia Press, 2016), da escritora e ecofeminista estadunidense Starhawk (Miriam Simos), que no seu livro The Earth Path: Grounding Your Spirit in the Rhythms of Nature (HarperCollins, 2004), ela expressou que: […] A energia se move em ciclos, círculos, espirais, vórtices, redemoinhos, pulsações, ondas e ritmos — raramente, ou nunca, em linhas retas simples. [...] Como tudo é interdependente, não existem causas e efeitos simples e isolados. Cada ação cria não apenas uma reação igual e oposta, mas uma teia de consequências que se propagam. [...] Uma relação real com a natureza é vital para o nosso desenvolvimento mágico e espiritual e para a nossa saúde psíquica e espiritual. É também uma base vital para qualquer trabalho que façamos para curar a Terra e transformar os sistemas sociais e políticos que a atacam diariamente. [...] Mas um quebra-vento também é um grande professor, para mim, sobre não-violência. Como respondemos a forças intensas — raiva, fúria, até mesmo ataques físicos — sem nos tornarmos violentos em resposta? Como reagimos a críticas bem-intencionadas, porém duras (sejam elas bem-intencionadas ou intencionalmente ofensivas)? Se nos tornarmos uma muralha, bloqueando as energias que nos atingem, podemos, na verdade, fortalecer a raiva da oposição. Por outro lado, se simplesmente ignorarmos ou rejeitarmos as críticas, a oposição pode expandir suas críticas para incluir nossas reações. Mas há uma terceira alternativa: se aprendermos com as árvores, podemos absorver e transformar a energia que nos atinge. Fazemos isso mantendo a calma, o equilíbrio e o centramento, ouvindo em vez de responder, balançando com o vento e deixando-o dissipar-se. [...] Não acredito que tudo em nossas vidas seja uma questão de escolha. Em círculos da Nova Era, ouço frequentemente pessoas dizerem: "Criamos nossa própria realidade". Essa é uma compreensão simplista e míope de como a realidade funciona. Não escolhemos todas as nossas circunstâncias, nem todas as nossas opções. Os pobres geralmente não escolhem morrer de fome, nem os oprimidos escolhem a opressão, e as vítimas da guerra não escolhem morrer. Mas podemos escolher como reagir às circunstâncias que nos são apresentadas. [...]. Ela também é autora de outros livros como Webs of Power: Notes from the Global Uprising (2002), Walking to Mercury (1997), The Pagan Book of Living and Dying: Practical Rituals, Prayers, Blessings, and Meditations on Crossing Over (1997), The Fifth Sacred Thing (1993), Truth or Dare: Encounters with Power, Authority, and Mystery – Creative Alternatives for Positive Change in Our Lives and World (1987), Dreaming the Dark : Magic, Sex, and Politics (1982) e The Spiral Dance: A Rebirth of the Ancient Religions of the Great Goddess (1979).

 

NÃO HÁ IDENTIDADE CULTURAL – […] tratar a diversidade das culturas em termos de diferença levará a querer isolá-las e fixá-las na sua identidade. [...]. Trecho extraído da obra No hay identidad cultural (Taurus, 2017), do filósofo francês François Jullien, que em sua outra obra The Silent Transformations (Seagull Books, 2009), ele expressa que: [...] O que resta, de fato? O que mais nos resta além da grama que cresce e das montanhas que se erodem, corpos que se tornam pesados e rostos que se emaciam, a vida que fecunda, ou se exaure, ou melhor, que, enquanto fecunda, já começa a se exaurir? E vagas expectativas que se cristalizam em paixão febril, ou então em encontros que se tornam menos frequentes. Ou cumplicidades amorosas que, sem serem confessadas, se transformam em relações de poder? Ou revoluções heroicas que (sem que possamos precisar quando) se transformam em privilégios do Partido? Ou então as feridas de ontem que são deslocadas, enterradas e condensadas, e então se transcrevem em representações criptografadas de sonhos – e obras que amadurecem em silêncio? [...]. No livro La china da que pensar (Anthropos, 2005), ele reflete que: [...] ao que foi aprendido, enquanto se continua aprendendo. [...], acrescentando noutra obra, The Propensity of Things: Toward a History of Efficacy in China (Zone Books, 1995), que: […] No estágio mais embrionário, a tendência à plenitude da atualização já está latente. [...]

 


O UNIVERSO DE MACHADO DE ASSIS - Esquecer é uma necessidade. A vida é uma lousa, em que o destino, para escrever um novo caso, precisa de apagar o caso escrito... Pensamento do escritor Machado de Assis (Joaquim Maria Machado de Assis – 1839-1908). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

A ARTE DE GUEL ARRAES

[...] Eu entrei em cinema no começo dos anos 70, bem por acaso. Na época, todo mundo fazia um pouco de Super-8, que corresponde ao vídeo de hoje em dia. Na Universidade de Paris VII, eu fazia um curso de antropologia e havia umas cadeiras de cinema. Como eu já fazia filme em Super-8, optei por cadeiras relacionadas a cinema, etnologia e etnofilmes. Foi quando comecei a ver os filmes de Jean Rouch e fiquei fascinado [...] Eu cheguei no Brasil em dezembro de 79. Cheguei no Rio em abril de 80 e seis meses depois eu estava na televisão, já na Globo, já em novela. Eu comecei como estagiário e uns seis meses depois comecei a dirigir. Minha ida para a Globo também foi por acaso. [...] O que eu faço no cinema é comédia maluca. Gosto do cinema burlesco, da comédia, da farsa mas nesse gênero de filme não se explora a paisagem, planos em contra-luz. Não dá tempo para se ter muitas panorâmicas, por exemplo. O cinema que eu faço não tem a pretensão de ser um cinema de arte. Não precisa ser julgado dentro dessa regras. Há eixos nos meus trabalhos e são eles que precisam ser analisados: há essa mistura de ficção e realidade, há o apelo à metalinguagem, o burlesco, por exemplo. [...] O Auto surgiu quando a gente já estava começando a cansar de novo da TV. [...] Na maioria das histórias, a gente teria que cortar muito para colocar tudo em um único episódio; não haveria como aproveitar mais cenas difíceis e caras de produzir, foi quando então a gente propôs o formato seriado, em capítulos. Foi o que fizemos com o Auto da Compadecida, Luna Cliente e, mais tarde, com Caramuru. [...] Com a transformação do Auto da Compadecida em filme, ficou bem claro que a leitura no cinema é mesmo outra, permite um grau de sofisticação maior. [...] Mas, para muita gente o Auto, no cinema, foi uma coisa inteiramente nova. Isso só mostra que, na televisão, às vezes, a gente “vê e não vê”. Se ficasse só na TV, teria sido só mais um excelente programa; no cinema, virou uma interpretação clássica de um clássico de Ariano Suassuna. No entanto, era a mesma coisa. O cinema cria uma outra relação. [...] Parecia ser possível então educar um público pra ver diferente: se o programa tem equilíbrio, desperta curiosidade, desperta interesse, o espectador começa a sentir que pra ver aquilo ele tem que prestar atenção, e ele começa a prestar atenção porque se ele virar, piscar, pode perder uma piada. Isso eu acho que, de alguma maneira, começou a acontecer com os programas que a gente fez [...].

Trechos recolhidos da entrevista Subvertendo as fórmulas, reiventando os formatos: entrevista com Guel Arraes (Galáxia, 2002), dos jornalistas Alexandre Figueirôa e Yvana Fechine, concedida pelo cineasta, roteirista e diretor Guel Arraes (Miguel Arraes de Alencar Filho), diretor de filmes como Doris para maiores (1991), A comédia da vida privada (1997), O auto da compadecida (2000), Caramuru – a invençãodo Brasil (2001), Lisbela e o prisioneiro (2003), O bem amado (2010), Grande sertão (2024) e Fábrica de sonhos (2024), entre outros. Veja mais aqui.

 

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quinta-feira, agosto 30, 2018

PETRARCA, CAIO ABREU, ADRIANA CALCANHOTO, HABERMAS, VATTIMO, ALDEMIR MARTINS, PESQUISA & ZEBEDEU


O BOI DE ZEBEDEU - Imagem: arte do ilustrador, pintor e escultor Aldemir Martins (1922-2006). - Foi assim: numa manhã ensolarada de sábado estival, apareceu Zebedeu todo enfeitado de tampas, botões, moedas, adereços e outros brebotes reluzentes apregados no gibão e no chapéu de vaqueiro, exaltando o boi Glorioso que mugia acompanhando a sua cantoria. Ele danou-se a embolar coco, puxando firme na versejada, de ajuntar gente para acompanhar o apólogo de interminável falação desde cedinho até a noitinha. Cantava ele a majestade miraculosa do animal, das peçonhas que inoculara, das doenças que curara, das mortes que ressuscitara, das vidas que salvara, afora outras tantas espetaculares virtudes, adivinhações e medicações do afamado bovino que ali estava comendo flores, todo ornado de fitas do pescoço à cauda. Todo sábado ali, já era costume. Vez por outra aparecia uma empreitada: um menino com febre braba, quase desfalecido de tão franzino, com maleita incurável. Zebedeu não teve dúvida, foi só chegar nas orelhas do Glorioso e cochichar, do bicho levantar-se e derramar uma mijada estrondosa numa vasilha ali colocada. Ele pegou do mijo, entregou num frasco providenciado e entregou à mãe aflita. Quanto é? Sábado que vem, se o menino tiver curado, traga só um dicomer pra saciar a fome da gente. Assim foi. E no sábado seguinte, a genitora do restabelecido, chegou toda ancha a lhe dar de não sei quantas galinhas, preás, perus e uma marmita com o melhor que havia de cosido na sua casa, afora um molho de mato do bom para alimento do santificado animal. A multidão curiosa aplaudia e presenciava mais uma divina intervenção dele. Logo apareceu outra senhora abalada com o reumatismo de um ancião acamado de meses, morre mas num morre, Zebedeu prontamente, cochichou na orelha dele que levantou-se, deu uma cagada esparramada que recolhida num recipiente na hora, recomendou fazer uma garrafada pro enfermo incruado tomar em jejum por três dias encarreados. Quanto é? Sábado que vem, se o seu pai estiver curado, traga só um dicomer pra matar a fome da gente. Assim se repetiu. Na semana seguinte, estava ela toda às risadagens com presentes e mais brindes pro cantador e pro salvador bicho. Ficou curado? Oxe, bastou tomar dois dias da garrafada em jejum, como o senhor mandou, e logo ficou bonzinho da silva, olhele aqui, espie! Era salva de palmas! O ancião de tão bom estava aos pulos. Assim era, aparecesse a bronca que fosse de saúde ou de maus espíritos, era só usar de raspas do chifre, tacos das patas, sebo da bimba, pingo do suor dos bagos, cabelo do rabo, catota da venta, meleca dos olhos, gozo da punheta, tudo milagroso, um santo remédio. O paciente que fizesse uso, morto que tivesse num sepultamento, tornava vivinho na hora! Se tivesse desaparecido desenvultava no instante! Escondido reaparecia, desencantado tomava gosto na vida, raquítico engordava, cego via, aleijado andava, adoecido sarava e assim por diante. Por conta disso, juntava gente, a maior romaria de penitentes e retirantes, e o boi obrando milagres pra cima e pra baixo. Até as vacas namoradeiras ficavam flertando o milagreiro. Descuidou-se, oxe, estava lá ele amontado nos quartos duma faceira, tanto é que os bezerros é tudo famigerado: Jauaraicica, Pintadinho, Serapião, touro Rei, Espácio, até as vacas Mordaça e a Estrela do boi Fubá, tudo cantado em folhetos de cordel de todas as espécies de cantadores e repentistas de norte a sul, leste a oeste do Nordeste desse Brasilzão véio, arrevirado e de porteira escancarada. Certo dia, vinha ele pelas quebradas se dirigindo pra feira da cidade mais próxima, quando o boi amuou no meio da rodagem. Que é que é isso, Glorioso? O povo está lá esperando a gente pra novas ações, vamos que vamos. E o boi nada de se desapregar do chão, ronceiro, acanhado. Que é que tá havendo? E o Glorioso todo desconfiado, nada de se arrastar pra canto nenhum. Assim demorou-se. Lá longe já vinha o povaréu crente impaciente e requerente descendo a ladeira: Cadê o boi, homem? Ah, Glorioso está cheio de pantim. Conversa vai e vem, e agora? Tá todo mundo lá na feira esperando pras sessões! Nessa hora, o boi, assim do nada, deu um carreirão de se perder na poeira mato adentro. O povo atrás, pé na bunda. Correram chão que só, quando avistaram lá na beira do brejo uma criança inocente brincando e prestes a ser atacada por uma cobra Pico-de-jaca. A peçonhenta surucucu estirada em “S” com mais de metros, vibrava a cauda no chão, parecia mais que cuspia fogo, armou o bote e a cabroeira toda só: Valha-me, Deus! O boi travou-se com a surucucu e levou picada até umas horas, da gente só ver o boi gemendo e cheio de bolhas onde a danada mordia. Foi um combate feroz da poeira comer no centro. Lá pras tantas, enfim, a criança sorria salva e o boi caiu com a serpente enrolada nele: morreram os dois. O boi santificado começou a levitar aureolado e saiu voando, ascendendo aos céus para nunca mais. Lá se foi o santo Glorioso! PS: recriação recolhida da obra Sertão do Boi Santo (Clube do Livro, 1968), do escritor Paulo Dantas (1922-2007). © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais  aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música da cantora e compositora Adriana Calcanhoto: Senhas, Loucura, Micróbio Vivo & Público & muito mais nos mais de 2 milhões & 600 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Porque a violência social dos capitalistas se institucionaliza na forma do contrato particular de trabalho como relação de troca, e a compensação da mais-valia privadamente disponível ocupou o lugar da dependência política; o mercado, além da sua função cibernética, assume uma função ideológica: a relação de classe pode, na forma apolítica da dependência salarial, assumir uma forma anônima. [...] Trecho extraído da obra A crise de legitimação do capitalismo tardio (Tempo Brasileiro, 1980), do filósofo e sociólogo alemão Jürgen Habermas. Veja mais aqui.

MORTE DA ARTE – [...] é aquela que de fato já vivemos na sociedade da cultura de massa, em que se pode falar de estetização geral da vida na medida em que a mídia, que distribui informação, cultura, entretenimento, mas sempre sob critérios gerais de beleza (atração formal dos produtos), assumiu na vida de todos um peso infinitamente maior do que em qualquer outra época [...]. Trecho extraído de O fim da modernidade: niilismo e hermenêutica na cultura pós-moderna (Martins Fontes, 1996), do filósofo italiano Gianni Vattimo. Veja mais aqui e aqui.

ONDE ANDARÁ? - [...] Uma loura cinquentona, com muitas joias douradas e um vestido decotado imitando onça, debruçou-se na máquina quando passei. Poderia ser vulgar, mas qualquer coisa no pescoço esticado demais e nos ombros rígidos, jogados para trás, revelava certa aristocracia. Quem sabe uma recém-divorciada tentando começar de novo, uma ex-bailarina russa fascinada pelos trópicos e obrigada a fazer sórdidas traduções para sobreviver. [...] Antes que eu pudesse discar, ela estendeu sobre a mesa a mão cheia de anéis e longas unhas escarlates. – Prazer – disse, sem nenhum sotaque russo. Ao contrário, com suas vogais abertas soava levemente baiano. – Sou Teresinha O’Connor. – Teresinha como? – O’Connor – ela repetiu, caprichando na pronúncia – De origem irlandesa, sabe? Sou cronista social. Quando tiver alguma nota, você me passa? Pessoal que lida com arte sempre tem. – Pode deixar – eu disse. E comecei a discar. [...] Até encontrar um táxi, passei por dois anões, um corcunda, três cegos, quatro mancos, um homem-tronco, outro maneta, mais um enrolado em trapos como um leproso, uma negra sangrando, um velho de muletas, dias gêmeas mongoloides, de braço dado, e tantos mendigos que não consegui contar. A cenografia eram sacos de lixo com cheiro doce, moscas esvoaçando, crianças em volta. [...]. Trechos extraídos da obra Onde andará Dulce Veiga (Nova Fronteira, 1990), do escritor, jornalista e dramaturgo Caio Fernando Abreu (1948-1996). Veja mais aqui e aqui.

TRIUNFO DA MORTE - Aquela bela dama e gloriosa, / Que hoje é nu 'spírito e pouca terra, / E foi alta coluna e valorosa; / Tornava com grande honra de sua guerra, / Deixando já vencido o grande inimigo, / Que com seu doce fogo o mundo aterra. / Não com mais armas que respeito altivo, / Honestidade em rosto e pensamento, / Coração casto e de virtude amigo. / Grande espanto era ver tal vencimento, / As armas d'amor rotas e desfeitas, / E os vencidos dele em mor tormento. / A bela dama e as outras eleitas / Se vinham gloriando da vitória, / Em bela esquadra juntas e restreitas. / Poucas eram, que rara é vera glória, / Mas dinas, da primeira à derradeira, / De claríssimo poema e de história. / Traziam, por insígnia, na bandeira / Em campo verde um branco armelino / D'ouro fino, e topazes a coleira. / Não humano, certamente, mas divino / Era o seu doce andar, e o que diziam: / Ditosa é a que nasce a tal destino. / Estrelas e sol em meio pareciam, / Em cujo resplendor o seu consiste; / De rosas coroadas todas iam. / Como nobre coração que honra aquiste, / Cada uma em sua virtude se alegra, / Quando outra insígnia vi escura e triste, / E uma fera dona em veste negra. / Com tal furor, qual eu não sei se atrás, / No tempo dos gigantes fosse em Flegra. / Chamou, e disse: donzela, tu que vás / De beleza e virtude alterada, / De tua vida o termo não saberás? / Eu sou a importuna acelerada, /Chamada de vós, gente surda e cega, / A quem morte vem antecipada. / Eu sou a que matei a gente grega / E troiana, e no último os romãos, / Que todos minha foice corta e cega. / Não deixo povos gentios nem cristãos, / Chego quando por mim menos se espera, / Atalho mil pensamentos, todos vãos. / E a vós, quando mais ledo o viver era, / Endereço meu curso, antes que a fortuna / Misture em vossa doce a sua fera. / Já nestas tu não tens razão alguma, / E em mim pouca, que em minha morte, / Respondeu a que no mundo foi uma, / Outrem sei a quem mais dura é a sorte, / Cuja vida do meu viver depende, / Que o morrer, quanto a mim, será deporte. / Qual é quem grave coisa e nova entende, / Ou vê o que no princípio não lembrou, / E ora se maravilha, ora resprende. / Tal foi a cruel; e depois que cuidou / Um pouco em si, disse: bem conheço eu / Se dá o meu golpe em cheio ou se errou. / Depois, com melhor / semblante e menos seu / Disse: tu que a fremosa esquadra guias, / Inda não experimentaste o tosco meu. / Mas, se de meu conselho algo te fias, / Que forçar te posso: por melhor se tem / Fugir velhice e os seus tristes dias. / Eu sou disposta a te fazer um bem / Que não costumo; e é que tua alma vá / Sem aquele medo e dor que a morte tem. / Como apraz ao Senhor, que em cima está, / E rege o céu, e a terra, e o abisso, / Farás de mim o que dos outros será. / Em respondendo assi, eis d'improviso / De mortos se cobriu toda a campanha, / De multidão que excede o humano siso. / A índia, o Cataio, África e Espanha, / Tudo estava coberto até os extremos / Daquela infinita turba manha. / Entre eles, os que por felices temos, / Pontífices, e reis, e imperadores, / Que ora são nus e pobres, como vemos. / Que foi de suas riquezas e primores? / Dos ceptros e vestiduras reais? / Das mitras e das purpúreas cores? / Triste o que a esperança põe em bens mortais! / Mas quem a não põe? Que se depois se achar / Enganado, o remédio é por demais. / Ó cegos que aproveita o afadigar? / Que logo vos tornais à madre antiga, /E muito pouco o vosso nome há-de durar. / E se alguma há, entre vós, útil fadiga, / Ou se são todas puras vaidades, / Qual mais souber de vós esse mo diga. / Que val ganhardes reinos e cidades, / Fazerdes tributárias muitas gentes, / Forçardes nações livres e vontades? / Que achais nessas vitórias eminentes? / Trocar sangue por terra e por tesouro? / Melhor sabe na paz aos prudentes / O pão e água no pau, que a vós no ouro. / Mas por não prosseguir tão longo tema / Acabarei, e a meu lavor me torno. / E digo que já era na hora extrema / Aquela breve vida gloriosa, / No passo em que nenhum há que não trema. / Com ela estava outra valerosa / Companhia de donas, que esperava / Saber se alguma morte há piedosa. / Atentas eram quantas ali estavam / A contemplar o fim que ela fazia, / Que tal convém fazer aos que acabam. / Estando assi a nobre companhia, / Da loura cabeça, morte lhe cortou, / A trança que seus cabelos tecia. / Assi do mundo a mais bela flor levou, / Não por ódio, mas por mais cedo mostrar / Que para reinar na glória se criou. / Tristes prantos e querelas ouvi dar, / Sendo os seus belos olhos já enxutos, / De cujo nome me soía abrasar. / Entre gritos e lágrimas e lutos / Estava ela só leda e calada, / De seu casto viver colhendo os frutos. / Vai-te em paz, alma bem- aventurada, / Diziam, e era assi; mas nada val / Contra a morte cruel e acelerada. / Que será de nós? Pois esta que era tal / Ardeu em tão breve tempo e acabou / falsa e cega esperança humanal / Se de lágrimas a terra se banhou, / Com piedade daquela alma gentil, / Sabe-o quem o viu e experimentou. / Na hora prima do dia sexto d'Abril, / Em que fui preso a morte me desatou; / Que assi muda fortuna o seu estilo vil. / Quem de dura servidão mais se queixou, / Ou da morte, como eu da liberdade / E da vida, que sem ela me ficou? / Devido era ao mundo e à idade / Não preceder a da véspera ao da prima, / Nem tirar-se-lhe a ele a dignidade. / Qual fosse a sua dor que não se estima / Ousado só a cuidá-lo eu não seria, / Quanto mais a escrevê-lo em prosa ou rima. / Acabada é a virtude e a cortesia / Se ouvia lamentar junto do leito / Pelas donas e amigas que ali havia. / Quem verá mais em dama auto perfeito, / Quem ouvirá seu falar de saber cheio, / E a voz de tão suave deleito? / O espírito, por deixar o doce seio / Com todas as virtudes, anojado, / Fazia em toda a parte o ar sereio. / Nenhum dos adversários foi ousado / De aparecer ali com vista escura, / Até que a morte o assalto houve acabado. / Deposto já o medo e a tristura, / Ao belo rosto cada uma olhava, / Por desesperação feita segura. / Não como chama, que por força acaba, / Mas que por si se gasta e consume, / Se foi dentre nós a que o mundo ornava. / A modo de um suave e claro lume, / A que falta sustância e nutrimento, / a Que no fim tem usado costume; / Mais alva que a neve que sem vento / Em gracioso campo se vê cair, / Estava ela no fim do passamento. / Quase em belos olhos um doce dormir, / Sendo o espírito já partido dela! / Parecia o seu morrer o ressurgir, / E o seu lindo rosto morte bela! Poema extraído da obra Triunfos (Hedra, 2006), do escritor, intelectual humanista e filosofo italiano Francesco Petrarca (1304-1374). Nesta obra, conforme a escritora Gertrudre Moakley (1905-1998) e recolhido da obra Jung e o tarô: uma jornada arquetípica (Cultrix, 1980), de Sallie Nichols, cada uma de uma série de personagens alegóricos combate e vence o seu predecessor, adaptando as ilustrações dos poemas do autor para a sua amada Laura, dividindo-a em seis partes: Triunfo do Amor, Triunfo da Castidade, Triunfo da Morte, Triunfo da Fama, Triunfo do Tempo e Triunfo da Eternidade. Nesses poemas o amor vence todos os homens, inclusive o próprio poeta, no entanto, é derrotado por Laura, que se vale da castidade. Ela comemora sua vitória, mas ainda precisará enfrentar a Morte, e ser eternizada pela Fama e pelo Tempo, que por fim são vencidos pela Eternidade, o reino de Deus, último Triunfo. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do ilustrador, pintor e escultor Aldemir Martins (1922-2006). 
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segunda-feira, junho 18, 2018

ALICE PALMIRA, HABERMAS, ANA OSÓRIO, MARMELO E SILVA, ALDO BONADEI, NEUROEDUCAÇÃO, SÉRGIO RICARDO & LENA D’ÁGUA


AQUELA DO NÃO LIGO & TÔ NEM AÍ! - Imagem: arte do pintor brasileiro Aldo Bonadei (1906-1974) - Pra todo lado me perguntam se estou pronto pra torcer na copa. Oxe, digo de bate-pronto: quem vê essas coisas lá em casa é a madama, sou um zero à esquerda. Hem? Ué, tento afazeres domésticos, mas sou logo demitido por conta do desajeitado de tão mal feito, qual imprestável que mais atrapalha que ajuda. Ah, Copa do Mundo, tá. Estou tão por fora que nem reboco esburacado, faz tempo. Digo mais: afora alguns capítulos com as paisagens e trilha sonora de Pantanal – nem lembro quando foi que assisti -, não sei qual a novela da vez, nem a manchete do noticiário, nem programação da tevê, ou do rádio, nunca mais vi jornal nem revista: tudo a mesma coisa todo dia, tanto faz hoje, ontem ou amanhã, já sei. Pra piorar, livro é caro que só – mas leio o que sobra das bibliotecas e sebos -, nunca mais fui aos bares, não sei que droga é nove, nem quem pintou a zebra, se alguém souber me avise, por favor; só sei que o dia amanhece, a noite escurece e a única certeza de que vou morrer um dia, mais nada. Como não tenho onde cair morto, vai ser prejuízo pra morte e alívio pros parentes distantes e desafetos. Serei menos um pra dá trabalho à humanidade. Ah, quando falam de seleção brasileira lembro logo da corrupção e golpes, greves que são locaute, aumento de combustíveis, meladas dos agentes públicos, a desgraça dos assalariados e excluídos. Além do mais a CBF não me representa, é um antro privado pra sacanagens e sujeiras, lucros e afanações. Ah, tá. Logo vem aquela: E vai torcer por qual seleção, então? Ué, quais países africanos e latinos da competição que eu não sei mesmo, ninguém sabe, menos um que chegou com um álbum de figurinhas e começou a falar duma tuia: Arábia Saudita, Portugal, Irã, Austrália, Islândia, Sérvia, Croácia, Coreia do Sul, não sei bem que mapa-múndi ele estudou, mas deixa pra lá, isso é Brasil, e saí identificando Senegal, Panamá, Egito, Marrocos, Peru, Nigéria, Costa Rica, México, Tunísia, Colômbia, hummmmm... ah, Costa Rica, talvez, Tunísia, Egito, México, legal. Sou pelos azarões, um dia dá. Será? Pra quem torceu pelo Íbis e Vovozinhas de Santo Amaro, já viu. Pois é, aprendi assim depois de empurrões, cotoveladas, petelecos, apertos e camas de gato, na tentativa pela pontaria vesga acertar no ângulo e só triscando na trave, pra fora! Não deu, de novo e sempre. Um dia dá, destá, só remo quando queria navegar, sebo nas canelas e não saio do lugar, todo castigo pra beócio é pouco e me rio. Que me perdoem os ofendidos e os que melindram, é que fui brincar meu carnaval e era São João, que coisa! Passou e nem me dei conta da perda de tempo. Daí pra competição, nem entrei em campo, só na regra três, sempre. Fazer o quê? Oportunidade não é milagre de todo dia e momento. Que me perdoem os que se foram - já já chego por aí -, por mim, não tenho um tostão furado no bolso, dignidade alguma, pendurado no cada um por si, sacaneado pelos umbigocentristas, culpas eventuais, escorregões, piruetas e maledicências mais, preferia mesmo sair levitando em paz, distribuindo beijos e abraços, sorrindo flores de primavera no inverno. De fato, só me resta amar uma mulher e o futuro colaborar pra fruir desse amor. De resto, mãos à obra evitando a cagada, pés no mundo pernas pra que te quero sem deixar rastro e fé em Deus que um dia isso tem jeito. Vamos aprumar a conversa e tataritaritatá! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música do compositor, ator, cantor, pintor e cineasta Sérgio Ricardo: Deus e o diabo na terra do sol, Ponto de Partida & Quando menos se espera; da cantora e autora portuguesa Lena D’Água: Sempre que o amor me quiser, Tao & Ou insto ou aquilo; & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui.

PENSAMENTO DO DIA – [...] A mulher, na sua fundamental função materna tem em si própria, o verdadeiro sentido da palavra nacionalismo, que veio alargando progressivamente através da família, de civilização em civilização, desde o limite estreito da sua primitiva caverna, em que ela foi a primeira base duma sociedade que mal se reconhecia, até ao alargamento máximo das pátrias, que se desdobram em ambições de imposição civilizadora. [...] Não se pode haver uma grande nação se não houver nas mulheres este sentimento que as faz as guardas e fiadoras das qualidades e tradições da raça [...] A mulher tem a função fundamental de guarda das qualidades e tradição da raça. Como a terra, ela é fixadora e o reservatório de todas as energias raciais, mormente dum povo como o nosso que aprendeu cedo o caminho aventuroso da navegação, da conquista e da colonização emigradora [...]. Trechos extraídos da obra A grande aliança (Instituto Piaget, 1997), da escritora, jornalista, pedagoga, ativista republicana e feminista portuguesa Ana de Castro Osório (1872-1935). Veja mais aqui e aqui.

SOCIEDADE ATUAL – [...] da perspectiva de um observador não envolvido, a sociedade só pode ser concebida como um sistema de ações tal que cada ação tem um significado funcional de acordo com sua contribuição para a manutenção do sistema [...] Nós vemos a sociedade como uma entidade que, no correr da evolução, diferenciou-se tanto como um sistema quanto como um mundo da vida. A evolução sistêmica é medida pelo aumento na capacidade de direção da sociedade, enquanto o estado de desenvolvimento de um mundo da vida estruturado simbolicamente é indicado pela separação da cultura, sociedade e personalidade [...] A racionalização do mundo da vida torna possível a emergência e o crescimento de subsistemas cujos imperativos se voltam definitivamente contra o próprio mundo da vida [...] com a institucionalização legal do meio monetário que marca a emergência do capitalismo, a ação orientada para o sucesso, guiada por cálculos egocêntricos de utilidade, perde sua conexão com a ação orientada para o entendimento mútuo. Esta ação estratégica que desatrela-se dos mecanismos de alcançar o entendimento e demanda por uma atitude objetivante inclusive no campo das relações interpessoais é promovida a modelo para lidar metologicamente com uma natureza objetivada cientificamente. Na esfera instrumental, a atividade dirigida a fins, ao retirar sua legitimidade do sistema científico, fica livre das restrições normativas [...] Através dos meios dinheiro e poder, os subsistemas da economia e do estado são diferenciados fora de um complexo institucional estabelecido dentro do mundo da vida; surgem domínios de ação formalmente organizados que, em última análise, não são mais integrados através dos mecanismos de entendimento mútuo mas que se desviam dos contextos do mundo da vida e congelam-se num tipo de sociabilidade livre de normas. Com essas novas organizações surgem perspectivas sistêmicas, das quais o mundo da vida é distanciado e percebido como um elemento do meio ambiente do sistema. As organizações ganham autonomia através de uma demarcação que as neutraliza frente às estruturas simbólicas do mundo da vida. Tornam-se peculiarmente indiferentes à cultura, à sociedade, e à personalidade [...] À medida que o sistema econômico sujeita a seus imperativos as formas de vida do lar privado e a conduta de vida dos consumidores e empregados, está aberto o caminho para o consumismo e para o individualismo exacerbado. A prática comunicativa cotidiana é racionalizada de forma unilateral num estilo de vida utilitário, esta mudança induzida pelos meios diretores para uma orientação de natureza teleológica gera, como reação, um hedonismo liberto das pressões da racionalidade. Assim como a esfera privada é solopada e erodida pelo sistema econômico, também a esfera pública o é pelo sistema administrativo. O esvaziamento burocrático dos processos de opinião espontâneos e de formação da vontade abrem caminho para a manipulação da lealdade das massas e torna fácil o desatrelamento entre as tomadas de decisão políticas e os contextos de vida concretos e formadores de identidade [...] No lugar da falsa consciência, nós lemos hoje uma consciência fragmentada que bloqueia o iluminismo pelo mecanismo da reificação. É somente assim que as condições para a colonização do mundo da vida são dadas [...] Trechos extraídos de The theory of communicative action - Lifeworld and sistem: A critique of functionalist reason (Beacon Press, 1987), do filósofo e sociólogo alemão Jürgen Habermas. Veja mais aqui e aqui.

A MULHER & SEDUÇÃO - [...] Maria Noémia, noiva, é sexualmente repelida não em nome do sexo, muito menos por razões intelectuais e espirituais (“delicada, inocente, bondosa...”), mas apenas em nome do dinheiro. Isto quando teria uns 16 ou 17 anos (porque tem uns 34 no momento em que “é escrita” a novela, quando já começou a guerra civil de Espanha). Natural é que, afetivamente frustrada, se revolte não só contra a causa imediata dessa frustração, um homem, mas também contra o gênero a que ele pertence (“abaixo os homens” – gritou ela e com ela gritaram as seduzidas, muito antes dos movimentos de emancipação da mulher) [...]. Trecho extraído da obra Sedução (Caminho, 1937), do escritor português José Marmelo e Silva (1911-1991), que no prefácio e no livro O personagem na obra de José Marmelo e Silva (Campo das Letras, 2008), o poeta, ensaísta e tradutor português Arnaldo Saraiva, procura caracterizar a galeria de personagens preferentemente jovens e masculinos, geralmente em relação difícil ou traumatizante com personagens femininos 'típicos', fixados em espaços limitados e limitantes da família, do campo, do internato ou da caserna confrontados com valores, hipocrisias e preconceitos patriarcais, autoritários, religiosos ou sexuais, contra os quais podem inglória ou dramaticamente rebelar-se. Também o escritor José Saramago (Boletim Editorial Estúdios Cor, 1960), expressa a respeito da obra que: [...] Ainda hoje, não obstante todos os anos decorridos, Sedução continua a ser um livro de combate, um livro indisciplinador. Não pela escabrosidade do tema - aliás tratado com a delicadeza e uma finura inexcedíveis, quando tão fácil (e tão comercial…) era ceder à tentação do obsceno -, mas pelo carácter insólito da análise, que progride por pequenas deslocações laterais; por iluminação de planos sucessivos, e não, como é corrente, por um mergulho vertical, pela sobrecarga de minúcias psicológicas que, habitualmente, fazem da personagem literária um monstro, inviável fora das páginas do livro. E o estilo? O maior bem que dele se pode dizer é que outro não serviria melhor o autor. Ao mesmo tempo usual e castigada, a sua linguagem parece ter sido decantada de maneira algo bizarra: aceitando muito do que se exclui, excluindo muito do que aceita, o resultado final é um estilo que não tem similar em Portugal. [...].

MINHA POESIADá-me a tua luz / A verdade do olhar / Não é mal nenhum escrever meu nome / Não é mal nenhum escrever poesia / Não é mal nenhum escrever teu nome / Não é mal nenhum escrever teu gozo / Não é mal nenhum escrever liberdade / A paz / O amor / A bondade / A mansidão / A temperança / Dá-me a tua luz / A verdade do teu olhar / Onde vai a poesia? / Onde para a poesia? / Se a sinceridade e a poesia dói, isto é / Escrever um poema. Poema extraído da obra A Mulemba da Saudade (UEA, 2004), da poeta congolesa com nacionalidade angolana, Alice Palmira – Dudu.

ARTE DE SÉRGIO RICARDO
Pinturas da série Transparência (2001), do compositor, cantor, cineasta, escritor e pintor Sérgio Ricardo.


O livro Confissões, de Vital Corrêa de Araújo & muito mais na Agenda aqui.
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Neuroeducação & Práticas Pedagógicas no Ensino-Aprendizagem aqui.
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A arte do pintor Aldo Bonadei (1906-1974) aqui.
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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Dicas da hora para felicidade agora (amanhã pode ser tarde demais, se avie!), a crônica de Sérgio Augusto, a escultura de Desiré Maurice Ferrary, a pintura de Milton Dacosta, o cinema de Lucrecia Martel & Maria Alché, Seca & Desertificação aqui.

APOIO CULTURAL: SEMAFIL
Semafil Comércio de Livros nas faculdades Estácio de Carapicuíba e Anhanguera de São Paulo. Organização do Silvinha Historiador, em São Paulo.
 

DIDI-HUBERMAN, LINDA DEANE, ADALYN GRACE & MARINÊS

    Imagem: Acervo ArtLAM .   Das loas & toadas no cavalo-marinho... - O afamado artesão Tirésia já nasceu assim: cego e vaticinado...