Ao som dos álbuns Glamorous Life (2017), Very
Special (2017), Tea Times (2016), Self Portrait (1997) e Cruisin'
(1993), da pianista japonesa Junko Onishi.
O
sacrifício da heroína & as façanhas acanhadas do mancebo... - Aperturam libra: Zeca Biu
já contava com seus 17 castos anos e a mãe dele, dona Adélia, desde que vencida
a puerícia dele, se corroía há tempos por preocupações: o alistamento militar e
cadê a namoradinha dele? Toda mãe é sagrada, há de se perdoar até as ideias extravagantes
dela: Será? O filho até então não se servia pro metier, ou se passasse a desmunhecar
e, o pior: a zooerastia, valei-me, afora o risco da peste no pipocar dos
furúnculos. Em confidências hesitantes e sucessivas com a Viscondessa, a
constatação do pânico: Puxou ao pai? Talqualzinho. O mal-estar angustiante: careciam
de providências urgentíssimas. Idas e vindas. Ele lá alheio a tudo: inepto donzelo
Príapo, no vice-versa da escola pro oitão da bicharada: seu meio de ganho com
estimado gosto, cada dia o seu pão e sequer um sinalzinho dum pé de gente por
amizade. Nem se incomodava mais com o desplante dos vizinhos furiosos com o
fedor do criatório. A genitora partiu pra cima da vocação hereditária, traquejo
da vida, que seja: ou vai ou racha! Inventava todo dia um folguedo pra reunir
as amigas e suas filhas, esperançosa de que dali uma que fosse caísse nas
graças dele. E inventava pândegas de Príncipe Encantado, levada pela festa do boi do Barão, tudo para destabocar a curiosidade das convidadas, resultando, ao
final de cada festejo, num desfile amuado de Zeca Biu, todo sem jeito, só pra
que todas vissem a filiação de um bom partido. Não dava cloro. Apelou pro anjo
da guarda deles, fez careta com as omissões, a cada batida do coração uma
vontade escapulia e quase tudo se perdia, de não desperdiçar outra vez, uma
chance, a única, descartada? Nunca. Desenganava: Ele que bote suas astúcias pra
fora, lavo as mãos não. O pubescente parecia já ter tirado a catinga do mijo e de
tão tabacudo nem aí. Ela fez finca-pé: recorreu à inarredável Viscondessa e lá,
na sepultura dela, ajoelhava-se de rezar e orar por horas, pedia permissão e rogava
um sinal de seu consentimento. Na hora: uma nuvem larga escureceu e caiu o
maior pé d’água, logo o Sol raiou: casamento da raposa. Era o que precisava,
saiu efusiva pronta pra deixar tudo nos conformes, louvando seus rogos pro
Santoínho. Dissimulada lá e cá, dissuadia: Cadê a paquera? Ele gaguejava
retraído, desconversava, tudo vez nada: quão e tão sombra sem voga, pernas e
braços cruzados, todo encabulado quanto ao assunto, constrangia-se a qualquer
insinuação. Ô meu filho, tá na hora de pensar em casar, num tá não? Casar? Ora,
se. O mancebo alesado: Quem? Um espirro, só na babaquice de queijudo. Ô homem
sem jeito! Sujeito retraído, abria e fechava os olhos; levantou-se e foi até longe
no alto do morro e confidenciou sua indignação: Casar? Foi pra casa dormir que
já era breu pra madrugar. Aí ele sonhou com uma cigana jeitosa: Qual a sua
missão? Despertou agoniado sem entender patavina. Eis que amanhecera e distraído
no quintal, apareceu do nada Dorcelimesia, a Dodô, também afeiçoada a bicho. Ela
trouxe pela coleira um gambá de estimação – tipo rato-do-mato. Ele receptivo: Também
gosto de cassaco, saruê, mucura, timbu, sariguê, tenho desses não no meu zoo,
só uma ticaca perdida por aí. Quer? Pra você eu dou. É macho? Sei lá. Deixe
ver: agora temos um casal. E riram-se. É que a mãe dela ralhava: Quero isso
aqui não, rouba ovos de galinha. Oxe! E se riam da leseira dela. Assim se viam
manhãs, tardes e noites, até foram juntos prum concurso e todo mundo fugiu. Ué!
Quem aguentaria a bufa dum da orelha-preta? Nisso a felizarda genetriz benzeu-se,
foi ver de perto e um tênue alívio repousara no seu coração: estava ali,
naquela menina, a sua redenção. Aproveitou-se achegando-se: aguava o pagode
ensinando as manhas pra moça e tudo fez força preles se estreitarem: No dia dos
namorados, Almofadinha e Melindrosa, brincava. A menina gostou tanto, da viúva
sogra, dela correr antecipada pros pais da afeiçoada: Vamos ajeitar o casório!
Como? Está mais do que na hora de juntar os dois pombinhos. E virava os olhos sonhando
com epitalâmios no ritual do matrimônio e bruguelos saltando pelo himeneu:
Vovó! Voltou pra casa e contou logo pra sua agora suposta nora: Pronto, agora
vão brincar no quintal com a Paz de Deus. Oxe! Os dois subiam e desciam pelas
árvores, buliam com a bicharada, pulavam muro, escorregavam no pó-de-serra,
atravessavam o brejo, viravam cambota, bundacanasca. A cunhã viçava, mais
atirada, taluda, destemida, determinada, o instinto materno adotivo; ele tão
medroso na estase franzina da ingenuidade, achava dela uma coisa tão chochinha,
vixe! Passava. E se empolgaram tanto dele contar um segredo. Havia do que se
falar: juntando montes e esburacados, deu numa panela cheia, dinheirama. Mesmo?
Uma botija por achado, segredou. E aí? Fez pelos avessos: dividiu em caçarolas
menores para semear em pequenas covinhas esparsas pela imensidão. Tais rico,
então? Só eu e você, chiiiii. Daí ele pegava o chilreio da passarada para guardá-lo
atrevido no bolso da blusinha dela: Pra você, todos! Ela sorria dourada quase tarde
ensolarada. E roubavam algodão doce das nuvens baixinhas ao alcance das mãos,
botando os pedaços um na boca do outro. Se sentiam como na epopeia do camelo
& a zebra, era a amizade deles nascendo escondido, tímida, clandestina,
embaixo de 7 capas. Não despregava as vistas da titela dela que cochichava cócegas
às suas ouças; o riso, respiração profunda. Trocavam azuis por rosas, roxos por
amarelos, verdes por vermelhos. Ela gostava de ver o bando dos bichos, até da
criatura com o dobro de braços e pernas. Quem? Oxe, apareceu agora. Deu fé até
dum ET. Danou-se tudo! Aí ardiloso pras bandas dela: Vê aquele negócio ali! Ela
foi, arreou-se conferente e ele, inadvertidamente, viu-lhe o cofrinho robusto
no lance da calcinha. Caiu a ficha, zarolho, empertigado: Fazer o quê, meu
Deus? Um inadvertido prurido ventral emergiu com a brejeirice dela sem
empecilhos, descobria a polução involuntária, aprendia a função onanista. O zerola
lambia os beiços, súbito fugitivo. Dodô virou-se: Cadê-lo. Sumira. Caçou-lo
pela redondeza e pegou-lo acuado ensandecido numa touceira escondida. Cobra? Foi
ajudá-lo e pegou dum jeito que ele sentiu o efeito na hora: maior meladeiro. O que
foi isso? Titubeou desajeitado, mas e nãos e sins. Não é venenosa não, né? Não
era. Ela apurou direito dos olhos quase pularem fora: Você tem três pernas ou
isso é um aleijão? Tartamudeava lívido, acabrunhado. Deixe ver direito? Um abismo.
Não! Ele fugou aos desembestos. Ela no encalço. Cansados da correria, se
agacharam esbaforidos à sombra do cajueiro. Tomavam fôlego. Cabeça baixa, olhos
fechados, ele não sabia o que dizer, língua enrolada, juízo deu nó. Quando ela
olhou pra ele ali acocorado, arregalou-se com o bico da piroca pendurada,
escapulindo coxa abaixo. Que bicho é esse? Hum? Não se mexa, vou pegar! E, como
a maior de todas as heroínas, encarou destemida. Deu-se a lavação da jega, dele
bater forte nos possuídos dela, uma peiada macha, de levá-lo à rebordosa: viciado,
via-se logo famélico, olhos fundos, desapaziguado, só os ossos. Qualquer gesto
dela e sacudia-se, deseganchado da toleima, atirava-se sobre os seus costados deles
esquecerem o almoço depois do meio dia, a janta na boquinha da noite e assaltados
pela surpresa de que já era tarde da noite, hora de cada um se recolher-se ao
seu domicílio. Não era de reprimenda e apartavam-se meio que desastrados até
bufarem sono pesado pela noite folgazã, cada qual na sua cama. No outro dia
Zeca Biu, todo ancho, procurou Dodô. O canto mais limpo. Cadê-la? Os pais se
mudaram. Pra onde? Quem sabe! O seu mundo pipocou esfarelado e, na mais espessa
escuridão, piongos, mãe e filho, desconsoláveis: fazer o quê dali pra diante. Dias
depois bateram à porta. Duas envelopes por baixo da porta. Inadvertida a mãe as
apanhou: É pra você! Escolheu logo a da caligrafia dela estampada no bilhete:
Vou fugir de casa praí! Ele alvoroçou-se todo. Contudo, conteve-se: os olhos
maternos chorosos: Que foi? Entendeu-lhe o papel: era hora de servir a uma das forças
armadas. Acta est fabula. Até mais ver.
Jürgen Habermas: Somente quem assume o controle da própria história de vida pode enxergar nela a realização de si mesmo. A responsabilidade de assumir o controle da própria biografia significa ter clareza sobre quem se quer ser... Veja mais aqui, aqui & aqui.
Joyce Carol Oates: Somos
todos regionalistas em nossas origens, por mais 'universais' que sejam nossos
temas e personagens, e sem nossas queridas cidades natais e paisagens infantis
para nos nutrir, seríamos como plantas colocadas em solo raso. Nossas almas
devem criar raízes - quase literalmente... Veja mais aqui, aqui, aqui,
aqui, aqui & aqui.
Salman Rushdie: Sociedades
livres... são sociedades em movimento, e com o movimento vêm a tensão, a
dissidência, o atrito. Pessoas livres produzem faíscas, e essas faíscas são a
melhor prova da existência da liberdade... Veja mais aqui, aqui, aqui,
aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.
BÚSSOLA
Imagem: Acervo ArtLAM.
EU - Minha mãe me colocou na água. \ Ela me deitou de
costas. Algum instinto \ manteve meu pescoço rígido e minha cabeça erguida. \ A
fotografia se perdeu. No álbum \ da minha mente, vejo o pânico nos meus punhos
cerrados. \ Ainda sinto o frio da água ao meu redor.
II - Ele disse que iríamos jogar um jogo. \ Todos nós
pulamos de susto. Ele segurou minha mão com força. \ No fundo, contamos. Bolhas
\ prateadas subiram à superfície. Então, eu saí correndo. \ de ar. Eu não
conseguia me soltar. Ao \ subir, ele me chutou. A água: tão pesada.
III - À tarde, eu tinha muita alegria \ em encher a
pequena chaleira e levá-la \ para o meu avô na sala de estar. \ Ele colocava a
chaleira na chapa quente e deixava \ a água ferver. Folhas de chá na chaleira. \
O aroma de bambu. A infusão amarga.
IV - Meu pai sempre dizia: onde há água, \ há chineses;
onde há chineses, \ há hakka. Tenho cinco frases: \ comer, dormir, tomar banho,
cagar, não entendo. \ Para contar os inhames: descascamos os inhames. \ Cozinhamos,
amassamos, adicionamos farinha e amassamos \ até virar massa. As mulheres em
fila, moldando \ as bolinhas com covinhas. Nunca entendi toda essa confusão. \ Óleo
cobre meus lábios, meus dentes e minha língua.
V - Sinto muita falta da banheira. \ Nas manhãs de
inverno, eu acordava e preparava \um banho quente. Um calor insuportável,
escaldante. \ Vapor subindo da água. Sal dissolvendo-se \ instantaneamente. A
imersão sublime — \ um retorno ao útero, ou a um caixão.
VI - Às três horas da manhã, \ minha avó resolveu
esfregar \ o chão do banheiro. \ Ela escorregou, cortou a testa \ num cano e
caiu de cara no chão. \ Sangue e dois olhos roxos. \ Essa mulher lutou a vida
inteira. \ À noite, trava uma batalha consigo mesma. \ O suor encharca seus
lençóis.
VII - Nunca soube que tinha um gosto doce. \ Como mel da
rocha— \ Sermões monótonos ecoavam pelo meu teto \ enquanto eu lia o Cântico em
silêncio. \ De cânticos, salmos e provérbios. \ Versículos como as marés. Meu
primeiro \ Poema, o oceano da minha ruína. \ No fundo: uma bússola de lata, \ sua agulha
selvagem e inquisitiva.
Poema da poeta singapuriana Eileen Chong (Eileen
Chong Pei Shan), radicada na Austrália e autora dos livros Burning Rice
(2012), Peony (2014), Painting Red Orchids (2016) e Rainforest
(2018).
CIDADE DE
REFÚGIO - […] Que o vento carregue seu espírito suavemente, que o Fogo liberte sua alma,
que a Água a purifique, que a Terra a acolha, que a Deusa a tome em seus braços
e a guie para o renascimento. [...] Mesmo uma gota de felicidade poderia colorir um poço inteiro de
miséria. [...] Trabalhamos muito, estávamos conseguindo nos manter — aí
eles aumentaram as taxas de juros, ou fecharam as escolas, ou mudaram as leis...
[...]. Trechos extraídos da obra City of Refuge: The Fifth Sacred Thing
(Califia Press, 2016), da escritora e ecofeminista estadunidense Starhawk (Miriam
Simos), que no seu livro The Earth Path: Grounding Your Spirit in the
Rhythms of Nature (HarperCollins, 2004), ela expressou que: […] A energia se move em
ciclos, círculos, espirais, vórtices, redemoinhos, pulsações, ondas e ritmos —
raramente, ou nunca, em linhas retas simples. [...] Como tudo é interdependente,
não existem causas e efeitos simples e isolados. Cada ação cria não apenas uma
reação igual e oposta, mas uma teia de consequências que se propagam. [...]
Uma relação real com a natureza é vital para o nosso desenvolvimento mágico
e espiritual e para a nossa saúde psíquica e espiritual. É também uma base
vital para qualquer trabalho que façamos para curar a Terra e transformar os
sistemas sociais e políticos que a atacam diariamente. [...] Mas um
quebra-vento também é um grande professor, para mim, sobre não-violência. Como
respondemos a forças intensas — raiva, fúria, até mesmo ataques físicos — sem
nos tornarmos violentos em resposta? Como reagimos a críticas
bem-intencionadas, porém duras (sejam elas bem-intencionadas ou intencionalmente
ofensivas)? Se nos tornarmos uma muralha, bloqueando as energias que nos
atingem, podemos, na verdade, fortalecer a raiva da oposição. Por outro lado,
se simplesmente ignorarmos ou rejeitarmos as críticas, a oposição pode expandir
suas críticas para incluir nossas reações. Mas há uma terceira alternativa: se
aprendermos com as árvores, podemos absorver e transformar a energia que nos
atinge. Fazemos isso mantendo a calma, o equilíbrio e o centramento, ouvindo em
vez de responder, balançando com o vento e deixando-o dissipar-se. [...] Não
acredito que tudo em nossas vidas seja uma questão de escolha. Em círculos da
Nova Era, ouço frequentemente pessoas dizerem: "Criamos nossa própria
realidade". Essa é uma compreensão simplista e míope de como a realidade
funciona. Não escolhemos todas as nossas circunstâncias, nem todas as nossas
opções. Os pobres geralmente não escolhem morrer de fome, nem os oprimidos
escolhem a opressão, e as vítimas da guerra não escolhem morrer. Mas podemos
escolher como reagir às circunstâncias que nos são apresentadas. [...]. Ela também é
autora de outros livros como Webs of Power: Notes from the Global Uprising
(2002), Walking to Mercury (1997), The Pagan Book of Living and
Dying: Practical Rituals, Prayers, Blessings, and Meditations on Crossing Over
(1997), The Fifth Sacred Thing (1993), Truth or Dare: Encounters with
Power, Authority, and Mystery – Creative Alternatives for Positive Change in
Our Lives and World (1987), Dreaming the Dark : Magic, Sex, and Politics
(1982) e The Spiral Dance: A Rebirth of the Ancient Religions of the Great
Goddess (1979).
NÃO HÁ
IDENTIDADE CULTURAL – […] tratar a diversidade das
culturas em termos de diferença levará a querer isolá-las e fixá-las na sua
identidade. [...].
Trecho extraído da obra No hay identidad
cultural (Taurus, 2017), do filósofo francês François
Jullien, que em sua outra obra The Silent Transformations (Seagull
Books, 2009), ele expressa que: [...] O que resta, de fato? O que mais nos resta além da grama que cresce e das
montanhas que se erodem, corpos que se tornam pesados e rostos que se emaciam,
a vida que fecunda, ou se exaure, ou melhor, que, enquanto fecunda, já começa a se
exaurir? E vagas expectativas que se cristalizam em paixão febril, ou então em
encontros que se tornam menos frequentes. Ou cumplicidades amorosas que, sem
serem confessadas, se transformam em relações de poder? Ou revoluções heroicas
que (sem que possamos precisar quando) se transformam em privilégios do
Partido? Ou então as feridas de ontem que são deslocadas, enterradas e
condensadas, e então se transcrevem em representações criptografadas de sonhos
– e obras que amadurecem em silêncio? [...]. No livro La china da que
pensar (Anthropos, 2005), ele reflete que: [...] ao que foi aprendido,
enquanto se continua aprendendo. [...],
acrescentando noutra obra, The Propensity of Things: Toward a History of
Efficacy in China (Zone Books, 1995), que: […] No estágio mais embrionário, a tendência à plenitude da atualização já está
latente. [...]
O UNIVERSO
DE MACHADO DE ASSIS - Esquecer é uma
necessidade. A vida é uma lousa, em que o destino, para escrever um novo caso,
precisa de apagar o caso escrito...
Pensamento do escritor Machado de Assis (Joaquim Maria Machado de Assis
– 1839-1908). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.
A ARTE DE GUEL ARRAES
[...] Eu entrei em cinema no começo dos anos 70, bem
por acaso. Na época, todo mundo fazia um pouco de Super-8, que corresponde ao
vídeo de hoje em dia. Na Universidade de Paris VII, eu fazia um curso de
antropologia e havia umas cadeiras de cinema. Como eu já fazia filme em
Super-8, optei por cadeiras relacionadas a cinema, etnologia e etnofilmes. Foi
quando comecei a ver os filmes de Jean Rouch e fiquei fascinado [...] Eu
cheguei no Brasil em dezembro de 79. Cheguei no Rio em abril de 80 e seis meses
depois eu estava na televisão, já na Globo, já em novela. Eu comecei como estagiário
e uns seis meses depois comecei a dirigir. Minha ida para a Globo também foi
por acaso. [...] O que eu faço no cinema é comédia maluca. Gosto do
cinema burlesco, da comédia, da farsa mas nesse gênero de filme não se explora
a paisagem, planos em contra-luz. Não dá tempo para se ter muitas panorâmicas,
por exemplo. O cinema que eu faço não tem a pretensão de ser um cinema de arte.
Não precisa ser julgado dentro dessa regras. Há eixos nos meus trabalhos e são
eles que precisam ser analisados: há essa mistura de ficção e realidade, há o
apelo à metalinguagem, o burlesco, por exemplo. [...] O Auto surgiu
quando a gente já estava começando a cansar de novo da TV. [...] Na
maioria das histórias, a gente teria que cortar muito para colocar tudo em um
único episódio; não haveria como aproveitar mais cenas difíceis e caras de
produzir, foi quando então a gente propôs o formato seriado, em capítulos. Foi
o que fizemos com o Auto da Compadecida, Luna Cliente e, mais tarde, com
Caramuru. [...] Com a transformação do Auto da Compadecida em filme,
ficou bem claro que a leitura no cinema é mesmo outra, permite um grau de
sofisticação maior. [...] Mas, para muita gente o Auto, no cinema, foi
uma coisa inteiramente nova. Isso só mostra que, na televisão, às vezes, a
gente “vê e não vê”. Se ficasse só na TV, teria sido só mais um excelente
programa; no cinema, virou uma interpretação clássica de um clássico de Ariano
Suassuna. No entanto, era a mesma coisa. O cinema cria uma outra relação. [...]
Parecia ser possível então educar um público pra ver diferente: se o
programa tem equilíbrio, desperta curiosidade, desperta interesse, o espectador
começa a sentir que pra ver aquilo ele tem que prestar atenção, e ele começa a
prestar atenção porque se ele virar, piscar, pode perder uma piada. Isso eu
acho que, de alguma maneira, começou a acontecer com os programas que a gente
fez [...].
Trechos recolhidos da entrevista Subvertendo as
fórmulas, reiventando os formatos: entrevista com Guel Arraes (Galáxia,
2002), dos jornalistas Alexandre Figueirôa e Yvana Fechine, concedida pelo cineasta,
roteirista e diretor Guel Arraes (Miguel Arraes de Alencar Filho),
diretor de filmes como Doris para maiores (1991), A comédia da vida privada
(1997), O auto da compadecida (2000), Caramuru – a invençãodo Brasil (2001),
Lisbela e o prisioneiro (2003), O bem amado (2010), Grande sertão (2024) e
Fábrica de sonhos (2024), entre outros. Veja mais aqui.
E veja mais gente de Pernambuco aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.







