domingo, abril 05, 2026

CLAUDIA PIÑEIRO, HELEN HEATH, DOLORES HUERTA & JOÃO PERNAMBUCO

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som do álbum Avant l’Aube (Timespan Recordings, 2022), da violonista italiana Cristina Galietto.


 

Reduto da migração... - À beira do rio vagava gente: a dança do imprevisível noitedia. Uns desafinavam descompassos; outros, valsavam torvelinhos intérminos. Prestativo, desde menino, Zé Calunga por ali - não tinha instrução, mas tirocínio. E ajudava quem chegasse pro embarque, avisava o horário da travessia do caudal ou da condução pela rodagem. Para isso ajeitava tamborete em troca de moedas ou do que dispusessem, evitando quem arrastasse as malas e perdesse a viagem das águas ou dos caminhos. Oxe! Perdeu a hora? Ora, ora. Captava bigus para desprovidos, carregava malas dos precisados, levava recados distantes, conduzia enfermos às emergências, servia de moletas pros pernetas e guia para cegos, ensinava destinos, dava a direção aos perdidos, servia de companhia para desencontrados, dava jeito em tudo que desafiasse resolução. Será o absurdo? Mas, tá! Assim cresceu enquanto as pessoas surgiam como coisas inventadas na hora: iam e vinham aos borbotões, migravam como lagartixas tontas fugitivas de suas incógnitas inexatidões. Eita, lasqueira! Motivo do alvoroço? Havia guerra remexendo os restos das ninharias, aos ensurdecedores pipocos: o mundo enorme se apequenava, todos proutras paragens na outra margem. E já! Deu o créu! Maior vexame! Foi assim que ganhou a simpatia do jangadeiro Caronte, que ia de Alagoinhanduba pelo Una, para alcançar Opará, Estige, Aqueronte, até o abismo profundo do Tártaro, nos confins do mundo. O navegante cobrava uma dânaca pelo traslado, bastava pagar ao seu vigilante escudeiro, o cachorro Cérbero, que as guardava permitindo acesso. Quando não, virava um feroz demônio do poço, acaso alguém contrariasse seu dono: com raiva tornava-se tricéfalo, fogo saindo pelo pescoço com serpentes cuspidoras e cauda de dragão. Que desgraceira é essa? Até comia gente: era uma vez Pirítoo. Valha-me! Era tratado na mão firme do dono, bastava jogar um bolo de farinha e logo se aquietava manso – o curioso era que o cão dormia com olhos abertos e andava de olhos fechados, ô danado, no geral era uma criatura adorável, fazendo festa balançando o rabo pra quem chegasse. Havia outra possibilidade: Lá vem Tua Mãe Bigoduda! Ela vai até o fim do mundo? Ora, se! E o cata-corno do severo Maalik, cara fechada de quem nunca sorriu, entupido até o tampo levava dessa pra melhor, ou do ruim pro pior, quem sabe, estradafora, todos que vinham das redondezas e dali queriam sair às pressas. E eram muitos os viajantes: Dioniso procurava por sua mãe Sêmele, Psiquê atrás do Asno de Ouro de Apuleio; Orfeu buscando por Eurídice que foi picada por uma cobra; Enéas ansiando pelo reencontro do pai, Ulisses segurava Tirésias para voltar pra casa na Odisseia de Homero; Rimbaud à cata de toda vidência poética; Otto escapando da Noite dos Cristais dos nazistas pelas páginas de Boschwitz; os passageiros de Agualusa, os seguidores da Katábasis de Kuang e espiões do bode verde da ISI paquistanesa. Ufa! Ainda havia Pedro, o porteiro do paraíso, inviabilizando aquela entrada: ou correnteza redemoinhada, ou os catabís das trilhas pelo itinerário aos pés dos morros, mais nada. E enchia a pança obesa com a farofada, mangando da magreza de Calunga: Pronto! O diabo foi pro céu! Que foi? Ivan Karamazov devolveu o bilhete: Não há retorno, só os despojos do Ozymandias de Shelley, crianças empaladas e um maltrapilho Jesus condenado pelo vazio de todos os crucificados pelo livre-arbítrio e pelas múltiplas opções consumistas do paradoxo da escolha de Schwartz, o Se questo è un uomo de Primo Levi. Num diga! A coisa piorou quando Héracles saltou da jangada trazendo Teseu e queria levar Cérbero para Euristeu. Aí não! Como assim? Conversa vai, toma lá, dá cá, desavenças - cada qual sua catábase. Quem apartou a briga e acordou tudo no tom apaziguador foi Maalik, que deu uma freada de levantar poeira e desceu com os Zabaniyah que todo dia eram levados pra Jahannam. E como passava por muitas entradas, levava mais quem quisesse. Entre eles, o profeta Muhammad que ia pra Meca pegar o Buraq pra Isra e ser guiado por Gabriel até chegar em Masjid al-Aqsa e ascender para Mi’rai, também interveio engrossando o buruçu, ampliando o deixa disso que, finalmente, chegou a bom termo: resolvido, tudo certo. Foi no meio disso e de muitas outras, que Zé Calunga foi tomando jeito: tornou-se cobrador, vendedor de passagens, recebia e entregava encomendas, passava o pule do jogo do bicho pros apostadores, fazia triagens e dava norte pras coisas, atendendo avexados párias, imigrantes, exilados, nômades, refugiados, estrangeiros, metecos, degredados, expatriados, proscritos, banidos; os que queriam visitar os Moais de Rapa Nui, os que iam brincar na flora alienígena da Ilha de Socotra do Iêmen, outros que iam ver as cores do Fly Gleyser, os que desejavam virar estátua no Lago Natron da Tanzânia, ou iam pro deserto do Salar de Uyuni, ou mesmo pra Ilha Sentinela do Norte, ou bisbilhotar os arquivos secretos do Vaticano, os gigantescos geoglifos das linhas de Nazca; as cidades fantasmas de Chernobyl e Priapyat, as ruínas apocalípticas da Ilha Hashima, a fantasmagoria da colina de Craco, a submersa Kolmanskop no deserto da Namíbia, a ruina das pedras de Kayaköy, as labaredas eternas de Centralia, as bonecas velhas de Xochimilco, os ossos da capela de Évora; o suicídio na floresta Aokigahara, as assombrações noturnas do Bhangarh Fort, o Triângulo das Bermudas e lá vai teibei! E havia até quem queria ir pro fervedouro do Jalapão e os cânions de Cambará do Sul, pra Serra da Capivara, pros Lençóis Maranhenses, pro portal da Serra do Roncador, pra solidão do abandono de Fordlândia, pra vila ferroviária de Paranapiacaba, pra Ilha das Cobras da Queimada Grande, ou mesmo pra Planolândia! Eita, coisa medonha! Desde que ficasse longe dali! Danou-se tudo! E tinham os que procuravam pelo porteiro de Jackson Ribeiro, os que queriam ir pela Les Portes de l'Enfer de Rodin, os que passaram pela agonia do passageiro Lúcio Flávio – apareceu até o porteiro Maximiliam na noite de Liliana Cavani à procura da sobrevivente Lucia Atherton, afora os desejosos pela descida de Ishtar ou do descensus ad inferos de Oyá e o escambau. Quem é doido de esperar por tempo ruim? Pé na bunda! O certo era que os que iam nunca voltavam, pareciam mais que desapareciam na neblina da noite de Resnais. Ou raramente, retorno minguado, gente estranha sem saudade, mulheres esquisitas, homens sombrios - cada qual sua sordidez. E ele desde menino insone testemunhava a emigração e recreava, às horas vagas que eram brevíssimas, catando mensagens no fundo das tantas garrafas jogadas e assim entretinha de nem se dar conta que o tempo passou e nele se foi. Até mais ver.

 

Anne Lamott: A idade me deu o presente de mim mesma; me deu o que eu sempre desejei, que era me tornar a mulher que sempre sonhei ser. Alguém que sabe descansar, trabalhar duro e ser uma companheira constante, uma esposa carinhosa e dedicada a mim mesma... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Jennifer Esposito: Às vezes, tudo precisa explodir para ser reconstruído... Se você não apostar em si mesmo, quem diabos vai apostar em você?... Me dê civilização. Não quero ser mimada... Veja mais aqui & aqui.

Shiori Teshirogi: Minhas oscilações de humor eram praticamente insuportáveis para todos ao meu redor. Peço desculpas porque foi um período muito difícil da minha vida... Veja mais aqui.

 

O TOQUE

Imagem: Acervo ArtLAM.

da sua mão no meu \ seio traz pequenas agulhadas e \ primeiro deixo cair uma gota, depois outra, e \ então, quando estou sentada em você, sobre você, \ o fluxo é constante e o leite está por toda parte. \ Acho que não é bem um desperdício, porque \ sempre tem mais, mas eu te ressinto um pouco porque \ não é seu e você acha engraçado, e \ acho que é mesmo, e eu só preciso deixar ir. \ Você checa se eu tenho dentes lá embaixo e \ se consegue passar para o outro lado. \ Você acha que eu sou uma deusa e \ as crianças nos separam, eu na terra, você \ no ar, ou será o contrário? E \ nossas pontas dos dedos mal conseguem se tocar e eu choro em você, \ ou você chora em mim? \ As crianças me pisoteiam, ou \ é você? \ Vale, colinas, rios e cavernas.

Poema da poeta neozelandesa Helen Heath.

 

QUEM NÃO GOSTARIA? - [...] Assim, cada um tinha seu mérito, e méritos são muito difíceis de dividir. [...] Criado para encobrir uma dor ou resolvê-la para sempre. [...] Você nunca imagina que aquilo que deixa para trás se transforma. No exílio, os conhecidos não envelhecem, as casas não se deterioram, as árvores não crescem. [...]. Trechos extraídos da obra Quién no (Alfaguara, 2019), da escritora, roteirista e dramaturga argentina Claudia Piñeiro. Veja mais aqui.

 

LIÇÕES ATIVISTAS - Quando há um conflito, significa que existem verdades que precisam ser abordadas por ambos os lados. E quando há um conflito, o processo de resolvê-lo é educativo. Para isso, é preciso envolver as pessoas de ambos os lados para que possam dialogar... Cada momento é uma oportunidade de organização, cada pessoa um ativista em potencial, cada minuto uma chance de mudar o mundo... Se as pessoas não votarem, tudo continua igual. Você pode protestar até o céu ficar amarelo ou a lua ficar azul, e nada vai mudar se você não votar... Pensamento da ativista estadunidense Dolores Huerta (Dolores Clara Fernández Huerta), ex-líder sindical cofundadora da Associação Nacional de Camponeses, que mais tarde se juntou ao Sindicato Geral de Camponeses (United Farm Workers), atuando na defesa dos direitos dos trabalhadores, dos imigrantes e das mulheres. Veja mais aqui, aqui & aqui.

 

A ARTE DE JOÃO PERNAMBUCO

Livro João Pernambuco – clássicas e inéditas (Legato, 2022), álbum de partituras reunindo a obra de João Pernambuco (João Teixeira Guimarães - 1883-1947), pesquisa e texto de Jorge Mello, prefácio de Flávia Prando e curadoria de Celso Faria. Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

 

Álvaro Lins aqui.

Renata Santana aqui.

João Câmara aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Zabé da Loca aqui.

Fábio Xavier aqui.

Maria Oliveira aqui.

Adelmo Arcoverde aqui, aqui & aqui.

Oriana Duarte aqui & aqui.

Daniel Aragão aqui.

Marilourdes Ferraz aqui & aqui.



CLAUDIA PIÑEIRO, HELEN HEATH, DOLORES HUERTA & JOÃO PERNAMBUCO

    Imagem: Acervo ArtLAM . Ao som do álbum Avant l’Aube ( Timespan Recordings , 2022), da v iolonista italiana Cristina Galietto .   ...