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quarta-feira, abril 03, 2019

AGOSTINHO DA SILVA, MARIA CLARA MACHADO, CONSELHEIRO, POLINA & CARTA DE ABRIL


CARTA DE ABRIL - É abril no Brasil: da invasão peró aos caetés, dos golpes à dignidade tupiniquin, o outono que extravasa com as enxurradas fortuitas e pesadelos agarrados no ar parado da noite quente. Sempre momento velado à espera de abrir o sinal, enquanto embrulhos e insultos se misturam aos gritos que rangem sob os olhos assombrados da fraqueza desprezível e diante da falsificação de tudo no mundo; Quanta indignação com os emissários de remotos horizontes a encherem a opressão das densas nuvens escuras na cabeça do céu baixo, como se mulheres em trabalho de parto e a complicação mais vexatória dos vestígios letais. É sempre abril no Brasil, outono das chuvas previsíveis, pronta invernada. Mas é abril de Patrícia, minha extensão intrépida ao Sol esplendente da vida: uma flor radiante que nasceu em minha mão. De resto, sentimento do dever cumprido no descalço coração paisano, mesmo que entre atropelos e a urgência dos acontecimentos, sempre a abrir caminhos, sempre retardatário no chão que é eternamente abissal e com pedras falsas, indeciso das coisas formidáveis e tudo vira pelo avesso. Valho-me da coragem de confissão, o peito é só cataratas pelos descaminhos: o que fazer na vida entre sonhos e errâncias. Por certo, não da vez primeira, a penumbra do silêncio a me extraviar na maior braçada pela rua quieta, a casa silenciosa, a cidade aflita, não dá pé, passo de qualquer jeito, mil coisas para fazer, a vaga lembrança no terraço austero, pálida emoção, a memória falha e esqueço se útil ou honesto, se hesito ou me precipito, todos os pudores sem sentido, todos os temores desvendados. É abril e começa o círculo para fechar o ciclo, ouroboros: todos os dias pés no mundo, saio daqui e a vida, o eterno retorno. Aprendi e só sei sorrir e amar. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] o que a vida tem feito dos homens tomados no seu conjunto, e fora o reduzido exemplo de algum grupo que mais conseguiu furtar-se a exigências sociais, tem sido pervertê-los, aguçando-os para a batalha, pondo-lhes a concorrência como uma virtude e o triunfo sobre os outros como uma marca de especial favor de Deus; tem ajudado muita gente a prelibar prazeres do céu o ir supondo desde agora que há contemporâneos seus já votados aos tratos dos diabos [...] o problema que se põe hoje exatamente porque as técnicas avançaram o bastante para dar maior liberdade de criação ao homem; o que se põe hoje é o problema da organização de um ensino superior em que o problema não seja o da disciplina ou o da contenção, ou o do aprendizado daquilo que já se sabe, mas sobretudo da criação, mas sobretudo da descoberta daquilo que ainda não se sabe. O esforço de criação do mundo [...] Mas o caminho do perfeito passa pelo imperfeito; e, no imperfeito, a única perfeição que se pode fazer fluir é a de que o expediente de que se alçou mão agrade ao maior número possível de homens e os satisfaça, mesmo que julguemos nós, com ou sem razão, que já poderíamos estabelecer o melhor quando eles se contentam ainda com o rudimentar e o tosco [...].
Trechos extraídos da obra Textos pedagógicos (Âncora, 2000), do filósofo, poeta e ensaísta português Agostinho da Silva (1906-1994). Veja mais aqui, aqui, aqui, aquiaqui, aqui, aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
O drama Polina, danser sa vie (2016), dirigido pelo coreografo francês Angelin Preljocaj e pela cineasta francesa Valérie Müller, é baseado na Polina do artista quadrinista e ilustrador francês Bastien Vivès, conta a história de uma bailarina clássica de futuro que está prestes a fazer parte do prestigioso balé de Bolshoi, fica então fascinada por um espetáculo de dança contemporânea, resolvendo largar tudo para trabalhar na França com a talentosa coreógrafa Liria Elsaj. Conta no elenco com as atrizes Anastasia Shevtsova, Veronika Zhovnytska e Juliette Binoche, entre outros. 
Veja mais aqui, aqui, aquiaqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

OS MILAGRES DO CONSELHEIRO
[...] Era numa sexta-feira santa, dia das trevas maiores. A data coincidia com uma santa missa missão, feita e encomendada para fazer chover, que o tempo era de seca braba e daninha. Mandaram chamar o Conselheiro para pregar com o consentimento do vigário do arraial. E o conselheiro, depois de ter subido o monte, estava no alto pregando, no roso da Paixão de Cristo, que aquele era o seu dia. Chegou no templo e fez uma ungida e contrita reverencia. Traçou uma cruz na porta com a ponta do seu bastão. Estava ofegante, que subidas daquelas escadas de pedra e cascalhos, meio quilômetro de fé e altura, mesmo com as capelinhas com os passos da Paixão para descansar, o que cansa mesmo qualquer sadio cristão. Era tempo estiado. [...] Só sei dizer que até hoje o povo daquele lugar não sabe explicar como das paredes da igreja, naquela tarde de oficio das trevas, começou a escorrer água. E do seu telhado pingavam como se fossem um chuviscado. Todos gritaram: - Milagre! Milagre! Das paredes da igreja escorria água como se fosse suor. [...] o Conselheiro não dava as costas para o altar onde pregava. Era um costume seu sair de costas, com o olhar posto no crucifixo, e a gente olhando o roxo fundo, sofrido dos olhos dos dois confundia, bem podendo acreditar ter o Conselheiro a dor da paixão de Cristo atravessada nos quadris, dependurada nos rins, bem em cima do seu cordão de frade-capuchinho. Era assim que ele se retirava nos respeitos devidos de uma igreja visitada [...] E nessa tarde ao chegar à porta do templo, de novo traçou o sinal-da-cruz com o seu bastão. E de repente a água parou de minar nas paredes e, lá fora, nos campos, começou a chover. E o povo beato vendo uma coisa desta logo no homem acreditou e saiu espalhando que dias de lágrimas e de sangue haviam de vir. E que perto se estava do fim do mundo, fim de Canudos, que no fogo veio mesmo, conforme uma das suas grandes profecias. [...] O Bom Jesus Conselheiro anunciando o fim do mundo próximo, prometia aos caboclos o aparecimento raivoso e braboso da figura do Anti-Cristo, a qual foi encarnada no corpo franzino do coronel Moreira César, capitão sanguinário, já acostumado na prática das maldades e dos fuzilamentos, o Corta-Pescoço chamado. O Conselheiro nas suas práticos, nos seus santos conselhos, avisava: - A perseguição vem e já anda por aí. Os tempos são chegados. Eu não desafiei, nem chamei ninguém. O povo veio porque quis. O mundo vai se acabar na maldade, no acúmulo dos pecados. A religião santificou tudo e não destrói coisa alguma, a não ser o pecado, que precisa ser extraído do coração dos homens. E há de aparecer por estas terras, desenfreado na satisfação dos seus apetites de sangue e esmago, um homenzinho, atanazador de almas, até parecido com Lúcifer do inferno, tomado por sua maligna vontade. Virá cercado por sete demônios, montado no seu cavalo, rei da soberba, ruinoso...
Trechos extraídos da obra O capitão jagunço (Brasiliense, 1958), de Paulo Dantas. Veja mais aqui, aqui e aqui.
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A obra da escritora e dramaturga Maria Clara Machado (1921-2001) aqui, aqui e aqui.


quinta-feira, agosto 30, 2018

PETRARCA, CAIO ABREU, ADRIANA CALCANHOTO, HABERMAS, VATTIMO, ALDEMIR MARTINS, PESQUISA & ZEBEDEU


O BOI DE ZEBEDEU - Imagem: arte do ilustrador, pintor e escultor Aldemir Martins (1922-2006). - Foi assim: numa manhã ensolarada de sábado estival, apareceu Zebedeu todo enfeitado de tampas, botões, moedas, adereços e outros brebotes reluzentes apregados no gibão e no chapéu de vaqueiro, exaltando o boi Glorioso que mugia acompanhando a sua cantoria. Ele danou-se a embolar coco, puxando firme na versejada, de ajuntar gente para acompanhar o apólogo de interminável falação desde cedinho até a noitinha. Cantava ele a majestade miraculosa do animal, das peçonhas que inoculara, das doenças que curara, das mortes que ressuscitara, das vidas que salvara, afora outras tantas espetaculares virtudes, adivinhações e medicações do afamado bovino que ali estava comendo flores, todo ornado de fitas do pescoço à cauda. Todo sábado ali, já era costume. Vez por outra aparecia uma empreitada: um menino com febre braba, quase desfalecido de tão franzino, com maleita incurável. Zebedeu não teve dúvida, foi só chegar nas orelhas do Glorioso e cochichar, do bicho levantar-se e derramar uma mijada estrondosa numa vasilha ali colocada. Ele pegou do mijo, entregou num frasco providenciado e entregou à mãe aflita. Quanto é? Sábado que vem, se o menino tiver curado, traga só um dicomer pra saciar a fome da gente. Assim foi. E no sábado seguinte, a genitora do restabelecido, chegou toda ancha a lhe dar de não sei quantas galinhas, preás, perus e uma marmita com o melhor que havia de cosido na sua casa, afora um molho de mato do bom para alimento do santificado animal. A multidão curiosa aplaudia e presenciava mais uma divina intervenção dele. Logo apareceu outra senhora abalada com o reumatismo de um ancião acamado de meses, morre mas num morre, Zebedeu prontamente, cochichou na orelha dele que levantou-se, deu uma cagada esparramada que recolhida num recipiente na hora, recomendou fazer uma garrafada pro enfermo incruado tomar em jejum por três dias encarreados. Quanto é? Sábado que vem, se o seu pai estiver curado, traga só um dicomer pra matar a fome da gente. Assim se repetiu. Na semana seguinte, estava ela toda às risadagens com presentes e mais brindes pro cantador e pro salvador bicho. Ficou curado? Oxe, bastou tomar dois dias da garrafada em jejum, como o senhor mandou, e logo ficou bonzinho da silva, olhele aqui, espie! Era salva de palmas! O ancião de tão bom estava aos pulos. Assim era, aparecesse a bronca que fosse de saúde ou de maus espíritos, era só usar de raspas do chifre, tacos das patas, sebo da bimba, pingo do suor dos bagos, cabelo do rabo, catota da venta, meleca dos olhos, gozo da punheta, tudo milagroso, um santo remédio. O paciente que fizesse uso, morto que tivesse num sepultamento, tornava vivinho na hora! Se tivesse desaparecido desenvultava no instante! Escondido reaparecia, desencantado tomava gosto na vida, raquítico engordava, cego via, aleijado andava, adoecido sarava e assim por diante. Por conta disso, juntava gente, a maior romaria de penitentes e retirantes, e o boi obrando milagres pra cima e pra baixo. Até as vacas namoradeiras ficavam flertando o milagreiro. Descuidou-se, oxe, estava lá ele amontado nos quartos duma faceira, tanto é que os bezerros é tudo famigerado: Jauaraicica, Pintadinho, Serapião, touro Rei, Espácio, até as vacas Mordaça e a Estrela do boi Fubá, tudo cantado em folhetos de cordel de todas as espécies de cantadores e repentistas de norte a sul, leste a oeste do Nordeste desse Brasilzão véio, arrevirado e de porteira escancarada. Certo dia, vinha ele pelas quebradas se dirigindo pra feira da cidade mais próxima, quando o boi amuou no meio da rodagem. Que é que é isso, Glorioso? O povo está lá esperando a gente pra novas ações, vamos que vamos. E o boi nada de se desapregar do chão, ronceiro, acanhado. Que é que tá havendo? E o Glorioso todo desconfiado, nada de se arrastar pra canto nenhum. Assim demorou-se. Lá longe já vinha o povaréu crente impaciente e requerente descendo a ladeira: Cadê o boi, homem? Ah, Glorioso está cheio de pantim. Conversa vai e vem, e agora? Tá todo mundo lá na feira esperando pras sessões! Nessa hora, o boi, assim do nada, deu um carreirão de se perder na poeira mato adentro. O povo atrás, pé na bunda. Correram chão que só, quando avistaram lá na beira do brejo uma criança inocente brincando e prestes a ser atacada por uma cobra Pico-de-jaca. A peçonhenta surucucu estirada em “S” com mais de metros, vibrava a cauda no chão, parecia mais que cuspia fogo, armou o bote e a cabroeira toda só: Valha-me, Deus! O boi travou-se com a surucucu e levou picada até umas horas, da gente só ver o boi gemendo e cheio de bolhas onde a danada mordia. Foi um combate feroz da poeira comer no centro. Lá pras tantas, enfim, a criança sorria salva e o boi caiu com a serpente enrolada nele: morreram os dois. O boi santificado começou a levitar aureolado e saiu voando, ascendendo aos céus para nunca mais. Lá se foi o santo Glorioso! PS: recriação recolhida da obra Sertão do Boi Santo (Clube do Livro, 1968), do escritor Paulo Dantas (1922-2007). © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais  aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música da cantora e compositora Adriana Calcanhoto: Senhas, Loucura, Micróbio Vivo & Público & muito mais nos mais de 2 milhões & 600 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Porque a violência social dos capitalistas se institucionaliza na forma do contrato particular de trabalho como relação de troca, e a compensação da mais-valia privadamente disponível ocupou o lugar da dependência política; o mercado, além da sua função cibernética, assume uma função ideológica: a relação de classe pode, na forma apolítica da dependência salarial, assumir uma forma anônima. [...] Trecho extraído da obra A crise de legitimação do capitalismo tardio (Tempo Brasileiro, 1980), do filósofo e sociólogo alemão Jürgen Habermas. Veja mais aqui.

MORTE DA ARTE – [...] é aquela que de fato já vivemos na sociedade da cultura de massa, em que se pode falar de estetização geral da vida na medida em que a mídia, que distribui informação, cultura, entretenimento, mas sempre sob critérios gerais de beleza (atração formal dos produtos), assumiu na vida de todos um peso infinitamente maior do que em qualquer outra época [...]. Trecho extraído de O fim da modernidade: niilismo e hermenêutica na cultura pós-moderna (Martins Fontes, 1996), do filósofo italiano Gianni Vattimo. Veja mais aqui e aqui.

ONDE ANDARÁ? - [...] Uma loura cinquentona, com muitas joias douradas e um vestido decotado imitando onça, debruçou-se na máquina quando passei. Poderia ser vulgar, mas qualquer coisa no pescoço esticado demais e nos ombros rígidos, jogados para trás, revelava certa aristocracia. Quem sabe uma recém-divorciada tentando começar de novo, uma ex-bailarina russa fascinada pelos trópicos e obrigada a fazer sórdidas traduções para sobreviver. [...] Antes que eu pudesse discar, ela estendeu sobre a mesa a mão cheia de anéis e longas unhas escarlates. – Prazer – disse, sem nenhum sotaque russo. Ao contrário, com suas vogais abertas soava levemente baiano. – Sou Teresinha O’Connor. – Teresinha como? – O’Connor – ela repetiu, caprichando na pronúncia – De origem irlandesa, sabe? Sou cronista social. Quando tiver alguma nota, você me passa? Pessoal que lida com arte sempre tem. – Pode deixar – eu disse. E comecei a discar. [...] Até encontrar um táxi, passei por dois anões, um corcunda, três cegos, quatro mancos, um homem-tronco, outro maneta, mais um enrolado em trapos como um leproso, uma negra sangrando, um velho de muletas, dias gêmeas mongoloides, de braço dado, e tantos mendigos que não consegui contar. A cenografia eram sacos de lixo com cheiro doce, moscas esvoaçando, crianças em volta. [...]. Trechos extraídos da obra Onde andará Dulce Veiga (Nova Fronteira, 1990), do escritor, jornalista e dramaturgo Caio Fernando Abreu (1948-1996). Veja mais aqui e aqui.

TRIUNFO DA MORTE - Aquela bela dama e gloriosa, / Que hoje é nu 'spírito e pouca terra, / E foi alta coluna e valorosa; / Tornava com grande honra de sua guerra, / Deixando já vencido o grande inimigo, / Que com seu doce fogo o mundo aterra. / Não com mais armas que respeito altivo, / Honestidade em rosto e pensamento, / Coração casto e de virtude amigo. / Grande espanto era ver tal vencimento, / As armas d'amor rotas e desfeitas, / E os vencidos dele em mor tormento. / A bela dama e as outras eleitas / Se vinham gloriando da vitória, / Em bela esquadra juntas e restreitas. / Poucas eram, que rara é vera glória, / Mas dinas, da primeira à derradeira, / De claríssimo poema e de história. / Traziam, por insígnia, na bandeira / Em campo verde um branco armelino / D'ouro fino, e topazes a coleira. / Não humano, certamente, mas divino / Era o seu doce andar, e o que diziam: / Ditosa é a que nasce a tal destino. / Estrelas e sol em meio pareciam, / Em cujo resplendor o seu consiste; / De rosas coroadas todas iam. / Como nobre coração que honra aquiste, / Cada uma em sua virtude se alegra, / Quando outra insígnia vi escura e triste, / E uma fera dona em veste negra. / Com tal furor, qual eu não sei se atrás, / No tempo dos gigantes fosse em Flegra. / Chamou, e disse: donzela, tu que vás / De beleza e virtude alterada, / De tua vida o termo não saberás? / Eu sou a importuna acelerada, /Chamada de vós, gente surda e cega, / A quem morte vem antecipada. / Eu sou a que matei a gente grega / E troiana, e no último os romãos, / Que todos minha foice corta e cega. / Não deixo povos gentios nem cristãos, / Chego quando por mim menos se espera, / Atalho mil pensamentos, todos vãos. / E a vós, quando mais ledo o viver era, / Endereço meu curso, antes que a fortuna / Misture em vossa doce a sua fera. / Já nestas tu não tens razão alguma, / E em mim pouca, que em minha morte, / Respondeu a que no mundo foi uma, / Outrem sei a quem mais dura é a sorte, / Cuja vida do meu viver depende, / Que o morrer, quanto a mim, será deporte. / Qual é quem grave coisa e nova entende, / Ou vê o que no princípio não lembrou, / E ora se maravilha, ora resprende. / Tal foi a cruel; e depois que cuidou / Um pouco em si, disse: bem conheço eu / Se dá o meu golpe em cheio ou se errou. / Depois, com melhor / semblante e menos seu / Disse: tu que a fremosa esquadra guias, / Inda não experimentaste o tosco meu. / Mas, se de meu conselho algo te fias, / Que forçar te posso: por melhor se tem / Fugir velhice e os seus tristes dias. / Eu sou disposta a te fazer um bem / Que não costumo; e é que tua alma vá / Sem aquele medo e dor que a morte tem. / Como apraz ao Senhor, que em cima está, / E rege o céu, e a terra, e o abisso, / Farás de mim o que dos outros será. / Em respondendo assi, eis d'improviso / De mortos se cobriu toda a campanha, / De multidão que excede o humano siso. / A índia, o Cataio, África e Espanha, / Tudo estava coberto até os extremos / Daquela infinita turba manha. / Entre eles, os que por felices temos, / Pontífices, e reis, e imperadores, / Que ora são nus e pobres, como vemos. / Que foi de suas riquezas e primores? / Dos ceptros e vestiduras reais? / Das mitras e das purpúreas cores? / Triste o que a esperança põe em bens mortais! / Mas quem a não põe? Que se depois se achar / Enganado, o remédio é por demais. / Ó cegos que aproveita o afadigar? / Que logo vos tornais à madre antiga, /E muito pouco o vosso nome há-de durar. / E se alguma há, entre vós, útil fadiga, / Ou se são todas puras vaidades, / Qual mais souber de vós esse mo diga. / Que val ganhardes reinos e cidades, / Fazerdes tributárias muitas gentes, / Forçardes nações livres e vontades? / Que achais nessas vitórias eminentes? / Trocar sangue por terra e por tesouro? / Melhor sabe na paz aos prudentes / O pão e água no pau, que a vós no ouro. / Mas por não prosseguir tão longo tema / Acabarei, e a meu lavor me torno. / E digo que já era na hora extrema / Aquela breve vida gloriosa, / No passo em que nenhum há que não trema. / Com ela estava outra valerosa / Companhia de donas, que esperava / Saber se alguma morte há piedosa. / Atentas eram quantas ali estavam / A contemplar o fim que ela fazia, / Que tal convém fazer aos que acabam. / Estando assi a nobre companhia, / Da loura cabeça, morte lhe cortou, / A trança que seus cabelos tecia. / Assi do mundo a mais bela flor levou, / Não por ódio, mas por mais cedo mostrar / Que para reinar na glória se criou. / Tristes prantos e querelas ouvi dar, / Sendo os seus belos olhos já enxutos, / De cujo nome me soía abrasar. / Entre gritos e lágrimas e lutos / Estava ela só leda e calada, / De seu casto viver colhendo os frutos. / Vai-te em paz, alma bem- aventurada, / Diziam, e era assi; mas nada val / Contra a morte cruel e acelerada. / Que será de nós? Pois esta que era tal / Ardeu em tão breve tempo e acabou / falsa e cega esperança humanal / Se de lágrimas a terra se banhou, / Com piedade daquela alma gentil, / Sabe-o quem o viu e experimentou. / Na hora prima do dia sexto d'Abril, / Em que fui preso a morte me desatou; / Que assi muda fortuna o seu estilo vil. / Quem de dura servidão mais se queixou, / Ou da morte, como eu da liberdade / E da vida, que sem ela me ficou? / Devido era ao mundo e à idade / Não preceder a da véspera ao da prima, / Nem tirar-se-lhe a ele a dignidade. / Qual fosse a sua dor que não se estima / Ousado só a cuidá-lo eu não seria, / Quanto mais a escrevê-lo em prosa ou rima. / Acabada é a virtude e a cortesia / Se ouvia lamentar junto do leito / Pelas donas e amigas que ali havia. / Quem verá mais em dama auto perfeito, / Quem ouvirá seu falar de saber cheio, / E a voz de tão suave deleito? / O espírito, por deixar o doce seio / Com todas as virtudes, anojado, / Fazia em toda a parte o ar sereio. / Nenhum dos adversários foi ousado / De aparecer ali com vista escura, / Até que a morte o assalto houve acabado. / Deposto já o medo e a tristura, / Ao belo rosto cada uma olhava, / Por desesperação feita segura. / Não como chama, que por força acaba, / Mas que por si se gasta e consume, / Se foi dentre nós a que o mundo ornava. / A modo de um suave e claro lume, / A que falta sustância e nutrimento, / a Que no fim tem usado costume; / Mais alva que a neve que sem vento / Em gracioso campo se vê cair, / Estava ela no fim do passamento. / Quase em belos olhos um doce dormir, / Sendo o espírito já partido dela! / Parecia o seu morrer o ressurgir, / E o seu lindo rosto morte bela! Poema extraído da obra Triunfos (Hedra, 2006), do escritor, intelectual humanista e filosofo italiano Francesco Petrarca (1304-1374). Nesta obra, conforme a escritora Gertrudre Moakley (1905-1998) e recolhido da obra Jung e o tarô: uma jornada arquetípica (Cultrix, 1980), de Sallie Nichols, cada uma de uma série de personagens alegóricos combate e vence o seu predecessor, adaptando as ilustrações dos poemas do autor para a sua amada Laura, dividindo-a em seis partes: Triunfo do Amor, Triunfo da Castidade, Triunfo da Morte, Triunfo da Fama, Triunfo do Tempo e Triunfo da Eternidade. Nesses poemas o amor vence todos os homens, inclusive o próprio poeta, no entanto, é derrotado por Laura, que se vale da castidade. Ela comemora sua vitória, mas ainda precisará enfrentar a Morte, e ser eternizada pela Fama e pelo Tempo, que por fim são vencidos pela Eternidade, o reino de Deus, último Triunfo. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do ilustrador, pintor e escultor Aldemir Martins (1922-2006). 
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quinta-feira, novembro 02, 2017

SHAW, ISMAEL NERY, ODETTE ASLAN, MAURÍCIO MELO JÚNIOR, LIA VIEIRA, POESIA REVISTA, PAULO DANTAS, SUCATÁRIO & BONITO

AOS VIVOS QUE RESTAM DOS MORTOS - Imagem: Nós (1926), do pintor brasileiro Ismael Nery (1900-1934). - As partidas nas asas dos ventos, as chegadas apressadas de nada verem, atrasados nas suas fugas imotivas e defecções, afetos perdidos, asas partidas no espaço vazio, entre sentimentos estreitos, andares solitários doloridos na garoa dos muros interditados pelas tardes sem sol dos olhos nublados, mãos espalmadas para ausência, abraço estendido pro ermo da indiferença dos que vivem sem saber que já morreram nas suas frustrações e mágoas enfurecidas, dos que acham que vivem na embriaguês de seus mandos e posses a rivalizar com as necessidades alheias de sorrir a banguela das gengivas invernais, dos que tentam viver a todo custo a pisar os outros com a cegueira dos luxos das vitrines e pedidos de perdão na oração cristã da missa dominical. Em mim o vaivém do caleidoscópio, sombras de novembro no peito de maio pelo filho que partiu a muito na poeira do tempo quase inesquecível, pela mãe que se foi sem aceno na dor de parir sonhos irrealizáveis, pelos amigos tragados pelas tragédias, pelos que sumiram nas cinzas do álbum de fotografias, povoando lembranças erradias. Saúdo meus mortos que vivem em mim, estão vivos em mim no que me resta de ser feliz apesar dos pesares. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especiais com os álbuns Carioca, Stone Alliance, Patamar & Makenna Beach do músico instrumentista Márcio Montarroyos (1948-2007); Libertango, Storm & Sitarki da violoncelista croata Ana Rucner; Rudepoêma de Villa-Lobos, Rapsódia Brasileira de Radamés Gnatali & Fantasia op. 28 de Scriabin, com o pianista brasileiro Roberto Szidon (1941-2011); e a Suíte 1 & 5 de Bach & a Sonata nº 2 de Myaskovsky, com a violoncelista russa Natalia Gutman. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA - A escravatura humana atingiu o seu ponto culminante na nossa época sob a forma do trabalho livremente assalariado. Pensamento do dramaturgo, escritor e jornalista irlandês George Bernard Shaw (1856-1950). Veja mais aqui e aqui.

SOCORRO DO TREM DO BONITOO município do Bonito foi assentado em meio a diversos pés de serras, verdadeiras couraças naturais que embalam a cidade [...] irrigados pelos rios Sirinhaém e Una. A fertilidade do solo, a amenidade do clime, a salubridade e as boas fontes de águas, atraíram, desde finais de sec. XVIII, toda sorte de aventureiros, muitos até endinheirados, que ali fundaram fazendas e engenhocas obtidas às terras por sesmarias. Outros sem grandes chances na vida, buscavam abrigo naquela terra como moradores e agregados havendo aqueles, como os retirantes das secas que por ali se abrigavam buscando conforto para suas miseráveis vidas. [...] Foi essa gente sofrida que, aproveitando as sobras de terras, as brechas, digamos assim, entre uma sesmaria e outra se arrancharam com suas famílias, fundando no outeiro a capela da Conceição (1812), mais tarde matriz da cidade. [...] Paulatinamente, o Bonito foi crescendo e adaptando-se às novas realidades [...] Afora o sesmarialismo, muitas terras foram conquistadas no tapa. [...] Nesses mundos onde se desenvolveram sítios, engenhos e engenhocas, a casa senhorial era o centro nevralgico das decisões. [...] Por volta do segundo quartel do sec. XIX, teve inicio no Bonito o cultivo da cana. [...] Diante dessas expectativas, a cana passou a invadir quase todo altiplano bonitense dilatando-se por várzeas, brejos e montanhas, registrando-se decréscimo no final do século mediante a consciência da cafeicultura. [...]. A região onde desemboca o rio Sirinhaem, o rio dos siris para os nativos, foi conquistadas aos índios em 1565. Após esse empreendimento, os índios foram expulsos de suas terras e estas repartidas em datas de sesmarias vicejando posteriormente engenhos de açúcar. Mais tarde o colonizador adentrou pelo mato reconhecendo todo o curso do dito rio até chegar suas nascentes no agreste em Camocim de São Félix. [...] De seus aflientes Bonito Grande, Riacho Seco, Tanque de Piabas, Várzea Alegre e Tese. [...]. Trechos extraídos da obra Velhos engenhos e antigas famílias do Bonito (CEHM, 2010), de Flávio José Gomes Cabral. Já no texto Estrada de ferro Ribeirão-Cortês-Bonito, de Severino Rodrigues de Moura, extraídop da Revista de História Municipal (CEHM, dez. 2008), encontramos o seguinte relato: A população do Bonito tinha o sonho de construir uma estrada de ferro ligando sua cidade a Ribeiro desde meados do século passado. [...] Em 1904 a linha férrea Ribeirão-Nonito foi anexada à Great Western e em seguida à Rede Ferroviária do Nordeste (RFN) até sua extinção. [...] Um certo dia, a locomotiva descarrilou no ramal do Engenho Limão, com todas as carroças de cana. O acidente apresentou proporções bem maiores do que aqueles ocorridos antes, tendo o maquinista que pedir socorro ao gerente da usina. [...] Teve que pedir ajuda em Ribeirão. No entanto, o trem de socorro também descarrilou, sendo preciso vir um terceiro trem. Foi um Deus nos acuda. Parecia um formigueiro em vérpera de trovoada. [...] mais uma vez pediu socorro à estação de Ribeirão, passando o seguinte telegrama: Trem de carga caiu. Pedi socorro. Socorro veio. Também caiu. Agora peço socorro para socorrer socorro e trem de cana. Ass.: Norberto. Veja mais aqui.

ÍNTIMO DAS AUTORIDADESO sujeito tinha o apelido de “Sombra”. Era funcionário do cerimonial no palácio do governo estadual [...] Jornalistas e repórteres fotográficos credenciados, ficavam enfurecidos da vida devido as reais dificuldades em fotografarem as autoridades sem a presença do “individuo indesejavel”. [...] Verdadeiro batalhão de fotógrafos e jornalistas se posicionava a fim de clicarem o Presidente da República. [...] Quem estava logo na frente? Ele, o inconveniente e intrometido Sombra. Ajeitou o cabelo e a gola do surrado paletó, dirigiu-se aos fotógrafos e perguntou: Como vocês querem que eu saia? Disse um dos repórteres: Que saia da frente, para fotografarmos o presidente! Trechos extraídos da obra Sátiras políticas: porque rir faz bem à saúde (Livro Rápido, 2000), do escritor e advogado Paulo Dantas Saldanha.

A SUCATA & ARTES VISUAIS – [...] As possibilidades de construções com sucatas são infinitas, baratas e podem sem muito criativas. Além disso, as sucatas podem ser utilizadas em muitas outras atividades, como complemento de outra técnica. [...] Se a sucata não for valorizada, fica muito próxima de mero lixo e com isso não desperta nenhum interesse para a criação. [...]. Trecho extraído da obra 300 propostas de artes visuais (Loyola, 2009), das artistas plásticas Ana Tatit & Maria Silvia Monteiro Machado, tratando sobre pintura, desenho, recortes, colagens, bonecos, máscaras, modelagens, fantoches, mosaico, escultura e construções com materiais variados, jogos e brinquedos com sucata, sucatário, outras técnicas e atividades.

O ATOR NO SÉCULO XX – [...] perfila-se uma volta a comunhão por pequenos grupos, a celebração de um rito em que celebrantes e fieis respiram juntos, mobilizem suas forças fisiológicas e pesquisas, querem sair de si mesmo, comunicar-se numa troca fraterna. O ator continua sendo aquele que propõe essa troca, que dá ao outro, que recebe e se oferece de novo, qualquer que seja sua mensagem. [...] Ator-poeta, trovador falando ou cantando [...] o prazer de atuar se confunde com o prazer de viver para quem o mal de viver se traduz pela dor que se canta e repartindo o que se encanta. [...]. Trecho da obra O ator no século XX (Perspectiva, 2008), de Odette Aslan que trata sobre as formas de interpretação, os problemas do gestual, modo de formação, busca da personagem, reações contra o naturalismo, pesquisas antes e depois da revolução russa, revisão do espaço, radio, cinema, televisão, teatros-laboratórios, comunidades teatrais, tendencias atuais, ética pessoal e de grupo e o ator do amanhã. Veja mais aqui e aqui.

SER POETA - Fiz-me poeta / por exigência da vida, das emoções, dos ideais, da raça. / Fiz-me poeta / sabendo que nem só se finge a dor que deveras sente / e crendo que através da poesia posso exprimir / a arte do cotidiano, vivida em cada poema marginal. Poema extraído da obra Quilombo Hoje – Cadernos Negros 15 (Edição dos Autores, 1992), da poeta, pesquisadora, artista plástica e educadora Lia Vieira. Veja mais aqui.

CRÔNICA DO ARVOREDO & ANDARILHOS DE MAURÍCIO MELO JÚNIOR
[...] Já não me lembro bem dos detalhes, sei apenas que li num livro emprestado por um amigo. A memória também não alcança os nomes do amigo, do livro, do autor. Sei somente que era alto e escondia o rosto por trás de uma barba espessa, o amigo; e o volume tinha capa amarela e marrom. Vivíamos a tensão do vestibular; implacável, inadiável. Vivíamos uma cidade cercada pelos mistério da história, pelo fascínio de um cotidiano de transformações concretizadas ao desejos dos minutos. Tínhamos a sensação de que o mundo hirava em função de nós. E o mundo não nos bastava, embora tivesse sido feito para abrigar somente a nossa juventude. O amanhã era apenas a conseqüência do Sol que à tarde dormia. Por isso vivíamos com intensidade o Recife. [...].
Trecho da obra Crônica do arvoredo (Bagaço, 2006).
[...] Seu moço saia do caminho, a conversa é comigo e Deus. No meio, somente os macacos do exercito e a esperança de uma briga boa. Desarrede, desarrede que não tenho prosa pro senhor. Doido, eu? Pois o senhor ainda não topou com doido na vida e já disse pra não querer me enfrentar. Num avance, peste, num avnce que seu tempo pode tá findo. Pois, lá vai brincadeira que já num tenho tempo pra prosa. Pá, pá e que fique nas agonias do fim. [...]
Trecho da obra Andarilhos: caminhos só ida, volta à seca (Bagaço, 2007), ambos os livros do jornalista e escritor Maurício Melo Júnior. Veja mais aqui, aqui e aqui.

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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do pintor brasileiro Ismael Nery (1900-1934). 
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POESIA REVISTA 2018
Acaba de ser lançado o edital da Poesia Revista para reunião anual de textos poéticos e colunistas de São Paulo, Mato Grosso e Rio Grande do Sul, com tema Amor e distribuída em bibliotecas nacionais, em saraus e pelos poetas participantes do projeto. A publicação é destnada a jovens e adultos, visando o fomento da cultura e literatura na formação de público leitor e com objetivos voltados para valorização do escritor e suas habilidades textuais, incentivo da leitura, oportunizar aos autores a veiculação de seus trabalhos com divulgação nacional e internacional. Os interessados confiram aqui.

NÉLIDA PIÑON, OCTAVIO PAZ, AMIA SRINIVASAN, CONCEIÇÃO LIMA & NANÁ VASCONCELOS

  Imagem: Acervo ArtLAM .   Interregno das personas... - Havia o que já foi sem que desse nunca pelo que virá: só crescia de noite para ...