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sexta-feira, abril 03, 2020

NATÁLIA CORREIA, GLÓRIA STEINEM, CRISTINA DE PISAN, OLGA KLIMOVA & VICENTE DO REGO MONTEIRO


O SORRISO & OS ABISMOS DA VIDA – UMA: O GOSTO DE QUASE UMA ÚLTIMA CARTA - Este um tempo de angústia: a tragédia ronda ameaçadora e o desgoverno reitera a aflição. Longe o olhar, a solidão de quem não espera e as horas são o que restam para viver, a esperança longínqua, o futuro distante. Bate no peito o verso de Sylvia Plath: Dentro de mim mora um grito. De noite, ele sai com suas garras, à caça de algo para amar. Por mais resiliente, há sempre um gosto de nunca mais e ela é quem ouço ecoar na escuridão: Eu falo com Deus, mas o céu está vazio. Na boca o sabor de quase uma última carta e sorrio. DUAS: PERSISTIR É PRECISO - A urgência da hora apaga o passado, nenhum arranhão que resista, nem quedas ou fracassos. Seguir em frente e já glosa o mote, talvez não dê tempo para amanhecer. Não há um mínimo tempo a perder. Ouço a voz rouca de Washington Irving: Os espíritos pequenos são domados e subjugados pelo infortúnio; os grandes, porém, sabem como fugir à desgraça. Os grandes espíritos têm metas. Os outros apenas desejos. Vou como se fosse onda em mar aberto e vivo. TRÊS: NÃO TENHO MÃOS ABANANDO, TENHO GESTOS - Do que sucumbi nenhuma derrocada foi capaz de me deter. Quixote ou não, se não venci todos os meus moinhos de vento, pelo menos me esquivei na hora certa e me safei de tudo até agora. Jamais me dei por vencido, posso ter recuado, mas foi para dar um salto maior, mesmo que tudo tenha malogrado. Do chão os ventos traziam Agostinho da Silva: Toda a grande obra supõe um sacrifício; e no próprio sacrifício se encontra a mais bela e a mais valiosa das recompensas. O que interessa na vida não é prever os perigos das viagens; é tê-las feito. Tudo que passei marcado em minha carne, a qualquer outra, terei mais para contar depois de passar por ela. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS: A pessoa cuja cabeça está inclinada e cujos olhos estão pesados não pode olhar para a luz. Nem todos os homens (e especialmente os mais sábios) compartilham a opinião de que é ruim para as mulheres serem educadas. Mas é bem verdade que muitos homens tolos alegaram isso porque lhes desagradou o fato de as mulheres saberem mais do que sabiam. Assim como os corpos das mulheres são mais suaves que os dos homens, a compreensão deles é mais nítida. Pensamento da poeta e filósofa italiana Cristina de Pisan (1363-1430), que foi uma das primeiras escritoras a viver da sua arte, a criticar a misoginia e defender o papel vital das mulheres na sociedade. As suas primeiras baladas foram compiladas em Le livre de cent balladés, autora do poema Roman de la Rose (Romance da Rosa) que representava as mulheres como nada mais que sedutoras, numa mordaz sátira às convenções do amor cortês. Já outras de suas obras, Epistre au dieu d’Amour e Dit de la Rose, causou debates extensos pela representação e tratamento das mulheres nos textos literários.

HOJE EM DIA - […] Hoje é muito melhor porque sabemos que não somos loucas; o sistema é que é louco. No meu tempo, por exemplo, não havia uma palavra para violência doméstica. Ela era chamada “vida”. E as mulheres eram culpadas pelo ato de seus maridos. Hoje, há abrigos para essas mulheres – e isso é um avanço enorme. A consciência vem antes da mudança física e agora, definitivamente, há consciência – e alguma mudança também. Mas ainda é verdade que o lugar onde a mulher corre mais risco de morrer é em sua própria casa. [...] Dizer que as mudanças ocorrem de baixo para cima, que devemos usar nossas vozes sempre que pudermos. Sou feliz por ser uma escritora e ter acesso a leitores por meio dos livros e da imprensa. Faço o meu melhor usar minha voz para refletir a voz dos que não têm esse espaço. [...]. Trechos da entrevista (Istoé, 2017), concedida pela escritora, jornalista e ativista estadunidense Glória Steinem, por ocasião do lançamento de sua obra Minha vida na estrada (Bertrand Brasil, 2017), contando suas experiências e engajamento no ativismo social entre as mulheres na Índia e o trabalho na década de 1960, as campanhas políticas, a Conferência Nacional da Mulher, os territórios indígenas e conexão com pessoas em um movimento para mudar o mundo. Foi a única jornalista que conseguiu se infiltrar na Playboy sem que fosse descoberta, para escrever um artigo sobre a situação degradante das moças que tinham seus direitos trabalhistas violados. Entre as suas obras estão A revolução interior – um livro de autoestima (Objetiva, 1992) e Memórias da transgressão (Rosa dos Ventos, 1997).

A POESIA DE NATÁLIA CORREIA
COSMOCÓPULA I - Membro a pino / dia é macho / submarino / é entre coxas / teu mergulho / vício de ostras. – II - O corpo é praia / a boca é a / nascente / e é na vulva que / a areia é mais sedenta / poro a poro vou / sendo o curso de / água / da tua língua / demasiada e / lenta / dentes e unhas / rebentam como / pinhas / de carnívoras plantas / teu é meu ventre / abro-te as coxas e / deixo-te crescer / duro e cheiroso como o / aloendro.
A EXALTAÇÃO DA PELE - Hoje quero com a violência da dádiva interdita. / Sem lírios e sem lagos / e sem gesto vago / desprendido da mão que um sonho agita. / Existe a seiva. Existe o instinto. E existe eu / suspensa de mundos cintilantes pelas veias / metade fêmea metade mar como as sereias.
O LIVRO DOS AMANTES – I - Glorifiquei-te no eterno. / Eterno dentro de mim / fora de mim perecível. / Para que desses um sentido / a uma sede indefinível. / Para que desses um nome / à  exatidão do instante / do fruto que cai na terra / sempre perpendicular / à humidade onde fica. / E o que acontece durante / na rapidez da descida / é a explicação da vida. II - Harmonioso vulto que em mim se dilui. / Tu és o poema / e és a origem donde ele flui. / Intuito de ter. Intuito de amor / não compreendido. / Fica assim amor. Fica assim intuito. / Prometido. VI - Aumentámos a vida com palavras / água a correr num fundo tão vazio. / As vidas são histórias aumentadas. / Há que ser rio. / Passámos tanta vez naquela estrada / talvez a curva onde se ilude o mundo. / O amor é ser-se dono e não ter nada. / Mas pede tudo. VII - Tu pedes-me a noção de ser concreta / num sorriso num gesto no que abstrai / a minha exatidão em estar repleta / do que mais fica quando de mim vai. / Tu pedes-me uma parcela de certeza / um desmentido do meu ser virtual / livre no resultado de pureza / da soma do meu bem e do meu mal. / Deixa-me assim ficar. E tu comigo / sem tempo na viagem de entender / o que persigo quando te persigo. / Deixa-me assim ficar no que consente / a minha alma no gosto de reter-te / essencial. Onde quer que te invente.
NATÁLIA CORREIA - A poesia da escritora, dramaturga, jornalista, tradutora e ativista social portuguesa Natalia Correia (1923-1993), autora de obras como Eros de Passagem (Campo das Letras, 1997), entre outras, e que atuou na defesa dos direitos das mulheres, tendo sido condenada pela publicação da Antologia da Poesia Portuguesa Erótica e Satírica, em 1966, considerada ofensiva dos costumes e processada pela publicação da obra das Três Marias, Novas cartas portuguesas, de Maria Isabel Barreno, Maria Velho da Costa e Maria Teresa Horta. Veja mais aqui, aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Pondo a mente de lado e confiando no fluxo da criação, ouvindo a pintura e o próprio subconsciente, sem tentar controlar o que está acontecendo e deixando ir - todas são habilidades muito úteis, não apenas durante a pintura, mas na vida.
OLGA KLIMOVA - A arte da artista visual russa Olga Klimova que reflete em sua obra sua arte visionária e suas profundas experiências místicas, como tentativa contínua de se reconectar com esse nível mais profundo de consciência, enquanto compartilha seu estado feliz de ser um com o mundo. Criou o WizArt Visions, em Nova York, um estúdio de design e produção de cenografia e que já desenvolveu vários cenários, instalações de tecido, U.V. pinturas e cenários para a cena de festivais. Veja mais aquiaqui.

PERNAMBUCO ART&CULTURAS
VICENTE DO REGO MONTEIRO
A arte do pintor, desenhista, escultor, professor e poeta Vicente do Rego Monteiro (1899-1970) aqui e aqui.
A poesia de Gerusa Leal aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.
Lendo na Praça & Rute Costa aqui & aqui
Festival de Artes Psicodélicas e Astrais (FARPA) aqui.
O túnel amaldiçoado de Pirangi aqui.
Lajedo aqui & aqui.
&
OFICINAS ABI – 2º SEMESTRE 2020
Veja detalhes das oficinas da ABI aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.


quinta-feira, fevereiro 13, 2020

IBSEN, CAROLINA DE JESUS, EUGÈNE ATGET & TEREZA COSTA REGO


SIMBORA NO TEATRO DA VIDA – QUER UMA? LÁ VAI - Haja drama no enredo da vida, com suas curvas, percalços e catabis. A gente tenta acertar que só, só na volta do revertério. De chapa, eu tanto fiz de sofrer que nem sovaco de aleijado, só na minha, que nem Bukowski: Observava as pessoas à distância, como numa peça de teatro. Apenas eles estavam no palco e eu era plateia de um homem só. E TOME DUAS: CALIBÃ SABE QUEM É - Sempre gostei de fotografar, não de ser fotografado. Nada narcísico. Foi que entendi do riscado com Millôr: Basta um avião sacudir um pouquinho mais, e logo todos os passageiros ficam parecidos com a foto do passaporte. Ainda hoje tenho a foto da carteira de identidade que tirei em 1975, quando contava com apenas 15 anos de idade e emancipado por lei. Cada vez que exibo, me bate aquela do Andy Warhol: A melhor coisa sobre uma fotografia, é que ela não muda mesmo quando as pessoas mudam. Ah, mas se feiura matasse, eu era um natimorto, hehehehehe. UM, DOIS, TRÊS: A CULPA É DO CAPITALISMO, ORA! – É mesmo, ué. Quem mandou eu nascer baixim, buchudim, tronchim e bunitim! E ainda por cima nordestino, numa cidade onde o mundo todo está lá dentro para fazê-la o cu do planeta! Já dizia o meu filósofo favorito, Agostinho da Silva: A liberdade que há no capitalismo é a do cão preso de dia e solto à noite. E vamos aprumar a conversa. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS: [...] Fui na casa de uma preta levar umas latas que ela havia pedido. Latas grandes para plantar flores. Fiquei conhecendo uma pretinha muito limpinha que falava muito bem. Disse ser costureira, mas que não gostava da profissão. E que admirava-me. Catar papel e cantar [...] Os lixeiros haviam jogado carne no lixo. E ele escolhia uns pedaços. Disse-me: Leva, Carolina. Dá para comer. Deu-me uns pedaços. Para não maguá-lo aceitei. Procurei convencê-lo a não comer aquela carne. Para comer os pães duros ruídos pelos ratos. Ele disse-me que não. Que há dois dias não comia. Acendeu o fogo e assou a carne. A fome era tanta que ele não poude deixar assar a carne. Esquentou-a e comeu. Para não presenciar aquele quadro, saí pensando: faz de conta que eu não presenciei esta cena. Isto não pode ser real num país fértil igual ao meu. Revoltei contra o tal Serviço Social que diz ter sido criado para reajustar os desajustados, mas não toma conhecimento da existência infausta dos marginais. Vendi os ferros no Zinho e voltei para o quintal de São Paulo, a favela. No outro dia encontraram o pretinho morto. [...] Não trazia documentos. Foi sepultado como um Zé qualquer. Ninguém procurou saber seu nome. Marginal não tem nome. … De quatro em quatro anos muda-se os políticos e não soluciona a fome, que tem sua matriz nas favelas […] Eu deixei o leito as 3 da manhã porque quando a gente perde o sono começa a pensar nas misérias que nos rodeia [...] Deixei o leito para escrever. Enquanto escrevo vou pensando que resido num castelo cor de ouro que reluz na luz do sol. Que as janelas são de prata e as luzes de brilhantes. Que a minha vista circula no jardim e eu contemplo as flores de todas as qualidades. [...] É preciso criar este ambiente de fantasia, para esquecer que estou na favela […] Uma senhora que fez compra gastou 43 cruzeiros. E o senhor Eduardo disse: - Nos gastos quase que vocês empataram. Eu disse: - Ela é branca. Tem direito de gastar mais. Ela disse-me: - A cor não influi. Então começamos a falar sobre o preconceito. Ela disse-me que nos Estados Unidos eles não querem negros na escola. Fico pensando: os norte-americanos são considerados os mais civilizados do mundo e ainda não convenceram que preterir o preto é o mesmo que preterir o sol. O homem não pode lutar com os produtos da Natureza. Deus criou todas as raças na mesma época. Se criasse os negros depois dos brancos, aí os brancos podia revoltar-se [...]. Trechos da obra Quarto de despejo: diário de uma favelada (Ática, 2015), da escritora brasileira Carolina de Jesus (1914-1977). Veja mais aqui.

UM INIMIGO DO POVO, HENRIK IBSEN
[...] HOVSTAD - Falo do pântano onde está apodrecendo toda a nossa cidade. [...] HOVSTAD - Todos os negócios da cidade passaram, pouco a pouco, para as mãos de um bando de políticos, altos funcionários do governo. [...] HOVSTAD - Mas dá no mesmo, pois quem não é funcionário público ou político é amigo ou partidário de funcionário. São esses ricos, que ostentam nomes tradicionais, os mesmos que nos governam. [...] ASLAKSEN - Não, não, não, Sr. Hovstad. Nada de ataques à autoridade. Nada de oposição àqueles de quem dependemos. Estou farto disso, e aliás, isso nunca deu resultado positivo. Mas não há nada de ofensivo no fato de um cidadão exprimir livremente algumas ideias sensatas. [...]
HENRIK IBSEN – Trechos extraídos da peça teatral Um inimigo do povo (En folkefiende - Globo, 1984), do dramaturgo do Realismo norueguês Henrik Ibsen (1828-1906), que tornou-se uma declaração de guerra do individualista à sociedade e que, apesar do pessimismo social, deixa antever, porém, uma vaga esperança da horia dos indivíduos e das instituições. Veja mais aquiaqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do fotógrafo francês Eugène Atget (1857-1927) que revolucionou a fotografia com seu olhar desviado do ser humano, fotografando o vazio das ruas parisienes, objetos inusitados e mulheres nuas. Veja mais aquiaqui.

A ARTE PERNAMBUCANA
A arte de Tereza Costa Rego aqui, aqui & aqui.
A música do violonista, maestro e compositor Antonio José Madureira aqui & aqui
A literatura de Graça Graúna aqui, aqui e aqui.
A poesia de Conceição Ramos aqui.
Baixio das Bestas aqui.
José Durán y Durán & As Noites da Cultura Palmarense aqui
Educação, Cidadania e Meio Ambiente – Comissão de Defesa do Meio Ambiente da Mata Sul aqui & aqui
&
Noite do Recife aqui.


quarta-feira, abril 03, 2019

AGOSTINHO DA SILVA, MARIA CLARA MACHADO, CONSELHEIRO, POLINA & CARTA DE ABRIL


CARTA DE ABRIL - É abril no Brasil: da invasão peró aos caetés, dos golpes à dignidade tupiniquin, o outono que extravasa com as enxurradas fortuitas e pesadelos agarrados no ar parado da noite quente. Sempre momento velado à espera de abrir o sinal, enquanto embrulhos e insultos se misturam aos gritos que rangem sob os olhos assombrados da fraqueza desprezível e diante da falsificação de tudo no mundo; Quanta indignação com os emissários de remotos horizontes a encherem a opressão das densas nuvens escuras na cabeça do céu baixo, como se mulheres em trabalho de parto e a complicação mais vexatória dos vestígios letais. É sempre abril no Brasil, outono das chuvas previsíveis, pronta invernada. Mas é abril de Patrícia, minha extensão intrépida ao Sol esplendente da vida: uma flor radiante que nasceu em minha mão. De resto, sentimento do dever cumprido no descalço coração paisano, mesmo que entre atropelos e a urgência dos acontecimentos, sempre a abrir caminhos, sempre retardatário no chão que é eternamente abissal e com pedras falsas, indeciso das coisas formidáveis e tudo vira pelo avesso. Valho-me da coragem de confissão, o peito é só cataratas pelos descaminhos: o que fazer na vida entre sonhos e errâncias. Por certo, não da vez primeira, a penumbra do silêncio a me extraviar na maior braçada pela rua quieta, a casa silenciosa, a cidade aflita, não dá pé, passo de qualquer jeito, mil coisas para fazer, a vaga lembrança no terraço austero, pálida emoção, a memória falha e esqueço se útil ou honesto, se hesito ou me precipito, todos os pudores sem sentido, todos os temores desvendados. É abril e começa o círculo para fechar o ciclo, ouroboros: todos os dias pés no mundo, saio daqui e a vida, o eterno retorno. Aprendi e só sei sorrir e amar. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] o que a vida tem feito dos homens tomados no seu conjunto, e fora o reduzido exemplo de algum grupo que mais conseguiu furtar-se a exigências sociais, tem sido pervertê-los, aguçando-os para a batalha, pondo-lhes a concorrência como uma virtude e o triunfo sobre os outros como uma marca de especial favor de Deus; tem ajudado muita gente a prelibar prazeres do céu o ir supondo desde agora que há contemporâneos seus já votados aos tratos dos diabos [...] o problema que se põe hoje exatamente porque as técnicas avançaram o bastante para dar maior liberdade de criação ao homem; o que se põe hoje é o problema da organização de um ensino superior em que o problema não seja o da disciplina ou o da contenção, ou o do aprendizado daquilo que já se sabe, mas sobretudo da criação, mas sobretudo da descoberta daquilo que ainda não se sabe. O esforço de criação do mundo [...] Mas o caminho do perfeito passa pelo imperfeito; e, no imperfeito, a única perfeição que se pode fazer fluir é a de que o expediente de que se alçou mão agrade ao maior número possível de homens e os satisfaça, mesmo que julguemos nós, com ou sem razão, que já poderíamos estabelecer o melhor quando eles se contentam ainda com o rudimentar e o tosco [...].
Trechos extraídos da obra Textos pedagógicos (Âncora, 2000), do filósofo, poeta e ensaísta português Agostinho da Silva (1906-1994). Veja mais aqui, aqui, aqui, aquiaqui, aqui, aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
O drama Polina, danser sa vie (2016), dirigido pelo coreografo francês Angelin Preljocaj e pela cineasta francesa Valérie Müller, é baseado na Polina do artista quadrinista e ilustrador francês Bastien Vivès, conta a história de uma bailarina clássica de futuro que está prestes a fazer parte do prestigioso balé de Bolshoi, fica então fascinada por um espetáculo de dança contemporânea, resolvendo largar tudo para trabalhar na França com a talentosa coreógrafa Liria Elsaj. Conta no elenco com as atrizes Anastasia Shevtsova, Veronika Zhovnytska e Juliette Binoche, entre outros. 
Veja mais aqui, aqui, aquiaqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

OS MILAGRES DO CONSELHEIRO
[...] Era numa sexta-feira santa, dia das trevas maiores. A data coincidia com uma santa missa missão, feita e encomendada para fazer chover, que o tempo era de seca braba e daninha. Mandaram chamar o Conselheiro para pregar com o consentimento do vigário do arraial. E o conselheiro, depois de ter subido o monte, estava no alto pregando, no roso da Paixão de Cristo, que aquele era o seu dia. Chegou no templo e fez uma ungida e contrita reverencia. Traçou uma cruz na porta com a ponta do seu bastão. Estava ofegante, que subidas daquelas escadas de pedra e cascalhos, meio quilômetro de fé e altura, mesmo com as capelinhas com os passos da Paixão para descansar, o que cansa mesmo qualquer sadio cristão. Era tempo estiado. [...] Só sei dizer que até hoje o povo daquele lugar não sabe explicar como das paredes da igreja, naquela tarde de oficio das trevas, começou a escorrer água. E do seu telhado pingavam como se fossem um chuviscado. Todos gritaram: - Milagre! Milagre! Das paredes da igreja escorria água como se fosse suor. [...] o Conselheiro não dava as costas para o altar onde pregava. Era um costume seu sair de costas, com o olhar posto no crucifixo, e a gente olhando o roxo fundo, sofrido dos olhos dos dois confundia, bem podendo acreditar ter o Conselheiro a dor da paixão de Cristo atravessada nos quadris, dependurada nos rins, bem em cima do seu cordão de frade-capuchinho. Era assim que ele se retirava nos respeitos devidos de uma igreja visitada [...] E nessa tarde ao chegar à porta do templo, de novo traçou o sinal-da-cruz com o seu bastão. E de repente a água parou de minar nas paredes e, lá fora, nos campos, começou a chover. E o povo beato vendo uma coisa desta logo no homem acreditou e saiu espalhando que dias de lágrimas e de sangue haviam de vir. E que perto se estava do fim do mundo, fim de Canudos, que no fogo veio mesmo, conforme uma das suas grandes profecias. [...] O Bom Jesus Conselheiro anunciando o fim do mundo próximo, prometia aos caboclos o aparecimento raivoso e braboso da figura do Anti-Cristo, a qual foi encarnada no corpo franzino do coronel Moreira César, capitão sanguinário, já acostumado na prática das maldades e dos fuzilamentos, o Corta-Pescoço chamado. O Conselheiro nas suas práticos, nos seus santos conselhos, avisava: - A perseguição vem e já anda por aí. Os tempos são chegados. Eu não desafiei, nem chamei ninguém. O povo veio porque quis. O mundo vai se acabar na maldade, no acúmulo dos pecados. A religião santificou tudo e não destrói coisa alguma, a não ser o pecado, que precisa ser extraído do coração dos homens. E há de aparecer por estas terras, desenfreado na satisfação dos seus apetites de sangue e esmago, um homenzinho, atanazador de almas, até parecido com Lúcifer do inferno, tomado por sua maligna vontade. Virá cercado por sete demônios, montado no seu cavalo, rei da soberba, ruinoso...
Trechos extraídos da obra O capitão jagunço (Brasiliense, 1958), de Paulo Dantas. Veja mais aqui, aqui e aqui.
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A obra da escritora e dramaturga Maria Clara Machado (1921-2001) aqui, aqui e aqui.


sexta-feira, julho 13, 2018

CLARICE, JOCY OLIVEIRA, AGOSTINHO SILVA, GORDIMER, WOLE SOYINKA, BRANDEN & GENÉSIO CAVALCANTI


OS OLHOS DE CLARICE - Ao mergulhar nos olhos crepusculares de Clarice, ainda não era noite e eu não tinha mais que dezessete anos de idade, a minha nada lisonjeira adolescência. Descobri no seu olhar oceânico o faroleiro caleidoscópico de antes da pré-história da pré-história da pré-história em que fui menino no meio nada. Para não me perder nos desvãos da sina, ela tomou minhas mãos e levou-me por ermas paragens da cidade sitiada na desaparição de tudo. Nada via pela íngreme vertigem de seus mistérios, até à beira do precipício. Convidou-me a pular, ela comigo. E diante dos laços de família esgarçados na minha solidão perene, abraçou-me acendendo o lustre e era o oásis do seu quarto pra guarida do meu desassossego. Deitou-me qual criança exaltada de temores e pra visão do esplendor ela se despiu como a mãe que se banha sem perder o filho de vista. Deitou-se com o aroma incensado de sua carne fresca, minha cabeça ao seu ombro, alisando meus cabelos, beijando-me as faces na minha felicidade clandestina. Achegou-se mais e sua pele na minha pele, senti seu ventre quente na via-crucis do corpo. Era quase de verdade, como se sonho que sonha real nos ponteiros loucos do tempo, a me mostrar da água viva e da legião estrangeira, a maçã no escuro, e eu a revolver seus mares, constelações e galáxias, até bem perto do coração selvagem. A cada beijo para não esquecer, mais me abraçava com as pulsações de um sopro de vida, a ensinar a imitação da rosa de corpo inteiro. E me contou histórias da mulher que matou os peixes, o mistério do coelhinho pensante, a bela e a fera, a vida íntima de Laura, a paixão segundo G. H., para que eu adormecesse sobre seus seios nus, uma aprendizagem no livro dos prazeres. À hora da estrela perguntou por onde estive nas noites de antes e sem me deixar dizer nada,  me falou da morte em pleno dezembro e que ia morrer dali a pouco pra guardar o seu momento pra mim. Eu tinha apenas dezessete anos e ela prestes a morrer na hora chegada e eu soubesse ela viva para sempre em mim no seu silêncio inatingível. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música da compositora, pianista e escritora Jocy de Oliveira: Estórias para voz, instrumentos acústicos e eletrônicos, Noturno de um piano, Esferas rítmicas & Revisinting Stravinsky & muito mais nos mais de 2 milhões & 500 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA – [...] O amor é uma criação de beleza, [...]. E quando o amor surge é uma obra de arte e o criador tem com ele todos os cuidados que se tem com uma obra de arte [...]. Pensamento extraído da obra Educação de Portugal (Ulmeiro, 1990), do filósofo, poeta e ensaísta português Agostinho da Silva (1906-1994), que em outra obra, Vida conversável (NEP/ CEAM/UnB, 1994), expressou que: [...] a capacidade de contemplação e de criação do homem, aproveitando tudo aquilo que foi feito com o sacrifício dos trabalhadores durante séculos e séculos. [...] esperança de que se estabeleça na Terra um paraíso terreal, de que, pela meditação, os homens cheguem a um tempo em que o paraíso terreal e o espiritual, o do Céu, sejam exatamente a mesma coisa [...] em que o homem deixa que brote de si tudo quanto é de possibilidade divina ao mesmo tempo que não perde nada da sua humanidade [...]. Veja mais aqui, aquiaqui, aqui e aqui.

AUTOESTIMA & HOJE – [...] A turbulência de nossa época exige indivíduos fortes, com um claro senso de identidade, competência e valor. Diante do colapso do consenso cultural, da falta de modelos de papéis dignos, das poucas coisas públicas que inspirem nossa fidelidade, e das rápidas e desorientadoras mudanças que são a feição permanente de nossa vida, é perigoso não saber, neste momento de nossa história, quem somos, ou não confiarmos em nós mesmos. A estabilidade que não podemos encontrar no mundo terá que ser criada dentro de cada um. Enfrentar a vida com baixa autoestima é estar em séria desvantagem [...] A mente que confia em si mesma não pesa sobre os pés.[...] a confiança em nossa capacidade de pensar; confiança em nossa habilidade de dar conta dos desafios básicos da vida; e confiança em nosso direito de vencer e sermos felizes; a sensação de que temos valor, e de que merecemos e podemos afirmar nossas necessidades e aquilo que queremos, alcançar nossas metas e colher frutos de nossos esforços [...] O que hoje se necessita e se exige, numa era de trabalhadores inteligentes, não é a obediência robotizada, mas pessoas que possam pensar.[...]. Trechos extraídos da obra Autoestima e seus seis pilares (Saraiva, 2002), do escritor e psicoterapeuta canadense Nathaniel Branden (1930-2014). Veja mais aqui.

O MELHOR TEMPO É O PRESENTE – [...] Ela era negra, ele era branco. Nada mais importava. Identidade era só isso, naquele tempo. Simples como as letras negras nesta página branca. Por causa dessas duas identidades, eles transgrediam. E conseguiram se dar bem, mais ou menos. Não eram tão visíveis, nem politicamente tão conhecidos, que vales-se a pena processá-los nos termos da Lei da Imoralidade: melhor seria mantê-los em observação, segui-los, por um lado, na expectativa de que deixassem pistas que levassem a militantes de mais peso, ou pela possibilidade de que fossem recrutados para fazer relatórios referentes ao seu nível de envolvimento, fosse o de dissidentes ou o de revolucionários. Na verdade, ele era um daqueles que, quando estudante, fora abordado discretamente com indiretas sutis baseadas no patriotismo ou, talvez, na suposição igualmente natural de que os jovens precisam de dinheiro, tendo sido deixado claro que ele não deveria se preocupar, pois sua segurança pessoal estaria garantida, bem como sua situação financeira, se ele se lembrasse das coisas que eram ditas nas reuniões a que ele estava presente e desempenhava seu papel. Engolindo uma golfada de repugnância e imitando o tom da abordagem, ele recusou a oferta — sem que o homem se desse conta de que a rejeição não era apenas da oferta, mas também da pessoa que se prestava ao papel de cafetão da polícia política. Ela era negra, mas isso agora é muito mais complexo do que o início e o fim da existência conforme registrada num arquivo ultrapassado de um país ultrapassado, muito embora o nome permaneça o mesmo. Ela nasceu naquele tempo; seu nome é uma assinatura do passado de sua origem, batizada na igreja metodista em que um de seus avôs fora pastor, e seu pai, diretor de uma escola local para meninos negros, era presbítero, sendo sua mãe presidente da sociedade feminina da igreja. A Bíblia era a fonte do primeiro nome de batismo, seguido do segundo, africano, o qual as pessoas brancas — que a criança teria que aprender a agradar, e com quem teria de lidar neste mundo — não associavam a nenhuma identidade. Rebecca Jabulile. Ele era branco. Mas também isso não é tão definitivo quanto era codificado nos arquivos antigos [...]. Trecho extraído do romance O melhor tempo é o presente (Companhia das Letras, 2014), da escritora sul-africana e Prêmio Nobel de Literatura em 1991, Nadine Gordimer (1923-2014). Veja mais aqui.

DEDICATÓRIA – Umedece /teus lábios com sal, /  que não seja o de tuas lágrimas. / Esta chuva-água é presente dos deuses / bebe sua pureza, frutifica na hora certa. / Leva, pois, os frutos à boca, / corre para devolver o milagre de teu nascimento. / Cria marés humanas como as ondas, / imprime tua lembrança nas areias que ainda guardarão / fósseis. Poema do poeta e dramaturgo nigeriano Wole Soyinka. Veja mais aqui.

CLARICE LISPECTOR
UMA APRENDIZAGEM OU O LIVRO DOS PRAZERES
I
Veja mais Clarice Lispector aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

Lançamento do livro Porto Solidão & do filme Palmares, arte, poesia e amor, de Genésio Cavalcanti & muito mais na Agenda aqui.
&
O dedo mindinho do pé direito, Nasrudin de Indries Shah, o pensamento de Richard Orage, a arte de Liz West, a música dos Beatles, Gênesis, Pink Floyd & Led Zeppelin aqui.
&
É ela todas as musas, a literatura de Dalton Trevisan, O ocasionalismo de Al-Ghazzali, a arte de Kazimierz Mikulski & Luciah Lopez, a música de Marlos Nobre, Galina Ustvolskaya, Gilberto Mendes & Miriam Ramos aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aqui.

APOIO CULTURAL: SEMAFIL
Semafil Livros nas faculdades Estácio de Carapicuíba e Anhanguera de São Paulo. Organização do Silvinha Historiador, em São Paulo. Fone: 11 98499-2985.


terça-feira, abril 03, 2018

GAUTIER, AGOSTINHO DA SILVA, MARTIN DU GARD, MARLENE DUMAS, MARCELO COUTINHO, STOCKHAUSEN & JOCY OLIVEIRA

A CATITA NÃO TEM O QUE FAZER – Imagem: arte da artista sul-africana Marlene Dumas. - Na manhã os passos dos transeuntes pra lá e pra cá, suas culpas, dores e anseios. Quando muito olham pros lados, se entretem com um cão que luta por seu osso ou escarram bons dias, uns aos outros, sem se importarem com a natureza do catarro, se de bem ou por males nunca dantes revelados. Sabem apenas que vão com seus umbigos para onde eu não sei, seus interesses, preços e olê olás. Depois do meio-dia, a tarde é quase a mesma de outros e tantos dias, se sobem ou descem, os passantes seguem à risca suas cartilhas de fé, esperteza e competição, sem se dar conta do escorpião que saiu de um buraco e tira fino nas canelas e calcanhares que estão absortos com o bom que é de quem chegar primeiro, besta que cochile, o milagre da sorte demorada é só para um, o resto que se dane. E se chegou a vez, quem quiser que morra de inveja, trancelins, etiquetas e brebotes foram feitos pra soberba. Quem quiser que guarde o seu e, vez em quando, se bater o remorso, obre caridade pra mostrar que também é filho de Deus. À boquinha da noite, todos se benzem à Hora do Angelus, correm pra ceia, suor do dia na catinga do sovaco, trocados que sobraram nos bolsos, compras pra felicidade do lar, e umas lorotas na ponta língua pra comerem a hora, enquanto uma lagartixa espreita uma barata que se insinua à toa sem saber do bote pra devorá-la. Os que chegaram, vencedores ou vencidos, se não roncam impunes, zanzam insones pelo assoalho, mastigando arrependimentos, estratagemas ou camas de gato pro dia seguinte, e riem porque alguém chorará, não se sabe quem, problema do vacilo e da leseira, só ganha quem é esperto, essa a lei absoluta, que venha a madrugada pros sonhos ou pesadelos, eu à janela com o calor da hora chuvosa, às baforadas e uma catita rouba minha atenção, passeando em um dos fios de eletricidade. Ela vem às pressas e em frente da minha janela, para e olha pros lados, se vira olhando pra baixo, gira novamente como se quisesse pular, a altura parece deixá-la sem saber o que fazer, segue adiante, acompanho, vai determinada fio acima e segue a um rolo de fios enrolados no poste, o seu labirinto, de perder sua presença. Pra onde terá ido? O que lhe acontecera? Será que ela conseguiu descer tal como subiu, não sei, ela se foi, sumiu e eu aqui preocupado com o seu destino. Ah, ela não está nem aí, eu querendo saber o que será dela, se predador ou choque elétrico suspendendo o fornecimento de energia, eu na escuridão, temeroso com o céu plácido com previsões sinistras no centro dos meus temores, que pra ela pouco importa se escapará do algoz ou não, se seguirá adiante até uma ratoeira aplacar-lhe as invasões, se comeu ou morreu de fome pra festa dos vermes, não sei. Esperei um pouco para ver se lhe descobria esquina afora, nem sinal. Ora, ora, a catita não tem mesmo o que fazer. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música do compositor alemão de música contemporânea Karlheinz Stockhausen (1928-2007): Oktophonie, Mantra & Sonatine; da a compositora, pianista e escritora Jocy OliveiraOuço vozes que se perdem nas veredas que encontrei, A música do século XX & Medea Ballade; & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA[...] a palavra amor, rota pelo uso, irreconhecível pelo pó acumulado, trinchada pelas conveniências, dividida pelas práticas, ainda poderia deter em si alguma carne, e significar algo do que sempre quis significar: amor. [...] os diminutivos costumam ser carinhosos. E que mesmo rotos, irreconhecíveis pelo pó acumulado, perdidos por entre as práticas, permanecem o que sempre foram e que nunca deveriam ter deixado de ser: carinhosos. Mesmo sendo diminutivos, costumam ser bem maiores. São capazes, por exemplo, de dar maior peso e carne ao amor abstrato. “Meu amorzinho” é um amor bem maior que “meu amor”. [...]. Pensamento extraído da dissertação de mestrado Antão, o Insone: estudo sobre as relações dialógicas entre a visão e a cegueira (UFPE, 2003), do poeta, professor, quadrinista, ilustrador e artista visual Marcelo Coutinho. Veja mais aqui.

INVOCAÇÃO DA ESPERANÇA - [...] capacidade de contemplação e de criação do homem, aproveitando tudo aquilo que foi feito com o sacrifício dos trabalhadores durante séculos e séculos. [...] esperança de que se estabeleça na Terra um paraíso terreal, de que, pela meditação, os homens cheguem a um tempo em que o paraíso terreal e o espiritual, o do Céu, sejam exatamente a mesma coisa [...] em que o homem deixa que brote de si tudo quanto é de possibilidade divina ao mesmo tempo que não perde nada da sua humanidade [...]. Trecho extraído da obra Ir à Índia sem abandonar Portugal, considerações, outros textos (Assírio & Alvim, 1994), do filósofo, poeta e ensaísta português Agostinho da Silva (1906-1994). Veja mais aqui e aqui.

O DRAMA – [...] Olha de longe aquele seio túmido que não conhece, no qual os dedos minúsculos se crispam como donos. Olha aquele pequeno ser de carne, que se apressa, ávido por viver. Olha Cécile, e esse semblante novo, pálido, um pouco mais gordo, rejuvenescido: seu rosto de outrora. Depois, por um gesto que ela faz, a fim de amparar a pequena, vê-lhe na mão a aliança.... Eram noivos: ele chegava de Paris, com o estojo no bolso; encontrara Cécile sozinha: ajoelhara-se, corpo e alma, diante dela, a fim de enfiar-lhe no dedo aquele anel, o elo, a cadeia... Todo um passado de mocidade e de ternura... Ah!R esse desejo sincero e tresloucado que tinha de dar e de colher a felicidade!... Soergue um sudário: viola o sepultamento dos dois que eles foram. Sente-se outro. Ela também.... ambos, tão diferentes! E que fazer? [...]. Trecho extraído da obra O drama de Jean Barois (Delta, 1964), do escritor francês Roger Martin du Gard (1881-1958), Prêmio Nobel de Literatura de 1937.

TRÊS POEMASANACREÔNTICA: Poeta! Sofreia os ímpetos! / Não faças que o meu amor / fuja e evole-se – ave tímida - / ao róseo céu do pudor. / O amor é medroso e alígero; ]pomba, que treme e que arruulha... / sê cauteloso; ela espanta-se / e foge à mínima bulha... / Mudo, como Hermes de mármore / da árvore ao pé; hás de ver, / aos poucos, sem sustos, da árvore / a pomba descer, descer... / Sentirás nas fontes, flácido, / um sopro de alma frescura, / e um palpitar de asas, trêmulo, / num turbilhão de brancura... / E em teu ombro a ave selvática, / já mansa, hás de ver pousar; / e o seu róseo bico, sôfrego, / nos beijos teus se fartar. A DOIS BELOS OLHOS : Sois dona de um olhar misterioso e atraente... / tal no fundo de um lago a lua refletida, / em vossos olhos rola a pupila, indolente, onde estranha palheta esplende umedecida... / Ele tem do diamante o fogo, a intensa vida, / e são de água melhor que a pérola do Oriente! / E os cílios no agitar da pálpebra tremida, / longos velam a meio o seu fulgor veemente. / Dois espelhos de chama, onde, em voejos infindos, / cupidos vão mirar-se e ainda se acham mais lindos! / Neles se inflamam sempre os desejos, sem clama... / E tão nítidos são, que deixam ver nossa alma, / como celeste flor de cálice ideal / que se visse através de um límpido cristal. COERULEI OCULI: Certa mulher misteriosa, / que m,e alucina, costuma / manter-se em pé, silenciosa, / junto ao mar, que ferve e espuma... / No olhar, onde o céu se pinta, / que palheta singular, / ao amargo azul, a tinta / glauca mistura do mar?! / Na langorosa pupila / bóia uma trsiteza vaga, / e a lágrima que vacila / e rola, o seu lume apaga. / A palpitar, branca e exul, / lembram-me os cílios suaves / tribo de aquáticas aves / sobre o indefinido azul... / Qual dágua no transparente / prisma, do olhar se devassa / no fundo, nitidamente, / do rei de Tule a áurea taça; / e, entre a alga e o sargaço, a gema / mais rara deslumbra e estão / de Cleópatra o diadema / e o anel do rei Salomão; / e irradiação irisada / das pedrarias se acende; / e a coroa da balada / de Schiller fulge e resplende. / Mago prestigio me enleia / e ao fundo abismo de luz / me arrasta, como a sereia, / que a Harald Harfagar seduz; / Me arrasta à ignota voragem, / até que eu nela me arroje / trás da impalpável imagem, / que, aérea a flátua, me foge... / Nágua esconde a ninfa bela / a cauda argêntea; e o brancor / da espádua lisa revela, / corando, da espuma à flor.... / Incha e, como um seio, arqueja / a vaga; em mórbido acento, / na cava concha solfeja, / soluça, ressona o vento... / “Vem reclinar-te em meu leito / de âmbar, e o saibo de fel / das ondas verás, desfeito, / manar-te da boca, em mel; / “O pélago estoura e zune / por cima; e a paz aqui mora, / sem que o rumor a importune / das tempestades de fora... / “Vem, sem tédio, nem bocejos. / O esquecimento imortal / bebamos juntos, dos beijos / pelo copo de coral”. / Assim é que a voz me fala, / desse olhar, que me extasia: / e no fundo dágua, a escutá-la, / desço... e o himeneu principia... Poemas do escritor, jornalista, dramaturgo e crítico literário Théophile Gautier (1811-1872). Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da artista sul-africana Marlene Dumas.
Veja mais aqui.


O Título provisório de Vital Corrêa de Araújo & muito mais na Agenda aqui.
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Daqui pracolá pelas calçadas & zis caminhos, As memórias de Wangari Maathai, a música de Anja Rupel, a fotografia de Nick Ut, a arte de Karina Sarkissova, Ramon Martinez & Lu Franzin aqui.

MARY OLIVER, ROSI BRAIDOTTI, VERONICA GORRIE & CHACRINHA

  Imagem: Acervo ArtLAM .   O segredo da brochura artesanal... - Uma fedentina tomou conta do lugar: Que fedor! De onde vem? Tem defunto...