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sexta-feira, abril 03, 2020

NATÁLIA CORREIA, GLÓRIA STEINEM, CRISTINA DE PISAN, OLGA KLIMOVA & VICENTE DO REGO MONTEIRO


O SORRISO & OS ABISMOS DA VIDA – UMA: O GOSTO DE QUASE UMA ÚLTIMA CARTA - Este um tempo de angústia: a tragédia ronda ameaçadora e o desgoverno reitera a aflição. Longe o olhar, a solidão de quem não espera e as horas são o que restam para viver, a esperança longínqua, o futuro distante. Bate no peito o verso de Sylvia Plath: Dentro de mim mora um grito. De noite, ele sai com suas garras, à caça de algo para amar. Por mais resiliente, há sempre um gosto de nunca mais e ela é quem ouço ecoar na escuridão: Eu falo com Deus, mas o céu está vazio. Na boca o sabor de quase uma última carta e sorrio. DUAS: PERSISTIR É PRECISO - A urgência da hora apaga o passado, nenhum arranhão que resista, nem quedas ou fracassos. Seguir em frente e já glosa o mote, talvez não dê tempo para amanhecer. Não há um mínimo tempo a perder. Ouço a voz rouca de Washington Irving: Os espíritos pequenos são domados e subjugados pelo infortúnio; os grandes, porém, sabem como fugir à desgraça. Os grandes espíritos têm metas. Os outros apenas desejos. Vou como se fosse onda em mar aberto e vivo. TRÊS: NÃO TENHO MÃOS ABANANDO, TENHO GESTOS - Do que sucumbi nenhuma derrocada foi capaz de me deter. Quixote ou não, se não venci todos os meus moinhos de vento, pelo menos me esquivei na hora certa e me safei de tudo até agora. Jamais me dei por vencido, posso ter recuado, mas foi para dar um salto maior, mesmo que tudo tenha malogrado. Do chão os ventos traziam Agostinho da Silva: Toda a grande obra supõe um sacrifício; e no próprio sacrifício se encontra a mais bela e a mais valiosa das recompensas. O que interessa na vida não é prever os perigos das viagens; é tê-las feito. Tudo que passei marcado em minha carne, a qualquer outra, terei mais para contar depois de passar por ela. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS: A pessoa cuja cabeça está inclinada e cujos olhos estão pesados não pode olhar para a luz. Nem todos os homens (e especialmente os mais sábios) compartilham a opinião de que é ruim para as mulheres serem educadas. Mas é bem verdade que muitos homens tolos alegaram isso porque lhes desagradou o fato de as mulheres saberem mais do que sabiam. Assim como os corpos das mulheres são mais suaves que os dos homens, a compreensão deles é mais nítida. Pensamento da poeta e filósofa italiana Cristina de Pisan (1363-1430), que foi uma das primeiras escritoras a viver da sua arte, a criticar a misoginia e defender o papel vital das mulheres na sociedade. As suas primeiras baladas foram compiladas em Le livre de cent balladés, autora do poema Roman de la Rose (Romance da Rosa) que representava as mulheres como nada mais que sedutoras, numa mordaz sátira às convenções do amor cortês. Já outras de suas obras, Epistre au dieu d’Amour e Dit de la Rose, causou debates extensos pela representação e tratamento das mulheres nos textos literários.

HOJE EM DIA - […] Hoje é muito melhor porque sabemos que não somos loucas; o sistema é que é louco. No meu tempo, por exemplo, não havia uma palavra para violência doméstica. Ela era chamada “vida”. E as mulheres eram culpadas pelo ato de seus maridos. Hoje, há abrigos para essas mulheres – e isso é um avanço enorme. A consciência vem antes da mudança física e agora, definitivamente, há consciência – e alguma mudança também. Mas ainda é verdade que o lugar onde a mulher corre mais risco de morrer é em sua própria casa. [...] Dizer que as mudanças ocorrem de baixo para cima, que devemos usar nossas vozes sempre que pudermos. Sou feliz por ser uma escritora e ter acesso a leitores por meio dos livros e da imprensa. Faço o meu melhor usar minha voz para refletir a voz dos que não têm esse espaço. [...]. Trechos da entrevista (Istoé, 2017), concedida pela escritora, jornalista e ativista estadunidense Glória Steinem, por ocasião do lançamento de sua obra Minha vida na estrada (Bertrand Brasil, 2017), contando suas experiências e engajamento no ativismo social entre as mulheres na Índia e o trabalho na década de 1960, as campanhas políticas, a Conferência Nacional da Mulher, os territórios indígenas e conexão com pessoas em um movimento para mudar o mundo. Foi a única jornalista que conseguiu se infiltrar na Playboy sem que fosse descoberta, para escrever um artigo sobre a situação degradante das moças que tinham seus direitos trabalhistas violados. Entre as suas obras estão A revolução interior – um livro de autoestima (Objetiva, 1992) e Memórias da transgressão (Rosa dos Ventos, 1997).

A POESIA DE NATÁLIA CORREIA
COSMOCÓPULA – I - Membro a pino / dia é macho / submarino / é entre coxas / teu mergulho / vício de ostras. – II - O corpo é praia / a boca é a / nascente / e é na vulva que / a areia é mais sedenta / poro a poro vou / sendo o curso de / água / da tua língua / demasiada e / lenta / dentes e unhas / rebentam como / pinhas / de carnívoras plantas / teu é meu ventre / abro-te as coxas e / deixo-te crescer / duro e cheiroso como o / aloendro.
A EXALTAÇÃO DA PELE - Hoje quero com a violência da dádiva interdita. / Sem lírios e sem lagos / e sem gesto vago / desprendido da mão que um sonho agita. / Existe a seiva. Existe o instinto. E existe eu / suspensa de mundos cintilantes pelas veias / metade fêmea metade mar como as sereias.
O LIVRO DOS AMANTES – I - Glorifiquei-te no eterno. / Eterno dentro de mim / fora de mim perecível. / Para que desses um sentido / a uma sede indefinível. / Para que desses um nome / à  exatidão do instante / do fruto que cai na terra / sempre perpendicular / à humidade onde fica. / E o que acontece durante / na rapidez da descida / é a explicação da vida. II - Harmonioso vulto que em mim se dilui. / Tu és o poema / e és a origem donde ele flui. / Intuito de ter. Intuito de amor / não compreendido. / Fica assim amor. Fica assim intuito. / Prometido. VI - Aumentámos a vida com palavras / água a correr num fundo tão vazio. / As vidas são histórias aumentadas. / Há que ser rio. / Passámos tanta vez naquela estrada / talvez a curva onde se ilude o mundo. / O amor é ser-se dono e não ter nada. / Mas pede tudo. VII - Tu pedes-me a noção de ser concreta / num sorriso num gesto no que abstrai / a minha exatidão em estar repleta / do que mais fica quando de mim vai. / Tu pedes-me uma parcela de certeza / um desmentido do meu ser virtual / livre no resultado de pureza / da soma do meu bem e do meu mal. / Deixa-me assim ficar. E tu comigo / sem tempo na viagem de entender / o que persigo quando te persigo. / Deixa-me assim ficar no que consente / a minha alma no gosto de reter-te / essencial. Onde quer que te invente.
NATÁLIA CORREIA - A poesia da escritora, dramaturga, jornalista, tradutora e ativista social portuguesa Natalia Correia (1923-1993), autora de obras como Eros de Passagem (Campo das Letras, 1997), entre outras, e que atuou na defesa dos direitos das mulheres, tendo sido condenada pela publicação da Antologia da Poesia Portuguesa Erótica e Satírica, em 1966, considerada ofensiva dos costumes e processada pela publicação da obra das Três Marias, Novas cartas portuguesas, de Maria Isabel Barreno, Maria Velho da Costa e Maria Teresa Horta. Veja mais aqui, aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Pondo a mente de lado e confiando no fluxo da criação, ouvindo a pintura e o próprio subconsciente, sem tentar controlar o que está acontecendo e deixando ir - todas são habilidades muito úteis, não apenas durante a pintura, mas na vida.
OLGA KLIMOVA - A arte da artista visual russa Olga Klimova que reflete em sua obra sua arte visionária e suas profundas experiências místicas, como tentativa contínua de se reconectar com esse nível mais profundo de consciência, enquanto compartilha seu estado feliz de ser um com o mundo. Criou o WizArt Visions, em Nova York, um estúdio de design e produção de cenografia e que já desenvolveu vários cenários, instalações de tecido, U.V. pinturas e cenários para a cena de festivais. Veja mais aqui & aqui.

PERNAMBUCO ART&CULTURAS
VICENTE DO REGO MONTEIRO
A arte do pintor, desenhista, escultor, professor e poeta Vicente do Rego Monteiro (1899-1970) aqui e aqui.
A poesia de Gerusa Leal aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.
Lendo na Praça & Rute Costa aqui & aqui
Festival de Artes Psicodélicas e Astrais (FARPA) aqui.
O túnel amaldiçoado de Pirangi aqui.
Lajedo aqui & aqui.
&
OFICINAS ABI – 2º SEMESTRE 2020
Veja detalhes das oficinas da ABI aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.


domingo, setembro 13, 2015

MARTÍN-BARÓ, CLARA, DOMITILA, ANTONIO TORRES, TEMPLE GRANDIN, NATÁLIA CORREIA, PERISSÉ & BRINCARTE DO NITOLINO.

VAMOS APRUMAR A CONVERSA? BRINCAR PARA APRENDER – Quando publiquei o meu segundo livro infantil Falange, falanginha e falangeta (Nascente, 1995), tive a grata satisfação de tê-lo adotado em diversas escolas de Alagoas e de outros estados brasileiros, razão pela qual fui convidado para realizar recreações com meu violão, cantando e contando estórias. Foi a partir daí que empunhei as bandeiras da ética, cidadania, meio ambiente, pluralidade cultural e respeito às diferenças, utilizando a literatura de cordel como veículo para realização do meu trabalho com a garotada nos anos seguintes. À medida que eu publicava mais um livro, mais estreitava meus contatos com os alunos da Educação Infantil e primeiro ciclo do Ensino Fundamental das redes pública e privada, até o momento que realizei uma atividade a convite da coordenadora de uma escola pública, Ceiça Mota, proporcionando o surgimento do meu personagem Nitolino. Por conta disso, ao reunir num mesmo balaio Literatura, Música e Teatro, embasado em Lev Vygotsky, Paulo Freire, Johan Huizinga, Philippe Ariés, Donald Winnicott, Ricardo Japiassu, Olga Reverbel, Ingrid Koudela, entre outros autores, comecei a realizar palestras destacando a importância da arte no desenvolvimento infanto-juvenil. Como resultado dessas atividades, recebi o convite de Maria Luisa Russo e da Edufal, para ministrar a palestra, Brincar para Aprender, realizada durante as atividades da V Bienal Internacional do Livro de Alagoas, para professores e estudantes de Letras, Pedagogia e Psicologia, destacando o brincar, o brinquedo e o lúdico, os direitos da criança, a brincadeira na educação e o desenvolvimento da criança. Tais experiências culminaram com as atividades na área de Psicologia do Desenvolvimento, orientada pela professora Ms Fátima Pereira, resultando num projeto denominado A arte no desenvolvimento da linguagem infantil sob a perspectiva da teoria sócio-histórica, que resultou no artigo Vygotsky, o teatro e a criança, que foi apresentado no Congresso Nacional de Psicologia, promovido pela Sociedade Brasileira de Psicologia, na Uninove, em São Paulo. Vieram, então, as atividades voltadas para a Psicologia Social, orientada pelo professor Ms Claudio Jorge de Morais Gomes, nas quais passei a destacar a importância da Psicologia e do profissional psicólogo no âmbito educacional, por meio de projetos de extensão e de iniciação científica, culminando com a realização do projeto Infância, imagem e literatura: uma experiência psicossocial na comunidade do Jacaré (AL), que resultou na criação da história transformada para o teatro infantil O jacaré de óculos e a princesa do Recanto da Ilha. À medida que esses projetos foram acontecendo, fui ao mesmo tempo trabalhando articulações entre a arte e a psicologia na educação, trabalhando as temáticas da Psicologia na Educação Ambiental, Neuroeducação e Psicodrama, e a Arte na Psicologia da Saúde, todos voltados para prevenção e promoção da saúde no universo infanto-juvenil. Tais realizações tem sido gratificantes pela acolhida que o público tem expressado e, especialmente, por poder estar em constante contato com o olhar e riso de ternura da criança a todo momento. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.


Imagem da artista plástica brasileira Domitila Stabile de Oliveira


Curtindo o álbum Clara Schumann: lieder e piano solo (2011), com as obras eruditas da pianista e compositora alemã Clara Schumann (1819-1896), com a cantora, professora de canto, pesquisadora e integrante do coral da Osesp e da Audi Coelum, Clarissa Cabral, e a pianista, professora e pesquisadora Eliana Monteiro da Silva.

BRINCARTE DO NITOLINO – Hoje é dia do programa Brincarte do Nitolino pras crianças de todas as idades, a partir das 10hs, no blog do Projeto MCLAM, com apresentação de Isis Corrêa Naves. Na programação: Os Trapalhões, Charlie Brown Jr, Gabriel, Os Três Porquinhos, Família dos Anjos, Cristina Mel, dicas para uma boa saúde para as crianças e para todos nós, Aline Barros & Cia, Galinha Pintadinha, Leão Cordeirinho, As Esquiletes, Nita, Meimei Corrêa, Maisa & muito mais poemas, brincadeiras e dicas pra garotada. No blog, além da literatura infantil de Antonio Torres e dicas de Psicologia, Educação, Direito, Literatura, Música e Teatro, também consta a parceria MC Produções/Edições Nascente/Alan Miranda e Câmara de Vereadores de Três Corações, realizando o curso de oratória nos dias 19 e 26 de setembro, para a Câmara Mirim coordenada pelo advogado e diretor geral, Heloisio Angelo Domintini – conhecido por Buluca -, e também pela coordenadora cultural, Francesmara Valim Silva Pereira. Para conferir tudo isso e muito mais ao vivo e online clique aqui ou aqui.

PSICOLOGIA DA LIBERTAÇÃO – No livro Psicologia Social para a América Latina: o resgate da Psicologia da Libertação (Alínea,2009), organizado por Raquel Guzzo e Fernando Lacerda Jr, encontro o artigo Para uma Psicologia da Libertação, do psicólogo social e filósofo espanhol Ignácio Martin-Baró (1942-1989), do qual destaco o trecho: Com base em uma perspectiva geral, deve-se reconhecer que a contribuição da Psicologia, como ciência e como práxis, à história dos povos latino-americanos é extremamente pobre. Certamente, não faltaram psicólogos preocupados com os grandes problemas do subdesenvolvimento, dependência e opressão que agoniam os nossos povos. Mas, na hora de se materializar, em muitos casos, essas preocupações tiveram de ser canalizadas por meio de um compromisso político pessoal, à margem da Psicologia, cujos esquemas eram inoperantes para responder às necessidades populares. [...] Os modelos dominantes na Psicologia fundam-se em uma serie de pressupostos que apenas raramente são discutidos e aos quais, cada vez menos, se propõem alternativas. Mencionarei cinco desses pressupostos que, em minha opinião, têm marcado as possibilidades da Psicologia latino-americana: o positivismo, o individualismo, o hedonismo, a visão homeostática e o a-historicismo. [...] se quisermos que a Psicologia realize alguma contribuição significativa à história de nossos povos, se, como psicólogos, queremos contribuir para o desenvolvimento social dos países latino-americanos, necessitamos redefinir nossa bagagem teórica e prática, mas redifini-la valendo-nos da vida de nossos próprios povos, de seus sofrimentos, de suas aspirações, de suas lutas. [...] Com inspiração na Teologia da Libertação podemos propor três elementos essenciais para a construção de uma Psicologia da Libertação dos povos latino-americanos: um novo horizonte, uma nova epistemologia e uma nova práxis [...]. Veja mais aqui e aqui.

ESSA TERRA – No romance Essa terra (Record, 1976), do premiadíssimo escritor, jornalista e ocupante da cadeira 23 da Academia Brasileira de Letras, Antônio Torres, destaco os trechos seguintes: O Junco: um pássaro vermelho chamado Sofrê, que aprendeu a cantar o Hino Nacional. Uma galinha pintada chamada Sofraco, que aprendeu a esconder os seus ninhos. Um boi de canga, o Sofrido. De canga: entra inverno, sai verão. A barra do dia mais bonita do mundo e o pôr-do-sol mais longo do mundo. O cheiro do alecrim e a palavra açucena. E eu, que nunca vi uma açucena. Sons de martelo amolando as enxadas, aboio nas estradas, homens cavando o leite da terra. O cuspe do fumo mascado da minha mãe, a queixa muda do meu pai, as rosas vermelhas e brancas da minha avó. As rosas do bem-querer:-Hei de te amar até morrer. Essa é a terra que me pariu.-Lampião passou por aqui.-Não, não passou. Mandou recado [...] Ora, ele lá ia ter tempo de passar neste fim de mundo? [...] Dinheiro, dinheiro, dinheiro. Cresce logo, menino, pra você ir para São Paulo. Aqui vivi e morri um pouco todos os dias. No meio da fumaça, no meio do dinheiro. Não sei se fico ou se volto. Não sei se estou em São Paulo ou no Junco [...] — Qualquer pessoa deste lugar pode servir de testemunha. Qualquer pessoa com memória na cabeça e vergonha na cara. Eu vivia dizendo: um dia ele vem. Pois não foi que ele veio? — O senhor está com razão. — Ele mudou muito? Espero que ao menos não tenha esquecido o caminho lá de casa. Somos do mesmo sangue. — Não esqueceu, não, tio — respondi, convencido de que estava fazendo um esclarecimento  necessário não apenas a um homem, mas a uma população inteira, para quem a volta  do meu  irmão parecia ter mais significado do que quando dr. Dantas Júnior veio anunciar que  havíamos entrado no mapa do mundo, graças a seu empenho e à sua palavra de deputado  federal bem votado. [...] — E eu sei que esse dia está perto. Ora vejam bem: nossos avós tinham muitos pastos, nossos pais tinham poucos pastos e nós não temos nenhum [...] Isso também está nas Sagradas Escrituras. Muitos pastos e poucos rastos. Poucas cabeças, muitos chapéus. Um só rebanho para um só pastor. [...] — Qualquer dia o Anticristo aparece. Será o primeiro aviso. Depois o sol vai crescer, vai virar uma bola do tamanho de uma roda de carro de boi e aí —dizia papai, dizia mamãe, dizia todo mundo. Ninguém disse, porém, se a vinda da Ancar estava nas Sagradas Escrituras. Ancar: o banco que chegou de jipe, num domingo de missa, para emprestar dinheiro a quem tivesse umas poucas braças de terra. [...] A mala me fez pensar no correio e nos envelopes gordos de antigamente, que chegava de mês em mês. Dinheiro vivo, paulista, rico. Também me lembrei de mamãe: — Tomara eu tivesse mais um filho igual a ele. Bastava um. Nelo, Nelo, Nelo. Um acalanto, uma toada, uma canção. Nelo, Nelo, Nelo. Miragens sobre o poente, nosso sol atrás da montanha, sumindo no fim do mundo. Nelo, Nelo, Nelo. São Paulo está lá para trás da montanha, siga o exemplo do seu irmão. Nelo, Nelo, Nelo. Éramos doze, contando uma irmã que já morreu. Só ele contava. Nelo, Nelo, Nelo. — Bastava mais um [...]. Veja mais aqui, aqui e aqui.

CIDADANIA, AUTO-RETRATO & A ARTE DE SER AMADA – Na Antologia Poética (Dom Quizote, 1999), da poeta e ativista social açoriana Natália Correia (1923-1993), destaco inicial o seu poema Cidadania: Buquê de ruídos úteis / o dia. O tom mais púrpura / do avião sobressai / locomovida rosa pública. / Entre os edifícios a acácia / de antigamente ainda ousa / trazer ao cimo a folhagem / sua dor de apertada coisa. / Um solo de saxofone excresce / mensagem que a morte adia / aflito pássaro que enrouquece / a garganta da telefonia. / Em cada bolso do cimento / uma lenta aranha de gás / manipula o dividendo / de um suicídio lilás. Também o seu Auto-retrato: Espáduas brancas palpitantes: / asas no exilio dum corpo. / Os braços calhas cintilantes / para o comboio da alma. / E os olhos emigrantes / no navio da pálpebra / encalhado em renúncia ou cobardia. / Por vezes fêmea. Por vezes monja. / Conforme a noite. Conforme o dia. / Molusco. Esponja / embebida num filtro de magia. / Aranha de ouro / presa na teia dos seus ardis. / E aos pés um coração de louça / quebrado em jogos infantis. Por fim, o seu belíssimo A arte de ser amada: Eu sou líquida mas recolhida / no íntimo estanho de uma jarra / e em tua boca um clavicórdio / quer recordar-me que sou ária / aérea vária porém sentada / perfil que os flamingos voaram. / Pelos canteiros eu conto os gerânios / de uns tantos anos que nos separam. / Teu amor de planta submarina / procura um húmido lugar. / Sabiamente preencho a piscina / que te dê o hábito de afogar. / Do que não viste a minha idade / te inquieta como a ciência / do mundo ser muito velho / três vezes por mim rodeado / sem saber da tua existência. / Pensas-me a ilha e me sitias / de violinos por todos os lados / e em tua pele o que eu respiro / é um ar de frutos sossegados. Veja mais aqui.

CÓCEGAS & MUITA CALMA NESSA HORA – O trabalho da belíssima atriz e humorista Heloisa Perissé teve início na televisão com o programa Escolinha do Professor Raimundo, quando nasceu a parceria dela com a sua amiga, a atriz Ingrid Guimarães para a encenação da peça Cócegas, seu primeiro trabalho teatral que ficou em cartaz durante anos. Seguindo-se, então, sua participação nas peças teatrais Cosquinha, Advocacia segundo os Irmãos Marx, o Mágico de Oz e, por fim, W foram quase felizes para sempre. Ao mesmo tempo que participou dos filmes Avassaladoras (2002), Lara (2002), Lisbela e o prisioneiro (2003), Xuxa abracadabra (2003), Sexo, amor e traição (2004), Madafascar (2005), Os porralokinhas (2007), Madagascar 2 (2008), Muita calma nessa hora (2010), Madagascar 3 – os procurados (2012), O diário de Tati (2012), Odeio o dia dos namorados (2013) e Muita calma nessa hora (2014). Além disso, ela tem marcado presença constante em novelas, séries e programas humorísticos da televisão, consolidando seu prestígio de talentosa atriz e projetando uma trajetória invejável e digna de aplausos de pé. Veja mais aqui.

LÁBIOS SEM BEIJOS – O drama e romance Lábios sem beijos (1930), dirigido pelo cineasta pioneiro do cinema brasileiro Humberto Mauro (1897-1983), com roteiro de Ademar Gonzaga e trilha sonora do grupo francês DoubleCadence, foi o primeiro filme produzido pela Cinédia na fase do cinema mudo, contando a história da afronta moral de uma moça de família que mente ao dizer que vai a um baile e, ao invés disso, vai passear e ficar com as juras de um amor eterno com o seu namorado, por meio de sequencias e planos movimentados pelo enredo que destaca a mulher não sujeita à submissão e ao recato, batendo de frente com o conservadorismo e positivismo da sociedade dos anos 1920. Terno e de uma delicadeza sem precedentes, o filme representa um marco para o cinema nacional, destacando-se, evidentemente, o talento do seu diretor que além de ser um pioneiro do cinema brasileira, é também um dos nomes de maior destaque para a cinematografia pátria. Veja mais aqui.

IMAGEM DO DIA
Todo dia é dia de homenagear a ativista autista e doutora estadunidense de ciência animal Temple Grandin, que sendo autista (Síndrome de Asperger) revolucionou as práticas para o tratamento racional de animais vivos.


Veja mais no MCLAM: Hoje é dia do programa Domingo Romântico, a partir do meio dia com a reprise de toda programação da semana, no blog do Projeto MCLAM, com a apresentação sempre especial e apaixonante de Meimei Corrêa. Para conferir online acesse aqui.

VAMOS APRUMAR A CONVERSA?
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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sábado, novembro 09, 2013

CATHERINE WALSH, CLARICE LISPECTOR, DUSSEL, KAMANDA, JOAN GARRITY, TRÊS MARIAS & LITERÓTICA


POSSESSÃO DO PRAZER - Quando a tarde chega ela sorri tal qual minha nega, minha musa, avalie! E ri como o dia nasce. Não usa disfarce no perfume que exala incensando a sala e me dopando além. Blém, blém, eu folgo inchado e puxo ela do lado e dou-lhe uns arrochos. São vários acôchos daqueles bem dado de só o corpo colado dela me aproveitar. Larali, laralá. E pego a pegar, me ajeito e só puxo, esfrego, acarinho e repuxo e ela toda no gingado. Dela eu dou cabo dos pés ao cabelo no maior desmantelo, maior forunfado, maior que o pecado quando nela me ajeito, no seu corpo perfeito, minha salvação. Mas ela então, no meio dos meneios, inventa arrodeio e quer prestar contas. Vixe, que tonta, ela chama na grande, uma ficha se expande com muita exigência. Ela adiou a urgência, salta de lado emergência pra aprumar a conversa. Vixe que tô na travessa e ela vai debulhando até ficar reclamando as coisas que eu desdigo. E me faz de Rodrigo e ela Macabéa, quando é a panacéia da minha ginofagia. Tenho essa regalia quando fala sabiá ou quando quer me tratar com os regalos melhores. Depois todos pormenores ela bota na lista me acusando de artista de quinta categoria. Eita, que aleivosia, maior paranóia, ela solta a pinóia do meu senso empenar. E em primeiro lugar não alivia o badalo e joga sem intervalo que sou badass mothafuckes que só lhe sufoca e ainda banco o durão. Tem mais, então, ela se diz vítima de atentado e que sou apontado por fora-da-lei. Eita, teibei! Facínora execrado e infeliz desgraçado pior no mundo sou eu. Belzebu! Asmodeu! Pedra ruim e vasilha imprestável, o maior irresponsável, trepeça e malfeitor. Ela virou promotor e me lascou pro babau, com o Código Penal todinho invocado. Tô réu apenado com sangue fervendo, com processo respondendo com qual culpa imputado? Eu tô mesmo é condenado na volta dessa mulher. Na verdade ela quer me ver todo lascado. Porque solta o ditado que vai findar tísica sem integridade física porque sou genioso. Pior, sou mafioso, o pior dos bandidos e o maior foragido da face da terra. Ela mais me enterra provocando arenga pruma maldita pendenga pelos tribunais. E me inferniza demais no maior desaforo, jogando duro em meu foro com insulto desalmado. É quando eu fico invocado e ela sai na defensiva, bicha sabida e viva, negaceia e apruma o tom. E em alto e bom som, ela parte pro piquete, zomba que sou um sorvete e que tá completamente louca. É quando me beija na boca e depois ela arteira faz bico é quando me faz ficar rico de tanto amolego e carinho. Aí viro seu amorzinho e não deixo barato, dou saculejo nos quartos com apetrechos e talher – porque não sou banguela! E eu de cima dela não saio nem que vire o mês de maio e seja mais o que Deus quiser! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui e  aqui.

 


DITOS & DESDITOS - Não espere uma vitória definitiva, mas sim conseguir melhores condições de combate. Não é nada descobrir algo novo, você tem que descobrir por que você descobriu isso. O partido deveria ser uma escola de política, não uma máquina eleitoral. A única sede do exercício do poder é o povo. Temos que começar a pensar na formação política dos jovens e dos ativistas porque essa é a informação política de um novo tipo de político, não corrupto, que tem princípios éticos...Pensamento do filósofo argentino Enrique Dussel. Veja mais aqui e aqui.

 

ALGUÉM FALOU: Os homens sempre se teceram e sonharam no que é forma extrovertida, no que se erige, no que rasga o espaço. Por isso dos poços e das profundezas nada sabem... Trecho extraído da obra Novas Cartas Portuguesas entre Portugal e o Mundo - ou de como Maina Mendes pôs ambas as mãos sobre o corpo e deu um pontapé no cu dos outros legítimos superiores (Estúdios Cor, 1972), escrita por Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa, dirigida por Natália Correia, que foi censurado como imoral e o livro foi proibido e expurgado das livrarias. As autoras e o editor, Romeu de Melo, foram incriminados e levados a tribunal. O caso só terminou depois da revolução de 25 de Abril de 1974. Banido de Portugal, o livro foi imediatamente traduzido na Europa e nos Estados Unidos da América, encontrando-se, ainda hoje, entre as obras portuguesas mais traduzidas em todo o mundo. A apreensão do livro e o processo instaurado às três autoras no contexto do Estado Novo provocou uma onda internacional de apoio inédita na história da literatura portuguesa, tendo os protestos e as manifestações em prol da causa das “Três Marias”, como viria a ficar conhecido o processo, atingido proporções inimagináveis: desde a cobertura do julgamento feita pelos meios de comunicação internacionais, até às manifestações feministas em várias embaixadas de Portugal no estrangeiro, passando ainda pela defesa pública da obra e das autoras levada a cabo por nomes como Simone de Beauvoir, Marguerite Duras, Doris Lessing, Iris Murdoch ou Stephen Spender, foram várias as ações que fizeram com que este caso fosse votado, numa conferência patrocinada pela National Organization for Women (NOW), como a “primeira causa feminista internacional”. Abordando questões que se mantêm cruciais para a agenda política contemporânea, como a guerra e os conflitos, a violência, a discriminação, a feminização da pobreza, a (ausência de) liberdade, a colonização do corpo político e a imigração, entre muitas outras questões, Novas Cartas Portuguesas continuam a despertar a consciência social e a promover a construção de novos mapas de entendimento e de uma humanidade comum: [...] “Qual a mudança na vida das mulheres ao longo de séculos? […] As mulheres bordavam ou teciam ou fiavam ou cozinhavam, sujeitavam-se aos direitos de seus maridos, engravidavam, tinham abortos ou faziam-nos, tinham filhos, nados-mortos, nados-vivos, tratavam dos filhos, morriam de parto às vezes, em suas casas, com móveis, cadeiras, cortinados. Estamos em tempo de civilização e de luzes, os homens fazem livros científicos e enciclopédias, as nações mudam e mudam a sua política, os oprimidos levantam a voz, um rei de França é decapitado e com ele os seus cortesãos, os EUA do Norte tornam-se independentes […] Que mais? Que mais interessa enunciar a história? O que mudou na vida das mulheres? Já não tecem, já não fiam, talvez, porque se desenvolveram a indústria e o comércio; as mulheres bordam, cozinham, sujeitam-se aos direitos de seus maridos, engravidam, têm abortos ou fazem-nos, têm filhos, nados-mortos, nados-vivos, tratam dos filhos, morrem de parto, às vezes em suas casas, onde apenas mudou o feitio dos móveis, das cadeiras e dos cortinados”.

 

DECOLONIALIDADE – [...] desarmar, desfazer ou reverter o colonial. [...]. Com este jogo linguístico, Tento mostrar que não existe um estado nulo de colonialidade, mas sim posturas, posicionamentos, horizontes e projetos para resistir, transgredir, inter- venha, surja, crie e influencie [...] descrever e narrar a situação de colonização e impulsionar e revelar a luta anti e decolonial [...] um sentido prático e concreto em favor das lutas de descolonização, libertação e humanização [...] Assim, há uma epistemologia fanoniana que aponta para conhecer a forma em que o sujeito colonizado interioriza seu processo de colonização criando assim as condições de não-existência [...] é atacar as condições ontológicas-existenciais e de classificação racial e de gênero; incidir e intervir em, interromper, transgredir, desencaixar e transformá-las de maneira que superem ou desfaçam as categorias identitárias [...]. Trecho extraído da conferência Interculturalidade crítica e educação intercultural (Seminário “Interculturalidad y Educación Intercultural”, Instituto Internacional de Integración del Convenio Andrés Bello, La Paz, 2009.), da pedagoga e professora irlandesa Catherine Walsh, que propõe a pedagogia decolonial como um projeto político, social, epistêmico e ético, expresso pela interculturalidade crítica, que aposta na evocação de conhecimentos outrora marginalizados e de uma postura insurgente diante das estruturas rígidas resultantes do binômio modernidade\colonialidade.

 

A MULHER SENSUAL – [...] Nós mulheres nascemos para amar, e só somos felizes quando amamos integralmente. Desta maneira, ame, ame ardentemente. Não tenha medo. Deixe o amor participar de cada instante de sua vida. [,,,] Vamos. Comece. Você vai viver belos momentos. Pense em toda essa felicidade sexual e nos homens maravilhosos que irá encontrar no caminho. Você adorará transformar-se numa Mulher Sensual. [...] Para começar uma Espiral de Seda e um Toque de Borboleta em meu homem. Ele será levado ao êxtase, e eu também. Hummmmmmmmmm [...]. Trechos extraídos da obra The Sensuous Woman (Lyle Stuart, 1969), da escritora estadunidense Joan Theresa Garrity, com o pseudônimo de "J", um manual de instruções detalhadas sobre sexualidade para mulheres, com o subtítulo "o primeiro livro de instruções para a mulher que anseia ser toda mulher". Também foi publicado como O Caminho para se Tornar a Mulher Sensual. Posteriormente ela passou a usar o nome Terry Garrity.

 

PERDOANDO DEUS – Eu ia andando pela Avenida Copacabana e olhava distraída edifícios, nesga de mar, pessoas, sem pensar em nada. Ainda não percebera que na verdade não estava distraída, estava era de uma atenção sem esforço, estava sendo uma coisa muito rara: livre. Via tudo, e à toa. Pouco a pouco é que fui percebendo que estava percebendo as coisas. Minha liberdade então se intensificou um pouco mais, sem deixar de ser liberdade. Não era tour de propriétaire, nada daquilo era meu, nem eu queria. Mas parece-me que me sentia satisfeita com o que via. Tive então um sentimento de que nunca ouvi falar. Por puro carinho, eu me senti a mãe de Deus, que era a Terra, o mundo. Por puro carinho, mesmo, sem nenhuma prepotência ou glória, sem o menor senso de superioridade ou igualdade, eu era por carinho a mãe do que existe. Soube também que se tudo isso “fosse mesmo” o que eu sentia – e não possivelmente um equívoco de sentimento – que Deus sem nenhum orgulho e nenhuma pequenez se deixaria acarinhar, e sem nenhum compromisso comigo. Ser-Lhe-ia aceitável a intimidade com que eu fazia carinho. O sentimento era novo para mim, mas muito certo, e não ocorrera antes apenas porque não tinha podido ser. Sei que se ama ao que é Deus. Com amor grave, amor solene, respeito, medo, e reverência. Mas nunca tinham me falado de carinho maternal por Ele. E assim como meu carinho por um filho não o reduz, até o alarga, assim ser mãe do mundo era o meu amor apenas livre. E foi quando quase pisei num enorme rato morto. Em menos de um segundo estava eu eriçada pelo terror de viver, em menos de um segundo estilhaçava-me toda em pânico, e controlava como podia o meu mais profundo grito. Quase correndo de medo, cega entre as pessoas, terminei no outro quarteirão encostada a um poste, cerrando violentamente os olhos, que não queriam mais ver. Mas a imagem colava-se às pálpebras: um grande rato ruivo, de cauda enorme, com os pés esmagados, e morto, quieto, ruivo. O meu medo desmesurado de ratos. Toda trêmula, consegui continuar a viver. Toda perplexa continuei a andar, com a boca infantilizada pela surpresa. Tentei cortar a conexão entre os dois fatos: o que eu sentira minutos antes e o rato. Mas era inútil. Pelo menos a contigüidade ligava-os. Os dois fatos tinham ilogicamente um nexo. Espantava-me que um rato tivesse sido o meu contraponto. E a revolta de súbito me tomou: então não podia eu me entregar desprevenida ao amor? De que estava Deus querendo me lembrar? Não sou pessoa que precise ser lembrada de que dentro de tudo há o sangue. Não só não esqueço o sangue de dentro como eu o admito e o quero, sou demais o sangue para esquecer o sangue, e para mim a palavra espiritual não tem sentido, e nem a palavra terrena tem sentido. Não era preciso ter jogado na minha cara tão nua um rato. Não naquele instante. Bem poderia ter sido levado em conta o pavor que desde pequena me alucina e persegue, os ratos já riram de mim, no passado do mundo os ratos já me devoraram com pressa e raiva. Então era assim?, eu andando pelo mundo sem pedir nada, sem precisar de nada, amando de puro amor inocente, e Deus a me mostrar o seu rato? A grosseria de Deus me feria e insultava-me. Deus era bruto. Andando com o coração fechado, minha decepção era tão inconsolável como só em criança fui decepcionada. Continuei andando, procurava esquecer. Mas só me ocorria a vingança. Mas que vingança poderia eu contra um Deus Todo-Poderoso, contra um Deus que até com um rato esmagado podia me esmagar? Minha vulnerabilidade de criatura só. Na minha vontade de vingança nem ao menos eu podia encará-Lo, pois eu não sabia onde é que Ele mais estava, qual seria a coisa onde Ele mais estava e que eu, olhando com raiva essa coisa, eu O visse? no rato? naquela janela? nas pedras do chão? Em mim é que Ele não estava mais. Em mim é que eu não O via mais. Então a vingança dos fracos me ocorreu: ah, é assim? pois então não guardarei segredo, e vou contar. Sei que é ignóbil ter entrado na intimidade de Alguém, e depois contar os segredos, mas vou contar – não conte, só por carinho não conte, guarde para você mesma as vergonhas Dele – mas vou contar, sim, vou espalhar isso que me aconteceu, dessa vez não vai ficar por isso mesmo, vou contar o que Ele fez, vou estragar a Sua reputação. . .mas quem sabe, foi porque o mundo também é rato, e eu tinha pensado que já estava pronta para o rato também. Porque eu me imaginava mais forte. Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões, é que se ama verdadeiramente. Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil. É porque eu não quis o amor solene, sem compreender que a solenidade ritualiza a incompreensão e a transforma em oferenda. E é também porque sempre fui de brigar muito, meu modo é brigando. É porque sempre tento chegar pelo meu modo. É porque ainda não sei ceder. É porque no fundo eu quero amar o que eu amaria – e não o que é. É porque ainda não sou eu mesma, e então o castigo é amar um mundo que não é ele. É também porque eu me ofendo à toa. É porque talvez eu precise que me digam com brutalidade, pois sou muito teimosa. É porque sou muito possessiva e então me foi perguntado com alguma ironia se eu também queria o rato para mim. É porque só poderei ser mãe das coisas quando puder pegar um rato na mão. Sei que nunca poderei pegar num rato sem morrer de minha pior morte. Então, pois, que eu use o magnificat que entoa às cegas sobre o que não se sabe nem vê. E que eu use o formalismo que me afasta. Porque o formalismo não tem ferido a minha simplicidade, e sim o meu orgulho, pois é pelo orgulho de ter nascido que me sinto tão íntima do mundo, mas este mundo que eu ainda extraí de mim de um grito mudo. Porque o rato existe tanto quanto eu, e talvez nem eu nem o rato sejamos para ser vistos por nós mesmos, a distância nos iguala. Talvez eu tenha que aceitar antes de mais nada esta minha natureza que quer a morte de um rato. Talvez eu me ache delicada demais apenas porque não cometi os meus crimes. Só porque contive os meus crimes, eu me acho de amor inocente. Talvez eu não possa olhar o rato enquanto não olhar sem lividez esta minha alma que é apenas contida. Talvez eu tenha que chamar de “mundo” esse meu modo de ser um pouco de tudo. Como posso amar a grandeza do mundo se não posso amar o tamanho de minha natureza? Enquanto eu imaginar que “Deus” é bom só porque eu sou ruim, não estarei amando a nada: será apenas o meu modo de me acusar. Eu, que sem nem ao menos ter me percorrido toda, já escolhi amar o meu contrário, e ao meu contrário quero chamar de Deus. Eu, que jamais me habituarei a mim, estava querendo que o mundo não me escandalizasse. Porque eu, que de mim só consegui foi me submeter a mim mesma, pois sou tão mais inexorável do que eu, eu estava querendo me compensar de mim mesma com uma terra menos violenta que eu. Porque enquanto eu amar a um Deus só porque não me quero, serei um dado marcado, e o jogo de minha vida maior não se fará. Enquanto eu inventar Deus, Ele não existe. Conto extraído da obra Felicidade Clandestina (Rocco, 1998), da premiada escritora e jornalista Clarice Lispector (1920-1977). Veja mais aqui, aqui e aqui.

 

DOIS POEMAS - O MUNDO DAS SOLIDÕES Eu vaguei pela sombra e pela luz Oferecendo meu amor a inúmeras estrelas cadentes. Eu viajei por uma solidão tão grande Fazendo muitos sacrifícios em minha vida. A lenda da felicidade me atormenta E a tristeza me enterra na vertigem da desordem. Infelizmente, uma tempestade começa a se formar no horizonte Quando o ciúme troveja em minha alma Como um violento terremoto. E no silêncio da noite, O vaga-lume desesperado tenta desesperadamente Para fazer todo o céu brilhar, Como uma nova estrela da Providência. O MILAGRE DO AMOR Estarei lá, de dia e de noite, Nas provações e tormentos do destino Estar com você enquanto você passa pela vida. Estarei lá no mesmo reino de sonho que você Para nutrir seu coração Com todas as virtudes vitais do meu ser. Estarei lá para te amar infinitamente. E meu sangue fluirá como uma fonte inesgotável, Sem murmúrio nem violência, Até as profundezas de suas febres, Dos seus desejos e êxtases amorosos. Pormeas do escritor congolês Kama Sywor Kamanda. Veja mais aqui e aqui.

 

PROGRAMA DOMINGO ROMÂNTICO – O programa Domingo Romântico que vai ao ar todos os domingos, a partir das 10hs (horário de Brasilia), é comandado pela poeta e radialista Meimei Corrêa na Rádio Cidade, em Minas Gerais. Confira a programação deste domingo aqui. Na edição deste 10 de novembro, muitas comemorações: de mais de 300 mil do blog Tataritaritatá e de mais 4 mil membros no grupo do programa no Facebook, com muitas atrações, confira: Kitaro, Augusto dos Anjos, Jon Anderson & Vangelis, Paulinho da Viola, Paul McCartney, Saulo Laranjeira, Arrigo Barnabé, Lenine, Antonio Abujamra, Chico Buarque, Elis Regina, Toquinho & Vinicius, MPB4, Marina Lima, Diogo Nogueira, Djavan, Maria Bethania, Gil, Rita Lee, Simone, Altay Veloso, Pedro Jones, Marcus Viana & Marilia Abduani, João Pinheiro, Eduardo Santhana, Fabiana Cozza, Caito & Marco Araujo, Marquinhos Cabral, Vlado Lima & Lis Rodrigues & Max Gonzaga, Beto Saroldi, Ararypê Silva, Frederico Amitrano, Roberto Toledo, Mensageiros do Vento, Tirso Florence de Biasi, Daniel, Luiza Possi, Roberto Carlos & muito mais!!!!! Participe, comente, curta online & abrilhante a nossa festa neste 10 de novembro, na programação da Cidade FM 87,9, a partir das 10hs. Não deixe de participar para concorrer a diversos prêmios. Veja mais aqui.



SERVIÇO:

O que? Programa Domingo Romântico

Quando? Neste domingo, 10 de novembro, a partir das 10hs.

Onde? Cidade FM 

Apresentação Meimei Corrêa.

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