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terça-feira, julho 17, 2018

DRUMMOND, PRIGOGINE, CLARA SCHUMANN, PAULO MENDES CAMPOS, EMMELINE PANKHURST, PALADE, MARIE-HÉLÈNE SIROIS & FESTIVAL DE CURTA


CLARA, ÚNICO AMOR - Imagem: Clara Wieek, arte da artista visual canadense Marie-Hélène Sirois. - Clara de todas as teclas nos exímios dedos, talento de berço, nutria paixão infantil pelo aluno saxão de seu pai, teimando em não saber se ele seguia pelas leis ou tons na indecisão da vida em Lipsia. Tudo era apaixonante naquele estranho jovem órfão com seus olhos de sonhos e poucas palavras na sensibilidade melancólica aos devaneios insatisfeitos improvisados de poesia exaltada. Ele se decide por Leipzig e depois Heidelberg formar-se advogado e, ao encontrar Thibaut, as hesitações da mãe dele são vencidas e retorna a Lipsia para novos pesares atormentadores, misturando desencorajamento com a ânsia de glória, bebida e crises depressivas, o fumo e a incerteza, tudo desabonava sua reputação. Clara orgulho de pai sabia dos salões por viagens de recitais nas partituras, empolgada pela genialidade poética daquele jovem aluno de seu pai, agigantando o seu prodígio nas entrelinhas do diário com um presente de sua composição musical prometido praquele estranho que morava na sua casa. Eis que ele se enamora da Ernestina no desejo de esposá-la, todavia é pra Clara que ele destina os tesouros de sua alma transbordante num intenso amor. O velho professor Wieek tinha outros planos pro futuro da filha, afastando-a para Dresden. Golpe duro no coração daquele enamorado, e ele pede, então, a mão dela ao pai pela primeira vez e foi negado o amor agora sofrimento incessante de saudade noitedia. Na distância ela arranja um namorado, o que o faz explodir de ira até conseguir desfazer aquele idílio e as pazes por apaixonadas juras de amor. Ele pede a mão dela ao pai pela segunda vez e o amor lhe foi negado outra vez para desespero da alma daquele poeta que compõe febrilmente canções. Afastada daquele apaixonado, novamente ela encontra outro amor para desastre da paixão que parte para Viena com todas as dores da plangente Humoreske, a ela dedicada. Aí pela terceira vez pede a mão dela e o amor negado agora em excursão por Paris, recorre aos tribunais sob calúnias e abjeções, e o casamento enfim a glória, as oito gestações não a permitiam compor nem colaborar com o marido divulgando sua arte. Mesmo assim abdicou de sua criação, agora ela própria em segundo plano, para se dedicar integralmente na promoção da dele. Enquanto ela adorava turnês, ele o silêncio e as crises nervosas da melancolia psicótica, a nota lá dominante martelando seus ouvidos aonde quer que fosse. Seguiam a desconhecer da asa negra da tragédia na estridente monotonia dos tímpanos que o leva à tortura das alucinações, à loucura e tentativa de suicídio. Ao interná-lo com depressão crônica num manicômio de Endenich, ela seguia sozinha pelo caminho de Düsseldorf que deu Johannes o seu sustentáculo pro resto da vida. O amigo alisa seus seios na intimidade e um pacto de fidelidade ao doente é selado, enquanto os excessivos treinos do tratamento multimodal levavam-na à síndrome de dor crônica, dela quase sucumbir junto com marido à sepultura. Enviuvou e manteve-se fiel à sua memória, respeitada por Johannes. Ela era até os seus últimos dias a única musa nas harmonias imortais de um único amor. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo & mais aqui e aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música da pianista e compositora alemã Clara Schumann (1819-1896): Piano Works, Piano Concert in A minor Op. 7, Klaviertrio in G moll Op. 17 & Piano Trio in G minor – em sua homenagem foi realizado o drama musical Clara (2008), dirigido por Helma Sanders Brahms & muito mais nos mais de 2 milhões & 500 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui, aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA – [...] O que sei? Minha resposta é clara: muito pouca coisa [...] A visão clássica associava a ciência a certeza. A suprema glória da razão humana parecia ligada à possibilidade de atingir a certeza. Muito pelo contrário, creio que a ideia de certeza conduz a contradições. [...]. Pensamento do químico russo Prêmio Nobel de Quimica de 1977, Ilya Prigogine (1917-2003), Veja mais aqui.

NÃO PARAMOS DE PERGUNTAR - A questão “o que não sei?”, participa estreitamente da vida de todo pesquisador. Cada descoberta nova – o que significa cada elemento novo de conhecimento – constitui uma etapa que obriga a nos interrogarmos uma vez mais. O processo científico é uma longa cadeia de interrogações. Cada questão que encontrou sua resposta abre novo campo de investigação a explorar. O programa avança lentamente em direção a uma resposta final ainda desconhecida. Se todos os cientistas fazem perguntas específicas no quadro de seu programa de pesquisa, raros são os que se arriscam a ampliar suas investigações a um campo ou a um ramo da ciência. Os pesquisadores de hoje são formados para avançar passo a passo, com lentidão e precaução, a fim de evitar fazer perguntas de ordem geral, exceto se possuem boas razões e bons instrumentos para isso. No entanto, os que estendem suas interrogações ao domínio geral se encontram muitas vezes na origem das aberturas científicas maiores. Não paramos de nos perguntar quais eram as coisas que não sabíamos e que queríamos compreender. [...] Ao mesmo tempo conseguimos fornecer inúmeras respostas assumidas e aceitáveis. No entanto, muitas coisas permanecem ainda na sombra. Gostaríamos de saber como as células e seus componentes se adaptam a novas circunstâncias e como elas corrigem os desequilíbrios. Estima-se entre 100 e 200 mil números de genes que formam o genoma humano – o código genético que condiciona nosso desenvolvimento e nossas particularidades. Mesmo nos pequenos mamíferos de laboratório, esse número é considerável. Gostaríamos de saber quantos genes são necessários para construir uma célula pancreática e quantos para construir um pâncreas. E, na mesma ordem de ideias, gostaríamos de saber quantos genes são necessários para fabricar um rim ou um cérebro. O número de perguntas sem respostas que nos fazemos é infinito. No entanto, responder a essas questões equivaleria a privilegiar o conhecimento por amor ao conhecimento. Mas em um futuro mais ou menos próximo poderíamos chegar a identificar os genes que condicionam um desenvolvimento normal. Trecho extraído do artigo Não paramos de perguntar (Folha de S. Paulo, em 26 de março de 1995.), do biólogo romeno e prêmio Nobel de Medicina em 1974, George Palade (1912-2008). Veja mais aqui.

O MÉDICO E O MONSTRO - Avental branco, pincenê vermelho, bigodes azuis, ei-lo, grave, aplicando sobre o peito descoberto duma criancinha um estetoscópio, e depois a injeção que a enfermeira lhe passa. O avental na verdade é uma camisa de homem adulto a bater-lhe pelos joelhos; os bigodes foram pintados por sua irmã, a enfermeira; a criancinha é uma boneca de olhos cerúleos, mas já meio careca, que atende pelo nome de Rosinha; os instrumentos para exame e cirurgia saem duma caixinha de brinquedos. Ela, seis anos e meio; o doutor tem cinco. Enquanto trabalham, a enfermeira presta informações: – Esta menina é boba mesmo, não gosta de injeção, nem de vitamina, mas a irmãzinha dela adora. O médico segura o microscópio, focaliza-o dentro da boca de Rosinha, pede uma colher, manda a paciente dizer aaá. Rosinha diz aaá pelos lábios da enfermeira. O médico apanha o pincenê, que escorreu de seu nariz, rabisca uma receita, enquanto a enfermeira continua: – O senhor pode dar injeção que eu faço ela tomar de qualquer jeito, porque é claro que se ela não quiser, né, vai ficar muito magrinha que até o vento carrega. O médico, no entanto, prefere enrolar uma gaze em torno do pescoço da boneca, diagnosticando: – Mordida de leão. – Mordida de leão? – pergunta, desapontada, a enfermeira, para logo aceitar este faz-de-conta dentro do outro faz-de-conta. – Eu já disse tanto, meu Deus, para essa garota não ir na floresta brincar com Chapeuzinho Vermelho... Novos clientes desfilam pela clínica: uma baiana de acarajé, um urso muito resfriado, porque só gostava de neve, um cachorro atropelado por lotação, outras bonecas de vários tamanhos, um Papai Noel, uma bola de borracha e até mesmo o pai e a mãe do médico e da enfermeira. De repente, o médico diz que está com sede e corre para a cozinha, apertando o pincenê contra o rosto. A mãe se aproveita disso para dar um beijo violento no seu amor de filho e também para preparar-lhe um copázio de vitaminas: tomate, cenoura, maçã, banana, limão, laranja e aveia. O famoso pediatra, com um esgar colérico, recusa a formidável droga. – Tem de tomar, senão quem acaba no médico é você mesmo, doutor. Ele implora em vão por uma bebida mais inócua. O copo é levado com energia aos seus lábios, a beberagem é provada com uma careta. Em seguida, propõe um trato: – Só se você depois me der um sorvete. A terrível mistura é sorvida com dificuldade e repugnância, seus olhos se alteram nas órbitas, um engasgo devolve o restinho. A operação durou um quarto de hora. A mãe recolhe o copo vazio com a alegria da vitória e aplica no menino uma palmadinha carinhosa, revidada com a ameaça dum chute. Já estamos a essa altura, como não podia deixar de ser, presenciando a metamorfose do médico em monstro. Ao passar zunindo pela sala, o pincenê e o avental são atirados sobre o tapete com um gesto desabrido. Do antigo médico resta um lindo bigode azul. De máscara preta e espada, Mr. Hyde penetra no quarto, onde a doce enfermeira continua a brincar, e desfaz com uma espadeirada todo o consultório: microscópio, estetoscópio, remédios, seringa, termômetro, tesoura, gaze, esparadrapo, bonecas, tudo se derrama pelo chão. A enfermeira dá um grito de horror e começa a chorar nervosamente. O monstro, exultante, espeta-lhe a espada na barriga e brada: – Eu sou o Demônio do Deserto! Ainda sob o efeito das vitaminas, preso na solidão escura do mal, desatento a qualquer autoridade materna ou paterna, com o diabo no corpo, o monstro vai espalhando terror a seu redor: é a televisão ligada ao máximo, é o divã massacrado sob os seus pés, é uma corneta indo tinir no ouvido da cozinheira, um vaso quebrado, uma cortina que se despenca, um grito, um uivo, um rugido animal, é o doce derramado, a torneira inundando o banheiro, a revista nova dilacerada, é, enfim, o flagelo à solta no sexto andar dum apartamento carioca. Subitamente, o monstro se acalma. Suado e ofegante, senta-se sobre os joelhos do pai, pedindo com doçura que conte uma história ou lhe compre um carneirinho de verdade. E a paz e a ternura de novo abrem suas asas num lar ameaçado pelas forças do mal. Crônica do escritor e jornalista Paulo Mendes Campos (1922-1991). Veja mais aqui e aqui.

PROCURA DA POESIA – Não faças versos sobre acontecimentos. / Não há criação nem morte perante a poesia. / Diante dela, a vida é um sol estático,/ não aquece nem ilumina. / As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam. / Não faças poesia com o corpo, / esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica. / Tua gota de bile, tua careta de gozo ou dor no escuro / são indiferentes. / Não me reveles teus sentimentos, / que se prevalecem de equívoco e tentam a longa viagem. / O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia. / Não cantes tua cidade, deixa-a em paz. / O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas. / Não é música ouvida de passagem, rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma. / O canto não é a natureza / nem os homens em sociedade. / Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam. / A poesia (não tires poesia das coisas) / elide sujeito e objeto. / Não dramatizes, não invoques, / não indagues. Não percas tempo em mentir. / Não te aborreças. / Teu iate de marfim, teu sapato de diamante, / vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família / desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável. / Não recomponhas / tua sepultada e merencória infância. / Não osciles entre o espelho e a / memória em dissipação. / Que se dissipou, não era poesia. / Que se partiu, cristal não era. / Penetra surdamente no reino das palavras. / Lá estão os poemas que esperam ser escritos. / Estão paralisados, mas não há desespero, / há calma e frescura na superfície intata. / Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário. / Convive com teus poemas, antes de escrevê-los. / Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam. / Espera que cada um se realize e consume / com seu poder de palavra / e seu poder de silêncio. / Não forces o poema a desprender-se do limbo. / Não colhas no chão o poema que se perdeu. / Não adules o poema. Aceita-o / como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada / no espaço. / Chega mais perto e contempla as palavras. / Cada uma / tem mil faces secretas sob a face neutra / e te pergunta, sem interesse pela resposta, / pobre ou terrível que lhe deres: / Trouxeste a chave? / Repara: / ermas de melodia e conceito / elas se refugiaram na noite, as palavras. / Ainda úmidas e impregnadas de sono, / rolam num rio difícil e se transformam em desprezo. Poema extraído da obra A rosa do povo (Record, 1989), do poeta, contista e cronista Carlos Drummond de Andrade (1902-1987). Veja mais aqui e aqui.

AS SUFRAGISTAS
“Nós não queremos quebrar as leis. Nós queremos fazer as leis”
Frase da ativista britânica Emmeline Pankhurst (1858-1928), que embasa o drama longa-metragem As sufragistas (2015), dirigido por Sarah Gravon, delicado por apresentar defeitos que ferem a luta por um feminismo interseccional e respeitoso quanto ao lugar de fala de cada mulher dentro da pirâmide social. Trata-se de um grito por representatividade, marcando o início da luta do movimento feminista e os métodos incomuns de batalha, a história das mulheres que enfrentaram seus limites na luta por igualdade e pelo direito de voto, resistindo à opressão de forma passiva, mas, a partir do momento em que começaram a sofrer uma crescente agressão da polícia, decidiram se rebelar publicamente. Veja mais aqui e aqui.

Festival Internacional de Curtas-Metragens de São Paulo & muito mais na Agenda aqui.
&
CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da artista visual canadense Marie-Hélène Sirois.
Veja mais aqui.
&
Domingo na Massagueira, a literatura de Moacyr Scliar, O envenenamento mental de Harvey Spencer Lewis, a arte de Henry Yan, a música de Cláudia Telles, Elis Regina, Al Di Meola & Felipe Coelho aqui.

APOIO CULTURAL: SEMAFIL
Semafil Livros nas faculdades Estácio de Carapicuíba e Anhanguera de São Paulo. Organização do Silvinha Historiador, em São Paulo. Fone: 11 98499-2985.
 

quarta-feira, setembro 13, 2017

FEUERBACH, CARUANA, NATÁLIA CORREIA, ANTÔNIO TORRES, ANÍBAL BEÇA, ALEX GREY, JACQUELINE BISSET & ELISEU PEREIRA

EMOÇÕES QUE ME DOU FELIZ DE SONHAR - Imagem: arte do pintor, escultor e artista espiritual visionário Alex Grey.- Fora de casa, pé no mundo, passo a passo: andejo noitedia voo do que sou pro que quero ser, caminho que sei pra me encontrar. Se vago por todos os trajetos, sei aonde chegar. Se me perco, desencontros nas trevas, são minhas, para reencontros tardios que nunca foram demais, na horagá e tudo volta ao normal no meio das trepidações, a ser como era para ser novo outro dia. Basta a alvorada para que eu saiba pra onde eu tenho que ir, aprendo a fechar meus olhos pra escuridão da noite e me valho da firmeza, mesmo que tudo dê errado, mesmo que me seja estranho a passagem ou ignore o paradeiro inóspito, o caminho é um só: a mim mesmo. Se me desencontro é porque perco a noção da vida, coisas de ir ali e voltar já, contando até dez, retomando o fôlego, firmando a razão pra que a emoção seja mais que válida na hora de errar ou de vingar acertando na veia, e logo me reconduzo como sangue por vasos, corrente de rio pro mar, reaprumo a direção e sou novamente na estrada do Sol. Mais que distâncias incertas repletas de altos e baixos, sei das ondas, pulso com as vibrações, sou roda que gira no dom de voar, passo em qualquer lugar, seja mais que paradeiros perdidos, mais que ermos atravessados, sei-me sempre na verdadeira travessia: um palmo abaixo do nariz e tudo é luz, sou pro amor. É praí que converge todas as minhas errâncias e devaneios: nada mais que a estrada pra dentro do coração, emoções que me dou, feliz de sonhar. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ: 24 HORAS NO AR!!!
Hoje na Rádio Tataritaritatá: especiais com Por que eu não pensei nisso antes, Bicho de sete cabeça, Beleléu Léu Eu & Sampa Midnight do compositor, cantor, instrumentista, arranjador e produtor musical Itamar Assumpção (1949-2003); Paino Works da pianista e compositora alemã Clara Schumann (1819-1896); Pierrot Lunaire & Concerto Piano op. 42 do compositor austríaco Arnold Schoenberg (1874-1951); e Libera-me & amém  para uma ausência da compositora, pianista e percussionista portuguesa Constança Capdeville. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PALESTRA ELISEU: ÉTICA, CIDADANIA & MEIO AMBIENTE
Atendendo convite das professoras Janeide e Romina, realizei ontem no Colégio Estadual Eliseu Pereira de Melo, em Palmares – PE, a palestra Eliseu: Ética, Cidadania & Meio Ambiente, pros alunos da instituição escolar. Veja mais aqui & aqui.

MANIFESTO DA ARTE VISIONÁRIA - [...] Porque essa ênfase na acurácia? Falando pelo Realismo Fantástico, Fuchs relata que “Desde o início nós queremos re-animar a arte dos Antigos Mestres. Mas, mais do que isso, nós queremos representar a imagem fantástica de uma maneira como se ela tivesse sido pintada, não pela mão, mas pelo próprio sonho, não deixando traços de arte para trás. [...] a Arte do Visionário procura mostrar o que está além do limite de nossa visão. Através de sonhos, transe, e outros estados alterados, o artista procura ver o não-visto – atingindo um estado visionário que transcende nossos modos regulares de percepção. A tarefa que o espera, a partir daí, é comunicar sua visão numa forma reconhecível para o campo de visão cotidiana. [...]. Trechos extraídos da obra Primeiro Manifesto da Arte Visionária (Amorc, 2013), do artista e escritor maltês Laurence Caruana, expressando que por meio desta arte o artista busca expressar, em sua obra, suas visões, provenientes de Estados Alternativos de Consciência (EAC), como sendo experiências entendidas comumente como espirituais .Veja mais aqui.

PRELEÇÕES RELIGIOSAS - [...] deuses são seres que só existem para e através dos homens; por isso não velam o homem quando este dorme, mas quando os homens dormem, dormem também os deuses, isto é, com a consciência do homem se esvai também a existência dos deuses. [...] Um ser sem qualidade é um ser sem objetividade, e um ser sem objetividade é um ser nulo. [...] Deus não é o que o homem é, o homem não é o que deus é. Deus é o ser infinito, o homem, o finito; deus é perfeito, o homem imperfeito; deus é eterno, o homem transitório; deus é plenipotente, o homem impotente; deus é santo, o homem é pecador. Deus e o homem são extremos: deus é o unicamente positivo, o âmago de todas as realidades, o homem é o unicamente negativo, o cerne de todas as nulidades. [...] Trechos extraídos da obra Preleções sobre a essência da religião (Vozes, 2009), do filósofo alemão Ludwig Feuerbach (1804-1872). Veja mais aqui.

POR UM PÉ DE FEIJÃO - Nunca mais haverá no mundo um ano tão bom. Pode até haver anos melhores, mas jamais será a mesma coisa. Parecia que a terra (a nossa terra, feinha, cheia de altos e baixos, esconsos, areia, pedregulho e massapê) estava explodindo em beleza. E nós todos acordávamos cantando, muito antes do sol raiar, passávamos o dia trabalhando e cantando e logo depois do pôr-do-sol desmaiávamos em qualquer canto e adormecíamos, contentes da vida. Até me esqueci da escola, a coisa que mais gostava. Todos se esqueceram de tudo. Agora dava gosto trabalhar... Os pés de milho cresciam desembestados, lançavam pendões e espigas imensas. Os pés de feijão explodiam as vagens do nosso sustento, num abrir e fechar de olhos. Toda a plantação parecia nos compreender, parecia compartilhar de um destino comum, uma festa comum, feito gente. O mundo era verde. Que mais podíamos desejar? E assim foi até a hora de arrancar o feijão e empilhá-lo numa seva tão grande que nós, os meninos, pensávamos que ia tocar nas nuvens. Nossos braços seriam bastantes para bater todo aquele feijão? Papai disse que só íamos ter trabalho daí a uma semana e aí é que ia ser o grande pagode. Era quando a gente ia bater o feijão e iria medi-lo, para saber o resultado exato de toda aquela bonança. Não faltou quem fizesse suas apostas: uns diziam que ia dar trinta sacos, outros achavam que era cinqüenta, outros falavam em oitenta. No dia seguinte voltei para a escola. Pelo caminho também fazia os meus cálculos. Para mim, todos estavam enganados. Ia ser cem sacos. Daí para mais. Era só o que eu pensava, enquanto explicava à professora por que havia faltado tanto tempo. Ela disse que assim eu ia perder o ano e eu lhe disse que foi assim que ganhei um ano. E quando deu meio dia e a professora disse que podíamos ir, saí correndo. Corri até ficar com as tripas saindo pela boca, a língua parecendo que ia se arrastar pelo chão. Para quem vem da rua, há uma ladeira muito comprida e só no fim começa a cerca que separa o nosso pasto da estrada. E foi logo ali, bem no comecinho da cerca, que eu vi a maior desgraça do mundo: o feijão havia desaparecido. Em seu lugar, o que havia era uma nuvem negra, subindo do chão para o céu, como um arroto de Satanás na cara de Deus. Dentro da fumaça, uma língua de fogo devorava todo o nosso feijão. Durante uma eternidade, só se falou nisso: que Deus põe e o diabo dispõe. E eu vi os olhos da minha mãe ficarem muito esquisitos, vi minha mãe arrancando os cabelos com a mesma força com que arrancava os pés de feijão: - Quem será que foi o desgraçado que fez uma coisa dessas? Que infeliz pode ter sido? E vi os meninos conversarem só com os pensamentos e vi o sofrimento se enrugar na cara chamuscada do meu pai, ele que não dizia nada e de vez em quando levantava o chapéu e coçava a cabeça. E vi a cara de boi capado dos trabalhadores e minha mãe falando, falando, falando e eu achando que era melhor se ela calasse a boca. À tardinha os meninos saíram para o terreiro e ficaram por ali mesmo, jogados, como uns pintos molhados. A voz da minha mãe continuava balançando as telhas do avarandado. Sentado em seu barco de sempre, meu pai era um mudo. Isso nos atormentava um bocado. Fui o primeiro a ter coragem de ir até lá. Como a gente podia ver lá de cima, da porta da casa, não havia sobrado nada. Um vento leve soprava as cinzas e era tudo. Quando voltei, papai estava falando. — Ainda temos um feijãozinho-de-corda no quintal das bananeiras, não temos? Ainda temos o quintal das bananeiras, não temos? Ainda temos o milho para quebrar, despalhar, bater e encher o paiol, não temos? Como se diz, Deus tira os anéis, mas deixa os dedos. E disse mais. — Agora não se pensa mais nisso, não se fala mais nisso. Acabou. Então eu pensei: O velho está certo. Eu já sabia que quando as chuvas voltassem, lá estaria ele, plantando um novo pé de feijão. Texto extraído da obra Meninos, eu conto (Record, 1999), do escritor Antônio Torres. Veja mais aqui e aqui.

A DONZELA DE ZEUS - Caço um rugido de sol / Odisseu sedento e lasso / alço-me a um mar de ninfas / escarpado / nos ventos de cílios / céleres / Das ondas vejo-a nascida / do botão do olho mais dócil / onde um vitral fundeado / recolhe as velas da nave. / Tomo-lhe a mão / de cambraia / a vestidura de / incógnitas / Desço / suavemente ao dorso / com as mãos cheias de lavas / devolvidas ao vulcão / num jogo de fogo e espelho / Só na brasa dos mamilos / encontro a concha das mãos / suor sereno / arrepio / um mar salgado na boca / Ó Ítaca distante! / A língua se evola lânguida / estilingue em espiral / pedra elástica na praia / tomando de assalto o lago / Por um momento sei-me prancha / e ela um trampolim de pétalas / Na fúria de Poseidon / pousa Penélope. Poema do poeta, tradutor, compositor, teatrólogo e jornalista Aníbal Beça (1946-2009). Veja mais aqui.

A ARTE DE JACQUELINE BISSET
A arte da premiada atriz britânica Jacqueline Bisset no filme Screts (Intimate Games, 1971), dirigido pelo diretor e ator britânico Philip Saville (1830-2016), no qual a atriz desempenha uma dona de casa que tem alguns problemas com o marido que concede uma entrevista de emprego, quando ela se depara com alguém que lhe ser ela parecidíssima com a esposa dele morta. A partir disso, relacionamentos se confundem entre uns e outros, levando a uma situação inesperada.

Veja mais:
A arte musical de Clara Schumann aqui e aqui.
A arte musical de Constança Capdeville aqui e aqui.
A arte musical de Arnold Schoenberg aqui e aqui.
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ODE À PAZ
Pela verdade, pelo riso, pela luz, pela beleza, 
Pelas aves que voam no olhar de uma criança,
Pela limpeza do vento, pelos actos de pureza,
Pela alegria, pelo vinho, pela música, pela dança,
Pela branda melodia do rumor dos regatos,
Pelo fulgor do estio, pelo azul do claro dia,
Pelas flores que esmaltam os campos, pelo sossego dos pastos,
Pela exactidão das rosas, pela Sabedoria,
Pelas pérolas que gotejam dos olhos dos amantes,
Pelos prodígios que são verdadeiros nos sonhos,
Pelo amor, pela liberdade, pelas coisas radiantes,
Pelos aromas maduros de suaves outonos,
Pela futura manhã dos grandes transparentes,
Pelas entranhas maternas e fecundas da terra,
Pelas lágrimas das mães a quem nuvens sangrentas
Arrebatam os filhos para a torpeza da guerra,
Eu te conjuro ó paz, eu te invoco ó benigna,
Ó Santa, ó talismã contra a indústria feroz.
Com tuas mãos que abatem as bandeiras da ira,
Com o teu esconjuro da bomba e do algoz,
Abre as portas da História,
Deixa passar a Vida!
Poema extraído da Antologia poética (Dom Quixote, 2013), da poeta e ativista social açoriana Natália Correia (1923-1993) (Imagem: arte do pintor, escultor e artista espiritual visionário Alex Grey.)Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Imagem: arte do pintor, escultor e artista espiritual visionário Alex Grey.
Veja mais aqui.


domingo, setembro 13, 2015

MARTÍN-BARÓ, CLARA, DOMITILA, ANTONIO TORRES, TEMPLE GRANDIN, NATÁLIA CORREIA, PERISSÉ & BRINCARTE DO NITOLINO.

VAMOS APRUMAR A CONVERSA? BRINCAR PARA APRENDER – Quando publiquei o meu segundo livro infantil Falange, falanginha e falangeta (Nascente, 1995), tive a grata satisfação de tê-lo adotado em diversas escolas de Alagoas e de outros estados brasileiros, razão pela qual fui convidado para realizar recreações com meu violão, cantando e contando estórias. Foi a partir daí que empunhei as bandeiras da ética, cidadania, meio ambiente, pluralidade cultural e respeito às diferenças, utilizando a literatura de cordel como veículo para realização do meu trabalho com a garotada nos anos seguintes. À medida que eu publicava mais um livro, mais estreitava meus contatos com os alunos da Educação Infantil e primeiro ciclo do Ensino Fundamental das redes pública e privada, até o momento que realizei uma atividade a convite da coordenadora de uma escola pública, Ceiça Mota, proporcionando o surgimento do meu personagem Nitolino. Por conta disso, ao reunir num mesmo balaio Literatura, Música e Teatro, embasado em Lev Vygotsky, Paulo Freire, Johan Huizinga, Philippe Ariés, Donald Winnicott, Ricardo Japiassu, Olga Reverbel, Ingrid Koudela, entre outros autores, comecei a realizar palestras destacando a importância da arte no desenvolvimento infanto-juvenil. Como resultado dessas atividades, recebi o convite de Maria Luisa Russo e da Edufal, para ministrar a palestra, Brincar para Aprender, realizada durante as atividades da V Bienal Internacional do Livro de Alagoas, para professores e estudantes de Letras, Pedagogia e Psicologia, destacando o brincar, o brinquedo e o lúdico, os direitos da criança, a brincadeira na educação e o desenvolvimento da criança. Tais experiências culminaram com as atividades na área de Psicologia do Desenvolvimento, orientada pela professora Ms Fátima Pereira, resultando num projeto denominado A arte no desenvolvimento da linguagem infantil sob a perspectiva da teoria sócio-histórica, que resultou no artigo Vygotsky, o teatro e a criança, que foi apresentado no Congresso Nacional de Psicologia, promovido pela Sociedade Brasileira de Psicologia, na Uninove, em São Paulo. Vieram, então, as atividades voltadas para a Psicologia Social, orientada pelo professor Ms Claudio Jorge de Morais Gomes, nas quais passei a destacar a importância da Psicologia e do profissional psicólogo no âmbito educacional, por meio de projetos de extensão e de iniciação científica, culminando com a realização do projeto Infância, imagem e literatura: uma experiência psicossocial na comunidade do Jacaré (AL), que resultou na criação da história transformada para o teatro infantil O jacaré de óculos e a princesa do Recanto da Ilha. À medida que esses projetos foram acontecendo, fui ao mesmo tempo trabalhando articulações entre a arte e a psicologia na educação, trabalhando as temáticas da Psicologia na Educação Ambiental, Neuroeducação e Psicodrama, e a Arte na Psicologia da Saúde, todos voltados para prevenção e promoção da saúde no universo infanto-juvenil. Tais realizações tem sido gratificantes pela acolhida que o público tem expressado e, especialmente, por poder estar em constante contato com o olhar e riso de ternura da criança a todo momento. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.


Imagem da artista plástica brasileira Domitila Stabile de Oliveira


Curtindo o álbum Clara Schumann: lieder e piano solo (2011), com as obras eruditas da pianista e compositora alemã Clara Schumann (1819-1896), com a cantora, professora de canto, pesquisadora e integrante do coral da Osesp e da Audi Coelum, Clarissa Cabral, e a pianista, professora e pesquisadora Eliana Monteiro da Silva.

BRINCARTE DO NITOLINO – Hoje é dia do programa Brincarte do Nitolino pras crianças de todas as idades, a partir das 10hs, no blog do Projeto MCLAM, com apresentação de Isis Corrêa Naves. Na programação: Os Trapalhões, Charlie Brown Jr, Gabriel, Os Três Porquinhos, Família dos Anjos, Cristina Mel, dicas para uma boa saúde para as crianças e para todos nós, Aline Barros & Cia, Galinha Pintadinha, Leão Cordeirinho, As Esquiletes, Nita, Meimei Corrêa, Maisa & muito mais poemas, brincadeiras e dicas pra garotada. No blog, além da literatura infantil de Antonio Torres e dicas de Psicologia, Educação, Direito, Literatura, Música e Teatro, também consta a parceria MC Produções/Edições Nascente/Alan Miranda e Câmara de Vereadores de Três Corações, realizando o curso de oratória nos dias 19 e 26 de setembro, para a Câmara Mirim coordenada pelo advogado e diretor geral, Heloisio Angelo Domintini – conhecido por Buluca -, e também pela coordenadora cultural, Francesmara Valim Silva Pereira. Para conferir tudo isso e muito mais ao vivo e online clique aqui ou aqui.

PSICOLOGIA DA LIBERTAÇÃO – No livro Psicologia Social para a América Latina: o resgate da Psicologia da Libertação (Alínea,2009), organizado por Raquel Guzzo e Fernando Lacerda Jr, encontro o artigo Para uma Psicologia da Libertação, do psicólogo social e filósofo espanhol Ignácio Martin-Baró (1942-1989), do qual destaco o trecho: Com base em uma perspectiva geral, deve-se reconhecer que a contribuição da Psicologia, como ciência e como práxis, à história dos povos latino-americanos é extremamente pobre. Certamente, não faltaram psicólogos preocupados com os grandes problemas do subdesenvolvimento, dependência e opressão que agoniam os nossos povos. Mas, na hora de se materializar, em muitos casos, essas preocupações tiveram de ser canalizadas por meio de um compromisso político pessoal, à margem da Psicologia, cujos esquemas eram inoperantes para responder às necessidades populares. [...] Os modelos dominantes na Psicologia fundam-se em uma serie de pressupostos que apenas raramente são discutidos e aos quais, cada vez menos, se propõem alternativas. Mencionarei cinco desses pressupostos que, em minha opinião, têm marcado as possibilidades da Psicologia latino-americana: o positivismo, o individualismo, o hedonismo, a visão homeostática e o a-historicismo. [...] se quisermos que a Psicologia realize alguma contribuição significativa à história de nossos povos, se, como psicólogos, queremos contribuir para o desenvolvimento social dos países latino-americanos, necessitamos redefinir nossa bagagem teórica e prática, mas redifini-la valendo-nos da vida de nossos próprios povos, de seus sofrimentos, de suas aspirações, de suas lutas. [...] Com inspiração na Teologia da Libertação podemos propor três elementos essenciais para a construção de uma Psicologia da Libertação dos povos latino-americanos: um novo horizonte, uma nova epistemologia e uma nova práxis [...]. Veja mais aqui e aqui.

ESSA TERRA – No romance Essa terra (Record, 1976), do premiadíssimo escritor, jornalista e ocupante da cadeira 23 da Academia Brasileira de Letras, Antônio Torres, destaco os trechos seguintes: O Junco: um pássaro vermelho chamado Sofrê, que aprendeu a cantar o Hino Nacional. Uma galinha pintada chamada Sofraco, que aprendeu a esconder os seus ninhos. Um boi de canga, o Sofrido. De canga: entra inverno, sai verão. A barra do dia mais bonita do mundo e o pôr-do-sol mais longo do mundo. O cheiro do alecrim e a palavra açucena. E eu, que nunca vi uma açucena. Sons de martelo amolando as enxadas, aboio nas estradas, homens cavando o leite da terra. O cuspe do fumo mascado da minha mãe, a queixa muda do meu pai, as rosas vermelhas e brancas da minha avó. As rosas do bem-querer:-Hei de te amar até morrer. Essa é a terra que me pariu.-Lampião passou por aqui.-Não, não passou. Mandou recado [...] Ora, ele lá ia ter tempo de passar neste fim de mundo? [...] Dinheiro, dinheiro, dinheiro. Cresce logo, menino, pra você ir para São Paulo. Aqui vivi e morri um pouco todos os dias. No meio da fumaça, no meio do dinheiro. Não sei se fico ou se volto. Não sei se estou em São Paulo ou no Junco [...] — Qualquer pessoa deste lugar pode servir de testemunha. Qualquer pessoa com memória na cabeça e vergonha na cara. Eu vivia dizendo: um dia ele vem. Pois não foi que ele veio? — O senhor está com razão. — Ele mudou muito? Espero que ao menos não tenha esquecido o caminho lá de casa. Somos do mesmo sangue. — Não esqueceu, não, tio — respondi, convencido de que estava fazendo um esclarecimento  necessário não apenas a um homem, mas a uma população inteira, para quem a volta  do meu  irmão parecia ter mais significado do que quando dr. Dantas Júnior veio anunciar que  havíamos entrado no mapa do mundo, graças a seu empenho e à sua palavra de deputado  federal bem votado. [...] — E eu sei que esse dia está perto. Ora vejam bem: nossos avós tinham muitos pastos, nossos pais tinham poucos pastos e nós não temos nenhum [...] Isso também está nas Sagradas Escrituras. Muitos pastos e poucos rastos. Poucas cabeças, muitos chapéus. Um só rebanho para um só pastor. [...] — Qualquer dia o Anticristo aparece. Será o primeiro aviso. Depois o sol vai crescer, vai virar uma bola do tamanho de uma roda de carro de boi e aí —dizia papai, dizia mamãe, dizia todo mundo. Ninguém disse, porém, se a vinda da Ancar estava nas Sagradas Escrituras. Ancar: o banco que chegou de jipe, num domingo de missa, para emprestar dinheiro a quem tivesse umas poucas braças de terra. [...] A mala me fez pensar no correio e nos envelopes gordos de antigamente, que chegava de mês em mês. Dinheiro vivo, paulista, rico. Também me lembrei de mamãe: — Tomara eu tivesse mais um filho igual a ele. Bastava um. Nelo, Nelo, Nelo. Um acalanto, uma toada, uma canção. Nelo, Nelo, Nelo. Miragens sobre o poente, nosso sol atrás da montanha, sumindo no fim do mundo. Nelo, Nelo, Nelo. São Paulo está lá para trás da montanha, siga o exemplo do seu irmão. Nelo, Nelo, Nelo. Éramos doze, contando uma irmã que já morreu. Só ele contava. Nelo, Nelo, Nelo. — Bastava mais um [...]. Veja mais aqui, aqui e aqui.

CIDADANIA, AUTO-RETRATO & A ARTE DE SER AMADA – Na Antologia Poética (Dom Quizote, 1999), da poeta e ativista social açoriana Natália Correia (1923-1993), destaco inicial o seu poema Cidadania: Buquê de ruídos úteis / o dia. O tom mais púrpura / do avião sobressai / locomovida rosa pública. / Entre os edifícios a acácia / de antigamente ainda ousa / trazer ao cimo a folhagem / sua dor de apertada coisa. / Um solo de saxofone excresce / mensagem que a morte adia / aflito pássaro que enrouquece / a garganta da telefonia. / Em cada bolso do cimento / uma lenta aranha de gás / manipula o dividendo / de um suicídio lilás. Também o seu Auto-retrato: Espáduas brancas palpitantes: / asas no exilio dum corpo. / Os braços calhas cintilantes / para o comboio da alma. / E os olhos emigrantes / no navio da pálpebra / encalhado em renúncia ou cobardia. / Por vezes fêmea. Por vezes monja. / Conforme a noite. Conforme o dia. / Molusco. Esponja / embebida num filtro de magia. / Aranha de ouro / presa na teia dos seus ardis. / E aos pés um coração de louça / quebrado em jogos infantis. Por fim, o seu belíssimo A arte de ser amada: Eu sou líquida mas recolhida / no íntimo estanho de uma jarra / e em tua boca um clavicórdio / quer recordar-me que sou ária / aérea vária porém sentada / perfil que os flamingos voaram. / Pelos canteiros eu conto os gerânios / de uns tantos anos que nos separam. / Teu amor de planta submarina / procura um húmido lugar. / Sabiamente preencho a piscina / que te dê o hábito de afogar. / Do que não viste a minha idade / te inquieta como a ciência / do mundo ser muito velho / três vezes por mim rodeado / sem saber da tua existência. / Pensas-me a ilha e me sitias / de violinos por todos os lados / e em tua pele o que eu respiro / é um ar de frutos sossegados. Veja mais aqui.

CÓCEGAS & MUITA CALMA NESSA HORA – O trabalho da belíssima atriz e humorista Heloisa Perissé teve início na televisão com o programa Escolinha do Professor Raimundo, quando nasceu a parceria dela com a sua amiga, a atriz Ingrid Guimarães para a encenação da peça Cócegas, seu primeiro trabalho teatral que ficou em cartaz durante anos. Seguindo-se, então, sua participação nas peças teatrais Cosquinha, Advocacia segundo os Irmãos Marx, o Mágico de Oz e, por fim, W foram quase felizes para sempre. Ao mesmo tempo que participou dos filmes Avassaladoras (2002), Lara (2002), Lisbela e o prisioneiro (2003), Xuxa abracadabra (2003), Sexo, amor e traição (2004), Madafascar (2005), Os porralokinhas (2007), Madagascar 2 (2008), Muita calma nessa hora (2010), Madagascar 3 – os procurados (2012), O diário de Tati (2012), Odeio o dia dos namorados (2013) e Muita calma nessa hora (2014). Além disso, ela tem marcado presença constante em novelas, séries e programas humorísticos da televisão, consolidando seu prestígio de talentosa atriz e projetando uma trajetória invejável e digna de aplausos de pé. Veja mais aqui.

LÁBIOS SEM BEIJOS – O drama e romance Lábios sem beijos (1930), dirigido pelo cineasta pioneiro do cinema brasileiro Humberto Mauro (1897-1983), com roteiro de Ademar Gonzaga e trilha sonora do grupo francês DoubleCadence, foi o primeiro filme produzido pela Cinédia na fase do cinema mudo, contando a história da afronta moral de uma moça de família que mente ao dizer que vai a um baile e, ao invés disso, vai passear e ficar com as juras de um amor eterno com o seu namorado, por meio de sequencias e planos movimentados pelo enredo que destaca a mulher não sujeita à submissão e ao recato, batendo de frente com o conservadorismo e positivismo da sociedade dos anos 1920. Terno e de uma delicadeza sem precedentes, o filme representa um marco para o cinema nacional, destacando-se, evidentemente, o talento do seu diretor que além de ser um pioneiro do cinema brasileira, é também um dos nomes de maior destaque para a cinematografia pátria. Veja mais aqui.

IMAGEM DO DIA
Todo dia é dia de homenagear a ativista autista e doutora estadunidense de ciência animal Temple Grandin, que sendo autista (Síndrome de Asperger) revolucionou as práticas para o tratamento racional de animais vivos.


Veja mais no MCLAM: Hoje é dia do programa Domingo Romântico, a partir do meio dia com a reprise de toda programação da semana, no blog do Projeto MCLAM, com a apresentação sempre especial e apaixonante de Meimei Corrêa. Para conferir online acesse aqui.

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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aqui.


GLAUCE ROCHA, KRISZTINA TÓTH, JERRY JENKINS, JACQUES VALLÉE & OLINDA.

    Imagem: Ensaio de múltiplas dimensões , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM . Do lançamento TTTTT e...