segunda-feira, março 03, 2008

TANATOLOGIA



TANATOLOGIA - A Tanatologia se preocupa com o estudo da morte visando a consciência humana deste evento tão submetido a tabus e mal-entendidos. Historicamente doutrinas filosóficas, religiosas e científicas têm estudado a morte e seus eventos promotores de angustias, temores e ansiedades para a humanidade, notadamente quando foi encarada como um fenômeno físico submetido a apreciações e estudos exaustivos, sendo, no entanto, apesar dessas pesquisas, ainda um mistério.
A Tanatologia é originária, segundo Torres e Torres (1983), do grego “thánatos”, identificado na mitologia grega como o deus da morte. Este deus grego, Tânatos, convivia com Eros, deusa do amor, no contexto mitológico grego. Tal origem traz a representação de que Tanatologia é a ciência que estuda a morte, onde as suas correlações com a vida em diversos momentos históricos deixam entendidas todos os anseios e temores humanos diante da morte.
Historicamente, a herança cultural sobre a morte vem das gerações mais antigas por meio das culturas que, segundo Bock, Furtado e Texeira (2201),.foram legadas pela modernidade, desde estudos realizados por arqueólogos e antropólogos onde se descobriu que o homem de Neanderthal já se preocupava com seus mortos.
Na pré-história, conforme Martins (1983), os mortos dos povos antigos eram cobertos por pedras, principalmente acobertando seus rosto e a cabeça, visando a proteção do cadáver da ação de animais, como também na tentativa de se evitar o retorno de mortos ao mundo dos vivos. Considera, ainda, Martins (1983, p. 32) que “Mais tarde, eram depositados alimentos e as armas do morto sobre a sepultura de pedras e o esqueleto era pintado com uma substância vermelha”.
Os egípcios da antiguidade, conforme os estudos de Kastenbaum e Aisenberg (1983), deixavam ver que em sua sociedade bastante desenvolvida do ponto de vista intelectual e tecnológico, consideravam a morte como uma ocorrência dentro da esfera de ação, uma vez que possuíam um sistema que tinha como objetivo, ensinar cada indivíduo a pensar, sentir e agir em relação à morte.
Também os malaios, segundo Kastenbaum e Aisenberg (1983, p. 132): Os malaios, por viverem em um sistema comunitário intenso, apreciavam a morte de um componente, como uma perda do próprio grupo. Desta feita, um trabalho de lamentação coletiva diante da morte era necessário aos sobreviventes. Ademais, a morte era tida não como um evento súbito, mas sim como um processo a ser vivido por toda a comunidade. Deixam claro os autores, portanto, que na antiguidade, após a morte, o justo irá para o paraíso enquanto as versões nórdicas rejeitavam a idéia de paraíso porque não esperavam as mesmas delícias que os orientais, após a morte. Tais curiosidades trazem no bojo o entendimento de que, na Antiguidade, o ser humano deseja, ao menos após a morte, obter o conforto que não conseguiu em vida. E que as pessoas podiam escolher onde iriam morrer; longe ou perto de tais pessoas, em seu lugar de origem; deixando mensagens a seus descendentes.
Para Kovács (1998), outras exposições são encontradas, por exemplo, na mitologia do budismo onde é ocorre a busca por afirmar a inevitabilidade da morte. Também na mitologia hindu, a morte é encarada como uma válvula de escape para o controle demográfico. Os Antigos de Constantinopla mantinham os cemitérios afastados das cidades e das vilas, bem como os cultos e honrarias que prestavam aos mortos, tinham como objetivo mantê-los afastados, de modo que não "voltassem" para perturbar os vivos.
Na Idade Média, conforme Martins (1983), a visão de morte é encarada a partir da disposição dos cemitérios cristãos que se localizavam no interior e ao redor das igrejas, significando lugar onde se deixa de enterrar. Há de se considerar que a Idade Média foi um período critico com turbulências sociais violentas, período marcado pela mudança radical do homem encarar a morte. É neste sentido qie Kastenbaum e Aisenberg (1983, p. 138) relatam: A sociedade do século catorze foi assolada pela peste, pela fome, pelas cruzadas, pela inquisição; uma série de eventos provocadores da morte em massa. A total falta de controle sobre os eventos sociais, teve seu reflexo também na morte, que não podia mais ser controlada magicamente como em tempos anteriores. Ao contrário, a morte passou a viver lado a lado com o homem como uma constante ameaça a perseguir e pegar a todos de surpresa.Esse descontrole, traz à consciência do homem desta época, o temor da morte. Com isso, entende-se que as atitudes perante a morte, nas sociedades do Ocidente cristão, da Idade Média aos dias atuais, vão da aceitação predominante na primeira Idade Média, depois a simplicidade, a socialização do homem com a morte, a parca ou nenhuma preocupação com o destino futuro dos corpos, observando-se, inclusive, que no século XII, a morte é vista com maior dramaticidade, individualidade, quando o homem vai descobrindo a "morte de si mesmo" e a morte adquire características eróticas e de morbidez.
Com o século das Luzes e do Barroco, a morte começa a ser dramatizada, exaltada. Toma sentido a "morte do outro", e a morte assume o sentido de ruptura, passa a ser indesejável, embora admirada pela beleza que lhe dá o romantismo.
A morte do século XIX é acompanhada, no leito do moribundo, por ritos e manifestações de choros, gestos dramáticos, uma afetividade macabra, pela religião emotiva do catolicismo romântico ou do petismo protestante. Surge o culto contemporâneo dos túmulos individuais ou familiares, da sepultura como propriedade particular e perpétua e o culto da saudade, com as periódicas peregrinações aos cemitérios. A civilização urbana e industrial intervém nas novas atitudes funerárias. A morte, no século XIX é um tabu, que substitui o tabu do sexo de há pouco tempo ou da era vitoriana. E ao penetrar nessa superfície constituída por relato literário, o cientista social depara com camadas profundas de dados culturais interessantes e significativos. Eles incluem um variado conjunto de crenças e ritos relativos à morte e aí se encontram. São prescrições próprias do catolicismo em graus variáveis de consonância com a ortodoxia; são crenças e ritos de procedência africana, combinada e recombinadas, entre grupos africanos culturalmente diferentes e entre essas diferentes crenças africanas e as variações próprias do cristianismo do colonizador católico.
No Brasil, o tema da morte é praticamente inexplorado; pelo menos dentro de um tratamento da demografia e das atitudes, comportamentos e representações das sociedades do passado. Os historiadores pouco se voltaram para o assunto. São os antropólogos primeiro, seguidos dos sociólogos e psicólogos que vão desbravando as primeiras veredas.
Numa abordagem conceitual a morte é descrita através de várias perspectivas na literatura de todo o mundo. Em primeiro lugar, a morte ou óbito são termos que se referem duplamente ao fim da vida de um determinado ser, ou o estado deste ser depois da ocorrência do seu fim. Razão pela qual, biologicamente, a morte ocorre na parte do ser, ou em todo ser, ou em ambos os casos. Por isso, a morte é vista na perspectiva de várias teorias, dentre elas, segundo Stedeford (1986), a da Extinção Absoluta, mais conhecida como teoria materialista que entende acaba a permanência da vida quando ocorre a morte física.
Na teoria Teológica, mais conhecida como Teoria do Céu e Inferno, Stedeford (1986), entende os anseios humanos de que numa vida eterna além da física é determinada pela conduta na vida física.
Na Teoria do Renascimento ou da Reencarnação, Stedeford (1986) explica em seus estudos que através de renascimentos sucessivos em corpos físicos e com diferentes experiências de vida para alcançar a expansão de consciência e perfeição espiritual. Também é a morte, na maioria das vezes, usada, para o autor mencionado, numa definição mais conservadora de morte: a interrupção da atividade elétrica no cérebro como um todo, e não apenas no neocórtex. Tal entendimento leva a apreensão de que, segundo Stedford (1986, p. 71): A irreversibilidade é constantemente citada como um atributo da morte. Cientificamente, é impossível trazer de novo à vida um organismo morto. Se um organismo vive, é porque ainda não morreu anteriormente. No entanto, muitas pessoas não acreditam que a morte física é sempre e necessariamente irreversível, enquanto outras acreditam em ressuscitação do espírito ou do corpo e outras ainda, têm esperança que futuros avanços científicos e tecnológicos possam trazê-las de volta à vida, utilizando técnicas ainda embrionárias, tais como a criogenia ou outros meios de ressuscitação ainda por descobrir. Alguns biólogos acreditam que a função da morte e primariamente permitir a evolução da espécie. A partir disso encontra-se que atualmente, quando requerida, a morte geralmente, conforme Stedford (1986), é esclarecida como morte cerebral ou morte biológica: pessoas são dadas como mortas quando a atividade cerebral acaba por completo. Presume-se que a cessação de atividade elétrica no cérebro indica fim de consciência. Porém, aqueles que mantêm que apenas o neocórtex do cérebro é necessário para a consciência, argumentam que só a atividade elétrica do neocórtex deve ser considerada para definir a morte.
A partir daí, várias são as expressões entendidas acerca dos conteúdos que se demonstram negativos por causa das associações da morte aos flagelos, torturas, conteúdos macabros e perversos, relacionando-se a castigo e punições perturbadoras nos seres humanos desencadeando um completo estranhamento acerca do seu evento. Além disso, a morte dos mais próximos e amigos passa a ser uma das mais importantes formas da tipologia da morte a causar problemas nos seres humanos, trazendo até conseqüências devastadoras quando da ocorrência de falecimento de entes queridos e desconhecidos, discutindo-se o seu significado religioso, filosófico, social, dentre outros.
Os estudos freudianos recolhidos por Stedford (1986, p. 75) registram que a morte de um ente querido revolta por levar consigo uma parte do próprio ser, uma vez que “Para a psicanálise, a intensidade da dor frente à uma perda, se configura narcisicamente como a morte de parte de si mesmo”.
A morte, na contemporaneidade, é vista, conforme Kübler-Ross (1997), culturalmente, não incorporada à vida, mas sim como castigo ou punição, principalmente quando são cada vez mais intensas e velozes as mudanças sociais, expressas pelos avanços tecnológicos, onde o homem tem se tornado cada vez mais individualista, convivendo com a idéia de que uma bomba pode cair do céu a qualquer momento. Para Kübler-Ross (1997, p. 69), "Diminuindo a cada dia sua capacidade de defesa física, atuam de várias maneiras suas defesas psicológicas", ao mesmo tempo que as atrocidades se transformam em verdadeiras pulsões de destruição, detectando, portanto, a dimensão visível da pulsão de morte. Também a morte é encarada como ruptura de um vínculo. Ou como fracasso, a impotência, a depressão, a negação, a evasão. Portanto, a morte em si está ligada a uma ação má, a um acontecimento medonho, a algo que em si clama por recompensa ou castigo.
Na sociedade onde predomina o homem da massa, em detrimento do homem como indivíduo e com o distanciamento cada vez maior do homem em relação à morte, cria-se um tabu, como se fosse desaconselhável ou até mesmo proibido falar sobre este tema. É neste sentido que Torres e Torres (1983, p. 110) expressam: Esse quadro atual nos revela a dimensão da cisão que o homem tem feito entre vida e morte, tentando se afastar ao máximo da idéia da morte, considerando sempre que é o outro que vai morrer e não ele. Nos lançamos então à questão da angústia e do medo em relação à morte. Com isso Torres e Torres (1983, p. 112) entendem que, por meio da Psicanálise Existencial, esta revela a dimensão da angústia da morte: "A angústia mesma nos revela que a morte e o nada se opõe à tendência mais profunda e mais inevitável do nosso ser", que seria a afirmação do si mesmo. Recolhem os autores que a partir de Freud situa ou na reação a uma ameaça exterior, ou como na melancolia, ao desenrolar de um processo interno. Fato este que leva Kastenbaum e Aisenberg (1983) a entender que o ser humano lida com duas concepções em relação à morte: a morte do outro, da qual todos nós temos consciência, embora esteja relacionada ao medo do abandono; e a concepção da própria morte, a consciência da finitude, na qual evitamos pensar, pois, para isto, temos que encarar o desconhecido. Daí, entende Kovács (1998, p. 84) que: "O medo é a resposta mais comum diante da morte. O medo de morrer é universal e atinge todos os seres humanos, independente da idade, sexo, nível sócio-econômico e credo religioso". Isto porque, para o autor, o homem é o único animal que tem consciência de sua própria morte.
Contemporaneamente as discussões filosóficas, científicas, psicológica e psicanalítica, principalmente a partir de Bataille (2004), trazendo a noção a partir das pulsões de morte, transgressão, nascimento e morte, redundando nos debates atuais. A questão envolve a discussão alusiva a afinidade entre a reprodução e a morte, quando, segundo Bataille (2004), se delineia a morte, a decomposição e a renovação da vida. É neste sentido que Bataille (2004, p. 84) assinala que “[...] as interdições responderam à necessidade de afastar a violência do curso habitual das coisas”, quando, mais adiante, assinala que “A morte e a reprodução se opõem como a negação à afirmação”, sendo que, no entanto, considera que a vida é a negação da morte, uma vez que a mesma é a sua exclusão. Diz Bataille (2004, p. 85) que: A vida é sempre um produto da decomposição da vida. Ela é tributária em primeiro lugar, da morte, que cede o lugar; em seguida, da decomposição, que sucede a morte, e recoloca em circulação as substancias necessárias à incessante vinda ao mundo de novos seres. Neste tocante o autor acentua a dicotomia entre vida e morte, reprodução e decomposição, delineando, no entanto, a noção antagônica, porem complementar entre si que as relacionam e as tornam complementares em suas essências. No entanto, mais adiante Bataille (2004, p. 92) assinala que: [...] a morte sozinha assegura um constante reflorescimento sem o qual a vida declinaria. Recusamo-nos a ver que a vida é a armadilha oferecida ao equilíbrio, que ela é inteiramente a instabilidade, o desequilíbrio no qual se precipita. É um movimento tumultuoso que atrai incessantemente a explosão. Mas a explosão incessante não cessa de esgotá-la, e ela só continua sob uma condição: que os seres que ela engendra, e cuja força de explosão está esgotada, detem lugar a novos seres, que entram na roda com uma nova força. É neste sentido que o autor advoga a relação existente entre o nascimento e a morte, a reprodução e a decomposição, assegurando que a sexualidade e a morte não são nada além de movimentos agudos de uma festa que a natureza celebra com inesgotável multidão de seres, ambos tendo o sentido do desperdício ilimitado ao qual a natureza vai ao encontro do desejo de durar que é próprio de cada ser, mesmo diante da constatação de finitude, da condenação ao fim existencial, da certeza de que a vida um dia terá um fim determinado na morte e na decomposição. É a partir disso que fica claro nas idéias do autor em questão, que a teoria já difundida e bem retumbante nos meios psicanalíticos, filosóficos e científicos de que o ser humano nasce morrendo, indicando assim a contagem regressiva de sua existência e, deixando claro, portanto, que a morte não é a tragédia nem o evento fatal da existência humana, mas a conseqüência das transformações vitais como um acontecimento natural a ser entendido como tal.
Estudar a Tanatologia é, conforme visto, abordar a morte no seu mais amplo sentido, mesmo que ela, a morte, não tenha um significado único geral. Isto quer dizer, portanto, que o entendimento dessa variedade de significação do termo morte, leva-se a um necessário aprofundamento acerca do tema proposto no presente trabalho. Em razão disso, em primeiro lugar há que se entender o tabu que representa a abordagem do tema morte, um evento que assusta, causa temor, apavora e leva a depressão ou insatisfação da vida. No entanto, há que se entender que este comportamento diante da morte, é um comportamento cultural: desde as mais antigas civilizações do planeta, a morte causa fascínio e temor. É exatamente por meio do estudo realizado pela Tanatologia que se pode evidenciar um caminho para se aprofundar estudos e pesquisas que levem á superação das pessoas diante do evento da morte e suas conseqüências na vida humana. Entende-se, com isso, que é a Tanatologia que proporcionará uma consciência da finitude humana e do evento natural da morte para o ser humano, cabendo necessariamente ampliação nos debates acerca de tão importante temática na vida de todas as pessoas.

REFERÊNCIAS
BATAILLE, Georges. O erotismo. São Paulo: Atx, 2004.
BOCK, Ana M. Bahia; FURTADO Odair; TEIXEIRA Maria de L. Trassi. Psicologias; uma introdução ao estudo de Psicologia. São Paulo: Saraiva, 2001.
KASTENBAUM, R. e AISENBERG, R. Psicologia da morte. São Paulo: EDUSP, 1983.
KOVÁCS, Maria Julia. Morte e desenvolvimento humano. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1998.
KUBLER-ROSS, Elizabeth. Sobre a morte e o morrer. São Paulo: Martins Fontes, 1979.
MARTINS, José de Sousa. A morte e os mortos. São Paulo, Hucitec, 1983.
STEDEFORD, A. Encarando a morte. Porto Alegre: Artes Médicas, 1986.
TORRES, W. e TORRES, R. A psicologia e a morte. Rio de Janeiro: FGV, 1983. Veja mais aqui, aqui e aqui .


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