segunda-feira, julho 16, 2018

DERRIDA, ZATZ, RUBEM ALVES, ROSALIA DE CASTRO, BEETHOVEN, KLIMT, SCHÖNBERG, LOJA DE RÉPTEIS, BOZ VAKHSHORI & VITAL CORRÊA DE ARAÚJO


A ARTE PARA IMORTAL AMADA – Imagem: art by Boz Vakhshori. - Os tons e a surdez: restava mais nada, a vida era só um detalhe de Deus. Desde muito jovem condenado por Albrechtsberger: nunca aprendeu nem aprenderá, é um caso perdido. Jovem leão enjaulado, nada mais que um louco espanhol do gênio fogoso e língua mordaz: um campônio que desbancava a etiqueta da nobreza à custa de suas próprias mãos: príncipes, muitos; gênio, só eu. Umas poucas mordidas de mosquitos jamais poderão sofrear um garanhão, mesmo com os sintomas da surdez à flor da idade: a solidão é a minha religião. Saía à conquista das damas do remoinho social de Viena, com as cartas de plebeu e suas queixas inconsoláveis para Amada Imortal que pedia fizesse tudo para que ela pudesse viver com ele. Harmonias e melodias cresceram: Für Elise – à cantora de ópera Elisabeth Röckel do pedido de casamento malogrado; a frágil Antonie Brentano, Madalena Willmann, Josephine Brunsvik, outras tantas e muitas, elas sabiam: não se flerta com um Deus feio e surdo. Para ele, devia viver como exilado: vagar para longe sem rumo, até que possa voar em teus braços, e possa dizer que estou inteiramente em casa contigo, permanecendo meu fiel e único tesouro. Eis daí o cântico da liberdade Fidelio baseado em Bouilly; as sonatas, ao Luar no Lago Lucerna suíço, quase uma fantasia melancólica; a Patética, Appassionata, trinta e duas ao todo, mais Concertos, Oratórios, Missas, Quartetos, Septeto, Trios, Missas, Fantasias, Bagatelas, Lieds à amada longínqua, todas com tragicidade profunda e humorismo exuberante. Vieram sinfonias, a primeira, a gênese; a segunda, o horrível dragão que se retorce negando-se a expirar; a revolução ternária da terceira, interpretando as ideias de Deus; o eterno mistério da quarta, o amor, a paixão e a dúvida existencial; a do Destino, Eroica, em memória de um grande homem e sua obsessão Liberté, Égalité, Fraternité; a sexta Pastoral, o citadino que vai para o campo e mergulha em sentimentos bucólicos, a tempestade e o Hino de Ação de Graças; a poética sétima explorando todos os níveis da consciência de si mesmo; a emancipação da oitava, a transformação; a sublime elevação fraternal da nona: foi para isso que Deus criou o mundo! Com os versos da Ode à Alegria de Schiller e a chegada da fictícia copista Anna Holz, o segredo. Se não fosse A raiva pelo tostão perdido - rondó em sol maior, e o Testamento de Heiligenstadt para Caspar e Nicolaus, nunca enviado e guardado na gaveta, a depressão e suicídio que levaram o eremita rebelde na casca da rudeza, um hipocondríaco: devo a mim mesmo, ao gênero humano e ao Todo-Poderoso, a arte apenas me susteve. É que a felicidade não foi feita para ele: não fui feito pra felicidade, quem sente intensamente, sofre intensamente. A felicidade do artista está dentro dele mesmo porque a arte justifica o sofrimento da vida: Sede abraçados pelo amor, milhões! Aí vai um beijo para o mundo inteiro, a tônica da vida é o amor. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música do compositor alemão Arnold Schönberg (1874-1952): Pierrot Lunaire, Transfugured Night for String Sextet op. 4, Verkl&arte Nacht op 4 & Pélleas und Melisande op 5 & muito mais nos mais de 2 milhões & 500 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui, aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Onde e como se produz esse descentramento como pensamento da estruturalidade da estrutura? Para designar esta produção, seria algum tanto ingênuo referirmo-nos a um acontecimento, a uma doutrina ou ao nome de um autor. Esta produção pertence certamente à totalidade de uma época, que é a nossa,  mas ela já começou há muito a anunciar-se e a trabalhar. [...] Se a totalização não tem sentido, não é porque a infinidade de um campo não possa ser coberta por um olhar ou um discurso finitos, mas porque a natureza do campo – a saber, uma linguagem e uma linguagem infinita – exclui a totalização. [...] Este campo permite estas substituições infinitas porque, em vez de ser um campo inesgotável, como na hipótese clássica, em vez de ser demasiado grande, lhe falta alguma coisa, a saber, um centro que detenha e funde o jogo das substituições. [...]. Trechos extraídos da obra A escritura e a diferença (Perspectiva, 2002), do filósofo francês Jacques Derrida (1930-2004). Veja mais aqui.

AVANÇOS & RETROCESSOS: CIÊNCIA & RELIGIÃO - [...] Desde o início de 2004, as notícias sobre células-tronco têm sido animadoras: pacientes são tratados, pesquisadores coreanos têm sucesso na clonagem terapêutica, células-tronco embrionárias formam neurônios. Enquanto a ciência avança a passos gigantescos no exterior, o Brasil luta para conseguir iniciar pesquisas com células-tronco embrionárias. Conseguiremos recuperar o tempo perdido? [...] O que precisa ser desmistificado? Por que as células-tronco embrionárias são tão importantes? Somente as células-tronco embrionárias são pluripotentes. [...] A esperança é que inúmeras condições, muitas delas letais na infância ou no início da idade adulta, tais como algumas doenças neuromusculares, diabetes, mal de Parkinson, lesões de medula possam ser tratadas pela substituição ou correção de células ou tecidos defeituosos. [...]. Mas, para chegar lá, ainda temos inúmeros obstáculos a vencer. [...] Utilizar células-tronco de embriões congelados equivale a um aborto, afirmam alguns grupos religiosos. Definitivamente não! No aborto provocado, interrompe-se a vida de um feto que está dentro do útero da mãe. Já no caso de embriões congelados em um tubo de ensaio nas clínicas de fertilização, não há chance de vida se não houver introdução do embrião dentro do útero. Na prática, esses embriões ficam congelados por anos, tornam-se inviáveis e são descartados. Do ponto de vista científico, a grande vantagem das células-tronco retiradas de um embrião congelado é que, até a fase de cento e poucas células, elas são pluripotentes. [...] A expectativa de um tratamento para inúmeros pacientes condenados deve estar acima de dogmas religiosos. [...]. Trechos extraídos de Conseguiremos recuperar o tempo perdido? (Folha de São Paulo, 2005), da bióloga molecular e geneticista Mayana Zatz, Veja mais aqui.

CENAS DA VIDA – [...] Na verdade, acho que não existe povo no Brasil. Somos um bando de bois e vacas infestados por bernes gordos que não saem de nossas costas. Santo Agostinho disse que “povo é um conjunto de pessoas racionais unidas pelo mesmo sonho”. O Geraldo Vandré disse a mesma coisa, com poesia diferente: “Caminhando e cantando e seguindo a canção”. É isso: há de haver uma canção que todos cantam e que indica o caminho. O Chico, nos anos de ditadura, esperto como ele só, falou de um jeito que os milicos não entenderam (milicos e cientistas são duros de entender metáfora. Sobre os milicos eu já sabia. Sobre os cientistas aprendi na última reunião da SBPC). Falou de uma Banda. “Estava à toa na vida, o meu amor me chamou, pra ver a banda passar, cantando coisas de amor”. Aí ele desanda a falar do faroleiro que contava vantagem, da namorada que contava as estrelas, do homem rico que contava o dinheiro, da moça feia debruçada na janela, cada um com o seu sonho pequeno. Mas foi só a Banda tocar para que cada um deles se esquecesse dos sonhos pequenos por amor ao sonho grande. Começaram a seguir a Banda: viraram povo. Um povo nasce quando as pessoas trocam seus sonhos pequenos (individuais) por um sonho grande (comum). Um líder político é aquele que ajuda um povo a nascer. Mas um povo só nasce quando os indivíduos são seduzidos por um sonho de beleza. A beleza do sonho é a comida que mantém a vida do povo. [...] Que sonho temos? Moeda estável, sem inflação? Mas isso não é sonho que chegue para formar um povo. É verdade que inflação é barco furado. Com barco furado não se navega. Verdade é também que moeda estável é barco sem furo. Mas barco sem furo não basta pra navegar. Pra navegar é preciso sonhar com um porto. Esse porto, na linguagem da política, tem o nome de utopia. Vão me dizer que utopias são inatingíveis. [...] A mágica presença das estrelas! É isso que os políticos nos roubaram. Os povos estão sempre dispostos a passar pelas mais duras provações, desde que essas mesmas provações tenham um sentido: as dores de parto são bem-vindas pelo filho que vai nascer. O presidente se esqueceu do povo. O povo não é o seu “outros significantes”. Por isso ele não gasta tempo para fazer o povo sonhar. Estamos “desgarrados e errantes como ovelhas que não têm pastor…”. O tempo da ditadura era noite. Mas no céu havia estrelas. Eu sonhava. Veio o dia. Mas a noite continuou. Céu sem estrelas. Já não sonhamos. Resta-nos a dura vida sem sonhos. [...]. Trechos da crônica O fim da banda, extraído da obra Cenas da vida (Papirus/Speculum, 1997), do psicanalista, educador, teólogo e escritor Rubem Alves (1933-2014). Veja mais aqui e aqui.

DOIS POEMASCANTIGA: Eu cantar, cantar, cantei; / a graça não era muita, / pois nunca por meu pesar, / fui eu menina graciosa. / Cantei como foi possível, / dando voltas e mais voltas / assim como quem não sabe / perfeitamente uma cousa. / Porém depois de mansinho / e um pouco mais alto agora, / fui soltando essas cantigas / como quem não quer a cousa. / Eu bem quisera, é verdade, / que elas fossem mais bonitas; / eu bem quisera que nelas / bailasse o sol com as pombas, / as brancas águas com a luz, / e os ares mansos com as rosas. / Que nelas claras se vissem / a espuma das verdes ondas, / do céu as brancas estrelas / da terá as plantas formosas, / as névoas de cor sombria / que lá nas montanhas voam; / os pios do triste mocho, / as campainhas que dobram / a primavera que ri, / e os passarinhos que voam. / E canta que canta, enquanto / os corações tristes choram. / Isto e ainda mais quisera / dizer com língua graciosa; / mas onde a graça me falta, / o sentimento me sobra. / Entretanto isto não basta / par explicar certas cousas / que, às vezes, por fora um canta / enquanto por dentro chora./ Não me expliquei qual quisera: / sou de pouca explicação; / se graça em cantar não tenho, / o amor da terra me afoga. / Eu cantar, cantar, cantei, / a graça não era muita, / mas que fazer —  desgraçada! — / se não nasci mais graciosa. AONDE IREI COMIGO? ONDE ME ESCONDEREI? - Aonde irei comigo? Onde me esconderei, / que já ninguém me veja e eu não veja ninguém? / A luz do dia assombra-me, pasma-me a das estrelas, / e os olhares dos homens na alma me penetram. / Pois o que guardo dentro em mim penso que ao rosto / me sai, como do mar ao fim um corpo morto / Houvesse, e que saísse!...; mas não, te levo dentro, / fantasma pavoroso dos meus remordimentos! Poemas da escritora espanhola Rosalia de Castro (1837-1885)

LOJA DE RÉPTEIS
O curta-metragem Loja de Répteis, do cineasta Pedro Severien, é um drama psicológico que conta a história que se passa no Recife, de horror expressionista vivida por um casal, um dono de loja de repteis e sua esposa, que é quieto e mantem uma estranha conexão com os animais, e ela está disposta a se livrar daquilo

Os livros ID & A poesia salva a alma & muito mais na Agenda aqui.
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A música de Beethoven aqui, aqui, aqui e aqui
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Ele via a mulher como um ser superior, uma figura dominante que estava acima dos homens. As mulheres retratadas quase sempre são poderosas – mesmo quando as retrata aparentemente submissas, parece uma concessão que a mulher fez como um gesto nobre a fraqueza masculina em resistir ao seu poder.
A arte do pintor simbolista austríaco Gustav Klimt (1862-1918) e sua eterna musa inspiradora, a designer de moda e empresária austríaca Emilie Louise Flöge (1874-1953) aqui.
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Porque era sábado no Una, Mal de Arquivo de Jacques Derrida, Guido Bilharinho, o teatro Oficina de José Celso Martinez Correa, a arte de Hamid Zavareei, a música de Paulo Moura, Eugénia Melo e Castro, Pat Metheny & Tomoko Mukaiyama aqui.

APOIO CULTURAL: SEMAFIL
Semafil Livros nas faculdades Estácio de Carapicuíba e Anhanguera de São Paulo. Organização do Silvinha Historiador, em São Paulo. Fone: 11 98499-2985.
 

GEORGE SAND, DELACROIX, WAGNERT TISO & ESTAÇÃO DO BEM CATENDE

QUEM O AMOR DE TANTOS AMORES – Imagem: George Sand , do pintor do Romantismo francês Eugène Delacroix (1798-1863) – Amandine nasceu como...