sexta-feira, outubro 12, 2007

A FÚRIA DOS INOCENTES


Imagem: Caiu. Recebi por mail e gostaria de creditar o autor dessa façanha. Fica, portanto, a intenção. Quem se habilita?

A GRÉIA


Uma cagada! Um avião caiu de bico na cabeça! Pudera, para quem anda dando topada em grão de areia, esfregando a venta no chão com qualquer tombo besta, mais chuvarada exclusiva com raio e tudo no toitiço, avalie. É sal na moleira e pagando o pato até pelos vícios e pecados dos outros, acha pouco? Não é de se admirar tanto lugar no planeta, tanta gaia à toa para se enganchar, tanto oceano, tanto continente, tantos possíveis alvos marcando bobeira por ai, e o inditoso voador achar logo, não sei por bem de não sei quantas desditas vividas ou por urucubaca de alma penada, de cair logo onde? Parece mais que, no mundo todo, de cabeça mesmo só havia a de palito de fósforo feito a minha: desconexa, equivocada e com o tino pro labirinto. Nem um só cabelinho de sapo do fio de Ariadne para guiar na vida! É brabo ou não é? Vai ser azarado assim na casa de um apaideguado, vai!
Besteira. Será que posso eu reles e pseudo semideus reclamar da fatalidade? Uns têm estrela na testa; outros, quando não são filhos da desventura, de tão enviesados apagam até as impressões digitais, os garranchos da palma da mão, os traços fisionômicos, a sombra de caminheiro, de ficar penando clandestino a se escapar de deus e do diabo, nascendo e morrendo pior que torto.
Pois é, assim se deu e fodeu minha cachola que erra incólume pela existência, desremando contra a maré oposta dos outros, cego em tiroteio, de mangar de si próprio.
Arrepare não na loucura dessa narração na beira do desvario, torta e desproposital.
Para tal asneira recheada, ao que parece, de inverídica acontecência, ligue não. Espie só por se mostrar num inequívoco disparate; mas que foi, foi. Chulo ou não, foi. Assim mesmo. Resultado: afundamento craniano, uma desgraça. Virgem! Ano e meio em estado de coma. Busuntão dos brabos. Não mexia nada e, de tão inerte, vegetava. Todavia, sonhava bulindo sonhos de nada, inenarráveis, uns por cima dos outros, superpostos, endoidados. Se bem que entendo do riscado, óbvio, quem sob a influência de mercúrio não ousaria assim de cara lisa?
Pois é, e de orelha em pé, cacunda para o sortilégio, no peito e na raça, enchia de pernas o mundo todo.
Primeiro foi Sherazade: surgiu quando menos se esperava no meio de uma neblina crepuscular. Surgiu e remexeu com minhas entranhas logo de cara. Vinha em minha direção, olhei para trás, ninguém comigo, ela olhava mesmo para mim.
Minha timidez forçava um mal-estar, enquanto ela se aproximava dona de si, eu ficava sem jeito. Cheio de pernas.
Quando se chegou bem juntinho, ela encostou-se em mim, alisou-me o rosto bem devagarinho com suas mãos sedosas ao meu pescoço, peitos, ventre, afagou-me a intimidade saliente e abriu um sorisso lindo de nuvens etéreas em dias ensolarados. Eu me incendiava todo por dentro, não desgrudando de seu rosto. O seu afago íntimo fez com que me excitasse, é que ela segurava firme meu pênis vivo, permitindo que me largasse da imobilidade e bulisse tímido, mãos trêmulas e olhar fixo nas suas curvas, seus contornos, suas alvíssaras, seus esconjuros. Era uma viagem prazerosa de passageiro novo, chega levitava do seu lado, deitando-me aos poucos até que espalmados no chão, fazia-me carinhos com seus dedos maiúsculos entre meus cabelos. Deitados, ela contava histórias de ninar num devaneio real, de sangue pulsando, carne, alma e maledicências gostosas. Eram cantigas do tempo do ronca que ela entoava acalanto acariciando o coração de ontem, anteontem, longe, recôndito anímico, numa encantadora magia nas suas narrações, em visagens múltiplas e nem piscado no olhar pregado no jeito dela. Devaneios, relembranças.
Quando não, viajava daqui prali sem nexo, a esmo, coisas de antanho, da fagueira infância. Velejava encantado, todo ancho, pabo. E vinham encarreados sonhos nas minhas andanças, recolhendo cumprimentos de fulano, sicrano, beltrano, outranos, gente da minha mais profunda reminiscência.
Era bom reencontrar afetos, licenciosidades, peripécias... mas, cadê-la? Onde Sherazade? Sumira.
Passava deste para outro estágio onírico num triz de raio, pelas vazantes da dúvida, pelos confins de um mundo impossível na velocidade da luz, pelas relembranças num caleidoscópio.
Tudo se removia em cores, fatos, imagens, tons, maneiras, numa confusão geral.
Seria loucura de mesmo? Sem intervalo, instantaneamente? Abracadabra! E era. Ora no Aconcágua, testemunhando a nossa miséria, de gente adorando bezerros de ouro, pecados veniais - que deplorável! -, carne infecta aos urubus, libações pesadas sobre o mosqueiro, ladainhas, troféus, ostentações, indiferenças. Oh! Bas-fond! Ihhhhh! Que sonho poderia sonhar a esta altura do campeonato? E eu que tenho tantos e muitos outros sonhos? Um fabricante onírico de imagens afins e realidades adversas onde as palavras parecem sombras, verdades, mentiras e catarses. Um fabricante de bosta ruminando mendacidades. Qual? Devaneios, infincado neles, nada mais.
As begônias do jardim, quem dera, coloriam minha tez, e eu sorria, porque estava mentindo para mim mesmo que assim é a vida pros golpes, pros desvãos, pra doidice de saber imanente na transcendência ignota de um sonho impossível e mitômano. Sabia que começava a morrer desde o nascimento, ficando apenas na minha contagem regressiva, sobrando, escapando... Ah! Quanta coisa irisava minha devassa emanação. Seria a blitz-krieg? Bum! Tei bei! Qual cogumelo estúpido causaria tanta ojeriza ao defecar na boceta de Pandora das imundícies já estilhaçadas no oxigênio? Que peido barbitúrico daria nomenclatura para a burrice extrema dos animais mais racionais de um tempo determinado na parafernália das convenções esdrúxulas? É. E mais uma bólide caiu numa região desabitada. O nosso risco constante e perene. E quantos Herodes assumem o poder até hoje? E os chavascais? E os tartufos de hoje? E os amores perdidos na utopia da maior paixão dos menores seres mais cretinos do amor e da compaixão? Nada!
Felizmente era a ocasião do armistício dos tempos, mentira! E uma guerra emotiva fremia na ebulição dos corações, arruinando quereres, sacralizando paixões. Crás!
Ora chegava ao aerólito da Groenlândia. O intervalo do triz. Viajava. Viajava assim sem apólice, nem me incomodava, onde já se viu tal insulto? Basta apenas uma topada só para que todo arquétipo humano possa se espatifar no chão, um traste de merda. Basta uma cusparada para revelar a maior das indiferenças, um sacrilégio. Basta um muxôxo e, do nada, toda reprovação da atitude se denunciar, repúdio. Onde já se viu? É o fim da picada.
Ao me defrontar com a água-de-oxalá, bebi de sua fonte e matei a sede de séculos. E me banhei na lagoa do Mundaú toda emporcalhada de detritos: nojenta e etérea. Que pena, nos rios não se vê mais ariranhas. As lontras desertaram. E os acaris? Não sei. Depois da chuva ácida e dos granizos, oh!? E fui bater lá no Pará, parei; sorvi açaí, não fiquei. Pé na bunda e peito aberto na direção da venta.
Defronte de uma figueira que se encontrava fincada na beira do meu caminho errante e agora, sem me dar conta, solitário, bateu calafrio, temi a morte anacreôntica. Estremeci de pavor, mas permaneci indelével. Segui incólume com o bué das crianças famintas daqui, esfarrapadas, estiradas, enodoadas com seus trapos de vida.
Deparei a candelária e de sua gente se fez uma imagem distorcida: cangalhas no dorso de um muar, um povo metido em camisa de onze varas. Bugres.
Ah! Como o meu coração sofre com essa gente... Ah! Quanto suor esparramado nas faces e tórax aguerridos, só queria ter essa vontade impossível de viver onde nem se poderia. Impossível de acreditar até que seja vida! Mas é e dói a comiseração...
Do aloprado, finalmente, aparecera alguém para aplacar minha andança soturna. Constatei e não mais Sherazade, figura ímpar de mulher. Cadê-la? Senti sua falta. Quem seria? Lá estava, à distância, conduzindo um anel simbólico de ametista. Quem? Trazia uma ânfora entre as mãos e uma sapiência nos olhizarcos. Quem? Estranho das docas escuras do fim do mundo tomou minhas mãos e conduziu-me por uma cidade de ruas capistranas. Quem? Deixei-me levar, sei lá, talvez tal rio da vida me levasse para o mar de alhures: era a satisfação íntima pelo sórdido, meu ingresso na senda do desconhecido. E isso me apraz e como. Então me vi no centro das ruas de pedras de ouro gigante que davam para um enorme templo com uma abóbada recheada de luzes, um sanctum, ao que parece, dos deuses. Admirado com aquilo tudo, boquiaberto com tanta maravilha, de queixo caído com tanta reluzência, onde estava? Sei lá. Ousei cantar uma canção do rádio que insistia em rodar na minha cabeça, algo duma balada pop inglesa e um dedo atravessara meus lábios em exigência de silêncio. Assustei-me. Dispensando a ânfora, ele agora segurava um alabastro, e esse meu condutor voluntário depositou-o sobre uma tribuna. Depois circulou por um shekinah onde nobres vozes invisíveis me submetiam a um julgamento kafkeano. Que culpa teria eu? Que delito tão grave então a mim imputavam? Que ab-rogavam dos meus planos? Não, eles não ouviam minhas dúvidas e condenavam-me a uma pena desconhecida e abstrusa, esbravejando meus pecados, minha conduta, meus desígnios. Esmurravam suas mesas, exigiam um não sei quê de justiça, com certeza, um mau presságio para minha pobre alma. O juiz que era o meu condutor, impassível, calmamente ouvindo tudo e, indiferentemente, ingerindo uma alcachofra retirada de um cálice de prata. Ofereceu-me, gentilmente, agradeci.
Cadê Sherazade? Nem dera conta direito do seu sumiço. E agora apenas aquele de turbante negro com seu esoterismo explícito cercava minhas iniciativas, atitudes, dúvidas, ora.
Uma ampulheta media o tempo. Inexorável. Que tempo? Não dissera nada. Contemplamos ciprestes por um janelão largo e aberto do tribunal. Num cochicho disse-me que ali repousava a alma dos mortos. Arrepiei, dos mortos que sempre evitei. Uma ameaça? A voz misteriosa do estranho causava-me espanto. Queria ele arrancar dos ciprestes algumas revelações. Dialogavam. Eu nem entendia. Nada, acredito, obtivera da árvore da tristeza. Foi tanta desmesura delas que baixei os olhos e fitei o chão pedregoso. E sentia falta de Sherazade. Estava eu apenas com aquele estranho que solfejava la hilaha illa allah.
Ouvi de supetão, do alto dos minaretes, o chamado dos fiéis. Virei-me. Uma trombeta invisível soara para meu espanto. Eram hieromaníacos? Sei lá. Do outro lado, os pedreiros livres caminhavam com suas casacas pretas na direção do leste. E ele fiscalizava tudo e tudo se parecia nórdico onde o sol jamais adormeceria entre montanhas, aclives íngremes e estreitos, ribanceiras abissais.
O solfejo dele mais parecia uma invocação necromante, principalmente pela insistência de contemplar ciprestes. Que ousa, então? O fruto da raiz? A vida da morte? O meio entre dois opostos? Desejos inúteis. Depois mostrou uma opala similar ao incêndio de Tróia. Que maravilha! Num ímpeto, jogou lá longe, no abismo. Seus olhos censuravam-me em riste por admirá-la. Contive-me. Reprovou-me a admiração pela linda opala, que coisa, uma bela expressão da natureza, ora. Que queria, afinal? Um papiro com hieróglifos fora jogado na minha cara. Entendi patavina. Depois me disse que eram as cinco virtudes capitais da humanidade propostas por Confúcio. Ele sorriu com minha ignorância. Puro sarcasmo. Ria-se desbragadamente. Mangava da minha leseira de não-iniciado nos seus mistérios. Tolices, mas tá! Em sua ironia, estalara os dedos e dissera: - "a experiência é a fonte do saber e a caridade a base prática médica". Citou Paracelsus. Sabia lá quem era tal! Ao constatar minha interrogação fechada, novamente estalara: um gol do Flamengo! Meu clube preferido: u-tererê! U-tererê! – Tudo isso é nada! Ilusão medíocre! -, dissera-me. Mas adorei a torcida: mengôoo! Mengôoo! E aquela ouriçada agitação rubro-negra entre flâmulas, revoltas, chacotas e lavando a alma.
Outra vez a fricção dos dedos: a decepção de Bocage! "Rasga meus versos, crê na eternidade!" Não atendi, fiquei admirado com seu poder.
Alisou, novamente, o polegar no anular e: era o casamento de Carlota Joaquina de Bourbon. Ou o esquartejamento de Tiradentes: - "cumpri minha palavra, morro com a liberdade". Ou era Eichman que trocava judeus por caminhões. Ou a picada da caranguejeira. Ou a tarifa dos verdugos e sicários. O guizo da cascavel. O cutelo. A asfixia por óxido de carbono. A relação entre a circulação sangüínea e o sol. Jau esmolando pela noite para sustentar o poeta semimorto. Uma paisagem do país Uttara-kuru onde todos são bem-aventurados, livres de toda opressão, sem leis que possam cercear sua liberdade, regidos pelos costumes e livres de invasores. Será a Caxemira? Onde a regra eterna da justiça dos arianos? Ah! Só o fretenir das cigarras. O tonel de Diógenes, seus andrajos, que pisou no orgulho de Platão: procurava um homem de verdade. E hoje? E hoje? Onde confunde a mais selvagem das intenções dispensando ternura, carinho, amor, respeito, solidariedade. E hoje onde não vemos nada salutar em viver mediante o perigo imanente do atropelamento, do assalto, do desabamento, da poluição. O risco permanente. Uns massacrando outros semelhantes, dessemelhantes de uma mentira óbvia da ambição. A nossa nova bólide real e previsível. O nosso flagelo revelado. O risco.
Quanto mais roçava os dedos mais imagens surgiam loucamente: era um coice de girafa. As estripulias de Antônio de Nóbrega, o Tonheta. A cólera de Cipião negando seus ossos a Roma e na herança dele, uma coleira de ouro para o cão estimado. Era o dragão-do-mar negando-se a transportar escravos. O cerne da questão entre o Amazonas e o Orenoco, onde um Eldorado repousa oculto. Os nove planetas... oito... eita! E a certidão da ínfima inutilidade humana diante de tamanha imensidão... o risco...
Abriu, então, ele uma caixa preta, escondida no turbante, e soltou duzentos demônios no ar. Que alvoroço! Um coral funéreo entoava uma fatalidade. Tudo muito sombrio e horripilante. Será que a minha morte se aproximava? Será que eu apagaria a vela da vida e não mais retornaria para a desigualdade dos sobreviventes? Estava mesmo entregue por inteiro, levado pela maré que sempre relutei.
Era tudo muito confuso na minha cabeça. Noite e dia se confundiam sem avisar e eu me perdia da razão. As nuvens escureceram o céu e busquei insistentemente a luz do sol. Relâmpagos, coriscos, trovões. Busquei esconder-me, acaso um raio me atingisse, quem sabe? Lancei um olhar de indagação. Era tudo muito sinistro ali. Tremi.
Fricção nos dedos dele: o sol iluminava num céu azulado lindo de se ver. Vôte! Quem era ele? Puxou-me pela mão, apressado. E levou-me até um arco-íris. Lá, abriu as portas do céu e não havia nem deus, nem anjos, nem arcanjos, nem espírito-santo. No extremo, à direita, havia um pote de ouro. Ao tocá-lo: Abre-te, Sésamo! Viu-se canopos e, no interior deles, vísceras de múmias. Deu-me um asco. Repulsei. Fui levado em direção a uma porta amarela: camas separadas, amantes desencontrados, homens desesperados, corneados, mulheres adúlteras, sacaneadas, chorosas. Era a porta dos infiéis lamentando seus infortúnios. Depois dela, uma alaranjada e constatavam-se casais felizes, cantarolando, empunhando troféus da vida. Bodas de algodão, de cristal, de porcelana, de esmeralda, de ouro e, até, uma de diamante. Desconfiei, será a felicidade verdadeira? Algo estranho, mesmo. Uma outra porta azul mostrava os felizes acariciando seus filhos, suas esposas, suas noras, seus genros, uma placidez de paraíso. Ao lado, a verde, guardava a gente de olhos grandes com mãos espalmadas como na expectativa de um milagre a qualquer momento. Pedintes. Era a porta dos que esperam. Futuro algum visível. Fiquei com os olhos rasos d’água... uma vermelha continha gladiadores, navegantes, homens de coragem expressiva. Musculosos, exercitavam os membros incessantemente. Palavra alguma ouvira deles, apenas sussurros guturais e o massacre de fracos aos seus caprichos. Logo após, uma violeta onde se encontravam os humildes e os tímidos. Era: um olhar no chão, gestos contidos, silêncio absoluto. Soturnidade ímpar. Meu Deus! Pensei, cheguei na última lona: clamar por deus com a profanação de um bestial heterodoxo! Ateu dissimulado. O que se dera comigo? Ultrapassando todas as portas, para meu espanto eu próprio era Sherazade, uma herbolária. Como podia? Intrigou-me um escapulário trazendo a estampa de um lacrau, o artrópode venenoso. Que seria de mim? Onde estava?
Estávamos no estreito de Bering, contemplando, agora, eucaliptos, o manjar das saúvas. Inquiri do meu avatar a razão pela metamorfose que ocorrera no meu gênero, fitou-me pelo canto do olho. Ao tentar balbuciar as razões pela qual me encontrava naquele estado, eis que aparecera Eurípedes. Tremi. Ele esbravejava, destilando seu ódio misógino. Deu-me um pânico! Logo Eurípedes! E agora?
Na minha sofreguidão, o desafeto sumira talqualmente aparecera. Procurei meu anfitrião pelos quatro cantos e nem sinal dele. Causou-me pavor também sua ausência.
Sozinho e sem ter para onde ir, desejava encontrar um buraco e ali me socar, inútil. Atarantado, colhi umas sementes de gergelim e ao levá-las à boca fui assaltado por uma figa oferecida pelo haríolo que reaparecera do nada. Onde andara? Que fizera para sumir e, do inopinado, reaparecer. Desconfiei estar invisível quando queria. "Merece ser redimido quem sempre se esforçou por aperfeiçoar-se!" – disse-me com as feições de Fausto. Assustado, deduzi: todo dia sai um besta e um sabido de casa. Um deles vai chorar. Em relação aos alesados, disse-me que nem Espártaco: "Se sois besta de carga, portai-vos como míseros cevados que aguardam a faca do matador; se, porém, sois homens, segui-me!"
Que será de mim naquele estado? A astúcia? A formiga é considerada superior em esperteza. E trabalha. Só trabalha porque não sabe cantar, diz então o grande maluco beleza. Será? Deve só a lei de Gerson vigorar: a vantagem em tudo? Ouvia-me com escárnio. Duvidei. Até de Descartes.
Foi aí que ele me mostrou os deva de Zoroastro. E a diferença entre a cicuta e o agrião. E lá estava Molière de cara fechada, os outros se acabando de rir. E o meu mestre tocou-me a mão e lá vinha um bando de capivaras. Segurou-me o braço com força, não permitindo que corresse dali. As capivaras vieram e se foram. Tudo se esvaía assim. E eu sentia as dores do parto, eu que era ainda virgem, mal moçara para a vida, nem debutante e o sangue escorria pelas pernas, quem me ferira? Das minhas entranhas o sangreiro emergia e eu sequer sabia o que fazer, achando pouco tanto infortúnio.
Foi aí que no meu sofrimento, rasgando minha integridade, revelando delírios, que vi Sherazade, vinha ao longe para a minha alegria, mais bela que nunca. E eu desinfeliz de sê-la não podia mais amá-la. Ia contra a minha natureza. Tinha de ser.
Já me acostumando com a idéia de assim mesmo querer Sherazade a qualquer custo, quando apalpei, assustado, o meu sexo, qual não fora a minha surpresa e felicidade. Já eu mesmo. Uma felicidade inteira recheara minha aura. Sentia agora que Sherazade estivera o tempo todo dentro de mim, comigo ali, a ponto de sermos um só em nossa paixão.
Definitivamente estava amando Sherazade, cauterizado pelo fogo do nosso amor. E eu ansiava, ela vinha, de longe, sorrateiramente, num raio de sol, tocando um alaúde para embalar nosso idílio, numa canção transcendente, paparicando o meu coração.
Ah! Não poupava gentilezas, mesuras, cortesias. Via-lhe pelo vestido transparente as formas generosas de seu corpo, os seios saborosos, o ventre apetitoso e desnudo a cada passo, pela abertura rasgada do vestido entre as pernas. Ardi de desejo. Cobicei sua alma. Não permitiria que fugisse de novo.
O companheiro, ao lado, reaparecera e não se me mostrava hiante. Ao ver-lhe, o meu estômago deu sinal que ansiava por alimento e meu corpo por sexo. Meus olhos comiam Sherazade que se aproximava. E o sujeito merepeiro, manemolento, mal-ajambrado, ali ao meu lado. Atrapalhando, claro. Face hirsuta, intrigante, nem manifestava qualquer suspeita emotiva, tudo muito frio, previsível. Enquanto ela vinha faceira, serena, sedutora, ele me reprovava a aproximação. Nem muxiba no moquém? O alaúde me encantava. E o olhar dele era cada vez mais penetrante. Cadê seus muafos? Nenhumamente. E os meneios das ancas da musa excitavam meu sexo. Um incenso invadia minhas narinas, oriundo das magias dele e dela. Um pelo mistério; a outra, pela sedução. Sherazade que mais vinha, magia maior me entorpecendo, sorria maliciosamente com seus lábios carnudos e entreabertos, causando-me êxtase prévio. Eu delirava encantado com o excesso de prazer proporcionado por aquele momento primeiro de uma alegria nunca antes saboreada. Eu me sentia leve ao saber que dali eu me aproveitaria de ficar, finalmente, com a mulher que completaria meus sentidos, acalmaria meus nervos, realizaria a plenitude da minha vida sedenta. Sonhava de olhos abertos, sonhava...
Um atrito qualquer de dedos estalando, causara uma mudança no panorama. Ôxe! O que estava comigo fora para o Paraguai. Cadê-lo? Escafedeu-se mesmo. Oxente! De repente tudo desaparecera. Nem faquir, nem mulher. Zombavam, então. Seria?
Procurei, corri mundo. Fui com a velocidade da luz. Andara já quantos alqueires de busca? Infinitos. Assim, sem astrolábio algum. A esmo, mesmo. Sem sextante. De Ícaro aos foguetes espaciais. Com o bacurau. A ampulheta que medira o tempo findara. Uma outra aflição me dominara. Que seria de mim se um detetor de mentiras me coibisse o sonho? Seria de mim na religião nacional dos persas? Seria de mim se um julgamento sério unisse juiz e promotor e um borbotão de testemunhas para vingar minhas inverdades, verossimilhanças, veleidades? Seria? E em pura checagem me visse réu confesso da mentira, da enrolação, da trapaça inocente? Perdoariam-me pelo assédio patológico do barão de Munchausen em minhas maravilhosas visagens? E se estivesse louco, nada aconteceria. Eu, também, não contei nem a metade do que vi, Marco Polo. Trinta moedas de centavos apenas e a minha vida não valeria mais nada. Só falso testemunho, blasfêmias, a inclemência do tempo, as dissenções e os vizinhos hostis.
De repente! Uma luz imensa incidira nos meus olhos. Claridade forte. Imagens disformes. Vozes aladas. Levantei-me, assustado. Recebera alta médica. Para casa.

© Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais Noveletas.

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