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domingo, junho 28, 2026

GLORIA MARK, JANET MOCK, EILEEN BARBOSA & ALCEU VALENÇA

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som dos álbuns Crescendo com a Poesia (2010), do cd solo (2013) e do Nordestinação (2017), da acordeonista e compositora Karol Maciel. Ela ainda é estudante de licenciatura em Música pela UFPE e faz parte das bandas dos artistas Lucas Mamede e Larissa Lisboa. Participou de vários festivais pelo país, como o FAM Festival (2023), Festival Sotaques da Sanfona Brasileira (2023), Encontro Nacional de Foles e Sanfonas (2023), Festival de Forró de Ibitipoca (2021) e o Festival de Sanfoneiros de Feira de Santana (2021). Ela integra o grupo instrumental MaKaMo e trabalha como educadora musical pelo projeto Musicou.


 

Bumba-ê: picamalácia de Catirina, apuros de Mateus!... - Catirina sonhava anjo-príncipe rolando do céu pros seus braços. A menina, antes franzina, debutou e tomou corpo: Que espetáculo! Despertou naquela manhã como nunca, nefelibata: repleta de vida na flor da idade. Olhou da janela o desiderato: era ele. Olhos vivos, fogosa, tinha certeza. E com ele teria muitos filhos, ambicionava. E assim foi toda prendada: Ei, pronde vai? Mateus era um matuto desarnado daquele do tino afiado, cheio das lábias e vantagens. Boa-pinta, de chapa tascou: Quem 14 tira 24, fica 12! Hem? Deu pra ela um pé de verso cheio de muitas cantigas, um rosário de louvores. Ela logo gamou na covinha inescrupulosa das bochechas dele, deu fiança com simpatia e namorou levantando a saia no sarro pesado, noivou na alcova e cobrou a obrigação: o desejo de muitos filhos. Casaram às pressas e de manhã Messalina, sereia arriada; de tarde, desbragada ninfa lasciva; de noite, uma súcubo insaciável; de madrugada, vampira devoradora; o resto do dia, náiade ninfomaníaca diuturna, todo dia e o dia todo, chega a chibata dele retinia no fole do vuco-vuco de nunca acabar. Ele encarou a peleja no maior galope, munheca no afinco, findou com dois palmos de língua de fora: Vou morrer! Toma catuaba, véi! Ou gemada com maca peruana, pó de guaraná, amendoim e ovo de codorna de muitão, para não amolecer nem caiar, bicho! Tá doido! Nem deram conta e o tempo passou pra ver a protagonista plenilunar de bucho inchado, barriguda aos 16, o desejo por mentrasto-de-frade, sim, catinga-de-bode, o enjoo seguinte, desejosa na geofagia, não largava a pagofagia: Eita, mão fria, gelada! E era uma vontade intensa e repentina, dela se empanturrar com peixe cru, ração de cachorro, tomando vinagre, café cru com limão, besouros com cola de sapateiro, até comeu o pano de limpar a pia, com creme de cabelo. O pior foi ter devorado às dentadas a bola e chuteira dum menino da vizinhança, deu o que falar. E quando voltou lá estava ela com um banquete de aranhas recheadas de insetos trazidos da Tailândia, na maior fritada. Lascou. E ela dava marrada na pancada da zabumba, foi bordoada e tome reco-reco, estultice e triângulo, cadê o decoro, no bombo seguia a toada e pariu de última hora o primogênito raçudo de quase rasgá-la toda: 6 quilos. Parecença com ninguém, o parentesco qual, nomeado Bastião, festança de peões, pajés e curandeiros: Esse filho é meu mesmo? Ê, boi! Nem bem 10 meses depois, ela viu o morto-carregando-o-vivo e quase teve um troço. O remédio foi o maior apetite: Picamalácia, meu! E engoliu uma extrovenga com sabão, tijolo, giz e cinzas de cigarro. Vai estourar! E vieram as gêmeas. Maior festejada. Quase ano e a alotriofagia comia no centro, as maiores estranhices na culinária – Que gosto! - e um rebento de trigêmeos: um menino, duas meninas. O comedor de vidro testemunhou: Ela comeu tanto barro com giz, lascas de parede, tijolo, bosta de guenzo e carvão, deu três filhos bonitos, ao invés de monstrinhos pintudos. Salve! Gargalhadas. A coisa ia bem até, de repente, ela desejar escargots. Vixe! Onde vou arrumar? Senão o filho nasceria troncho e feioso. Mateus se virou: Isso é uma rotônica! Já era verão quando o capitão Boca-mole no cavalo marinho avisou: Ela deu à luz quadrigêmeos! Deu a praga! Passou o resguardo e normalizou: o rala-bucho no rala e rola. Esquecidas as extravagâncias, lá vinha ela desejosa dum cachorro quente daquele marmanjo que, com a mesma mão, assoava o nariz e limpava na calça. Que nojo! Eu quero, vá lá. E foi carvão bem torradinho no almoço, repelente no jantar, roer as unhas do pé do meu marido no café da manhã, goiabada com salame e areia no lanche e vomitava tudo, mas, teco! Até que Maria Capitulina chamou por Arlequim: Vai avisar pro Mateus que Catirina partejou quíntuplos. Eita-pau! Depois duma quarentena normalizada, veio de novo a compulsão alimentar: Comeu o mealheiro - um porquinho de gesso com dinheiro e tudo. Denunciou-se quando sorriu: cadê os incisivos centrais? Lá estava a janelinha, uma lindeza. Que foi que houve? No meio da comilança mordeu uma moeda, teibei. E o picacismo deixou atarantado Penico Branco: Isso é uma draga! Quase: desemprenhou sêxtuplos! Aí empatou com a Quezia Romualdo de Colatina e Mama Uganda, 1x1x1 das 3. Lá se vão 40 dias depois, restabelecida, a correria do zoadeiro dentro de casa. Que deu? Ela havia esburacado todo recinto e estava lordemente espragatada em lauto repasto regado por um suntuoso ninho de baratas. Ave! Aí Mané Gostoso gritou para Babau: Ela esbarrigou. Como assim? Parturiu nônuplos! Deu a porra! Que nem a Halima Cissé de Male. Empatou de novo. As gestações múltiplas prosseguiram e a hiperovulação a todo vapor. O marido: Onde vou parar? Estava eclipsado, melhor, de certo modo: lascado mesmo. Ela queria por que queria kopi luwak - o café mais caro do mundo? Só nas ilhas de Sumatra, Java e Sulawesi! Agora deu. Simbora. Foi quando ela teve o delírio de Pasífae ao avistar o suposto touro de Posídon, a brancura dele e os chifres dourados. Pediu por Deus e o mundo pra Dédalo fazê-la vaca. Onde já se viu? No fim: desgravidou-se de décuplos! É a Gosiame Thama Sithole sul-africana? O pior: um Minotauro no meio deles. Onde vou arrumar um labirinto de Cnossos? Fodeu-Maria-preá! Sou lá Hércules para deter esse bicho! Boba-da-peste! Tuntunqué perdeu a conta: ao todo, quantos mesmo? Quem sabe! Virou problemão, calamidade púbica. Donativos, caridade internacional, afora arrombar com as estatísticas do Guinness: batia todos os recordes! Quem não se comoveu? A manchete das paradas, de boca em boca, atrativos dos fuxicos: apostavam, mangavam. Não era pra tanto, né? As vizinhas e voluntárias vieram dos 4 cantos do mundo. Pitaqueiros levantaram dados pra conferência: teve 20 pares de gêmeos, 10 trigêmios, 8 quadrigêmeos – e é a Valentina Vassilyev é? Ou a Leontina Albino? Danou-se! A conta está errada, reconta tudo. Dava pra muito mais e a coisa tomou vulto. Mateus: O que é que se deve fazer numa hora dessas? Não tinha onde cair morto. Pedia perdão todo santo dia, a vida só escárnio. À essa altura do campeonato o coadjuvante pensava de banda, olhar de sobrancelhas circunflexas, entendia o sucedido? Era o mistério da vida aos inesperados, cogitava desertar, se esconder nos sapatos, o que fosse, pudesse. Deu-se as bodas de ouro dela, maior festão; ele teve um mal-estar: na mesma hora a filha encostada ao mais velho casava-se com o seu inimigo figadal. Deixa disso, pai! A desfeita escondia incesto, mancebias, arranca-rabo: É carnaval, é? E rolou o pastoril, a quadrilha do casório, bumba-meu-boi: irmão com irmã e vice-versa, parentes, achegados, festejos dionisíacos. Tudo junto, na tuia. Ali a coleção de filhos: aos muitos e demais. Era tempo da copa do mundo, a torcida: Dá preu fazer uns três times desses ou mais. Quem desacreditasse, os dissabores de medo do vazio, a vertigem às alturas, a tal da nuvenzinha sobre sua cabeça, passou de tudo: mais que o azarado Frane Selak – as tragédias e o prêmio da loteria; pior que o para-raio Roy Sullivan: Sou lá SPDA, meu! – foram 10 na moleira, queimaduras e desmaios, sortudo mesmo; afora mais bombas que Tsutomu Yamaguchi, mais naufrágios que Violet Jessop, mais furacões que Melanie Martinez, mais atacado que Erik Norrie, mais calamidade que John Lyne, mais desastrado que John Wade Agan. Impossível, meu! Oxe, ele tá de cu pra Lua, meu! Dá-lhe, afortunado! Foi ter com um dervixe e fez a dança giratória do sema no êxtase espiritual e a conexão com o divino, a mão direta pra cima, a esquerda pra baixo, e a tropa da pecha: Boiolou, foi? Ah, venturoso! Era tabu: São outros dois mil e quinhentos tantos – engasgou-se ao gaguejar: Se a letra está morta pra quê liberdade de palavra? Findou dourando a pílula antes de encomendar a alma a Deus. E ela: Se acovarde não! Catirina reinava pujante na maior felicidade. Até mais ver.

 

Frida Kahlo: A coisa mais importante para todos em Gringolandia é ter ambição e se tornar ‘alguém’, e francamente, eu não tenho a menor ambição de me tornar ninguém... Nada é absoluto. Tudo muda, tudo se move, tudo gira, tudo voa e vai embora... Nada vale mais do que rir. É força para rir e abandonar-se, ser leve. A tragédia é a coisa mais ridícula... No final do dia, podemos suportar muito mais do que pensamos que podemos... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Mia Couto: Carregamos o nosso passado como uma doença e o nosso presente parece estar conectado com um culto pela velocidade, que não nos faz refletir sobre o que nós somos... Todas as influências são parte de mim, que dão vazão na palavra, que constrói e inventa... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Aza Njeri: O Brasil continua sendo regido por trinetos de escravocratas herdeiros do lusotropicalismo freyriano... Todos nascemos com um Sol, que deve ser cuidado para manter a potência... Veja mais aqui.

 

A MINHA GENTE

Imagem: Acervo ArtLAM.

A minha gente \ Parece ter brotado \ Desta terra seca \ Brotada dos vulcões \ Nascida de uma concha \ Que o mar depositou na areia. \ A minha gente \ Tem rugas de olhar o longe \ Rugas de rir \ De sofrer \ E de morrer \ As de morrer são mais bonitas \ Provam o renascer.

Poema da premiada escritora cabo-verdiana Eileen Barbosa (Eileen Almeida Barbosa), que é autora de Eileenístico (2007) e incluída a na antologia Africa39: New Writing from Africa South of the Sahara (Ellah Allfrey, 2014). Edita o blog Soncent.

 

JORNADA DE SEU PRÓPRIO CAMINHO - Precisamos de espaço para discutir verdades sombrias não ditas e desconfortáveis... Quando eu era mais jovem, eu gostaria de ter sido informada com mais frequência que eu estava certa e nada estava errado comigo, que eu era merecedora de tudo o que este mundo tem para oferecer, e que minhas visões para o meu futuro eram dignas de busca... Devemos ter a audácia de aumentar a frequência de nossas verdades... Eu sei intimamente a luta de tentar viver sua vida e ser você mesma enquanto sente a pressão de uma comunidade inteira sobre seus ombros... Como uma ativista que usa a narrativa para combater o estigma, sempre fui inflexível de que contamos nossas próprias histórias... Para mim, como ativista e contadora de histórias, estou muito centrada em garantir que mostremos a cumplicidade da experiência humana que está enraizada nas experiências trans da minha comunidade... Pensamento da escritora, cineasta e ativista havaiana Janet Mock. Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

 

AMPLITUDE DE ATENÇÃO – [...] É hora de repensar nossa relação com as tecnologias pessoais. Precisamos mudar o foco: em vez de buscar maximizar a produtividade humana com nossos dispositivos, devemos utilizá-los para manter um equilíbrio psicológico saudável, sem deixar de alcançar nossos objetivos. [...] Planeje seu dia levando em conta que você possui recursos mentais limitados e sabendo que dedicar um tempo para recarregá-los não só ajudará a reduzir o estresse e a resistir melhor às distrações, mas também aumentará sua criatividade. Sabemos como diferentes atividades — como estar com a família ou amigos, organizar um evento complexo ou caminhar na natureza — afetam nossa energia física no mundo real. No mundo digital, o que drena sua energia mental? Quais atividades repõem seus recursos? Que tipo de tarefa mecânica ajuda você a relaxar? Ao final do dia, você quer se sentir cheio de energia e com uma atitude positiva. Evite chegar ao início da tarde com suas reservas de energia já no limite. [...] Sabemos, pela gestão de projetos, que geralmente ocorrem atrasos e que as tarefas quase sempre levam mais tempo do que o previsto. Além disso, não há espaço para incluir o bem-estar humano nos cronogramas de tarefas. Precisamos, em vez disso, reaprender como estruturar o dia no mundo digital do século XXI. Isso deve incluir estratégias para evitar a exaustão e promover o bem-estar, bem como compreender o seu próprio ritmo de estados de atenção e o fato de que você dispõe de recursos cognitivos limitados e preciosos. [...] Todos sabem o que é a atenção. É a tomada de posse pela mente, de forma clara e vívida, de um dentre o que parecem ser vários objetos ou linhas de pensamento simultaneamente possíveis. A focalização, a concentração da consciência, são da sua essência. Mas, o que também é importante, James acreditava que a nossa escolha sobre aquilo a que prestamos atenção tem consequências, uma vez que construímos a nossa experiência de vida dessa maneira: "Milhões de elementos da ordem externa estão presentes aos meus sentidos, mas nunca chegam realmente a fazer parte da minha experiência. Por quê? Porque não despertam o meu interesse. A minha experiência é aquilo a que decido prestar atenção. Apenas os elementos que noto moldam a minha mente — sem um interesse seletivo, a experiência seria um caos absoluto."Em outras palavras, James acreditava que aquilo a que decidimos prestar atenção passa a fazer parte da nossa experiência vivida. Posso estar caminhando em um belo jardim com o celular na mão. Estou trocando mensagens com um amigo e tentando escrever corretamente, desviando do corretor automático, que muitas vezes adivinha errado. São as mensagens que ficam registradas na minha experiência, e não a maciez do solo, o trinado da toutinegra ou o vermelho-escarlate das azaléias. Concentrei minha atenção nas mensagens; eu poderia estar até na Times Square. Para James, então, à medida que transitamos pelo mundo, deparamo-nos com uma infinidade de estímulos variados e selecionamos, por vontade própria, aquilo em que vamos focar. Em outras palavras, podemos controlar onde depositamos nossa atenção. Ah, quem dera fosse tão fácil quanto James imaginava. [...]. Trechos extraídos da obra Attention Span: A Groundbreaking Way to Restore Balance, Happiness and Productivity (Hanover Square Press, 2023), da psicóloga e professora estadunidense Gloria Mark (Gloria Janet Mark), autora de mais de 200 artigos de pesquisa científica, que a fizeram reconhecida por sua pesquisa sobre computação social e os impactos sociais da mídia digital.

 

O UNIVERSO LITERÁRIO DE CLARICE LISPECTOR - Pensar é um ato. Sentir é um fato... Quem nunca se perguntou: sou um monstro ou é isso que significa ser uma pessoa?... Você sabia que, às vezes, a esperança consiste apenas em uma pergunta sem resposta?... Viver não é ter coragem; saber que você está vivendo, isso sim é coragem... Minha vida, a mais verdadeira, é irreconhecível, extremamente interior, e não há uma única palavra que lhe dê sentido... A única verdade é que eu vivo. Sinceramente, eu vivo. Quem sou eu? Bem, isso já é demais... Enquanto eu tiver perguntas sem resposta, continuarei escrevendo... Pensamento da escritora e jornalista ucraniana-judaica, autodeclarada pernambucana brasileira, Clarice Lispector (Chaya Pinkhasivna Lispector – 1920-1977). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

ALCEU VALENÇA: 80 GIRASSÓIS, 50 ANOS DE CARREIRA

[...] Palco é vitamina. É alegria, harmonia. É comunicação. Muitas vezes, me encontro cansado, fatigado, mas quando chego ao palco é aquela energia absurda. Aí, viro o menino travesso, traquina, meio maluco. E adoro sê-lo. [...].

Trecho extraído da entrevista concedida ao jornalista Danilo Casaletti (Estadão, 2026), pelo cantor, compositor, instrumentista e advogado, Alceu Valença (Alceu Paiva Valença), que está em turnê pelo país, comemorando os seus 80 girassóis e a publicação do livro Pelas Ruas Que Andei: uma biografia de Alceu Valença (2023), escrito pelo jornalista Julio Moura e tema do documentário Vivo 76 (2026), dirigido pelo conterrâneo Lírio Ferreira. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

&

ARTE NA ESCOLA: ARTESANATO

A professora Fátima Portela realizou com os alunos do 6º e 9º anos, da Escola CAIC, de Palmares (PE), trabalho de artes por meio da expressão artística do artesanato, numa homenagem aos artesãos locais, com a confecção de enfeites juninos. Confira detalhes aqui & mais aqui, aqui & aqui.

 


E veja mais Pernambuco aqui.



 


quarta-feira, outubro 25, 2023

DELMIRA AGUSTINI, ELIF SHAFAK, MASUD KHAN, GINÁSIO MUNICIPAL & PINTANDO NA PRAÇA

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

Tudo é inspiração, tudo tem som, cor e ritmo.

Ao som dos álbuns Attraction (1995), Night Train (Munich, 2002), Come Escape with Me (Munich, 2005), September Suite (Munich, 2005), Sketches (Munich, 2010), Twelve (In+Out, 2012), Blue Whisper (In+Out, 2015), Road to the Sun (AmFi, 2018) e Persistence (AmFi, 2020), da pianista Azerbaijani, Amina Figarova.

 

TANTO MELHOR SERÁ QUANTO MAIS OU MENOS – Para quem pelas lonjuras e latitudes abissais, tanto faz se perto ou não na direção das ventas, cipoadas de todo jeito: quem da carne à pedra bruta cant&verso noitedia luz&ar fosse a vez da voz. Reviravoltas, ah, é da vida, o que vai volta e depois se não entorta sobram as carpideiras com seus olhares indigentes sobre o sangue derramado: o imortal partiu desta para não sei qual. Quantas vezes minha cabeça rolando pelas escadarias, escondia o medo mesmo que tivesse tomado de pânico do mundo no maior pavor! Talvez hesitações, talvez: quem não cometeu um grave erro por não ter escolha, nem era possível predizer. Fiz o melhor que pude, sabia, ainda era pouco, carga pesada demais por castigo. Eis o desejo entrando pela porta com Clarice Lispector: As coisas obedecem ao sopro vital. Nasce-se para fruir. E fruir já é nascer... de repente as coisas não precisam fazer sentido. Satisfaço-me em ser... E sou como se o pudor fugisse pela janela, como quem livrasse o raio num seixo abrigo, outro seria triz e vento: como quem morresse para ressuscitar outro no mesmo instante, nem queria que me vissem assim, porque já Denise Levertov ao ouvido: Gosto de encontrar o que não se encontra imediatamente, mas está dentro de algo de outra natureza, em repouso, distinto...Quem diria não ao ódio e o amor fizesse festa das entranhas e estrelas sorrissem o prêmio da vida. Quem não Sylvia Plath: Ninguém no caminho, e nada, nada a não ser amoras... Talvez quando nos encontramos querendo tudo, é porque estamos perigosamente perto de não querer nada... Tanto melhor se bem soubesse o que de mais fosse ao menos real: o filho vale impressão de pai ou não. E era Nêmesis nua e com derrisão na janela da insônia... Suas mãos cheiravam a saudade e inventavam fragrâncias agradáveis. Sabia da excentricidade da paixão, ladra de corações e o seu revide escarlate: quem da mão promove aceno pra de si compartilhar caminhos. Também tinha a minha história de sobrevivência, segui o curso e transbordei, coração saindo pela boca cheia de palavras sem ter onde despejar e sucumbindo ao inexorável - apenas tentei trilhar meu próprio destino e me reconciliar comigo mesmo. Talvez o mundo não seja o inferno que se vê e vive, talvez. Até mais ver.

 

DOIS POEMAS

Imagem: Acervo ArtLAM.

O NÓ: O idílio deles era um longo sorriso de quatro lábios... \ No colo quente da loira primaveril \ Eles se amavam tanto que entre seus dedos sábios \ A forma divina da Quimera pulsou. \ Nos palácios luminosos das tardes calmas \ Eles falavam uma língua que parecia chorar, \ E beijaram-se profundamente até morderem a alma!... \ As horas caíram como flores douradas, \ E o Destino interpôs suas duas mãos geladas... \ Ah! Os corpos cederam, mas as almas trançaram \ Eles são o nó mais intricado que já existiu... \ Em luta com suas loucas complicações sobre-humanas \ As Fúrias da vida quebraram suas mãos \ E Ananké cansou seus dedos supremos...

TUA BOCA: Eu estava fazendo um trabalho divino, na rocha \ Crescente do Orgulho. \ Da vida distante, \ Alguma pétala vívida voou para mim pela manhã, \ Alguns beijos durante a noite. \ Tenaz como um louco, \ Minha obra divina na rocha secou. \ Quando sua voz derrete como um sino sagrado \ Na nota celestial a vibração humana, \ Ele estendeu seu laço dourado até a borda da sua boca; \ — Maravilhoso ninho de vertigens, sua boca! \ Duas pétalas de rosa fechando um abismo…\ — Trabalho, trabalho de glória, doloroso e leve; \ Tecido onde meu espírito se tramava! \Você permanece na orgulhosa cabeça da rocha, \ E eu caio, sem fim, no abismo sangrento!

Poemas da poeta uruguaia Delmira Agustini (1886-1914), Veja mais aqui.

 

AS QUARENTAS REGRAS DO AMOR – [...] Tente não resistir às mudanças que surgem em seu caminho. Em vez disso, deixe a vida viver através de você. E não se preocupe, pois sua vida está virando de cabeça para baixo. Como você sabe que o lado que você está acostumado é melhor do que o que está por vir? [...] O passado é um redemoinho. Se você permitir que ele domine o seu momento presente, ele o absorverá. O tempo é apenas uma ilusão. O que você precisa é viver este exato momento. Isso é tudo que importa. [...] Coisas que podem parecer maliciosas ou infelizes são muitas vezes uma bênção disfarçada, enquanto coisas que podem parecer desagradáveis podem ser prejudiciais a longo prazo. [...]. Trechos extraídos da obra The Forty Rules of Love (Penguin, 2015), da escritora turca Elif Shafak.

 

A EXPERIÊNCIA DOS SONHOS – [...] Sei o que é o domingo para um homem pobre que trabalha. Sei, principalmente, o que é a noite do domingo e se pudesse dar um sentido e uma figura àquilo que sei, poderia fazer de um domingo pobre uma obra de humanidade. [...]. Trecho extraído da obra De l’Expérience du Rêve à la Réalité Psychique - Le Soi Cachê (Gallimard, 1976), do psicanalista paquistanês Masud Khan (1924–1989).

 

GINÁSIO MUNICIPAL

[...] Aos 75 anos da História do Ginásio Municipal, recheada de eventos, a marca que criou para a educação palmarense o torna maior do que é pela capacidade de sempre abrir suas portas e janelas a quem sempre desejou aprender [...].

Trecho extraído da obra História do Ginásio Municipal de Palmares (Rascunhos, 2023), do professor e escritor Marcondes Calazans. Veja mais aqui, aqui e aqui.

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Pintando na Praça

No próximo dia 28 de outubro, a partir das 9h, acontecerá na Praça Paulo Paranhos, centro de Palmares, mais uma edição do projeto Pintando na Praça, uma realização Instituto de Belas Artes Vale do Una (IbaValeUna), que é uma associação de caráter social, educacional, artístico e cultural, presidido pelo poeta e artista plástico Paulo Profeta, e é realizada anualmente desde 2010, tendo por objetivos principais o de formação e capacitação de artistas e arte-educadoras nas áreas de artes visuais, animação e empreendedorismo cultural; promoção da cultura, defesa e conservação do patrimônio histórico e artístico, entre outros. O projeto além de Palmares também já contemplou diversos municípios pernambucanos, não só contando com atividades e exposições de artistas pernambucanos de renome nacional, como revelando artistas locais e da região Mata Sul de Pernambuco, entre outras regiões do estado. A instituição ainda desenvolve atividades na Escola de Belas Artes Vale do Una, dispondo de cursos e oficinas de Pintura Artística I, Desenho Artístico I, Modelagem Tridimensional em Argila, Técnica de Modelagem, Encadernação Artesanal, Serigrafia Artística através de Técnicas Artesanais, Técnica de Marcheteria com Folheado e Produtos de Resina em Poliéster, como também exposições oriundas do BarroFino, com peças artesanais em barro, entre outras atividades. SERVIÇO: Evento: Pintando na Praça em Palmares. Data & horário: 28/10, a partir das 9h. Onde: Praça Paulo Paranhos – Palmares – PE Contato: (81) 98853-0231. Veja mais aqui, aqui e aqui.

 

POESIA VITAL ABSOLUTA

Lançado recentemente durante a segunda da edição da Feira de Livros & Artes dos Palmares (FLIARP), o livro Poesia Vital Absoluta (CriaArt, 2023) já está disponível para os interessados. Veja mais aqui, aqui e aqui.

 



terça-feira, fevereiro 18, 2020

NÍKOS KAZANTZÁKIS, JURGA IVANAUSKAITĖ, MAX KLINGER & SOM AO REDOR


O TEMPO PASSA E A GENTE NA MESMA DESDE NUM SEI QUANDO – UMA: AGORA É TARDE! ANTES DELA, OUTRA INÊS JÁ ERA MORTA – Todo mundo já ouviu: agora é tarde, Inês é morta! Pois é, isso porque lá pelo século 14, o primeiro D. Pedro estava enrolado com a dama de companhia Inês de Castro. Ele foi obrigado a casar com outra, a Constança, e assim, tornaram-se amantes. Como sempre ocorre aqui, ali e acolá, deu o maior escândalo. De repente, ela aparece degolada. Como? Quando? Onde? Quase como ainda hoje em dia, soube-se logo quem mandou e quem executou. Ele vingou-se dos assassinos, arrancando o coração deles com as mãos. Aí, só depois de morta, ela tornou-se rainha. É isso. Antes dela, porém, uma outra Inês, a Inês Visconti, senhora de Mântua e esposa do rei, teve sina semelhante. Foi assim: o pai dela era um déspota que vivia em guerra contra o papado. Por conta disso, foi deposto, aprisionado e morreu envenenado. Morreu, mas o prestígio ficou. Ela, aos 13 anos, casou-se com outro menino de 12, que era filho dum rei. Aí, um belo dia, casamento consumado, o marido armou uma trama: precisava romper a aliança com o pai dela por outra mais vantajosa e, por conta disso, acusou-a de traí-lo com um certo cavaleiro de nome Antonio da Scandiano. Pelo crime de adultério, os supostos amantes adúlteros, foram executados no dia 7 de fevereiro de 1391 e enterrados na Piazza Pallone. O impune se deu bem. Cá comigo: isso se repete todo dia até hoje, hem? DUAS: OUTRA BRABA - Não menos diferente foi o destino de Hypatia de Alexandria, lá pelos 4 séculos depois de Jesus. Isso porque, entre outras e tantas coisas, ela costumava dizer: Defenda seu direito de pensar, porque pensar de maneira errada é melhor do que não pensar. Foi o bastante para o cristianismo ceifar a vida dela. Ih, os tempos atuais não são muito diferentes desse tempo não. TRÊS: SERÁ QUE A GENTE PODE INVENTAR UMA NOVA FORMA DE VIVER? – Sei não, hem? Entre mentiras disfarçadas de verdades e verdades que se produzem encapadas dum bocado de equívocos interpretativos, valho-me de Clarice Lispector: Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não: quero uma verdade inventada. E vamos aprumar a conversa! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS: [...] tão logo nascemos, principia o esforço de criar, de tramar, de fazer da matéria vida: a cada instante nascemos. Por isso muitos proclamaram: O escopo da vida efêmera é a imortalidade. Nos transitórios corpos vivos, lutam duas correntes: uma, a ascendente, rumo à síntese, à vida, à imortalidade; segunda, a descendente, rumo à dissolução, à matéria, à morte. [...] E as duas correntes se originam no imo da substância primeva. De começo, a vida surpreende; parece uma reação ilegítima, desnaturada e efêmera às trevas das fontes eternas; mas, quando nos aprofundamos, percebemos que a Vida é o próprio curso, sem princípio nem fim, do Universo. Se assim não fosse, de onde viria a força sobre-humana que nos lança do incriado ao criado e nos impele - plantas, animais, homens - à luta? As duas correntes antagônicas são pois sagradas. Cumpre-nos, então, aceder a uma visão que articule e harmonize estes dois prodigiosos impulsos sem princípio nem fim, e por ela regular o nosso pensamento e ação. [...] Entre todos os impulsos de Deus, qual o que o homem pode perceber? Somente este distinguimos: uma linha rubra sobre a terra, uma rubra linha de sangue que luta por ascender, da matéria inanimada às plantas, das plantas aos animais, dos animais ao homem. Esse indestrutível ritmo pré-humano é o único curso visível, sobre esta terra, do Invisível. Plantas, animais e homens são os degraus que Deus criou para poder pisar e ascender. Árdua, terrível, infinda ascensão. Nesse assalto, Deus vencerá ou será vencido? Existe vitória? Existe prêmio? Nosso corpo se arruinará, voltará ao seio da terra, mas Àquele que por um instante o atravessou, que acontecerá? [...] Não me importa que rosto deram outras épocas e outros povos à prodigiosa essência sem rosto. Encheram-na de virtudes humanas, de recompensas e punições, de certezas. Deram um rosto às suas próprias esperanças e temores, impuseram um ritmo à sua própria anarquia, encontraram uma justificação superior para viver e labutar. Cumpriram seu dever. [...] É, pelo contrário, homem e mulher a um só tempo, mortal e imortal, excremento e espírito. Concebe, fecunda e mata; amor e morte, conjuntamente, torna a conceber e matar - e em largos passos de dança vai além dos limites da lógica, onde não há lugar para antinomias. Meu Deus não é onipotente. Peleja, enfrenta o perigo a todo momento, treme, tropeça em cada ser vivo, grita. É incessantemente vencido, mas torna a erguer-se, sujo de sangue e terra, e recomeça a luta. [...] Meu Deus não é todo bondade. Está cheio de aspereza, de selvagem retidão, e é sem piedade alguma que escolhe sempre o melhor. Não se compadece, não se importa nem com seres humanos nem com animais, muito menos com virtudes ou ideias. Ama-os por um instante, esmaga-os para sempre e segue adiante. [...] Meu Deus não é onisciente. Seu cérebro é um novelo de luz e trevas que ele forceja por desembaraçar dentro do labirinto da carne. [...] Havia uma prisão; a prisão se rompeu, foram libertadas as forças terríveis ali encerradas e o ponto não existe mais! Esse grau último da ascese se chama Silêncio. Não porque seu conteúdo seja o supremo, inexprimível desespero ou a suprema, inexprimível alegria e esperança. Nem porque seja o supremo conhecimento que não se digna a falar, ou a suprema ignorância que não consegue falar. Silêncio quer dizer: Cada qual, após cumprir seu tempo de serviço como combatente, chega ao mais alto cimo do esforço - passados os combates, não luta mais, não grita mais: amadurece por inteiro, silenciosamente, indissoluvelmente, eternamente, com o Universo. [...] não existe doutrina, não existe Redentor para abrir caminho. Não existe tampouco caminho a ser aberto [...]. Trechos extraídos da obra Ascese: Os Salvadores de Deus. (Ática, 1997). do escritor e pensador grego Níkos Kazantzákis (1883-1957). Veja mais aqui & aqui.

NO AVIÃO – Aqueles sentados perto / a saída de emergência / deveria abandonar tudo / mas esperança. / Sem dúvida sem dúvida / bolsas e maletas / impedirá uma queda de cabeça / do forro que cai. / Envoltórios, mantas ou mantos / também não são necessários, / espíritos interespaciais famintos / pode ficar enredado neles. / As barbas dos poetas / são menos do que desejáveis, / o diabo os agarra / em primeiro lugar. / É aconselhável fazer a barba / até pêlos nas pernas, / quando eretos eles se tornam afiados / e pode rasgar as nuvens. / É necessário / tire todas as roupas / estar nu como recém-nascidos, / amantes ou cadáveres. / A nudez é inevitável / em momentos cruciais / como no Paraíso e no Inferno da Bosch / ou no Juízo Final de Memling. / Todo mundo caiu uma vez / já está fervilhando / com sorrisos cruéis / entre as asas da hélice. Poema da escritora, pintora e fotógrafa lituana Jurga Ivanauskaitė (1961-2007).

SOM AO REDOR
O premiado longa-metragem Som ao redor (2013), dirigido por Kléber Mendonça Filho, conta a história da chegada de uma milícia de rua no bairro de Boa Viagem, zona sul do Recife e a reação dos moradores com a sua atuação na segurança local. Na verdade, a vida dos residentes de uma rua de classe média de Recife toma um rumo inesperado quando uma empresa de segurança particular é contratada para trazer paz aos moradores. Para alguns deles, a presença dos guardas cria mais tensão do que alívio. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do escultor, pintor e artista gráfico alemão Max Klinger (1857-1920). Veja mais aquiaqui & aqui.

A ARTE PERNAMBUCANA
A música do pianista, maestro e compositor Marlos Nobre aqui, aqui e aqui.
Educação como prática da liberdade de Paulo Freire (1921-1997) aqui.
A poesia de Jayme Griz aqui, aqui & aqui.
A arte de Maurício Silva aqui.
A sedutora da noite aqui.
O município de Quipapá aqui, aqui & aqui
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segunda-feira, março 11, 2019

IGNÁCIO DE LOYOLA BRANDÃO, DAREL VALENÇA LINS, CHELPA FERRO, POETA PICA PAU, VALE DO UNA & IGARAPEBA.


O NORDESTINO POETA PICA PAU – Lá pelo início dos anos 1970, conheci aquele que vinha zambeta de venta empinada pela Rua Nova, carregando baldes atrás de lavagem pra porcos. De casa em casa gritava: Tem lavagem? De dentro vinha resposta, postiva ou negativa e, dependendo disso ele se ria ou saia maldizendo tudo. Era, então, Zé Pilintra e não arriava na beca, prumode o quê?: Prumode que é que é, qui nós home mata a mata? / Se a mata nus encanta, lugar onde o pássaro canta / com a lenda do Pai da Mata. / Quanto mais se mata a mata, a mata se consome / o home matando a mata, a mata ao home faz falta / e o mundo sentindo fome. / A mata senta a falta do grande potencial / da madeira do angico, e também do tico-tico / do bico do Pica Pau. Isso prova que mesmo parecendo um chato arengueiro, era cabra, no fundo, gente boa, só que se amostrava com a peste: Sou cria da mesma praça / que criou-se Giramundo / da terra sou oriundo / de um trovador de raça / eu sou pão da mesma massa / de um cantador esperto / sou troncho, torto sou certo / sou leso e não sou banana / mas sou a Besta Fubana / do escritor Luiz Berto. Era os tempos de estudante do Ginário Municipal, das estripulias licenciosas e maloqueragens adolescentes. Pois bem, tempo vai, tempo vem, a gente se danou na buraqueira do mundo e, uma década depois, se reencontra: pinga, meiota, cajá, caju, siriguela, bunda de tanajura e lavando tudo com cerveja, pilhéria, versejada e uma viola de 12 cordas Del Vecchio no meio da camaradagem. Diz ele que eu afanei o instrumento desencordoado, não foi, na verdade. Queria mesmo dar umas cipoadas boas no instrumento pra ver se aprendia direito. Não deu, nunca passei de poetastro, mas graças a ela, um dia depois de uma tocada boa, lá ia eu desprevenido pela rua e um cão que parecia um leão me atacou e nela me protegi. Resultado: do medo e quase que cagado, o ataque torou o braço da viola no meio que até hoje está num canto da casa de um consertador amigo. Por conta disso, a gente manga um do outro até hoje: eu das minhas besteiras de bestão tapado sem competência no métie; ele, da sabedoria, não perde uma, desaforo que seja, na ponta da língua arrelia de cima sem arriar no badalo: Guará gago não gagueja, e gato gago não mia. Eu que sempre fui um poeta de água doce, nunca acompanhei os motejos poéticos dele: Um grande furacão eu enfrentei / me deparei sem querer com um vulcão / antes de entrar em erupção / nas entranhas da terra emburaquei / quando nas placas tectônicas passei / o segredo já estava desvendado / os minérios que foram encontrados / são riquezas do poder da natureza / observando assim toda beleza / quando dei fé já tava do outro lado. De tão metido, vez em quando, no meio das pinoias e trocas de ofensas, ele sapecava no pau da minha venta um acrótisco: Não há dinheiro que pague / o valor que a gente tem, / ricos de literatura / dádiva de Deus amém, / ensinamento divino / sapiência do além, / talento cabra da peste / inspiração com encanto / nunca sentimos tanto / orgulho deste Nordeste. Jogava mais na minha lata o quanto honrava a tradição instaurada pelo poeta Manuel Bentevi: Me criei com o Pai da Mata / e Cumade Fulosinha / levei a vida todinha / vendo o Saci Pererê / Bumba meu boi pra se ver / tem a Mula sem Cabeça / espero que não esqueça / do meu tempo de menino / vou seguindo meu destino / levando a lenda às alturas / o folclore é a cultura / de um povo nordestino. / Baião de Luis Gonzaga / xaxado de Lampião / são danças da região / que deixa a gente animado / pastoril coco de roda / maracatu e reisado / lá na festa do Divino / se ouve o bater do sino / convidando as criaturas / o folclore é a cultura / de um povo nordestino. Pra você ter uma ideia, o sujeito não cabe em si de tão folgado, não deixando qualquer loa sem os respectivos bregues: Encontrei uma aguardente / cana boa de Sergipe / curava tosse e gripe / até tristeza da gente / com uma dose somente / suavizava um rouco / pra quem bebesse pouco / era remédio e curava / mas pra quem exagerava / era pô bôrocotôco. Feito pinto no lixo em qualquer faustoso repasto, o enxerido solta uma lapa de língua e saçarica ineivado: Chapéu de otário é marreta / comer de esperto é mingau / quem é otimista sonha / o realista é quem faz / quem trabalha Deus ajuda / cochichou cachimbo cai [...] Tristeza traz depressão / e toda dúvida é incerta / a chuva fina não molha / depois da curva vem reta / com rimas de faz poesias / inspiração d’um poeta. E para mais me humilhar, arruma a gola no vinco e a fivela nos quartos, enche o pulmão com afinco e se amostra todo ancho cheio do Tataritaritatá: Joaninha a filha mais nova / de Gregório cabra danado / que quando ficava zangado / leva 1, 2,3 pra cova / eu quis tirar essa prova / lhe chamei pra namorar / ela disse vou aceitar / mas tenho quase certeza / que meu pai vai te matar / eu fiz uma festa daquelas / embriaguei o pai dela / me agarrei com a donzela / e tari, tari, tari, tatá. Não para por aí, afina o gogó e pisa forte no martelo: Uma casa de taipa chão batido / o terreiro arrudiado de fulô / na janela uma cortina de tricô / uma cerca de arame retorcido / uns cabritos no pasto distraídos / no alpendre alguém bate o pilão / no roçado a dibúia de feijão / no fogão a panela à cuziar / e sem ter como isso registrar / tirei foto com a imaginação. Pois bem, esse alagoano de Passo de Camaragibe chegou menino em Palmares, fincou os pés no chão proseando descarado: O tum, tum tum no pilão / de longe se escutava / na chaleira mão botava /  o pó e água no fogão / com fartura de montão / para mesa ela trazia / a gente se reunia / pro alimento primeiro / ainda hoje eu sinto o cheiro / do café que mão fazia. Montado numa lapa de bigode não para no amostramento: Alerto as autoridades, / e doutores competentes / para voltasse ao sistema / que já salbou muita gente / porém com estilo ótico / vi no diagnóstico / que o SUS está doente. Com o tempo, como um bom embeiçador da tirana, tornou-se técnico em produção de açúcar e álcool e, também, em logística e gestão de pessoas. Graduou-se em Teologia para ampliar seu arcabouço intelectual: afinal, pro cabra ser bom tem que entender de tudo, até das coisas do outro mundo que ele se diz doutor. Publicou uns livros. Destes, eu tenho um livro e um cd: Feitos d’versos (Outras Palavras, 1995) e Umas & outras. O restante deles, não sei se por pirangagem da sua mão de figa, nem eu tenho, nem na biblioteca ou na Academia onde ele ocupa uma das cadeiras de imortal, podem ser encontrados: Sussurros da mata (Bagaço, 1986), Num rio de poesias (Universitária, 1987), Despertar no rincão, Matutando na literatura e Prosa de terreiro. S’assente, meu véio, faça isso não. Agora ele reaparece com a obra Nordestino sim senhor (JC, 2018): Tinha um rio, uma pedra, e um peixe / o rio corria, a pedra crescia, o peixe nadava / a agua batia e a pedra molhava / e na correnteza a peixe subia / o rio foi poluído / a pedra explodida / e o peixe sumido / puta que pariu, quem diria! Só tenho agora uma coisa a dizer: esse é dos bons, afianço (quem sou eu? Ah, bicho besta metido às pregas), esse José Maria Sales, o poetamigo Pica Pau. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS: O QUE É SER BRASILEIRO
[...] e não me senti brasileiro. O que é ser brasileiro? Tomar deste sorvete? Falar português? Levar vantagem, guardar dólar para valorizar, aceitar passivamente a inflação, aplicar no open, invejar a corrupção impune, usar tanga minúscula exibindo os pentelhos, saber estourar pipoca, jogar na loto, saber com quem está falando, procurar mordomia, assistir ao Fantástico, ter caderneta de poupança, tomar rabo de galo, achar caipirinha de vodca o máximo, fritar linguiça de porco, não pagar prestação da casa própria, se pendurar num emprego público, ter sucesso, adorar voleibol, ter todos os cartões de crédito, comer abobrinha, mandioca frita, dar um jeitinho, ter um contrabandista amigo para as bebidas, curtir o carnaval, usar jeans com grife estrangeira, fingir que não se incomoda com o que Roberta Close tem no meio das pernas, ter fé em Nossa Senhora Aparecida, ser doutor, mentir como o governo, acreditar na macumba, sacanear, desmentir como o governo, devorar dobradinha às quartas-feiras e feijoada aos sábados, adorar bundonas, dizer que come todas as mulheres, acreditar que ninguém pode com o brasileiro? [...].
Trecho extradído da obra O beijo não vem da boca (Global, 1985), do escritor e jornalista Ignácio de Loyola Brandão, Veja mais aqui, aqui e aqui.

A ARTE DE DAREL VALENÇA LINS
É a cor que muda as sensações e o clima do acontecimento. Pode atribuir um clima dramático, ou poético, ou sombrio. Pensamento de Darel Valença Lins
As prostitutas [...] dizem coisas através da maneira como se vestem, o que traduz o interior de cada uma delas [...] Não é por necessidade erótica que fico atraído pelo tema, mas pela forma, pelo sensualismo das roupas, do penteado, da maquilagem. Esses aspectos me causam grande interesse visual e muito pouco sensual. Muita gente procura fazer sensacionalismo, como se eu fosse um cara que frequentasse habitualmente os bordéis, tomasse absinto e enchesse a cara [...] Trechos de uma entrevista de Darel Valença Lins ao Jornal Auxiliar, São Paulo, 01/07/1985.
[...] As cidades inexistentes que ele cria e que parecem despovoadas, os seres humanos esmagados pela máquina – e tudo isso na atmosfera penumbrosa do sonho, um realismo que nós reconhecemos como se fosse nosso: beleza e pesadelo marcam a obra de Darel. Como se podem unir estas duas palavras – só Darel sabe porque ele vive seus sonhos, não como homem irreal, mas como um homem. Quem habita as enormes cidades, senão o próprio Darel que as sonha e idealiza? Sonhar e idealizar são o ideal de um homem, de uma mulher. Em Darel, além da parte artística propriamente, há uma preocupação com a totalidade do ser humano em sua plenitude. O choque impotente do indivíduo diante da máquina. As cidades escuras onde uma ou outra janela de luz acesa atestam que elas são habitadas. Psicanalisando ou não, trata-se de um grande artista e tenho que falar no resplandecente mistério de sua obra. Dela emana, tanto da gravura, quanto do óleo e do desenho o grande mistério de viver [...] Palavras da escritora Clarice Lispector, em Diálogos Possíveis. Darel, revsita Manchete, São Paulo 07/1978.
A arte do premiado gravurista, pintor, desenhista, ilustrador e professor Darel Valença Lins (1924-2017), que foi professor da Enba, Faap e Masp, atuou como ilustrador em diversos periódicos, como a revista Manchete, Senhor e Playboy, e os jornais Última Hora e Diário de Notícias, entre outros. Foi encarregado das publicações da Sociedade dos Cem Bibliófilos do Brasil, ilustrou livros dos maiores escritores da literatura brasileira, como Graciliano Ramos, Dalton Trevisan, Antonio Maria e Clarice Lispector. Conviveu com Iberê Camargo, Cândido Portinari e Oswaldo Goeldi, entre outros. Fonte: GORINO, Vitor Hugo. Litografia artística brasileira: Lotus Lobo e Darel Valença Lins (Universidade Estadual Campinas, 2014). Veja mais aqui, aqui e aqui.

A MÚSICA DE CHELPA FERRO
O coletivo Chelpa Ferro foi criado em 1995 e reúne a trajetória de renomados profissionais, como o pintor Luiz Zerbini, o escultor Barrão e o editor de cinema Sérgio Mekler, aliando experiências pessoais que exploram possibilidades na produção de arte contemporânea brasileira, utilizando elementos sonoros justapostos aos visuais em suas obras. A abordagem interdisciplinar é revelada pela aparente desorganização meticulosamente orquestrada, criando espaço de fronteira entre os objetos articulados, o público e o som em suas performances, instalações e shows. Na obra Maracanã (2003), realizada no Museu de Arte Moderna (MAM), do Rio de Janeiro, replica por meio de música eletrônica experimental a emoção de um jogo de futebol e apropria-se do espaço com a grandeza da arena construída. Assim, na obra de Chelpa Ferro, a percepção convencional de música é desconstruída, criando uma nova linguagem sonora que, ao ser equalizada em função escultórica, assinala correspondências ativadas pela disposição e curiosidade do espectador. Já Acqua Falsa (2005), apresentada na 51a Bienal de Veneza, a obra incorpora a apresentação ao vivo com o improviso e interação com o público. A performance Autobang, na 27a Bienal de São Paulo (2002), o batuque gerado pelos porretes em ação é amplificado pelas caixas de som, produzindo distorções que se revelam na construção de fronteiras entre ruído e música, processo e resultados, espaço e escultura orienta a poética deste coletivo, a reflexão sobre o improviso, o reprocessamento e a criatividade da cultura brasileira. Já se apresentou em Havana (2003), em Porto Alegre, e possui 4 álbuns lançados nos anos de 1997, 2011, 2012 e 2013. A discografia do coletivo registra experimentações sonoras em shows ao vivo e publicado um livro com um panorama das criações do grupo. Veja mais aqui.
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VALE DO UNA - CAPOEIRAS, ONDE NASCE O RIO UNA
Veja mais aqui & aqui.
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IBA.VALE: ARTE EM IGARAPEBA
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A poesia do poeta Pica Pau aqui & aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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DIDI-HUBERMAN, LINDA DEANE, ADALYN GRACE & MARINÊS

    Imagem: Acervo ArtLAM .   Das loas & toadas no cavalo-marinho... - O afamado artesão Tirésia já nasceu assim: cego e vaticinado...