terça-feira, junho 05, 2012

DRITËRO AGOLLI, MICHEL LAUB, ERICH AUERBACH, PTÁ-HOTEPE, MEIO AMBIENTE & LITERÓTICA

 
A arte da soprano lírico spinto italiana Renata Tebaldi (1922-2004), considerada uma das grandes figuras operísticas e uma das melhores sopranos de todos os tempos.

 


NEMÊSIS NUA – O que havia de ser estava ali e era o meu tugúrio, no qual emergiu Nêmesis, a inevitável – alada e bela, indignada, implacável. O seu olhar em riste trazia até mim todos os presságios. Aproximou-se desmesurada com a ameaça dos sortilégios. Acercou-se do meu desarme e se aprontou para o bote. Ouvi de seus lábios o hálito letal: bellum omnia omnes. Era a vingança inimiga e não entendia a razão. Era ali Têmis para impor todos os castigos e repetiu funesta por cinco vezes o rol de todas as minhas desgraças. Achegou-se mais e num gesto exato agarrou meu sexo destemida aristotélica e pronta para destituir qualquer que fosse o resto do meu orgulho: Ou me vence, ou lhe mato. Rivalizou altiva, inconquistável na minha ínfima felicidade, qual Ártemis indômita, pronta para desfechar golpes homéricos. Tão nefasta quanto tudo que sobrara da curiosidade de Pandora, fez-se Afrodite para vingar o que fui de Narciso, tão inalcançável quanto infligia em mim retaliações compensatórias por tudo que fora favorecido: a medida exata de se pagar bem ou mal e vice-versa. E do seu corpo a sensualidade da guerreira pronta para o ataque. Deu-se a nossa escaramuça de braços que se confundiam às garras dos que se pegam e retomam riscos indesvencilháveis, coxas que se entrançavam para arquear até a prostração, corpos que se serviam à pugna das moções vitoriosas, bocas que se digladiavam em devorar um ao outro, ventres que se enfrentavam na pugna do prazer. A contenda demorada serviu de gozo entre avanços e recuos, até que ela se fez Deméter para prover o que era justo no meu quinhão: concedeu-me a felicidade como testemunha do meu tempo e lugar. E se rendeu escrava para a celebração da nossa entrega. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui e aqui.

 


DITOS & DESDITOSSó fale quando tiver algo que vale a pena dizer. Ouvir beneficia o ouvinte. Se aquele que ouve escuta plenamente, então aquele que ouve se torna aquele que entende. Quem escuta se torna o mestre do que é proveitoso. Ouvir é melhor do que qualquer coisa, assim nasce o amor perfeito. Quanto ao homem ignorante que não escuta, não realiza nada. Ele equipara o conhecimento com a ignorância, o inútil com o prejudicial. Faz tudo o que é detestável, então as pessoas ficam com raiva dele a cada dia. Injustiça existe em abundância, mas o mal nunca terá sucesso a longo prazo. Siga seu coração toda a sua vida, não cometa excesso em relação ao que foi ordenado. Que seu coração nunca seja vão por causa do que sabe. Tome o conselho dos ignorantes, assim como o dos sábios... Pensamento do vizir egípcio Ptá-Hotepe (cerca de 2414-2375 aC), recolhido da obra The Living Wisdom of Ancient Egypt, de Christian Jacq, extraído da antiga obra literária egípcia As Máximas de Ptaotepe.

 

ALGUÉM FALOU: A dúvida nos leva à pesquisa e através dessa conhecemos a verdade... Escrever é um mal perigoso e contagioso. Pensamento do filósofo francês Pedro Abelardo (1079-1142), professava o conceptualismo na luta entabulada em torno da questão filosófica fundamental – as relações de pensamento e do ser – que adotou na escolástica a forma da Querela dos Universais. Em seu livro Sic et Non, reclama que a fé seja limitada por princípios racionais e pões em evidencia as contradições irredutíveis nas concepções das autoridades da igreja. Para sua época, este livro tinha um valor progressista e foram condenadas pela igreja. CONCEPTUALISMO: Corrente progressiva da escolástica medieval, não admitindo a existência de ideias gerais independentemente dos objetos. Distintos dos nominalistas, os conceitualistas admitiam a existência de conceitos, de noções gerais no pensamento, como formas particulares do conhecimento. QUERELA DOS UNIVERSAIS: Problema dos universais ou querela dos universais) é a designação dada ao debate, sustentado pelos historiadores da filosofia, sobre questão de saber se os universais são coisas ou meramente palavras. Esta questão divide os filósofos em realistas, como Platão, em que as espécies, como a espécie humana, são em certo sentido coisas, e em nominalistas, em que “espécie” não passa de uma palavra. O universal é um conceito filosófico que diz que existe algo que é partilhado por objetos particulares diferentes. Por exemplo, a circularidade é um universal que todas as coisas que são circulares partilham. Diz-se que os objetos circulares instanciam esse universal. Porfírio, em sua renomada obra Isagoge, irá se perguntar da seguinte maneira, que acabou por desenvolver a problemática anos depois: Além do mais, no que tange aos gêneros e às espécies, acerca da questão de saber: se são realidades subsistentes em si mesmas ou se consistem apenas em simples conceitos mentais; ou, admitindo que sejam realidades subsistentes em si mesmas, se são corpóreas ou incorpóreas e, neste último caso, se são separadas ou se existem nas coisas sensíveis e delas dependem. Platão argumentou que, não só os universais eram reais, como só estes existiam verdadeiramente. Foi no século XII que as perspectivas nominalistas passaram a ser apresentadas. Abelardo não duvidou que a hierarquia das espécies e dos géneros de Aristóteles e de Porfírio descrevesse corretamente a estrutura do mundo. Deixou claro que quando afirma que as palavras são universais, não se refere às palavras no sentido físico (os sons que emitimos quando falamos), mas às palavras como portadoras de significado. Foi na sequência dos trabalhos de Abelardo que os seus contemporâneos introduziram o termo nomen (nome), e a partir daqui o conceito de nominalismo. No século XIII, à medida que os escritos de Aristóteles sobre a alma e a metafísica se tornaram conhecidos, o nominalismo praticamente desapareceu. Tomás de Aquino e Duns Scot elaboraram várias formas sofisticadas de realismo, reconhecendo os universais como realmente existentes. Mas no século XIV o nominalismo voltou a ser recuperado, tendo sido Ockham o mais destacado dos nominalistas medievais. Ockham rejeitou a ideia aristotélica de que o conhecimento intelectual resultava de as nossas mentes serem informadas por universais derivados de objetos percepcionados. Argumentou que o nosso conhecimento do mundo exterior começa com uma apreensão dos indivíduos. Veja mais aqui, aqui e aqui.

 

MIMESIS – [...] O conceito de Deus mantido pelos judeus é menos uma causa do que um sintoma de sua maneira de compreender e representar as coisas [...] Nas histórias do Antigo Testamento, […] a sublime influência de Deus aqui atinge tão profundamente o cotidiano que os dois reinos do sublime e do cotidiano não são apenas realmente inseparáveis, mas basicamente inseparáveis [...] O que ocorre aqui, no romance do farol foi tentado em toda parte nas obras deste gênero, claro que nem sempre com a mesma introspecção e maestria: enfatizar o acontecimento qualquer, não aproveitá-lo a serviço de um contexto planejado da ação, mas em si mesmo; e, com isto, tornou-se visível algo de totalmente novo e elementar: precisamente a pletora de realidade e a profundidade vital de qualquer instante ao qual nos entregarmos sem preconceito. Aquilo que nele ocorre trate-se de acontecimentos internos ou externos, embora se refira muito pessoalmente aos homens que nele vivem, concernem também, e justamente por isso, ao elementar e comum a todos os homens em geral. Precisamente o instante qualquer é relativamente independente das ordens discutidas e vacilantes pelas quais os homens lutam e se desesperam. Transcorre por baixo das mesmas como via quotidiana. Quanto mais for valorizado, tanto mais aparece claramente o caráter elementarmente comum da nossa vida; quanto mais diversos e mais simples apareçam os seres humanos como objetos de tais instantes quaisquer, tanto mais efetivamente deverá transluzir a sua comunidade. Deve ser deduzível da representação indeliberada e aprofundante da espécie mencionada, até que ponto, por baixo das lutas, já agora as diferenças entre as formas de viver e de pensar dos homens diminuíram. Os estratos populacionais e as suas diferentes formas de vida tornaram-se inextricavelmente mesclados; já não há nem mesmo povos exóticos. [...] Por baixo das lutas e também através delas, realiza-se um processo de igualização econômica e cultural; ainda há um longo caminho a ser percorrido para se chegar a uma vida comum do homem sobre a terra, mas esta meta já começa a se tornar visível. E ela se torna mais visível e concreta já agora na representação desproposital, exata, interna e externa do instante vital qualquer dos diferentes homens. [...] o complicado processo de dissolução, que levou ao esfacelamento da ação exterior, à reflexão da consciência e à estratificação do tempo, parece tender para uma solução muito simples. Talvez ela seja demasiado simples para aqueles que, não obstante todos os perigos e catástrofes, e tanto por causa da sua riqueza vital como por causa da incomparável posição histórica que oferece, admiram e amam a nossa época. Mas estes são em número reduzido, e provavelmente não viverão para ver senão os primeiros indícios da uniformização da simplificação que se prenuncia. [...] O método da interpretação de textos deixa à discrição do intérprete dum certo campo de ação: pode escolher e dar ênfase como preferir. Contudo, aquilo que afirma deve ser encontrável no texto. As minhas interpretações são dirigidas, sem dúvida, por uma intenção determina; mas esta intenção só ganhou forma paulatinamente, sempre durante o jogo com o texto, e durante logos trechos, deixei-me levar pelo texto. [...] Cada capítulo trata de uma época; por vezes uma época relativamente curta, meio século, por vezes, também, uma época mais longa. Em meio a isso há frequentemente lacunas, isto é, épocas que não receberam nenhum tratamento, como é o caso da Antiguidade, que só me serviu de introdução, e dos primórdios da Idade Média, da qual demasiado pouco se conserva. Mais tarde também poderiam ter sido introduzidos capítulos sobre textos ingleses, alemães, espanhóis; teria tratado com prazer mais longamente do siglo de oro, e com muito prazer teria acrescentado um capítulo sobre Realismo alemão do século XX. [...]. Trechos extraídos da obra Mimesis — A representação da realidade na literatura ocidental (Perspectiva, 1971), do filólogo e crítico alemão Erich Auerbach (1892-1957).

 

A MAÇÃ ENVENENADA – [...] o que estou fazendo neste lugar, por que preciso estar aqui aos dezoito anos, tendo passado num dos vestibulares mais difíceis do Rio Grande do Sul, tendo uma banda e um estágio e eu de gorro e arma na mão protegendo um quartel pobre contra um inimigo que nunca existiu [...] o suicídio a uma espécie de alma artística e sensível, indefesa diante de um mundo não artístico e não sensível que o fez se dilacerar até encontrar lá dentro um vocabulário que pudesse dizer o que realmente queria [...] eu não tinha como adivinhar no que daria uma história nem tão incomum, um erro que pode acontecer, o azar que uma vez ou outra todo mundo acaba tendo, se ver diante da neurose, da loucura, do egoísmo de alguém que deixa para os outros uma conta que nunca terminará de ser paga [...]. Trechos extraídos da obra A maçã envenenada (Companhia das Letras, 2012), do escritor e jornalista, Michel Laub, compreendendo o segundo volume de uma trilogia que narra acontecimentos históricos de 1990, sucessor de “Diário da queda”, relatando a visão de um jovem sobre a própria vida na única apresentação da banda Nirvana no estádio do Morumbi(1993), a convivência com a primeira namorada (Valéria), o genocídio de Ruanda, contado pela visão de uma sobrevivente (Immaculée Llibagiza), e o suicídio do vocalista em 1994.

 

DOIS POEMAS - AGORA EU TENHO QUE APRENDER: Chegou a hora de aprender outra coisa, / Aprendi a chupar e dar os primeiros passos, / Aprendi a ser jovem e maduro, / Aprendi a envelhecer, a colocar e tirar os dentes. / Agora tenho que aprender a segurar bem a bengala / E apoie-se nele para sair de manhã, / Então uma lição de algo mais difícil me espera: / Aprenda a morrer também... O JOGO DO VERBO: Não cale a boca quando você não sente vontade de calar a boca, / Não insulte quando você não sentir vontade de insultar, / Não ria quando você não sente vontade de rir / Não chore quando não sentir vontade de chorar. / pare de chorar como uma freira / Quando você não precisa chorar! / pare de xingar como um lobo / Quando você não sente vontade de insultar! Poemas do escritor albanês Dritëro Agolli (1931-2017).

 


MEIO AMBIENTE –Em conformidade com Olavo Baptista Filho, Samuel Murgel Bracno, Roberto Carramenha, e Odete Medauer, desde o aparecimento do homem na crosta terrestre que ele explora a natureza, o seu ambiente. O Homo sapiens, que é um primata como os macacos e outros lêmures, apresenta-se diferente destes por aptidões e comportamentos. O seu cérebro desenvolvido permitiu, ao contrário das outras espécies animais, emancipar-se cada vez mais do meio ambiente, dominando e aproveitando-se de seus recursos, quando a ciência e a técnica habilitaram-no a modificar a natureza, orientando-se pela evolução. A partir de uma consideração efetuada nas idéias expostas por Cristiane Derani, Edis Milaré, Toshio Mukay e José Afonso Silva, observa-ser que o homem, ao longo dos tempos, passou por três fases de desenvolvimento: a fase da caça e da pesca, em que dependia para sua subsistência da captura de animais e da coleta de raízes, folhas, frutos e sementes, limitando-se a viver em pequenos grupos sociais; a da agricultura, domesticando animais e cultivando plantas; a da criação e do trabalho em metal, quando o desenvolvimento da mineração e da fundição ampliou ainda mais seu poderio tecnológico e cultural, aumentando a precisão e a velocidade na execução de tarefas; e a da sociedade moderna urbana e industrial, conhecendo uma transformação radical no âmbito da cultura e da tecnologia, que, ao tempo que ajudou pelos avanços médicos e pela Revolução Industrial, fez com que a população humana explodisse. Diante isso, Samuel Murgel Branco chama atenção para o fato de que atualmente, a população mundial está estimada em aproximadamente 7 bilhões de pessoas sobre 150 milhões de km² da superfície dos continentes, administrando uma complexa rede de problemas, seja para a própria sobrevivência, seja para explorar avidamente os recursos naturais indiscriminadamente, em nome do progresso da humanidade. A exploração desenfreada da natureza causou distúrbios não só no ambiente como na saúde do próprio homem, levando-o a normatizar comportamentos e efetuar estudos e pesquisas no sentido de evitar os efeitos maléficos de tais transgressões. Tais estudos receberam o nome de ecologia, conceituada usualmente como sendo a ciência que estuda as relações dos seres vivos entre si e com o ambiente. E conforme, Samuel Murgel Branco, se o meio ambiente é o conjunto de elementos e fatores físicos, químicos e biológicos necessários à sobrevivência de cada espécie, a ecologia é justamente o estudo das relações entre seres vivos e ambiente. Neste sentido, Luiz Roberto Tommasi entende que a ecologia é a ciência que estuda as interações entre os seres vivos e seu meio. É a ciência que auxilia o homem a coexistir com o ambiente, ainda que essa coexistência esteja se tornando cada vez mais complicada. Já Olavo Baptista Filho assinala que a raiz do vocábulo ecologia é a mesma de economia, derivando, como se sabe, da expressão grega oikos que significa casa. Com a evolução semântica processada ao longo dos séculos, essa raiz passou a conotar por extensão a idéia de série, de conjunto de relações entre suas unidades, bem como, de arrumação, disposição em sistema fechado dentro do qual há um encadeamento de processos, com fluxo de materiais ou de energia que circulam de um para outro elemento, afetando a todos eles. Vê-se, pois, que tudo isso objetiva trazer a idéia de meio ambiente que, de acordo com art. 3o, I, da Lei Federal nº. 6.938/81, "é o conjunto de condições, leis, influências, interações de ordem física, química e biológica, que permite, abriga e rege a vida em todas as suas formas". E para Andréas J. Krell: O meio ambiente, segundo uma definição hoje dominante na doutrina brasileira, é composto pelas áreas do meio ambiente natural, do meio ambiente cultural e/ou artificial (criado pelo homem); nesse último conceito, é possível incluir o meio ambiente do trabalho. O autor, neste sentido, considera que esse alargamento conceitual se deve à teoria do desenvolvimento sustentável, cada vez mais aceita depois da Conferência da ONU sobre o Desenvolvimento e Meio Ambiente – RIO-92, segundo a qual é necessário adotar uma visão interdisciplinar e integral do meio ambiente. Para José Afonso Silva entende-se meio ambiente como a integração do conjunto de elementos naturais, artificiais e culturais que possam propiciar o desenvolvimento equilibrado da vida em todas as suas formas. E isto quer dizer, conforme o autor mencionado, que "O ambiente é a expressão das alterações e das relações dos seres vivos, incluindo o homem, entre eles e o seu meio, sem surpreender que o direito do ambiente seja, assim, um direito de interações que tende a penetrar em todos os setores do direito para aí introduzir a idéia de ambiente". Mediante isso e em conformidade com o entendimento de Roger Dajoz, o meio ambiente, ou apenas ambiente, ou ainda meio, é a totalidade das condições físicas e bióticas que agem sobre os organismos, isto porque os seres vivos encontram-se tanto na atmosfera quanto nas águas e terras da crosta, ou seja, litosfera. Com isso, considera-se como formando uma única camada - biosfera - as partes da atmosfera e da crosta terrestre onde a vida penetra ou se mantém, pois, conforme Roger Davoz  é o grande sistema constituído pelos domínios da vida, palco milenar e gigantesco, feito de complicados cenários, alguns dos quais, tão grandes, que é preciso muita distância para contemplá-los por inteiro, e outros, tão pequenos, que só se podem ver com microscópio, todos eles cambiantes, alguns, porém, de maneira tão lenta, que parecem eternos, e outros surpreendentemente rápidos. Mediante isso, observa-se que, conforme Washington Novais, a classificação de meio ambiente está dividia em: natural, cultural, artificial e do trabalho. O meio ambiente natural é constituído pelo solo, a água, o ar atmosférico, a flora e a fauna, ou seja, todos os elementos responsáveis pelo equilíbrio dinâmico entre os seres vivos e o meio em que vivem e está tutelado pelo art. 225, caput da CF e § 1o. Já o meio ambiente cultural é integrado pelo patrimônio histórico, artístico, arqueológico, paisagístico e turístico, que, embora artificial, em regra, como obra do homem, difere do anterior pelo sentido de valor especial. Está previsto no art. 216 da CF, onde há uma delimitação legal do que seja patrimônio cultural. Diante disso, percebe-se que ele traduz a história de um povo, a sua formação e cultura, portanto, os próprios elementos que identificam sua cidadania. Quanto ao meio ambiente artificial, este é aquele constituído pelo espaço urbano construído, consubstanciado no conjunto de edificações (espaço urbano fechado) e dos equipamentos públicos (espaço urbano aberto) e se refere a todos os espaços habitáveis, não se opondo ao rural, sendo sua natureza ligada ao conceito de território. Recebeu tratamento destacado não só no art. 182 e seguintes da CF, não se desvinculando do art. 225 deste mesmo diploma, más também no art. 21, XX, no art. 5o, XXIII, entre outros, da CF. Por fim, o meio ambiente do trabalho, foco do presente estudo, tem seu conceito não unívoco, mas sendo considerado como um termo aplicado a realidades distintas nos variados ramos que compõem a ciência. Há que se considerar que o trabalho assinala, conforme Cristiane Derani, adquire no texto constitucional inúmeras ficções, que embora diferentes, são ligadas entre si e complementares aos objetivos e fundamentos da República, no sentido de assegurar a todos uma existência digna num sistema onde haja justiça social. Pode surgir tanto como instrumento da tutela pessoal, no caso do direito social ao trabalho, ou como política, a ser implementado pelo Estado, numa dimensão difusa e essencial aos objetivos apregoados pelo Estado democrático de Direito. Também concentra-se no caput do art. 225 da CF, entre outros, como, por exemplo, o art. 7o , XXXIII, da CF. Assim, há que se observar de tudo exposto até agora que em todos esses cenários ressaltam logo alguns princípios fundamentais, conforme anotado por Odete Medauer e José Afonso Silva, registrando-se que o mais significativo é que organismo algum - vegetal, animal ou homem - vive só, ainda que, à primeira vista, isso às vezes pareça acontecer. E, de outro lado, é o gigantesco e delicado equilíbrio que resulta de todas as manifestações vitais que dele, meio ambiente, participam inúmeras ações e reações e que, aqui e ali, no espaço e no tempo, podem acarretar desequilíbrios parciais, que se compensam. Para Luiz Roberto Tomassi, os elementos fundamentais da biosfera são água, ar e solo. Água, fonte da vida; ar, reserva de oxigênio, carbono e azoto; o solo, de onde o homem extrai o essencial para a sua subsistência, biosfera a parte da terra na qual a vida existe e suas principais características são a presença de grande quantidade de água na fase líquida, um amplo suprimento de energia vinda do sol e a existência de interfases entre sólidos, líquidos e gases. Ainda mais, há que considerar que cada ser vivo depende de uma interação harmoniosa com o meio ambiente para sobreviver. E, além do mais: todos os seres vivos têm a necessidade de se apropriarem de recursos da natureza, mesmo como condição necessária para o suprimento da própria vida. Daí, como todo e qualquer organismo, está sujeito à ação do meio ambiente, considerando-se a presença de agentes climáticos, edáficos e químicos. O homem, até certo ponto, está sujeito à atuação dos fatores ecológicos, embora tenha condições de alterar a sua incidência, através dos recursos científico-tecnológicos a seu serviço. Entretanto, o meio ambiente é o grande anfiteatro no qual o homem desenvolve suas atividades econômicas e culturais num processo de interação, às vezes inconsciente, com a biocenose. Essas atividades econômicas e sociais têm resultado numa série de desequilíbrios capazes de degradar o meio ambiente e provocar danos à saúde humana E desde que o homem neolítico começou a derrubar ou queimar a floresta para aproveitar o espaço com sua agricultura ou seus animais domésticos, o seu meio ambiente começou a se modificar. As alterações, a princípio lentas, aceleraram-se e agravaram-se quando aumentou a densidade das populações humanas e cresceu a eficiência dos meios de destruir e plantar. Sob esta ótica, Sérgio de Almeida Rodrigues, analisando as relações do homem com o ambiente, desde seus primeiros dias até a época atual, descreveu quatro fases: a primeira, do caçador-coletor, quando o homem utilizava ferramentas de pedra lascada e vivia em bandos nômades, manipulando o fogo com impacto nulo; a segunda, da agricultura de subsistência e pastoreio, causando impacto à natureza quase cinco vezes maior que na primeira fase; a terceira, que é caracterizada pela urbanização, produzindo um impacto quinhentas vezes maior que o causado pelas fases anteriores; e a quarta, que é a da tecnologia moderna em que, segundo a UNESCO, durante a Conferência Internacional das Uniões Científicas (ICSU), no programa “O Homem e a Biosfera”, também conhecido como “Projeto MAB”, de 1981, o impacto é 10 mil vezes maior que o inicial. Donde se conclui que todo ser vivo absorve, utiliza e perde energia. Todos os seus processos vitais requerem energia. E essa energia é despendida com o trabalho. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.
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