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domingo, fevereiro 08, 2015

KAFKA, SOLEDAD FARIÑA, KIMBERLY PEIRCE & RADCLYFFE HALL

 


A SOLIDÃO DE KAFKA - Desdinfância em Klosterneuburg a solidão pelo conflito paterno e das línguas judaicas asquenazes: a cidade é a sina com a sua brutalidade, como a escola do Masný trh/Fleischmarkt. Os dois irmãos que sucumbiram meninos, as três irmãs quase estranhas e o futuro incerto: a vida levada por governantas e serventes, a solidão inaugural no quarto frio. O Bar Mitzvah e a antipatia pela sinagoga - apesar de apenas visita-la apenas nos quatro feriados, um ateísmo disfarçado. Nenhuma vocação para varejista nem identificado com a gralha, menos mal ter sido aceito na Deutsche Karl-Ferdinands-Universität, o estudo de Química trocado pela consciência do direito e o Lese-und Redehalle der Deutschen Studenten. O grande amigo pro resto da vida e os verdadeiros irmãos eram Dostoiévsky, Flaubert, Grillparzez e Kleist. O trabalho na Assicurazioni Generali e os contos das considerações, a insatisfação e, posteriormente, a demissão. Novo emprego com a desatenção de todos, o capacete de segurança civil quando só servia para pagar as contas. A promoção e a insistente reclamação do pai em ajudá-lo na loja. Ainda bem que apareceu o Der enge Prager Kreis senão morreria de tédio. A fábrica de asbestos com o dote em sociedade com um amigo e os negócios logo levou aos ressentimentos, o teatro iídiche era o entretenimento e o vegetarianismo com o anarquismo do Klub Mladých e Amérika para vestir um cravo rosa: Não esqueça Kropotkin! E a ascensão do socialismo sobre a trapalhada burocrática decadente. Com a primeira grande guerra a reunião da família e o choro das irmãs quase viúvas com seus problemas de saúde. O afastamento do trabalho e os sanatórios, o sonho pelos bordéis e desejo pela pornografia com a ida pra Palestina a perder-se nas Brife an Felice no meio de dois noivados desfeitos para, enfim, desaparecer de si mesmo. Salvou-se apenas o veredicto. A contemplação e a descrição de uma luta, o julgamento e o noivado com Julie Wohryzek que nunca casou por suas crenças sionistas. A Carta ao Pai e a pouca autoestima no trato com mulheres e sexo, a timidez exorbitante sonhando com Grete Bloch e um filho que nunca soube. A tuberculose e a vila boêmia de Zürau, oportunos diários e escritos íntimos: as cartas de Ottla. E as cartas para Milena Jesenská. No Mar Báltico, a professora Dora Diamant e o interesse pelo Talmude e muitos rascunhos queimando na fogueira da revolta. Termia ser repulsivo pros outros, a predileção por filmes e aviões, o barulho ao redor, a necessidade de silêncio para a oração: escrever. Precisava era transcender a metamorfose, sobrepujar o processo, desassombrar o castelo e toda alienação diante dos labirintos aterrorizantes: Mal tenho algo em comum comigo mesmo, e deveria estar quieto em um corredor, contente por respirar... As transformações místicas flagraram seu fracasso. O pouco tempo para o chamado da escrita, adiado por conta do sempre horrível ganha pão. A solidão do apartamento e a reiterada necessidade de ir pra Palestina, não fosse a recusa de um amigo em abrigar por conta da sombra da doença: Preso entre quatro paredes de mim mesmo, descubro-me um emigrante preso em um país estrangeiro... vejo minha família como alienígenas cujos costumes, ritos e linguagem estrangeiros desafiaram minha compreensão... apesar de eu não querê-los, eles forçaram-me a participar de seus rituais bizarros... não pude resistir... Morrer de fome, o desejo dos manuscritos destruídos e o que é? A solidão atormentava e era um castigo, um acontecimento acontecido: Não é necessário sair de casa. \ Permaneça em sua mesa e ouça.\ Não apenas ouça, mas espere.\ Não apenas espere, mas fique sozinho em silêncio.\ Então o mundo se apresentará desmascarado.\ Em êxtase, se dobrará sobre os seus pés... E ser a ventania kafkiana: Tudo que eu deixo para trás... na forma de diários, manuscritos, cartas (minhas e de outras pessoas), esboços, e assim por diante, deve ser queimado sem ser lido... A vida é bizarra e sombria, poderia ser diferente. Veja mais abaixo e mais aqui e aqui.

 


DITOS & DESDITOS - A arte mudou minha vida. Quer dizer, eu diria que a arte me salvou. Acredito que ela me fez melhor em lidar com minha vida. A primeira coisa que um regime fascista faz é queimar livros. Não tê-los por perto significaria garantir que eles não fossem escritos em primeiro lugar. Eu não comecei para ser um ativista político. Eu sou apenas um ser humano que é movido por certas coisas, e se certas coisas partem meu coração, eu começo a consertá-las. Se nos educarmos, então o desejo e a necessidade de ter arte como parte de nossas vidas acontecerão organicamente. Eu convidaria qualquer um a olhar para culturas onde a arte é esmagada. Sou um artista de carreira ao longo da vida, o que por si só é um milagre. É realmente desafiador ser um artista de carreira. Eu diria que o argumento para financiamento de subsídios não é apenas que meu filme fez algum bem social - espero que tenha aberto os olhos das pessoas - mas você criou um artista profissional. Pensamento da cineasta, roteirista e produtora estadunidense Kimberly Peirce. Veja mais aqui.

 

ALGUÉM FALOU: Você não é nem antinatural, nem abominável, nem louco; você é parte do que as pessoas chamam de natureza tanto quanto qualquer outra pessoa; só que você ainda não foi explicado - você não tem seu nicho na criação. Pensamento da escritora inglesa Marguerite Radclyffe Hall (1880–1943), que na sua obra The Well of Loneliness (Wordsworth, 2014), expressou que: […] Se nosso amor é um pecado, então o céu deve estar cheio de pecados tão ternos e altruístas quanto os nossos. [...] Que coisa terrível poderia ser a liberdade. As árvores eram livres quando eram arrancadas pelo vento; os navios eram livres quando eram arrancados de suas amarras; os homens eram livres quando eram expulsos de suas casas — livres para morrer de fome, livres para perecer de frio e fome. [...] Pelo bem de todos os outros que são como você, mas menos fortes e menos talentosos talvez, muitos deles, cabe a você ter a coragem de fazer o bem. [...]. Veja mais aqui e aqui.

 

O HORROR DA SOLIDÃO - Antes de adormecer. Parece tão horrível ser solteiro, envelhecer lutando por manter a dignidade enquanto se pede um convite sempre que se deseja passar o serão em companhia, tendo de levar a refeição para casa, incapaz de esperar alguém com um sentimento de lassidão e de calma confiança, apenas capaz de, com dificuldade e vexame, dar um presente a alguém, tendo de dizer boa noite à porta de casa, nunca podendo subir as escadas a correr ao lado da mulher, não tendo outra consolação quando estiver doente que a vista da janela, se se puder sentar na cama, tendo somente portas ao lado que dão para salas de estar de outras pessoas, sentindo-se afastado da própria família, com quem só pelo casamento se pode manter laços de intimidade, primeiro pelo casamento dos pais, depois, passado o efeito deste casamento, pelo próprio, tendo de admirar os filhos dos outros e não lhe sendo sequer permitido continuar a dizer: “Eu não tenho nenhum”, nunca se sentindo envelhecer uma vez que não há gente da família a crescer à volta, formando-se na aparência e no comportamento segundo os modelos de uma ou duas pessoas solteiras que conheceu na juventude. Tudo isto é verdade, mas é fácil cometer o erro de desdobrar de tal maneira os sofrimentos futuros à nossa frente que os nossos olhos têm de passar por eles e nunca mais voltar, quando, na realidade, tanto hoje como amanhã, a pessoa permanece com um corpo verdadeiro e uma cabeça verdadeira, e uma testa verdadeira, para bater com a mão. Extraído dos Diário (1911), do escritor tcheco Franz Kafka (1883-1924), que no conto Josefine, a cantora ou O povo dos ratos, extraído da obra Um artista da fome (L&PM, 2009), expressa que: [...] Eu ainda não tinha visto um sorriso tão atrevido, tão orgulhoso como o que ela abriu; ela, que aparenta ser a delicadeza em pessoa, delicada mesmo para o nosso povo tão rico em figuras femininas, pa-receu naquele instante francamente má; Josefine, aliás, deve ter sentido o mesmo graças à sua profunda sensibilidade e, assim, recompôs-se. Ademais, ela negava qualquer relação entre sua arte e o assobio. Em relação aos que discordassem dessa opinião, nutria apenas desprezo e provavelmente um ódio inconfessado. Não é uma vaidade comum, pois a oposição, na qual em parte incluo-me, não a admira menos do que a multidão, porém Josefine não deseja apenas ser admirada, mas ser admirada exatamente a seu modo, pois não tem interesse na admiração pura e simples. E quem se senta diante dela compreende; a oposição só se faz à distância; quem se senta diante dela sabe: o que ela assobia não são meros assobios. [...] a entrega incondicional é quase desconhecida de nosso povo; esse povo, que acima de tudo ama a astúcia inofensiva, os cochichos pueris, as fofocas inocentes, que põem apenas os lábios em movimento, um povo assim não tem condições de entregar-se incondicionalmente, Josefine sem dúvida também percebe, é isso o que ela combate com todas as forças de sua débil garganta. [...] Ela se esconde e não canta, mas o povo, tranquilo, sem nenhuma decepção visível, altaneiro, uma massa serena que, a bem dizer, mesmo que as aparências surgiram o contrário, só é capaz de dar, jamais de receber presentes, tampouco de Josefine, esse povo segue em seu caminho. [...]. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

 

TRÊS POEMAS - COM ESTE LAÇO VERMELHO - Eu saio para a rua e corro \ pela rua levantando redemoinhos \ de poeira para que eles não me vejam \ Eu abro portas com chaves \ Deixo as chaves abertas \ as portas eu abro as mandíbulas \ levantando redemoinhos de poeira \ Não é assim que eles me veem agachado \ pelas suas costas afundando os dedos \ para onde ligar fiquei sem fichas \ não há mais fichas, não há mais números \ para onde ligar. ONDE ESVAZIAR O CHORO - Eu sonho em montar em você, estimulando você \ seus flancos de lobo \ desfigurado quem sabe \ quem sou eu \ Formigas sobem pelos seus dedos \ dos pés \ subir como um murmúrio \ insistente \ eles querem sair pelas mandíbulas \ como rugido \ mas não há fichas ou cabines telefônicas \ Eles gastaram seus dedos e números fazendo \ musaranhos no ar de marcar tanto o ar \ onde esvaziar o choro \ escondido em seu punho lambendo suas gemas. O QUE FAZER COM ELES - A escuridão e o pavor caem agora \ sinta o estalar dos dedos \ hesitando no ar O que fazer com eles\ na folhagem escura\ com este laço vermelho \ hesitando no ar. Poemas da escritora Soledad Fariña Vicuña.

 

SACADOUTRAS

 

O EU E TU – A intersubjetividade no pensamento do filosofo, escritor e pedagogo israelita Martin Buber (1878-1965) compreende uma das áreas que envolve a vida do homem que necessita ser refletida e analisada à luz da filosofia e da antropologia filosófica. Para ele uma nova sociedadew constituída por um socialismo descentralizado se organiza através de pequenos grupos, nos quais os homens viveriam em relacionamento direto, motivados mais por idéias religiosas do que polikticas. Essa teoria, para o autor, seria não existencial do conhecimento não está implícita no dualismo e para superá-lo a relação teria de ser com o ego se defrontando com o mundo como sujeito, uma vez que o homem é eu e Deus tu, tomando o universo como tu, o mundo e a vida ganham signifcado. Em suas publicações o autor deu ênfase à sua idéia de que não há existência sem diálogo e comunicação e que os ohjetos não existem sem que haja uma interação entre eles. As palavras eu-tu compreendem relação e eu-isso compreendem experiência, demonstram as duas dimensões da filosofia do diálogo e que dizem respeito à própria existência, conforme ele expressa na sua obra Eu e Tu. Veja mais aqui, aquiaqui.

Imagem: The woman in the waves (1868), do pintor francês Gustave Courbert (1819 – 1877). Veja mais aqui e aqui.

Ouvindo: o álbum Mask (1985), do compositor grego Vangelis. Veja mais aqui.


LÃS AO VENTO – A premiadíssima poeta e professora Arriete Vilela é um dos mais representativos nomes da literatura brasileira contemporânea. Em seu livro Lãs ao Vento ela traz uma narrativa das mais encantadoras e magistrais, capazes de nos envolver numa teia de deleite e inspiração. Eis um fragmento dessa belíssima obra: “[...] Senhora Editora, sei que hoje a Palavra silencia, silencia-se, silencia-me. Uma violência simbólica – e insidiosa: sinto-me despedaçada, burlada, triste, esgarçada, desamparada, ludibriada, trapaceada no afeto, na esperança, no sonho e na alegria... Não tenho encontrado consolo. Fiz da Palavra palavras: charola enfeitada com santinhos de roca. Quimeras. Soçobros. Folhas maceradas. Bordejos. Transitoriedades. Quinquilharias. Apenas lãs ao vento. Lãs ao vento...”. Veja mais Arriete aqui, aquiaqui.

A TRAGÉDIA DO AMOR DE ABELARDO E HELOISA – Amorosos célebres, cujo tumulo pode ser visto no cemitério de Père-Lachaise, em Paris. Pierre Esbeilard ou Abelardo, ficou célebre como filósofo e teólogo; seguiu a carreira religiosa e tinha recebido ordens menores, quando o cônego Fulbert, impressionado por sua inteligência e cultura, convidou-o para professor de sua sobrinha Heloisa, que possuía, então, 17 anos e Abelardo 39. O convívio com a jovem, inteligente e bela, despertou violenta paixão carnal no professor, que logo fez da jovem sua amante, valendo-se da confiança nele depositada. Algum tempo depois, tendo Heloisa ficado grávida, resolveu o filósofo encerrar sua carreira religiosa e desposá-la, para o que não havia nenhum impedimento canônico; isto só ocorreria no caso de ter recebido as ordens maiores. A família, no entanto, apõe-se terminantemente a essa solução e o cônego Fulbert, indignado, contratou sicários, para que prendessem Abelardo e o castrassem, quando o mesmo entrou para um mosteiro e escreveu várias obras sobre Teologia, mas uma parte da sua doutrina foi denunciada como herética por um frade cisterciense, Guilherme de Saint-Thierry, denuncia levada a um concilio presidido por São Bernardo e que terminou com a sua condenação. Empenhava-se em sua defesa, perante Roma, quando morreu no convento de Cluny. Heloisa viveu ainda 22 anos. Tinha ela entrado também para um conventop, o do Paracleto, fundado por Abelardo. Priora desse mosteiro, quando o teólogo amado morreu, reclamou o corpo do amante e foi ao lado deste que desejou ser enterrada, em Paris. Seus desejos foram cumpridos. Os amores de Abelardo e Heloisa se tornaram objeto de referencia da famosa Ballade des dames du temps jadis, de François Villon, e inspiraram uma peça dramática de Eugène Scribe, além de varias biografias e versão para o cinema. Toda história foi narrada no livro Histoire de mes malheurs. Veja detalhes aqui.

VIAGEM AO CENTRO DA TERRA – A fascinante obra Viagem ao centro da terra (Voyage au centre de la Terre, 1864), do escritor francês Julio Verne (1828-1905), foi uma das que mais me impressionaram desde a infância até hoje, pela sua instigante história narrada sobre uma incursão pela cratera do vulcão Sneffels, na Islândia, até chegar no centro da terra. Essa narrativa inspirou belíssimo terceiro álbum do músico de rock progressivo e rock sinfônico britânico Rick Wakeman, Jorney tho the centre of the earth (A&M, 1974), ao vivo no Royal Festival Hall, em Londres, na Inglaterra, no dia 18 de janeiro de 1974, com a The London Sympohony Orchestra e o The English Chamber Choir, sob a regência do maestro David Measham, arranjos para orquestra e coro de Wil Malone e Danny Beckerman. Tanto o livro como o álbum me fascinam até hoje, razão pela qual estou sempre passando a vista e ouvidas causando-me deleite inenarrável. Veja mais aqui, aquiaqui.

SALÒ OU OS 120 DIAS DE SODOMA – O polêmico filme Salò ou os 120 dias de Sodoma (Salò o le 120 giornate di Sodoma, 1875) é uma das obras primas do poeta, escritor e cineasta Pier Paolo Pasolin1 (1922-1975), inspirado no livro 120 dias de Sodoma, do escritor francês Marquês de Sade (1740-1814), contando a perturbadora história de um grupo de jovens numa região italiana sob o governo de Mussolini, que são agrupados por dirigentes fascistas do poder econômico, jurídico, religioso e da nobreza, para serem vítimas de uma série de torturas e experimentos sádicos que compreendem três fases ou círculos: a primeira parte, o círculo das manias no qual ocorre a satisfação dos desejos sexuais dos fascistas; a segunda fase, o círculo das fezes, os jovens são submetidos à tortura de ingerir fezes num momento de repleta escatologia; e a terceira fase, o círculo de sangue, ocasião em que os prisioneiros são punidos com torturas, mutilações e assassinatos por desobediência. Nesse filme o diretor desnuda a insanidade, crueldade e bestialidade do ser humano no abuso de poder. Veja mais aqui, aquiaqui e aqui.



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quinta-feira, março 07, 2013

ELIZABETH SIDDAL, GILKA MACHADO, DONNERSMARCK, MEG TILLY, MARY ELLIS, OFÉLIA DE MILAIS & ANAXÍMENES

 


DE FALAS, DIZERES & PALAVRAS: LINGUAGEM – Estava eu às voltas com palavras, palavrinhas & palavrões quando dei de cara com essa de Aristóteles: O sábio nunca diz tudo o que pensa, mas pensa sempre tudo o que diz... Era eu tendo a primeira noção do que seriam as questões de lógica, das categorias e do significado, além do que seria o nominalismo desenvolvido por Abelardo. Até que chega Hegel e me diz:A arte cultiva o humano no homem, desperta sentimentos adormecidos, põe-nos em presenças dos verdadeiros interesses do espírito... Enquanto Kant me dizia do outro lado: A missão suprema do homem é saber o que precisa para ser homem. A inumanidade que se causa a um outro destrói a humanidade em mim. E logo advertido por Schopenhauer: Quanto menos inteligente um homem é, menos misteriosa lhe parece a existência. Quanto mais elevado é o espírito mais ele sofre... É claro que a coisa estava embananando tudo pras minhas bandas, mas eu seguia o fio. Logo apareceu Saussure: O homem que não lê não pensa... O tempo altera todas as coisas. Mais um pouco e foi a vez de Peirce aparecer com umas das suas: Existir é estar numa relação. É tomar um lugar na infinita miríade das determinações do Universo. Se o homem fosse imortal, ele poderia estar perfeitamente certo que veria o dia em que tudo em que confiava trairá sua confiança... Franzi o cenho, mas já sabia que era semiótica e eu precisava saber do riscado todo. Aí foi a fez de Jakobson: Quando eu falo, é para ser ouvido... Sim, por aí está indo bem, apesar de complicado. Eis que aparece Wittgenstein: O mundo é a totalidade dos fatos, não das coisas. Sentimos que, mesmo depois de serem respondidas todas as questões científicas possíveis, os problemas da vida permanecem completamente intactos. Que bom que não me deixo influenciar!... Bem, esclareceu, mas o tanto de dúvidas que eu tinha mais se ampliaram com novos esclarecimentos necessários. Reli tudo e parei em Bakhtin: O que ocorre, de fato, é que, quando me olho no espelho, em meus olhos olham olhos alheios; quando me olho no espelho não vejo o mundo com meus próprios olhos desde o meu interior; vejo a mim mesmo com os olhos do mundo - estou possuído pelo outro... Hummmm. Bem, fodeu tudo agora! Hora de reler tudo, lá vou de volta aos estudos. E vamos aprumar a conversa.

 


DITOS & DESDITOS - E pensar que este país estava nas mãos de pessoas como você... Frase final extraída do premiado filme Das Leben der Anderen (A vida dos outros, 2006), dirigido pelo cineasta alemão Florian Henckel von Donnersmarck, que narra a história do um agente da polícia política da Alemanha Oriental, que se envolve num serviço de escutas clandestinas do apartamento de um casal da cena cultural de Berlim Oriental, no caso um escritor e uma atriz, e mais tarde se vê envolvido na vida do casal e tem um papel decisivo em seus destinos. Veja mais aqui.

 

ALGUÉM FALOU: Não comecei realmente a fazer mudanças em minha vida até os 20 e poucos anos. E de repente eu pensei, espere um minuto. Eu estava tentando tanto ser o que pensei que deveria ser, em vez de apenas me permitir ser o que eu era ou o que sou... Pensamento da atriz estadunidense Meg Tilly (Margaret Elizabeth Chan), que se encontra desde 1995 morando no Canadá, onde se dedica a escrever livros e a cuidar dos três filhos, autora dos Singing Songs (1994; Dutton Books) e Gemma (2006; Syren Book Company).

 

CASAMENTO DE MEGHAN – [...] Talento é pouco mais que uma semente em solo quente de primavera. Deve ser nutrido e cuidado diligentemente se você quiser que ele cresça. Ninguém se torna proficiente em nada por acaso. [...] Rumores por si só podem causar dor à sua família. Simplesmente não é justo comprometer a reputação de uma pessoa. [...]. Trechos extraídos da obra A Marriage for Meghan (Thorndike, 2012), da escritora e ex-professora estadunidense Mary Ellis.

 

POEMA DA OFÉLIA DE MILAIS: A PASSAGEM DO AMOR - Oh, Deus! Perdoe-me por ter mergulhado minha vida \em um sonho sombrio de amor. \As lágrimas de angústia irão \lavar a paixão do meu sangue? \O amor guarda meu coração \ em uma canção de alegria, \ meu pulso estremece com sua melodia; \enquanto as rajadas frias do inverno sopram \ sobre mim, como uma doce brisa de junho. \ o amor flutua nas brumas da aurora \e repousa nos raios do crepúsculo; \ ele acalmou o trovão da tempestade \ e iluminou todos os meus sentidos. \ o amor me sustenta durante o dia, \e nos sonhos me acompanha à noite, \nenhum mal pode espreitar minha vida, \porque meu espírito é leve como as flores. \ Oh meu Deus! pena do meu coração inocente, \ o passar do tempo quebrou aquele prazer diário, \ o ídolo foi arrastado pela correnteza, \destruindo para sempre o meu santuário. Poema da poeta e modelo britânica Elizabeth Eleanor Siddal (1829-1862), mais conhecida como Lizzie, a Ofélia de John Everett Milais e esposa de Dante Gabriel Rossetti. Como ela vinha de uma família de classe trabalhadora, o marido temia apresentá-la aos seus pais. Ela então foi a vítima de críticas de suas irmãs. O conhecimento que sua família não iria aprovar seu casamento contribuiu para adiá-lo. Ela parecia acreditar, com alguma justificativa, que ele estava sempre procurando substituí-la por uma musa mais jovem, o que contribuiu para seus então períodos depressivos e doenças. Foi encontrada morta e, embora a morte tenha sido julgada acidental pelo médico legista, há sugestões de que o marido teria encontrado uma carta de suicídio. Consumido por luto e por culpa, ele foi instruído a queimar a carta, já que suicídio era ilegal, imoral, traria escândalo para a família e impediria Siddall de ter um funeral cristão. Sete anos após sua morte, o marido publicou uma coleção de sonetos intitulados The House of Life (A casa da vida), neste contendo um poema "Without Her" (Sem ela), sendo uma reflexão de seu amor que uma vez partiu. Veja mais aqui e aqui.

 

SENSUAL - Quando, longe de ti, solitária, medito \ neste afeto pagão que envergonhada oculto, \ vem-me às narinas, logo, o perfume esquisito \ que o teu corpo desprende e há no teu próprio vulto.\ A febril confissão deste afeto infinito\ há muito que, medrosa, em meus lábios sepulto,\ pois teu lascivo olhar em mim pregado, fito,\ à minha castidade é como que um insulto.\ Se acaso te achas longe, a colossal barreira \ dos protestos que, outrora, eu fizera a mim mesma\ de orgulhosa virtude, erige-se altaneira.\ Mas, se estás ao meu lado, a barreira desaba,\ e sinto da volúpia a escosa e fria lesma\ minha carne poluir com repugnante baba… Poema da poeta Gilka Machado (1893 – 1980). Veja mais aqui.

 



PERÍODO NATURALISTA – OS JÔNIOS: ANAXÍMENES
Anaxímenes (588-524 a.C.) é o último representante notável da escola jônica, autor de uma obra Da Natureza, de que não ficou quase nada. Foi discípulo de Anaximandro e seu continuador. Dedicou-se à meteorologia, foi o primeiro a considerar que a lua recebe a luz do sol. Era companheiro de Anaximandro. Pensa Anaxímenes que o principio das coisas seja o ar, ilimitado e em movimento incessante, de que todas as coisas derivam pela rarefação e condensação do mesmo ar. Como Tales, Anaximenes imagina a terra como um disco suspenso no ar. Suas idéias tiveram por característica básica explicar a origem do universo ou arché a partir de uma substância única fundamental.
Segundo Anaxímenes, a arkhé (comando) que comanda o mundo é o ar, um elemento não tão abstrato como o ápeiron, nem palpável demais como a água. Tudo provém do ar, através de seus movimentos: o ar é respiração e é vida; o fogo é o ar rarefeito; a água, a terra, a pedra são formas cada vez mais condensadas do ar. As diversas coisas que existem, mesmo apresentando qualidades diferentes entre si, reduzem-se a variações quantitativas (mais raro, mais denso) desse único elemento. Atribuindo vida à matéria e identificando a divindade com o elemento primitivo gerador dos seres, os antigos jônios professavam o hilozoísmo e o panteísmo naturalista. Dedicou-se especialmente à meteorologia. Foi o primeiro a afirmar que a Lua recebe sua luz do Sol.
Refutando a teoria da água de Tales, e do ápeiron de Anaximandro, Anaxímenes ensinava que essa substância era o arinfinito, pneuma ápeiron. O universo resultaria das transformações do ar, da sua rarefação, o fogo, ou condensação, o vento, a nuvem, a água e a terra e por último pedra. Esse era o processo por qual passava uma substância primordial, e resultava na multiplicidade, os quatro elementos. Para ele, o ar tinha o eterno elemento.
Hegel diz que Anaxímenes ensina que nossa alma é ar, e ele nos mantém unidos, assim um espírito e o ar mantém unido o mundo inteiro. Espírito e ar são a mesma coisa. Isto quer dizer que em Anaxímenes a substância da origem volta a ser uma coisa determinada como em Tales. Ele identificou o ar talvez porque tenha visto seu movimento incessante, e que a vida e o ar andam juntos, na maioria dos casos. A respiração é um processo vivificante, dependemos dela durante toda a nossa vida. Ele via que no céu existem nuvens, e que a matéria possui diferentes graus de solidez. Ou seja, para ele o universo resultaria das transformações de um ar infinito, o pneuma apeíron. Aproveitando a sugestão oferecida pela técnica de fabricação de ferro, produzido por aglutinação de materiais dispersos, em grande expansão em Mileto de sua época, ele afirmava que todas as coisas seriam produzidas através do duplo processo mecânico de rarefação e condensação do ar infinito.
No entendimento de Hegel, em lugar de matéria indeterminada de Anaximando, põe ele novamente um elemento determinado da natureza, o absoluto numa forma real, em vez da água de Tales, o ar. Ele achava, com certeza, que para a matéria era necessário um ser sensível; e o ar possui, ao mesmo tempo, a vantagem de ser o mais liberto de forma. Ele é menos corpo que a água; não o vemos, apenas experimentamos seu movimento. Dele tudo emana e nele tudo se dissolve. Ele o determinou igualmente como infinito. Diógenes Laercio diz que o principio é o ar e o infinito, como se fossem dois princípios. Mas Simplicio diz expressamente que para Anaximenes o ser originário foi uma natureza infinita e una, como para Anaximandro, só não, como para ele, uma natureza infinita, mas uma determinada, a saber o ar, que ele, porem, parece ter concebido como algo animado. Plutarco determina a maneira de representação de Anaximenes, que do ar, que posteriores chamaram no éter, tudo se produz e nele se dissolve, mais precisamente assim: “Como nossa alma que é ar nos mantem unidos, assim um espirito e o ar mantem unido também o mundo inteiro, espírito e ar significam a mesma coisa”. Anaxímenes demonstra muito bem a natureza de seu ser pelo exemplo da alma. Ele como que caracteriza a passagem da filosofia da natureza para a filosofia da consciência ou a renuncia ao modo objetivo do ser originário. A natureza do ar originário era antes determinada de maneira estranha, negativa, com relação à consciência. Tanto sua realidade, a água, ou também o ar, enquanto o infinito é um alem da consciência. Mas como a alma assim o ar é este meio universal: uma multidão de representações que esta unidade, continuidade, desapareçam – e seu desaparecimento e surgimento; ele é tão ativo quanto passivo, fazendo sair de uma unidade as representações, dispersando-as e sobressumindo-as e presente a si mesmo em sua infinitude – significação negativa positiva. Expressou de maneira mais determinada, e não apenas para fins de comparação, é esta natureza do ser originário pelo discípulo Anaximenes, Anaxágoras.
O pensamento milesiano adquiria, assim, consistência, pois além de se identificar qual a physis, mostrava-se um processo capaz de tornar compreensível a passagem da unidade primordial à multiplicidade de coisas diferenciadas que constituem o universo. Ele afirma também que uma só é a natureza subjacente e diz que é ilimitada, não porem indefinida, mas definida dizendo que ela é ar. Diferencia-se nas substancias, por rarefação e condensação. Rarefazendo-se, torna-se fogo. Condensando-se, vento, depois nuvem, e ainda mais água, depois terra, depois pedras e as demais coisas provem destas. Também ele faz eterno o movimento pelo qual se dá a transformação. É preciso saber que uma coisa é o ilimitado e limitado em quantidade. O que era próprio dos que afirmavam serem muitos os princípios, e outra coisa é o ilimitado em grandeza, o que precisamente se adapta ao caso de Anaximandro e Anaximenes, que supõem o elemento único e ilimitado em grande. Pois só Anaximemes que da rarefação e condensação, mas é evidente que também outros se serviam das noções deste fenômeno. O contraído e condensado da matéria ele diz que é frio, e o ralo e o frouxo é quente. Como nossa alma que é ar, soberanamente nos mantem unidos, assim também todo o cosmo sopro e ar o mantem.
Como a Anaximandro, também a Anaximenes os doxógrafos – escritores antigos que recolheram ou transcreveram as opiniões dos primeiros filósofos, - atribuem a doutrina da constituição, a partir do arché única, de inumeráveis mundos, gerados de maneira sucessiva e ou simultânea.
Entre os adágios de Anaxímenes encontra-se: "Exatamente como a nossa alma, o ar mantém-nos juntos, de forma que o sopro e o ar abraçam o mundo inteiro”. Ao julgar que o elemento primordial das coisas é o ar, encontra-se que: "O contraído e condensado da matéria ele diz que é frio, e o ralo e o frouxo (é assim que ele expressa) é quente. O princípio de tudo, o arqué, seria o ar e as coisas da natureza seriam o ar condensado em vários graus. A rarefação e condensação do ar forma o mundo. A alma é ar, o fogo é ar rarefeito; quando acontece uma condensação, o ar se transforma em água, se condensa ainda mais e se transforma em terra, e por fim em pedra. Foi o primeiro a afirmar que a Lua recebe a sua luz do Sol”. "Com nossa alma, que é ar, soberanamente nos mantém unidos, assim também todo o cosmo sopro e ar o mantém”. Outra frase que consta nos fragmentos é "O sol largo como uma folha". Por isso ele foi considerado pelos antigos como a principal figura da escola de Mileto.
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FONTES:
ARANHA, Maria Lucia de Arruda; MARTINS, Maria Helena Pires. Filosofando: Introdução à Filosofia. São Paulo: Moderna, 1994.
CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. São Paulo: Atica, 2002.
MARCONDES, Danilo. Iniciação à história da filosofia: dos pré-socráticos a Wittgenstein. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.
PADOVANI, Umberto; CASTAGNOLA, Luis. Historia da Filosofia. São Paulo: Melhoramentos, 1978.
PESSANHA, José Américo Motta (Org). Os pré-socraticos. São Paulo: Abril, 1978.
SOUZA, José Cavalcante. Os pré-socrático. São Paulo: Abril, 1978.




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