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quinta-feira, novembro 02, 2017

SHAW, ISMAEL NERY, ODETTE ASLAN, MAURÍCIO MELO JÚNIOR, LIA VIEIRA, POESIA REVISTA, PAULO DANTAS, SUCATÁRIO & BONITO

AOS VIVOS QUE RESTAM DOS MORTOS - Imagem: Nós (1926), do pintor brasileiro Ismael Nery (1900-1934). - As partidas nas asas dos ventos, as chegadas apressadas de nada verem, atrasados nas suas fugas imotivas e defecções, afetos perdidos, asas partidas no espaço vazio, entre sentimentos estreitos, andares solitários doloridos na garoa dos muros interditados pelas tardes sem sol dos olhos nublados, mãos espalmadas para ausência, abraço estendido pro ermo da indiferença dos que vivem sem saber que já morreram nas suas frustrações e mágoas enfurecidas, dos que acham que vivem na embriaguês de seus mandos e posses a rivalizar com as necessidades alheias de sorrir a banguela das gengivas invernais, dos que tentam viver a todo custo a pisar os outros com a cegueira dos luxos das vitrines e pedidos de perdão na oração cristã da missa dominical. Em mim o vaivém do caleidoscópio, sombras de novembro no peito de maio pelo filho que partiu a muito na poeira do tempo quase inesquecível, pela mãe que se foi sem aceno na dor de parir sonhos irrealizáveis, pelos amigos tragados pelas tragédias, pelos que sumiram nas cinzas do álbum de fotografias, povoando lembranças erradias. Saúdo meus mortos que vivem em mim, estão vivos em mim no que me resta de ser feliz apesar dos pesares. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especiais com os álbuns Carioca, Stone Alliance, Patamar & Makenna Beach do músico instrumentista Márcio Montarroyos (1948-2007); Libertango, Storm & Sitarki da violoncelista croata Ana Rucner; Rudepoêma de Villa-Lobos, Rapsódia Brasileira de Radamés Gnatali & Fantasia op. 28 de Scriabin, com o pianista brasileiro Roberto Szidon (1941-2011); e a Suíte 1 & 5 de Bach & a Sonata nº 2 de Myaskovsky, com a violoncelista russa Natalia Gutman. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA - A escravatura humana atingiu o seu ponto culminante na nossa época sob a forma do trabalho livremente assalariado. Pensamento do dramaturgo, escritor e jornalista irlandês George Bernard Shaw (1856-1950). Veja mais aqui e aqui.

SOCORRO DO TREM DO BONITOO município do Bonito foi assentado em meio a diversos pés de serras, verdadeiras couraças naturais que embalam a cidade [...] irrigados pelos rios Sirinhaém e Una. A fertilidade do solo, a amenidade do clime, a salubridade e as boas fontes de águas, atraíram, desde finais de sec. XVIII, toda sorte de aventureiros, muitos até endinheirados, que ali fundaram fazendas e engenhocas obtidas às terras por sesmarias. Outros sem grandes chances na vida, buscavam abrigo naquela terra como moradores e agregados havendo aqueles, como os retirantes das secas que por ali se abrigavam buscando conforto para suas miseráveis vidas. [...] Foi essa gente sofrida que, aproveitando as sobras de terras, as brechas, digamos assim, entre uma sesmaria e outra se arrancharam com suas famílias, fundando no outeiro a capela da Conceição (1812), mais tarde matriz da cidade. [...] Paulatinamente, o Bonito foi crescendo e adaptando-se às novas realidades [...] Afora o sesmarialismo, muitas terras foram conquistadas no tapa. [...] Nesses mundos onde se desenvolveram sítios, engenhos e engenhocas, a casa senhorial era o centro nevralgico das decisões. [...] Por volta do segundo quartel do sec. XIX, teve inicio no Bonito o cultivo da cana. [...] Diante dessas expectativas, a cana passou a invadir quase todo altiplano bonitense dilatando-se por várzeas, brejos e montanhas, registrando-se decréscimo no final do século mediante a consciência da cafeicultura. [...]. A região onde desemboca o rio Sirinhaem, o rio dos siris para os nativos, foi conquistadas aos índios em 1565. Após esse empreendimento, os índios foram expulsos de suas terras e estas repartidas em datas de sesmarias vicejando posteriormente engenhos de açúcar. Mais tarde o colonizador adentrou pelo mato reconhecendo todo o curso do dito rio até chegar suas nascentes no agreste em Camocim de São Félix. [...] De seus aflientes Bonito Grande, Riacho Seco, Tanque de Piabas, Várzea Alegre e Tese. [...]. Trechos extraídos da obra Velhos engenhos e antigas famílias do Bonito (CEHM, 2010), de Flávio José Gomes Cabral. Já no texto Estrada de ferro Ribeirão-Cortês-Bonito, de Severino Rodrigues de Moura, extraídop da Revista de História Municipal (CEHM, dez. 2008), encontramos o seguinte relato: A população do Bonito tinha o sonho de construir uma estrada de ferro ligando sua cidade a Ribeiro desde meados do século passado. [...] Em 1904 a linha férrea Ribeirão-Nonito foi anexada à Great Western e em seguida à Rede Ferroviária do Nordeste (RFN) até sua extinção. [...] Um certo dia, a locomotiva descarrilou no ramal do Engenho Limão, com todas as carroças de cana. O acidente apresentou proporções bem maiores do que aqueles ocorridos antes, tendo o maquinista que pedir socorro ao gerente da usina. [...] Teve que pedir ajuda em Ribeirão. No entanto, o trem de socorro também descarrilou, sendo preciso vir um terceiro trem. Foi um Deus nos acuda. Parecia um formigueiro em vérpera de trovoada. [...] mais uma vez pediu socorro à estação de Ribeirão, passando o seguinte telegrama: Trem de carga caiu. Pedi socorro. Socorro veio. Também caiu. Agora peço socorro para socorrer socorro e trem de cana. Ass.: Norberto. Veja mais aqui.

ÍNTIMO DAS AUTORIDADESO sujeito tinha o apelido de “Sombra”. Era funcionário do cerimonial no palácio do governo estadual [...] Jornalistas e repórteres fotográficos credenciados, ficavam enfurecidos da vida devido as reais dificuldades em fotografarem as autoridades sem a presença do “individuo indesejavel”. [...] Verdadeiro batalhão de fotógrafos e jornalistas se posicionava a fim de clicarem o Presidente da República. [...] Quem estava logo na frente? Ele, o inconveniente e intrometido Sombra. Ajeitou o cabelo e a gola do surrado paletó, dirigiu-se aos fotógrafos e perguntou: Como vocês querem que eu saia? Disse um dos repórteres: Que saia da frente, para fotografarmos o presidente! Trechos extraídos da obra Sátiras políticas: porque rir faz bem à saúde (Livro Rápido, 2000), do escritor e advogado Paulo Dantas Saldanha.

A SUCATA & ARTES VISUAIS – [...] As possibilidades de construções com sucatas são infinitas, baratas e podem sem muito criativas. Além disso, as sucatas podem ser utilizadas em muitas outras atividades, como complemento de outra técnica. [...] Se a sucata não for valorizada, fica muito próxima de mero lixo e com isso não desperta nenhum interesse para a criação. [...]. Trecho extraído da obra 300 propostas de artes visuais (Loyola, 2009), das artistas plásticas Ana Tatit & Maria Silvia Monteiro Machado, tratando sobre pintura, desenho, recortes, colagens, bonecos, máscaras, modelagens, fantoches, mosaico, escultura e construções com materiais variados, jogos e brinquedos com sucata, sucatário, outras técnicas e atividades.

O ATOR NO SÉCULO XX – [...] perfila-se uma volta a comunhão por pequenos grupos, a celebração de um rito em que celebrantes e fieis respiram juntos, mobilizem suas forças fisiológicas e pesquisas, querem sair de si mesmo, comunicar-se numa troca fraterna. O ator continua sendo aquele que propõe essa troca, que dá ao outro, que recebe e se oferece de novo, qualquer que seja sua mensagem. [...] Ator-poeta, trovador falando ou cantando [...] o prazer de atuar se confunde com o prazer de viver para quem o mal de viver se traduz pela dor que se canta e repartindo o que se encanta. [...]. Trecho da obra O ator no século XX (Perspectiva, 2008), de Odette Aslan que trata sobre as formas de interpretação, os problemas do gestual, modo de formação, busca da personagem, reações contra o naturalismo, pesquisas antes e depois da revolução russa, revisão do espaço, radio, cinema, televisão, teatros-laboratórios, comunidades teatrais, tendencias atuais, ética pessoal e de grupo e o ator do amanhã. Veja mais aqui e aqui.

SER POETA - Fiz-me poeta / por exigência da vida, das emoções, dos ideais, da raça. / Fiz-me poeta / sabendo que nem só se finge a dor que deveras sente / e crendo que através da poesia posso exprimir / a arte do cotidiano, vivida em cada poema marginal. Poema extraído da obra Quilombo Hoje – Cadernos Negros 15 (Edição dos Autores, 1992), da poeta, pesquisadora, artista plástica e educadora Lia Vieira. Veja mais aqui.

CRÔNICA DO ARVOREDO & ANDARILHOS DE MAURÍCIO MELO JÚNIOR
[...] Já não me lembro bem dos detalhes, sei apenas que li num livro emprestado por um amigo. A memória também não alcança os nomes do amigo, do livro, do autor. Sei somente que era alto e escondia o rosto por trás de uma barba espessa, o amigo; e o volume tinha capa amarela e marrom. Vivíamos a tensão do vestibular; implacável, inadiável. Vivíamos uma cidade cercada pelos mistério da história, pelo fascínio de um cotidiano de transformações concretizadas ao desejos dos minutos. Tínhamos a sensação de que o mundo hirava em função de nós. E o mundo não nos bastava, embora tivesse sido feito para abrigar somente a nossa juventude. O amanhã era apenas a conseqüência do Sol que à tarde dormia. Por isso vivíamos com intensidade o Recife. [...].
Trecho da obra Crônica do arvoredo (Bagaço, 2006).
[...] Seu moço saia do caminho, a conversa é comigo e Deus. No meio, somente os macacos do exercito e a esperança de uma briga boa. Desarrede, desarrede que não tenho prosa pro senhor. Doido, eu? Pois o senhor ainda não topou com doido na vida e já disse pra não querer me enfrentar. Num avance, peste, num avnce que seu tempo pode tá findo. Pois, lá vai brincadeira que já num tenho tempo pra prosa. Pá, pá e que fique nas agonias do fim. [...]
Trecho da obra Andarilhos: caminhos só ida, volta à seca (Bagaço, 2007), ambos os livros do jornalista e escritor Maurício Melo Júnior. Veja mais aqui, aqui e aqui.

Veja mais:
A poesia de Jorge de Sena aqui.
A poesia & o cinema de Pier Paolo Pasolini aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do pintor brasileiro Ismael Nery (1900-1934). 
Veja mais aquiaqui, aqui & aqui.

POESIA REVISTA 2018
Acaba de ser lançado o edital da Poesia Revista para reunião anual de textos poéticos e colunistas de São Paulo, Mato Grosso e Rio Grande do Sul, com tema Amor e distribuída em bibliotecas nacionais, em saraus e pelos poetas participantes do projeto. A publicação é destnada a jovens e adultos, visando o fomento da cultura e literatura na formação de público leitor e com objetivos voltados para valorização do escritor e suas habilidades textuais, incentivo da leitura, oportunizar aos autores a veiculação de seus trabalhos com divulgação nacional e internacional. Os interessados confiram aqui.

quinta-feira, setembro 14, 2017

FERNANDO PESSOA, EMERSON, CHAUÍ, NEUROFILOSOFIA, AMANDA SAGE & MUITO MAIS!

ETERNO APRENDIZADO – Imagem: arte da pintora visionária estadunidense Amanda Sage. - Há trinta anos, mais ou menos, empunhei a bandeira de que o bloco do eu sozinho não me levaria a lugar nenhum e que o umbigo era só o centro do corpo, jamais do universo. Disso fiz minha missão, mãos e braços solidários e disponíveis a quem chegasse e quisesse. Sabia que o individualismo possessivo potencializado pelo umbigocentrismo consumista ruiria todos os níveis de relações. Aprendia a metáfora dos dedos das mãos: todos eram diferentes, um deles sozinho poderia muito, mas não tudo; e que todos juntos poderiam tudo e muito mais. Por que então ser apenas um quando poderíamos ser todos? Procurei solidariamente difundir isso, enquanto aguçava o meu discernimento para flagrar a mais mínima movimentação ao meu redor, para me levar a investigações e considerações. Por que isso, por que aquilo? Muitos porquês. Havia então adicionado à minha conduta o questionamento de tudo por meio de porquês intermináveis, vez que a certeza com que tudo se expressava impositivamente, se esfacelava entre inúmeras dúvidas. Por conta disso, além das leituras que habitual e compulsivamente me dedicava, comecei a testar todas as teorias. Não buscava apenas a utilidade prática, mas testar o que fosse dito, sentenciado, categoricamente afirmado e o que aparecesse, por meio da minha própria experiência. Para tanto, testava métodos, hipóteses, variáveis e problematizações, conferia resultados e, em seguida, efetuando novas abordagens, explorava novas e todas as possibilidades possíveis até o alcance das dimensões do que me propunha examinar. Buscava relações e dicotomias, qual não era a surpreendente constatação de tantas contradições, quanto paradoxalidades. Afora isso, o desapontamento com as descobertas de subjacentes ideologias que se encontravam recônditas nas mais cristalinas proposições, mascarando sofismáveis conjecturas, casuísmos ou idiossincrasias. Desde então passei a não mais contar apenas do oito a oitenta, pois que antes do limite mínimo, conforme o plano cartesiano, uma contagem regressiva levaria a zero, começando nova contagem negativa infinitamente; e que o limite máximo, da mesma forma, além dos oitenta, também podia contar com oitocentos, oito mil, milhões, zilhões. Ou seja, a minha finitude estava diante da infinitude e eu não tinha a mínima ideia de como conciliar forças antagônicas que se apresentavam, não enxergando que seriam, na verdade, convergentes, quando não complementares. Percebi dualidades; não só, três, quatro, muitas trindades, múltiplas expressões. Isso me fez entender que a leitura só não bastaria, se não houvesse experiências para validarem ou não toda e qualquer coisa. Dos livros obtive muitas e tantas lições e, aliando a isso, experimentei cada desafio, cada conflito, seus percalços e prejuízos, para saber e sentir o que há por trás de viver. Dúvidas, muita; certeza, só uma: nada sei. Preciso aprender mais da vida. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ: 24 HORAS NO AR!!!
Hoje na Rádio Tataritaritatá: especiais com os álbuns Carioca, Stone Alliance, Patamar & Makenna Beach do músico instrumentista Márcio Montarroyos (1948-2007); Libertango, Storm & Sitarki da violoncelista croata Ana Rucner; Rudepoêma de Villa-Lobos, Rapsódia Brasileira de Radamés Gnatali & Fantasia op. 28 de Scriabin, com o pianista brasileiro Roberto Szidon (1941-2011); e a Suíte 1 & 5 de Bach & a Sonata nº 2 de Myaskovsky, com a violoncelista russa Natalia Gutman. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] O estudo da filosofia não será inútil àqueles que lutam, que não se resignam; efetivamente, só uma concepção objetiva do mundo lhes pode dar razões para lutar. Sem teoria justa, não há luta vitoriosa. Alguns crêem que, para atingirmos um alvo, basta que as condições de êxito se realizem. Estão errados, porque é preciso ainda saber se essas condições estão se realizando. Quanto mais complicadas forem as situações, mais importante saber situar-se dentro delas. [...] Essas observações são válidas também para a luta por outros objetivos: lutas pelas liberdades democráticas, pelo pão, pela paz. Portanto, é por necessidade prática que devemos estudar filosofia, que nos devemos interessar pela concepção geral do mundo. [...]. Trechos extraídos da obra Princípios fundamentais de filosofia (Hemus, 1970), de Georges Politzer, Guy Besse e Maurice Caveing. Veja mais aqui, aqui & aqui.

O QUE É & PARA QUE SERVE FILOSOFAR? – [...] O que é Filosofia? Poderia ser: A decisão de não aceitar como óbvias e evidentes as coisas, as ideias, os fatos, as situações, os valores, os comportamentos de nossa existência cotidiana; jamais aceitá-las sem antes havê-los investigado e compreendo. Perguntaram certa vez: Para que Filosofia? E ele respondeu: “Para não darmos nossa aceitação imediata às coisas, sem maiores esclarecimentos”. [...] Admiração e espanto significam: tomamos distância do nosso mundo costumeiro, através de nosso pensamento, olhando-o como se nunca o tivéssemos vistos antes, como se não tivéssemos tido família, amigos, professores, livros e outros meios de comunicação que nos tivessem dito o que o mundo é; como se estivéssemos acabando de nascer para o mundo e para nós mesmos e precisássemos perguntar o que é, por que é e como é o mundo, e precisássemos perguntar também o que somos, por que somos e como somos. [...] Verdade, pensamento, procedimentos especiais para conhecer fatos, relação entre teoria e prática, correção e acúmulos de saberes: tudo isso não é ciência, são questões filosóficas. O cientista parte delas como questões já respondidas, mas é a Filosofia quem as formula e busca respostas para elas. [...] Trechos extraídos da obra Convite à Filosofia (Ática, 2002), da filósofa e educadora brasileira Marilena Chauí. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

LER, PENSAR & AGIR - [...] Os livros são o melhor exemplo da influência do passado, e talvez cheguemos á verdade - conheçamos de forma mais conveniente o teor dessa influência - considerando tão-somente o valor deles. A teoria dos livros é nobre. O letrado dos primeiros tempos recebeu em si o mundo circundante; meditou nele; deu-lhe o novo arranjo de sua propriamente; e exteriorizou-o novamente. Nele entrou como vida; dele saiu como verdade. Veio a ele como ações efêmeras; dele saiu como pensamentos imortais. Veio a ele negócio; dele saiu poesia. Era fato inanimado; é agora pensamento vivaz. Pode ficar imóvel e pode caminhar. Agora resiste, voa, inspira. Exatamente em proporção á profundeza da mente que o produziu é a altura em que paira, o tempo em que canta. Eu poderia dizer, também, que tudo depende de quão longe foi o processo de transmudar vida em verdade. A pureza e durabilidade do produto são proporcionais à inteireza da destilação. Mas nenhum produto é totalmente perfeito. Assim como nenhuma bomba pode produzir vácuo perfeito, tampouco pode nenhum artista excluir inteiramente de sua obra o convencional, o local, o perecível, nem escrever um livro de puro pensamento, que seja de igual modo eficaz para a remota posteridade como para os coetâneos, ou melhor, para uma segunda idade. Verificou-se que cada época deve escrever seus próprios livros; ou a sucede. Os livros de um período mais antigo não servirão para este período. Todavia, disso resulta um grave dano. A santidade ligada ao ato de criação - o ato de pensar - é transferida para o registro. O poeta a cantar era considerado como um homem divino; desde então, o canto passou a ser divino também. O escritor era um espírito justo e sábio; assentou-se então que o livro é perfeito; assim, o amor pelo herói se corrompe em adoração de sua estátua. No mesmo momento o livro se torna nocivo; o guia é um tirano. A mente preguiçosa e pervertida da multidão, lenta no abrir-se às incursões da Razão, abrindo-se uma vez e recebendo um determinado livro, nele se firma e faz um alarido se for desacreditado. Colégios são edificados sobre ele. Livros são escritos acerca dele por pensadores, não pelo Homem Pensante; por homens de talento, vale dizer, por homens que partiram de um principio errôneo, que começaram de dogmas aceitos, não de sua própria visão dos princípios. Jovens submissos crescem em bibliotecas acreditando seja seu dever aceitar as opiniões que Cícero, que Locke, que Bacon manifestaram, esquecidos de que Cícero, Locke e Bacon eram apenas jovens em bibliotecas quando escreveram seus livros. Dessarte, em vez do Homem Pensante, temos ratos de biblioteca. Daí, pois, à classe letrada, que estima os livros não por estarem relacionados com a Natureza e a constituição humana, mas como se constituíssem uma espécie de Terceiro Estado, a par do mundo e da alma. Daí, também, os restauradores de leituras, os emendadores, os bibliomaníacos de todos os graus. Bem usados, os livros são a melhor das coisas; mal usados, uma das piores. Qual é o uso correto deles? Qual o único fim a que se destinam todos os meios? Para nada mais servem senão para inspirar. Preferiria nunca ver um livro a ser desviado, por força de sua atração, de minha própria órbita e convertido em satélite, em vez de o ser em sistema. A única coisa de valor no mundo é a alma ativa. A ela todo homem tem direito; todos os homens a contêm dentro de si, embora, na maioria deles, ela esteja obstada e ainda por nascer. A alma ativa vê a verdade absoluta e formula ou cria a verdade. Nessa ação, é genial; o gênio não é privilégio deste ou daquele protegido, mas o estado rígido de todo homem. Na sua essência, é progressivo. O livro, o colégio, a escola de arte, a instituição de qualquer espécie, se detêm em alguma manifestação pretérita do gênio. Isto é bom, dizem, vamos apegar-nos a isto. Eles me imobilizam. Olham para trás, não para diante. Entretanto, o gênio olha avante; os olhos do Homem estão na parte dianteira, não na parte traseira de sua cabeça. O homem tem esperança; o gênio cria. Quaisquer que sejam os talentos que possua, se o indivíduo não criar, não terá o puro eflúvio da Deidade: haverá cinzas e fumaça, mas não ainda flama. Há maneiras criativas, há ações criativas e palavras criativas; maneiras, ações e palavras que não indicam costume ou autoridade, mas que nascem espontaneamente do senso do bem e do justo da própria mente. Por outro lado, se o homem, em vez de ser seu próprio vidente, receber de outra mente sua verdade, ainda que seja em torrentes de luz, mas sem períodos de solidão, indagação e reconquista de si mesmo, ter-lhe-á sido prestado um fatal desserviço. O gênio é sempre inimigo figadal do gênio por influência exterior. A literatura de todas as nações serve-me de testemunho. A esta altura, os poetas dramáticos ingleses já shakespearizam há mais de duzentos anos. Indubitavelmente, existe uma maneira correta de ler, pelo que deveria haver rigorosa subordinação. O Homem Pensante não deve ser escravizado pelos seus instrumentos. Os livros servem para as horas de ócio dos letrados. Se podemos ler em Deus diretamente, o tempo é precioso demais para que o percamos com transcrições feitas por outros homens de suas próprias leituras. Mas quando chegam os intervalos de escuridão, como lhes cumpre chegar; quando o Sol se oculta e as estrelas recusam seus lampejos, corremos para as lâmpadas que foram acendidas em seus raios, a fim de guiar novamente nossos passos até o Oriente, onde está o amanhecer. Ouvimos para poder falar. Diz o provérbio árabe: "Com olhar para outra figueira, uma figueira se torna frutífera”. [...] Trecho de O letrado americano, extraído da obra Ensaios (Cultrix, 1966), do escritor e filósofo estadunidense Ralf Waldo Emerson (1803-1882). Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

NEUROFILOSOFIA – [...] As questões neurofilosóficas são tão antigas quanto o dia em que o primeiro ser humano se fez a pergunta de "quem somos nós". A natureza do pensamento e sua origem perpassou as mentes de grandes filósofos, todavia sem obter consenso. Atualmente, entretanto, os avanços da pesquisa em neurociências são um forte argumento a favor das teorias materialistas, sem que, no entanto, as teorias dualistas sejam abandonadas, pois a pouca idade das neurociências ainda não permite a construção de um modelo científico capaz de explicar completamente estados mentais mais complexos como a consciência [...]. Trecho do artigo Uma introdução à neurofilosofia: o problema mente-corpo (Revista da Biologia/USP, 2009).da doutoranda na University of Surrey, Camila Gomes Victorino. Neurofilosofia é um termo que surgiu na obra Neurophilosophy (1986), da filósofa estadunidense Patricia Churchland, definida como sendo o estudo filosófico das neurociências, correlato ao estudo neurocientífico da filosofia da mente e da linguagem, estudando por meio de um estudo interdisciplinar dos processos mentais efetuados sob as perspectivas das neurociências e ciências cognitivas, na investigação dos processos cerebrais e redes neurais nas complexas dimensões interativas do cérebro e da mente com o meio físico, social e cultural. Os estudos encontram interlocução com os estudos desenvolvidos pelo filósofo da Universidade de San Diego da Califórnia (UCSD), Paul Churchland e com a obra desenvolvida pelo médico neurologista e neurocientista português António Damásio, que é professor da Universidade do Sul da Califórnia, nos Estados Unidos, relacionando estudos que tratam acerca da articulação filosófica numa visão interdisciplinar com a psicologia, neurociência, inteligência artificial e sistemas complexos. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

CONVERSA AS SEIS & MEIA
Nesta quinta, a partir das 18:30hs, realizarei o Conversa as seis e meia (Café Filosófico), no Restaurante O Nordestão. Informações (81) 3661-7369. O restaurante é especializado em grelhados, carnes, aves, peixes e guisados, aceita todos os cartões e possui amplo estacionamento.

Veja mais:
A arte musical de Márcio Montarroyos aqui.
A arte de Ana Rucner aqui.
A arte de Robert Szidon aqui.
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INICIAÇÃO DE FERNANDO PESSOA
Não dormes sob os ciprestes,
Pois não há sono no mundo.
......
O corpo é a sombra das vestes
Que encobrem teu ser profundo.
Vem a noite, que é a morte
E a sombra acabou sem ser.
Vais na noite só recorte,
Igual a ti sem querer.
Mas na Estalagem do Assombro
Tiram-te os Anjos a capa.
Segues sem capa no ombro,
Com o pouco que te tapa.
Então Arcanjos da Estrada
Despem-te e deixam-te nu.
Não tens vestes, não tens nada:
Tens só teu corpo, que és tu.
Por fim, na funda caverna,
Os Deuses despem-te mais.
Teu corpo cessa, alma externa,
Mas vês que são teus iguais.
......
A sombra das tuas vestes
Ficou entre nós na Sorte.
Não estás morto, entre ciprestes.
......
Neófito, não há morte.
Poema extraído da Obra poética (Nova Aguilar, 1999), do poeta e filósofo português Fernando Pessoa (1888-1935). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da pintora visionária estadunidense Amanda Sage.
Veja mais aqui.
 

quarta-feira, setembro 21, 2016

ONFRAY, VIVIANE MOSÉ & NIETZSCHE, NATALIA GUTMAN, DÉBORA MASSMANN, BIERRENBACH & SCHENDEL

INEDITORIAL: COLOCANDO OS PINGOS NOS IIIIIS! – Olá, gentamiga desse Brasilzão véio, arrevirado e de porteira escancarada! Salve, salve! Em tempos de temerança, nada pior que perder a esperança! Qualé, meu? Nunca é tarde pra gente fazer desse país um Brasil melhor, nunca é tarde. Vamos em frente, desesperar jamais. Eu mesmo digo logo: quanto mais me decepciono, quanto mais degusto de revestrés, mais insisto, persisto, resisto e persevero! Primeiro recadinho: no Dia da Árvore, olhelá – atenção dendroclastas de plantão, não tem como comprar oxigênio por aí não, viu? Ou planta e cuida, ou vamos aprender a viver no deserto ou embaixo d’água, ta? No Dia do Radialista, uma reflexão: que é que estão fazendo com o rádio, hem? PelamordeDeus, gente!  Agora vamos pras novidades, pois hoje tem de tudo: o Grupo de Pesquisa de Neurofilosofia & Neurociência Cognitiva, a poética da geografia na teoria da viagem de Michel Onfray, a poesia de Viviane Mosé, o discurso e a argumentação de Débora Massmann, mais uma da Gaia Ciência de Nietzsche,  a fotografia de Cris Bierrenbacj, a arte de Mira Schendel, a música da Natalia Gutman e outra do doutor Zé Gulu passando aperto com questões de paternidade. No mais, vamos aprumar a conversa & Tataritaritatá. Veja mais aqui.

Veja mais sobre Revolução copernicana ao contrário, Luis Cernuda, Herberto Sales, Radamés Gnatalli, Norma Benguell, Roberto Szidon, Stella Miranda, Wilman Emir Causa Acero, Appolonia Saintclair, Literatura Infantil & A democracia na América Latina aqui.
E mais:
Ramakrishna Paramahamsa, Maria João Pires, Rodolfo García Vazquez, Woody Allen, Richard Bach, Lilia Silvestre Chaves, Cléo de Páris, Apollonia Sainclair & Miklos Mihalovits aqui.
Fecamepa: a cana dos coronéis aos mamoeiros aqui.

DESTAQUE: NEUROFILOSOFIA & NEUROCIÊNCIA COGNITIVA
Realizou-se na última segunda, dia 19 de setembro, mais uma reunião do Grupo de Pesquisa de Neurofilosofia e Neurociência Cognitiva, em que se ressaltou a realização do curso As pensadoras: as grandes mulheres filósofas da história, que prosseguirá nesta quarta, dia 21/09, das 17 às 19hs, no auditório do prédio Íris III – do curso de Direito do Centro Universitário Cesmac -, sobre o tema As mães da igreja e pensadoras cristãs medievais, ministrado pelo professor e coordenador do grupo Álvaro Queiroz. Em seguida deu-se andamento no tratamento e levantamento dos dados atinente ao estudo sobre a temática Epidemiologia do suicídio no município de Maceió, desenvolvido pela professora e coordenadora do Grupo, Janne Eyre Araújo de Melo Sarmento. Logo após foi dado andamento ao estudo Equoterapia & Autismo, desenvolvimento pelo psicólogo Weverky Farias. Foram abertos então os debates, ficando definida a data de 24 de setembro, a partir das 8hs, no Centro Universitário Cesmac, para a próxima reunião, contando com a presença da professora e orientadora do Grupo, a professora doutora Daniela Botti. Veja mais aqui.

CONVERSA DE BAR & FILHO NÃO RECONHECE PAI – Anclotinato era um dos assíduos acompanhantes dos devaneios intelectuais do doutor Zé Gulu. Claro, com um nome desse, dizia o ilustre pensador, não há castigo pior. Na faculdade tive colegas como Arsênico, Aschelminto, 1 2 3 de Oliveira 4, coisas do tipo. Isso é lá graça pra ninguém. E Anclotinato às gargalhadas. Ô, meu fio, num tinha um nomezinho melhor, não? Isso é lá graça pra ninguém? E você não diz nada? Hômi, seu minino, sô sujeito curau das brenhas. Saí do campo pra Sumpaulo com dezoito anos, me despedindo dos pais pra nunca mais. Naquela terra de doido, arrumei colocação de servente no Tribunal de Justiça. Um juiz distinto se afeiçoou de mim, passei de recadista para escriturário, depois escrevente e já tinha destinação certa pras ciências jurídicas. Estava tudo indo muito bem encaminhado, quando um tio meu odontólogo, me fez virar dentista da noite pro dia. Troquei o certo pelo duvidoso. Cinco anos no batente da faculdade, tinha futuro promissor: a clientela do tio. Cheio das gaitas me engracei por uma japonesa. Bastou uma massagem, casei-me com ela no outro dia por causa das suas perícias sexuais. Concorrência braba, resolvi montar consultório na minha terra, findei na capital: endinheirado com as novidades. Fui enfeitiçado pela secretária do consultório, resultado: a japa me expulsou de casa armada dum rifle e acabei metido numa camisa de onze varas. A amásia montou casa e trouxe família do interior com tudo: pai, mãe, irmãos, filharada. Não havia fábrica de dinheiro que desse. Pra reaver o apartamento, tive que botar tudo pra correr sob ameaça de golpe com polícia e tudo. Falido e sem um tostão furado, tive que recomeçar de vida aqui em Alagoinhanduba, como quem puxa só desgraça e miséria. Dentista do município, fui aos poucos reorganizando a vida e resolvi fazer Direito na capital. Cinco anos indo e vindo, formei-me, comecei uma nova carreira. Hoje dá pro gasto, recém-amigado com uma mulher que me compreende, tentando manter o equilíbrio da vida. Só tenho um desgosto: um dia procurei meu filho, o único que tive com a japonesa, ele me virou as costas, dizendo-me que não tem pai, só mãe. É duro isso, meu único filho não quer me ver nem pintado a ouro. Foi aí que o doutor Zé Gulu, compreendendo as lágrimas que lavavam a face do coitado, apertou-lhe a mão com firmeza, deu-lhe um abraço e saiu: - Inté mais. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais Doutor Zé Gulu aqui, aqui e aqui.

UMA MÚSICA
Curtindo os álbuns Cello Concerto & Portrait Séries, da violoncelista russa Natalia Gutman. Veja mais aqui.

PESQUISA: A POÉTICA DA GEOGRAFIA NA TEORIA DA VIAGEM -  [...] Certamente há muitos pretextos, ocasiões e justificativas, mas em realidade só pegamos a estrada movidos pelo desejo de partir em nossa própria busca com o propósito, muito hipotético, de nos reencontrarmos ou, quem sabe, de nos encontrarmos. [...] Quantos desvios, e por quantos lugares, antes de nos sabermos em presença do que levanta o véu do ser. [...] Cada corpo busca reencontrar o elemento no qual se sente a mais à vontade e que foi outrora, nas horas placentárias ou primeiras, o provedor de sensações e de prazeres confusos, mas memoráveis. Existe sempre uma geografia que corresponde a um temperamento. Resta descobri-la. [...] A viagem começa numa biblioteca. Ou numa livraria. Misteriosamente, ela tem lugar ali, na claridade de razões antes escondidas no corpo. No começo do nomadismo, encontramos assim o sedentarismo das prateleiras e das salas de leitura, ou mesmo do domicílio onde se acumulam os livros, os atlas, os romances, os poemas, todas aquelas obras que, de perto ou de longe, contribuem para a formulação, a realização, a concretização de uma escolha do destino. [...] Toda documentação alimenta a iconografia mental de cada um. A riqueza de uma viagem requer, a montante, a densidade de uma preparação – assim como as experiências espirituais convidam a alma à abertura, ao acolhimento de uma verdade capaz de infundir. A leitura age como rito iniciático, revela uma mística pagã. [...] Na viagem, descobre-se apenas aquilo de que se é portador. O vazio do viajante gera a vacuidade da viagem; sua riqueza produz a excelência dela. [...] Nem a sós, nem com vários: circular com o amigo permite evitar a angústia multiplicada do trajeto solitário, da barreira das línguas estrangeiras, dos incômodos burocráticos nas fronteiras com funcionários e policiais de todo o mundo. O estrangeiro que circula livremente num país inquieta as autoridades, sobretudo onde não reina a democracia, isto é, na maioria dos lugares do planeta. A amizade serve de tônico necessário para a conjuração do estado de fragilidade consubstancial ao afastamento do domicílio, longe das referências habitualmente tranqüilizadoras do animal em nós. No exercício da amizade, o outro é o estranho menos estranho possível. [...] No detalhe da viagem, a amizade permite a descoberta de si e do outro.  [...] um poema bem-sucedido, uma foto expressiva, uma página que fica supõem a coincidência absoluta entre a experiência vivida, realizada, e a recordação reativada, sempre disponível não obstante o passar do tempo. De uma viagem só deveriam restar uns três ou quatro sinais, cinco ou sei, não mais que isso. Na verdade, não mais que os pontos cardeais necessários à orientação. [...] Nós mesmos, eis a grande questão da viagem. Nós mesmos e nada mais. Ou pouco mais. Certamente há muitos pretextos, ocasiões e justificativas, mas em realidade só pegamos a estrada movidos pelo desejo de partir em nossa própria busca com o propósito, muito hipotético, de nos reencontrarmos ou, quem sabe, de nos encontrarmos. A volta ao planeta nem sempre é suficiente para obter esse encontro. Tampouco uma existência inteira, às vezes. Quantos desvios, e por quantos lugares, antes de nos sabermos em presença do que levanta um pouco o véu do ser. [...]. Trecho extraído da obra Teoria da viagem: poética da geografia (L&PM, 2009), do filósofo francês Michel Onfray, realizando um elogio à arte de viajar como expediente para filosofar, uma vez que, para ele, só é possível a partir de uma experiência autobiográfica resgatando os significados de sair em busca do desconhecido. Com essa obra ele remonta à história de Caim (agricultor, sedentário) e Abel (pastor, nômade), estabelecendo dois polos entre os quais todos oscilam: nomadismo versus sedentarismo, e amor ao movimento versus paixão pelo imobilismo, pelo enraizamento.

UM LIVRO, UMA LEITURA: VIDA/TEMPO 
Quem tem olhos pra ver o tempo? / Soprando sulcos na pele soprando sulcos na pele / Soprando sulcos? / O tempo andou riscando meu rosto / Com uma navalha fina. / Sem raiva nem rancor / O tempo riscou meu rosto com calma. / Eu parei de lutar contra o tempo. Ando exercendo instante. / Acho que ganhei presença. / Acho que a vida anda passando a mão em mim. Acho que a vida anda passando. / Acho que a vida anda. Em mim a vida anda. Acho que há vida em mim. A vida em mim anda passando. Acho que a vida anda passando a mão em mim / Por falar em sexo quem anda me comendo / É o tempo. Na verdade faz tempo, mas eu escondia / Porque ele me pegava à força, e por trás./ Um dia resolvi encará-lo de frente e disse: Tempo, se você tem que me comer Que seja com o meu consentimento.  E me olhando nos olhos. Acho que ganhei o tempo. De lá pra cá ele tem sido bom comigo. Dizem que ando até remoçando.
Vida/tempo, poema extraído do livro Toda palavra (Record, 2008), da poeta, filósofa, psicóloga e psicanalista Viviane Mosé. Veja mais aqui, aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA: DISCURSO & ARGUMENTAÇÃO - [...] O discurso constitui assim um lugar de formulação e de projeção de visões de mundo: é o espaço em que as relações entre palavras e entre frases constroem, a cada enunciação, um modo diferente de apreender a realidade, de representá-la e de verbalizá-la. A cada enunciação, portanto, um novo esquema de significações e de representações, um novo microuniverso conceitual é expresso. Nessa perspectiva, o autor compreende que toda a argumentação, ao expor um ponto de vista, uma opinião ou uma tese, expressa uma visão de mundo pessoal, um modo subjetivo de perceber a realidade e de enunciá-la. Nesse sentido, o discurso e a argumentação constituem o lugar em que cada sujeito constrói, representa e expressa o seu modo de perceber e de categorizar a realidade. Discurso e argumentação apresentam-se como atores do mundo. Através deles, as diferentes visões de mundo são construídas e representadas discursivamente de forma distinta a cada enunciação. [...] é no espaço da controvérsia que a argumentação se consolida à medida que se estabelece a interação entre os interlocutores, ou seja, à medida que se considera o outro como um sujeito capaz de reagir e de interagir discursivamente pelo exercício da negociação e do entendimento através do debate. Trecho do artigo Argumentação: em busca de um conceito, da professora e pós-doutora em Semântica, Débora Massmann, destacando os discursos jurídico, político e midiático, entre outros, extraído da obra Línguas e instrumentos lingüísticos (RG/Unicamp, 2009).

A GAIA CIÊNCIA
Quer considere os homens com um olhar benevolente ou malevolente, vejo-os todos, e cada um em particular, fazer a mesma coisa: a saber, o que é útil para a sobrevivência da espécie. Ora, não é por amor a essa espécie que agem assim, mas simplesmente porque não há neles nada mais antigo, nada mais forte, mais inexorável, mais invencível que esse instinto – porque esse instinto é precisamente a essência de nossa espécie e de nosso rebanho. [...] De fato, o homem mais prejudicial pode ser o homem mais útil à conservação da espécie; com efeito, ele sustenta em si ou, por sua influência, nos outros, instintos sem os quais a humanidade estaria há muito entorpecida ou corrompida. O ódio, o prazer de ver o outro sofrer, a sede de rapina e de dominação e de tudo aquilo que se dá o nome de mal: tudo isso faz parte da espantosa economia da conservação das espécies, uma economia dispendiosa certamente, pródiga e no fundo totalmente insensata – mas que, como está provado, manteve a nossa espécie até agora. [...] É preciso amar a vida, pois...! É preciso que o homem ative sua vida e aquela do próximo, pois...! [...].
Aqueles que ensinam o objetivo da vida, extraído da Parte I da obra A gaia ciência (Companhia das Letras, 2012), do filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900). Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da fotógrafa, ilustradora e repórter fotográfica Cris Bierrenbach.
Veja mais aqui, aqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Arte da artista plástica suíça radicada no Brasil, Mira Schendel (1919-1988)
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
Veja  aqui e aqui.


HILDA HILST, HANNAH CRITCHLOW, DANIELLE STEEL & ONILDO ALMEIDA

  Imagem: Acervo ArtLAM .   Fábula hodierna ... - Dois irmãos uterinos, duas irmãs órfãs consanguíneas. Assim: Prometeu brechava fascín...