Mostrando postagens com marcador Márcio Montarroyos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Márcio Montarroyos. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, novembro 02, 2017

SHAW, ISMAEL NERY, ODETTE ASLAN, MAURÍCIO MELO JÚNIOR, LIA VIEIRA, POESIA REVISTA, PAULO DANTAS, SUCATÁRIO & BONITO

AOS VIVOS QUE RESTAM DOS MORTOS - Imagem: Nós (1926), do pintor brasileiro Ismael Nery (1900-1934). - As partidas nas asas dos ventos, as chegadas apressadas de nada verem, atrasados nas suas fugas imotivas e defecções, afetos perdidos, asas partidas no espaço vazio, entre sentimentos estreitos, andares solitários doloridos na garoa dos muros interditados pelas tardes sem sol dos olhos nublados, mãos espalmadas para ausência, abraço estendido pro ermo da indiferença dos que vivem sem saber que já morreram nas suas frustrações e mágoas enfurecidas, dos que acham que vivem na embriaguês de seus mandos e posses a rivalizar com as necessidades alheias de sorrir a banguela das gengivas invernais, dos que tentam viver a todo custo a pisar os outros com a cegueira dos luxos das vitrines e pedidos de perdão na oração cristã da missa dominical. Em mim o vaivém do caleidoscópio, sombras de novembro no peito de maio pelo filho que partiu a muito na poeira do tempo quase inesquecível, pela mãe que se foi sem aceno na dor de parir sonhos irrealizáveis, pelos amigos tragados pelas tragédias, pelos que sumiram nas cinzas do álbum de fotografias, povoando lembranças erradias. Saúdo meus mortos que vivem em mim, estão vivos em mim no que me resta de ser feliz apesar dos pesares. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especiais com os álbuns Carioca, Stone Alliance, Patamar & Makenna Beach do músico instrumentista Márcio Montarroyos (1948-2007); Libertango, Storm & Sitarki da violoncelista croata Ana Rucner; Rudepoêma de Villa-Lobos, Rapsódia Brasileira de Radamés Gnatali & Fantasia op. 28 de Scriabin, com o pianista brasileiro Roberto Szidon (1941-2011); e a Suíte 1 & 5 de Bach & a Sonata nº 2 de Myaskovsky, com a violoncelista russa Natalia Gutman. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA - A escravatura humana atingiu o seu ponto culminante na nossa época sob a forma do trabalho livremente assalariado. Pensamento do dramaturgo, escritor e jornalista irlandês George Bernard Shaw (1856-1950). Veja mais aqui e aqui.

SOCORRO DO TREM DO BONITOO município do Bonito foi assentado em meio a diversos pés de serras, verdadeiras couraças naturais que embalam a cidade [...] irrigados pelos rios Sirinhaém e Una. A fertilidade do solo, a amenidade do clime, a salubridade e as boas fontes de águas, atraíram, desde finais de sec. XVIII, toda sorte de aventureiros, muitos até endinheirados, que ali fundaram fazendas e engenhocas obtidas às terras por sesmarias. Outros sem grandes chances na vida, buscavam abrigo naquela terra como moradores e agregados havendo aqueles, como os retirantes das secas que por ali se abrigavam buscando conforto para suas miseráveis vidas. [...] Foi essa gente sofrida que, aproveitando as sobras de terras, as brechas, digamos assim, entre uma sesmaria e outra se arrancharam com suas famílias, fundando no outeiro a capela da Conceição (1812), mais tarde matriz da cidade. [...] Paulatinamente, o Bonito foi crescendo e adaptando-se às novas realidades [...] Afora o sesmarialismo, muitas terras foram conquistadas no tapa. [...] Nesses mundos onde se desenvolveram sítios, engenhos e engenhocas, a casa senhorial era o centro nevralgico das decisões. [...] Por volta do segundo quartel do sec. XIX, teve inicio no Bonito o cultivo da cana. [...] Diante dessas expectativas, a cana passou a invadir quase todo altiplano bonitense dilatando-se por várzeas, brejos e montanhas, registrando-se decréscimo no final do século mediante a consciência da cafeicultura. [...]. A região onde desemboca o rio Sirinhaem, o rio dos siris para os nativos, foi conquistadas aos índios em 1565. Após esse empreendimento, os índios foram expulsos de suas terras e estas repartidas em datas de sesmarias vicejando posteriormente engenhos de açúcar. Mais tarde o colonizador adentrou pelo mato reconhecendo todo o curso do dito rio até chegar suas nascentes no agreste em Camocim de São Félix. [...] De seus aflientes Bonito Grande, Riacho Seco, Tanque de Piabas, Várzea Alegre e Tese. [...]. Trechos extraídos da obra Velhos engenhos e antigas famílias do Bonito (CEHM, 2010), de Flávio José Gomes Cabral. Já no texto Estrada de ferro Ribeirão-Cortês-Bonito, de Severino Rodrigues de Moura, extraídop da Revista de História Municipal (CEHM, dez. 2008), encontramos o seguinte relato: A população do Bonito tinha o sonho de construir uma estrada de ferro ligando sua cidade a Ribeiro desde meados do século passado. [...] Em 1904 a linha férrea Ribeirão-Nonito foi anexada à Great Western e em seguida à Rede Ferroviária do Nordeste (RFN) até sua extinção. [...] Um certo dia, a locomotiva descarrilou no ramal do Engenho Limão, com todas as carroças de cana. O acidente apresentou proporções bem maiores do que aqueles ocorridos antes, tendo o maquinista que pedir socorro ao gerente da usina. [...] Teve que pedir ajuda em Ribeirão. No entanto, o trem de socorro também descarrilou, sendo preciso vir um terceiro trem. Foi um Deus nos acuda. Parecia um formigueiro em vérpera de trovoada. [...] mais uma vez pediu socorro à estação de Ribeirão, passando o seguinte telegrama: Trem de carga caiu. Pedi socorro. Socorro veio. Também caiu. Agora peço socorro para socorrer socorro e trem de cana. Ass.: Norberto. Veja mais aqui.

ÍNTIMO DAS AUTORIDADESO sujeito tinha o apelido de “Sombra”. Era funcionário do cerimonial no palácio do governo estadual [...] Jornalistas e repórteres fotográficos credenciados, ficavam enfurecidos da vida devido as reais dificuldades em fotografarem as autoridades sem a presença do “individuo indesejavel”. [...] Verdadeiro batalhão de fotógrafos e jornalistas se posicionava a fim de clicarem o Presidente da República. [...] Quem estava logo na frente? Ele, o inconveniente e intrometido Sombra. Ajeitou o cabelo e a gola do surrado paletó, dirigiu-se aos fotógrafos e perguntou: Como vocês querem que eu saia? Disse um dos repórteres: Que saia da frente, para fotografarmos o presidente! Trechos extraídos da obra Sátiras políticas: porque rir faz bem à saúde (Livro Rápido, 2000), do escritor e advogado Paulo Dantas Saldanha.

A SUCATA & ARTES VISUAIS – [...] As possibilidades de construções com sucatas são infinitas, baratas e podem sem muito criativas. Além disso, as sucatas podem ser utilizadas em muitas outras atividades, como complemento de outra técnica. [...] Se a sucata não for valorizada, fica muito próxima de mero lixo e com isso não desperta nenhum interesse para a criação. [...]. Trecho extraído da obra 300 propostas de artes visuais (Loyola, 2009), das artistas plásticas Ana Tatit & Maria Silvia Monteiro Machado, tratando sobre pintura, desenho, recortes, colagens, bonecos, máscaras, modelagens, fantoches, mosaico, escultura e construções com materiais variados, jogos e brinquedos com sucata, sucatário, outras técnicas e atividades.

O ATOR NO SÉCULO XX – [...] perfila-se uma volta a comunhão por pequenos grupos, a celebração de um rito em que celebrantes e fieis respiram juntos, mobilizem suas forças fisiológicas e pesquisas, querem sair de si mesmo, comunicar-se numa troca fraterna. O ator continua sendo aquele que propõe essa troca, que dá ao outro, que recebe e se oferece de novo, qualquer que seja sua mensagem. [...] Ator-poeta, trovador falando ou cantando [...] o prazer de atuar se confunde com o prazer de viver para quem o mal de viver se traduz pela dor que se canta e repartindo o que se encanta. [...]. Trecho da obra O ator no século XX (Perspectiva, 2008), de Odette Aslan que trata sobre as formas de interpretação, os problemas do gestual, modo de formação, busca da personagem, reações contra o naturalismo, pesquisas antes e depois da revolução russa, revisão do espaço, radio, cinema, televisão, teatros-laboratórios, comunidades teatrais, tendencias atuais, ética pessoal e de grupo e o ator do amanhã. Veja mais aqui e aqui.

SER POETA - Fiz-me poeta / por exigência da vida, das emoções, dos ideais, da raça. / Fiz-me poeta / sabendo que nem só se finge a dor que deveras sente / e crendo que através da poesia posso exprimir / a arte do cotidiano, vivida em cada poema marginal. Poema extraído da obra Quilombo Hoje – Cadernos Negros 15 (Edição dos Autores, 1992), da poeta, pesquisadora, artista plástica e educadora Lia Vieira. Veja mais aqui.

CRÔNICA DO ARVOREDO & ANDARILHOS DE MAURÍCIO MELO JÚNIOR
[...] Já não me lembro bem dos detalhes, sei apenas que li num livro emprestado por um amigo. A memória também não alcança os nomes do amigo, do livro, do autor. Sei somente que era alto e escondia o rosto por trás de uma barba espessa, o amigo; e o volume tinha capa amarela e marrom. Vivíamos a tensão do vestibular; implacável, inadiável. Vivíamos uma cidade cercada pelos mistério da história, pelo fascínio de um cotidiano de transformações concretizadas ao desejos dos minutos. Tínhamos a sensação de que o mundo hirava em função de nós. E o mundo não nos bastava, embora tivesse sido feito para abrigar somente a nossa juventude. O amanhã era apenas a conseqüência do Sol que à tarde dormia. Por isso vivíamos com intensidade o Recife. [...].
Trecho da obra Crônica do arvoredo (Bagaço, 2006).
[...] Seu moço saia do caminho, a conversa é comigo e Deus. No meio, somente os macacos do exercito e a esperança de uma briga boa. Desarrede, desarrede que não tenho prosa pro senhor. Doido, eu? Pois o senhor ainda não topou com doido na vida e já disse pra não querer me enfrentar. Num avance, peste, num avnce que seu tempo pode tá findo. Pois, lá vai brincadeira que já num tenho tempo pra prosa. Pá, pá e que fique nas agonias do fim. [...]
Trecho da obra Andarilhos: caminhos só ida, volta à seca (Bagaço, 2007), ambos os livros do jornalista e escritor Maurício Melo Júnior. Veja mais aqui, aqui e aqui.

Veja mais:
A poesia de Jorge de Sena aqui.
A poesia & o cinema de Pier Paolo Pasolini aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.
Faça seu TCC sem Traumas: livro, curso & consultas aqui.
Livros Infantis do Nitolino aqui.
&
Agenda de Eventos aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do pintor brasileiro Ismael Nery (1900-1934). 
Veja mais aquiaqui, aqui & aqui.

POESIA REVISTA 2018
Acaba de ser lançado o edital da Poesia Revista para reunião anual de textos poéticos e colunistas de São Paulo, Mato Grosso e Rio Grande do Sul, com tema Amor e distribuída em bibliotecas nacionais, em saraus e pelos poetas participantes do projeto. A publicação é destnada a jovens e adultos, visando o fomento da cultura e literatura na formação de público leitor e com objetivos voltados para valorização do escritor e suas habilidades textuais, incentivo da leitura, oportunizar aos autores a veiculação de seus trabalhos com divulgação nacional e internacional. Os interessados confiram aqui.

quinta-feira, setembro 14, 2017

FERNANDO PESSOA, EMERSON, CHAUÍ, NEUROFILOSOFIA, AMANDA SAGE & MUITO MAIS!

ETERNO APRENDIZADO – Imagem: arte da pintora visionária estadunidense Amanda Sage. - Há trinta anos, mais ou menos, empunhei a bandeira de que o bloco do eu sozinho não me levaria a lugar nenhum e que o umbigo era só o centro do corpo, jamais do universo. Disso fiz minha missão, mãos e braços solidários e disponíveis a quem chegasse e quisesse. Sabia que o individualismo possessivo potencializado pelo umbigocentrismo consumista ruiria todos os níveis de relações. Aprendia a metáfora dos dedos das mãos: todos eram diferentes, um deles sozinho poderia muito, mas não tudo; e que todos juntos poderiam tudo e muito mais. Por que então ser apenas um quando poderíamos ser todos? Procurei solidariamente difundir isso, enquanto aguçava o meu discernimento para flagrar a mais mínima movimentação ao meu redor, para me levar a investigações e considerações. Por que isso, por que aquilo? Muitos porquês. Havia então adicionado à minha conduta o questionamento de tudo por meio de porquês intermináveis, vez que a certeza com que tudo se expressava impositivamente, se esfacelava entre inúmeras dúvidas. Por conta disso, além das leituras que habitual e compulsivamente me dedicava, comecei a testar todas as teorias. Não buscava apenas a utilidade prática, mas testar o que fosse dito, sentenciado, categoricamente afirmado e o que aparecesse, por meio da minha própria experiência. Para tanto, testava métodos, hipóteses, variáveis e problematizações, conferia resultados e, em seguida, efetuando novas abordagens, explorava novas e todas as possibilidades possíveis até o alcance das dimensões do que me propunha examinar. Buscava relações e dicotomias, qual não era a surpreendente constatação de tantas contradições, quanto paradoxalidades. Afora isso, o desapontamento com as descobertas de subjacentes ideologias que se encontravam recônditas nas mais cristalinas proposições, mascarando sofismáveis conjecturas, casuísmos ou idiossincrasias. Desde então passei a não mais contar apenas do oito a oitenta, pois que antes do limite mínimo, conforme o plano cartesiano, uma contagem regressiva levaria a zero, começando nova contagem negativa infinitamente; e que o limite máximo, da mesma forma, além dos oitenta, também podia contar com oitocentos, oito mil, milhões, zilhões. Ou seja, a minha finitude estava diante da infinitude e eu não tinha a mínima ideia de como conciliar forças antagônicas que se apresentavam, não enxergando que seriam, na verdade, convergentes, quando não complementares. Percebi dualidades; não só, três, quatro, muitas trindades, múltiplas expressões. Isso me fez entender que a leitura só não bastaria, se não houvesse experiências para validarem ou não toda e qualquer coisa. Dos livros obtive muitas e tantas lições e, aliando a isso, experimentei cada desafio, cada conflito, seus percalços e prejuízos, para saber e sentir o que há por trás de viver. Dúvidas, muita; certeza, só uma: nada sei. Preciso aprender mais da vida. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ: 24 HORAS NO AR!!!
Hoje na Rádio Tataritaritatá: especiais com os álbuns Carioca, Stone Alliance, Patamar & Makenna Beach do músico instrumentista Márcio Montarroyos (1948-2007); Libertango, Storm & Sitarki da violoncelista croata Ana Rucner; Rudepoêma de Villa-Lobos, Rapsódia Brasileira de Radamés Gnatali & Fantasia op. 28 de Scriabin, com o pianista brasileiro Roberto Szidon (1941-2011); e a Suíte 1 & 5 de Bach & a Sonata nº 2 de Myaskovsky, com a violoncelista russa Natalia Gutman. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] O estudo da filosofia não será inútil àqueles que lutam, que não se resignam; efetivamente, só uma concepção objetiva do mundo lhes pode dar razões para lutar. Sem teoria justa, não há luta vitoriosa. Alguns crêem que, para atingirmos um alvo, basta que as condições de êxito se realizem. Estão errados, porque é preciso ainda saber se essas condições estão se realizando. Quanto mais complicadas forem as situações, mais importante saber situar-se dentro delas. [...] Essas observações são válidas também para a luta por outros objetivos: lutas pelas liberdades democráticas, pelo pão, pela paz. Portanto, é por necessidade prática que devemos estudar filosofia, que nos devemos interessar pela concepção geral do mundo. [...]. Trechos extraídos da obra Princípios fundamentais de filosofia (Hemus, 1970), de Georges Politzer, Guy Besse e Maurice Caveing. Veja mais aqui, aqui & aqui.

O QUE É & PARA QUE SERVE FILOSOFAR? – [...] O que é Filosofia? Poderia ser: A decisão de não aceitar como óbvias e evidentes as coisas, as ideias, os fatos, as situações, os valores, os comportamentos de nossa existência cotidiana; jamais aceitá-las sem antes havê-los investigado e compreendo. Perguntaram certa vez: Para que Filosofia? E ele respondeu: “Para não darmos nossa aceitação imediata às coisas, sem maiores esclarecimentos”. [...] Admiração e espanto significam: tomamos distância do nosso mundo costumeiro, através de nosso pensamento, olhando-o como se nunca o tivéssemos vistos antes, como se não tivéssemos tido família, amigos, professores, livros e outros meios de comunicação que nos tivessem dito o que o mundo é; como se estivéssemos acabando de nascer para o mundo e para nós mesmos e precisássemos perguntar o que é, por que é e como é o mundo, e precisássemos perguntar também o que somos, por que somos e como somos. [...] Verdade, pensamento, procedimentos especiais para conhecer fatos, relação entre teoria e prática, correção e acúmulos de saberes: tudo isso não é ciência, são questões filosóficas. O cientista parte delas como questões já respondidas, mas é a Filosofia quem as formula e busca respostas para elas. [...] Trechos extraídos da obra Convite à Filosofia (Ática, 2002), da filósofa e educadora brasileira Marilena Chauí. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

LER, PENSAR & AGIR - [...] Os livros são o melhor exemplo da influência do passado, e talvez cheguemos á verdade - conheçamos de forma mais conveniente o teor dessa influência - considerando tão-somente o valor deles. A teoria dos livros é nobre. O letrado dos primeiros tempos recebeu em si o mundo circundante; meditou nele; deu-lhe o novo arranjo de sua propriamente; e exteriorizou-o novamente. Nele entrou como vida; dele saiu como verdade. Veio a ele como ações efêmeras; dele saiu como pensamentos imortais. Veio a ele negócio; dele saiu poesia. Era fato inanimado; é agora pensamento vivaz. Pode ficar imóvel e pode caminhar. Agora resiste, voa, inspira. Exatamente em proporção á profundeza da mente que o produziu é a altura em que paira, o tempo em que canta. Eu poderia dizer, também, que tudo depende de quão longe foi o processo de transmudar vida em verdade. A pureza e durabilidade do produto são proporcionais à inteireza da destilação. Mas nenhum produto é totalmente perfeito. Assim como nenhuma bomba pode produzir vácuo perfeito, tampouco pode nenhum artista excluir inteiramente de sua obra o convencional, o local, o perecível, nem escrever um livro de puro pensamento, que seja de igual modo eficaz para a remota posteridade como para os coetâneos, ou melhor, para uma segunda idade. Verificou-se que cada época deve escrever seus próprios livros; ou a sucede. Os livros de um período mais antigo não servirão para este período. Todavia, disso resulta um grave dano. A santidade ligada ao ato de criação - o ato de pensar - é transferida para o registro. O poeta a cantar era considerado como um homem divino; desde então, o canto passou a ser divino também. O escritor era um espírito justo e sábio; assentou-se então que o livro é perfeito; assim, o amor pelo herói se corrompe em adoração de sua estátua. No mesmo momento o livro se torna nocivo; o guia é um tirano. A mente preguiçosa e pervertida da multidão, lenta no abrir-se às incursões da Razão, abrindo-se uma vez e recebendo um determinado livro, nele se firma e faz um alarido se for desacreditado. Colégios são edificados sobre ele. Livros são escritos acerca dele por pensadores, não pelo Homem Pensante; por homens de talento, vale dizer, por homens que partiram de um principio errôneo, que começaram de dogmas aceitos, não de sua própria visão dos princípios. Jovens submissos crescem em bibliotecas acreditando seja seu dever aceitar as opiniões que Cícero, que Locke, que Bacon manifestaram, esquecidos de que Cícero, Locke e Bacon eram apenas jovens em bibliotecas quando escreveram seus livros. Dessarte, em vez do Homem Pensante, temos ratos de biblioteca. Daí, pois, à classe letrada, que estima os livros não por estarem relacionados com a Natureza e a constituição humana, mas como se constituíssem uma espécie de Terceiro Estado, a par do mundo e da alma. Daí, também, os restauradores de leituras, os emendadores, os bibliomaníacos de todos os graus. Bem usados, os livros são a melhor das coisas; mal usados, uma das piores. Qual é o uso correto deles? Qual o único fim a que se destinam todos os meios? Para nada mais servem senão para inspirar. Preferiria nunca ver um livro a ser desviado, por força de sua atração, de minha própria órbita e convertido em satélite, em vez de o ser em sistema. A única coisa de valor no mundo é a alma ativa. A ela todo homem tem direito; todos os homens a contêm dentro de si, embora, na maioria deles, ela esteja obstada e ainda por nascer. A alma ativa vê a verdade absoluta e formula ou cria a verdade. Nessa ação, é genial; o gênio não é privilégio deste ou daquele protegido, mas o estado rígido de todo homem. Na sua essência, é progressivo. O livro, o colégio, a escola de arte, a instituição de qualquer espécie, se detêm em alguma manifestação pretérita do gênio. Isto é bom, dizem, vamos apegar-nos a isto. Eles me imobilizam. Olham para trás, não para diante. Entretanto, o gênio olha avante; os olhos do Homem estão na parte dianteira, não na parte traseira de sua cabeça. O homem tem esperança; o gênio cria. Quaisquer que sejam os talentos que possua, se o indivíduo não criar, não terá o puro eflúvio da Deidade: haverá cinzas e fumaça, mas não ainda flama. Há maneiras criativas, há ações criativas e palavras criativas; maneiras, ações e palavras que não indicam costume ou autoridade, mas que nascem espontaneamente do senso do bem e do justo da própria mente. Por outro lado, se o homem, em vez de ser seu próprio vidente, receber de outra mente sua verdade, ainda que seja em torrentes de luz, mas sem períodos de solidão, indagação e reconquista de si mesmo, ter-lhe-á sido prestado um fatal desserviço. O gênio é sempre inimigo figadal do gênio por influência exterior. A literatura de todas as nações serve-me de testemunho. A esta altura, os poetas dramáticos ingleses já shakespearizam há mais de duzentos anos. Indubitavelmente, existe uma maneira correta de ler, pelo que deveria haver rigorosa subordinação. O Homem Pensante não deve ser escravizado pelos seus instrumentos. Os livros servem para as horas de ócio dos letrados. Se podemos ler em Deus diretamente, o tempo é precioso demais para que o percamos com transcrições feitas por outros homens de suas próprias leituras. Mas quando chegam os intervalos de escuridão, como lhes cumpre chegar; quando o Sol se oculta e as estrelas recusam seus lampejos, corremos para as lâmpadas que foram acendidas em seus raios, a fim de guiar novamente nossos passos até o Oriente, onde está o amanhecer. Ouvimos para poder falar. Diz o provérbio árabe: "Com olhar para outra figueira, uma figueira se torna frutífera”. [...] Trecho de O letrado americano, extraído da obra Ensaios (Cultrix, 1966), do escritor e filósofo estadunidense Ralf Waldo Emerson (1803-1882). Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

NEUROFILOSOFIA – [...] As questões neurofilosóficas são tão antigas quanto o dia em que o primeiro ser humano se fez a pergunta de "quem somos nós". A natureza do pensamento e sua origem perpassou as mentes de grandes filósofos, todavia sem obter consenso. Atualmente, entretanto, os avanços da pesquisa em neurociências são um forte argumento a favor das teorias materialistas, sem que, no entanto, as teorias dualistas sejam abandonadas, pois a pouca idade das neurociências ainda não permite a construção de um modelo científico capaz de explicar completamente estados mentais mais complexos como a consciência [...]. Trecho do artigo Uma introdução à neurofilosofia: o problema mente-corpo (Revista da Biologia/USP, 2009).da doutoranda na University of Surrey, Camila Gomes Victorino. Neurofilosofia é um termo que surgiu na obra Neurophilosophy (1986), da filósofa estadunidense Patricia Churchland, definida como sendo o estudo filosófico das neurociências, correlato ao estudo neurocientífico da filosofia da mente e da linguagem, estudando por meio de um estudo interdisciplinar dos processos mentais efetuados sob as perspectivas das neurociências e ciências cognitivas, na investigação dos processos cerebrais e redes neurais nas complexas dimensões interativas do cérebro e da mente com o meio físico, social e cultural. Os estudos encontram interlocução com os estudos desenvolvidos pelo filósofo da Universidade de San Diego da Califórnia (UCSD), Paul Churchland e com a obra desenvolvida pelo médico neurologista e neurocientista português António Damásio, que é professor da Universidade do Sul da Califórnia, nos Estados Unidos, relacionando estudos que tratam acerca da articulação filosófica numa visão interdisciplinar com a psicologia, neurociência, inteligência artificial e sistemas complexos. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

CONVERSA AS SEIS & MEIA
Nesta quinta, a partir das 18:30hs, realizarei o Conversa as seis e meia (Café Filosófico), no Restaurante O Nordestão. Informações (81) 3661-7369. O restaurante é especializado em grelhados, carnes, aves, peixes e guisados, aceita todos os cartões e possui amplo estacionamento.

Veja mais:
A arte musical de Márcio Montarroyos aqui.
A arte de Ana Rucner aqui.
A arte de Robert Szidon aqui.
A arte de Natalia Gutman aqui.
Faça seu TCC sem Traumas: livro, curso & consultas aqui.
Livros Infantis do Nitolino aqui.
&
Agenda de Eventos aqui.

INICIAÇÃO DE FERNANDO PESSOA
Não dormes sob os ciprestes,
Pois não há sono no mundo.
......
O corpo é a sombra das vestes
Que encobrem teu ser profundo.
Vem a noite, que é a morte
E a sombra acabou sem ser.
Vais na noite só recorte,
Igual a ti sem querer.
Mas na Estalagem do Assombro
Tiram-te os Anjos a capa.
Segues sem capa no ombro,
Com o pouco que te tapa.
Então Arcanjos da Estrada
Despem-te e deixam-te nu.
Não tens vestes, não tens nada:
Tens só teu corpo, que és tu.
Por fim, na funda caverna,
Os Deuses despem-te mais.
Teu corpo cessa, alma externa,
Mas vês que são teus iguais.
......
A sombra das tuas vestes
Ficou entre nós na Sorte.
Não estás morto, entre ciprestes.
......
Neófito, não há morte.
Poema extraído da Obra poética (Nova Aguilar, 1999), do poeta e filósofo português Fernando Pessoa (1888-1935). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da pintora visionária estadunidense Amanda Sage.
Veja mais aqui.
 

terça-feira, setembro 29, 2015

EDUCAÇÃO, CERVANTES, CARAVAGGIO, PLÍNIO, EKBERG, UNAMUNO, KORNAROS, ANTONIONI, MONTARROYOS & PROGRAMA TATARITARITATÁ.


VAMOS APRUMAR A CONVERSA? EDUCAÇÃO POR ÁGUA ABAIXO (Imagem: artigo publicado na sessão Opinião da Gazeta de Alagoas, Página A-4, edição de sábado, 23 de novembro de 1996) – Quando escrevi este pequeno artigo opinativo que foi publicado na Gazeta de Alagoas e em outros veículos de comunicação de massa e alternativos, era, nada mais, nada menos, um cidadão exercitando a sua cidadania. Era o meu olhar para o descaso com que eram tratadas as instituições escolares de todos os níveis, os professores, os alunos e a sociedade brasileira no que diz respeito ao quesito educação. Estava eu, confesso, embevecido com a previsão dada no art. 205 da Constituição Federal vigente, que prescreve que “Art. 205. A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho”. Mais surpreso fiquei quando, poucos dias depois da publicação do meu texto, ocorreu a edição da Lei 9.394, de 20 de dezembro de 1996, estabelecendo as diretrizes e bases da educação nacional. Nela deu-se a regulamentação das previsões constitucionais, prevendo no art. 2º do Título II que: “Art. 2º. A educação, dever da família e do Estado, inspirada nos princípios de liberdade e nos ideais de solidariedade humana, tem por finalidade o pleno desenvolvimento do educando, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho”. Logo no art. 3º traz que: “Art. 3º. O ensino será ministrado com base nos seguintes princípios: I - igualdade de condições para o acesso e permanência na escola; II - liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar a cultura, o pensamento, a arte e o saber; III - pluralismo de ideias e de concepções pedagógicas; IV - respeito à liberdade e apreço à tolerância; V - coexistência de instituições públicas e privadas de ensino; VI - gratuidade do ensino público em estabelecimentos oficiais; VII - valorização do profissional da educação escolar; VIII - gestão democrática do ensino público, na forma desta Lei e da legislação dos sistemas de ensino; IX - garantia de padrão de qualidade; X - valorização da experiência extraescolar; XI - vinculação entre a educação escolar, o trabalho e as práticas sociais”. Seguem-se na lei epigrafada títulos e artigos outros destinados às previsões do direito à educação e do dever de educar, da organização da educação nacional, dos níveis e das modalidades de educação e ensino, dos profissionais da educação, dos recursos financeiros e das disposições gerais e transitórias, perfazendo um total de 92 artigos regulando o universo da educação brasileira. A partir de então, levado por essa novidade legal, passei a desenvolver práticas que me levassem a estudar como se daria a educação dali por diante. E de forma ambiciosa, abri duas frentes de estudos: a primeira, voltada exclusivamente à Educação Infantil e ao primeiro ciclo do Ensino Fundamental, por meio de atividades de recreações com base nos meus livros dedicados a este universo de pesquisa; a segunda, ministrando um curso denominado Faça seu TCC sem Traumas, destinado aos estudantes de graduação e pós-graduação, lato e stricto sensu, no sentido de abarcar desde o segundo ciclo do Ensino Fundamental até a Educação Superior, passando pela Educação Profissional, Educação Especial, Educação de Jovens e Adultos (EJA), Educação a Distância (EAD) e até a Educação Indígena. No primeiro trabalho mencionado, pude trabalhar em escolas das redes pública e privada de Alagoas e de outros Estados, com contação de histórias e atividades recreativas  e artísticas para a garotada ao longo desses quase 20 anos, possibilitando uma visão geral da área. No segundo trabalho, pude contar com participantes do meu curso nas mais diversas áreas, desde a Educação, Direito, Psicologia, Economia, Administração, Serviço Social, Sociologia, Turismo, História, entre outras, em cursos de graduação e pós-graduação, incluindo diversas dissertações mestrados e teses de doutorados das mais diversas universidades brasileiras e do exterior, e que contaram todos com a orientação de renomados doutores e aprovação das respectivas bancas examinadoras. Foram, portanto, realizadas enorme revisão da literatura para pesquisa de natureza bibliográfica e realizados diversos estudos de casos com pesquisa de campo de natureza qualiquantitativa, que envolveram todos os níveis e modalidades da educação brasileira, da infantil até a superior, EJA e EAD. Esses estudos foram desenvolvidos com temáticas as mais diversas, desde instituição e gestão escolar, direito à educação, formação e prática pedagógica, ensino-aprendizagem, relações interpessoais entre profissionais docentes e não-docentes, temas transversais, inclusão, hábitos alimentares, meio ambiente e educação ambiental, cidadania e escola cidadã, saúde, sexualidade e educação sexual, religião e educação religiosa, inclusão, até o papel das artes e de outros campos científicos na educação, entre tantos outros inseridos sobre a ótica jurídica, psicológica e educacional. O resultado disso está não só nos trabalhos acadêmicos gerados pelos participantes do meu curso ao longo desses quase 20 anos, como nas postagens deste e dos meus outros blogs, além da participação em congressos e encontros nacionais e internacionais, artigos e estudos, projetos de extensão e de iniciação científica, entre outros eventos, levando a realidade encontrada na educação brasileira, sobretudo alagoana. Hoje levo estes estudos pro curso de Psicologia e para palestras, debates e discussões acerca do tema que participo, no sentido de contribuir para amplitude e aprofundamento que tal temática carece. Se o avanço ocorrido durante esses quase 20 anos de estudos foram poucos ou irrisórios e que a tragédia ainda nos deixa num quadro lamentável de desolamento, não posso esconder a minha esperança, afinal é dela que me faço cultor da revolução copernicana ao contrário e, consequentemente, da busca pelo alcance utópico do autogoverno humano na melhoria das condições de vida planetária, de que a educação poderá ter a atenção que merece nas futuras gerações. Se a educação vai por água abaixo a responsabilidade é nossa! E para mudar esse quadro canto Ivan Lins/Vitor Martins: Depende de nós... E vamos aprumar a conversa aqui, aqui, aqui e aqui.


Imagem: Female nude, do pintor do Barroco italiano Michelangelo Merisi da Caravaggio (1571-1610). Veja mais aqui, aqui e aqui.


Curtindo Magic Moment (CBS, 1982), do instrumentista e compositor Márcio Montarroyos (1948-2007).

VERDADE E VIDA – No ensaio Verdade e vida (Covilhã, 2008), do filósofo, escritor e dramaturgo espanhol Miguel de Unamuno (1864-1936), destaco os trechos a seguir? [...] Primeiro: a verdade na vida. Desde sempre foi a minha convicção, mais arraigada e mais corroborada em mim à medida que o tempo vai passando: que a suprema virtude de um homem deve ser a sinceridade. O vício mais feio é a mentira, os seus derivados e disfarces, a hipocrisia e o exagero. Prefiro o cínico ao hipócrita, não fora aquele já parte deste. Abrigo a profunda crença de que, se todos disséssemos sempre e em cada caso a verdade, a verdade nua e crua, ao princípio ameaçaria tornar-se inabitável a terra, mas depressa acabaríamos por nos entender como hoje não nos entendemos. Se todos, podendo assomar ao bocal das consciências alheias, víssemos despidas as almas, as nossas rixas e suspeitas fundir-se-iam todas numa imensa piedade mútua. Veríamos as negruras do que temos por santo, mas também a alvura daquele que consideramos um malvado. [...] Há que observar agora outra coisa – e com isto respondo, ao mesmo tempo, a maliciosas insinuações de um ou outro espontâneo e, para mim, desconhecido correspondente dessas aldeolas; como há muitas, muitíssimas, mais verdades por dizer do que tempo e ocasiões para dizê-las, não podemos dedicar-nos a dizer aquelas que este ou aquele indivíduo quereria que disséssemos, mas aqueloutras que julgamos mais momentosas ou mais a propósito. Sempre que alguém nos repreende porque não proclamamos estas ou aquelas verdades, podemos responder-lhe que, se fizéssemos como ele quer, não poderíamos proclamar outras verdades que proclamamos. E, não raro, acontece também que aquilo que eles consideram como verdade, partindo do suposto que também como tal a consideramos, não é assim. [...] E esta é a principal razão por que se deve buscar a vida de todas as verdades: para que aquelas que parecem sê-lo, e não o são, se nos mostrem como realmente são, como não verdades ou apenas verdades aparentes. E o que há de mais oposto a buscar a vida na verdade é proscrever o exame e declarar que há princípios intangíveis. Não há nada que não deva examinar-se. Desgraçada a pátria onde não se permite analisar o patriotismo! E eis aqui como se entrelaçam a verdade na vida e a vida na verdade: aqueles que não se atrevem a buscar a vida das verdades que professam como tais nunca vivem com verdade na vida. O crente que se opõe a examinar os fundamentos da sua crença é um homem que vive na insinceridade e na mentira. O homem que não quer pensar em certos problemas eternos é um embusteiro, e nada mais do que um embusteiro. E é assim que costumam andar unidas, nos indivíduos e nos povos, a superficialidade e a insinceridade. Povo irreligioso, isto é, povo em que os problemas religiosos não interessam a quase ninguém – seja qual for a solução que se lhes dê –, é povo de embusteiros e exibicionistas, onde o que importa não é ser, mas parecer ser. Aqui está como entendo a expressão: verdade na vida e vida na verdade. Veja mais aqui e aqui.

DOM QUIXOTE – A obra Dom Quixote de La Mancha (El ingenioso Hidalgo Fon Quixote de La Mancha, 1605), do escritor espanhol Miguel de Cervantes y Saavedra (1547-1616), é composta de 126 capítulos divididos em duas partes, parodiando os romances de cavalaria e contando a história de um protagonista de certa idade, entregue às leituras desses romances, perde o juízo e acredita ter sido historicamente verdadeiro tudo que acontecera nas suas leituras, decidindo-se tornar um cavaleiro andante que parte pelo mundo e vive seu próprio romance de cavalaria. Dá-se, então, as aventuras de Dom Quixote em companhia de Sancho Pança, seu fiel amigo e companheiro. Dessa obra destaco os trechos do primeiro capítulo: [...] A razão da sem razão que à minha razão se faz, de tal maneira a minha razão enfraquece, que com razão me queixo da vossa formosura [...] Em suma, tanto naquelas leituras se enfrascou, que passava as noites de claro em claro e os dias de escuro em escuro, e assim, do pouco dormir e do muito ler, se lhe secou o cérebro, de maneira que chegou a perder o juízo. Encheu-se-lhe a fantasia de tudo que achava nos livros, assim de encantamentos, como pendencias, batalhas, desafios, feridas, requebros, amores, tormentas, e disparates impossíveis; e assentou-se-lhe de tal modo na imaginação ser verdade toda aquela máquina de sonhadas invenções que lia, que para ele não havia história mais certa no mundo. [...] Afinal, rematado já de todo o juízo, deu no mais estranho pensamento em que nunca jamais coiu louco algum do mundo, e foi: parece-lhe convinhável e necessário, assim para aumento de sua honra própria, como para proveito da república, fazer-se cavaleiro andante, e ir-se por todo o mundo, com as suas armas e cavalo, à cata de aventuras, e exercitar-se em tudo em que tinha lido se exercitavam os da andante cavalaria, desfazendo todo o gênero de agravos, e pondo-se em ocasiões e perigos, donde, levando-os a cabo, cobrasse perpetuo nome e fama. Já o coitado se imaginava coroado pelo valor do seu braço, pelo menos com o império de Trapisonda; e assim, com estes pensamentos de tanto gosto, levado do enlevo que neles trazia, se deu pressa a pôr por obra o que desejava. [...] Quatro dias levou a cismar que nome lhe poria; porque (segundo ele a si próprio se dizia) não era razão que um cavalo de tão famoso cavaleiro, e ele mesmo de si tão bom, ficasse sem nome aparatoso; [...] E assim, depois de escrever, riscar, e trocar muitos nomes, ajuntou, desfez, e refez na própria lembrança outros, até que acertou em o apelidar Rocinante, nome, em seu conceito, alto, sonoro, e significativo do que havia sido quando não passava de rocim, antes do que ao presente era, como quem dissera que era o primeiro de todos os rocins do mundo. [...] assim quis também ele, como bom cavaleiro, acrescentar ao seu nome o da sua terra, e chamar-se Dom Quixoete de la Mancha, com o que, a seu parecer, declarava muito ao vivo sua linhagem e pátria, a quem dava honra com tomar dela o sobrenome [...] julgou-se inteirado de que nada mais lhe faltava, senão buscar uma dama de quem se enamorar; que andante cavaleiro sem amores era árvore sem folhas nem frutos, e corpo sem alma [...] Chamava-se Aldonça Lourenço; a esta é que a ele pareceu bem dar o título de senhora dos seus pensamentos; e, buscando-lhe nome que não desdissesse muito do que ela tinha, e ao mesmo tempo desse seus ares de princesa e grã senhora, veio a chamá-la Dulcineia del Toboso, por ser El Toboso a aldeia de sua naturalidade; nome este, em seu entender, musical, peregrino, e significativo, como todos os mais que a si e às suas coisas já havia posto. [...]. Veja mais aqui e aqui.

O LAMENTO DE ARETUSA (Imagem: Alfeu tenta capturar Aretusa, gravura de Bernard Picart) – No livro Poesia moderna da Grécia (Guanabara, 1986), organizado por José Paulo Paes, encontro o poema O lamento de Aretusa, do poeta grego Vitsentzos Kornaros (1553 – 1613), o qual transcrevo a seguir: Erotócrito, por que me apegar à vida ainda? / Que esperança me resta que eu da vida não prescinda? / Como hei de viver num mundo do qual está ausente? / Mantem-me neste calabouço um destino inclemente. / Da tua vida eu vivia, enxergo com tua luz; / lembrar-me de ti faz menos pesada a minha crua. / Deixei de ser eu mesma para o que tu eras ser; / encontro minha vida e minha morte em teu querer. / Acordada ou sonhando, na mente tenho-te vivo; somente em tua lembnrança é que encontro lenitivo. / Abdiquei das riquezas, renunciei de mãe e pai; / a mágoa desta renuncia não se acalma jamais. / Recordo-te, Erotórcito, meu único senhor, / e eus que meu pai e minha mãe te tornas por amor. / Com a palha me cubro, na palha meu corpo dorme, / a penúria não me importa, o pesar não me consome. / Deixei nobreza por ti, por ti odiei a riqueza, / e só por tua causa num calabouço estou presa. / Tormentos por ti passei, por ti suspirei em vão, / por ti – faz hoje cinco anos – eu penso nesta prisão. / Amarguras não busquei, os pesares não compreendo; / com as lembranças de ti ao destino vouvencendo. / Que te falta, fado meu, inda fazer contra mim? / Não noutros dias, hoje só tu me venceste enfim. / Rudo o que eu tinha levaste: o que te resta levar / de quem nada mais possui senão seu próprio penar? A guerra venceste em que há tanto tempo te demoras, / e pouco se te dá o que a mim fizeste até agora. / Eu lutei sempre com força, esperei sempre a vitória, / mas hoje caio vencida nesta masmorra inglória. / Queres-me viva ainda, não para que eu tenha vida, / mas para que possa sentir esta dor tão doída. / A mim não assustas mais, nem minha mente assedias: / onde a esperança estiver, faz-lhe o medo companhia. / Como esprança deixou-me, ao meu coração ensino / não temer os sofrimentos que possa impor-lhe o destino. / O desespero me poupa de temores infundados: / a mim que importa o porvir? Não sou joguete do fado. / Fado, não te receio, faz de mim o que te agrade; / aqui estou se me procuram tuas adversidades. / Quero que morte me dês e que, depois da morte, ao meu / corpo aconteça o pior que a corpo humano aconteceu: / que me atires de um penhasco, ou que me entregue às feras, ; para saciar a crueldade em que te retemperas. / Viva, tu não consentes que meu amado me conforte, / mas eu espero e confio que hei de vencer-te na morte; / minha alma ira encontra-lo de ti se libertando, / pois sobre nossas almas não tens poderes nem mando. / Não há destino no Hades, sorte propicia ou nefasta; / no Hades nada se ganha: o que tomaste já basta. / Erotócrito, morreste em longe terra estrangeira, / e, ao te perder, pergi contigo a minha vida inteira. / Quanto eu não quisera estar a teu lado, em meio à luta, / só para ouvir-te gritar: Vem, Aretusa, me ajuda. / Como um raio, eu correria à toda para ajudar-te; meus próprios braços, não outros, seriam teu baluarte. / Se, de fauces abertas, uma fera acometesse, / minha mão eu lhe dava para evitar te mordesse. / Grande injustiça seria, Erotócrito, no entanto, / perder-se em selva inóspita e perecer teu encanto. / Quisera ser a pobreza que junto a ti dormisse / para seguir-te mais depressa na hora em que partisses, / e ser tua companhia por toda a eternidade: / o que os corpos não fizeram, faças as almas no Hades. Veja mais aqui.

DOIS PERDIDOS NUMA NOITE SUJA – A peça teatral em dois atos Dois perdidos numa noite suja (Global, 1986), do dramaturgo, escritor, jornalista e ator Plinio Marcos (1935-1999), é inpirada no conto O terror de Roma, do escritor italiano Alberto Moravia, e na qual dois personagens dividem um quarto numa hospedaria barata e durante o dia trabalham de carregadores no mercado, discutindo sobre suas vidas, trabalho e perspectivas, mantendo uma relação conflituosa. Da obra destaco o trecho inicial: Um quarto de hospedaria de última categoria, onde se vêem duas camas bem velhas, caixotes improvisando cadeiras, roupas espalhadas etc. Nas paredes estão colados recortes, fotografias de time de futebol e de mulheres nuas. I ATO Primeiro Quadro (Paco está deitado em uma das camas. Toca muito mal uma gaita. De vez em quando, pára de tocar, olha para seus pés, que estão calçados com um lindo par de sapatos, completamente em desacordo com sua roupa. Com a manga dó paletó, limpa dos sapatos. Paco está tocando, entra Tonho, que não dá bola para Paco. Vai direto para sua cama, senta-se nela e, com as mãos, a examina.) TONHO Ei! Pára de tocar essa droga. (Paco finge que não houve.) TONHO (Gritando.) Não escutou o que eu disse? Pára com essa zoeira! (Paco continua a tocar.) TONHO É surdo, desgraçado? (Tonho vai até Paco e o sacode pelos ombros.) TONHO Você não escuta a gente falar? PACO (Calmo.) Oi, você está aí? TONHO Estou aqui para dormir. PACO E daí? Quer que eu toque uma canção de ninar? TONHO Quero que você não faça barulho. PACO Puxa! Por que? TONHO Porque eu quero dormir. PACO Ainda é cedo. TONHO Mas eu já quero dormir. PACO Mas não vai conseguir. TONHO Quem disse que não? PACO As pulgas. Essa estrebaria está assim de pulgas. TONHO Disso eu sei. Agora quero que você não me perturbe. PACO Poxa! Mas o que você quer? TONHO Só quero dormir. PACO Então pára de berrar e dorme. TONHO Está bem. Mas não se meta a fazer barulho. (Tonho volta para sua cama, Paco recomeça a tocar.) TONHO Pára com essa música estúpida! Não entendeu que eu quero silêncio? PACO E daí? Você não manda. TONHO Quer encrenca? Vai ter! Se soprar mais uma vez essa droga, vou quebrar essa porcaria. PACO Estou morrendo de medo. TONHO Se duvida, toca esse troço. (Paco sopra a gaita, Tonho pula sobre Paco. Os dois lutam com violência. Tonho leva vantagem e tira a gaita de Paco.) PACO Filho-da-puta! TONHO Avisei, não escutou, se deu mal. PACO Dá essa gaita pra cá. TONHO Vem pegar. PACO Poxa! Deixa de onda e dá essa merda. TONHO Se tem coragem, vem pegar. PACO Pra que fazer força? Você vai ter que dormir mesmo. TONHO Antes de dormir, jogo essa merda na privada e puxo a bomba. PACO Se você fizer isso, eu te apago. TONHO Experimenta. PACO Se duvida, joga. TONHO Jogo. E daí? PACO Então joga. TONHO Você só tem boca-dura. PACO É melhor você me dar essa merda. TONHO Não enche o saco. PACO Anda logo. Me dá isso. TONHO Não vou dar. (Paco pula sobre Tonho. Esse mais uma vez leva vantagem. Joga Paco longe com um empurrão.) TONHO Tá vendo, palhaço? Comigo você só entra bem. PACO Eu quero minha gaita. TONHO Não tem acordo (Pausa) (Tonho deita-se e Paco fica onde está, olhando Tonho.) [...] Veja mais aqui, aqui e aqui.

ECLIPSE – O filme Eclipse (1962), dirigido pelo cineasta italiano Michelangelo Antonioni (1912-2007), conta a história de uma jovem mulher nos subúrbios de Roma, rompe seu namoro com o escritor depois de uma noite conturbada, que atendendo sua mãe que é viciada no mercado de ações, encontra um jovem corretor que tem uma acentuada natureza materialista. Os dois começam um relacionamento monossilábico que vai se desenrolando por trata. O destaque do filme é a atriz italiana de teatro e cinema Monica Vitti, presença sempre marcante nos filmes do cineasta. Este é um dos grandiosos filmes que confirma a marca e o gênio do seu diretor. Veja mais aqui e aqui.

IMAGEM DO DIA
Todo dia é dia de homenagear a atriz, miss, modelo e sex symbol sueca Anita Ekberg (1931-2015)


Veja mais no MCLAM: Hoje é dia do programa Tataritaritatá, a partir das 21hs, no blog do Projeto MCLAM, com apresentação sempre especial e apaixonante de Meimei Corrêa. Na programação: Aarre Merikanto, Jerry Lee Lewis, Edson Natale, Emerson & Lake & Palmer, Oswaldo Montenegro, Paul McCartney, Djavan, Sonia Mello, Hugo Branquinho & Milton Nascimento, Lilian Pimentel, Magno Átimo, Monsyerrá Batista, Mu Chebabi, Ricardo Machado, Cikó Macedo, Mazinho, Zé Linaldo, Chiko Queiroga & Ana Vitória, Daniel Pissetti Machado, Denise Dalmacchio, Dido Oliveira, Eliane Bastos, Elisete Retter and Ron, Jan Cláudio, Beto Saroldi, Meimei Corrêa, Fernando Fiorese, Kurt Nilsen, Roberta Miranda, Tim Maia, Alexandre Machado, Jorge Medeiros, Wagner & Wander Ponzo & muito mais. Em seguida, o programa Mix MCLAM, com Verney Filho e na madrugada Hot Night, uma programação toda especial para os ouvintes amantes. Para conferir online acesse aqui.

VAMOS APRUMAR A CONVERSA?
Dê livros de presente para as crianças.
Aprume aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aqui.


HILDA HILST, HANNAH CRITCHLOW, DANIELLE STEEL & ONILDO ALMEIDA

  Imagem: Acervo ArtLAM .   Fábula hodierna ... - Dois irmãos uterinos, duas irmãs órfãs consanguíneas. Assim: Prometeu brechava fascín...