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sexta-feira, julho 31, 2020

UPILE CHISALA, CRISTINA LEIFER, COURTNEY BROOKE, JULIA ROBINSON & HERMÍNIA MENNA DA COSTA



DIÁRIO DO GENOCÍDIO NO FECAMEPA – UMA: QUANTOS MORTOS & UMA CÉDULA DE 200 - Amigamigos que se vão, outros tantos que nem sei insepultos na memória. Há quem siga indiferente, não sei fingir, Quintanaecoa nos meus passos: A amizade é um amor que nunca morre. Ah, esses moralistas... Não há nada que empeste mais do que um desinfetante! Todos seguem comigo da vigília ao sono, como se Emile Brontë contasse solícita: Tenho tido sonhos que ficam comigo o resto da vida e alteram minhas ideias. Vão mergulhando dentro de mim, como o vinho mergulha na água e mudam a cor do que penso. É tudo vivo demais para esquecer, como se golpes em duzentas efígies dos que são meus ao menoscabo duma cédula espúria e oportunista, como se o disfarce de um sorriso apócrifo escondesse a catástrofe.

DUAS: NÃO É UM FILME, COMO SE FOSSE! - O desencanto vem acompanhado de vozes, muitas vozes, palavras que atravessam a carne, enfiam-se coração adentro alma afora. Bergman sorri com uma advertência: Tuas palavras servem à tua realidade; as minhas, servem para a minha. Se trocarmos as palavras, elas passam a não valer nada. São muitas e diferentes, não há como não ouvi-las, reverberam no que sou.

TRÊS: O QUE FAÇO & TODOS NÓS – As mãos nas ideias, o que tenho e mais nada. Enquanto brotam aos borbotões, as colho com afeto, trato-as, cuido e as deixo viver mais que o átimo do seu estalo e ela cresce menina-moça para ser uma sedutora mulher exuberante a me embriagar de paixão. Ela que me trouxe em uníssono a fala de Michelangelo Antonioni no instante quase perdido: Você não deve me pedir para explicar tudo o que faço. Não posso. É isso. Você deve ser um pintor que tira uma tela e faz o que gosta com ela. Faço o que gosto, mãos à obra. Até. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS: É quando não acreditamos que somos suficientes para nós mesmos que começamos a procurar pessoas nas quais nos afogarmos. Poema da socióloga, poeta e contadora de histórias do Malawi, Upile Chisala, que também é ativista dos direitos humanos e autora da obra Eu destilo melanina e mel (Leya, 2020), na qual está mais este poema: Estou pingando melanina e mel. Eu sou negra sem pedir desculpas. Veja mais aqui.

DESTAQUE: O que eu realmente sou é uma matemática. Em vez de ser lembrada como a primeira mulher nisso ou naquilo, prefiro ser lembrada pelos teoremas que provei e pelos problemas que resolvi. Pensamento da matemática e ativista estadunidense Julia Robinson (1919-1985), que foi a primeira mulher a pertencer à Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos, atuando como conselheira da nação em medicina, ciência e engenharia. Também foi presidente da Sociedade Americana de Matemática (AMS), a primeira mulher no cargo, e suas realizações renderam inúmeros prêmios e homenagens. Ainda hoje é realizado o festival de Julia Robinson, organizado pelo Instituto Americano de Matemática, que tenta incentivar crianças e adolescentes a descobrir o mundo interessante e surpreendente da matemática através da formação de clubes e associações e do desenvolvimento de museus interativos.

O TEATRO DE CRISTINA LEIFER
De vida quero me inebriar. Ela vem abraçada com a morte. É uma dança. E eu... apenas uma mulher comum. Dancemos! É dia! Se me restam poucos dias, não posso passá-los com medo. Todo mundo brinca perguntando: “O que você faria se lhe restassem poucos dias”? Por que a morte não pode ser leve? Por que temos medo de olhá-la de frente, sem pudor?
CRISTINA LEIFER - A arte da atriz e diretora Cristina Leifer, que tem realizado a oficina Falasser – Construindo uma Dramaturgia do Eu e tem apresentando o espetáculo Ensaios Sobre o Fim, texto adaptado por ela a partir do livro homônimo do psicanalista Wilker França, uma peça intimista com teatro, música, performance e poesia, por meio dos contrastes morte e vida; ficção e realidade; luz e sombra; clássico e contemporâneo; realista e barroco; coloquial e teatral. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Sempre fui atraída pelo conceito de espírito humano como energia, luz e que nossa forma atual é apenas nosso vaso. Estou interessada em explorar a maneira como a luz se move à nossa volta e dentro de nós. Essa luz linear que criamos através da história, que como indivíduos e coletivamente somos o passado e o futuro em uma explosão de luz caótica. Cada imagem é um pontinho, um marcador de um momento e de possibilidade. Estou constantemente tentando encontrar aquele lugar onde o que é, o que poderia ter sido e o que poderia ser convergem. O mundo dos "sonhos" não tem, em minha opinião, nenhuma razão para ser diferente do mundo que está acordado. É deste lugar que meu estilo toma forma.
COURTNEY BROOKE – A arte conceitual da fotógrafa estadunidense Courtney Brooke. Veja mais aqui e aqui. E mais aqui.

PERNAMBUCULTURARTES
A arte da fotógrafa Herminia de Carvalho Menna da Costa, pioneira da fotografia feminina pernambucana no início do século XX. (Fonte: Acervo Fundaj).
&
A obra do escritor, dramaturgo e advogado Hermilo Borba Filho (1917-1976) aqui, aqui, aqui & aqui .
Das musas de ontem e hoje, do poeta, professor e pesquisador Amaro Matias Silva (1922-2002) aqui.
A arte de Celso Madeira (Acervo do Barro Igarapeba) & de Wilmison da Silva Calado (Wil de Igarapeba) aqui.
A rua das viúvas aqui.
A Estação do Bem – Catende aqui.
&
O município de Palmares aqui, aqui & aqui.
 

terça-feira, fevereiro 26, 2019

TAGORE, LOUISE BOURGEOIS, MICHELANGELO ANTONIONI, VIVIANE MATESCO & BUZUNTÕES DE CATUAMA


OS BUZUNTÕES DE CATUAMA - Houve um tempo de convivência pacífica entre o cemitério e a zona de meretrício. Ali, encangados um no outro, divisado apenas por um muro, no ponto mais alto e central da cidade, tanto se chorava os entes queridos que se foram e Deus os tenha, como badalava o bacanal mais arrepiado. Se o lupanar dali era dos mais afamados mundo afora, prestigiadíssimo até por gente de um olho só das mais remotas regiões do país, era porque o plantel das rameiras era dos mais gabaritados, responsável por descasamentos, mancebias e situações insólitas na comarca. Por outro lado, a necrópole não ficava para trás: ali estavam enterrados somente os graudões afortunados que achavam de bater as botas quase todo dia na freguesia – gentinha mesmo que morresse, era sacudida nos cafundós de não sei onde de tão longe que era. As ruas dos coronéis davam acesso a ambos, três delas tanto por parte da do Coronel A, como do lado do Coronel I: de um lado e de outro, uma era a maior bandeira, pois se não era a que dava com o portão dos colégios do bispo e das freiras, era a principal via de tráfego da cidade, nem pensar; a segunda era um estrupício: tanto a de lá como a de cá não tinha calçamento e só servia de escape às pressas deslizando a bunda no chão, quem é doido, só na fuga; já a terceira, duma ou doutra, as prediletas: mais discretas e estreitas, mal iluminadas, prontas para as escapulidas, apropriadas para quem entrasse ou saísse. Havia quem depois de uns goles a mais errasse a porta do cabaré, zanzando excitado paudurescente entre as sepulturas, ou com as saias na cabeça atrás de molhar o biscoito. Doutra parte, no meio da orgia no bordel aparecia quem reclamasse da mulher que sumira sem a segunda etapa acertada, ou quem denunciasse que alguém se empirulitou passando um xexo na vítima. A coisa ia de mal a pior: Cadê a nega que eu furunfei e num terminou o serviço direito? Outra: O cara escapuliu sem pagar! Virou uma bronca. Por conta disso os organizadores do troço se reuniram e apuraram que o prejuizo comia no centro. Como é que pode? Usuários desapareciam depois de se envultarem sem prestar contas, ora essa. Para desvendar o mistério, convocaram Sebastião Esprita que colocou em prática suas habilidades investigativas e logo constatou: Tem gente do outro mundo fazendo uso do serviço! Num pode! Pode! Casos pipocaram da Mulher de Branco, do Homem do Meio Dia, gente estranha que dava as caras e depois o lugar mais limpo. Será que isso pode ocorrer de mesmo? Coisa mais sem pé nem cabeça! O mudo sabia, mas não tinha como contar. É mesmo? Pois é, tinha gente lavando a jega no maior arrego. Prove! Ficou mais que provado: morto e vivo na maior suruba. Como é que é? Tome tento! Na moral, o movimento reivindicatório levou à interdição do cemitério: Agora o puteiro é que nem cinema, tem que pagar adiantado, seja defunto ou gente! Danou-se! A solução? Na ponta da língua: Vou levar tudo pra Catuama! Xá, comigo. Armou-se de uma flauta doce que pra ele era mágica e, mal começou a soprar, saiu carregando uma ruma de fantasma atrás do apito ensurdecedor. A procissão saiu da cidade e foi bater lá onde os indigentes eram enjeitados: Pronto, vou democratizar o terreiro, antes só de pé-rapado, agora ricaço e amundiçado, tudo junto e misturado. Resolveu em parte porque dali os malassombros fugiam de volta e aproveitavam para atanazar os habitantes da cidade. Teve, então, de fazer o serviço completo e fez com que Catuama passasse a ser o necrotério oficial da localidade e, depois disso, tudo voltou ao normal, por enquanto, os defuntos descansavam em paz e a população vivia de mandar ver na existência como podia, sem interferência alheia. Diga-se de passagem, por enquanto, tudo pode acontecer entre um dia e outro com uma noite no meio, né? © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS
[...] O espírito da transgressão é a do deus animal que morre no sacrifício, desse deus cuja morte é animada pela violência e que não alimentado pelas interdições impostas à humanidade. A ação violenta, o sacrifício, priva a vítima de seu caráter limitado e lhe confere o ilimitado, o infinito que pertence à esfera sagrada, e por isso, concilia vida e morte ainda que comece onde acaba o animal, a animalidade não deixa de ser seu fundamento. A humanidade se desvia desse fundamento com horror, mas, ao mesmo tempo, o mantém. [...].
Trecho extraído de Corpo, imagem e representação (Jorge Zahar, 2009), da historiadora, museóloga e professora Viviane Matesco, tratando sobre a relação entre o tema e a polissemia na busca das raízes históricas da relação entre esses três elementos, ampliando amplia a reflexão sobre a questão do corpo na arte contemporânea e a sublimação do físico na representação do nu e a afirmação de um corpo primário na arte contemporânea.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A escultura da artista plástica e escultora surrealista e primitivista Louise Bourgeois (1911-2010), que expressa um simbolismo abstrato presentes em coleções e espetáculos permanentes em museus e galerias pelo planeta. 
Veja mais aquiaqui.

EROS DE MICHELANGELO ANTONIONI
O drama erótico Eros (2004), do cineasta italiano Michelangelo Antonioni (1912-2007), conta três episódios com tema sobre o amor e o erotismo: Em Xangai, alfaiate nutre paixão por uma cliente. Em Nova York, homem narra ao analista seus sonhos com mulher sem rosto. Na Toscana, casal de meia-idade tem a vida atravessada por mulher mais jovem. Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.
&
Se choras porque não consegues ver o sol, as tuas lágrimas impedir-te-ão de ver as estrelas.
A obra do poeta e músico indiano, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura, Rabindranath Tagore (1861-1941) aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.
&
Outra do Sebastião Esprita aqui
&
muito mais na Agenda aqui.


terça-feira, maio 30, 2017

MACA DE SCORZA, NOITE DE ANTONIONI, A ARTE DE ABRAMOVIĆ & BRASIL A SÉRIO, NÃO RIA!

BRASIL A SÉRIO, NÃO RIA! – Imagem: sobre arte de Andrey Kuzmin. - Patriamada, salve, salve! Ouviram dizer que o Brasil não é um país sério. Que coisa! Pudera, ensinaram a gente escrever com “s”, enquanto o mundo todo grafa com “z”. Por que? Já expliquei isso tintim por tintim no Fecamepa. À guisa de ilustração: o com “s” foi construído pela sujeira, rapinagem e corrupção; o do “z”, sempre existiu desdantigamente no ideal humano. Trocando em miúdos: um pro nativo e, o outro, pro mundo ver, se admirar e mangar. Não bastasse isso, entre tantos papelões e presepadas, veio a cana para adoçar com o sangue escravo, ouro do muito que sumiu no estalar de dedos, maravilhas profanadas como cu-de-mãe-Joana, afora piadas que viraram uma independência comprada a peso de libra esterlina, uma república de gatos pingados e bananas, quando a dita andou dura com golpes até hoje e só deu numa coisa cantiga de grilo: salafrários no poder comandando o Estado e todos os poderes, enquanto eu e meu irmãos e irmãs à margem de tudo, com a cabeça nos ventos desde que Pindorama começou a ser saqueada pra virar a calamidade de um povo heróico o brado retumbante que as balas acham como inimigas da felicidade, porque todo mundo quer um milhão embolsado por um centavo pra comprar posses e autoridades, acreditando no milagre de cair uma bolada do céu, afinal Deus é brasileiro e protege os doidos, os bêbados e as criancinhas. Enquanto o gigante eternamente em berço esplêndido para poucos, gerações são imoladas pra sobrar Macunaímas que fazem e acontecem na base do jeitinho e findam em palpos de aranha que arranha o sarro com carteiradas e dribles, rebolados e felicidade 0800, em arranha-céus suntuosos pra miséria humana dos que são menores que seu próprio tamanho, contando cédulas e moedas pra destilar veneno sobre quem nada tem, pedindo pra chover por causa da seca e pra chuva parar pela inundação de tudo. Na verdade, confundem até Deus com uma bandeira de cores desbotadas, aos farrapos e descolorida pelos exploradores afortunados que devastam as matas e tornam o céu antes anil agora escuro sem estrela alguma pro negrume de uma gente ociosa como espantalho de olheiras e sacos vazios pelo desconsolo, acossada pelas dificuldades e imobilizada pela catatonia, ciosos apenas por se arrumar e gastar o que tem e o que não tem, afeiçoando-se pela fauna de todas as feras e mansas enquanto execra o semelhante e aposta na desgraça alheia, e que não brinca em serviço ao soltar seus coprólitos afora com as ventosidades catingosas enquanto samba no carnaval do futebol e, com perdão da má palavra, formam uma grandicíssima putaria como filhos de uma mesmíssima putada! Salve, salve! Ah, lembranças rondam, houve um tempo não muito longe, em que eu e os da minha laia, solidários aos miseráveis de todos os cantos do país, saíamos da faculdade para fazer revolução. Reuníamos em motins nos botecos, protestos inflamados nos copos, contestações revoltosas nos goles, lágrimas embriagadas por liberdade e justiça, com a fé no nosso povo e contra o vitupério da injustiça nossa de cada dia, até que um dia um raio fulminou e a gente pôde sentir o gostinho da liberdade e coisa se encaminhando para se endireitar e ficar no sério o que antes era só piada, e lavamos a alma ao eleger o que seria nosso próprio destino no meio das nossas contradições e quase seguíamos adiante pra ver o enterro hoje voltar e tudo sucumbir ao dissabor das ideologias, quando rebelados entoam a velha paródia do Hino do Soldado em concerto desafinado, tudo cheio dos quequéos da festança: Arroz comemos com feijão. A pinga tomamos com limão. Porém, se a patriamada precisar da macacada, puta merda, tá lascada. Vá se foder pelo Brasil, vá pra puta que pariu que meu cu não é fuzil. Uma nova pinóia pra sisudo dizer que é sério com todo palavrório da charlatanice e a gente só morrendo de rir quando não era pra isso, mas ficou sendo porque não se percebeu o que estava acontecendo, nem se deu conta do flagelo no meio do tiroteio de informações e contra-informações e disse-me-disse, boataria, intriga e queimação de filme. Não se sabe ao certo quantos escaparam entre mortos, tições e fulminados. Pros que não sabem, o Sol brilha no céu da pátria a todo instante e paratodos. © Luiz Alberto Machado. Veja mais aqui.

MACA ALBORNOZ DE MANUEL SCORZA
[...] E vi, caralho, pela primeira vez, aqueles sóis verdes que tonteavam vindos do rosto da fêmea mais bela que avistei neste puto mundo. Assim conheci Maca. [...] A palavra beleza será sempre fraca para descrevê-la. Era tão bonita que nos tonteou. [...] Então, pela primeira vez, Maca sorriu pra mim, e juro que conheci o que provocou, caralho, a queda dos anjos. O que provocaria, maldita a hora em que nasci, o desespero que está me queimando. [...] A mulher que nos melhorava ou piorava com sua presença, reconheçamos, como homens que somos , a verdade, caralho, dançava sem parar desde o meio-dia. [...] a escuridão caluniava a beleza de Maca e que a luz mostrava um rosto que jamais ninguém, caralho, tinha visto neste mundo corno. [...] Soube aquela noite que depois de ter dormido com centenas de mulheres eu era virgem. Conheci, maldita hora em que meus pais se misturaram, conheci que o céu e o inferno têm a mesma porta morna, e que se pode viver dentro de um relâmpago. [...]. Viveu entre seus irmãos vinte anos monteses, criada como menino. E pensava que era menino [...] Curando-o descobriram aquilo que Maco, criado como homem, vestido como homem, altivo como homem, tinha esquecido: que era mulher. [...] quando se divulgou que os Albornozes eram mulheres, sacudiu Cerro de Pasco.[...] Na porta do calabouço onde conhecera o opróbrio, Maca sorriu. – Já não tenho pai nem mãe. Sou filha do ar! [...] Adeus, irmãos queridíssimos, adeus filhos de uma grandicíssima puta! [...] Como desconfiar que o que aquele horroroso Serafim desejava era demonstrar a insignificância dos homens! Eu sou, senhores, o primeiro homem que a viu nesta província e repito que vê-la é se desgraçar. [...] e ela humilha só para sorver a nata de nossa humilhação. Seduz para poder vomitar aquilo que seduz. Se descesse dos céus ou subisse dos internos uma mulher tão impiedosamente bela como essa (que como todo o mal que causou, repito, é a única que verei em minha agonia no dia que for embora deste planeta de merda que gira ao mesmo com os palermas e com os filhos da puta [...].
Trechos da obra Cantar de Agapito Robles (Civilização Brasileira, 1979), do romancista e poeta peruano Manuel Scorza (1928-1983). Imagem do pintor peruano Vitor Loli. Veja mais aqui.

Veja mais sobre:
Se não deu e fedeu, só na outra, meu, Sentimento do mundo de Carlos Drummond de Andrade, Contos de Juan Carlos Onetti, Literatura fantástica de Tzvetan Todorov, a música de Yann Tiersen, a pintura de Luiz Paulo Baravelli & Asha Carolyn Young, a fotografia de JR, a xilogravura de MS, a arte de Tom Wesselman & Kenny Cole aqui.

E mais:
Fecamepa: quando o Brasil dá uma demonstração de que deve mesmo ser levado a sério aqui.
A literatura de Juan Carlos Onetti aqui e aqui.
Desejo & a arte da cantora Sônia Mello, Deus & o Estado de Mikhail Bakunin, Ouvindo insetos de Po Chu Yi, Os museus & Bertha Lutz, Teatro Espontêaneo & Psicodrama, a música de Paulo Bellinati & Garoto, a dança de Mata Hari, a pintura de Murilo La Greca & a arte de Melinda Gebbie aqui.
Proezas do Biritoaldo: Quando o cara num rega direito, o amanhã parece mais o aperto do dia de ontem aqui.
O recomeço a cada dia, o pensamento de Ibn el-Arabi & Indries Shah, a fotografia de Faisal Iskandar & a arte de Petrina Sharp aqui.
Dignidade humana, educação & meio ambiente, O Brasil e a telenovela de Esther Hamburger, a pintura de Nina Kozoriz & a arte de Niura Bellavinha aqui.
Ninquem vem pra vida de graça, O caminho de Swann de Marcel Proust, a pintura de Annibale Carraci & a arte de Josephine Wall aqui.
As pedras se encontram nos mundos distantes, Pelos ares de Rafael Piccolotto de Lima & a arte de Sing & Luciah Lopez aqui.
Tudo passa pra quem não sabe o desprezado, Fenomenologia da percepção de Maurice Merleau-Ponty, a arte de Martina Shapiro & Shane Turner aqui.
Caríssimos ouvintes, a voz ao coração, Fremont Solstice Parade, a escultura de Bernhard Hoetger & a arte de Aleksandr Rodchenko aqui.
Endecha: carpe diem, mutatis mutandis, o pensamento de Nikolai Roerich, a fotografia de Antonella Fabiani & a arte de Leon Zernitsky aqui.
Nênia de Abril & cada qual seus pecados ocultos, a arte de Lisbeth Hummel, a poesia de Sérgio Campos & Antes que os nossos filhos denunciem o luto secular de seus abris aqui.
Sinfonias de bar, a pintura de Vincent van Gogh, O ovo da serpente de Ingmar Bergman, a arte de Annie Veitch & Kerri Blackman, Apesar dos pesares, a vida prossegue... aqui.
E se o amor fosse a vida na tarde ensolarada do quintal & a arte de Varvara Stepanova & Luciah Lopez aqui.
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LA NOTTE DE MICHELANGELO ANTONIONI
O drama La notte (A noite, 1961), do cineasta italiano Michelangelo Antonioni (1912-2007), é a segunda parte da trilogia sobre alienação, solidão e a incomunicabilidade entre as pessoas na sociedade moderna, ao lado dos filmes A Aventura e L’eclipsse, contando um dia na vida de um casal – um escritor e sua esposa -, ensaiando aventuras amorosas ao serem convidados para passar uma noite em uma festa de amigos burgueses promovida por um milionário e, durante a festa, o vazio e desgaste emocional existente entre o casal é intensificado. O destaque fica por conta da atuação da atriz e cantora francesa Jeanne Moreau, e da atriz italiana de teatro e cinema Monica Vitti. Veja mais aqui, aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da artista performativa sérvia MarinaAbramović.
Veja mais aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Paz na Terra: Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
Veja os vídeos aqui & mais aqui e aqui.
 

terça-feira, setembro 29, 2015

EDUCAÇÃO, CERVANTES, CARAVAGGIO, PLÍNIO, EKBERG, UNAMUNO, KORNAROS, ANTONIONI, MONTARROYOS & PROGRAMA TATARITARITATÁ.


VAMOS APRUMAR A CONVERSA? EDUCAÇÃO POR ÁGUA ABAIXO (Imagem: artigo publicado na sessão Opinião da Gazeta de Alagoas, Página A-4, edição de sábado, 23 de novembro de 1996) – Quando escrevi este pequeno artigo opinativo que foi publicado na Gazeta de Alagoas e em outros veículos de comunicação de massa e alternativos, era, nada mais, nada menos, um cidadão exercitando a sua cidadania. Era o meu olhar para o descaso com que eram tratadas as instituições escolares de todos os níveis, os professores, os alunos e a sociedade brasileira no que diz respeito ao quesito educação. Estava eu, confesso, embevecido com a previsão dada no art. 205 da Constituição Federal vigente, que prescreve que “Art. 205. A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho”. Mais surpreso fiquei quando, poucos dias depois da publicação do meu texto, ocorreu a edição da Lei 9.394, de 20 de dezembro de 1996, estabelecendo as diretrizes e bases da educação nacional. Nela deu-se a regulamentação das previsões constitucionais, prevendo no art. 2º do Título II que: “Art. 2º. A educação, dever da família e do Estado, inspirada nos princípios de liberdade e nos ideais de solidariedade humana, tem por finalidade o pleno desenvolvimento do educando, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho”. Logo no art. 3º traz que: “Art. 3º. O ensino será ministrado com base nos seguintes princípios: I - igualdade de condições para o acesso e permanência na escola; II - liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar a cultura, o pensamento, a arte e o saber; III - pluralismo de ideias e de concepções pedagógicas; IV - respeito à liberdade e apreço à tolerância; V - coexistência de instituições públicas e privadas de ensino; VI - gratuidade do ensino público em estabelecimentos oficiais; VII - valorização do profissional da educação escolar; VIII - gestão democrática do ensino público, na forma desta Lei e da legislação dos sistemas de ensino; IX - garantia de padrão de qualidade; X - valorização da experiência extraescolar; XI - vinculação entre a educação escolar, o trabalho e as práticas sociais”. Seguem-se na lei epigrafada títulos e artigos outros destinados às previsões do direito à educação e do dever de educar, da organização da educação nacional, dos níveis e das modalidades de educação e ensino, dos profissionais da educação, dos recursos financeiros e das disposições gerais e transitórias, perfazendo um total de 92 artigos regulando o universo da educação brasileira. A partir de então, levado por essa novidade legal, passei a desenvolver práticas que me levassem a estudar como se daria a educação dali por diante. E de forma ambiciosa, abri duas frentes de estudos: a primeira, voltada exclusivamente à Educação Infantil e ao primeiro ciclo do Ensino Fundamental, por meio de atividades de recreações com base nos meus livros dedicados a este universo de pesquisa; a segunda, ministrando um curso denominado Faça seu TCC sem Traumas, destinado aos estudantes de graduação e pós-graduação, lato e stricto sensu, no sentido de abarcar desde o segundo ciclo do Ensino Fundamental até a Educação Superior, passando pela Educação Profissional, Educação Especial, Educação de Jovens e Adultos (EJA), Educação a Distância (EAD) e até a Educação Indígena. No primeiro trabalho mencionado, pude trabalhar em escolas das redes pública e privada de Alagoas e de outros Estados, com contação de histórias e atividades recreativas  e artísticas para a garotada ao longo desses quase 20 anos, possibilitando uma visão geral da área. No segundo trabalho, pude contar com participantes do meu curso nas mais diversas áreas, desde a Educação, Direito, Psicologia, Economia, Administração, Serviço Social, Sociologia, Turismo, História, entre outras, em cursos de graduação e pós-graduação, incluindo diversas dissertações mestrados e teses de doutorados das mais diversas universidades brasileiras e do exterior, e que contaram todos com a orientação de renomados doutores e aprovação das respectivas bancas examinadoras. Foram, portanto, realizadas enorme revisão da literatura para pesquisa de natureza bibliográfica e realizados diversos estudos de casos com pesquisa de campo de natureza qualiquantitativa, que envolveram todos os níveis e modalidades da educação brasileira, da infantil até a superior, EJA e EAD. Esses estudos foram desenvolvidos com temáticas as mais diversas, desde instituição e gestão escolar, direito à educação, formação e prática pedagógica, ensino-aprendizagem, relações interpessoais entre profissionais docentes e não-docentes, temas transversais, inclusão, hábitos alimentares, meio ambiente e educação ambiental, cidadania e escola cidadã, saúde, sexualidade e educação sexual, religião e educação religiosa, inclusão, até o papel das artes e de outros campos científicos na educação, entre tantos outros inseridos sobre a ótica jurídica, psicológica e educacional. O resultado disso está não só nos trabalhos acadêmicos gerados pelos participantes do meu curso ao longo desses quase 20 anos, como nas postagens deste e dos meus outros blogs, além da participação em congressos e encontros nacionais e internacionais, artigos e estudos, projetos de extensão e de iniciação científica, entre outros eventos, levando a realidade encontrada na educação brasileira, sobretudo alagoana. Hoje levo estes estudos pro curso de Psicologia e para palestras, debates e discussões acerca do tema que participo, no sentido de contribuir para amplitude e aprofundamento que tal temática carece. Se o avanço ocorrido durante esses quase 20 anos de estudos foram poucos ou irrisórios e que a tragédia ainda nos deixa num quadro lamentável de desolamento, não posso esconder a minha esperança, afinal é dela que me faço cultor da revolução copernicana ao contrário e, consequentemente, da busca pelo alcance utópico do autogoverno humano na melhoria das condições de vida planetária, de que a educação poderá ter a atenção que merece nas futuras gerações. Se a educação vai por água abaixo a responsabilidade é nossa! E para mudar esse quadro canto Ivan Lins/Vitor Martins: Depende de nós... E vamos aprumar a conversa aqui, aqui, aqui e aqui.


Imagem: Female nude, do pintor do Barroco italiano Michelangelo Merisi da Caravaggio (1571-1610). Veja mais aqui, aqui e aqui.


Curtindo Magic Moment (CBS, 1982), do instrumentista e compositor Márcio Montarroyos (1948-2007).

VERDADE E VIDA – No ensaio Verdade e vida (Covilhã, 2008), do filósofo, escritor e dramaturgo espanhol Miguel de Unamuno (1864-1936), destaco os trechos a seguir? [...] Primeiro: a verdade na vida. Desde sempre foi a minha convicção, mais arraigada e mais corroborada em mim à medida que o tempo vai passando: que a suprema virtude de um homem deve ser a sinceridade. O vício mais feio é a mentira, os seus derivados e disfarces, a hipocrisia e o exagero. Prefiro o cínico ao hipócrita, não fora aquele já parte deste. Abrigo a profunda crença de que, se todos disséssemos sempre e em cada caso a verdade, a verdade nua e crua, ao princípio ameaçaria tornar-se inabitável a terra, mas depressa acabaríamos por nos entender como hoje não nos entendemos. Se todos, podendo assomar ao bocal das consciências alheias, víssemos despidas as almas, as nossas rixas e suspeitas fundir-se-iam todas numa imensa piedade mútua. Veríamos as negruras do que temos por santo, mas também a alvura daquele que consideramos um malvado. [...] Há que observar agora outra coisa – e com isto respondo, ao mesmo tempo, a maliciosas insinuações de um ou outro espontâneo e, para mim, desconhecido correspondente dessas aldeolas; como há muitas, muitíssimas, mais verdades por dizer do que tempo e ocasiões para dizê-las, não podemos dedicar-nos a dizer aquelas que este ou aquele indivíduo quereria que disséssemos, mas aqueloutras que julgamos mais momentosas ou mais a propósito. Sempre que alguém nos repreende porque não proclamamos estas ou aquelas verdades, podemos responder-lhe que, se fizéssemos como ele quer, não poderíamos proclamar outras verdades que proclamamos. E, não raro, acontece também que aquilo que eles consideram como verdade, partindo do suposto que também como tal a consideramos, não é assim. [...] E esta é a principal razão por que se deve buscar a vida de todas as verdades: para que aquelas que parecem sê-lo, e não o são, se nos mostrem como realmente são, como não verdades ou apenas verdades aparentes. E o que há de mais oposto a buscar a vida na verdade é proscrever o exame e declarar que há princípios intangíveis. Não há nada que não deva examinar-se. Desgraçada a pátria onde não se permite analisar o patriotismo! E eis aqui como se entrelaçam a verdade na vida e a vida na verdade: aqueles que não se atrevem a buscar a vida das verdades que professam como tais nunca vivem com verdade na vida. O crente que se opõe a examinar os fundamentos da sua crença é um homem que vive na insinceridade e na mentira. O homem que não quer pensar em certos problemas eternos é um embusteiro, e nada mais do que um embusteiro. E é assim que costumam andar unidas, nos indivíduos e nos povos, a superficialidade e a insinceridade. Povo irreligioso, isto é, povo em que os problemas religiosos não interessam a quase ninguém – seja qual for a solução que se lhes dê –, é povo de embusteiros e exibicionistas, onde o que importa não é ser, mas parecer ser. Aqui está como entendo a expressão: verdade na vida e vida na verdade. Veja mais aqui e aqui.

DOM QUIXOTE – A obra Dom Quixote de La Mancha (El ingenioso Hidalgo Fon Quixote de La Mancha, 1605), do escritor espanhol Miguel de Cervantes y Saavedra (1547-1616), é composta de 126 capítulos divididos em duas partes, parodiando os romances de cavalaria e contando a história de um protagonista de certa idade, entregue às leituras desses romances, perde o juízo e acredita ter sido historicamente verdadeiro tudo que acontecera nas suas leituras, decidindo-se tornar um cavaleiro andante que parte pelo mundo e vive seu próprio romance de cavalaria. Dá-se, então, as aventuras de Dom Quixote em companhia de Sancho Pança, seu fiel amigo e companheiro. Dessa obra destaco os trechos do primeiro capítulo: [...] A razão da sem razão que à minha razão se faz, de tal maneira a minha razão enfraquece, que com razão me queixo da vossa formosura [...] Em suma, tanto naquelas leituras se enfrascou, que passava as noites de claro em claro e os dias de escuro em escuro, e assim, do pouco dormir e do muito ler, se lhe secou o cérebro, de maneira que chegou a perder o juízo. Encheu-se-lhe a fantasia de tudo que achava nos livros, assim de encantamentos, como pendencias, batalhas, desafios, feridas, requebros, amores, tormentas, e disparates impossíveis; e assentou-se-lhe de tal modo na imaginação ser verdade toda aquela máquina de sonhadas invenções que lia, que para ele não havia história mais certa no mundo. [...] Afinal, rematado já de todo o juízo, deu no mais estranho pensamento em que nunca jamais coiu louco algum do mundo, e foi: parece-lhe convinhável e necessário, assim para aumento de sua honra própria, como para proveito da república, fazer-se cavaleiro andante, e ir-se por todo o mundo, com as suas armas e cavalo, à cata de aventuras, e exercitar-se em tudo em que tinha lido se exercitavam os da andante cavalaria, desfazendo todo o gênero de agravos, e pondo-se em ocasiões e perigos, donde, levando-os a cabo, cobrasse perpetuo nome e fama. Já o coitado se imaginava coroado pelo valor do seu braço, pelo menos com o império de Trapisonda; e assim, com estes pensamentos de tanto gosto, levado do enlevo que neles trazia, se deu pressa a pôr por obra o que desejava. [...] Quatro dias levou a cismar que nome lhe poria; porque (segundo ele a si próprio se dizia) não era razão que um cavalo de tão famoso cavaleiro, e ele mesmo de si tão bom, ficasse sem nome aparatoso; [...] E assim, depois de escrever, riscar, e trocar muitos nomes, ajuntou, desfez, e refez na própria lembrança outros, até que acertou em o apelidar Rocinante, nome, em seu conceito, alto, sonoro, e significativo do que havia sido quando não passava de rocim, antes do que ao presente era, como quem dissera que era o primeiro de todos os rocins do mundo. [...] assim quis também ele, como bom cavaleiro, acrescentar ao seu nome o da sua terra, e chamar-se Dom Quixoete de la Mancha, com o que, a seu parecer, declarava muito ao vivo sua linhagem e pátria, a quem dava honra com tomar dela o sobrenome [...] julgou-se inteirado de que nada mais lhe faltava, senão buscar uma dama de quem se enamorar; que andante cavaleiro sem amores era árvore sem folhas nem frutos, e corpo sem alma [...] Chamava-se Aldonça Lourenço; a esta é que a ele pareceu bem dar o título de senhora dos seus pensamentos; e, buscando-lhe nome que não desdissesse muito do que ela tinha, e ao mesmo tempo desse seus ares de princesa e grã senhora, veio a chamá-la Dulcineia del Toboso, por ser El Toboso a aldeia de sua naturalidade; nome este, em seu entender, musical, peregrino, e significativo, como todos os mais que a si e às suas coisas já havia posto. [...]. Veja mais aqui e aqui.

O LAMENTO DE ARETUSA (Imagem: Alfeu tenta capturar Aretusa, gravura de Bernard Picart) – No livro Poesia moderna da Grécia (Guanabara, 1986), organizado por José Paulo Paes, encontro o poema O lamento de Aretusa, do poeta grego Vitsentzos Kornaros (1553 – 1613), o qual transcrevo a seguir: Erotócrito, por que me apegar à vida ainda? / Que esperança me resta que eu da vida não prescinda? / Como hei de viver num mundo do qual está ausente? / Mantem-me neste calabouço um destino inclemente. / Da tua vida eu vivia, enxergo com tua luz; / lembrar-me de ti faz menos pesada a minha crua. / Deixei de ser eu mesma para o que tu eras ser; / encontro minha vida e minha morte em teu querer. / Acordada ou sonhando, na mente tenho-te vivo; somente em tua lembnrança é que encontro lenitivo. / Abdiquei das riquezas, renunciei de mãe e pai; / a mágoa desta renuncia não se acalma jamais. / Recordo-te, Erotórcito, meu único senhor, / e eus que meu pai e minha mãe te tornas por amor. / Com a palha me cubro, na palha meu corpo dorme, / a penúria não me importa, o pesar não me consome. / Deixei nobreza por ti, por ti odiei a riqueza, / e só por tua causa num calabouço estou presa. / Tormentos por ti passei, por ti suspirei em vão, / por ti – faz hoje cinco anos – eu penso nesta prisão. / Amarguras não busquei, os pesares não compreendo; / com as lembranças de ti ao destino vouvencendo. / Que te falta, fado meu, inda fazer contra mim? / Não noutros dias, hoje só tu me venceste enfim. / Rudo o que eu tinha levaste: o que te resta levar / de quem nada mais possui senão seu próprio penar? A guerra venceste em que há tanto tempo te demoras, / e pouco se te dá o que a mim fizeste até agora. / Eu lutei sempre com força, esperei sempre a vitória, / mas hoje caio vencida nesta masmorra inglória. / Queres-me viva ainda, não para que eu tenha vida, / mas para que possa sentir esta dor tão doída. / A mim não assustas mais, nem minha mente assedias: / onde a esperança estiver, faz-lhe o medo companhia. / Como esprança deixou-me, ao meu coração ensino / não temer os sofrimentos que possa impor-lhe o destino. / O desespero me poupa de temores infundados: / a mim que importa o porvir? Não sou joguete do fado. / Fado, não te receio, faz de mim o que te agrade; / aqui estou se me procuram tuas adversidades. / Quero que morte me dês e que, depois da morte, ao meu / corpo aconteça o pior que a corpo humano aconteceu: / que me atires de um penhasco, ou que me entregue às feras, ; para saciar a crueldade em que te retemperas. / Viva, tu não consentes que meu amado me conforte, / mas eu espero e confio que hei de vencer-te na morte; / minha alma ira encontra-lo de ti se libertando, / pois sobre nossas almas não tens poderes nem mando. / Não há destino no Hades, sorte propicia ou nefasta; / no Hades nada se ganha: o que tomaste já basta. / Erotócrito, morreste em longe terra estrangeira, / e, ao te perder, pergi contigo a minha vida inteira. / Quanto eu não quisera estar a teu lado, em meio à luta, / só para ouvir-te gritar: Vem, Aretusa, me ajuda. / Como um raio, eu correria à toda para ajudar-te; meus próprios braços, não outros, seriam teu baluarte. / Se, de fauces abertas, uma fera acometesse, / minha mão eu lhe dava para evitar te mordesse. / Grande injustiça seria, Erotócrito, no entanto, / perder-se em selva inóspita e perecer teu encanto. / Quisera ser a pobreza que junto a ti dormisse / para seguir-te mais depressa na hora em que partisses, / e ser tua companhia por toda a eternidade: / o que os corpos não fizeram, faças as almas no Hades. Veja mais aqui.

DOIS PERDIDOS NUMA NOITE SUJA – A peça teatral em dois atos Dois perdidos numa noite suja (Global, 1986), do dramaturgo, escritor, jornalista e ator Plinio Marcos (1935-1999), é inpirada no conto O terror de Roma, do escritor italiano Alberto Moravia, e na qual dois personagens dividem um quarto numa hospedaria barata e durante o dia trabalham de carregadores no mercado, discutindo sobre suas vidas, trabalho e perspectivas, mantendo uma relação conflituosa. Da obra destaco o trecho inicial: Um quarto de hospedaria de última categoria, onde se vêem duas camas bem velhas, caixotes improvisando cadeiras, roupas espalhadas etc. Nas paredes estão colados recortes, fotografias de time de futebol e de mulheres nuas. I ATO Primeiro Quadro (Paco está deitado em uma das camas. Toca muito mal uma gaita. De vez em quando, pára de tocar, olha para seus pés, que estão calçados com um lindo par de sapatos, completamente em desacordo com sua roupa. Com a manga dó paletó, limpa dos sapatos. Paco está tocando, entra Tonho, que não dá bola para Paco. Vai direto para sua cama, senta-se nela e, com as mãos, a examina.) TONHO Ei! Pára de tocar essa droga. (Paco finge que não houve.) TONHO (Gritando.) Não escutou o que eu disse? Pára com essa zoeira! (Paco continua a tocar.) TONHO É surdo, desgraçado? (Tonho vai até Paco e o sacode pelos ombros.) TONHO Você não escuta a gente falar? PACO (Calmo.) Oi, você está aí? TONHO Estou aqui para dormir. PACO E daí? Quer que eu toque uma canção de ninar? TONHO Quero que você não faça barulho. PACO Puxa! Por que? TONHO Porque eu quero dormir. PACO Ainda é cedo. TONHO Mas eu já quero dormir. PACO Mas não vai conseguir. TONHO Quem disse que não? PACO As pulgas. Essa estrebaria está assim de pulgas. TONHO Disso eu sei. Agora quero que você não me perturbe. PACO Poxa! Mas o que você quer? TONHO Só quero dormir. PACO Então pára de berrar e dorme. TONHO Está bem. Mas não se meta a fazer barulho. (Tonho volta para sua cama, Paco recomeça a tocar.) TONHO Pára com essa música estúpida! Não entendeu que eu quero silêncio? PACO E daí? Você não manda. TONHO Quer encrenca? Vai ter! Se soprar mais uma vez essa droga, vou quebrar essa porcaria. PACO Estou morrendo de medo. TONHO Se duvida, toca esse troço. (Paco sopra a gaita, Tonho pula sobre Paco. Os dois lutam com violência. Tonho leva vantagem e tira a gaita de Paco.) PACO Filho-da-puta! TONHO Avisei, não escutou, se deu mal. PACO Dá essa gaita pra cá. TONHO Vem pegar. PACO Poxa! Deixa de onda e dá essa merda. TONHO Se tem coragem, vem pegar. PACO Pra que fazer força? Você vai ter que dormir mesmo. TONHO Antes de dormir, jogo essa merda na privada e puxo a bomba. PACO Se você fizer isso, eu te apago. TONHO Experimenta. PACO Se duvida, joga. TONHO Jogo. E daí? PACO Então joga. TONHO Você só tem boca-dura. PACO É melhor você me dar essa merda. TONHO Não enche o saco. PACO Anda logo. Me dá isso. TONHO Não vou dar. (Paco pula sobre Tonho. Esse mais uma vez leva vantagem. Joga Paco longe com um empurrão.) TONHO Tá vendo, palhaço? Comigo você só entra bem. PACO Eu quero minha gaita. TONHO Não tem acordo (Pausa) (Tonho deita-se e Paco fica onde está, olhando Tonho.) [...] Veja mais aqui, aqui e aqui.

ECLIPSE – O filme Eclipse (1962), dirigido pelo cineasta italiano Michelangelo Antonioni (1912-2007), conta a história de uma jovem mulher nos subúrbios de Roma, rompe seu namoro com o escritor depois de uma noite conturbada, que atendendo sua mãe que é viciada no mercado de ações, encontra um jovem corretor que tem uma acentuada natureza materialista. Os dois começam um relacionamento monossilábico que vai se desenrolando por trata. O destaque do filme é a atriz italiana de teatro e cinema Monica Vitti, presença sempre marcante nos filmes do cineasta. Este é um dos grandiosos filmes que confirma a marca e o gênio do seu diretor. Veja mais aqui e aqui.

IMAGEM DO DIA
Todo dia é dia de homenagear a atriz, miss, modelo e sex symbol sueca Anita Ekberg (1931-2015)


Veja mais no MCLAM: Hoje é dia do programa Tataritaritatá, a partir das 21hs, no blog do Projeto MCLAM, com apresentação sempre especial e apaixonante de Meimei Corrêa. Na programação: Aarre Merikanto, Jerry Lee Lewis, Edson Natale, Emerson & Lake & Palmer, Oswaldo Montenegro, Paul McCartney, Djavan, Sonia Mello, Hugo Branquinho & Milton Nascimento, Lilian Pimentel, Magno Átimo, Monsyerrá Batista, Mu Chebabi, Ricardo Machado, Cikó Macedo, Mazinho, Zé Linaldo, Chiko Queiroga & Ana Vitória, Daniel Pissetti Machado, Denise Dalmacchio, Dido Oliveira, Eliane Bastos, Elisete Retter and Ron, Jan Cláudio, Beto Saroldi, Meimei Corrêa, Fernando Fiorese, Kurt Nilsen, Roberta Miranda, Tim Maia, Alexandre Machado, Jorge Medeiros, Wagner & Wander Ponzo & muito mais. Em seguida, o programa Mix MCLAM, com Verney Filho e na madrugada Hot Night, uma programação toda especial para os ouvintes amantes. Para conferir online acesse aqui.

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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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MARY OLIVER, ROSI BRAIDOTTI, VERONICA GORRIE & CHACRINHA

  Imagem: Acervo ArtLAM .   O segredo da brochura artesanal... - Uma fedentina tomou conta do lugar: Que fedor! De onde vem? Tem defunto...