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sábado, maio 01, 2021

SEBALD, BARICCO, YASMINA KHADRA, KIM EDWARDS & GENTIL PORTO FILHO

 

 

TRÍPTICO DQC: O tio-irmão se foi e fiquei só mais uma vez - O brejo no quintal e o meio da rua principal, a infância no que não era água escura, apenas um nome inocente. Aquele Zito – coisito de carinho, mimo -, ser caçula como todos somos e com uma obediência cega por meu pai que nunca tive até a descoberta do fracasso e senilidade dele, aí passou para o plano da compreensão, porque era o filho do mais velho que era meu pai e, por isso, meu irmão. E o respeito submisso o fez doutor Rildo que foi para mim nada mais além do nome, alcançar a rebeldia insubordinada – era enfim ele por ele mesmo – de vereador a vice-prefeito que, também, para mim, não era mais que outra nomeação distante, porque arrombamos com toda hierarquia: ser o primeiro neto deu-me o poder sobre o tio mais novo, a equidade. E ríamos e discordávamos no meio da nossa cumplicidade. Nada do que fomos além de nós mesmos em nós mesmos não valia nada. Como ele era bissexto, envelheci primeiro, antes dele e recitando a epístola aos poetas que virão de Manuel Scorza – apesar dele ter passado não sei quantos anos além de mim. O que ficou de mesmo foi essa isonomia e as mãos dalas pela proximidade de sonhos, anseios similares, apesar de distintos, claro, mas dois num só, na verdade três mosqueteiros: eu, ele e todas as coisas, enquanto apreendia as quatro narrativas longas dos emigrantes, do escritor alemão W. G. Sebald (1944-2001): O certo, porém, é que o sofrimento espiritual é praticamente infinito. Quando se acredita ter atingido o último limite, sempre há novos tormentos. A pessoa cai de abismo em abismo. E éramos um pelo outro no pacto de sangue que sequer celebramos e nem a morte nos separou porque se ele está morto seja lá onde for, está vivo em mim, como dissera Alessandro Baricco: Os mortos morrem, mas continuam a falar em nossa voz. Aumentou minha solidão, mas é assim que sou e vamos sempre juntos.

 


DOIS: Cassemblas – Comartefatos, brinquedadas, trouvobjetos, vidartes - Aqui estou e muitoutros eus, isso de mim mesmo. É assim: de primeiro ouvi e o ouvido fez-se minha fala, Fiat Lux et cétera e tal. E em mim a descoberta do que não ouvi nem se falou: do que sou e de tudo duma só vez emanavam e eu capturando os pedaços que voavam de mim não sei de onde, de dentro sim, e sentia sem que pudesse compreender, o ilógico, algo não-ego, outro eu e muitoutros de mim mesmo brotavam do meu coração e cresciam a se enraizarem além dos meus pés e se elevavam além da minha cabeça e tamanho, como se minha alma não fosse só minha e não mais eu, incorporando a mim e todo universo. Foi de repente e me vi Sônia Guajajara empunhando a vida e era ao mesmo tempo o pedinte aboletado na esquina e o escritor argelino Yasmina Khadra: Quando um mosquito se deixa apanhar numa teia, não pode querer mal à aranha. E não só, o primeiro passo esquecido, o sorriso de Carma, a última esquina passada onde não encontrei minha mãe que se foi para nunca mais, cenas que não vi, o que não percebi e o esquecido, as árvores do quintal da infância, os rios que atravessei e me deixei levar, os enfermos das emergências hospitalares, os quase vivos e os quase mortos, ouvindo Gotas de oceano da cantautorótimaravilhosa Camila Inês e contra-o-ponto da vã filosofia porque tudo é fugaz sereia morena Leiria e o eco na mente de Kim Edwards: Não se pode deter o tempo. Não se pode raptar a luz. Tudo o que se pode fazer é virar o rosto para cima e deixar a chuva cair. Ser em si o outro e muitoutros não é nada pacífico, isso eu sei; mas nada pude fazer: guerras e tempestades permitidas, política de boa vizinhança. E me apaziguo ao desconhecido, tenho de seguir adiante.

 


TRÊS: Livro fechado – Abri e fui comodamente palavra por palavra, frase por frase, período por período, página por página até a linhultima da paginultima: Por outro lado, o caixeiro, para ser caixeiro-viajante de verdade, não precisa de escrúpulos, o que lhe deixa em posição de igualdade em relação à natural falta de escrúpulos do primata, mas com a vantagem de poder desfrutar dos privilégios da linguagem. Logo no início fui avisado: De histórias, o cemitério anda cheio. Era para saber: Viver lentamente para morrer rapidamente. E outro alerta: ...fuja mesmo e não se atrase. Lá pras tantas, outros recados no meio de muitos tantos: Ou talvez até não precise de nada, se você vislumbrar a própria divindade que há em você. O que me dizia, não olvidava: ... porque o tempo urge. Urge para que você dê aquele passo que vai lhe tirar da sua condição de vítima. Ali estava o que eu não disse e estava dito, o que não fiz e estava feito, o que não escrevi e estava sacramentadamente escrito. Deveria ter lido de antemão o prefácio d’A saga do Zeitgeist Cowboy contra o inferno do Fabio Victor, outra obra de arte, mas não passei batido: ... é um labirinto, um jogo de espelhos, um caleidoscópio instigante e vertiginoso. Um manifesto-ensaio-provocação-em-prosa-poética, no limite da prosa, no fio da navalha da poesia. Um achado, esta síntese. Justo quando lembrei comovido daquela passagem que diz: Amar o próximo é importante. Nem que seja só um amigo, daqueles capazes de saltar muros e fugir de guardas com você. Capazes também de roubar um carro com você, mas, sobretudo, de dividir o próprio futuro que se faz com ele no presente. O que eu não sabia, tudo muito e demais: um livro fechado que abri e li porque sou o que restou do meu pai. Até mais ver.

 

A ARTE DE GENTIL PORTO FILHO



[...] Sinceramente, não sei bem o que fiz neste livro. Sentei em frente ao computador como se diante de uma tela em branco. O único princípio que me impus foi justamente o de escrever sem projeto nem processos preestabelecidos. Parece-me que havia apenas a necessidade de escrever livremente [...]. Talvez pelo fato de ter a necessidade de escrever livremente, tenha me levado a este fluxo de imagens e percepções. Do título do livro, penso que me veio como uma síntese de ideias contraditórias. Parecia-me um trabalho fechado nele mesmo, aparentemente independente do exterior. Ao mesmo tempo, me parecia também o mais aberto possível, porque sem temas, estruturas ou técnicas predefinidas, o que também me recordou da Caixa de Pandora. Uma caixa fechada, mas para ser aberta e liberar ‘todos os males do mundo’. [...].

A arte do escritor, professor, pesquisador e artista plástico, Gentil Porto Filho, autor da obra Livro Fechado (Autor, 2020), que é professor de Teoria da Arte e formação em arquitetura. Veja mais aqui e aqui.


 


quinta-feira, outubro 11, 2018

MANUEL SCORZA, JANE MONHEIT, TERESINHA SOARES & GALDINÁCIO


ENFRENTANDO A BRONCA – Imagem: arte da escritora, professora e artista Teresinha Soares. - Antes de Alagoinhanduba sumir do mapa, conheci um homem de bem, daqueles da gente admirar pela altivez, sinceridade e presteza. Era o Galdinácio uma figura: direito a toda prova, honesto até dizer basta. Achar um defeito nesse homem era difícil, esbanjava virtude e hospitalidade. Era viúvo, pai de três filhos – dois deles, Deus os tenham: um que foi recolhido na calçada por um possante veículo desgovernado nas ruas de São Paulo, de restar espremido e emburacado nos escombros duma loja, provocado pelo acidente; o outro, nadava com uma turma na praia do litoral, veio um jetsky ineivado e acabou com a graça na hora: boiava sem vida nas ondas -, só agora convivendo com a lindíssima filha, Galdinita. Vivia dali praqui, sorrindo, acenando, amigo das horas difíceis. Não fosse isso, havia educado todos na linha da retidão, uns meninos de ouro, diziam, dela ser cobiçada por toda marmanjada, coisa que o povo gabava mesmo. Ocorre que o filho do ricaço Zé Brabão, o Brabãozinho, que não era lá flor que se cheirasse, achou de arriar de amores pras bandas dela, isso depois de haver desgraçado a reputação para a perdição de umas três dúzias de garotas lindas dali. Galdinácio desconfiou e falou sério pro rapaz: Filha minha é pra casar. E eu quero casar com ela. O genitor não engoliu a lorota e fez com que ele arribasse dali que não era de abrir pro pai dele não. O menino bem que não queria arengar com ele, mas também não queria deixar por menos e o negócio engrossou. Mesmo Galdinácio educadamente firme dissuadiu a procurar outro terreiro para suas estripulias, o malcriado insistia em não arredar o pé dali, precisando dele usar de medidas um tanto enérgicas para botá-lo pra fora, exigindo respeito. Só que o folgado não levou na conta devida, precisando de uma reprimenda severa pra mode tomar jeito. Oxe, o negócio não ficou nisso não. Logo o ricaço Zé Brabão tomou ciência do fato, mandou logo a capangagem escorraçar o homem impávido que não abriu da vela e o pipoco de bala comeu no centro. Feridos, pai e filha, findaram hospitalizados, morre mas não morre. Brabãozinho foi ao pai: Não era para tanto, pai! Comigo é assim: mexeu, come bala. Eu quero casar com ela. Como é? Ficou doido, foi? Trate logo de se afastar de gentinha da mundiça. Se vai fodê-la, que faça logo o serviço e saia fora, esse negócio de casório não sai agora não, tais ouvindo? Eu vou casar com ela, pai. Se casar com ela, eu deserdo. Bate boca inflamado, o primogênito saiu fora, do valentão vê-se falando sozinho: Esse menino está precisando de umas lamboradas boas pra se endireitar. E começou a fazer uma faxinada, foi ter com o enfermo e encarou olho no olho: Sabe quem sou eu? Sei de quantos morreram para que montasse sua riqueza, quantos não foram jogados nos fornos da sua olaria para que nunca fossem obstáculos nos seus objetivos escusos, quantos pais de famílias não perderam suas vidas em nome da sua exclusiva justiça pras suas posses, quantos não tremeram feio diante de sua presença com um batalhão de jagunços para tomar tudo de quem quisesse, só os covardes andam acompanhados, homem que é homem enfrenta sozinho os seus problemas: você nunca foi um desse. Eu sou Zé Brabão, o dono de tudo isso aqui. Você pode ser o que for, mas para mim é como um qualquer. Eu acabo de lhe matar, seu cabra, acabo com a sua raça. Você pode fazer o que quiser, mas uma coisa eu lhe digo... e Galdinácio destemidamente disse na lata dele: Sempre soube que riqueza material nunca foi, é ou será grandeza de espírito. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais  aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] Vocês são homens ou mulheres? – Mas o que é, Dom Fortunato? – Os empregados da Cerro surpreenderam a Sra. Tufina, pisotearam os carneiros com seus cavalos e em seguida soltaram os cachorros. Morreram. Não sei se são homens ou mulheres. Que esperam? Que a Cerca entre em nossas casas? Esperam que a mulher não possa mais deitar-se com o macho? Os rostos se apequenavam, se azulavam com uma cor diferente do dia nascente. Nos olhos se apagava e se acendia, nascia e renascia uma coragem extinta. Agora já não se pode mais recuar. Recuar é bater no céu com o cu. Homens ou mulheres, não sei o que são, mas temos que brigar. A bruta névoa não se dissipava. As rochas exalavam fumarolas brancacentas. Incas, caciques, vice-reis, corregedores, presidentes da República, prefeitos e subprefeitos eram os próprios nós de um quipo, de uma corda de terror imemorial. [...] Ignorantes de que o Código Militar prescreve que “o indivíduo ou indivíduos que ousem atacar a Força Armada se tornam passíveis de um Conselho de Guerra sumário e que...”, os comuneiros dançavam. A tempestade não cedia. O caminho se acabava debaixo da raiva do granizo. O procurador cuspiu um dente e mandou trazer picaretas e vergalhões. Sob a granizada se atiraram a derrubar os postes. Arrancaram os quebra-pernas. Trezentos metros de arame sentiram uma vertigem. Gritavam e dançavam, possessos. Rompiam a Cerca, meteram as últimas ovelhas exaustas. Marcelino Muñoz – terceiro lugar na escola regional – teve a ideia de perpetrar um espantalho. Já no roxo do entadecer enfiou o espantalho no montão de quebra-pernas vencidos. Na luta, os guardas tinham abandonado um abrigo e um gorro. Marcelino pediu licença para uniformizar o espantalho de republicano. O Procurador Rivera deu-lha. Que acontece quando o homem é obrigado a retroceder pelo caminho da besta? Que sucede quando nas fronteiras do seu infortúnio, devolvido ao seu terror de carnívoro acossado, o homem deve escolher entre voltar a ser animal ou encontrar a centelha de uma grandeza? Fortunato tinha razão: retroceder ali era bater nas nuvens com o cu. [...] Assim estando as coisas, uma manhã, Guillermo, o Cumpridor, se deteve na encruzilhada do caminho entre Cerro de Pasco e Rancas, Guillermo, o Cumpridor, desceu do jeep. Instantaneamente se congelou uma coluna de pesados caminhões repletos de guardas de assalto. Nesse lugar, mais ou menos cinquenta mil dias antes, outro chefe deteve a sua tropa: o General Bolívar, na véspera da Batalha de Junín, livrada nesse altiplano. Minutos mais, minutos menos, quase à mesma hora, Bolívar contemplou os verdosos telhados de Rancas. [...] O velho corria que corria. Oito guerras perdidas com o estrangeiro; mas, em compensação, quantas guerras ganhas contra os próprios peruanos? Ganhamos a guerra não declarada contra os índios de Huancané: quatro mil mortos. Não figuram nos textos. Constam, em compensação, os sessenta mortos do conflito de 1866 com a Espanha. [...] O velho divisou os telhados de Rancas. Parou junto a um penhasco. Cinquenta mil dias antes o General Bolívar tinha-se detido ali: na manhã da sua entrada em Rancas. Bolívar queria Liberdade, Igualdade, Fraternidade. Que engraçado! Deram-nos Infantaria, Cavalaria, Artilharia. Fortunato avançou, afogando-se na ruazinha. No gesso da sua cara viram a desgraça. - Já vêm. A Guarda de Assalto está chegando! [...] Quem falou foi Fortunato. - A que se deve a visita, meu alferes? - Há uma ordem de expulsão. Vocês invadiram a propriedade alheia. Temos ordem de despejá-los. Vão embora! Vão embora agora mesmo! - Não podemos sair desta terra, meu alferes. Nós somos daqui. Nós não invadimos nada. Outros nos invadem... - Têm dez minutos para irem embora. O uniforme voltou à fila parda. - É a Cerro de Pasco que nos invade, meu alferes. Os gringos nos cercam e nos perseguem como ratos. A terra não é deles. A terra é de Deus. Eu conheço bem a história da Cerro. Ou será que trouxeram a terra no ombro? [...] Nestes lugares nunca houve cercas, meu alferes. Nós nunca soubemos o que era um muro. Desde os nossos avós, e até antes, nem cadeados conhecemos até que chegaram esses gringos de merda. Eles é que trouxeram cadeados. E não foi só cadeados. Eles... [...] Nos tratam como animais. Nem nos falam. Se nos queixamos, não nos vêem; se protestamos... Eu me queixei ao prefeito. Eu levei os carneiros, meu alferes. Que diz? O alferes tirou vagarosamente o seu revólver. - Já não falta nada- disse, e atirou. Uma debilidade universal destituiu a raiva. Fortunato sentiu que o céu desabava. Para defender-se das nuvens ergueu os braços. A terra se abriu. Tentou agarrar-se nas ervas, à margem da escuridão vertiginosa, mas os seus dedos não obedeceram e rodopiou, sufocado, até o fundo da terra. [...].
Trecho do romance Bom dia para os defuntos ou Rufam tambores por Rancas (Civilização Brasileira, 1970), do romancista e poeta peruano Manuel Scorza (1928-1983), o primeiro volume da pentalogia La guerra silenciosa, narrando a luta dos camponeses andinos contra os latifundiários e uma mineradora estadunidense durante as décadas de 1950 e 1960, no Peru. Veja mais aqui, aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da escritora, professora e artista Teresinha Soares. 
Veja mais aqui.

AGENDA
Congresso de Literatura Fantástica de Pernambuco (8º CLIF-PE), a ocorrer nos dias 30 e 31 de outubro e 01 de novembro de 2018, com o tema “A metamorfose na literatura fantástica”, promoção de Belvidera – Núcleo de Estudos Oitocentistas, grupo de pesquisa do Departamento de Letras da UFPE /CNPq & muito mais na Agenda aqui.
&
Uma coisa e outra mais, Franz Kafka, Jean Cocteau, Gilles Deleuze & Félix Guattari, Michel Foucault, Tanussi Cardoso, Margaret Dyer, Tom Zé, Sonia Maria Vieira, Isao Tomita & Cristina Azuma aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje curta na Rádio Tataritaritatá a música da cantora estadunidense Jane Monheit: Live at the Rainbow Room, Taking a change on love, Jazzwoche Burghausen & The Best Greatest Hits & muito mais nos mais de 2 milhões & 700 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui e aqui.


terça-feira, maio 30, 2017

MACA DE SCORZA, NOITE DE ANTONIONI, A ARTE DE ABRAMOVIĆ & BRASIL A SÉRIO, NÃO RIA!

BRASIL A SÉRIO, NÃO RIA! – Imagem: sobre arte de Andrey Kuzmin. - Patriamada, salve, salve! Ouviram dizer que o Brasil não é um país sério. Que coisa! Pudera, ensinaram a gente escrever com “s”, enquanto o mundo todo grafa com “z”. Por que? Já expliquei isso tintim por tintim no Fecamepa. À guisa de ilustração: o com “s” foi construído pela sujeira, rapinagem e corrupção; o do “z”, sempre existiu desdantigamente no ideal humano. Trocando em miúdos: um pro nativo e, o outro, pro mundo ver, se admirar e mangar. Não bastasse isso, entre tantos papelões e presepadas, veio a cana para adoçar com o sangue escravo, ouro do muito que sumiu no estalar de dedos, maravilhas profanadas como cu-de-mãe-Joana, afora piadas que viraram uma independência comprada a peso de libra esterlina, uma república de gatos pingados e bananas, quando a dita andou dura com golpes até hoje e só deu numa coisa cantiga de grilo: salafrários no poder comandando o Estado e todos os poderes, enquanto eu e meu irmãos e irmãs à margem de tudo, com a cabeça nos ventos desde que Pindorama começou a ser saqueada pra virar a calamidade de um povo heróico o brado retumbante que as balas acham como inimigas da felicidade, porque todo mundo quer um milhão embolsado por um centavo pra comprar posses e autoridades, acreditando no milagre de cair uma bolada do céu, afinal Deus é brasileiro e protege os doidos, os bêbados e as criancinhas. Enquanto o gigante eternamente em berço esplêndido para poucos, gerações são imoladas pra sobrar Macunaímas que fazem e acontecem na base do jeitinho e findam em palpos de aranha que arranha o sarro com carteiradas e dribles, rebolados e felicidade 0800, em arranha-céus suntuosos pra miséria humana dos que são menores que seu próprio tamanho, contando cédulas e moedas pra destilar veneno sobre quem nada tem, pedindo pra chover por causa da seca e pra chuva parar pela inundação de tudo. Na verdade, confundem até Deus com uma bandeira de cores desbotadas, aos farrapos e descolorida pelos exploradores afortunados que devastam as matas e tornam o céu antes anil agora escuro sem estrela alguma pro negrume de uma gente ociosa como espantalho de olheiras e sacos vazios pelo desconsolo, acossada pelas dificuldades e imobilizada pela catatonia, ciosos apenas por se arrumar e gastar o que tem e o que não tem, afeiçoando-se pela fauna de todas as feras e mansas enquanto execra o semelhante e aposta na desgraça alheia, e que não brinca em serviço ao soltar seus coprólitos afora com as ventosidades catingosas enquanto samba no carnaval do futebol e, com perdão da má palavra, formam uma grandicíssima putaria como filhos de uma mesmíssima putada! Salve, salve! Ah, lembranças rondam, houve um tempo não muito longe, em que eu e os da minha laia, solidários aos miseráveis de todos os cantos do país, saíamos da faculdade para fazer revolução. Reuníamos em motins nos botecos, protestos inflamados nos copos, contestações revoltosas nos goles, lágrimas embriagadas por liberdade e justiça, com a fé no nosso povo e contra o vitupério da injustiça nossa de cada dia, até que um dia um raio fulminou e a gente pôde sentir o gostinho da liberdade e coisa se encaminhando para se endireitar e ficar no sério o que antes era só piada, e lavamos a alma ao eleger o que seria nosso próprio destino no meio das nossas contradições e quase seguíamos adiante pra ver o enterro hoje voltar e tudo sucumbir ao dissabor das ideologias, quando rebelados entoam a velha paródia do Hino do Soldado em concerto desafinado, tudo cheio dos quequéos da festança: Arroz comemos com feijão. A pinga tomamos com limão. Porém, se a patriamada precisar da macacada, puta merda, tá lascada. Vá se foder pelo Brasil, vá pra puta que pariu que meu cu não é fuzil. Uma nova pinóia pra sisudo dizer que é sério com todo palavrório da charlatanice e a gente só morrendo de rir quando não era pra isso, mas ficou sendo porque não se percebeu o que estava acontecendo, nem se deu conta do flagelo no meio do tiroteio de informações e contra-informações e disse-me-disse, boataria, intriga e queimação de filme. Não se sabe ao certo quantos escaparam entre mortos, tições e fulminados. Pros que não sabem, o Sol brilha no céu da pátria a todo instante e paratodos. © Luiz Alberto Machado. Veja mais aqui.

MACA ALBORNOZ DE MANUEL SCORZA
[...] E vi, caralho, pela primeira vez, aqueles sóis verdes que tonteavam vindos do rosto da fêmea mais bela que avistei neste puto mundo. Assim conheci Maca. [...] A palavra beleza será sempre fraca para descrevê-la. Era tão bonita que nos tonteou. [...] Então, pela primeira vez, Maca sorriu pra mim, e juro que conheci o que provocou, caralho, a queda dos anjos. O que provocaria, maldita a hora em que nasci, o desespero que está me queimando. [...] A mulher que nos melhorava ou piorava com sua presença, reconheçamos, como homens que somos , a verdade, caralho, dançava sem parar desde o meio-dia. [...] a escuridão caluniava a beleza de Maca e que a luz mostrava um rosto que jamais ninguém, caralho, tinha visto neste mundo corno. [...] Soube aquela noite que depois de ter dormido com centenas de mulheres eu era virgem. Conheci, maldita hora em que meus pais se misturaram, conheci que o céu e o inferno têm a mesma porta morna, e que se pode viver dentro de um relâmpago. [...]. Viveu entre seus irmãos vinte anos monteses, criada como menino. E pensava que era menino [...] Curando-o descobriram aquilo que Maco, criado como homem, vestido como homem, altivo como homem, tinha esquecido: que era mulher. [...] quando se divulgou que os Albornozes eram mulheres, sacudiu Cerro de Pasco.[...] Na porta do calabouço onde conhecera o opróbrio, Maca sorriu. – Já não tenho pai nem mãe. Sou filha do ar! [...] Adeus, irmãos queridíssimos, adeus filhos de uma grandicíssima puta! [...] Como desconfiar que o que aquele horroroso Serafim desejava era demonstrar a insignificância dos homens! Eu sou, senhores, o primeiro homem que a viu nesta província e repito que vê-la é se desgraçar. [...] e ela humilha só para sorver a nata de nossa humilhação. Seduz para poder vomitar aquilo que seduz. Se descesse dos céus ou subisse dos internos uma mulher tão impiedosamente bela como essa (que como todo o mal que causou, repito, é a única que verei em minha agonia no dia que for embora deste planeta de merda que gira ao mesmo com os palermas e com os filhos da puta [...].
Trechos da obra Cantar de Agapito Robles (Civilização Brasileira, 1979), do romancista e poeta peruano Manuel Scorza (1928-1983). Imagem do pintor peruano Vitor Loli. Veja mais aqui.

Veja mais sobre:
Se não deu e fedeu, só na outra, meu, Sentimento do mundo de Carlos Drummond de Andrade, Contos de Juan Carlos Onetti, Literatura fantástica de Tzvetan Todorov, a música de Yann Tiersen, a pintura de Luiz Paulo Baravelli & Asha Carolyn Young, a fotografia de JR, a xilogravura de MS, a arte de Tom Wesselman & Kenny Cole aqui.

E mais:
Fecamepa: quando o Brasil dá uma demonstração de que deve mesmo ser levado a sério aqui.
A literatura de Juan Carlos Onetti aqui e aqui.
Desejo & a arte da cantora Sônia Mello, Deus & o Estado de Mikhail Bakunin, Ouvindo insetos de Po Chu Yi, Os museus & Bertha Lutz, Teatro Espontêaneo & Psicodrama, a música de Paulo Bellinati & Garoto, a dança de Mata Hari, a pintura de Murilo La Greca & a arte de Melinda Gebbie aqui.
Proezas do Biritoaldo: Quando o cara num rega direito, o amanhã parece mais o aperto do dia de ontem aqui.
O recomeço a cada dia, o pensamento de Ibn el-Arabi & Indries Shah, a fotografia de Faisal Iskandar & a arte de Petrina Sharp aqui.
Dignidade humana, educação & meio ambiente, O Brasil e a telenovela de Esther Hamburger, a pintura de Nina Kozoriz & a arte de Niura Bellavinha aqui.
Ninquem vem pra vida de graça, O caminho de Swann de Marcel Proust, a pintura de Annibale Carraci & a arte de Josephine Wall aqui.
As pedras se encontram nos mundos distantes, Pelos ares de Rafael Piccolotto de Lima & a arte de Sing & Luciah Lopez aqui.
Tudo passa pra quem não sabe o desprezado, Fenomenologia da percepção de Maurice Merleau-Ponty, a arte de Martina Shapiro & Shane Turner aqui.
Caríssimos ouvintes, a voz ao coração, Fremont Solstice Parade, a escultura de Bernhard Hoetger & a arte de Aleksandr Rodchenko aqui.
Endecha: carpe diem, mutatis mutandis, o pensamento de Nikolai Roerich, a fotografia de Antonella Fabiani & a arte de Leon Zernitsky aqui.
Nênia de Abril & cada qual seus pecados ocultos, a arte de Lisbeth Hummel, a poesia de Sérgio Campos & Antes que os nossos filhos denunciem o luto secular de seus abris aqui.
Sinfonias de bar, a pintura de Vincent van Gogh, O ovo da serpente de Ingmar Bergman, a arte de Annie Veitch & Kerri Blackman, Apesar dos pesares, a vida prossegue... aqui.
E se o amor fosse a vida na tarde ensolarada do quintal & a arte de Varvara Stepanova & Luciah Lopez aqui.
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LA NOTTE DE MICHELANGELO ANTONIONI
O drama La notte (A noite, 1961), do cineasta italiano Michelangelo Antonioni (1912-2007), é a segunda parte da trilogia sobre alienação, solidão e a incomunicabilidade entre as pessoas na sociedade moderna, ao lado dos filmes A Aventura e L’eclipsse, contando um dia na vida de um casal – um escritor e sua esposa -, ensaiando aventuras amorosas ao serem convidados para passar uma noite em uma festa de amigos burgueses promovida por um milionário e, durante a festa, o vazio e desgaste emocional existente entre o casal é intensificado. O destaque fica por conta da atuação da atriz e cantora francesa Jeanne Moreau, e da atriz italiana de teatro e cinema Monica Vitti. Veja mais aqui, aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da artista performativa sérvia MarinaAbramović.
Veja mais aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Paz na Terra: Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
Veja os vídeos aqui & mais aqui e aqui.
 

sexta-feira, abril 29, 2016

MANUEL SCORZA, FAURÉ & INA-ESTHER JOOST, YVES KLEIN, SORIA AEDO, PRÍAPO & JAMES WYLY,


E A DANÇA REVELOU O AMOR (Imagem: Merce Cunningham and his dancers, 1958, foto de Richard Rutledge) – O mundo na escuridão do quarto iluminado pelas centelhas da noite enluarada nas frestas da parede e pelos cantos da porta na nudez da nossa entrega. Eu não sabia nada alheio a tudo e ela se fez vestida do negrume para que sua língua na dança de Paloma Herrera lambesse o sal da minha carne para me levar por sonhos surreais da Cléo de Paris nua no Experimento primeiro da Cosmogonia de Vázquez, no nosso mais que real anseio onírico. E os seus lábios deslizaram no bailado de Sylvie Guillem pelos cantos mais sinuosos da minha abissal compleição corpórea. E sua boca me sorveu como se levado prisioneiro para a caverna dos embalos de Marcia Haydee e eu não tivesse mais que sombras temerosas e o prazer de estar vivo ao seu lado. E sua face deslizou na minha pele como se dançasse o Biped de Cunningham e eu me perdesse de mim para me encontrar no seu feitiço Iaravi de todas as manhãs. E os seus seios me envolveram nos rodopios de Debora Colker sobre a minha desolação desprovida de esperanças, para que eu me sentisse alvo do poder de sua magia de valkirya Freya me ensinando do conflito de logos e pathos na condenação da moira. E o seu ventre buliçoso me ensinou da vida a se mostrar Monica Buriti pra que eu estivesse vivo no presente sem passado nem futuro. E o seu sexo deslizou na minha pele como uma Hisako Horikawa a me fazer dia para que eu soubesse noite no útero e ventre de Gaia e me saciar de fome e de toda sede. E suas coxas sambaram como Deborah Colker pra me ensinar a maravilha de viver num país paradoxal de todas as falas e danças e cantos. E suas pernas me envolveram como Erica Beatriz singrando toda imensidão do universo para que eu me visse ínfimo diante de sua grandiosidade. E seus pés passearam como Maria Gidali no palco da minha vida para que eu fartasse mais do que sou no seu balé infinito. E seus olhos brilharam com os dentes do seu sorriso de camaleoa com todas as bailarinas em si e o dia nasceu para nunca mais dizer adeus. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aquiaqui e aqui

 Imagem: Anthropometries, do artista francês Yves Klein (1928-1962).


Curtindo o álbum Fauré: Cello Sonatas – Scilienne, Elégie, Pavane, & Papillon (Naxos, 2010), do compositor, organista, pianista e professor francês Gabriel Fauré (1845-1924), com os violoncelistas Ina-Esther Joost & Ben-Sasson & o pianista Allan Sternfield.

PESQUISA
A busca fálica: Príapo e a inflação masculina (Paulus, 1994), do psicólogo e psicanalista James Wyly. Veja mais aqui e aqui.

LEITURA 
O cavaleiro insone (Civilização Brasileira, 1979), do romancista e poeta peruano Manuel Scorza (1928-1983).

PENSAMENTO DO DIA
Foi no seu bailado que eu me fiz menino e cresci na sua dança que me ensinou a vida (LAM).

Veja mais Brincarte do Nitolino, Manuel Bandeira, Amiri Baraka, João Cabral de Melo Neto, Vatsyayana & Kama Sutra, Yasunari Kawabata, Pas de Deux, M. Richard Kirstel, Isabel Soveral & António Chagas Rosa, Jose Manuel Abraham & Ary Buarque aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Nu, do pintor espanhol Francisco Soria Aedo (1898-1965).
Veja aqui, aqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Recital Musical Tataritaritatá
Veja aqui.


MARY OLIVER, ROSI BRAIDOTTI, VERONICA GORRIE & CHACRINHA

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