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segunda-feira, julho 20, 2020

GAYATRI SPIVAK, PILLE-RITE REI, CAIO CEZAR, RENATA DE BONIS, DANIELA MESQUITA & VITAL CORRÊA DE ARAÚJO



DIÁRIO DE QUARENTENA – UMA ASA DA PALAVRA - Meu coração está em toda parte porque nele não sou eu em mim, sou a elegia de Carlo no dia da amizade que partiu de Gênova e aqui está irrespirável tal como o verso de Adrian Păunescu: Não vamos morar aqui, é impossível / Não vamos morrer mais, não é mais livre. / Para lutar contra todos / em uma sangrenta guerra promíscua, / Viva a corrente que entra em nossos ossos! / Viva a festa, prisão, morte, o imposto! Momento assim inevitável Petrarca: Como difícil é salvar a casca da reputação das pedras da ignorância. Enquanto afugentam ânimos e propagam ódio e morte no meu país, insisto em viver e glorificar a vida: o poema do coração na asa da palavra.

DUAS DITAS PARA NÃO DIZER NADA - Sou processo, projeto em execução. Experimento e distingo, não é tão fácil viver, valho-me de Moholy-Nagy: Projetar não é uma profissão, mas uma atitude. A experiência do espaço não é um privilégio de poucos talentosos, mas uma função biológica. Meu talento está na expressão da minha vida e poder criativo através da luz, cor e forma. Como pintor, posso transmitir a essência da vida. Fiz do canto o meu destino: alma na garganta, coração às mãos. Não importa onde quer que esteja, persisto.

TRÊS VALENDO O QUE SOU & NADA MAIS - Longe de curvar joelhos, cruzar os braços, maldizer de tudo. De novo Petrarca dá o tom do momento: É verdade, nós amamos a vida, não porque estamos acostumados à vida, mas porque estamos acostumados a amar. Há sempre alguma loucura no amor, mas há também sempre alguma razão na loucura. O amor é a graça suprema da humanidade, o mais sagrado direito da alma, o elo de ouro que nos une ao dever e à verdade, o princípio redentor que reconcilia o coração para a vida, e é profético do bem eterno. O eco traz um solo transcendental de Carlos Santana que me fala ao ouvido: Amar a Vida vale a pena. Tudo é um campo de batalha. Se você luta com raiva, você é parte do problema, Se você luta com alegria, você é parte da Solução! O bem mais valioso que você pode ter é um coração aberto. A arma mais poderosa que você pode ser é um instrumento de paz. Eu estou rindo porque eu sei o segredo da vida. E o segredo da vida é que eu validei minha existência. Eu sei que eu valho mais do que minha casa, minha conta no banco ou qualquer outra coisa física. Tantas vozes, zis poemas. Enquanto respiro me imortalizo, porque sou sempre agora desde ontens até amanhãs. Até depois. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS: [...] Se, no contexto da produção colonial, o sujeito subalterno não tem história e não pode falar, o sujeito subalterno feminino está ainda mais profundamente na obscuridade [...] às camadas mais baixas da sociedade constituídas pelos modos específicos de exclusão dos mercados, da representação política e legal, e da possibilidade de se tornarem membros plenos no estrato social dominante [...] Ao representá-los, os intelectuais representam a si mesmos como sendo transparentes [...] relação entre capitalismo global (exploração econômica) e as alianças dos Estados-nação (dominação geopolítica) é tão macrológica que não pode ser responsável pela textura micrológica do poder. Para se compreender tal responsabilidade, deve-se procurar entender as teorias da ideologia – de formações de sujeito, que, micrológica e, muitas vezes, erraticamente, operam os interesses que solidificam as macrologias [...] a teoria é um revezamento da prática (deixando, assim, os problemas da prática teórica de lado), e os oprimidos podem saber e falar por si mesmos. Isso reintroduz o sujeito constitutivo em pelo menos dois níveis: o Sujeito de desejo e poder como um pressuposto metodológico irredutível; e o sujeito do oprimido, próximo de, senão idêntico, a si mesmo. Além disso, os intelectuais, os quais não são nenhum desses S/sujeitos, tornam-se transparentes nessa “corrida de revezamento”, pois eles simplesmente fazem uma declaração e analisam (sem analisar) o funcionamento do (Sujeito inominado irredutivelmente proposto pelo) poder e desejo [...] o mais claro exemplo de tal violência epistêmica é o projeto remotamente orquestrado, vasto e heterogêneo de se construir o sujeito colonial como o Outro [...]  Sobre este último e a possibilidade de escolha pela liberdade [...] essa ênfase no livre-arbítrio estabelece o peculiar infortúnio de se ter um corpo feminino [...]. Trechos extraídos da obra Pode o subalterno falar? (EdUFMG, 2010), da crítica e teórica indiana Gayatri Spivak, considerado um texto fundamental sobre o pós-colonialismo e a autora uma importante representante da produção teórica pós-colonial, crítica feminista relevante, em termos de sua influência na produção intelectual em escala global.

A MÚSICA DE PILLE-RITE REI
Num dia frio de dezembro, em Malmö, fui a um concerto de Natal em que uma peça minha para orquestra e coro seria apresentada. Depois, os amigos me chamaram para comer pizza. Tinha uma brasileira no grupo, Daniela Mesquita. Perguntei de onde era e ela disse: ‘Brasil’. Do nada, comecei a cantar ‘O Pato’. Ela disse que eu tinha que ir para o Brasil e que ia dar um jeito de fazer isso acontecer. Eu ria, pois não acreditava. Poucos dias depois, porém, recebi um telefonema do líder de um programa de intercâmbio dizendo que tinha ouvido falar a meu respeito e que, se eu quisesse, poderia morar no Brasil como estudante. Dois meses depois, eu estava instalada em Ipanema. Tudo era exatamente como eu imaginava! Até melhor. Era como se eu tivesse estado no Rio antes. Eu amo o Rio. Jamais vou me esquecer da experiência que tive em 2018. Estava tocando na rua, em Ipanema. Um homem visivelmente pobre parou para me ouvir. Era vendedor de esponjas de cozinha. Ele mostrou com gestos que tinha gostado da música, mas não poderia colaborar. Respondi que não precisava dar dinheiro, bastava escutar. Ele ouviu todas as músicas e, quando terminei, me deu uma esponja de presente. Nessa altura, estávamos os dois com lágrimas nos olhos
PILLE-RITE REI - A música da cantora, saxofonista e compositora estoniana Pille-Rite Rei, que já lançou o álbum Brazilian Adventures (2019).
&
O CANTO DE DANIELA MESQUITA
A arte musical de Daniela Mesquita, que fez seu mestrado em Música da UFRJ (PROMUS), sobre o tema Kindertotenlieder, de Gustav Mahler – quando a luz transcende a morte: performance e relato de experiência (2017), um estudo da obra Kindertotenlieder, de Gustav Mahler, com foco na interpretação do cantor lírico. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Comecei a me perguntar por quanto tempo essas rochas existiam, por quanto tempo o processo de formação de areia preta ocorreu e assim por diante... Nesse momento, comecei a experimentar esses elementos, opondo-os a objetos de outro tempo. Em algumas esculturas, elementos naturais, como pedras e conchas, são contrapostos a materiais de construção, como concreto e gesso, que nos cercam e nos envolvem nas grandes cidades. Minha intenção era discutir e refletir sobre a brevidade e a fragilidade da vida humana diante de materiais que testemunharam muito mais do que nós. Minha atenção voltou-se para os próprios materiais e sua representação se tornou secundária. O que acho interessante nessa transição é que a percepção da paisagem não desapareceu do meu trabalho: ela migrou da pintura - que é uma representação muito estática em uma superfície, para uma visão ampliada da paisagem. Parei de pintar os lugares para investigá-los. Essa experiência também chamou minha atenção para a passagem do tempo. As dimensões do lugar me fizeram sentir questões insignificantes e existenciais sobre a transitoriedade da vida humana acabaram se tornando um dos principais temas do meu trabalho.
RENATA DE BONIS - A arte da artista visual Renata De Bonis, que se formou em Artes Visuais na FAAP em 2006 e mestrado pela UNESP, e tem desenvolvido a sua investigação em pintura e obras tridimensionais, como esculturas e instalações sonoras. Sua pesquisa envolve interesse em diferentes percepções de tempo, como o geológico e o mundano e as relações do homem contemporâneo com a natureza e a paisagem. Veja mais aquiaqui.

PERNAMBUCULTURARTES
A arte do violonista, produtor musical e arranjador Caio Cezar, autor do álbum musical Caio Cezar interpreta João Pernambuco que lhe rendeu a indicação para o Prêmio Sharp, afora ter composto trilhas sonoras para teatro e cinema, incluindo o desenho animado Alma Carioca, sobre Pixinguinha e João da Baiana, vencedor do Prêmio Petrobras. Como pesquisador trabalha no levantamento das obras de Canhoto da Paraíba e Pixinguinha - colaborando com o Instituto Moreira Salles. É diretor do Centro de Ópera de Acari, que reúne 250 jovens da comunidade de Acari no Rio de Janeiro. Do projeto surgiu a orquestra de cordas dedilhadas AcariOcamerata, que vem se destacando junto a crítica e o público.
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A poesia absoluta de Vital Corrêa de Araújo: Dicionário anticrítico de êmbolos e lampejos, Pálpebra de pedra, Atanor, Inesperadas nêsperas & Vate Vital aqui, aqui, aqui & aqui.
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A música de Orquestra Armorial & Quinteto Armorial aqui.
Terra pernambucana, do professor, jornalista e escritor Mario Sette (1886-1950) aqui.
Guerra sem testemunhas, do escritor e dramaturgo Osman Lins (1924-1978) aqui & aqui.
A obra de Maria Áurea Santa Cruz aqui.
O lamentável expediente da guerra aqui.
&
O município de Sanharó aqui & aqui.


quinta-feira, outubro 03, 2019

LAURA DE PETRARCA, RŪMĪ, ROUGEMONT, ANNIE LEIBOVITZ, PLÍNIO MARCOS & AMIGOS DA BIBLIOTECA


LAURA DE PETRARCA - Nem sempre sincero, escrevo com sinceridade: esta mulher eu amei mais que o desespero. Quando a vi naquela manhã de abril, sexta-feira santa na catedral de Avinhão, cabelos aos ventos e a aura do amor, entre a epidemia da peste e a minha temporada solitária, era o oásis, refrigério do meu viver. Nela nenhum dia nem nenhuma noite era igual. O desejo de toda a gente e de todo o lugar, era a mulher dos meus sonhos real e viva entre portas abertas, trilhas desbravadas, todas as formas e cores do amor: o verde da Natureza, a chuva de flores, o murmúrio das águas, a sua serenidade de céu maior que a expressão dos raios solares, mais fascinante que as profundezas oceânicas, mais tentadora que os mistérios ocultos de tudo, maior que a grandeza infinita das galáxias. Era ela, a madonna Laura com seus jovens olhos resplandecentes, casta, modesta, gentil, láurea. Olhava nos meus olhos e eu todo deserto incendiado, insubmisso a me revirar pela ânsia de tomar sua mão, tocar-lhe as faces, ouvir a doçura de sua voz, afetos que me eram e são de uma alegria indescritível e toda derramada nos meus versos exclamatórios, minha prosa incontida, meu testamento antecipado, o meu desejo de glória: possuí-la e tê-la entre os meus braços e cantá-la por trezentos e dezessete sonetos inventados, vinte e nove canções com toda minha inquietude, dissabores, crises espirituais - o amor a queimar perene no Rerum vulgarium fragmenta, Il Canzoniere, e celebrada nas Rime sparse, tudo fiz para ela. Nem mesmo a coroação no Capitólio podia aplacar esse amor, a minha desgraça e as ruinas do mundo. Eu me retirei da vida e na clausura de Vaucluse, galguei até o Mont Ventoux e a paisagem alpina era ela amada e rodeada de primavera, a passear pelas ruas da cidade encarcerada, como se distribuísse felicidade, restituísse a longínqua pátria e apaziguasse a distância do tempo entre os que chegaram e os que partiram para nunca mais. Era ela e sempre o alento para meu coração asceta, vencedor e vencido, prisioneiro do passado, pioneiro do futuro, até me esquecia da corrosão do tempo, da contingência da morte, tudo ao mesmo tempo, nas lamentações de todas as vicissitudes do amor. Nada humano me era, então, mais estranho. E tudo isso perto dela podia e nem quer dizer nada, nem representar nada e eu revia pela milésima vez a cor do seu sorriso sobrevoado por toda maravilha vital, estonteante na minha fé inabalável e a maldição da descrença no reino dos vivos. Era a sua luz difusa que suavizava as tentações do meu coração atormentado, o que me fazia valer de todo entusiasmo amoroso entre o gozo de tê-la e o sofrimento de perdê-la, oh, obra-prima do Universo, me refugiava nessa Mulher sem véus, linda e assimétrica escultura viva, Vênus da carne pecaminosa do meu prazer, a alma da minha comunhão, que despertava desejos simultâneos e poderosos, maiores que a mim mesmo, irrefreáveis, indomáveis. E mais eu deveria louvar perseguindo suas pegadas no pântano do meu peito e ela era aquilo que será e sugeria coisas de outras coisas, sabe-se lá, o que possui e o que esconde por trás daquela formosura, a transpor plagas e eu que a vi, jamais esqueci e permanece na memória com a mesma vitalidade do primeiro dia, rara e bela enquanto se penteia à janela, para I Trionfi, tudo para ela, o Lamento do Mago e o meu apelo de paz diante de um mundo de aventureiros, a minha dor desse mundo no ser reluzente da amada, que traduzia os ruídos dissonantes de que a verdade não se encontra por aí, mas na profundeza da alma. Não tenho a capacidade de esquecer, vivi e vivo desde então o drama do grande amor: vivo nela e para ela na minha solidão com todos os seus fantasmas e sombras, titubeante diante do simulacro da realidade, enamorado eterno da mulher amada que habita viva todo meu coração. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo & mais aqui e aqui.

DITOS & DESDITOS: [...] A paixão é essa forma de amor que recusa o imediato, foge do próximo, quer a distância e inventa-a de acordo com as necessidades, para melhor se ressentir e exaltar. Esta definição abrange a maior parte dos verdadeiros romances, embora eu não aceite de modo nenhum as melhores obras que foi estabelecido incluir neste género literário, pois, independentemente da sua qualidade enquanto arte, da sua notoriedade ou do seu alcance humano, incluo apenas obras onde transparece, dominador, o arquétipo medieval de Tristão. [...]. Trecho extraído da obra Os mitos do amor (Horizonte, 2001), do escritor e ambientalista suíço Denis de Rougemont (1906-1985). Veja mais aqui.

DOIS PERDIDOS NUMA NOITE SUJA – [...] II ATO (Pano abre, vão entrando Tonho e Paco. O primeiro traz um par de sapatos na mão nos bolsos, as bugigangas roubadas. Está bastante nervoso. Paco traz um porrete na mão e está alegre.) PACO— Belo serviço. TONHO— Você é um miserável! PACO— Não começa a encher o saco. TONHO — Não precisava bater no cara. PACO — Bati e pronto. TONHO — Agora a polícia vai pegar no teu pé. PACO — Os tiras não sabem quem foi. TONHO — O sujeito que levou a porrada sabe. PACO — Ele está estarrado. TONHO — Vai sarar e te entrega. PACO — Que nada! Aquele se acabou de vez. TONHO — Deus queira que não. PACO — Poxa, meu! Naquele nem Deus dá jeito. Mandei o desgraçado direto pras picas. TONHO — E a mulher? Esqueceu da mulher? PACO — Que tem ela? TONHO — Ela também viu seu focinho. PAGO — E daí? Eu também vi o dela. TONHO — Ela te entrega pros tiras. PACO — Eu quero que ela se dane. Ela não sabe onde eu moro. TONHO — Ela descreve o seu tipo e a polícia te acha. PACO — Poxa, tira não é bidu. Não acham ninguém. TONHO — Não, é? Quero ver quando eles te pegarem. PACO — Não me aporrinha, seu! A mulher tinha cara de fuinha, deve ser uma burrona. De corpo ainda quebrava um galho. Mas de cara era um bofe. Não vai descrever ninguém. TONHO — O único sabido é você. PACO — Eu sou mesmo. TONHO — Espera pra ver. Vai em cana direto. PACO — Se eu for em cana, quem se estrepa é você. TONHO — Quem dernibou o cara é que se dana. PACO — E foi legal pra chuchu. Poff... E o cara caiu que nem um balão apagado. TONHO — Podia ser muito fácil. Não precisava bancar o valente. PACO — Bancar o valente, o cacete! Dei pra valer. Sou mau paca. Pra mim, não tem bom. Você viu no parque. O cara se fez de besta, tomou o dele. TONHO — O cara não fez nada. Tomamos o que queríamos, era só vir embora. Não precisava bater. PACO — Bati. E daí? Vai se doer por ele? TONHO — Eu, não. Mas a polícia vai. PACO — Você me torra o saco com essa história de polícia. TONHO — Natural. PACO — Natural o quê? Você está é cagado de medo. TONHO — Claro. Eu não quero ser preso. PACO — Cadeia foi feita pra homem. TONHO — Não pra mim. PACO — Você é rôelhor que os outros? TONHO — Eu estudei. PACO — Bela merda! Pra levar a vida que você leva, tanto faz estar preso ou solto. (Pausa.)E tem um negócio: Se um cara fresco como você vai em cana, está perdido e mal pago. A turma se serve às tuas custas. Logo vira a Boneca de todos. Mas disso acho que você vai até gostar, porque é bicha mesmo. TONHO — Tomara que a polícia te pegue logo. PAGO — Já te falei que se me pegarem o azar é seu. TONHO — O meu negócio é leve. Uns três meses. Agora você fica apodrecendo lá. PACO — Não sei por que eu vou ficar mais tempo que você. TONHO — Eu sei. Você usou violência. É perigoso. Fica guardado. PACO — Você é o chefe. TONHO — Quem tem chefe é índio. PACO — No assalto do parque você era o chefe. TONHO — Não era chefe de coisa nenhuma. PACO — Claro que era, poxa! Você ficou aí berrando um cacetão de tempo: (Imita Tonho.) Eu é que mando! Eu é que mando! Na minha terra quem manda é o chefe. T0NHO — Canalha! PACO — É a mãe. TONHO — Nojento. PACO — Nojento é você, que quer tirar o ló da seringa. (Pausa.) TONHO — Deus queira que você não tenha machucado muito o cara. PACO — Não fica secando. Aquele morreu e fim. TONHO — Você quer que o cara morra? PACO — Claro, poxa! A porrada que dei foi pra matar. TONHO — Você é um animal. PACO — Vá à merda! [...]. Trecho do segundo ato da peça teatral Dois perdidos numa noite suja (Global, 2003), do dramaturgo, ator, escritor e jornalista brasileiro Plínio Marcos (1935-1999), escrita em 1966 e adaptada para o cinema por duas vezes, a primeira em 1970, dirigida por Braz Chediak, e, a segunda, dirigida por José Joffily, em 2002. O texto é inspirado no conto O terror de Roma, do escritor italiano Alberto Moravia. Veja mais detalhes aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
O que você vê nas minhas fotos é que eu não tinha medo de me apaixonar por essas pessoas. Deve haver confiança no que se acredita. Se você se divide e tenta agradar a todos, é impossível. Não acredito na ideia de que você captura as pessoas quando as fotografa. O que faço é tirar um pedacinho delas. Se não tivesse a minha câmera para me lembrar constantemente que estou aqui para fazer isto, teria descarrilado, penso eu. Teria esquecido a minha razão de existir.
ANNIE LEIBOVITZ - A arte da fotógrafa estadunidense Annie Leibovitz, companheira da escritora Susan Sontag que se notabilizou por realizar retratos cuja marca é a colaboração íntima entre a retratista e retratado. Veja mais aquiaqui.

A OBRA DE RUMI
Nossa maior grandeza está na suavidade e ternura de nosso coração...
A do poeta, jurista e teólogo sufi persa Mawlānā Jalāl-ad-Dīn Muhammad Rūmī (1207-1273) aqui e aqui.
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LAURA DE PETRARCA
Bendito seja o dia, o mês, o ano,
A sazão, o lugar, a hora, o momento,
E o país de meu doce encantamento
Aos seus olhos de lume soberano.
E bendito o primeiro doce afano
Que tive ao ter de Amor conhecimento
E o arco e a seta a que devo o ferimento,
Aberta a chaga em fraco peito humano.
Bendito seja o mísero lamento
Que pela terra em vão hei dispersado
E o desejo e o suspiro e o sofrimento.
Bendito seja o canto sublimado
Que a celebra e também meu pensamento
Que na terra não tem outro cuidado.
LAURA NOVES – A bela e jovem condessa Laura Noves (1310-1348), foi o grande amor da vida do poeta italiano Francesco Petrarca (1304-1374). Para ela, ele inventou o soneto e escreveu mais de três centenas deles e mais de duas dúzias de canções, reunidos nas suas obras Canzoniere e Trionfi. Veja mais aqui, aqui & aqui.

AMIGOS DA BIBLIOTECA
Nesta quarta teve realização mais uma reunião de andamento do grupo associativo Amigos da Biblioteca. Desta feita, debateram o professor e poeta Janilson Sales com o diretor da Biblioteca Fenelon Barreto, João Paulo Araújo, acerca da criação da comissão provisória que comandará o processo instituidor para constituição estatutária. Veja mais aqui, aqui e aqui.


quinta-feira, agosto 30, 2018

PETRARCA, CAIO ABREU, ADRIANA CALCANHOTO, HABERMAS, VATTIMO, ALDEMIR MARTINS, PESQUISA & ZEBEDEU


O BOI DE ZEBEDEU - Imagem: arte do ilustrador, pintor e escultor Aldemir Martins (1922-2006). - Foi assim: numa manhã ensolarada de sábado estival, apareceu Zebedeu todo enfeitado de tampas, botões, moedas, adereços e outros brebotes reluzentes apregados no gibão e no chapéu de vaqueiro, exaltando o boi Glorioso que mugia acompanhando a sua cantoria. Ele danou-se a embolar coco, puxando firme na versejada, de ajuntar gente para acompanhar o apólogo de interminável falação desde cedinho até a noitinha. Cantava ele a majestade miraculosa do animal, das peçonhas que inoculara, das doenças que curara, das mortes que ressuscitara, das vidas que salvara, afora outras tantas espetaculares virtudes, adivinhações e medicações do afamado bovino que ali estava comendo flores, todo ornado de fitas do pescoço à cauda. Todo sábado ali, já era costume. Vez por outra aparecia uma empreitada: um menino com febre braba, quase desfalecido de tão franzino, com maleita incurável. Zebedeu não teve dúvida, foi só chegar nas orelhas do Glorioso e cochichar, do bicho levantar-se e derramar uma mijada estrondosa numa vasilha ali colocada. Ele pegou do mijo, entregou num frasco providenciado e entregou à mãe aflita. Quanto é? Sábado que vem, se o menino tiver curado, traga só um dicomer pra saciar a fome da gente. Assim foi. E no sábado seguinte, a genitora do restabelecido, chegou toda ancha a lhe dar de não sei quantas galinhas, preás, perus e uma marmita com o melhor que havia de cosido na sua casa, afora um molho de mato do bom para alimento do santificado animal. A multidão curiosa aplaudia e presenciava mais uma divina intervenção dele. Logo apareceu outra senhora abalada com o reumatismo de um ancião acamado de meses, morre mas num morre, Zebedeu prontamente, cochichou na orelha dele que levantou-se, deu uma cagada esparramada que recolhida num recipiente na hora, recomendou fazer uma garrafada pro enfermo incruado tomar em jejum por três dias encarreados. Quanto é? Sábado que vem, se o seu pai estiver curado, traga só um dicomer pra matar a fome da gente. Assim se repetiu. Na semana seguinte, estava ela toda às risadagens com presentes e mais brindes pro cantador e pro salvador bicho. Ficou curado? Oxe, bastou tomar dois dias da garrafada em jejum, como o senhor mandou, e logo ficou bonzinho da silva, olhele aqui, espie! Era salva de palmas! O ancião de tão bom estava aos pulos. Assim era, aparecesse a bronca que fosse de saúde ou de maus espíritos, era só usar de raspas do chifre, tacos das patas, sebo da bimba, pingo do suor dos bagos, cabelo do rabo, catota da venta, meleca dos olhos, gozo da punheta, tudo milagroso, um santo remédio. O paciente que fizesse uso, morto que tivesse num sepultamento, tornava vivinho na hora! Se tivesse desaparecido desenvultava no instante! Escondido reaparecia, desencantado tomava gosto na vida, raquítico engordava, cego via, aleijado andava, adoecido sarava e assim por diante. Por conta disso, juntava gente, a maior romaria de penitentes e retirantes, e o boi obrando milagres pra cima e pra baixo. Até as vacas namoradeiras ficavam flertando o milagreiro. Descuidou-se, oxe, estava lá ele amontado nos quartos duma faceira, tanto é que os bezerros é tudo famigerado: Jauaraicica, Pintadinho, Serapião, touro Rei, Espácio, até as vacas Mordaça e a Estrela do boi Fubá, tudo cantado em folhetos de cordel de todas as espécies de cantadores e repentistas de norte a sul, leste a oeste do Nordeste desse Brasilzão véio, arrevirado e de porteira escancarada. Certo dia, vinha ele pelas quebradas se dirigindo pra feira da cidade mais próxima, quando o boi amuou no meio da rodagem. Que é que é isso, Glorioso? O povo está lá esperando a gente pra novas ações, vamos que vamos. E o boi nada de se desapregar do chão, ronceiro, acanhado. Que é que tá havendo? E o Glorioso todo desconfiado, nada de se arrastar pra canto nenhum. Assim demorou-se. Lá longe já vinha o povaréu crente impaciente e requerente descendo a ladeira: Cadê o boi, homem? Ah, Glorioso está cheio de pantim. Conversa vai e vem, e agora? Tá todo mundo lá na feira esperando pras sessões! Nessa hora, o boi, assim do nada, deu um carreirão de se perder na poeira mato adentro. O povo atrás, pé na bunda. Correram chão que só, quando avistaram lá na beira do brejo uma criança inocente brincando e prestes a ser atacada por uma cobra Pico-de-jaca. A peçonhenta surucucu estirada em “S” com mais de metros, vibrava a cauda no chão, parecia mais que cuspia fogo, armou o bote e a cabroeira toda só: Valha-me, Deus! O boi travou-se com a surucucu e levou picada até umas horas, da gente só ver o boi gemendo e cheio de bolhas onde a danada mordia. Foi um combate feroz da poeira comer no centro. Lá pras tantas, enfim, a criança sorria salva e o boi caiu com a serpente enrolada nele: morreram os dois. O boi santificado começou a levitar aureolado e saiu voando, ascendendo aos céus para nunca mais. Lá se foi o santo Glorioso! PS: recriação recolhida da obra Sertão do Boi Santo (Clube do Livro, 1968), do escritor Paulo Dantas (1922-2007). © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais  aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música da cantora e compositora Adriana Calcanhoto: Senhas, Loucura, Micróbio Vivo & Público & muito mais nos mais de 2 milhões & 600 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Porque a violência social dos capitalistas se institucionaliza na forma do contrato particular de trabalho como relação de troca, e a compensação da mais-valia privadamente disponível ocupou o lugar da dependência política; o mercado, além da sua função cibernética, assume uma função ideológica: a relação de classe pode, na forma apolítica da dependência salarial, assumir uma forma anônima. [...] Trecho extraído da obra A crise de legitimação do capitalismo tardio (Tempo Brasileiro, 1980), do filósofo e sociólogo alemão Jürgen Habermas. Veja mais aqui.

MORTE DA ARTE – [...] é aquela que de fato já vivemos na sociedade da cultura de massa, em que se pode falar de estetização geral da vida na medida em que a mídia, que distribui informação, cultura, entretenimento, mas sempre sob critérios gerais de beleza (atração formal dos produtos), assumiu na vida de todos um peso infinitamente maior do que em qualquer outra época [...]. Trecho extraído de O fim da modernidade: niilismo e hermenêutica na cultura pós-moderna (Martins Fontes, 1996), do filósofo italiano Gianni Vattimo. Veja mais aqui e aqui.

ONDE ANDARÁ? - [...] Uma loura cinquentona, com muitas joias douradas e um vestido decotado imitando onça, debruçou-se na máquina quando passei. Poderia ser vulgar, mas qualquer coisa no pescoço esticado demais e nos ombros rígidos, jogados para trás, revelava certa aristocracia. Quem sabe uma recém-divorciada tentando começar de novo, uma ex-bailarina russa fascinada pelos trópicos e obrigada a fazer sórdidas traduções para sobreviver. [...] Antes que eu pudesse discar, ela estendeu sobre a mesa a mão cheia de anéis e longas unhas escarlates. – Prazer – disse, sem nenhum sotaque russo. Ao contrário, com suas vogais abertas soava levemente baiano. – Sou Teresinha O’Connor. – Teresinha como? – O’Connor – ela repetiu, caprichando na pronúncia – De origem irlandesa, sabe? Sou cronista social. Quando tiver alguma nota, você me passa? Pessoal que lida com arte sempre tem. – Pode deixar – eu disse. E comecei a discar. [...] Até encontrar um táxi, passei por dois anões, um corcunda, três cegos, quatro mancos, um homem-tronco, outro maneta, mais um enrolado em trapos como um leproso, uma negra sangrando, um velho de muletas, dias gêmeas mongoloides, de braço dado, e tantos mendigos que não consegui contar. A cenografia eram sacos de lixo com cheiro doce, moscas esvoaçando, crianças em volta. [...]. Trechos extraídos da obra Onde andará Dulce Veiga (Nova Fronteira, 1990), do escritor, jornalista e dramaturgo Caio Fernando Abreu (1948-1996). Veja mais aqui e aqui.

TRIUNFO DA MORTE - Aquela bela dama e gloriosa, / Que hoje é nu 'spírito e pouca terra, / E foi alta coluna e valorosa; / Tornava com grande honra de sua guerra, / Deixando já vencido o grande inimigo, / Que com seu doce fogo o mundo aterra. / Não com mais armas que respeito altivo, / Honestidade em rosto e pensamento, / Coração casto e de virtude amigo. / Grande espanto era ver tal vencimento, / As armas d'amor rotas e desfeitas, / E os vencidos dele em mor tormento. / A bela dama e as outras eleitas / Se vinham gloriando da vitória, / Em bela esquadra juntas e restreitas. / Poucas eram, que rara é vera glória, / Mas dinas, da primeira à derradeira, / De claríssimo poema e de história. / Traziam, por insígnia, na bandeira / Em campo verde um branco armelino / D'ouro fino, e topazes a coleira. / Não humano, certamente, mas divino / Era o seu doce andar, e o que diziam: / Ditosa é a que nasce a tal destino. / Estrelas e sol em meio pareciam, / Em cujo resplendor o seu consiste; / De rosas coroadas todas iam. / Como nobre coração que honra aquiste, / Cada uma em sua virtude se alegra, / Quando outra insígnia vi escura e triste, / E uma fera dona em veste negra. / Com tal furor, qual eu não sei se atrás, / No tempo dos gigantes fosse em Flegra. / Chamou, e disse: donzela, tu que vás / De beleza e virtude alterada, / De tua vida o termo não saberás? / Eu sou a importuna acelerada, /Chamada de vós, gente surda e cega, / A quem morte vem antecipada. / Eu sou a que matei a gente grega / E troiana, e no último os romãos, / Que todos minha foice corta e cega. / Não deixo povos gentios nem cristãos, / Chego quando por mim menos se espera, / Atalho mil pensamentos, todos vãos. / E a vós, quando mais ledo o viver era, / Endereço meu curso, antes que a fortuna / Misture em vossa doce a sua fera. / Já nestas tu não tens razão alguma, / E em mim pouca, que em minha morte, / Respondeu a que no mundo foi uma, / Outrem sei a quem mais dura é a sorte, / Cuja vida do meu viver depende, / Que o morrer, quanto a mim, será deporte. / Qual é quem grave coisa e nova entende, / Ou vê o que no princípio não lembrou, / E ora se maravilha, ora resprende. / Tal foi a cruel; e depois que cuidou / Um pouco em si, disse: bem conheço eu / Se dá o meu golpe em cheio ou se errou. / Depois, com melhor / semblante e menos seu / Disse: tu que a fremosa esquadra guias, / Inda não experimentaste o tosco meu. / Mas, se de meu conselho algo te fias, / Que forçar te posso: por melhor se tem / Fugir velhice e os seus tristes dias. / Eu sou disposta a te fazer um bem / Que não costumo; e é que tua alma vá / Sem aquele medo e dor que a morte tem. / Como apraz ao Senhor, que em cima está, / E rege o céu, e a terra, e o abisso, / Farás de mim o que dos outros será. / Em respondendo assi, eis d'improviso / De mortos se cobriu toda a campanha, / De multidão que excede o humano siso. / A índia, o Cataio, África e Espanha, / Tudo estava coberto até os extremos / Daquela infinita turba manha. / Entre eles, os que por felices temos, / Pontífices, e reis, e imperadores, / Que ora são nus e pobres, como vemos. / Que foi de suas riquezas e primores? / Dos ceptros e vestiduras reais? / Das mitras e das purpúreas cores? / Triste o que a esperança põe em bens mortais! / Mas quem a não põe? Que se depois se achar / Enganado, o remédio é por demais. / Ó cegos que aproveita o afadigar? / Que logo vos tornais à madre antiga, /E muito pouco o vosso nome há-de durar. / E se alguma há, entre vós, útil fadiga, / Ou se são todas puras vaidades, / Qual mais souber de vós esse mo diga. / Que val ganhardes reinos e cidades, / Fazerdes tributárias muitas gentes, / Forçardes nações livres e vontades? / Que achais nessas vitórias eminentes? / Trocar sangue por terra e por tesouro? / Melhor sabe na paz aos prudentes / O pão e água no pau, que a vós no ouro. / Mas por não prosseguir tão longo tema / Acabarei, e a meu lavor me torno. / E digo que já era na hora extrema / Aquela breve vida gloriosa, / No passo em que nenhum há que não trema. / Com ela estava outra valerosa / Companhia de donas, que esperava / Saber se alguma morte há piedosa. / Atentas eram quantas ali estavam / A contemplar o fim que ela fazia, / Que tal convém fazer aos que acabam. / Estando assi a nobre companhia, / Da loura cabeça, morte lhe cortou, / A trança que seus cabelos tecia. / Assi do mundo a mais bela flor levou, / Não por ódio, mas por mais cedo mostrar / Que para reinar na glória se criou. / Tristes prantos e querelas ouvi dar, / Sendo os seus belos olhos já enxutos, / De cujo nome me soía abrasar. / Entre gritos e lágrimas e lutos / Estava ela só leda e calada, / De seu casto viver colhendo os frutos. / Vai-te em paz, alma bem- aventurada, / Diziam, e era assi; mas nada val / Contra a morte cruel e acelerada. / Que será de nós? Pois esta que era tal / Ardeu em tão breve tempo e acabou / falsa e cega esperança humanal / Se de lágrimas a terra se banhou, / Com piedade daquela alma gentil, / Sabe-o quem o viu e experimentou. / Na hora prima do dia sexto d'Abril, / Em que fui preso a morte me desatou; / Que assi muda fortuna o seu estilo vil. / Quem de dura servidão mais se queixou, / Ou da morte, como eu da liberdade / E da vida, que sem ela me ficou? / Devido era ao mundo e à idade / Não preceder a da véspera ao da prima, / Nem tirar-se-lhe a ele a dignidade. / Qual fosse a sua dor que não se estima / Ousado só a cuidá-lo eu não seria, / Quanto mais a escrevê-lo em prosa ou rima. / Acabada é a virtude e a cortesia / Se ouvia lamentar junto do leito / Pelas donas e amigas que ali havia. / Quem verá mais em dama auto perfeito, / Quem ouvirá seu falar de saber cheio, / E a voz de tão suave deleito? / O espírito, por deixar o doce seio / Com todas as virtudes, anojado, / Fazia em toda a parte o ar sereio. / Nenhum dos adversários foi ousado / De aparecer ali com vista escura, / Até que a morte o assalto houve acabado. / Deposto já o medo e a tristura, / Ao belo rosto cada uma olhava, / Por desesperação feita segura. / Não como chama, que por força acaba, / Mas que por si se gasta e consume, / Se foi dentre nós a que o mundo ornava. / A modo de um suave e claro lume, / A que falta sustância e nutrimento, / a Que no fim tem usado costume; / Mais alva que a neve que sem vento / Em gracioso campo se vê cair, / Estava ela no fim do passamento. / Quase em belos olhos um doce dormir, / Sendo o espírito já partido dela! / Parecia o seu morrer o ressurgir, / E o seu lindo rosto morte bela! Poema extraído da obra Triunfos (Hedra, 2006), do escritor, intelectual humanista e filosofo italiano Francesco Petrarca (1304-1374). Nesta obra, conforme a escritora Gertrudre Moakley (1905-1998) e recolhido da obra Jung e o tarô: uma jornada arquetípica (Cultrix, 1980), de Sallie Nichols, cada uma de uma série de personagens alegóricos combate e vence o seu predecessor, adaptando as ilustrações dos poemas do autor para a sua amada Laura, dividindo-a em seis partes: Triunfo do Amor, Triunfo da Castidade, Triunfo da Morte, Triunfo da Fama, Triunfo do Tempo e Triunfo da Eternidade. Nesses poemas o amor vence todos os homens, inclusive o próprio poeta, no entanto, é derrotado por Laura, que se vale da castidade. Ela comemora sua vitória, mas ainda precisará enfrentar a Morte, e ser eternizada pela Fama e pelo Tempo, que por fim são vencidos pela Eternidade, o reino de Deus, último Triunfo. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do ilustrador, pintor e escultor Aldemir Martins (1922-2006). 
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quarta-feira, fevereiro 14, 2018

SONETOS DE PETRARCA, CROCE, CARLOS NEJAR, RADAMÉS GNATTALI, ZUENIR VENTURA, MATSUURA, NATALIE CLEIN, PRADIER, DEVENDRA BADIGER & JORDAN MATTER

DE CINZAS, SIMULACROS & PRÓTESES – Imagem: arte do artista plástico indiano Devendra Badiger. - UMA: CINZAS & CARNAVAL – Ih, passou! Ainda ontem era sexta-feira, como é que pode? Dia comprido danado, repleto de afazeres, estresse, broncas, já estava por aqui: do gogó pras pestanas, tudo esborrando. Ou acabava a sexta, ou morria eu, ora! Já de saco estourado, nervos à flor da pele, toda pilha, e o dia nem passava, parecia mais emperrado de quase chegar amanhã e o de hoje nem sinal de terminar. Ou será que o relógio estava tramando suas trapaças com ardis de parar o tempo pra me matar do coração. Isso é que é maçada, coisa mais chata. Ah, vai ser chega pra lá até o dia emborcar e os ponteiros bater as dezoito badaladas! Depois de uma eternidade, coronárias por um fio, paciência já era, finalmente, fim do expediente. Ufa! É só jogar as gravatadas todas afrouxando as coisas e correr pro frevo e folia até quarta! Avisa lá! Fui! Timbungue! E comer tudo, beber demais, tudo pra puta que o pariu que nada mais, nem lei, nem ordem, só o que der na telha e seja lá o que Deus quiser! Viva o hedonismo! Timbungo, timbungar! Ué? Cadê o sábado que estava aqui? Botem de volta o domingo que nem vivi, faz favor! Votê! Engalobaram a segunda também, que coisa! Roubaram a terça, foi? Vôte! Quem foi que inventou que hoje é quarta, hem? Ninguém me disse nada, nem me avisaram, ora. Não vale, oxe, pode trazer tudo de volta, ou chama o Superman para restituir nossa dignidade, fazendo o mundo rodar até à meia noite da sexta e recomeçar tudo de novo que não vi nada. Também sou filho de Deus, mereço tudo de novo. Onde já se viu uma coisa desta! Quero meu carnaval de volta e avisem pro Bacalhau do Batata pra ele aparecer só na semana que vem! Ora, ora. Tá pensando o quê? Simbora! Arrocha putada! DUAS: NEM TUDO QUE BRILHA É OURO, NEM TODA FEIÚRA É TREPEÇA – Toda vez que vejo cenas das Paraolimpíadas, aprendo mais uma lição: como é bonita a superação! Sempre fico com a impressão de que a gente pode tudo e muito mais, isso eu sei. Tirante os preconceitos e discriminações - esses achaques dos frascários metidos a besta, que tanto sacodem qualquer um pras sarjetas -, aplaudo de pé todos aqueles que dão a volta por cima, renascendo das cinzas para brilharem por sua própria luz, enquanto os certinhos conspiradores morrem de inveja. Parece mais trama de novela da tevê, né não? Pois é, enquanto o que tem de bonitão eloquente e bem trajado aplicando golpe não está nem no gibi nem nas estatísticas, também vivem montados nas suas próteses: bengalas, pererecas, automóveis, óculos, aviões, bicicletas, relógios, etcétera, etcétera. Afora as cirurgias estéticas corrigindo o que os chateiam, quando não o nome, os documentos, a cara toda, a personalidade, o esqueleto e as frescuras. Pois é, o engodo é mais embaixo. Tem gente que mente até pra si mesmo e não desancam o rei na barriga: vai ali e, ao voltar, tudo novinho em folha, outra pessoa, o sonho do ideal. E o real onde é que fica? Igualzinho à moeda: engana que é dólar ou outra que valha, e se desvalorizando às escondidas, senão às claras e nem aí. Quantas máscaras pras ocasiões e situações, quase um Dorian Gray do Wilde e só pro espelho mostrar o que quer ver, e só, mais nada. Gente que se vende de rei e nem percebe que está nu e destronado. Gente que se acha o suprassumo e caiu no risível folclórico. Tem gente que não se enxerga mesmo, só no barrunfo e reiteração pra se autoconfirmar! Entre tantos simulacros já vi gente escondida na sua própria ilusão de seres com coração plástico e sangue de barata. O mundo tem cada uma e dá tanta volta! TRÊS: O HOJE É AMANHÃ E ONTEM – Já dizia Marcos Accioly no seu trabalho épico pelo pesadelo da história, recorrendo à memória dos temperamentos literários: Latinomérica. As cenas de agora emergiram dos pensamentos e imaginações: planos, projetos, hipóteses e checagens, objetivos e metas. Eu mesmo pés pelas mãos, ando no chão pelas nuvens, trancas, presilhas, ferrolhos e cadeados, recatos e percalços, raízes pros frutos, poeiras pro chão, buracos e grutas são descobertas, ladeiras pra subir e descer, entre avisos, acenos, horas e ventos, mesmo que não me banhe duas vezes nas mesmas águas, há sempre o retorno e recomeçar. Misturo notícias com retratos, previsões com fatos, o futuro com antiguidades. De tanto passar nunca cheguei. Só vai porque foi, dizem ou não, fechou o que abriu para abertura do que estava fechado: a chuva estiou, o calor das tempestades. A pressa de quem demora, encontro de quem espera. Eu rio e a foto da pose, eu canto e o som gravado, voo o que já fui, sou o que tinha sido e serei, essa a encruzilhada: enigmas que peno por desvendar. Nunca é tarde porque será, o cedo que se distanciou do que vem ao que passou. Sempre assim, entre o privilégio da gratuidade e o pagamento de alto preço, pelas esquinas, correntes, abismos e imensidões. Tudo fizera pra que um melhor amanhã começasse agora, neste momento. E me perco em meus próprios labirintos, confissões que não medem as batidas do coração. Cada qual luzeiros e escuridões. Eu era e não sou, serei o que fui. Assim sou, amém e amem. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá é dia de especial com a música do maestro, instrumentista e compositor Radamés Gnattali (1906-1988): Sonfonia popular, Retratos & Choros para piano solo; da violoncelista britânica Natalie Clein: Concert nº 1 de Saint-Saens, Concert in C major de Haydn & Sonata in G minor de Rachmaninov; & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. 

PENSAMENTO DO DIA – [...] é indispensável realizar uma grande, profunda e duradoura mudança de atitudes, uma mudança de comportamentos. E mudar as atitudes e os comportamentos das pessoas não é impossível, porém nunca é fácilExtraído de La Unesco y la idea de humanidade (Unesco, 2004), do advogado e economista Koichirō Matsuura.

A ARTE & O SER HUMANO - [...] em cada palavra de poeta, em cada criança de sua fantasia, está todo o destino humano, todas as esperanças, as ilusões, as dores, as alegrias, as grandezas e as misérias humanas, o inteiro drama do real, que acontece e cresce continuamente sobre si mesmo, sofrendo e alegrando-se [...]. Trecho extraído da obra Breviário de estética (Ática, 1997), do filósofo, historiador e escritor italiano Benedetto Croce (1866-1952). Veja mais aqui.

ISTO É BRASIL –[...] De um país em crise e cheio de mazelas, onde, segundo o IBGE, quase um quarto da população ganha R$ 4 por dia, o que se esperaria? Que fosse a morada de um povo infeliz, cético e pessimista, não? Não. Por incrível que pareça, não. Os brasileiros não só consideram seu país um lugar bom e ótimo para viver, como estão otimistas em relação a seu futuro e acreditam que ele se transformará numa superpotência econômica em cinco anos. Pelo menos essa é a conclusão de um levantamento sobre a "utopia brasileira" realizado há pouco pelo Datafolha. Esse instituto já em 1997 constatara, em outra pesquisa também nacional, que o brasileiro era feliz com a vida que levava. [...]. Trecho extraído de Retrato do Brasil quando ainda jovem (Revista Época, 2010), do jornalista e escritor Zuenir Ventura.

O TÚNEL PERFEITO – [...] Estarei esvaindo a memória. Ou a memória que se vai estreitando com os espaços de viver? Queria ir onde nenhum homem foi antes. Mas jaziam amontoadas e encardidas as imagens. Como nos lembrarão? Resistia. Ao redor, escombros. O que me basta é a toca. Tem a conformação dos direitos, deveres. Brasas e estão desativadas? Frutos voltam à flor. E a morte envelhece devagar. [...] O paraíso é cair devagar na madureza. E madurar a polpa. Nua, nua é a morte. Não posso ir além da eternidade. Cairei, cairei. Com o fragor de cântaros quebrados. O que aparece, pode se extinguir. Mesmo o vento. Um dia acordarei e a luz será diferente. Em alta rotação. Água de poço cintilando n’água. Entrarei na vida para dentro. Olharei e não haverá mais Túnel. Apodrecido em suas colunas. Murchou o mar e o monte que gorjeava. O Túnel fora. Pedras e pedras desabando. Desmoronou o tempo. O Túnel mudo. E eu ressuscitando na palavra. Trechos extraídos da obra O túnel perfeito (Relume Dumará, 1994), do poeta, ficcionista, tradutor e crítico literário Carlos Nejar. Veja mais aqui, aquiaqui.

SONETOSI - E amor não é qual é este sentimento? / Mas se é amor, por Deus, que coisa é a tal? / Se boa por que tem ação mortal? / Se má por que é tão doce o seu tormento? / Se eu ardo por querer por que o lamento / Se sem querer o lamentar que val? / Ó viva morte, ó deleitoso mal, / Tanto podes sem meu consentimento. / E se eu consinto sem razão pranteio. / A tão contrário vento em frágil barca, / Eu vou para o alto mar e sem governo. / É tão grave de error, de ciência é parca / Que eu mesmo não sei bem o que anseio / E tremo em pleno estio e ardo no inverno. II - Longe de Laura inveja a região que a possui / Nem ave em ninho ou fera em selva obscura / Houve triste como eu no apartamento / Desde que se afastara o encantamento / Do sol que o meu olhar sempre procura. / Tenho o pranto por única ventura, / É dor o riso e absinto o mantimento, / E eu vejo turvo o claro firmamento, / E o leito é campo de batalha dura. / O sono é na verdade qual se diz / Irmão da morte e o peito nosso priva / Deste doce pensar que sempre o aviva. / Só no mundo felice e almo país / Verdes ribas e flórido recanto, / Vós possuís o bem que eu choro tanto. III - Se a minha vida do áspero tormento / E tanto afã puder se defender, / Que por força da idade eu chegue a ver / Da luz do vosso olhar o embaciamento, / E o áureo cabelo se tornar de argento, / E os verdes véus e adornos desprender, / E o rosto, que eu adoro, empalecer, / Que em lamentar me faz medroso e lento, / E tanta audácia há de me dar o Amor, / Que vos direi dos martírios que guardo, / Dos anos, dias, horas o amargor. / Se o tempo é contra este querer em que ardo, / Que não o seja tal que à minha dor / Negue o socorro de um suspiro tardo. VIII - Ó Pai, depois dos dias ociosos, / Depois das noites a velar em vão, / Com este anseio no meu coração, / Mirando os atos por meu mal viçosos, / Praza-te, ó lume, que a outros mais formosos / Caminhos e a mais bela ocupação / Eu me volte, fugindo à dura ação / Do inimigo e aos seus meios cavilosos. / Dez anos mais um hoje faz, Senhor, / Que me vi submetido à tirania / Que sobre o mais sujeito é mais feroz. / Piedade tem do meu não digno ardor, / Conduz meu pensamento a melhor via, / Lembra-o de que estiveste numa cruz. XXXII - Quanto mais perto estou do dia extremo / Que o sofrimento humano torna breve, / Mais vejo o tempo andar veloz e leve / E o que dele esperar falaz e menos. / E a mim me digo: Pouco ainda andaremos / De amor falando, até que como neve / Se dissolva este encargo que a alma teve, / Duro e pesado, e a paz então veremos: / Pois que nele cairá essa esperança / Que nos fez delirar tão longamente / E o riso, e o pranto, e o medo, e também a ira; / E veremos o quão frequentemente / Por coisas dúbias o ânimo se cansa / E que não raro é em vão que se suspira. CLXXXIX - Vai o meu barco, cheio só de olvido, / À meia noite, ao árduo mar, no inverno, / Entre Cila e Caríbdis; e ao governo / Vê-se o senhor, melhor: meu inimigo. / A cada remo um pensar atrevido / Parece rir à vaga e ao próprio averno: / Rompe as velas um vento úmido, eterno / De esperanças, desejos e gemidos. / Chuva de pranto, névoa de rancor / Afrouxa e banha os cabos extenuados, / De ignorância trançados e de error. / Foge-me o doce lume costumeiro, / Razão e engenho da onda são tragados; / E eis que do porto já me desespero. CXC - Uma cândida cerva me surgiu / sobre o verde gramado – os cornos de ouro –, / entre dois riachos, à sombra de um louro, / na estação fria, mal o sol se abriu. / Tão doce em mim tal vista se imprimiu, / que por segui-la toda lida ignoro, / como o avarento em busca de um tesouro, / tanto assim meu tormento se evadiu. / Ninguém ouse tocar-me” – escrito havia / no colo, entre topázios e diamantes, / “que eu fosse livre César ordenou”. / Já o claro sol chegava ao meio-dia, / quando eu, de olhos absortos, ignorantes, / escorreguei para a água, e ela escapou. CCXXXIV - Ó minha alcova, que já foste um porto / Às tempestades que cruzei diurnas, / Fonte agora de lágrimas noturnas, / Que no dia, por pejo, ocultas porto; / Ó leito, onde encontrei paz e conforto / De tanta mágoa, que dolentes urnas / Sobre ti verte o Amor com mãos ebúrneas, / Só para mim crueza e desconforto! / Porém do meu retiro e do repouso / Não fujo, mas de mim e do pensar, / Que tanta vez segui num devaneio; / E em meio ao vulgo adverso e inamistoso / (Quem diria?) refúgio vou buscar, / Tal é de ficar só o meu receioPoemas do escritor, intelectual humanista e filosofo italiano Francesco Petrarca (1304-1374). Veja mais aqui.

AS ESCULTURAS DE PRADIER
A arte do escultor francês James Pradier (Jean-Jacques Pradier – 1790-1852);

Veja mais:
Nada melhor que a vida e viver além dos próprios limites, Umutina, a música de Antônio Nóbrega, a arte de Oskar Kokoschka & Mozart Fernandes aqui.
Maria Callas, Psicodrama, Gestão de PME, Responsabilidade Civil & Acidentes de Trabalho aqui.
Arte & Entrevista de Luciah Lopez aqui.
Psicologia Fenomenológica, Direito Constitucional, Autismo, Business & Marketing aqui.
Big Shit Bôbras, Zé Corninho & Mark Twain aqui.
Abigail’s Ghost, Psicologia Social, Direito Constitucional & União Estável aqui.
Betinho, Augusto de Campos, SpokFrevo Orquestra, Frevo & Rinaldo Lima, Tempo de Morrer, The Wall & Graça Carpes aqui.
O cinema no Brasil aqui.
Dois poemetos em prosa de amor pra ela aqui.
Agostinho, Psicodrama, Trabalhador Doméstico, Turismo & Meio Ambiente aqui.
Dois poemetos ginófagos pra felatriz aqui.
Discriminação Religiosa, Direito de Imagem, Direito de Arrependimento & Privacidade aqui.
A minissaia provocante dela aqui.
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O alvoroço dela na hora do prazer aqui.
Canção de Terra na arte de Rollandry Silvério aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do fotógrafo estadunidense Jordan Matter
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MARY OLIVER, ROSI BRAIDOTTI, VERONICA GORRIE & CHACRINHA

  Imagem: Acervo ArtLAM .   O segredo da brochura artesanal... - Uma fedentina tomou conta do lugar: Que fedor! De onde vem? Tem defunto...