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domingo, fevereiro 22, 2026

MARIANA ENRÍQUEZ, NILGÜN MARMARA, MARIANA MAZZUCATO & NEGRITUDE SEM IDENTIDADE

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som dos concertos Suíte Brasileira (2023) e Cantata Ayabás (2025), da maestra, pesquisadora, compositora e pianista Andréa Huguenin Botelho.

 


As viúvas do sobrado... - Adélia se sentia uma das Little Women de Alcott – a caçula entre as 4, antes 5, meninas órfãs do sobrado de Hermilo, a viver oniricamente vestida de flores, mansidão de pássaros, delicada juventude. E crescia viçosa, aformoseando-se a tal ponto de cair nas graças dum mulato estranho, logo apresentado como banqueiro Benedito. Desde então passou a suspirar pelos cantos e a ter sonhos com todo tipo de bicharada. Era vigiada pela centenária Viscondessa e a sua inseparável ama Bernarda, ocupando muito mais a matriarca que vivia tal Penélope de Ulisses – o marido combatente no Paraguai nunca mais voltou. Não demorou muito e logo o casal se estreitou de papel passado em ruidosa cerimônia e, a partir de então, o festivo foco das atenções naquela família de enlutadas. Com o matrimônio, o que mais a envaidecia era se tornar duas vezes Silva ao seu extensíssimo sobrenome aristocrático – ela reunia a extensa linhagem dos germânicos Guimarães, dos florentinos Cavalcantes, dos lusitanos Alves e agora senhora Silva dos ibéricos e mais um Silva acrescido: o do Biu banqueiro. Pouco mais de um mês depois da lua de mel, a tragédia: a matrona consolava a viuvez de todas as suas irmãs – escapou apenas Amélia, que faleceu antes de contrair núpcias. Lá estavam chorosas Amália, Anália e Adália abraçadas com Adélia, arrimadas pela genearca. As primeiras solidárias a chegarem para engrossar o plangente momento foram as amigas próximas da progenitora e lá estavam ao vivo e em cores no recinto, segurando os lencinhos e vestes escuras: a Catarina de Lencastre, Ana Plácido, a da Luz, a de Arcozelo e a de Cavalcanti. Logo providenciaram o velório ajudadas por inúmeras serviçais. Fraquejava ali Adélia sentindo na pele a árdua tribulação da Pelágeya de Gorki. E passou mal, logo a Bernarda chamou outra empregada: Pegaí o picão-do-padre! Foi um Deus nos acuda! Oxe! Trouxeram o chá calmante de cravo-de-defunto e as pálpebras destilavam prantos por seu saudoso marido. Mantinham os preparativos pro funeral e um entre e sai de gente, cochichos, horas de espera. De repente o alvoroço, a pompa fúnebre transformou o salão da casa numa câmara-ardente, repleta de flores e velas acesas, numa decoração religiosa. O corpo estava desfigurado e foi preciso quase dois dias para recompô-lo e, de tão remendado, teve de ser exposto num caixão lacrado – Ora, por que? Respeitava-se a dignidade do falecido, os presentes e, sobretudo, a garantia de segurança sanitária: ninguém sabia do que ele tinha morrido até então. E era pra enterrar logo, no mesmo dia; mas a Viscondessa determinou que só sepultaria no dia seguinte: Vai que ele ressuscita, hem? Mas já havia passado mais de 48 horas, exigência inútil, ela bateu o pé e assim foi. Adélia debruçou-se ao esquife, enquanto as madames iniciavam as exéquias como salvaguarda dum lugar especial no céu pro cadáver putrefato. Começava a vigília das orações, com mortificadas novenas, penitências, as excelenças ao pé do morto para que ele recebesse o perdão dos pecados e sua alma recomendada ao melhor lugar do paraíso: Uma incelença preste que se foi, duas pra onde irá... As cantadeiras imploravam clemência: Já é uma hora e ele vai, ele vai, vai ganhar a salvação... Duas horas e ele vai, vai, vai salvo pela extrema-unção...  Três horas... Era tudo muito enfadonho, as ladainhas, os pêsames para lá, choramingados para cá e lá pras tantas decidiram todas fazerem quarto ao defunto, de sentinela com tudo pronto para renderem as últimas homenagens, que, inclusive, logo foram suspensas com a invasão de autoridades que exigiam a necrópsia policial no IML, o boletim de ocorrência, o protocolo e todas as medidas de praxe, incluindo um furioso legista que queria abrir a fim da força o caixão para confirmar o corpo: era que o FBI, com agentes engravatados ali presentes, suspeitava de atentado comunista. Como pode? Ele foi encontrado quase-morto, de morrer no hospital. Não e pronto! Um impasse resolvido na marra, quando um agente grandalhão da CIA passou às mãos da anciã madrinha, o volumoso calhamaço capa dura com as inscrições: Ex Libris – Private/Top Secret. E foi chegando gente e uma situação bizarra foi tomando conta porque ali dava as caras o execrável vampiro golpista Miguelilulia – mais conhecido como o marido da Marcela, que logo topou com o Barão de Drummond e, com ele, a corriola toda  capitaneada pelo Pedro II, os Marechais das Alagoas, os generais da Velha e Nova Repúblicas, todas as patentes das Forças Armadas, Ministros das Supremas Cortes, coronéis de fitas e de mandos, desembargadores, deputados, senadores, chefes de Executivo, cardeais e arcebispos do Vaticano, integrantes disfarçados da Ndrangheta, Cosa Nostra, Yacuza, Los Zetas, Camorra e todos os COT, desde os albaneses, do cartel de Sinaloa, da tríade chinesa, da Bratva russa, mais os encapuzados da Klu Klux Klan, comandos da capital e vermelho, magnatas do Epsteim, das  Americanas e do Banco Master, até o Barão de Alagoinhanduba – que a Viscondessa detestava -, de abraços com o juiz Teje-Preso, que foram saudados pelo prefeito Zé Peiúdo, dedicando a eles sua vitória na eleição e, no meio do discurso, não só foi esnobado como barrado do velório. Como é que pode? Enxotaram-no. Tinha muita gente mais um tanto. Adélia asfixiada com o aglomerado de embecados no salão, recolheu-se sozinha e ficou debruçada na janela dos fundos, olhando pro nada, quase adormecendo e, num cochilo, sentiu-se grávida, barriga pela boca, prestes a dar a luz. Repentinamente ouviu um choro de criança e despertou, quando, subitamente, testemunhou a chegada de verdadeira fauna invadindo o quintal, todos, cada um, com os olhos fixados nela. Arregalou-se. Conferia ali desde potoquinhas invertebradas quase imperceptíveis aos estrondosos vertebrados de darem susto e medo em qualquer um, reunindo tudo que existisse de eucariontes, multicelulares e heterotróficos, ali espremidos naquele imenso horto. O que era de quadrúpedes, bípedes, avoantes, rastejadores, peludos e pelados, não estava no gibi. Destemida, ela foi ver mais de perto e conferiu todo tipo de selvagens e mansos, quando se deparou com um bebê entre eles. Tomou-o pela mão, agarrou-se com ele e foi depressa pra dentro de casa, deu-lhe banho, perfumou e com a melhor veste se fez regozijada: era seu filho e o menino se chamaria Pavel; não, melhor não. E mais pensava: agora teria de definitivamente protagonizar o seu destino. Precisava providenciar, tão logo ocorresse o sepultamento, o batizado do neném e foi pras irmãs e a Viscondessa para acertarem os detalhes anunciando a boa nova. O infante de braço em abraços e a mãe viu-se na obrigação de seguir sua vida como os cem anos de solidão de Úrsula Iguarán: estava resolvida, resignada. Aí anunciou que o filho se chamaria como o pai: Benedito. Nessa hora, a Viscondessa ciosa logo insinuou as secretas práticas escusas do morto e, evitando anátema, Benedito que seja, Pavel não, mas preferiu chamar o bruguelo por Zeca e assim ficou Zeca Biu. Ocorria no salão a liturgia das horas, com o ofício de defuntos, terços e rosários no rito da última encomendação e despedida, contritos na maior taciturnidade e, ao presenciarem a chegada dela com o garotinho no braço, o padre Quiba logo proclamou salves e vivas, propondo canonizar Benedito como o Benfeitor que patrocinaria muita Festa no Céu – e o epíteto foi incorporado na hora ao sobrenome da viúva e do filho: os Silva e Silva Benfeitor. Era a hora da bênção da sepultura e seguiram todos para o cemitério local, acompanhados por diversas agremiações futebolísticas e carnavalescas puxando a multidão com um samba-frevo composto especialmente pro evento. Chegando lá, a maior comoção popular pro cerimonial sob a marcha fúnebre de Chopin. E entre salves, tiros e vivas, sacudiram o ataúde na cova mortuária e meteram cimento pra cima e pra baixo. Mal fechavam a catacumba, Uiraçu pousou no topo do mausoléu como um agouro, grasnando pela chegada das Harpias que levariam a alma do de cujus pras Fúrias Ctônicas da vingança. Arrepiou geral e foi pernas-pra-que-te-quero pra todo lado. Ninguém se atreveu por mais tempo homenagear aquele suposto benfeitor santificado de última hora, que foi esquecido lá para sempre. E não era só uma vez... Até mais ver.

 


Gayatri Spivak: Sempre de olho no futuro que já está conosco, à vontade, em algum lugar ao nosso redor... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Judith Butler: A vida precisa ser protegida. Ela é precária. Eu diria até que a vida precária é, de certa forma, um valor judaico para mim... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Ann Leckie: O luxo sempre vem à custa de alguém. Uma das muitas vantagens da civilização é que, geralmente, não precisamos ver isso, se não quisermos. Somos livres para desfrutar de seus benefícios sem perturbar nossa consciência... Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

 

SIMILE DE CALIDOSCÓPIO OTIMISTICAMENTE

Imagem: Acervo ArtLAM.

A dor do afastamento estabelecido. \ Seus próprios inimigos, sem amor ou compreensão, \ e uma frase negra acorrentada por mariscos impiedosos. \ Uma razão para um estranho? \ Uma razão para o estabelecimento? \ Uma razão para um estranho estabelecido? \ Enquanto silenciavam a linguagem do infinito, \ delineando a verdade de fora com a \ linha grossa, grande e imunda da precisão. \ Ao olhar através do caleidoscópio, \ a possibilidade de colorir as partículas \ no fundo \ nega e seca as expectativas estéreis, \ os deuses tradicionais, a realidade árida dos rebanhos \ e a obtenção de asas para viver na dispersão de cada um... \ Deslize suavemente a mão para a direita e observe \ como ela se move levemente para a direita \ (Uma rosa é uma rosa é uma rosa é uma rosa). \ Agora, a distinção de cores renovada é visível. \ Dê quatro passos, gire o querido \ objeto vermelho quatro vezes (vermelho foi o primeiro e único) \ Olhe para o que você vê com paixão \ Quatro vezes diferentes, quatro efeitos diferentes... \ Abrace, toque aqueles que são como você... \ Alegria sensorial de uma qualidade desconhecida, \ semelhante à identidade de pequenas divisões coloridas, \ tão bonitas, tão organizadas, tão bagunçadas, \ mudanças tão inimagináveis nos espaços! \ Sequencie seus versos de poesia espontaneamente, por conta própria. \ Vire seu brinquedo e aproxime seu olhar. \ Não seria a sequência de fragmentos apropriada \ para palavras que surgem espontaneamente? \ Não pergunte! Oh, será que nunca há sombra, \ mas sempre uma luz para a escuridão estagnada e desordenada \ que flui da janela para o seu coração? \ Temendo a fratura de objetos translúcidos, \ a perda de partículas, à deriva no poderoso \ vento confiscador do distante, \ em direção a outras geografias. \ Afaste a possibilidade carregada de emoções sombrias com o \ poder da sua consciência, \ sem deixar que suas formas façam incisões em sua alma — \ Encontre novos caleidoscópios após a desilusão. \ Se estiver oculto de você, estabeleça a autocriação \ da sua inocência. \ Tão capaz quanto seu coração, \ crie seu simulacro. \ Seres mais poderosos e distinções autênticas \ o aguardam em seus esforços. \ Você se surpreenderá com seu coração delicado \ e com seu talento elegante. \ Não espere um instante, deixe que sua libertação venha \ de cores vibrantes e \ sonhos com migalhas de prazer na escuridão abstrata, \ encontrando paz na consciência das ruas. \ Expectativas que não podem se dar conta da infantilidade \ que se embriagou sorrateiramente e através de funis, \ pela astúcia daqueles que espalham \ a influência contra a resistência... \ Lancem sentenças de carrasco com todas as suas células! \ E depois gritem orgulhosamente para a posteridade \ com as bolinhas de gude únicas que vocês jogam!

Poema da poeta turca Nilgün Marmara (1958-1987).

 

NOSSA PARTE DA NOITE - [...] O primeiro que se perdeu dos ausentes é a voz [...] Renunciar é fácil quando você tem muito, pensei. Ele nunca teve nada. [...] Quando não se pode pelejar, a única maneira de estar em paz é render-se. [...] Não há maior decepção do que acreditar ser o escolhido e não ser. [...]. Trechos extraídos da obra Nuestra parte de noche (Anagrama, 2020), da premiada escritora, jornalista e professora argentina Mariana Enríquez. Veja mais aqui & aqui.

 

MISSÃO ECONÔMICA – [...] Compreender melhor as estruturas organizacionais que incentivaram a resolução de problemas, a tomada de riscos e as colaborações horizontais é, portanto, fundamental para entender a onda de mudanças radicais que virá a seguir. [...] A inovação e a comercialização de ideias não acontecem porque você quer: elas acontecem no processo de resolução de problemas maiores. O programa Apollo foi um exemplo do que pode ser feito se a ambição for inspiradora e concreta. [...] Aplicar o pensamento orientado por missões em nossos tempos exige não apenas adaptação, mas também inovações institucionais que criem novos mercados e reformulem os existentes. E, principalmente, exige também a participação cidadã. [...]. Trechos extraídos da obra Mission Economy: A Moonshot Guide to Changing Capitalism (Penguin, 2023), da economista italiana Mariana Mazzucato, autora de obras como O valor de tudo: produzir e apropriar-se na economia global (2020) e O Estado empreendedor: desmistificando os mitos do setor público e privado (Porfolio/Pengoin, 2014).

 

NEGRITUDE SEM IDENTIDADE, DE ÉRICO ANDRADE

[...] A negritude não é uma condição ontológica, mas uma experiência estética de se inscrever na resistência de uma identidade colonial. É um contraponto à categoria de raça. [...] Não há maior insubmissão do que nossos corpos viverem a singularidade de nossa existência [...] A negritude não é uma linha ou um ponto, mas sobretudo uma roda. [...]

Trechos extraídos da obra Negritude sem identidade: sobre as narrativas singulares das pessoas negras (n-1, 2023), do filósofo, psicanalista e professor da UFPE, Érico Andrade, na qual o autor realiza uma análise profunda da temática da identidade, empregando ferramentas do discurso filosófico, da narrativa autobiográfica e da psicanálise, destacando o conceito de branquitude, explorando o papel crucial da filosofia na sua construção e examinando como a identidade negra foi moldada por um projeto da modernidade. Criticamente a obra aborda a tradição filosófica, não excluindo-a, mas utilizando-a para fundamentar sua posição, contribuindo para a consolidação de um parâmetro de valor vinculado às identidades, com a brancura representando a humanidade, enquanto a negritude é relegada a um lugar de exclusão. O autor é pesquisador do CNPq, possui doutorado com estudos na Sorbonne e atua no Departamento de Filosofia da UFPE. Veja mais aqui.

 

Joaquim Cardozo aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Nínive Caldas aqui.

Francisco Brennand aqui & aqui.

Kamila Cidrim aqui.

Nelson Ferreira aqui, aqui, aqui & aqui.

Tila Chitunda aqui.

Mestre Baracho aqui.

Fátima Quintas aqui, aqui & aqui.

Sebastião Vila Nova aqui & aqui.

Christina Machado aqui.

 


segunda-feira, julho 20, 2020

GAYATRI SPIVAK, PILLE-RITE REI, CAIO CEZAR, RENATA DE BONIS, DANIELA MESQUITA & VITAL CORRÊA DE ARAÚJO



DIÁRIO DE QUARENTENA – UMA ASA DA PALAVRA - Meu coração está em toda parte porque nele não sou eu em mim, sou a elegia de Carlo no dia da amizade que partiu de Gênova e aqui está irrespirável tal como o verso de Adrian Păunescu: Não vamos morar aqui, é impossível / Não vamos morrer mais, não é mais livre. / Para lutar contra todos / em uma sangrenta guerra promíscua, / Viva a corrente que entra em nossos ossos! / Viva a festa, prisão, morte, o imposto! Momento assim inevitável Petrarca: Como difícil é salvar a casca da reputação das pedras da ignorância. Enquanto afugentam ânimos e propagam ódio e morte no meu país, insisto em viver e glorificar a vida: o poema do coração na asa da palavra.

DUAS DITAS PARA NÃO DIZER NADA - Sou processo, projeto em execução. Experimento e distingo, não é tão fácil viver, valho-me de Moholy-Nagy: Projetar não é uma profissão, mas uma atitude. A experiência do espaço não é um privilégio de poucos talentosos, mas uma função biológica. Meu talento está na expressão da minha vida e poder criativo através da luz, cor e forma. Como pintor, posso transmitir a essência da vida. Fiz do canto o meu destino: alma na garganta, coração às mãos. Não importa onde quer que esteja, persisto.

TRÊS VALENDO O QUE SOU & NADA MAIS - Longe de curvar joelhos, cruzar os braços, maldizer de tudo. De novo Petrarca dá o tom do momento: É verdade, nós amamos a vida, não porque estamos acostumados à vida, mas porque estamos acostumados a amar. Há sempre alguma loucura no amor, mas há também sempre alguma razão na loucura. O amor é a graça suprema da humanidade, o mais sagrado direito da alma, o elo de ouro que nos une ao dever e à verdade, o princípio redentor que reconcilia o coração para a vida, e é profético do bem eterno. O eco traz um solo transcendental de Carlos Santana que me fala ao ouvido: Amar a Vida vale a pena. Tudo é um campo de batalha. Se você luta com raiva, você é parte do problema, Se você luta com alegria, você é parte da Solução! O bem mais valioso que você pode ter é um coração aberto. A arma mais poderosa que você pode ser é um instrumento de paz. Eu estou rindo porque eu sei o segredo da vida. E o segredo da vida é que eu validei minha existência. Eu sei que eu valho mais do que minha casa, minha conta no banco ou qualquer outra coisa física. Tantas vozes, zis poemas. Enquanto respiro me imortalizo, porque sou sempre agora desde ontens até amanhãs. Até depois. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS: [...] Se, no contexto da produção colonial, o sujeito subalterno não tem história e não pode falar, o sujeito subalterno feminino está ainda mais profundamente na obscuridade [...] às camadas mais baixas da sociedade constituídas pelos modos específicos de exclusão dos mercados, da representação política e legal, e da possibilidade de se tornarem membros plenos no estrato social dominante [...] Ao representá-los, os intelectuais representam a si mesmos como sendo transparentes [...] relação entre capitalismo global (exploração econômica) e as alianças dos Estados-nação (dominação geopolítica) é tão macrológica que não pode ser responsável pela textura micrológica do poder. Para se compreender tal responsabilidade, deve-se procurar entender as teorias da ideologia – de formações de sujeito, que, micrológica e, muitas vezes, erraticamente, operam os interesses que solidificam as macrologias [...] a teoria é um revezamento da prática (deixando, assim, os problemas da prática teórica de lado), e os oprimidos podem saber e falar por si mesmos. Isso reintroduz o sujeito constitutivo em pelo menos dois níveis: o Sujeito de desejo e poder como um pressuposto metodológico irredutível; e o sujeito do oprimido, próximo de, senão idêntico, a si mesmo. Além disso, os intelectuais, os quais não são nenhum desses S/sujeitos, tornam-se transparentes nessa “corrida de revezamento”, pois eles simplesmente fazem uma declaração e analisam (sem analisar) o funcionamento do (Sujeito inominado irredutivelmente proposto pelo) poder e desejo [...] o mais claro exemplo de tal violência epistêmica é o projeto remotamente orquestrado, vasto e heterogêneo de se construir o sujeito colonial como o Outro [...]  Sobre este último e a possibilidade de escolha pela liberdade [...] essa ênfase no livre-arbítrio estabelece o peculiar infortúnio de se ter um corpo feminino [...]. Trechos extraídos da obra Pode o subalterno falar? (EdUFMG, 2010), da crítica e teórica indiana Gayatri Spivak, considerado um texto fundamental sobre o pós-colonialismo e a autora uma importante representante da produção teórica pós-colonial, crítica feminista relevante, em termos de sua influência na produção intelectual em escala global.

A MÚSICA DE PILLE-RITE REI
Num dia frio de dezembro, em Malmö, fui a um concerto de Natal em que uma peça minha para orquestra e coro seria apresentada. Depois, os amigos me chamaram para comer pizza. Tinha uma brasileira no grupo, Daniela Mesquita. Perguntei de onde era e ela disse: ‘Brasil’. Do nada, comecei a cantar ‘O Pato’. Ela disse que eu tinha que ir para o Brasil e que ia dar um jeito de fazer isso acontecer. Eu ria, pois não acreditava. Poucos dias depois, porém, recebi um telefonema do líder de um programa de intercâmbio dizendo que tinha ouvido falar a meu respeito e que, se eu quisesse, poderia morar no Brasil como estudante. Dois meses depois, eu estava instalada em Ipanema. Tudo era exatamente como eu imaginava! Até melhor. Era como se eu tivesse estado no Rio antes. Eu amo o Rio. Jamais vou me esquecer da experiência que tive em 2018. Estava tocando na rua, em Ipanema. Um homem visivelmente pobre parou para me ouvir. Era vendedor de esponjas de cozinha. Ele mostrou com gestos que tinha gostado da música, mas não poderia colaborar. Respondi que não precisava dar dinheiro, bastava escutar. Ele ouviu todas as músicas e, quando terminei, me deu uma esponja de presente. Nessa altura, estávamos os dois com lágrimas nos olhos
PILLE-RITE REI - A música da cantora, saxofonista e compositora estoniana Pille-Rite Rei, que já lançou o álbum Brazilian Adventures (2019).
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O CANTO DE DANIELA MESQUITA
A arte musical de Daniela Mesquita, que fez seu mestrado em Música da UFRJ (PROMUS), sobre o tema Kindertotenlieder, de Gustav Mahler – quando a luz transcende a morte: performance e relato de experiência (2017), um estudo da obra Kindertotenlieder, de Gustav Mahler, com foco na interpretação do cantor lírico. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Comecei a me perguntar por quanto tempo essas rochas existiam, por quanto tempo o processo de formação de areia preta ocorreu e assim por diante... Nesse momento, comecei a experimentar esses elementos, opondo-os a objetos de outro tempo. Em algumas esculturas, elementos naturais, como pedras e conchas, são contrapostos a materiais de construção, como concreto e gesso, que nos cercam e nos envolvem nas grandes cidades. Minha intenção era discutir e refletir sobre a brevidade e a fragilidade da vida humana diante de materiais que testemunharam muito mais do que nós. Minha atenção voltou-se para os próprios materiais e sua representação se tornou secundária. O que acho interessante nessa transição é que a percepção da paisagem não desapareceu do meu trabalho: ela migrou da pintura - que é uma representação muito estática em uma superfície, para uma visão ampliada da paisagem. Parei de pintar os lugares para investigá-los. Essa experiência também chamou minha atenção para a passagem do tempo. As dimensões do lugar me fizeram sentir questões insignificantes e existenciais sobre a transitoriedade da vida humana acabaram se tornando um dos principais temas do meu trabalho.
RENATA DE BONIS - A arte da artista visual Renata De Bonis, que se formou em Artes Visuais na FAAP em 2006 e mestrado pela UNESP, e tem desenvolvido a sua investigação em pintura e obras tridimensionais, como esculturas e instalações sonoras. Sua pesquisa envolve interesse em diferentes percepções de tempo, como o geológico e o mundano e as relações do homem contemporâneo com a natureza e a paisagem. Veja mais aquiaqui.

PERNAMBUCULTURARTES
A arte do violonista, produtor musical e arranjador Caio Cezar, autor do álbum musical Caio Cezar interpreta João Pernambuco que lhe rendeu a indicação para o Prêmio Sharp, afora ter composto trilhas sonoras para teatro e cinema, incluindo o desenho animado Alma Carioca, sobre Pixinguinha e João da Baiana, vencedor do Prêmio Petrobras. Como pesquisador trabalha no levantamento das obras de Canhoto da Paraíba e Pixinguinha - colaborando com o Instituto Moreira Salles. É diretor do Centro de Ópera de Acari, que reúne 250 jovens da comunidade de Acari no Rio de Janeiro. Do projeto surgiu a orquestra de cordas dedilhadas AcariOcamerata, que vem se destacando junto a crítica e o público.
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A poesia absoluta de Vital Corrêa de Araújo: Dicionário anticrítico de êmbolos e lampejos, Pálpebra de pedra, Atanor, Inesperadas nêsperas & Vate Vital aqui, aqui, aqui & aqui.
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A música de Orquestra Armorial & Quinteto Armorial aqui.
Terra pernambucana, do professor, jornalista e escritor Mario Sette (1886-1950) aqui.
Guerra sem testemunhas, do escritor e dramaturgo Osman Lins (1924-1978) aqui & aqui.
A obra de Maria Áurea Santa Cruz aqui.
O lamentável expediente da guerra aqui.
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O município de Sanharó aqui & aqui.


NÉLIDA PIÑON, OCTAVIO PAZ, AMIA SRINIVASAN, CONCEIÇÃO LIMA & NANÁ VASCONCELOS

  Imagem: Acervo ArtLAM .   Interregno das personas... - Havia o que já foi sem que desse nunca pelo que virá: só crescia de noite para ...