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domingo, fevereiro 22, 2026

MARIANA ENRÍQUEZ, NILGÜN MARMARA, MARIANA MAZZUCATO & NEGRITUDE SEM IDENTIDADE

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som dos concertos Suíte Brasileira (2023) e Cantata Ayabás (2025), da maestra, pesquisadora, compositora e pianista Andréa Huguenin Botelho.

 


As viúvas do sobrado... - Adélia se sentia uma das Little Women de Alcott – a caçula entre as 4, antes 5, meninas órfãs do sobrado de Hermilo, a viver oniricamente vestida de flores, mansidão de pássaros, delicada juventude. E crescia viçosa, aformoseando-se a tal ponto de cair nas graças dum mulato estranho, logo apresentado como banqueiro Benedito. Desde então passou a suspirar pelos cantos e a ter sonhos com todo tipo de bicharada. Era vigiada pela centenária Viscondessa e a sua inseparável ama Bernarda, ocupando muito mais a matriarca que vivia tal Penélope de Ulisses – o marido combatente no Paraguai nunca mais voltou. Não demorou muito e logo o casal se estreitou de papel passado em ruidosa cerimônia e, a partir de então, o festivo foco das atenções naquela família de enlutadas. Com o matrimônio, o que mais a envaidecia era se tornar duas vezes Silva ao seu extensíssimo sobrenome aristocrático – ela reunia a extensa linhagem dos germânicos Guimarães, dos florentinos Cavalcantes, dos lusitanos Alves e agora senhora Silva dos ibéricos e mais um Silva acrescido: o do Biu banqueiro. Pouco mais de um mês depois da lua de mel, a tragédia: a matrona consolava a viuvez de todas as suas irmãs – escapou apenas Amélia, que faleceu antes de contrair núpcias. Lá estavam chorosas Amália, Anália e Adália abraçadas com Adélia, arrimadas pela genearca. As primeiras solidárias a chegarem para engrossar o plangente momento foram as amigas próximas da progenitora e lá estavam ao vivo e em cores no recinto, segurando os lencinhos e vestes escuras: a Catarina de Lencastre, Ana Plácido, a da Luz, a de Arcozelo e a de Cavalcanti. Logo providenciaram o velório ajudadas por inúmeras serviçais. Fraquejava ali Adélia sentindo na pele a árdua tribulação da Pelágeya de Gorki. E passou mal, logo a Bernarda chamou outra empregada: Pegaí o picão-do-padre! Foi um Deus nos acuda! Oxe! Trouxeram o chá calmante de cravo-de-defunto e as pálpebras destilavam prantos por seu saudoso marido. Mantinham os preparativos pro funeral e um entre e sai de gente, cochichos, horas de espera. De repente o alvoroço, a pompa fúnebre transformou o salão da casa numa câmara-ardente, repleta de flores e velas acesas, numa decoração religiosa. O corpo estava desfigurado e foi preciso quase dois dias para recompô-lo e, de tão remendado, teve de ser exposto num caixão lacrado – Ora, por que? Respeitava-se a dignidade do falecido, os presentes e, sobretudo, a garantia de segurança sanitária: ninguém sabia do que ele tinha morrido até então. E era pra enterrar logo, no mesmo dia; mas a Viscondessa determinou que só sepultaria no dia seguinte: Vai que ele ressuscita, hem? Mas já havia passado mais de 48 horas, exigência inútil, ela bateu o pé e assim foi. Adélia debruçou-se ao esquife, enquanto as madames iniciavam as exéquias como salvaguarda dum lugar especial no céu pro cadáver putrefato. Começava a vigília das orações, com mortificadas novenas, penitências, as excelenças ao pé do morto para que ele recebesse o perdão dos pecados e sua alma recomendada ao melhor lugar do paraíso: Uma incelença preste que se foi, duas pra onde irá... As cantadeiras imploravam clemência: Já é uma hora e ele vai, ele vai, vai ganhar a salvação... Duas horas e ele vai, vai, vai salvo pela extrema-unção...  Três horas... Era tudo muito enfadonho, as ladainhas, os pêsames para lá, choramingados para cá e lá pras tantas decidiram todas fazerem quarto ao defunto, de sentinela com tudo pronto para renderem as últimas homenagens, que, inclusive, logo foram suspensas com a invasão de autoridades que exigiam a necrópsia policial no IML, o boletim de ocorrência, o protocolo e todas as medidas de praxe, incluindo um furioso legista que queria abrir a fim da força o caixão para confirmar o corpo: era que o FBI, com agentes engravatados ali presentes, suspeitava de atentado comunista. Como pode? Ele foi encontrado quase-morto, de morrer no hospital. Não e pronto! Um impasse resolvido na marra, quando um agente grandalhão da CIA passou às mãos da anciã madrinha, o volumoso calhamaço capa dura com as inscrições: Ex Libris – Private/Top Secret. E foi chegando gente e uma situação bizarra foi tomando conta porque ali dava as caras o execrável vampiro golpista Miguelilulia – mais conhecido como o marido da Marcela, que logo topou com o Barão de Drummond e, com ele, a corriola toda  capitaneada pelo Pedro II, os Marechais das Alagoas, os generais da Velha e Nova Repúblicas, todas as patentes das Forças Armadas, Ministros das Supremas Cortes, coronéis de fitas e de mandos, desembargadores, deputados, senadores, chefes de Executivo, cardeais e arcebispos do Vaticano, integrantes disfarçados da Ndrangheta, Cosa Nostra, Yacuza, Los Zetas, Camorra e todos os COT, desde os albaneses, do cartel de Sinaloa, da tríade chinesa, da Bratva russa, mais os encapuzados da Klu Klux Klan, comandos da capital e vermelho, magnatas do Epsteim, das  Americanas e do Banco Master, até o Barão de Alagoinhanduba – que a Viscondessa detestava -, de abraços com o juiz Teje-Preso, que foram saudados pelo prefeito Zé Peiúdo, dedicando a eles sua vitória na eleição e, no meio do discurso, não só foi esnobado como barrado do velório. Como é que pode? Enxotaram-no. Tinha muita gente mais um tanto. Adélia asfixiada com o aglomerado de embecados no salão, recolheu-se sozinha e ficou debruçada na janela dos fundos, olhando pro nada, quase adormecendo e, num cochilo, sentiu-se grávida, barriga pela boca, prestes a dar a luz. Repentinamente ouviu um choro de criança e despertou, quando, subitamente, testemunhou a chegada de verdadeira fauna invadindo o quintal, todos, cada um, com os olhos fixados nela. Arregalou-se. Conferia ali desde potoquinhas invertebradas quase imperceptíveis aos estrondosos vertebrados de darem susto e medo em qualquer um, reunindo tudo que existisse de eucariontes, multicelulares e heterotróficos, ali espremidos naquele imenso horto. O que era de quadrúpedes, bípedes, avoantes, rastejadores, peludos e pelados, não estava no gibi. Destemida, ela foi ver mais de perto e conferiu todo tipo de selvagens e mansos, quando se deparou com um bebê entre eles. Tomou-o pela mão, agarrou-se com ele e foi depressa pra dentro de casa, deu-lhe banho, perfumou e com a melhor veste se fez regozijada: era seu filho e o menino se chamaria Pavel; não, melhor não. E mais pensava: agora teria de definitivamente protagonizar o seu destino. Precisava providenciar, tão logo ocorresse o sepultamento, o batizado do neném e foi pras irmãs e a Viscondessa para acertarem os detalhes anunciando a boa nova. O infante de braço em abraços e a mãe viu-se na obrigação de seguir sua vida como os cem anos de solidão de Úrsula Iguarán: estava resolvida, resignada. Aí anunciou que o filho se chamaria como o pai: Benedito. Nessa hora, a Viscondessa ciosa logo insinuou as secretas práticas escusas do morto e, evitando anátema, Benedito que seja, Pavel não, mas preferiu chamar o bruguelo por Zeca e assim ficou Zeca Biu. Ocorria no salão a liturgia das horas, com o ofício de defuntos, terços e rosários no rito da última encomendação e despedida, contritos na maior taciturnidade e, ao presenciarem a chegada dela com o garotinho no braço, o padre Quiba logo proclamou salves e vivas, propondo canonizar Benedito como o Benfeitor que patrocinaria muita Festa no Céu – e o epíteto foi incorporado na hora ao sobrenome da viúva e do filho: os Silva e Silva Benfeitor. Era a hora da bênção da sepultura e seguiram todos para o cemitério local, acompanhados por diversas agremiações futebolísticas e carnavalescas puxando a multidão com um samba-frevo composto especialmente pro evento. Chegando lá, a maior comoção popular pro cerimonial sob a marcha fúnebre de Chopin. E entre salves, tiros e vivas, sacudiram o ataúde na cova mortuária e meteram cimento pra cima e pra baixo. Mal fechavam a catacumba, Uiraçu pousou no topo do mausoléu como um agouro, grasnando pela chegada das Harpias que levariam a alma do de cujus pras Fúrias Ctônicas da vingança. Arrepiou geral e foi pernas-pra-que-te-quero pra todo lado. Ninguém se atreveu por mais tempo homenagear aquele suposto benfeitor santificado de última hora, que foi esquecido lá para sempre. E não era só uma vez... Até mais ver.

 


Gayatri Spivak: Sempre de olho no futuro que já está conosco, à vontade, em algum lugar ao nosso redor... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Judith Butler: A vida precisa ser protegida. Ela é precária. Eu diria até que a vida precária é, de certa forma, um valor judaico para mim... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Ann Leckie: O luxo sempre vem à custa de alguém. Uma das muitas vantagens da civilização é que, geralmente, não precisamos ver isso, se não quisermos. Somos livres para desfrutar de seus benefícios sem perturbar nossa consciência... Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

 

SIMILE DE CALIDOSCÓPIO OTIMISTICAMENTE

Imagem: Acervo ArtLAM.

A dor do afastamento estabelecido. \ Seus próprios inimigos, sem amor ou compreensão, \ e uma frase negra acorrentada por mariscos impiedosos. \ Uma razão para um estranho? \ Uma razão para o estabelecimento? \ Uma razão para um estranho estabelecido? \ Enquanto silenciavam a linguagem do infinito, \ delineando a verdade de fora com a \ linha grossa, grande e imunda da precisão. \ Ao olhar através do caleidoscópio, \ a possibilidade de colorir as partículas \ no fundo \ nega e seca as expectativas estéreis, \ os deuses tradicionais, a realidade árida dos rebanhos \ e a obtenção de asas para viver na dispersão de cada um... \ Deslize suavemente a mão para a direita e observe \ como ela se move levemente para a direita \ (Uma rosa é uma rosa é uma rosa é uma rosa). \ Agora, a distinção de cores renovada é visível. \ Dê quatro passos, gire o querido \ objeto vermelho quatro vezes (vermelho foi o primeiro e único) \ Olhe para o que você vê com paixão \ Quatro vezes diferentes, quatro efeitos diferentes... \ Abrace, toque aqueles que são como você... \ Alegria sensorial de uma qualidade desconhecida, \ semelhante à identidade de pequenas divisões coloridas, \ tão bonitas, tão organizadas, tão bagunçadas, \ mudanças tão inimagináveis nos espaços! \ Sequencie seus versos de poesia espontaneamente, por conta própria. \ Vire seu brinquedo e aproxime seu olhar. \ Não seria a sequência de fragmentos apropriada \ para palavras que surgem espontaneamente? \ Não pergunte! Oh, será que nunca há sombra, \ mas sempre uma luz para a escuridão estagnada e desordenada \ que flui da janela para o seu coração? \ Temendo a fratura de objetos translúcidos, \ a perda de partículas, à deriva no poderoso \ vento confiscador do distante, \ em direção a outras geografias. \ Afaste a possibilidade carregada de emoções sombrias com o \ poder da sua consciência, \ sem deixar que suas formas façam incisões em sua alma — \ Encontre novos caleidoscópios após a desilusão. \ Se estiver oculto de você, estabeleça a autocriação \ da sua inocência. \ Tão capaz quanto seu coração, \ crie seu simulacro. \ Seres mais poderosos e distinções autênticas \ o aguardam em seus esforços. \ Você se surpreenderá com seu coração delicado \ e com seu talento elegante. \ Não espere um instante, deixe que sua libertação venha \ de cores vibrantes e \ sonhos com migalhas de prazer na escuridão abstrata, \ encontrando paz na consciência das ruas. \ Expectativas que não podem se dar conta da infantilidade \ que se embriagou sorrateiramente e através de funis, \ pela astúcia daqueles que espalham \ a influência contra a resistência... \ Lancem sentenças de carrasco com todas as suas células! \ E depois gritem orgulhosamente para a posteridade \ com as bolinhas de gude únicas que vocês jogam!

Poema da poeta turca Nilgün Marmara (1958-1987).

 

NOSSA PARTE DA NOITE - [...] O primeiro que se perdeu dos ausentes é a voz [...] Renunciar é fácil quando você tem muito, pensei. Ele nunca teve nada. [...] Quando não se pode pelejar, a única maneira de estar em paz é render-se. [...] Não há maior decepção do que acreditar ser o escolhido e não ser. [...]. Trechos extraídos da obra Nuestra parte de noche (Anagrama, 2020), da premiada escritora, jornalista e professora argentina Mariana Enríquez. Veja mais aqui & aqui.

 

MISSÃO ECONÔMICA – [...] Compreender melhor as estruturas organizacionais que incentivaram a resolução de problemas, a tomada de riscos e as colaborações horizontais é, portanto, fundamental para entender a onda de mudanças radicais que virá a seguir. [...] A inovação e a comercialização de ideias não acontecem porque você quer: elas acontecem no processo de resolução de problemas maiores. O programa Apollo foi um exemplo do que pode ser feito se a ambição for inspiradora e concreta. [...] Aplicar o pensamento orientado por missões em nossos tempos exige não apenas adaptação, mas também inovações institucionais que criem novos mercados e reformulem os existentes. E, principalmente, exige também a participação cidadã. [...]. Trechos extraídos da obra Mission Economy: A Moonshot Guide to Changing Capitalism (Penguin, 2023), da economista italiana Mariana Mazzucato, autora de obras como O valor de tudo: produzir e apropriar-se na economia global (2020) e O Estado empreendedor: desmistificando os mitos do setor público e privado (Porfolio/Pengoin, 2014).

 

NEGRITUDE SEM IDENTIDADE, DE ÉRICO ANDRADE

[...] A negritude não é uma condição ontológica, mas uma experiência estética de se inscrever na resistência de uma identidade colonial. É um contraponto à categoria de raça. [...] Não há maior insubmissão do que nossos corpos viverem a singularidade de nossa existência [...] A negritude não é uma linha ou um ponto, mas sobretudo uma roda. [...]

Trechos extraídos da obra Negritude sem identidade: sobre as narrativas singulares das pessoas negras (n-1, 2023), do filósofo, psicanalista e professor da UFPE, Érico Andrade, na qual o autor realiza uma análise profunda da temática da identidade, empregando ferramentas do discurso filosófico, da narrativa autobiográfica e da psicanálise, destacando o conceito de branquitude, explorando o papel crucial da filosofia na sua construção e examinando como a identidade negra foi moldada por um projeto da modernidade. Criticamente a obra aborda a tradição filosófica, não excluindo-a, mas utilizando-a para fundamentar sua posição, contribuindo para a consolidação de um parâmetro de valor vinculado às identidades, com a brancura representando a humanidade, enquanto a negritude é relegada a um lugar de exclusão. O autor é pesquisador do CNPq, possui doutorado com estudos na Sorbonne e atua no Departamento de Filosofia da UFPE. Veja mais aqui.

 

Joaquim Cardozo aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Nínive Caldas aqui.

Francisco Brennand aqui & aqui.

Kamila Cidrim aqui.

Nelson Ferreira aqui, aqui, aqui & aqui.

Tila Chitunda aqui.

Mestre Baracho aqui.

Fátima Quintas aqui, aqui & aqui.

Sebastião Vila Nova aqui & aqui.

Christina Machado aqui.

 


segunda-feira, fevereiro 17, 2025

JEANNETTE ARMSTRONG, ANA SOFÍA GONZÁLEZ, REBECCA GOLDSTEIN & BIARRITZZZ

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som do álbum O tempo, a distância e a contradança (Zabumba Records, 2004), da premiada compositora, pianista e pesquisadora Ana Fridman, que é professora Livre Docente no Departamento de Música da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, coordenadora do curso de Licenciatura em Música e atual coordenadora do Curso de Especialização Arte na Educação: Teoria e Pratica.

 

Caminheiro às idas & voltas... - Quando fui longe o que fiz da solidão, muito distante, beirava quase fim e a minha melhor versão, às vezes nem isso, com o calor aos não sei quantos altos graus. O tempo era uma navalha na carne, a longitude e o inalcançável. O coração dançava, a contradança. O que se alardeava não sei onde e era sempre recorrente, perto nem enxergava: fiquei calado e prestei muita atenção. Se era o ápice da confusão, a urgência se fazia iminente, com farmácias pra todo lado. Mesmo porque as ideias nunca foram tão claras: agora pode duvidar de tudo! E não é só escolher entre o privilégio e a tragédia, os passos e o imprevisível: é preciso viver. Quase nem me perguntava, porque havia muito mais que ruina, desamparo e porque-não: o tempo mastigava os doces anos de nem lembrar direito e cada lírio provava que se foram de fato, sabe lá Deus o que restou de nós. O certo é que fui e, talvez, um dia volte e o mundo não esteja tão saqueado, enfermo pelos desacertos de álibis perfeitos. Há algo de errado por todo lugar, fazendo o grosso de lírica da desgraça: a vida pelas voçorocas na poeira do estado de calamidade, aos espirros de indignação, diante da tosse da soberba. Previno-me, lua de verão aos olhos e versos pra ninguém. Os planetas se alinham e sou muitos, apenas um me bastaria. Qual nada. O que sei é que preciso viver, apesar de tudo: no que faço está a minha alma. Até mais ver.

 

Judith Butler: Eu não acho que temos que ter uma relação pessoal com uma vida perdida para entender que algo terrível aconteceu, especialmente no contexto da guerra... Veja mais aqui.

Helen Fielding: Ame todos, confie em alguns, não faça mal a ninguém... Veja mais aqui e aqui.

Toni Morrison: Se você se render ao ar, poderá montá-lo... Veja mais aqui, aqui & aqui.

 

POEMAS DE TRÊS VERSOS

Imagem: Acervo ArtLAM.

Linha Final \ Lá está aquela linha traçada novamente no oeste \ a linha da fronteira desta vez oferecendo um cachimbo \ não pela paz apenas um pedaço \ do cachimbo sim, aquela linha uma longa linha de armas \ desenhadas novamente alinhar ajoelhar \ acenar sim só não cruzar esta linha \ nas areias estas linhas nos bolsos de revestimento de alcatrão \ esta linha de regra em algum lugar fazendo linhas \ e linhas para cheirar cortar \ aquela linha cruzar aquela linha cruzar \ aquela linha duas vezes uh o fim da linha Linha da Costa \ A linha acinzentada do horizonte caiu longe da escuridão da mistura oceano-céu \ e o horizonte cheio de pássaros desliza para o crepúsculo varrendo asas \ dobram-se fortemente contra o vermelho-alaranjado do ar espesso \ e manchado fortemente longe das asas abertas do albatroz morto \ na costa bicos presos em gritos perpétuos ossos abertos para o céu sujo \ seios em decomposição cheios de plástico colorido, \ vidro e alumínio \ Linhas do Rosto Terra aberta \ aberta para veados para alces \ aberta para aqueles que têm o onde e o com e o todo temporada \ aberta todas as estações o tempo todo linhas desenhadas linhas cruzadas \ Eu tenho linhas na minha testa ao redor da minha boca entre meus olhos de olhar \ e olhar para longe \ Eu tenho que apagar essas linhas.

Poema da escritora, educadora, artista e ativista canadense Jeannette Armstrong (Jeannette Christine Armstrong), nascida na reserva indígena Penticton, no Vale Okanagan da Colúmbia Britânica, autora dos livros de poemas:

Breath Tracks (1991), Slash (1985) e Whispering in Shadows (2000), entre outras obras.

 

AS CONSEQUÊNCIAS DOS ATOS - Se tivéssemos consciência das possíveis consequências dos nossos atos, não sairíamos da cama... Pensamento da escritora, professora e arquiteta mexicana, Ana Sofía González, autora da obra No matarás (Alfaguara, 2023), na qual ela expressa: [...] "—Vicky, chega mais perto, vou te contar um segredo: o inferno não existe, são os pais", ele sussurrou em seu ouvido e caiu na gargalhada. [...]. Na obra ela conta a história de Alejandra, uma adolescente frívola, mora em um bairro de classe alta. Sua vida é afetada pelo abandono de sua mãe e pela dureza de um pai severo. Ela é muito próxima de Vicky, sua babá, que para ela é parte da família, e que sofre de epilepsia, razão pela qual ela quase nunca sai dos limites da casa. Uma tarde, suas vidas mudam completamente quando Juan Pablo, o lavador de carros, tenta estuprar Vicky.

 

O CONSUMISMO & A SOCIEDADE - Nossa sociedade está recorrendo cada vez mais ao consumismo desenfreado e à autopromoção da mídia social como uma forma de as pessoas sentirem que suas vidas importam - meios egocêntricos de anestesiar as questões de importância. A cultura recaiu de volta às respostas autoengrandecedoras e glorificadoras que os atenienses presumiram, o que fez Sócrates reclamar deles até que ele ficou tão irritante que o mataram... Todo mundo está lutando para refinar suas visões em oposição às outras pessoas. E essa é uma das coisas mais importantes que a filosofia realmente tem a nos ensinar: você tem que expor suas visões e trazê-las à mesa com as pessoas - com quem você discorda muito... O pensamento filosófico que não violenta a mente estabelecida não é pensamento filosófico... Respostas? Esqueça as respostas. O espetáculo está todo nas perguntas... Matemática... música... noites estreladas... Essas são maneiras seculares de alcançar a transcendência, de se sentir elevado a uma grande perspectiva. É uma sensação de estar impressionado com a existência que quase oblitera o eu. Pessoas religiosas pensam nisso como uma experiência essencialmente religiosa, mas não é. É uma experiência essencialmente humana... Pensar é a alma falando consigo mesma... Pensamento da filósofa e escritora estadunidense Rebecca Goldstein, autora de obras como Plato at the Googleplex: Why Philosophy Won't Go Away (2014), Betraying Spinoza: The Renegade Jew Who Gave Us Modernity (2006), Properties of Light: A Novel of Love, Betrayal, and Quantum Physics (2000) e The Mind-Body Problem (1983), entre outros. Veja mais aqui e aqui.

 

BIARRITZZZ

Biarritz é avatarônimo de Beatriz Rodrigues, uma artista que utiliza as mídias de forma sofisticada para tratar de questões como corpo, instituição, Estado, raça, gênero, consumo e identidade. Ela produziu o vídeo Pátria, que foi exibido na mostra Entremoveres, no Museu da Abolição, em Recife — em parceria com a Vampiras Veganas. Veja mais aqui.

 

ITINERARTE – COLETIVO ARTEVISTA MULTIDESBRAVADOR

Veja mais sobre MJ Produções, Gabinete de Arte & Amigos da Biblioteca aqui.

& mais:

Livros Infantis Brincarte do Nitolino aqui.

Diário TTTTT aqui.

Literatura Indígena: Cosmovisões & Pela Paz aqui & aqui.

Poemagens aqui.

Cantarau Tataritaritatá aqui.

Teatro Infantil: O lobisomem Zonzo aqui.

Faça seu TCC sem traumas – consultas e curso aqui.

VALUNA – Vale do Rio Una aqui.

&

Crônica de amor por ela aqui.


 


terça-feira, outubro 06, 2020

MARY WOLLSTONECRAFT, JUDITH BUTLER, ANNETE KELLERMAN, ENHEDUANA & MESTRE ZUZA

 


TRÍPTICO DGF – AQUELA DE... DAS CHAMAS ÀS CINZAS, O QUE FOI & NÃO MAIS - A chama e a vida, vela acesa à luz, pacífica: a comunhão cósmica ilumina os umbrais interiores, rumo à senda universal. Outros são reféns das labaredas, ou se rendem na reprodução de faíscas iminentes às inimizades, ou fósforos da devastação: queimam impunes gentes, bichos, coisas, e não há mais ética, espórtula! Não há mais respeito, servidão. Não há mais lei, contravenção, sangue na rótula! Não há mais vida, escravidão. Ouço Enheduana no meio do fogaréu assassino: Sua ira é uma inundação devastadora que ninguém pode suportar. Doutro lado, Horácio alerta: Quando a casa do vizinho está pegando fogo, a minha casa está em perigo. Valha-me! O meu vizinho atiça, propaga, só quer a ele, ninguém mais. Outro se insurge, contenda. Estou, deveras, alarmado, prefiro a paz. Em meu socorro, a solidária Judith Butler: É crucial que resistamos às forças da censura que prejudicam a possibilidade de viver em uma democracia igualmente comprometida com a liberdade e a igualdade. Sim, nunca será tarde demais, haverá sempre tempo para fazer o que se deve pela paz e pela vida! Vambora.

 


DUAS VEZES A FILHA DOS DEUSES, A SEREIA DO MAR - A solidão e o meu quarto é um forno, calor nas paredes. Para minha sobrevivência ela emerge pela fresta deusa nua, Vênus dos Mares do Sul. E injeta vida nas minhas veias porque estou mortificado e logo me conta da tragédia da Noiva de Lammemoor, com seu jeito canceriano de enfeitiçatriz no palco, Rainha do Mar atravessando o canal da Mancha a nado, uma tentativa malograda que me faz rir de seu destempero e retoma e ganhou a corrida do Nado em Paris através do Sena, derrotando homens, e venceu no Danúbio de Tuin até Viena, viva! E fala pelos cotovelos para que eu ria muito mais e não saiba do que há lá fora. Ora me falava do Dom da Juventude, ou das filhas de Netuno e dos Deuses, feliz Mulher Perfeitamente Formada, triste quando Filha de Jephtah, dançando nas águas de Sydney, chapinhando para me molhar também e a me contar que foi nadadora e mergulhadora premiada para defender os direitos das mulheres e criar os maiôres que a levariam à prisão acusada de indecência e atentado ao pudor. Rimos muitos, quantos desequilíbrios, lá se vão, sobe-desce, é preciso rir-se de tudo. Aos nossos prazeres, beijojes, beijagoras, gozoras e mais. E me falava de seus livros How To Swim (1918), e o Physical Beauty: How to Keep It (1919), e os infantis do Fairy Tales of the South Seas (1926) e My History, a autobiografia jamais publicada, só nos desenhos Les Culottées (Destemidas, 2016), de Pénélope Bagieu ou no documentário The original Mermaid (2002), ou mesmo no acervo do Powerhouse Museum e nas cinzas na Grande Barreira de Corais. Era ela nualua no escuro do meu quarto, Annete Kellerman divinamente bela no meu coração para me dizer que vale a pena viver.

 


UM, DOIS, TRÊS: O AMOR À VIDA SUPERA A MORTE - Imagem: arte da escultora estadunidense Anna Vaughn Hyatt Huntington (1876-1973). - Lá estava elagora Polímnia com sua túnica e véus transparentes, feita poesia na minha vida e carne, a me fazer dançar na geometria do universo, entre beijentregas. À sesta me ensinou a meditação para alcançar o Olimpo e noutra tarde a agricultura para que eu semeasse os campos. Quando era noite ela fugia e só voltava altas horas como Mary Wollstonecraft depois de duas tentativas suicidas e passionais, a me chamar de William para acasalarmos à poesia em paixão. Em mim ela filosofou, poetou e renasceu com a reinvindicação dos direitos da mulher. Escreveu-me cartas que não me deixava lê-las e que eu havia lhe trazido vida para afugentar a melancolia e arrependimentos, e me beijava com ternura e me afagava a face para se desnudar no The Polygon na nossa festa diária em que nada mais existisse além de nós, nossos quereres, nossos prazeres, nossa paixão. Na última noite, ao se despedir: Eu não desejo que as mulheres tenham poder sobre os homens; mas sobre si mesmas. Nenhum homem escolhe o mal por ser o mal; mas apenas por confundi-lo com felicidade. Deixe a mulher compartilhar dos direitos e ela emulará as virtudes do homem. E comungamos das mesmas ideias e defendemos os mesmos ideais, solidários e reais até nos diluirmos em nós mesmos e em todas as coisas. Até mais ver.

 

MESTRE ZUZA

A riqueza da gente é saber fazer a arte. Não tem coisa melhor do que você saber fazer alguma coisa e não precisar estar empregado pra sobreviver. Consegui trabalhar com artesanato a vida toda, muita gente não acredita que isso é possível.

A arte do artesão, ceramista, artista plástico, escultor, compositor e professor historiador Mestre Zuza – José Edvaldo Batista, que é pós-graduado em História pela UPE, sócio da Cooperata e instrutor no Sernar-PE. Veja mais aqui & aqui.


 

 


sexta-feira, dezembro 08, 2017

ERNESTO LACLAU, JUDITH BUTLER, VIVIANE MOSÉ, ESTHER ERLICH, MUTARELLI & TAMANDARÉ

A TEIA DE IXCHEL - Imagem: arte da premiada artista australiana Esther Erlich. – Ela é a branca da Sagrada Ilha das Mulheres e acompanha as conoas peregrinas que partiram do porto de Pole para província de Ecab, enquanto derrama a água do seu jarro sobre a terra para que possam chegar sãos e salvos ao seu reduto. À ilha Dcuzamil, todas chegam carregadas de pedidos e súplicas, expondo o milho sacralizado e estatuetas esteatoígicas que a representa, com uma pena do Quetzal que voou com sua garganta vermelha e imensa cauda, com suas vestes e tangas tecidas de iúca e de agave, e ela, a dama da noite, no seu oráculo orienta a ameaça apocalíptica de fim do mundo, precedido por quatro outros mundos – os Quatro Sóis – e o fim por cataclismo da Terra, porque a morte espreita tudo, e que é preciso viver com o capitoso hidromel balche para trazer a chuva, afastar calamidades e curar os enfermos. As que sonharam com a serpente receberão o sinal que logo serão mães e que se regozijem em festa, porque ela é a deusa da Lua com a marca da Lebre para que haja sempre sementes germinadas e crescimento das plantas, abençoando os filhotes dos animais e os filhos dos homens. Ela ensina a todos e todas, a necessidade de nutrir a Terra com a carne dos que morrem, retornando o alimento prodigalizado para a vida de todos: a Terra alimenta a todos, devemos todos alimentá-la. Ela é a deusa da medicina e do parto, curadora a orientar as gestões e o parto dos filhos desejados pelos esposos, assegurando a fertilidade no vaso do útero de cabeça para baixo, para que jorre sempre as águas da criação. Quatro vezes ela criou os homens, seu conservador e nutridor – homens do milho, nascidos do milho, com seus rostos, membros e túnicas pintadas com o urucu para que ela chegue para visitá-los e inspirá-los. Os guerreiros estão perfilados com escarificações no rosto em forma de pérola e eles homenageiam os que foram dizimados por catastróficos massacres, epidemias e abusos com trabalho forçado. Ela é a tecelã da Teia da Vida, ela tece a criação na cintura do seu corpo e com a teia dos fios de energia tudo e todas as coisas emergem do vazio e da luz provê o alimento em abundância para a comunhão sacrossanta. Ela é a deusa dos trabalhadores têxteis com sua essência feminina cíclica no curso lunar que é dela, trazendo das estrelas as energias antepassadas, presenteando a todos que lhe chegam com o coelho da fertilidade e da abundância. Ela é a Deusa da Serpente escondida sobre sua cabeça, com seu traje de ossos em cruzes e suas garras afiadas de quem foi amante do Sol que sou eu e quase morreu para ser salva pelo canto da libélula. Pra ela sou Itzama - Kinich Arrau, a Face do Sol & do Céu, o monstro bucéfalo – uma parte de mim é o Leste e a vida; a outra é Oeste e a morte, sou o desquadruplicado, em cada ponto cardeal, meus atributos -, a minha cabeça brota da goela do dragão celeste, porque nasci do milho e vou com vaso emborcado do infortúnio ao Festival de Ixchel, a Senhora do Arco-Íris, a Grande Mãe & Senhora da Terra, Árvore da Vida & Deusa da Morte com seu espelho do universo. Sou o maior entre os treze deuses celestes, os sete da Terra e os nove do mundo subterrâneo a cultuar o Popol-vuh e as criações sucessivas, porque partilho do que é dela e da sua ação, enredado na sua teia. Só ela existe, sou apenas a sua sombra. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aquiaqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com o compositor, maestro, pianista, cantor, arranjador e violonista brasileiro Tom Jobim (1927-1994) Live Concert in Montreal; com a violinista estadunidense Sarah Chang interprentando o Concert Violin in D Minor de Jean Sobelius (1865-1957); o músico, compositor escritor e ativista britânico John Lennon (1940-1980): The Best; e com a cantora, compositora e multi-instrumentista irlandesa Sinéad O'Connor Live at AB - Ancienne Belgique. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA - [...] conflito e divisão não são nem distúrbios que infelizmente não podem ser eliminados, nem impedimentos empíricos que impossibilitam a plena realização de uma harmonia inatingível porque nunca seremos capazes de deixar nossas particularidades inteiramente de lado [...] a sociedade e os agentes sociais careceriam de essência e suas regularidades consistiriam tão só nas formas relativas e precárias de fixação que têm acompanhado a instauração de uma certa ordem. [...]. Trechos Hegemonia e estratégia socialista: por uma política democrática radical (Intermeios, 2015), do filósofo argentino Ernesto Laclau (1935-2014) e da cientista política belga Chantal Mouffe.

GÊNERO & IDENTIDADE - [...] A desconstrução da identidade não é a desconstrução da política; ao invés disso, ela estabelece como políticos os próprios termos pelos quais a identidade é articulada. Esse tipo de crítica põe cm questão a estrutura fundante em que o feminismo, como política da identidade, vem-sc articulando. O paradoxo interno desse fundacionismo é que ele presume, fixa e restringe os próprios "sujeitos” que espera representar e libertar. A tarefa aqui não é celebrar toda c qualquer nova possibilidade, qual possibilidade, mas redcscrcver as possibilidades que já existem, mas que existem dentro dc domínios culturais apontados como culturalmente ininteligíveis c impossíveis. Se as identidades deixassem dc ser fixas com as premissas de um silogismo político, e se a política não fosse mais compreendida como um conjunto de práticas derivadas dos supostos interesses de um conjunto de sujeitos prontos, uma nova configuração política surgiría certamente das ruínas da antiga. As configurações culturais do sexo e do gênero poderíam entáo proliferar ou, melhor dizendo, sua proliferação arual podería entáo tornar-se articulável nos discursos que criam a vida cultural inteligível, confundindo o próprio binarismo do sexo e denunciando sua não inaturalidade fundamenta. Que outras estratégias locais para combater o “não inatural” podem levar à desnaturalização do gênero com o tal? Trecho da obra Problemas dc gênero: feminismo e subversão da identidade (Civilização Brasileira, 2003), da filósofa pós-estruturalista estadunidense Judith Butler, tratando sobre mulheres como sujeito do feminismo, a ordem compulsória sexo/gênero/desejo, as ruínas circulas do debate contemporâneo, teorização do sinário e o unitário e além, identidade, poder e estratégias de deslocamento, Proibição, psicanálise e a produção da matriz heterossexual, permuta critica do estruturalismo, as estratégias da mascarada, Lacan, Riviere, Freud e a melancolia do gênero, complexidade do gênero e os limites da identificação, reformulação da proibição como poder, atos corporais subversivos, corpo-política, Foucault, Monique Wittig e a desintegração corporal e sexo fictício, entre outros. Veja mais aqui.

TAMANDARÉ – O município de Tamandaré pertence a mesorregião da Mata e Microrregião da Mata Meridional Pernambucana, tendo sua emancipação do município de Rio Formoso ocorrida em 28 de setembro de 1995. A etimologia do topônimo é controversa, sendo proveniente do tupi tamanduáré que significa tamanduá diferente, como tambpem repovoador a partir do vocábulo tupi tab-moi-inda-ré. Segundo a lenda tupi do sec. XVI, Tamandaré era um pajé que fez uma fonte que inundou o mundo e se abrigou no alto de uma palmeira com sua mulher. Quando as águas baixaram, o casal deu origem aos tupinambás. Quando os invasores europeus chegaram às terras, encontram a tribo caetés. O seu território se encontra na bacia hidrográfica dos rios Una, Mamucabas e Ilhetas, possuindo cinco praias em sua orla marítima: a Praia dos Carneiros, Praia das Campas, Praia de Tamandaré, Praia do Pontal do Lira e Boca da Barra. Veja mais aqui.

O CHEIRO DO RALO – [...] Saio correndo pelas ruas. E então já estou em minha sala outra vez. Entro no banheirinho e me agacho ao lado do ralo que eu mesmo tapei. Estou chocado. Raciocino, eu estava ofendido por ela não se lembrar do meu rosto e, no findo, era eu quem a confundia com um rosto qualquer. [...] Ele entra. Um raro livro. Jura ser a primeira edição. Chuto baixo, bem baixo. Quero quepense que não sei o que tenho ali. Ele me chama de ignorante. Reforço sua ideia dizendo: Baudelaire? Nunca ouvi falar. Heresia! Blasfema. Lês fleurs du mal. Não falo francês. Nem inglês. Nunca aprendi sequer a lóngua do pê. É a primeira edição francesa. Isso vale uma fortuna. Isso quem diz é você. O pior é que eu preciso da merda dessa grana. E por façar em merda, o cheiro é do ralo. [...]. Trecho do romance O cheiro do ralo (Devir, 2011), do cartunista e escritor Lourenço Mutarelli, contando a história do protagonista de aproximadamente quarenta anos, dono de uma loja que vende e compra antiguidade e que luta contra o eterno mau cheiro que sai do ralo do banheiro, retratando a alma human de forma cínica e bem humorada. Foi adaptado para o cinema em 2006, protagonizado por Selton Mello.

RECEITA PARA ARRANCAR POEMAS PRESOS – A maioria das doenças que as pessoas têm / São poemas presos. / Abscessos, tumores, nódulos, pedras são palavras / calcificadas, / Poemas sem vazão. / Mesmo cravos pretos, espinhas, cabelo encravado. / Prisão de ventre poderia um dia ter sido poema. / Mas não. / Pessoas às vezes adoecem da razão / De gostar de palavra presa. / Palavra boa é palavra líquida / Escorrendo em estado de lágrima / Lágrima é dor derretida. / Dor endurecida é tumor. / Lágrima é alegria derretida. / Alegria endurecida é tumor. / Lágrima é raiva derretida. / Raiva endurecida é tumor. / Lágrima é pessoa derretida. / Pessoa endurecida é tumor. / Tempo endurecido é tumor. / Tempo derretido é poema / Você pode arrancar poemas com pinças, / Buchas vegetais, óleos medicinais. / Com as pontas dos dedos, com as unhas. / Você pode arrancar poemas com banhos / De imersão, com o pente, com uma agulha. / Com pomada basilicão. / Alicate de cutículas. / Com massagens e hidratação. / Mas não use bisturi quase nunca. / Em caso de poemas difíceis use a dança. / A dança é uma forma de amolecer os poemas, / Endurecidos do corpo. / Uma forma de soltá-los, / Das dobras dos dedos dos pés, das vértebras. / Dos punhos, das axilas, do quadril. / São os poema cóccix, os poemas virilha. / Os poema olho, os poema peito. / Os poema sexo, os poema cílio. / Atualmente ando gostando de pensamento chão. / Pensamento chão é poema que nasce do pé. / É poema de pé no chão. / Poema de pé no chão é poema de gente normal, / Gente simples, / Gente de espírito santo. / Eu venho do espírito santo / Eu sou do espírito santo / Trago a Vitória do espírito santo / Santo é um espírito capaz de operar milagres / Sobre si mesmo. Poema da poeta, filósofa, psicóloga e psicanalista capixaba, Viviane Mosé. Veja mais aqui, aqui e aqui.

LANÇAMENTO DOS LIVROS OCIDENTE TARDIO & TEORIA DA POESIA ABSOLUTA
Prestigiando o lançamento dos livros Ocidente tardio (Tarcisio Periera, 2017), do poetamigo Vilmar Carvalho & Teoria da Poesia Absoluta (Autor, 2017), do poetamigo Admmauro Gommes & recital da professora Eliete Carvalho, ao lado poeta Genésio Cavalcanti. Foto: Jane Barros.

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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Imagem: arte da premiada artista australiana Esther Erlich.
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NÉLIDA PIÑON, OCTAVIO PAZ, AMIA SRINIVASAN, CONCEIÇÃO LIMA & NANÁ VASCONCELOS

  Imagem: Acervo ArtLAM .   Interregno das personas... - Havia o que já foi sem que desse nunca pelo que virá: só crescia de noite para ...