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segunda-feira, agosto 29, 2016

KAFKA, PERLS, MACHADO, CARMELA GROSS, DISCANTUS, LUBA LUKOVA, PAULO ITO & GUTTUSO

PAPO DE FABOS - Teve um cara aí que disse que o Senado é um hospício! Num sei quem foi, nunca vi mais gordo!Foi mesmo? Bingô. Acertou em cheio! Nada, errou feio. Oxe, errou? Errou, porque pra mim não é um hospício, o Congresso todo é um pandemônio no sentido grego da palavra! Grego? Sim: uma concentração de demônios! Vôte! E num é não? Pra mim é a representação do povo! E o povo o que é? O povo é todo mundo! Nada, tudo uns analfabetos, não sabem votar, tudo uns brucutus! E, por acaso, você não faz parte desse povo? Eu não, sou letrado e não me misturo, tenho consciência e se eu estivesse no poder eu daria um jeito no Brasil! Como e que jeito? Oxe, eu sei como fazer, botava tudo na reta! Como, quem seria seus ministros? Ué, minha família! Comigo é assim: pros meus tudo, pros inimigos o paredão! Eita, isso é nepotismo! E tem melhor que minha família e os meus amigos? Danou-se! Danou-se, nada! Sei escolher os amigos e tenho a melhor e a mais honesta família do mundo! E o resto do povo? E eu sei!?! O povo que se dane, eu resolvendo o meu, o resto que se fôda! Comigo é assim: conversa de broco, ouvidos moucos, meu! Eu sei como dá jeito no Brasil! Ah, tá! Quer dizer que os bons estão com você, o resto não presta! Claro, ora, vê se eu elegi algum desses picaretas! E você votou em quem? Votei em branco, não tenho responsabiliade nenhuma sobre a merdaria que grassa agora! Hum, pra você isso é o certo? Todo dia de eleição, faço a minha parte: comprovo e vou lá, voto em nenhum. A culpa é dos outros que não sabem votar! Ah, isso lhe exime de qualquer responsabilidade, né? É, não faço parte dessa mundiça que não sabe votar! Que coisa!?! Sou feito os gringos do primeiro mundo, sei como fazer, por isso que o Brasil não presta, com um povo desse que nem é gente, um bando de preguiçoso e burro! Destá! E você acha que está certíssimo, né? Mas mudando de conversa, vamos deixar esse povo pra lá, tudo uns imprestáveis. Na verdade preciso de um favor seu! Quando levo nisso? Ué, você é dos meus! Sou cristão: é dando que se recebe! Preciso de um favor! Vamos lá, diga o que é e quanto vai cair de ôia na minha algibeira! Não seja mercenário! Pra mim é assim: santo que não me ajuda pode cair da parede! Ah, assim não dá! Comigo não tem venha nós, o vosso reino, mostre logo dindim preu me animar e comprar a sua briga! Amigo é pra ajudar na lição de Jesus! Ah, não sou igreja pra obrar caridade, amigo é pra acudir o outro, comeu, lavou, deixa pra lá; se gostou, vai de novo até abusar e jogar fora! Moral da história: dito pelo não dito, ficou que o Congresso e todos os poderes da Nação são um pandemônio e o Brasil todo é um hospício, eles não. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui, aqui e aqui.

Curtindo o álbum Hortus Deliciarum (Opus 111 - Hymnaire de Pairis Anonymous, Naïve/1998-2003), do octeto de vozes femininas Discantus, dirigido por Brigitte Lesne com composições da mística monja beneditina, compositora, poeta e dramaturga alemã Hildegard de Bingen (1098-1179), a Sibila do Reno.

PESQUISA: 
Preciso escrever sobre mim mesmo. Eu sou meu laboratório. A privacidade das suas experiências não é minha conhecida, exceto por revelações. Não há ponte entre homem e homem. [...] Eu adivinho e imagino, empatizo e sei lá que mais. Pois estranhos somos, e estranhos ficamos, exceto algumas identidades em que eu e você nos juntamos. Ou melhor ainda, onde você me toca e eu toco você, quando a estranheza se faz familiar. Venha, faça os discursos que quiser. Você fala de si, e não do mundo. Pois há espelhos no lugar da luz e do brilho das janelas. Você vê a si mesmo, e não a nós. Só projeções, livre-se delas. Self mais pobre, recupere aquilo que é apenas seu, torne-se essa projeção, entre nela bem a fundo. O papel dos outros é o seu. Venha, recupere e cresça mais. Assimile o que você negou. Se você odeia algo que existe, isso é você, embora seja triste. Pois você é eu e eu sou você, você odeia em si mesmo, aquilo que você despreza. Você odeia a si mesmo e pensa que odeia a mim. Projeções são a pior coisa. Acabam com você, o deixam cego transformam montinhos em montanhas para justificar seu preconceito. Recupere os sentidos. Veja claro. Observe aquilo que é real, E não aquilo que você pensa.
Trecho extraído da obra Escarafunchando Fritz: dentro e fora da lata de lixo (Summus, 1979), do psicólogo, psicoterapeuta e psiquiatra alemão Friederich Perls (1893-1970). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

LEITURA 
A imagem do lar emergia continuamente e as lembranças dele o preenchiam. Também lá erguia-se na praça principal uma igreja, cercada em parte por um velho cemitério e este por um muro alto. Só alguns poucos meninos tinham escalado aquele muro, K. também não o havia conseguido. Não era curiosidade o que os movia, o cemitério não tinha mais nenhum segredo para eles, já haviam entrado várias vezes pela pequena porta gradeada, o que queriam era somente conquistar o muro alto e liso. Uma tarde — a praça quieta e vazia estava inundada de luz; quando K. a vira assim, antes ou depois? — ele o conseguiu de uma maneira surpreendentemente fácil; num lugar onde já fora vencido com frequência, ele escalou o muro na primeira tentativa, com uma pequena bandeira entre os dentes. O cascalho ainda rolava debaixo dele quando já estava em cima. Fincou a bandeira, o vento esticou o tecido, ele olhou para baixo e à sua volta, pelo alto dos ombros, em direção à cruz que afundava na terra, ninguém agora era maiordo que ele ali. Por acaso então passou o professor, forçou-o a descer com um olhar irado, na descida K. feriu o joelho, só chegou em casa com esforço, mas ele tinha estado com certeza em cima do muro, o sentimento dessa vitória parecia-lhe na época o suporte para uma longa vida, o que não fora completamente tolo, pois agora, tantos anos depois, vinha ajudá-lo na noite de neve no braço de Barnabás. [...].
Trecho da obra O castelo (Companhia das Letras, 2000), do escritor tcheco Franz Kafka (1883-1924). Veja mais aqui, aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA:
[...] Pelo que respeita especialmente à patifaria Panamá [...] Não faltam réus na porcaria Panamá, sejam eles castigados, como merecem. [...] Quando um homem tem a glória de Suez e perpetuo renome, é triste vê-lo metido com papeluchos falsos. [...].
Trecho da crônica de 12 de dezembro de 1892 (M. Jackson Inc, 1938), escrita pelo escritor Machado de Assis (1839-1908). Veja mais aqui.

IMAGEM DO DIA; 
A arte da pintora, escultora, artista visual, desenhista, gravadora, professora e artista multimídia Carmela Gross. Veja mais aqui e aqui.

Veja mais sobre Nascente Poético, Goethe, Martin Heidegger, Victor Assis Brasil, Tônia Carrero, Peter Weir, Man Ray, Giorgio Vasari & Swazi África aqui.

E mais: Edu Lobo, John Locke, Fagundes Varela, David Plante, Jiří Růžek, Oscar Pereira da Silva, Alessandra Negrini, Ana Carolina Lima, A esposa sábia & o Lítero Cultural – Selmo Vasconcellos aqui.

DESTAQUE
A arte do artista de rua Paulo Ito.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do pintor italiano Renato Guttuso (1911-1987).
Veja mais aquiaqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Injustiça, da designer e artista visual búlgara Luba Lukova.
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
Veja  aqui e aqui.


sexta-feira, julho 03, 2015

KAFKA, AYN, LACAN, LEOPARDI, JANACEK, SOPHIA LOREN, LILIANA, BREUNINGER & CHEGA DE PRECONCEITO!!!!


VAMOS APRUMAR A CONVERSA: NO DIA NACIONAL DE COMBATE À DISCRIMINAÇÃO RACIAL: PRECONCEITO, Ó! XÔ PRA LÁ – Eita, piara! Como o negócio anda morno quase apagando, feito o mandú que a gente empurra, empurra, dá sinal de vida e estanca de novo, precisando tornar a fazer força, debreando na segunda, pra ver se no tranco a coisa pega, tá na hora da coisa se ajeitar. Ora, ora, vamos aprumar a conversa! De mesmo. A coisa não está as mil maravilhas, nem no mormaço do roxo brabo. Tá não! Está na hora de se arregalar os olhos. Ah, isso tá. Desempesta, ora! O pior é que a coisa empaca na manchete da moda e mais nada interessa fora disso. Todo mundo está discutindo a reforma disso e daquilo - cada um que puxe pronde for mais conveniente -, mais reforma disso e daquilo e nada sai do canto, tudo emperrado; desigualdade comendo no centro, ricaço berrando contra tudo, o povinho de facho apagado, violência do mesmo jeito, quer dizer, enfim, o Brasil continua o mesmo. E a gente alimentando esperança. Ainda estou esperando o dia amanhecer com novidade sob o sol. A injustiça continua a ser o principal problema do Brasil. E quando se junta a outros comportamentos desagregadores - por exemplo, o do preconceito -, aí que o negócio enfeia mesmo. Nossa, fica mais breu que noite de invernada. O tal do preconceito é uma praga! Mesmo que se insista nos direitos e garantias fundamentais de que todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza; que é inviolável a liberdade de consciência e de crença, bem como a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas; e muitos outros direitos e deveres individuais e coletivos, parece que está ou todo mundo mouco, ou ninguém sabendo ou fazendo não saber de nada. Mesmo assim, a discriminação é geral de branco com preto, com mulato, com cafuzo, com mameluco, com flamenguistas e todos entre si; de rico com pobre e ao contrário; de rockeiro com sambista e destes com todo o resto e se misturando com aquilo e aqueloutro; de neonazista com judeu, nordestino, homossexual e bote lenha na homofobia; católico com protestante e de todos com budistas, xiitas, porralouquistas e saravás; de heterossexual com travestis, sadomazoques e camuflados mil; do metido a besta diplomado pelo ignorante; de abastados razoáveis com desafortunados absolutos; e por aí vai numa cambada de chatos sectários que engrossam as fileiras da cabilda dos pós-modernos. Isso sem contar com a famigerada sede de maçarico no consumo - se pode consumir, tudo bem; se não, cai fora. Na verdade, é a lei de que você só vale pelo que tem e pelo mal que possa fazer. Nossa! É um sortimento de parelhas, grupelhos de panelinha e máfias segregadoras, capazes de fincar estaca no molho robusto que está do lado de fora da fuxicada esotérica deles. Maior charanga de exclusão. Isso é maior ainda e mais sentido na pele dos da terceira idade, dos PNE´s, ex-detentos, afrodescendentes, os acometidos por qualquer enfermidade, desempregados e, ainda, as mulheres. Nossa, nunca se viu tão reinante a possibilidade excludente quando se luta aguerridamente pela inclusão. A totalidade do inventário humano condena veementemente todas as atrozes injustiças que a história registrou ao longo dos tempos. Tudo que está registrado nos anais históricos causa a maior repulsa. E a indignação chega ao ponto de interrogar: como é possível ter isso acontecido? É verdade. A história dos vencedores não é tão gloriosa assim. Subjacente a esses louros todos, ainda ruge o sangue revoltado dos perdedores. Mas a hipocrisia reina desde antanho. O preconceito é vigente e flagrante nas mais diversas circunstâncias do cotidiano. Não se respeita a diferença, lamentavelmente; é tudo na base do resolva o meu e o resto que se foda. Fico, portanto, com a lição das mãos: quantos dedos temos na mão? Quantos deles são iguais? Se faltar um dedo, faremos a tarefa, mas com dificuldade. Significa, portanto, que todos, juntos, complementam-se para a realização da missão maior da mão: dar as mãos. Vamos? Aí, eu canto Entrega: Dê-me a sua mão nessa rua. Nossos sonhos são tantos que eu já nem sei seguir por veleidades... E vamos aprumar a conversa & tataritaritatá!!! Veja mais aqui.

Imagem: Nude Oil On Canvas, do artista plástico alemão Helmut Breuninger.

Curtindo a ópera em três atos Katia Kabanová (1921 - Chandos Records, 2007),do compositor tcheco Leoš Janáček (1854-1928), soprano Cheryl Barker & Chœur & Orchestra de l'Opéra National Gallois, direction Carlo Rizzi. Veja mais aqui.

A REVOLTA DE ATLAS – No livro A revolta de Atlas (Arqueiro, 2010), a filósofa, escritora, dramaturga e roteirista estadunidense Ayn Rand (1905-1982), dramatiza seu homem ideal, o produtor que vive por seu próprio esforço e não dá nem recebe o imerecido, que honra as conquistas e rejeita a inveja. Da obra destaco o trecho: [...] Ela o examinava, sentindo-se vagamente mal. Não havia hostilidade no rosto dele. Kellogg a olhava diretamente, respondia de modo simples e franco.– Por que então deseja sair? – É uma questão pessoal. – Está doente? Tem algum problema de saúde? – Não. – Vai deixar a cidade? – Não. – Recebeu alguma herança que lhe permita aposentar-se? – Não. – Vai trabalhar para viver? – Sim. – Mas não deseja trabalhar na Taggart Transcontinental. – Exatamente. – Deve ter acontecido alguma coisa que o levou a tomar essa decisão. O que foi? – Nada, Srta. Taggart. – Gostaria que me dissesse. Tenho uma razão pessoal para querer saber. – Aceitaria minha palavra, Srta. Taggart? – Sim. – Nenhuma pessoa, coisa ou acontecimento daqui teve nada a ver com a minha decisão. – Você não tem nenhuma queixa específica contra a Taggart Transcontinental? – Nenhuma. – Então talvez você reconsidere quando ouvir a oferta que tenho a lhe fazer. – Sinto muito, Srta. Taggart. Não posso. – Posso lhe dizer o que tenho em mente? – Se a senhorita desejar. – Acredita que decidi lhe oferecer este posto antes de você pedir para me ver? Quero que saiba disso. – Sempre acreditei na senhorita. – É o posto de superintendente da divisão de Ohio. É seu, se quiser. O rosto dele não mostrou qualquer reação, como se as palavras não tivessem qualquer sentido ou fossem dirigidas a um selvagem que jamais tivesse ouvido falar de ferrovias. – Não estou interessado, Srta. Taggart. Depois de um curto intervalo, ela insistiu: – Diga o seu preço, Kellogg. Quero que você fique. Posso cobrir a oferta de qualquer outra ferrovia. – Não vou trabalhar para nenhuma outra. – Pensei que você gostasse do seu trabalho. Aparecia nele o primeiro sinal de emoção, seus olhos se abriram um pouco mais, e ouviu-se uma ênfase contida na voz quando ele respondeu: – E gosto. – Então me diga o que devo fazer para que você fique! – gritou ela. A explosão foi tão obviamente franca e incontrolável que ele a olhou como se ela o houvesse atingido. – Talvez não seja correto eu vir aqui lhe dizer que estou me despedindo, Srta. Taggart. Eu sei que me pediu para avisar a fim de que pudesse me fazer, em tempo, uma contraproposta. Assim, se venho, dou a impressão de que há espaço para negociação. Mas não há. Vim apenas porque... não quis faltar com minha palavra com a senhorita. Um ligeiro tremor na voz dele lhe deu uma súbita revelação de quanto o interesse e o pedido de Dagny tinham significado para ele e de que a decisão não tinha sido fácil. – Kellogg, há alguma coisa que eu possa oferecer para você ficar? – Nada, Srta. Taggart. Nada neste mundo. Ele se voltou para deixar a sala. Pela primeira vez na vida ela sentiu-se perdida e derrotada. – Por quê? – perguntou ela, sem se dirigir a ninguém. Ele parou. Deu de ombros e sorriu. Era como se ele voltasse à vida, e aquele era o sorriso mais estranho que ela jamais vira: continha um contentamento interior e secreto, e desânimo, e infinita amargura. E ele disse: – Quem é John Galt? Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

DÁRIOS DE VIAGEM – O livro Diários de viagem (Atalanta, 1998), do escritor tcheco Franz Kafka (1883-1924), traduzido por Marcelo Rouanet e organização, prefácio e notas de Cecília Prada, conta as viagens do autor de Friedland e Reichenberg (1911), Lugano-Paris-Erlenbach (1911), Weimar-Jungborn (1912), Viena e Riva (1913), Hellerau a Lübeck (1914) e Viena e Ujhel (1915), revelando outra faceta da sua personalidade soturna: a da ironia em acontecimentos e pensamentos sobre viagens feitas pela Europa. Da obra destaco o trecho: Reichenberg. É bastante misterioso o motivo real das pessoas andarem apressadamente ao anoitecer, numa cidade pequena. Se moram nos arrabaldes, então deveriam usar o bonde, porque as distancias são muito grandes. Se vivem, ao contrário, no próprio povoado, não há motivo para tanta pressa, pois as distancias não existem. No entanto as pessoas cruzam com passadas largas essa praça que para uma aldeia não seria muito grande, e cuja prefeitura, pelo seu simples tamanho, torna ainda menor (sua sombra pode cobri-la inteira, facilmente). Enquanto isso, olhando-se a partir da praça, torna-se difícil acreditar nas dimensões reais do edifício, pois a primeira impressão vem do contraste entre a pequenez de uma e a grandeza do outro. Um policial ignora o endereço da Caixa de Seguros Operários, outro o da Exposição do referido instituto, outro nem sequer sabe onde fica a Johannesgasse. A explicação que dão é que estão há pouco tempo no serviço. Por causa de um endereço tive que ir ao distrito, onde descansavam policiais de vários tipos, todos usando uniformes que, pela beleza, bom estado e colorido, eram surpreendentes para o local, já que nas ruas predominavam sombrias capas de inverno. As ruas estreitas só permitem o trânsito numa única direção. É por isso que o bonde percorre vias diferentes no caminho para a estação e na volta. Vem da estação passando pela Wienestrasse (onde eu estava hospedado, no hotel Eiche) e vai para lá pela Schückerstrasse. Fui três vezes ao teatro. As Ondas do Mar e do Amor. Sentei-me no camarote; um ator muito bom fazia muito barulho no papel de Kaukleros; muitas vezes vieram-me lágrima aos olhos, como no final do primeiro ato, quando os olhares de Hero e Leandro não conseguiam se separar. Hero vem pela porta do tempo e através dela se percebe algo, que só pode ser uma geladeira. No segundo ato, um bosque, como nas antigas apresentações de gala; era comovente, os cipós entrelaçados de árvore em árvore. Tudo era musgo e verde-escuro. O pano de fundo com a parede do quarto da torre volta a aparecer na noite seguinte, em Miss Dudelsack. Do terceiro ato em diante a peça desmorona, como se houvesse um sabotador por trás de tudo. Veja mais aqui, aqui e aqui.

CANTOS: A LUA E O INFINITO – O livro Cantos (1835 - Nephelibata, 2014), do poeta italiano Giacomo Leopardi (1798-1837), traduzido pelo poeta e professor universitário Renato Suttana, reúne pomas do autor, dos quais destaco o Canto XIV À Lua: Ó graciosa lua, bem me lembro / que, faz um ano já, sobre este outeiro, / cheio de angústia, eu vinha contemplar-te: / e pendias então sobre esta mata, / tal como agora, e inteira a iluminavas: / mas nebuloso e trêmulo do pranto / que em meus cílios manava o teu semblante / aos olhos me surgia, que era triste / a minha vida e ainda é, sem ter mudado, / ó tão querida lua. E entanto agrada-me / relembrar esse tempo e enumerar / os estados de minha dor. Oh, como / no tempo juvenil, quando ainda é longa / a esperança, e a memória ainda curta, / grato é lembrar as coisas que passaram, / mesmo que tristes e que as mágoas durem! Também o Canto XII O infinito: Sempre caro me foi este ermo outeiro, / e aquela sebe, que em tão grande parte / do horizonte final o olhar exclui. / Mas sentado, a mirar intermináveis / espaços além desses, sobre-humanos / silêncios e sossegos profundíssimos, / me afundo no pensar, onde por pouco / meu coração não se amedronta. E, como / ouço o vento roçar contra estas plantas, / o silêncio infinito comparando / vou a tal voz: e sobrevêm-me o eterno, / as mortas estações, mais a presente / e viva, e o seu rumor. Assim, por esta / imensidade o meu pensar se afoga: / e o naufragar me é doce neste mar. Veja mais aqui.

AS FÚRIAS E ALICE NO ESPELHO – A atriz Liliana Castro tem realizado a sua trajetória artística no teatro e na televisão, tendo começado ainda jovem na gravação de comerciais na Itália e na Venezuela, iniciando sua carreira no teatro com a sua formação em Interpretação, no Rio de Janeiro. A sua estreia teatral foi no espetáculo As Fúrias (1998), na companhia Os Fodidos Privilegiados. Foi nessa mesma época que passou a atuar na televisão, passando tanto pela TVA, Globo, Cultura e Record. Em 1999 foi a vez de participar do espetáculo Alice através do espelho, seguindo-se Sob o sol em meu leito após a água (2001), Casca de Noz (2003), Tudo é permitido (2005), Não existem níveis seguros para consumo destas substancias (2006), Toda nudez será castigada (2006), Por uma vida um pouco menos ordinária (2007) e, por fim, Alice através do espelho (2012), quando ela resolveu morar nos Estados Unidos para estudar teatro e dança. Aqui nossos parabéns para a jovem atriz. E veja mais aqui.

TEMPI NOSTRI – A comédia Tempi Nostri (Nossos Tempos, 1954), do cineasta italiano Alessandro Blasetti (1900-1987) e co-direção de Paul Paviot, é uma compilação em cinco partes de The Baby, contando a história de um casal que decidem abandonar o filho recém-nascido à própria sorte. A película tem vários segmentos como Don Corradino, Gli innamorati, La macchina fotografica, Scena all'aperto, Il baccio, Il pupo, Mara, entre outros. São, no total, nove episódios, incluindo uma prostituta que se apaixona por um professor; um casal com muitas crianças são tentados a abandonar o recém-nascido; dois extras idosos recordam a sua namorada de infância; uma velha salva a vida de um sacerdote depois de ter confessado sua intenção de suicídio; um motorista mulherengo incorrigível chega ao ponto da mulher querer amarrá-lo, entre outras. O destaque do filme vai para a atriz italiana Sophia Loren que contava à época vinte anos de idade, já tendo participado de mais de três dezenas de filmes. Veja mais aqui, aqui e aqui.

IMAGEM DO DIA
 CASO AIMÉE – É o caso que envolve Maguerite Anzieu (1892-1981), que tornou-se Aimée do caso de psicose paranóica narrado por Jacques Lacan em sua tese de medicina 1932, revelado por Elizabeth Roudinesco e reconstituída a sua biografia com testemunhos de membros da família. Ao se casar, durante a gravidez ela começou a ter depressão e mania de perseguição. Começou a desenvolver uma vida dupla com o nascimento do primeiro filho: escrevia em um diário suas atividades e desenvolvia uma existência imaginária feita de ilusões. Escreveu dois romances sem propósitos de publicações, convencendo-se de que era vítima de perseguição por Huguette Duflos, uma famosa atriz da cena parisiense da década de 1930. Em abril 1931 tentou matá-la com uma faca, mas a atriz se esquivou, e Marguerite foi internada no Hospital Sainte-Anne, confiada a Jacques Lacan, que viu nela um caso de erotomania e paranóia de autopunição. Segundo Elisabeth Roudinesco e Michel Plon (Dicionário de Psicanálise – Zahar,1998), ela acusava Lacan de havê-la tratado como um caso e não como um ser humano, mas censurava-o sobretudo por nunca lhe ter devolvido os manuscritos que ela lhe confiara no passado, quando de sua internação no Hospital Sainte-Anne. Veja mais aqui, aqui e aqui.

Veja mais sobre:
Cruzetas, os mandacarus de fogo, Concepção dialética da história de Antonio Gramsci, Sob o céu dos trópicos de Olavo Dantas, O escritor e seus fantasmas de Ernesto Sábato, a pintura de Eliseo Visconti, a fotografia de Rita-Barreto, a arte de Benício & a música de Rosana Sabença aqui.

E mais:
No colo do pai de Hanif Kureishi, Viagem nas primeiras horas de Wole Soyinka, A crise na América Latina de Emir Sader, Técnica teatral de Erwin Piscator, a arte de Václav Hollar, a pintura de Carl Kricheldor & Isaac Lazarus Israels, a música de João Bosco, o cinema de Stelvio Massi & Joan Collins aqui.
Curto e grosso: O balanço da copa, O anti-édipo de Deleuze & Guattari, poemas de Arthur Rimbaud, Infância, imagem & literatura aqui.
Dois poemetos de amor pra ela: Beiju & Gula voraz aqui.
Frínico & o povo chora, Direito Ambiental, Educação Sexual, Psicopatologia, Psicose, perversão & neurose aqui.
Nem te conto & Big Shit Bôbras, O lobo da estepe de Hermann Hesse, Repenso o mundo de Wislawa Szymborska, Elegias & sátiras de Xenófanes de Colofão, a música de Gluck & Sylvia McNair, o cinema de Phil Karlson & Marilyn Monroe, a pintura de Richard Geiger & Philippe de Rougemont, a arte de Osvaldo Jalil & Bia Sion aqui.
E se nada acontecesse, nada valeria, Agá de Hermilo Borba Filho, Fábulas de Leonardo da Vinci, a música de Tomoko Mukaiyama, As glândulas endócrinas de M. W. Kapp, Compassos Cia de Danças, a arte de Eric Gill & Perron, A pintura de Bruno Di Maio & Madalena Tavares aqui.
É domingo nas mãos, Cinema de Ascenso Ferreira, A obra de arte & a reprodução de Walter Benjamim, Cinema Brasileiro, O que será de Chico Buarque, a pintura de Giuseppe Cacciapuoti & Umberto Brunelleschi aqui.
Aprendendo no compasso da vida, A psicologia social de Arthur Ramos, Sharon & minha sogra de Suad Amiry, a música de Nação Zumbi, o pensamento de Roger Bacon, Hans Richter & Transhumance, a arte de Georges Ribemont-Dessaignes & Jiddu Saldanha aqui.
O dia amanhece e é maravilhoso viver, A literatura brasileira de Afrânio Coutinho, O teatro de Françoise Sagan & Catherine Deneuve, o pensamento de Aristóteles, a música de Maggie Cole & a Sinfonia Pornográfica de Charles Baptiste, a pintura de Orly Faya, a arte de Hannah Höch & Arte Yoga aqui.
A filharada de Zé Corninho, Travessia marítima de Thomas Mann, O casamento de Anne Morrow Lindbergh, a música de Charlotte Moorman, O homem & a natureza de Alan Watts, o cinema de Rainer Werner Fassbinder & Hanna Schygulla, Emmanuelle Seigner, a arte de Hansen Bahia & Attila Richard Lukacs aqui.
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Imagem: Nude Woman Reading, do pintor alemão Hermann Fenner-Behmer (1866-1913).
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CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Paz na Terra:
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.

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sexta-feira, maio 29, 2015

KAFKA, GOLDMAN, ALBÉNIZ, GIL VICENTE, UHDE, BENING, MEIMEI CORRÊA & FREDDY.


VAMOS APRUMAR A CONVERSA? – ENTREGA: Dê-me sua mão nessa rua. Nossos sonhos são tantos que já nem sei seguir por veleidades, por esta eternidade de sentir só oh! tenha dó. Sou curumim da flor de anil, mil emoções a mil darão vigor à nossa lida, ressurreição da vida quando valer o pó. Por favor não vá fingir sorriso de manhã, sou o carinho da areia na entrega do mar. E até invadiu minhas veias o fogo de amar. Não vá fazer do desejo agonia malsã porque nossas mãos anunciam: o amor já está prá chegar. Dê-me sua mão, as minhas são suas e faça delas duas a fonte que jamais secou. Faça delas a alegria da vitória e do vencedor. Faça assim no calor dos seus dias e de noite no feitiço do amor (Primeira Reunião: Bagaço, 1992). Poema musicado por Jucimar Luiz Siqueira – Mazinho. Veja mais aqui, aqui e aqui.

Imagem: Nude study, do pintor alemão Fritz von Uhde (1848-1911)

Curtindo a Suite Española, Op.47 - in honor of the Queen of Spain (1886-1887), do compositor, pianista e dramaturgo espanhol Isaac Albéniz (1860-1909), com a New Philarmonia, regente Rafael Frühbeck de Burgos.

O INDIVIDUO NA SOCIEDADE – O livro O individuo, a sociedade e o Estado e outros ensaios (1940 - Hedra, 2007), da anarquista lituana Emma Goldman (1869-1940), trata acerca da defesa da liberdade do individuo criticando a submissão ao pode estatal e a militarização estratégia dos Estados Unidos. Da obra destaco o trecho inicial: A dúvida reina no espírito dos homens, porque a nossa civilização treme nas suas bases. As instituições atuais não inspiram mais confiança e os mais inteligentes compreendem que a industrialização capitalista vai ao encontro dos próprios fins que ela entendeu empreender. O mundo não sabe como sair disso. O parlamentarismo e a democracia fraquejam e alguns acreditam encontrar uma salvação optando pelo fascismo ou por outras formas de governos fortes. Do combate ideológico mundial sairão soluções para os problemas sociais urgentes que se colocam atualmente (crises econômicas, desemprego, guerra, desarmamento, relações internacionais, etc.). Ora, é destas soluções que dependem o bem estar do indivíduo e o destino da sociedade humana. O Estado, o governo com as suas funções e poderes, torna-se assim o centro de interesses do homem que reflete.Os desenvolvimentos políticos que se têm dado em todas as nações civilizadas levam-nos a colocar estas questões: Queremos um governo forte? Deveremos preferir a democracia e o parlamentarismo? O fascismo, de uma forma ou de outra, a ditadura quer seja monárquica, burguesa ou proletária - oferecerão soluções para os males ou para as dificuldades que assaltam a nossa sociedade? Por outras palavras, conseguiremos fazer desaparecer as taras da democracia com a ajuda de um sistema ainda mais democrático, ou antes deveremos resolver a questão do governo popular com a espada da ditadura? A minha resposta é: nem com um nem com a outra. Eu sou contra a ditadura e o fascismo, oponho-me aos regimes parlamentares e ás chamadas democracias políticas. Foi com razão que se falou do nazismo como de um ataque contra a civilização. Poder-se-ia dizer o mesmo de todas as formas de ditadura, de opressão e de coação. Vejamos, o que é a civilização? Todo o progresso foi essencialmente marcado pelo aumento das liberdades do indivíduo em desfavor da autoridade exterior tanto no que respeita à sua existência física como política ou econômica. No mundo físico, o homem progrediu até submeter as forças da natureza e utilizá-las em seu próprio proveito. O homem primitivo dá os seus primeiros passos na estrada do progresso assim que consegue fazer brotar o fogo, reter o vento e captar a água, ultrapassando-se a si próprio. [...] Veja mais aqui.

A METAMORFOSE – A novela A metamorfose (1915 – Ulisseia, 2011), do escritor tcheco Franz Kafka (1883-1924), conta a história de um caixeiro viajante que amanhece transformado num monstruoso inseto e as dificuldades dessa transformação, suas angustias, até que a família primeiro sente medo, depois o aceita e, enfim, o odeia e resolve livrar-se dele. Da obra destaco os trechos iniciais: Numa manhã, ao despertar de sonhos inquietantes, Gregório Samsa deu por si na cama transformado num gigantesco inseto. Estava deitado sobre o dorso, tão duro que parecia revestido de metal, e, ao levantar um pouco a cabeça, divisou o arredondado ventre castanho dividido em duros segmentos arqueados, sobre o qual a colcha dificilmente mantinha a posição e estava a ponto de escorregar. Comparadas com o resto do corpo, as inúmeras pernas, que eram miseravelmente finas, agitavam-se desesperadamente diante de seus olhos. Que me aconteceu ? — pensou. Não era nenhum sonho. O quarto, um vulgar quarto humano, apenas bastante acanhado, ali estava, como de costume, entre as quatro paredes que lhe eram familiares. Por cima da mesa, onde estava deitado, desembrulhada e em completa desordem, uma série de amostras de roupas: Samsa era caixeiro-viajante, estava pendurada a fotografia que recentemente recortara de uma revista ilustrada e colocara numa bonita moldura dourada. Mostrava uma senhora, de chapéu e estola de peles, rigidamente sentada, a estender ao espectador um enorme regalo de peles, onde o antebraço sumia! Gregório desviou então a vista para a janela e deu com o céu nublado — ouviam-se os pingos de chuva a baterem na calha da janela e isso o fez sentir-se bastante melancólico. Não seria melhor dormir um pouco e esquecer todo este delírio? — cogitou. Mas era impossível, estava habituado a dormir para o lado direito e, na presente situação, não podia virar-se. Por mais que se esforçasse por inclinar o corpo para a direita, tornava sempre a rebolar, ficando de costas. Tentou, pelo menos, cem vezes, fechando os olhos, para evitar ver as pernas a debaterem-se, e só desistiu quando começou a sentir no flanco uma ligeira dor entorpecida que nunca antes experimentara. Oh, meu Deus, pensou, que trabalho tão cansativo escolhi! Viajar, dia sim, dia não. É um trabalho muito mais irritante do que o trabalho do escritório propriamente dito, e ainda por cima há ainda o desconforto de andar sempre a viajar, preocupado com as ligações dos trens, com a cama e com as refeições irregulares, com conhecimentos casuais, que são sempre novos e nunca se tornam amigos íntimos. Diabos levem tudo isto! Sentiu uma leve comichão na barriga; arrastou-se lentamente sobre as costas, — mais para cima na cama, de modo a conseguir mexer mais facilmente a cabeça, identificou o local da comichão, que estava rodeado de uma série de pequenas manchas brancas cuja natureza não compreendeu no momento, e fez menção de tocar lá com uma perna, mas imediatamente a retirou, pois, ao seu contato, sentiu-se percorrido por um arrepio gelado. Voltou a deixar-se escorregar para a posição inicial. Isto de levantar cedo, pensou, deixa a pessoa estúpida. Um homem necessita de sono. Há outros comerciantes que vivem como mulheres de harém. Por exemplo, quando volto para o hotel, de manhã, para tomar nota das encomendas que tenho, esses se limitam a sentar-se à mesa para o pequeno almoço. Eu que tentasse sequer fazer isso com o meu patrão: era logo despedido. De qualquer maneira, era, capaz de ser bom para mim — quem sabe? Se não tivesse de me aguentar, por causa dos meus pais, há muito tempo que me teria despedido; iria ter com o patrão e lhe falar exatamente o que penso dele. Havia de cair ao comprido em cima da secretária! Também é um hábito esquisito, esse de se sentar a uma secretária em plano elevado e falar para baixo para os empregados, tanto mais que eles têm de aproximar-se bastante, porque o patrão é ruim de ouvido. Bem, ainda há uma esperança; depois de ter economizado o suficiente para pagar o que os meus pais lhe devem — o que deve levar outros cinco ou seis anos —, faço-o, com certeza. Nessa altura, vou me libertar completamente. Mas, para agora, o melhor é me levantar, porque o meu trem parte às cinco [...]. Veja mais aqui e aqui.

AUTO DA BARCA DO INFERNO – A alegoria dramática O auto da barca do inferno (ou auto da moralidade, 1517), do poeta e dramaturgo português Gil Vicente (1465-1537), é uma sátira social da sociedade lisboeta das décadas iniciais do século XVI. Do texto destaco a cena inicial: Diabo — À barca, à barca, houlá! Que temos gentil maré! — Ora venha o carro a ré! Companheiro — Feito, feito! Bem está! Vai tu muitieramá, e atesa aquele palanco e despeja aquele banco, para a gente que virá. À barca, à barca, hu-u! Asinha, que se quer ir! Oh, que tempo de partir, louvores a Belzebu! — Ora, sus! Que fazes tu? Despeja todo esse leito! Companheiro — Em boa hora! Feito, feito! Diabo — Abaixa aramá esse cu! Faze aquela poja lesta e alija aquela driça. Companheiro — Oh-oh, caça! Oh-oh, iça, iça! Diabo — Oh, que caravela esta! Põe bandeiras, que é festa. Verga alta! Âncora a pique! — Ó poderoso dom Anrique, cá vindes vós?... Que cousa é esta?...Vem o Fidalgo e, chegando ao batel infernal, diz: Fildalgo — Esta barca onde vai ora, que assim está apercebida? Diabo — Vai para a ilha perdida, e há-de partir logo ess'ora. Fildalgo — Para lá vai a senhora? Diabo — Senhor, a vosso serviço. Fildalgo — Parece-me isso cortiço... Diabo — Porque a vedes lá de fora. Fildalgo — Porém, a que terra passais? Diabo — Para o inferno, senhor. Fildalgo — Terra é bem sem-sabor. Diabo — Quê?... E também cá zombais? Fildalgo — E passageiros achais para tal habitação? Diabo — Vejo-vos eu em feição para ir ao nosso cais... Fildalgo — Parece-te a ti assim!... Diabo — Em que esperas ter guarida? Fildalgo — Que leixo na outra vida quem reze sempre por mim. Diabo — Quem reze sempre por ti?!.. Hi, hi, hi, hi, hi, hi, hi!... E tu viveste a teu prazer, cuidando cá guarnecer por que rezam lá por ti?!... Embarca — ou embarcai... que haveis de ir à derradeira! Mandai meter a cadeira, que assim passou vosso pai. Fildalgo — Quê? Quê? Quê? Assim lhe vai?! Diabo — Vai ou vem! Embarcai prestes! Segundo lá escolhestes, assim cá vos contentai. Pois que já a morte passastes, haveis de passar o rio. Fildalgo — Não há aqui outro navio? Diabo — Não, senhor, que este fretastes, e primeiro que expirastes me destes logo sinal. Fildalgo — Que sinal foi esse tal? Diabo — Do que vós vos contentastes. Fildalgo — A estoutra barca me vou. Hou da barca! Para onde is? Ah, barqueiros! Não me ouvis? Respondei-me! Houlá! Hou!... (Pardeus, aviado estou! Cant'a isto é já pior...) Oue jericocins, salvador! Cuidam cá que são eu grou? Anjo — Que quereis? Fildalgo — Que me digais, pois parti tão sem aviso, se a barca do Paraíso é esta em que navegais. Anjo — Esta é; que demandais? Fildalgo — Que me leixeis embarcar. Sou fidalgo de solar, é bem que me recolhais. Anjo — Não se embarca tirania neste batel divinal. Fildalgo — Não sei porque haveis por mal que entre a minha senhoria... Anjo — Para vossa fantasia mui estreita é esta barca. Fildalgo — Para senhor de tal marca nom há aqui mais cortesia? Venha a prancha e atavio! Levai-me desta ribeira! Anjo — Não vindes vós de maneira para entrar neste navio. Essoutro vai mais vazio: a cadeira entrará e o rabo caberá e todo vosso senhorio. Ireis lá mais espaçoso, vós e vossa senhoria, cuidando na tirania do pobre povo queixoso. E porque, de generoso, desprezastes os pequenos, achar-vos-eis tanto menos quanto mais fostes fumoso. Diabo — À barca, à barca, senhores! Oh! Que maré tão de prata! Um ventozinho que mata e valentes remadores! Diz, cantando: Vós me veniredes a la mano, a la mano me veniredes. [...] Veja mais aqui.


AMERICAN BEAUTY – O premiadíssimo filme American Beauty (Beleza Americana, 1999), dirigido e roteirizado por Sam Mendes, escrito por Alan Ball e música de Thomas Newman, ganhou quase todos os Oscars de 2000: melhor filme, melhor diretor, melhor roteiro original, melhor fotografia e melhor ator. Trata-se de uma sátira sobre as noções de beleza e satisfação pessoal, sendo inspirado no julgamento de Anny Fisher, em 1992. Já tendo sido destacado por aqui, hoje a motivação de nova menção foi o papel desempenhado pela belíssima atriz estadunidense Annette Bening. Veja mais aqui e aqui.



IMAGEM DO DIA
Anatomy, do fotógrafo Freddy Martins


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Brebotes nos clecks arruelados, Padre Bidião, Doutor Zé Gulu & South Park, Zé Bilola, Zé Corninho & Hussan Aref Saab aqui.
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É domingo nas mãos, A obra de arte & reprodução de Walter Benjamim, a poesia de Ascenso Ferreira & Chico Buarque, Enciclopédia do Cinema Brasileiro de Fernão Ramos e Luiz Felipe, a arte de Nora Dorian, a pintura de Giuseppe Cacciapuoti & Umberto Brunelleschi aqui.
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Dos bichos de todas as feras e mansas, O romance da Besta Fubana de Luiz Berto, Cantadores de Leonardo Mota, O martelo alagoano de Manoel Chelé,  o ativismo de, Brigitte Mohnhaupt, a escultura de Antoni Gaudí, a música do Duo Backer, a xilogravura de J. Borges & a arte de Natalia Fabia aqui.
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