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sexta-feira, março 06, 2020

PEARL BUCK, AMY LOWELL, BRIGITTE CARNOCHAN, INES LEMPEK & ADRIANA DE HOLANDA


TODO DIA É DIA DA MULHER – UMA DE VERA COM OUTRA ROSA: Vera ia e vinha nem aí pros fius e psius. Na dela, jeitosa e impunemente: sorria o Sol, animava a passarinhada, a cidade se alvoroçava toda. Havia quem não simpatizasse: as invejosas acusavam-na de Bruxa das Pancs: Olhela, já vai toda amostrada! Os rejeitados resmungavam: Eita, lá vai toda cu doce, vixe, que maldição! Quem nunca sonhou tê-la por posse exclusiva ainda não nasceu ou tinha morrido antes dela desabrochar pra vida. Inacessível para os dali, os desocupados faziam de tudo para chegar junto, desafiavam sua inteligência. E ela, toda Rosa Parks: Eu gostaria de ser lembrada como uma pessoa que queria ser livre… para que outros também pudessem ser livres. Acredito que estamos aqui no planeta Terra para viver, crescer e fazer o possível para tornar este mundo um lugar melhor para que todas as pessoas desfrutem de liberdade. Ô minha filha, em que planeta você vive, hem? Essa parece mais que vive no mundo da Lua, só sendo! E as más línguas: Metida, ela se acha toda tuda! DUAS, PASSANDO NA CARA: Como sempre, os incultos amundiçados na maior refrega, maior discórdia: cada um, por si, dono da razão. E lá vão tirar a limpo o assunto com o doutor Zé Gulu que, invariavelmente, chama a turma na grande: Tá! E como você quer ser lembrado? Eu? Sim. Ah, depois que eu morrer quero lá saber o que vão pensar de mim, doutor! E você? Ah, se vivo sou enjeitado, depois de morto podem se lascar. Cada um dava seu parecer: depois de bater as botas, babau. Que se danem! E o senhor? O doutor Zé Gulu ajustou os ósculos com o indicador no pau da venta, pigarreou e sapecou: Como dizia Ayn Rand, O mundo que você anseia pode ser conquistado. Existe, é real, é possível, é seu. E saiu, assim, na sua, sem mais nem menos. Hem? Quem foi que ele falou? Sei lá, entendi patavina. Nunca entendo o que ele diz. Ah, mas é doutor Zé Gulu, meu! Ah, tá. Os presentes, então, entreolharam-se e anuíram: Esse doutor é meio biruta, né? Abilolado demais. Num diz coisa com isso ou aquilo. Oxe, bote doidice, leu demais dá nisso: endoida! Eu, hem? TRÊS: APRENDER O QUE NÃO SABE - Rapaz, eu já passei da idade de aprender. Escola é coisa pra essa meninada ter jeito de gente, tudo uns maleducados, sem modos. Pois é, eu mesmo fui pra escola, decorei que só e esqueci tudo. Num é que eu também: de que adiantou levar palmatória, decorar tabuada, os tempos dos verbos, não vi serventia até hoje! A minha professora era carrasca! Ah, não era pior que a minha: chata e cricri. E os livros? Nunca gostei disso, coisa de ler é pra baitola ou aluado. E a gente mesmo assim passava de ano, sabendo de tudo. Hoje os tempos são outros, valeu de nada, aprendi com a vida, essa a melhor escola. Pois digo eu: se eu descobrisse quem inventou estudo, eu mandava matar na hora! Nessa hora aparece a imagem de Amy Lowell na tevê e o locutor dizendo: Os livros são mais do que livros, eles são a vida, o coração e o núcleo dos séculos passados, a razão pela qual os homens trabalharam e morreram, a essência e a quintessência de suas vidas. Eita, que é isso aí na tevê? Sei lá. Eu vi mas não enxerguei. Nem eu. Isso é lá conversa pra boi dormir, ora. É. Vamos tomar a ideira que está ficando tarde. Vambora. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo & mais aqui e aqui.

DITOS & DESDITOS: [...] Ela trabalhava agora o dia inteiro e a criança ficava dormindo, no chão, em cima de um velha coberta acolchoada. Quando chorava, a mulher interrompia o trabalho, descobria o seio e sentava-se no chão para o amamentar. O sol caia sobre ambos, o sol tardio dos fins de Outono que conserva o ardor do Verão até que o frio do Inverno o afugenta, e sob os seus raios, a mulher e a criança, tão morenas como a gleba, pareciam duas estátuas de terra. A poeira dos campos polvilhava os cabelos da mulher e a macia cabeça negra do menino. Mas do grande seio da mulher, fluía, branco como a neve, o leite que alimentava a criança, e enquanto um era sugado do outro manava leite como de uma fonte. E ela deixava-o correr. Havia leite de sobra para o menino, por mais insaciável que ele fosse, chegando até para muitas crianças; e, orgulhosa da sua abundância, O-lan deixava-o correr descuidada. E tinha cada vez mais. Às vezes levantava o peito e deixava o leite correr para o chão, para não sujar a roupa, e perdia-se na terra, formando no chão uma mancha mais escura, mole e untuosa. O menino estava gordo, sadio, e absorvia a vida inesgotável que a mãe lhe dava. [...] Havia um sinistro presságio na estranha serenidade daqueles dias em que a terra os abandonava. Só para a petiza não havia receios. Tinha à sua disposição os dois robustos seios da mãe, que até aí chegavam bem para satisfazê-la. [...]. Trechos extraídos da obra Terra bendita (Livros do Brasil, 1956), da escritora e sinologista Prêmio Nobel de Literatura de 1938, Pearl Buck (1892-1973). Veja mais aqui.

A POESIA DE AMMY LOWELL
OPALA: És gelo e fogo, / Teu toque queima minhas mãos como a neve. / És frio e chama. / És o carmesim da amarílis. / O prateado das magnólias tocadas pela lua. / Quando estou contigo / Meu coração é um tanque gelado / Cintilando com tochas agitadas.
DÉCADA: Quando vieste, tu eras igual ao vinho e ao mel / E teu gosto incendiou minha boca com sua doçura. / Agora tu és como o pão manhã, / Suave e agradável. / Apenas te degusto, já que conheço teu sabor / Embora eu esteja completamente saciada.
UMA OFERENDA QUEIMADA: Porque não havia vento, / O fumo das tuas cartas pairou no ar / Por muito tempo; / E a sua forma / Era a forma do teu rosto, / Minha Amada.
AMMY LOWELL – Poema da poeta estadunidense Amy Lowell (1874-1925), condecorada postumamente com o Prêmio Pulitzer de Poesia, em 1926. Ela foi integrante do Movimento Imagista de Ezra Pound.
&
POEMAS DE INES LEMPECK
MARESIA: quando sua maré enche / esvazia-se de certezas / ventania que devassa / em cada célula / uma interrogação / e quando troca de lua / se enche de estranhamentos / quando sua maré baixa / a onda reversa / deixa na superfície da pele / minúsculos sobreviventes / resquícios da viração / então na calmaria respira / afrouxa o nó dos sustos / esvazia os poros de medos / faz preenchimento de desejos / sem prazos nem validades.
FLOR DA PELE: Abre-te sol / no verão tropical / gringos na praia / purpurina no metrô / ombro vermelho / calor à flor da pele / corpo molhado / flor no chão / pedras na calçada.
III - o dia segue / os sonhos passam / acima dos ombros / voando como nuvens / num entra e sai / pelas orelhas atentas / suprema vertigem / olhares de horizonte.
IV - Há também / o tsunami do bem / sol e mar / alquimia intensa / num eterno poetar.
V - Travessa na mão / livros na sacola / pés no chão / poemas na imaginação.
INES LEMPECK – Poema da poeta e psicóloga Ines Lempek, especialista em Psicanálise e Cultura pela UnB, participando de antologias, oficinas, revistas literárias e blogs. Ela é autora do livro de poemas O avesso do clima (Bestiário, 2019).

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Muitas das minhas lembranças mais claras são sobre comida pós-guerra - como tomates crescendo na horta comunitária que meu avô recuperou após a guerra. Havia também morangos naquele jardim que amadureciam no meu aniversário e galinhas no quintal e o vendedor de batatas chegando nna rua com seu carrinho, e as lembranças de finalmente ter idade suficiente e levar um balde para a loja onde estávamos alinhados para receber a ração de leite. Em minha memória, parece haver uma abundância de comida, mas, de fato, era racionamento severo e muitas pessoas com muita fome, como em outras partes da Europa e do Reino Unido.
BRIGITTE CARNOCHAN - A arte da artista visual estadunidense Brigitte Carnochan que produz uma grande variedade de trabalhos fotográficos desde o final dos anos 90, começando com a investigação dos gêneros clássicos de flores e nus. Sua arte frequentemente combina elementos de pintura que os impregnam com uma luz semi-espiritual. Mais recentemente, seu trabalho investigou as complexidades ocultas de sua própria família, com um pai que estava no exército alemão durante a Segunda Guerra Mundial. Suas fotografias usaram elementos de seu passado para criar colagens de fotos que são mapas de memórias. Veja mais aquiaqui.

TODO DIA É DIA DA MULHER PERNAMBUCANA
Imagem: Mameluca woman, do pintor e desenhista holandês Albert Eckhout (1610-1665).
MEMÓRIA: Adriana de Holanda (1542-1645), colonizadora de Pernambuco que, juntamente com seu marido Christoph Lins, estabeleceu-se em Porto Calvo, na região onde hoje é o estado de Alagoas, fundando sete engenhos de cana-de-açúcar e vivendo por mais de cem anos de idade.
A música do instrumentista, cantor e compositor Dominguinhos (José Domingos de Morais – 1941-2013), o documentário Dominguinhos (2014) & Veredas Nordestinas (Continental, 1989), o dvd Ao vivo em Nova Jerusalém (Globo Nordeste, 2009) e cd/DVD Iluminado (Biscoito Fino, 2010) aqui e aqui.
Desmanchando o nordeste em poesia, do poeta popular Manoel Bentevi (1911-1999) aqui e aqui.
A guerrilheira perfumada: crônicas do amor diário, do jornalista e escritor Ronildo Maia Leite (1930-2009) aqui & aqui
As prosas de Izabel Marques aqui & aqui.
Água, Vida Água, do poeta e ativista cultural João de Castro aqui.
Circo Itinerante aqui.
As Tribos de Águas Belas aqui & aqui.
&
OFICINAS ABI
Veja detalhes das oficinas da ABI aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.
 

sexta-feira, julho 03, 2015

KAFKA, AYN, LACAN, LEOPARDI, JANACEK, SOPHIA LOREN, LILIANA, BREUNINGER & CHEGA DE PRECONCEITO!!!!


VAMOS APRUMAR A CONVERSA: NO DIA NACIONAL DE COMBATE À DISCRIMINAÇÃO RACIAL: PRECONCEITO, Ó! XÔ PRA LÁ – Eita, piara! Como o negócio anda morno quase apagando, feito o mandú que a gente empurra, empurra, dá sinal de vida e estanca de novo, precisando tornar a fazer força, debreando na segunda, pra ver se no tranco a coisa pega, tá na hora da coisa se ajeitar. Ora, ora, vamos aprumar a conversa! De mesmo. A coisa não está as mil maravilhas, nem no mormaço do roxo brabo. Tá não! Está na hora de se arregalar os olhos. Ah, isso tá. Desempesta, ora! O pior é que a coisa empaca na manchete da moda e mais nada interessa fora disso. Todo mundo está discutindo a reforma disso e daquilo - cada um que puxe pronde for mais conveniente -, mais reforma disso e daquilo e nada sai do canto, tudo emperrado; desigualdade comendo no centro, ricaço berrando contra tudo, o povinho de facho apagado, violência do mesmo jeito, quer dizer, enfim, o Brasil continua o mesmo. E a gente alimentando esperança. Ainda estou esperando o dia amanhecer com novidade sob o sol. A injustiça continua a ser o principal problema do Brasil. E quando se junta a outros comportamentos desagregadores - por exemplo, o do preconceito -, aí que o negócio enfeia mesmo. Nossa, fica mais breu que noite de invernada. O tal do preconceito é uma praga! Mesmo que se insista nos direitos e garantias fundamentais de que todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza; que é inviolável a liberdade de consciência e de crença, bem como a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas; e muitos outros direitos e deveres individuais e coletivos, parece que está ou todo mundo mouco, ou ninguém sabendo ou fazendo não saber de nada. Mesmo assim, a discriminação é geral de branco com preto, com mulato, com cafuzo, com mameluco, com flamenguistas e todos entre si; de rico com pobre e ao contrário; de rockeiro com sambista e destes com todo o resto e se misturando com aquilo e aqueloutro; de neonazista com judeu, nordestino, homossexual e bote lenha na homofobia; católico com protestante e de todos com budistas, xiitas, porralouquistas e saravás; de heterossexual com travestis, sadomazoques e camuflados mil; do metido a besta diplomado pelo ignorante; de abastados razoáveis com desafortunados absolutos; e por aí vai numa cambada de chatos sectários que engrossam as fileiras da cabilda dos pós-modernos. Isso sem contar com a famigerada sede de maçarico no consumo - se pode consumir, tudo bem; se não, cai fora. Na verdade, é a lei de que você só vale pelo que tem e pelo mal que possa fazer. Nossa! É um sortimento de parelhas, grupelhos de panelinha e máfias segregadoras, capazes de fincar estaca no molho robusto que está do lado de fora da fuxicada esotérica deles. Maior charanga de exclusão. Isso é maior ainda e mais sentido na pele dos da terceira idade, dos PNE´s, ex-detentos, afrodescendentes, os acometidos por qualquer enfermidade, desempregados e, ainda, as mulheres. Nossa, nunca se viu tão reinante a possibilidade excludente quando se luta aguerridamente pela inclusão. A totalidade do inventário humano condena veementemente todas as atrozes injustiças que a história registrou ao longo dos tempos. Tudo que está registrado nos anais históricos causa a maior repulsa. E a indignação chega ao ponto de interrogar: como é possível ter isso acontecido? É verdade. A história dos vencedores não é tão gloriosa assim. Subjacente a esses louros todos, ainda ruge o sangue revoltado dos perdedores. Mas a hipocrisia reina desde antanho. O preconceito é vigente e flagrante nas mais diversas circunstâncias do cotidiano. Não se respeita a diferença, lamentavelmente; é tudo na base do resolva o meu e o resto que se foda. Fico, portanto, com a lição das mãos: quantos dedos temos na mão? Quantos deles são iguais? Se faltar um dedo, faremos a tarefa, mas com dificuldade. Significa, portanto, que todos, juntos, complementam-se para a realização da missão maior da mão: dar as mãos. Vamos? Aí, eu canto Entrega: Dê-me a sua mão nessa rua. Nossos sonhos são tantos que eu já nem sei seguir por veleidades... E vamos aprumar a conversa & tataritaritatá!!! Veja mais aqui.

Imagem: Nude Oil On Canvas, do artista plástico alemão Helmut Breuninger.

Curtindo a ópera em três atos Katia Kabanová (1921 - Chandos Records, 2007),do compositor tcheco Leoš Janáček (1854-1928), soprano Cheryl Barker & Chœur & Orchestra de l'Opéra National Gallois, direction Carlo Rizzi. Veja mais aqui.

A REVOLTA DE ATLAS – No livro A revolta de Atlas (Arqueiro, 2010), a filósofa, escritora, dramaturga e roteirista estadunidense Ayn Rand (1905-1982), dramatiza seu homem ideal, o produtor que vive por seu próprio esforço e não dá nem recebe o imerecido, que honra as conquistas e rejeita a inveja. Da obra destaco o trecho: [...] Ela o examinava, sentindo-se vagamente mal. Não havia hostilidade no rosto dele. Kellogg a olhava diretamente, respondia de modo simples e franco.– Por que então deseja sair? – É uma questão pessoal. – Está doente? Tem algum problema de saúde? – Não. – Vai deixar a cidade? – Não. – Recebeu alguma herança que lhe permita aposentar-se? – Não. – Vai trabalhar para viver? – Sim. – Mas não deseja trabalhar na Taggart Transcontinental. – Exatamente. – Deve ter acontecido alguma coisa que o levou a tomar essa decisão. O que foi? – Nada, Srta. Taggart. – Gostaria que me dissesse. Tenho uma razão pessoal para querer saber. – Aceitaria minha palavra, Srta. Taggart? – Sim. – Nenhuma pessoa, coisa ou acontecimento daqui teve nada a ver com a minha decisão. – Você não tem nenhuma queixa específica contra a Taggart Transcontinental? – Nenhuma. – Então talvez você reconsidere quando ouvir a oferta que tenho a lhe fazer. – Sinto muito, Srta. Taggart. Não posso. – Posso lhe dizer o que tenho em mente? – Se a senhorita desejar. – Acredita que decidi lhe oferecer este posto antes de você pedir para me ver? Quero que saiba disso. – Sempre acreditei na senhorita. – É o posto de superintendente da divisão de Ohio. É seu, se quiser. O rosto dele não mostrou qualquer reação, como se as palavras não tivessem qualquer sentido ou fossem dirigidas a um selvagem que jamais tivesse ouvido falar de ferrovias. – Não estou interessado, Srta. Taggart. Depois de um curto intervalo, ela insistiu: – Diga o seu preço, Kellogg. Quero que você fique. Posso cobrir a oferta de qualquer outra ferrovia. – Não vou trabalhar para nenhuma outra. – Pensei que você gostasse do seu trabalho. Aparecia nele o primeiro sinal de emoção, seus olhos se abriram um pouco mais, e ouviu-se uma ênfase contida na voz quando ele respondeu: – E gosto. – Então me diga o que devo fazer para que você fique! – gritou ela. A explosão foi tão obviamente franca e incontrolável que ele a olhou como se ela o houvesse atingido. – Talvez não seja correto eu vir aqui lhe dizer que estou me despedindo, Srta. Taggart. Eu sei que me pediu para avisar a fim de que pudesse me fazer, em tempo, uma contraproposta. Assim, se venho, dou a impressão de que há espaço para negociação. Mas não há. Vim apenas porque... não quis faltar com minha palavra com a senhorita. Um ligeiro tremor na voz dele lhe deu uma súbita revelação de quanto o interesse e o pedido de Dagny tinham significado para ele e de que a decisão não tinha sido fácil. – Kellogg, há alguma coisa que eu possa oferecer para você ficar? – Nada, Srta. Taggart. Nada neste mundo. Ele se voltou para deixar a sala. Pela primeira vez na vida ela sentiu-se perdida e derrotada. – Por quê? – perguntou ela, sem se dirigir a ninguém. Ele parou. Deu de ombros e sorriu. Era como se ele voltasse à vida, e aquele era o sorriso mais estranho que ela jamais vira: continha um contentamento interior e secreto, e desânimo, e infinita amargura. E ele disse: – Quem é John Galt? Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

DÁRIOS DE VIAGEM – O livro Diários de viagem (Atalanta, 1998), do escritor tcheco Franz Kafka (1883-1924), traduzido por Marcelo Rouanet e organização, prefácio e notas de Cecília Prada, conta as viagens do autor de Friedland e Reichenberg (1911), Lugano-Paris-Erlenbach (1911), Weimar-Jungborn (1912), Viena e Riva (1913), Hellerau a Lübeck (1914) e Viena e Ujhel (1915), revelando outra faceta da sua personalidade soturna: a da ironia em acontecimentos e pensamentos sobre viagens feitas pela Europa. Da obra destaco o trecho: Reichenberg. É bastante misterioso o motivo real das pessoas andarem apressadamente ao anoitecer, numa cidade pequena. Se moram nos arrabaldes, então deveriam usar o bonde, porque as distancias são muito grandes. Se vivem, ao contrário, no próprio povoado, não há motivo para tanta pressa, pois as distancias não existem. No entanto as pessoas cruzam com passadas largas essa praça que para uma aldeia não seria muito grande, e cuja prefeitura, pelo seu simples tamanho, torna ainda menor (sua sombra pode cobri-la inteira, facilmente). Enquanto isso, olhando-se a partir da praça, torna-se difícil acreditar nas dimensões reais do edifício, pois a primeira impressão vem do contraste entre a pequenez de uma e a grandeza do outro. Um policial ignora o endereço da Caixa de Seguros Operários, outro o da Exposição do referido instituto, outro nem sequer sabe onde fica a Johannesgasse. A explicação que dão é que estão há pouco tempo no serviço. Por causa de um endereço tive que ir ao distrito, onde descansavam policiais de vários tipos, todos usando uniformes que, pela beleza, bom estado e colorido, eram surpreendentes para o local, já que nas ruas predominavam sombrias capas de inverno. As ruas estreitas só permitem o trânsito numa única direção. É por isso que o bonde percorre vias diferentes no caminho para a estação e na volta. Vem da estação passando pela Wienestrasse (onde eu estava hospedado, no hotel Eiche) e vai para lá pela Schückerstrasse. Fui três vezes ao teatro. As Ondas do Mar e do Amor. Sentei-me no camarote; um ator muito bom fazia muito barulho no papel de Kaukleros; muitas vezes vieram-me lágrima aos olhos, como no final do primeiro ato, quando os olhares de Hero e Leandro não conseguiam se separar. Hero vem pela porta do tempo e através dela se percebe algo, que só pode ser uma geladeira. No segundo ato, um bosque, como nas antigas apresentações de gala; era comovente, os cipós entrelaçados de árvore em árvore. Tudo era musgo e verde-escuro. O pano de fundo com a parede do quarto da torre volta a aparecer na noite seguinte, em Miss Dudelsack. Do terceiro ato em diante a peça desmorona, como se houvesse um sabotador por trás de tudo. Veja mais aqui, aqui e aqui.

CANTOS: A LUA E O INFINITO – O livro Cantos (1835 - Nephelibata, 2014), do poeta italiano Giacomo Leopardi (1798-1837), traduzido pelo poeta e professor universitário Renato Suttana, reúne pomas do autor, dos quais destaco o Canto XIV À Lua: Ó graciosa lua, bem me lembro / que, faz um ano já, sobre este outeiro, / cheio de angústia, eu vinha contemplar-te: / e pendias então sobre esta mata, / tal como agora, e inteira a iluminavas: / mas nebuloso e trêmulo do pranto / que em meus cílios manava o teu semblante / aos olhos me surgia, que era triste / a minha vida e ainda é, sem ter mudado, / ó tão querida lua. E entanto agrada-me / relembrar esse tempo e enumerar / os estados de minha dor. Oh, como / no tempo juvenil, quando ainda é longa / a esperança, e a memória ainda curta, / grato é lembrar as coisas que passaram, / mesmo que tristes e que as mágoas durem! Também o Canto XII O infinito: Sempre caro me foi este ermo outeiro, / e aquela sebe, que em tão grande parte / do horizonte final o olhar exclui. / Mas sentado, a mirar intermináveis / espaços além desses, sobre-humanos / silêncios e sossegos profundíssimos, / me afundo no pensar, onde por pouco / meu coração não se amedronta. E, como / ouço o vento roçar contra estas plantas, / o silêncio infinito comparando / vou a tal voz: e sobrevêm-me o eterno, / as mortas estações, mais a presente / e viva, e o seu rumor. Assim, por esta / imensidade o meu pensar se afoga: / e o naufragar me é doce neste mar. Veja mais aqui.

AS FÚRIAS E ALICE NO ESPELHO – A atriz Liliana Castro tem realizado a sua trajetória artística no teatro e na televisão, tendo começado ainda jovem na gravação de comerciais na Itália e na Venezuela, iniciando sua carreira no teatro com a sua formação em Interpretação, no Rio de Janeiro. A sua estreia teatral foi no espetáculo As Fúrias (1998), na companhia Os Fodidos Privilegiados. Foi nessa mesma época que passou a atuar na televisão, passando tanto pela TVA, Globo, Cultura e Record. Em 1999 foi a vez de participar do espetáculo Alice através do espelho, seguindo-se Sob o sol em meu leito após a água (2001), Casca de Noz (2003), Tudo é permitido (2005), Não existem níveis seguros para consumo destas substancias (2006), Toda nudez será castigada (2006), Por uma vida um pouco menos ordinária (2007) e, por fim, Alice através do espelho (2012), quando ela resolveu morar nos Estados Unidos para estudar teatro e dança. Aqui nossos parabéns para a jovem atriz. E veja mais aqui.

TEMPI NOSTRI – A comédia Tempi Nostri (Nossos Tempos, 1954), do cineasta italiano Alessandro Blasetti (1900-1987) e co-direção de Paul Paviot, é uma compilação em cinco partes de The Baby, contando a história de um casal que decidem abandonar o filho recém-nascido à própria sorte. A película tem vários segmentos como Don Corradino, Gli innamorati, La macchina fotografica, Scena all'aperto, Il baccio, Il pupo, Mara, entre outros. São, no total, nove episódios, incluindo uma prostituta que se apaixona por um professor; um casal com muitas crianças são tentados a abandonar o recém-nascido; dois extras idosos recordam a sua namorada de infância; uma velha salva a vida de um sacerdote depois de ter confessado sua intenção de suicídio; um motorista mulherengo incorrigível chega ao ponto da mulher querer amarrá-lo, entre outras. O destaque do filme vai para a atriz italiana Sophia Loren que contava à época vinte anos de idade, já tendo participado de mais de três dezenas de filmes. Veja mais aqui, aqui e aqui.

IMAGEM DO DIA
 CASO AIMÉE – É o caso que envolve Maguerite Anzieu (1892-1981), que tornou-se Aimée do caso de psicose paranóica narrado por Jacques Lacan em sua tese de medicina 1932, revelado por Elizabeth Roudinesco e reconstituída a sua biografia com testemunhos de membros da família. Ao se casar, durante a gravidez ela começou a ter depressão e mania de perseguição. Começou a desenvolver uma vida dupla com o nascimento do primeiro filho: escrevia em um diário suas atividades e desenvolvia uma existência imaginária feita de ilusões. Escreveu dois romances sem propósitos de publicações, convencendo-se de que era vítima de perseguição por Huguette Duflos, uma famosa atriz da cena parisiense da década de 1930. Em abril 1931 tentou matá-la com uma faca, mas a atriz se esquivou, e Marguerite foi internada no Hospital Sainte-Anne, confiada a Jacques Lacan, que viu nela um caso de erotomania e paranóia de autopunição. Segundo Elisabeth Roudinesco e Michel Plon (Dicionário de Psicanálise – Zahar,1998), ela acusava Lacan de havê-la tratado como um caso e não como um ser humano, mas censurava-o sobretudo por nunca lhe ter devolvido os manuscritos que ela lhe confiara no passado, quando de sua internação no Hospital Sainte-Anne. Veja mais aqui, aqui e aqui.

Veja mais sobre:
Cruzetas, os mandacarus de fogo, Concepção dialética da história de Antonio Gramsci, Sob o céu dos trópicos de Olavo Dantas, O escritor e seus fantasmas de Ernesto Sábato, a pintura de Eliseo Visconti, a fotografia de Rita-Barreto, a arte de Benício & a música de Rosana Sabença aqui.

E mais:
No colo do pai de Hanif Kureishi, Viagem nas primeiras horas de Wole Soyinka, A crise na América Latina de Emir Sader, Técnica teatral de Erwin Piscator, a arte de Václav Hollar, a pintura de Carl Kricheldor & Isaac Lazarus Israels, a música de João Bosco, o cinema de Stelvio Massi & Joan Collins aqui.
Curto e grosso: O balanço da copa, O anti-édipo de Deleuze & Guattari, poemas de Arthur Rimbaud, Infância, imagem & literatura aqui.
Dois poemetos de amor pra ela: Beiju & Gula voraz aqui.
Frínico & o povo chora, Direito Ambiental, Educação Sexual, Psicopatologia, Psicose, perversão & neurose aqui.
Nem te conto & Big Shit Bôbras, O lobo da estepe de Hermann Hesse, Repenso o mundo de Wislawa Szymborska, Elegias & sátiras de Xenófanes de Colofão, a música de Gluck & Sylvia McNair, o cinema de Phil Karlson & Marilyn Monroe, a pintura de Richard Geiger & Philippe de Rougemont, a arte de Osvaldo Jalil & Bia Sion aqui.
E se nada acontecesse, nada valeria, Agá de Hermilo Borba Filho, Fábulas de Leonardo da Vinci, a música de Tomoko Mukaiyama, As glândulas endócrinas de M. W. Kapp, Compassos Cia de Danças, a arte de Eric Gill & Perron, A pintura de Bruno Di Maio & Madalena Tavares aqui.
É domingo nas mãos, Cinema de Ascenso Ferreira, A obra de arte & a reprodução de Walter Benjamim, Cinema Brasileiro, O que será de Chico Buarque, a pintura de Giuseppe Cacciapuoti & Umberto Brunelleschi aqui.
Aprendendo no compasso da vida, A psicologia social de Arthur Ramos, Sharon & minha sogra de Suad Amiry, a música de Nação Zumbi, o pensamento de Roger Bacon, Hans Richter & Transhumance, a arte de Georges Ribemont-Dessaignes & Jiddu Saldanha aqui.
O dia amanhece e é maravilhoso viver, A literatura brasileira de Afrânio Coutinho, O teatro de Françoise Sagan & Catherine Deneuve, o pensamento de Aristóteles, a música de Maggie Cole & a Sinfonia Pornográfica de Charles Baptiste, a pintura de Orly Faya, a arte de Hannah Höch & Arte Yoga aqui.
A filharada de Zé Corninho, Travessia marítima de Thomas Mann, O casamento de Anne Morrow Lindbergh, a música de Charlotte Moorman, O homem & a natureza de Alan Watts, o cinema de Rainer Werner Fassbinder & Hanna Schygulla, Emmanuelle Seigner, a arte de Hansen Bahia & Attila Richard Lukacs aqui.
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Imagem: Nude Woman Reading, do pintor alemão Hermann Fenner-Behmer (1866-1913).
Veja mais aquiaqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Paz na Terra:
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.

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segunda-feira, abril 27, 2015

AYN, RICCITELLI, BOSSA NOVA, ADALGISA NERY, BARRAULT, LOOS, AGAR, VEGA & DELASNIEVE DASPET.


A SINA DE AGAR – A escrava egípcia Agar é usada e abusada por Sara para servir ao seu marido Abraão: Toma, pois, a minha serva, e assim me edificarei com filhos por meio dela. E Abraão anuiu ao conselho de Sara (Gn, 16:1). Possuída por ele, engravidou. O filho nasceu, mas Sara não adotou Ismael como seu filho, tornando-se intolerante e opressora. Depois, a escrava vingou-se de sua senhora e dona com seu desprezo, fugindo de sua presença. Depois, ela foi obrigada a retornar e se humilhar perante a sua dona. Obediente, seguiu seu destino para ser, posteriormente, humilhada por Sara e seu filho Isaque: Rejeita esta escrava e seu filho; porque o filho da escrava não será herdeiro com meu filho (Gn 21:10). Abraão, por sua vez, não só rejeitou a escrava como deserdou seu filho, expulsando-os. Assim ficou Agar na história como a segunda mulher de Abraão, em concubinato ilícito, durante a esterilidade de Sara, dando-lhe um filho, Ismael, tronco dos Ismaelitas. Dele, porém, não podia prosseguir a linha genealógica de Jesus, porque, no lado materno, não tinha sangue egípcio, nem judeu. Mais tarde, havendo Sara dado à luz Isaque, exigiu de Abraão a expulsar de Agar e Ismael. Quantas vezes na história da humanidade isso não aconteceu? Quantas vezes hoje isso acontece? Veja mais aqui, aquiaqui

Imagem: Maja sevillana, do pintor espanhol Jose Gutierrez de la Vega (1791-1865)


Ouvindo The Bossa Nova exciting Jazz Samba Rhythms (Rare Groove Recordings, 2000), seleção do período entre 1962-1973, com Laurindo Almeyda & The Bossa Nova All Stars, Francis Lai, Eumir Deodato, Tom Jobim, Elvis Presley, Quincy Jones, entre outros.

A NASCENTE – O livro A nascente (Arqueiro, 2013), da escritora, dramaturga, roteirista e filósofa estadunidense de origem judaico-russa Ayn Rand (1905-1982), enfatiza o seu pensamento filosófico com noções do individualismo, autossustentação, capitalismo e liberalismo econômico, sendo a obra transformada para o drama Vontade Indômita (The Fountainhead, 1949), dirigido por King Vidor, roteiro da autora e música de Max Steiner. Da obra destaco o trecho: [...] O grande carvalho ficava numa montanha sobre o rio Hudson, em um lugar isolado da propriedade dos Taggart. Eddie, com 7 anos, gostava de olhar para ele. Estava lá havia centenas de anos e parecia ao menino que lá ficaria para sempre. Suas raízes seguravam a montanha como dedos cravados no solo, e ele imaginava que se um gigante quisesse arrancá-lo pelos galhos, não conseguiria. Conseguiria, sim, balançar a montanha e, com ela, toda a terra, que ficaria como uma bola pendurada por uma corda. Ele se sentia seguro, diante do carvalho: era algo que nada nem ninguém podia alterar ou ameaçar – era para ele o símbolo maior da força. Certa noite, um raio atingiu o carvalho. Eddie o viu na manhã seguinte. Estava partido ao meio, e o menino olhou o tronco como quem olha para a boca de um túnel negro: ele era apenas uma concha oca. Sua massa interna tinha apodrecido havia muito tempo: não existia nada lá dentro, apenas uma fina poeira cinzenta que se dispersava ao capricho da mais leve brisa. Fora-se o poder vital e, sem ele, a forma que ficara não tinha podido se manter. Anos mais tarde, ele ouviu dizer que as crianças devem ser protegidas contra choques, contra seu primeiro contato com a morte, a dor, o medo. Mas essas eram coisas com as quais ele não se assustava. Seu choque viera naquele instante, quando permanecera quieto, olhando o buraco negro do tronco. Fora uma sensação profunda de traição – ainda pior, porque ele não podia identificar exatamente o que ou quem havia sido traído. Não fora ele, sabia-o bem, nem sua fé – era algo mais. Permaneceu ali por algum tempo, em total silêncio, e depois voltou para casa. Não falou sobre aquilo com ninguém, nem na hora, nem depois. Eddie Willers balançou a cabeça, no momento em que o ruído de um mecanismo enferrujado de sinal de trânsito interrompeu seu caminho no meiofio. Sentiu raiva de si mesmo. Não havia por que relembrar o carvalho hoje. Já não significava mais nada para ele, apenas uma tintura esmaecida de tristeza – e, em alguma parte em seu íntimo, uma gotícula de dor, movendo-se rapidamente e desaparecendo como um pingo de chuva na vidraça da janela, mal deixando visível o seu curso em forma de ponto de interrogação. Não queria associar lembranças tristes à sua infância. Amava suas recordações: cada um daqueles dias, ele via agora, parecia-lhe inundado pela luz solar, tranquila e brilhante. Parecia-lhe que alguns daqueles raios chegavam até seu presente. Não eram raios, exatamente: mais pareciam pequenos pontos de luz, que conferiam um ocasional momento de brilho ao seu trabalho, ao seu apartamento, onde vivia solitário, no ritmo calmo e escrupuloso de sua existência. Lembrou-se de um dia de verão, quando tinha 10 anos. Naquele dia, numa clareira do bosque, sua mais querida companheira de infância lhe disse o que fariam quando crescessem. As palavras foram duras e brilhantes como os raios de sol. Ele ouviu admirado. Quando ela lhe perguntou o que desejaria fazer, ele respondeu de imediato: “O que for certo.” E acrescentou: “E preciso fazer alguma coisa que seja grande... Quero dizer, nós dois juntos.” E ela: “O quê, por exemplo?” Ele respondeu: “Não sei. É o que nós devemos descobrir. Não o que você disse. Não é trabalho nem um modo de ganhar a vida. Mas algo como ganhar batalhas, salvar pessoas de incêndios ou escalar montanhas.” “Para quê?”, perguntou ela. E ele: “No último domingo, o pastor disse que devemos procurar alcançar o melhor de nós. O que você acha que há de melhor em nós?” “Não sei.” E ele concluiu: “Precisamos descobrir.” Ela não disse mais nada. Estava olhando para longe, para a estrada de ferro, que se perdia na distância. Eddie Willers sorriu. Ele dissera: “O que for certo.” E isso fora há 22 anos. Desde então, essa deliberação permanecera inalterada em sua vida. Todas as demais questões se evanesceram em sua mente – não tinha tempo para elas. Mas ainda lhe parecia evidente que cada um devia fazer o que fosse direito: jamais entendera como alguém podia desejar outra coisa. Sabia apenas que isso ocorria. E isso ainda lhe parecia uma coisa ao mesmo tempo simples e incompreensível – simples, o fato de que as coisas devem estar certas; e incompreensível, que não estivessem. Sabia que não estavam. Era nisso que pensava quando dobrou a esquina e chegou ao grande prédio da Taggart Transcontinental. O edifício era a mais alta e mais orgulhosa construção da rua. Willers sempre sorria ao primeiro impacto de sua visão. Todas as janelas nas longas fileiras estavam intactas, ao contrário das dos prédios vizinhos. Suas linhas ascendentes cortavam o céu sem cantos empoeirados e sem bordas quebradas. Ele parecia ser imune ao próprio tempo, sempre incólume. Estaria ali sempre, pensou. Cada vez que ele entrava no Edifício Taggart, experimentava uma sensação de alívio e segurança. Aquele era o lugar da competência e do poder. O piso da entrada era um verdadeiro espelho feito de mármore. Os gelados retângulos das luminárias pareciam pedaços de luz sólida. Por trás das divisórias de vidro, filas de moças batiam à máquina, o ruído das teclas parecia o som de rodas de trem. E, como um eco, às vezes um tremor discreto atravessava as paredes, vindo lá de baixo do prédio, dos túneis do grande terminal, de onde os trens partiam e para onde convergiam, para cruzarem o continente e pararem depois de cruzá-lo de novo, como partiam e paravam geração após geração. “Taggart Transcontinental”, pensou Eddie Willers, “De oceano a oceano”, orgulhoso slogan de sua infância, tão mais brilhante e sagrado do que qualquer um dos mandamentos da Bíblia. [...] Veja mais aquiaqui e aqui.

O TEATRO DE BARRAULT – Com o texto O ator é um atleta (Estética teatral, 1980) o ator e mímico da Comédie-Française, Jean-Louis Barrault (1910-1994), que parcipou de filmes como O Boulevard do Crime (1940) e Casanova e a Revolução (1980), define o seu ofício como o desempenho no atletismo: Olhemos o atleta que se prepara para transpor uma barra. Isola-se – as mãos, sacudindo-se, pendem na ponta dos braços, como estranhas a ele, os olhos ficam o interior. E de repente ei-lo que parte [...] Assim, o desportista deve casar-se com o que vai fazer. É a grande lição que se pode receber do teatro. É nosso dever, nós artistas dramáticos, casarmo-nos, também. Temos de nos transformar numa outra personagem. Como no tiro com arco, como no esforço desportivo é a regra do Amor, quer dizer, a regra da religiosidade primitiva. Outra regra comum ao desporto e ao teatro: a regra da economia. Obter o máximo de rendimento com o mínimo de esforço. Que lição! Neste aspecto o elefante é o exemplo próprio do melhor rendimento. [...] Enfim, guardei a evidência para o fim: o desporto e a arte dramática tem isso de comu, utilizam o mesmo instrumento – o corpo humano. Para nós, homens de teatro, o corpo humano é, antes de tudo: uma caixa toráxica, uma coluna vertebral, dito de outra maneira: um sopro, um chicote. E, assim como a pele aparentemente nos separa do mundo exterior, não entre o homem e o espaço em que se move, solução de continuidade. [...] O desporto e a arte dramática obedecem à mesma mística: o respeito humano, o desejo de combater a inercia, a necessidade de se ultrapassar, de partilhar o drama universal, que não são outra coisa do que: o amor pela vida, o amor pelo divino, o senso primitivo da religiosidade, o reconhecimento de estarmos vivos. No final duma prova desportiva bem sucedida ou duma representação teatral bem partilhada com o público, nós somos mais fortes, mais sãos, melhor equilibrados e poderemos escrever, como o vosso grande escritor sobre o leito de morte: eu vivo. Veja mais aqui.

MUNDOS OSCILANTES – O livro Mundos Oscilantes (José Olympio, 1962), da poeta e jornalista do Modernismo brasileiro, Adalgisa Nery (1905-1980), é o sexto livro de poesia da autora, reuninco cinco livros de poesias anteriores escritos entre 1937-1952, com versos livres e temáticas da solidão, morte e desalento. Destaco A chegada da sombra: Na madrugada em que minha voz se acordar / e as palavras caírem desfiguradas pelo desentendimento / ninguém deterá a sombra fria em seu andar, / nada impedirá em minhas carnes o apodrecimento. / Nessa madrugada, enquanto o orvalho baixar sobre as flores / enquanto a brisa levar às nuvens o cantar dos pássaros, / meu corpo em convulsã estará em dores / na despedida derradeira / de entregar a forma à terra e deixar fugir a alma / para a vida derradeira. / Inútil será tentar consolar meu rosto torturado / com o afago trêmulo de minha própria mão, / meu olhar fixo e angustiado / se tordará à medida que sair da vida o meu coração. / Meus pés que caminharam em sofrimentos passos / em noites adormecidas / e espíritos acordados / estarão prontos para a liquefação / antes da minha boca, antes dos meus seios antes que desapareça a última constelação. / Na madrugada em que minha voz se recolher ao eterno, / em que minha pupila vazada pelo mistério / receber apavorada a rápida visão do inferno / num sipro se anularão a extensão e a profundidade / para que meus olhos conheçam o justo motivo de todas as lágrimas / e o glorioso sofrimento de toda humanidade. Também merece detaque Aspiração: Desejo de desmontar meu corpo / E atirá-lo aos quatro ventos do mundo, / De enfrentar a luz do sol / Até que seu calor pulverize meus ossos, / De atirar-me no oceano / Até que o batimento de suas águas / Transforme meus cabelos em algas perdidas, / De gritar contra as montanhas / Até que o eco se ausente de minha voz, / De matar a consciência de mim mesma / Até que eu possa viver. Merece destaque o poema Eu me maldigo: Que estalem nos céus os trovões, os relâmpagos, / Que as nuvens se estilhacem / E as montanhas se rachem. / Que as estrelas se embaciem / E o sol se apague para que meu corpo não tenha sombra. / Que as correntes marítimas / Carreguem meus braços para as praias fétidas / E o vento impeça meus joelhos de se dobrarem. / Que o raio fulmine a única palavra boa que eu tinha. / Que meus olhos se apodreçam / E se transformem em água / Para que não se levantem além das raízes. / Que a gosma dos vulcões / Soterre meu sexo, / Que os vermes fujam da minha carne / E o pó se levante fugindo antes de eu passar. / Que o cheiro de minha boca / Resseque o grão embaixo da terra / E meus cabelos sirvam de corda para os enforcados. / Que minha língua se enrole enegrecida dentro de minha garganta / E me diga as maiores injúrias. / Que a terra seja fendida como um ventre de mulher, / Que a destruição absoluta / Desça sobre meu corpo, meus sentidos, / Meu espírito, meu passado, / Meu presente, meu futuro / E liberte minha origem / Da lembrança dos homens. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aquiaqui.

AMOR COMO PRINCÍPIO - A advogada, embaixadora da paz, escritora, biopoeta e ativista sul-mato-grossense Delasnieve Daspet atuando como educadora, palestrante, professora na realização de trabalho social com menores carentes. Ela participa e representa várias associações e academias literárias e culturais brasileiras e internacionais, tais como Circulo de Embaixadores da Paz (Genebra, Suiça), Sociedade Pártenon Literário, Poetas del Mundo (Chile), federações, academias, conselhos, tendo trabalhos premiados pela Unesco. Ela edita o blog Amor como princípio e Delasnieve Daspet, e é autora dos livros Por um minuto ou para sempre... (2004), Em preto e Branco (2007), Pazeando (2008), Cantares (2011), entre outros. De sua obra destaco o poema Ao amigo: De Mãos Dadas / Caminhada sempre junta, / Vestida o manto como Mais Alta Confiança, / meu amigo, E Que Nós, Irmãos / Porque Que É A Nossa Boa Escolha, / POIs que nada Que tenha Sido impor, / Partido, clima, politica, cor, / fragrância, flor / O Nós Compartilhando Tudo / não Aconchego de Dois Seres ESCOLHA / um Caminhar juntos. / Obrigado meu amigo / Passages em Maïs Maïs nova Apoio / Para Mais Momentos escuro, guardado-me com Cuidado com e ternura / Vou secar Minhas Lágrimas. / Então -Eu Tenho a Força, / ENTÃO -de ter uma paz, / ENTÃO -Eu Tenho o MESMO de amor ! / Para envolver tu mi amistad! Também merece destaque o seu poema Ambiguidade: Sou! / Sou um mundo em miniatura / Microscópica na aparência / Ciclópica nos sonhos. / Sou! / Sou herdeira da luz infinita / Do amor / Da maldade / Da amizade / Da inveja. / Sou! / Sou heroína / Sou bandida / Sou perdedora / Sou vencedora planetária. / Tivergeso / Por isso sou! / Sou pranto / Sou riso / Delínquo... / Sou bondade. / Sou ventura / Sou radiosa / Sou força / Sou vacilante / Sou propensa ao mal... / Sou fatuidade. / Sou vento que açoita / Sou a flor que se abre / Sou o útero que abriga / Sou a noite negra das trevas / Sou o luar que ilumina. / Sou a estagnação / Sou o poder / Sou a inércia / Sou fértil / Sou pântano estéril / Sou o campo verde / Sou o peito que amamenta. / Ambiguidade / Dor e dever / Sou o sol que aquece / Sou a água que dá vida / Sou pensamento / que navega pelos ares/ Pelos mares / Pelo éter! / Sou satélite que gravita / Que permanece na morte e na vida / Prolongando o momento diáfano / Do encontro final / Sou melodia em surdina / Depois num crescendo / Sou o êxtase! / Sou o aroma / O cheiro / A flor / O pólen / A luz / O átomo / Sou eu / Sou você... / Somos nós!  Veja mais aqui e aqui.

 
OS HOMENS PREFEREM AS LOIRAS – A novela Gentlemen Prefer Blondes (Os homens preferem as loiras, 1925), da escritora estadunidense Anita Loos (1889-1981), foi transformada em espetáculo na Broadway e, posteriormente, em 1928, foi adaptada numa versão muda pro cinema com direção Malcolm St. Clair. Em 1953, foi transformada na comédia romântica do gênero musical dirigido por Howard Hawks e música de Jule Styne, Hoagy Carmichael, Eliot Daniel e Lionel Newman estrelado por nada menos que a deusa Marilyn Monrow (1926- 1962) e a atriz Jane Russel (1921-2011). Veja mais aqui, aquiaqui.



IMAGEM DO DIA
Todo dia é dia da premiadíssima ex-regente e renomada soprano Cláudia Riccitelli – Melhor destaque vocal feminino no Prêmio Carlos Gomes, em 2001.



Veja mais sobre:
Credibilidade da imprensa brasileira, a literatura de Cervantes, a História da imprensa de Nelson Werneck Sodré, a Imprensa de Millôr Fernandes, a música de Eduardo Gudin, Beijo no asfalto de Nelson Rodrigues & a arte da jornalista Enki Bracaj aqui.

E mais:
Todo dia o Sol se põe para uma nova alvorada..., O homem unidimensional de Herbert Marcuse, a literatura de Amos Oz & Machado de Assis, a poesia de Safo, a música de Händel & Caroline Dale, o cinema de Blake Edwards & Audrey Hepburn, a arte de Keith Haring, o humor de Ronald Golias, a pintura de Frederic Edwin Church & François Gerard aqui.
Matizes, a poesia de Luís Vaz de Camões, a literatura de Jean de La Fontaine, O cartesianismo científico de Paulo Cesar Sandler, A lenda do Cavalo sem cabeça de Luís da Câmara Cascudo, Hécuba de Eurípedes, a música de Villa-Lobos & Celine Imbert, Clítia & a escultura de Hiram Powers, a arte de Esther Góes, o cinema de Woody Allen, Tiradas do Doro, a pintura de Hans Hassenteufel & Gustave Courbet aqui.
Brincarte do Nitolino, a literatura de Nélida Piñon, a música de Igor Stravinski, a poesia de Augusto dos Anjos, O antiteatro de Eugène Ionesco, o cinema de Graeme Clifford & Jessica Lange, a arte de Frances Farmer, a pintura de Joan Miró, As emoções de Suely Ribella, Papel no Varal & Ricardo Cabus aqui.
Freyaravi & o circo dos prazeres, Cultura de consumo pós-moderna de Mike Featherstone, Os contos brasileiros de Julieta de Godoy Ladeira, O kama sutra de Vātsyāyana, a música de Marisa Monte, a fotografia de Ralf Mohr, a pintura de Crystal Barbre & Luciah Lopez aqui.
Lualmaluz, De segunda a um ano de John Cage, Técnica e ciência de Jürgen Habermas. a História da literatura de Nelson Werneck Sodré, a música de Sally Seltmann, a performance de Marni Kotak, a pintura de Théodore Géricault, a escultura de George Kurjanowicz, a arte de Moisés Finalé & Luciah Lopez aqui.
Quando tudo é manhã do dia pra noite, A agonia da noite de Jorge Amado, a música de Bizet & Adriana Damato, o Folclore musical de Wagner Ribeiro, a pintura de Aleksandr Fayvisovich, Postuman bodies de r Judith Halbertam & Ira Livingstone, a fotografia de Christian Coigny & Bryan Thompson, a arte de Mirai Mizue & Luciah Lopez aqui.
Uma coisa quando outra, o pensamento de Marshall Berman, a literatura de Adolfo Casais Monteiro, Arquiteturas líquidas de Marcos Novak, a música de Tom Jobim & Maucha Adnet, Adriana Garambone, a pintura de Renie Britenbucher, a arte de Alyssa Monk & Luciah Lopez aqui.
Feliz aniversário: resiliência, perspectivas & festas, o pensamento de Paulo Freire, a literatura de Octavio Paz, A resiliência de Makilim Nunes Baptista, a música de Midori Goto, a pintura de Luis Crump, Babi Xavier, a arte de Fabrice Du Welz & Luciah Lopez aqui.
Lasciva da Ginofagia aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.
História da mulher: da antiguidade ao século XXI aqui.
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Paz na Terra:
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SÓNIA SULTUANE, MARCO NICOLINI, RUBY BRIDGES, JOÃO FALCÃO & MUITO MAIS!!!

    Imagem: Acervo ArtLAM .   Revestrés escatológico pra bufos e ranas... - Para quem não sabia, fingiu ou olvidou, muita coisa passou p...