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terça-feira, novembro 19, 2019

GUIMARÃES ROSA, MARIA MALIBRAN, LEANDRO DE BARROS, GILLO PONTECORVO & FRITZ KLIMSCH


CARTA PARA MARIA - Maria não me viu, nem poderia. Do contrário, eu seria seu nome: felicidade de nascença. E a lenda corria: Pampanoso, seu pai aos pileques, a vendeu por moedas algumas ao Garzia do circo. A menina brincava e cantava Agnese de Paër, ameaçada com uma faca em riste, a severidade paterna. As qualidades canoras fizeram-na perfeita amazona e muitas outras dela: a Rosina d’O Barbeiro de Sevilha, a Zerlina do Don Giovanni, a Norma de Bellini, a Maria Stuarda de Donizetti, a Infelice de Mendelssohn e todas as de Rossini. Fascinante poliglota, pintava e desenhava com esmero no meu coração e não me via sonhá-la seminua sob os véus oníricos de seus encantos. Assim não fosse talvez diferente, a busca pela liberdade sem o golpe de François para sucumbir e herdar apenas o sobrenome. Não me viu amanhecer a prima-dona porque seus olhos nadavam como versos de Virgílio: a divina Sonâmbula entre os louros filhos de Álbion. Não me viu entardecer suas quimeras porque consumia a vida entre triunfos e amores: a insólita paixão pelo violinista e os salves no Scala de Milão. Não viu porque morreu Bellini e ninguém tardaria em segui-lo com o baque na equitação, o pé preso ao estribo, arrastada pelo cavalo para que sofresse a magreza insone, dores e enxaquecas, quantos padecimentos nos seus dramas líricos e nas paixões. Não me viu quando verteu uma lágrima dos olhos, o delírio e a queda no palco e o ápice da cena do Andronico de Mercadante. Era só uma armadilha patética, fulminada entre miragens e pesadelos em seus olhos azuis: os pântanos da dor Malibran na infeliz maldição desvelada. Para mim a mulher ao piano de Delacroix, a legendária diva nua e sedutora suicida, Desdêmona de Caisne entre a loucura e a crueldade, e o seu charme mítico e insidioso no meu coração de quem morre quando ama. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo & mais aqui e aqui.

DITOS & DESDITOS: [...] Estão contando que um moço militar, de Nhu Verá ou de Horqueta, começou a achar enfado na luta do Ipanê, e preferiu indulgir em peripécias próprias: desertou barulhentamente, chocou-se com as rondas, atravessou depois o território inimigo, sempre riscando de onça, requisitou comeres e bebederes, promoveu-se e condecorou-se a si próprio, e, chegando até a beirada do Brasil, cumprimentou e deu as costas, sem gosto para embrasilar-se, e pois retornando à confusão. Trazia também um violão a tiracolo – acrescentam. E explicam que o violão, para o paraguaio, é arma de combate e ferramenta de lavoura. Se verdadeira, bela é a história, se imaginada, ainda mais. E em Bela Vista só estão internados três ou quatro legalistas, que, por se afoitarem mais em terreno “blanco”. Alguém discorda, reticente: - “Paraguaio, amigo, é bicho letrado. Não tem nenhum paraguaio sonso, não...” [....]. Trecho de Sanga Puytã, extraído da obra Ave, palavra (José Olympio, 1978), do escritor, médico e diplomata João Guimarães Rosa (1908-1967). Veja mais aqui, aqui & aqui.

O CINEMA DE GILLO PONTECORVO – Da obra do cineasta italiano Gillo Pontecorvo (1919-2006), destaco o drama histórico A Batalha de Argel (La battaglia di Algeri, 1966), baseado em fatos ocorridos no período de 1954-1962, quando o povo da Argélia lutou contra a ocupação colonialista francesa no país, enfocando os eventos ocorridos durante a "Guerra da Independência Argelina", uma organização de nativos insurretos escondidos na populosa região da cidade de Argel conhecida por Casbah, mantendo um conflito contra as tropas de ocupação colonialista francesas (pied-noirs), as tropas colonialistas praticam tortura, intimidação e assassinatos. A aventura Queimada! (1962), baseado, parcialmente, na história do Haiti, um retrato bastante claro de como é possível produzir um "líder popular nato" e conduzir seus íntimos impulsos para o bem comum do povo na direção dos interesses de um poder estrangeiro qualquer. O drama Giovanna (1956), conta a história de um grupo de trabalhadores que luta para defender o local de trabalho contra os despedimentos desejados pela propriedade e as mulheres ocupam a fábrica. E, por fim, o documentário coletivo Un altro mondo è possibile (2001), descrevendo os dias de preparação e protesto no G8 em gênova. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do escultor alemão Fritz Klimsch (1870- 1960). Veja mais aquiaqui.
&
MARIA MALIBRAN
A arte da cantora lírica mezzosoprano Maria Malibran (María Felicia García Sitches – 1808-1836), que se tornou a diva mais famosa do século XIX. Sobre a sua vida e arte, as publicações Maria Malibran (SPME, 1976), de Carmen Reparaz; Maria Malibran: a biography of the singer (Pennsylvania State University Press, 1990), de Howard Bushnell; Memoirs and Letters (2 livros) de Maria Malibran e Maria de las Mercedes Santa Cruz y Montalvo; o filme fantasia comédia A morte de Maria Malibran (1972), de Werner Schroeter; Maria Malibran (1943), de Guido Brignone; La Malibran (1944), de Sacha Guitry; Malibran’s Song (1951) de Luis Escobar Kirkpatrick; e As Malibrans (2000), da compositora Jocy de Oliveira, que é a terceira parte de uma trilogia musical cujo tema é a questão das mulheres, tendo como inspiração a vida e a carreira da cantora soprano Maria Malibran e sua irmã Pauline Viardot-García.

A OBRA DE LEANDRO GOMES DE BARROS NO DIA DO CORDELISTA
A obra do poeta Leandro Gomes de Barros (1865-1918) aqui, aqui, aqui & aqui.


quinta-feira, novembro 19, 2015

ARIANO, CASCUDO, LITERATURA DE CORDEL & TATARITARITATÁ!!!

VAMOS APRUMAR A CONVERSA & TATARITARITATÁ – Desde menino da beira do rio que sempre apreciei embolada, repente e cantoria. Não havia esquina em que não encontrasse dois violeiros, viola de dez cordas ao ombro, pronto para glosar qualquer mote. Quando não, uma dupla de pandeiro puxando o coco: Embolar coco é assim, se a gente perde o começo não sabe onde é o fim. Meu pai que era um sonetista de mão cheia e admirador da cultura popular, sempre provocava um ou outro cantador para destrinchar uns motes, dizendo inclusive como queria o desenrolado, se martelo agalopado, se galope, mourão, ou desafio que fosse, findando até um esculachando o outro, dos dois quase brigarem na vera e saírem no braço. Tudo só pra risadagem. Eu mesmo vira muitas vezes quase todo dia, uma velha senhora sentada num batente da igreja da matriz, berrando: Tem quatro coisas no mundo que não ensino a ninguém: é nadar num rio cheio, correr na frente de um trem, é amar quem não lhe ama, esperar por quem não vem! Tanto gostava disso que fui aprender as mais diversas formas, quadrão, galope à beira-mar, décima, sextilhas, oitava antiga ou obra de oito, dez de queixo caído, oitavão rebatido, oitava corrida, ligeira, desmancha ou décima corrida, língua d’angola, coqueiro da Bahia, dez de adivinhação, louvação, trava-língua, rojão pernambucano (Quando eu ia ela voltava, quando eu voltava ela ia), colecionando cordel de todo tipo, desde o Pavão Mysterioso até os que apareciam na hora que a gente gravava no que podia. Meu pai tinha disco de quanto fosse de cantoria, até do Daniel Cavalcanti com o seu In riba do grande hoté Boa Viagem a coisa é mermo que queijo. Ou Manuel Bentevi parando todo movimento do estado, só funciona o Recife se eu quiser. A gente se deliciava curtindo o poder de improvisação dos aedos e rapsodos da hora, inclusive alguns bem picantes, como o que descobri em um dos livros de Hermilo Borba Filho: Adão foi feito de barro / e Eva de uma costela / trepado por cima dela / fez o primeiro pecado. / Depois com grande constrangimento / tirou a rola de dentro, / ficou assim mesmo nu / deu-lhe uma câimbra no cu / diz o velho testamento. A experiência de adaptar a peça teatral João sem Terra, de Hermilo, me fez incursionar de forma mais aprofundada pela Literatura de Cordel. Não deu certo, requeria pressa por causa da data de estreia do espetáculo e eu não tinha essa perícia toda, tanto que incumbi Gilberto Melo, poeta dos bons, a fazer a poesia com o desafio entre João Sem Terra e o Pai da Mata. Ficou um primor e foi um dos pontos altos da minha adaptação. Até que depois encarei seriamente a reestudar a métrica e cometi o cordel Tataritaritatá, com a pretensão de fazer um martelo agalopado. Como quase não tinha fôlego para tal, fechei com uma martelada porque o ultimo verso ficou de pé quebrado. Depois de publicado o cordel foi que corrigi e fechei as dez estrofes com dez versos cada e dez sílabas cada verso. Uma prova e tanto. Ufa! Haja trabalhada. Foi quando passei a ministrar uma oficina de Literatura de Cordel, abordando sobre a história e a origem da literatura popular, os tipos de poesia, a métrica, entre outros assuntos. Apreciador e estudioso me mantenho até hoje, tendo já destacado grandes clássicos do cordel nordestino aqui no blog, hoje fazendo toda essa festa no dia do cordelista! E veja mais aqui.
Imagem Nu, do xilogravurista, pintor, desenhista e poeta Ciro Fernandes.


Curtindo o livro/cd Tramas do Sagrado: a poética do sertão de Elomar (Vinte Leste, 2007), de Simone Guerreiro, reunindo a poesia e a música do cantor e compositor Elomar Figueira de Mello acompanhado da Camerata Kaleidoscópio.

CANTADORES – O livro Cantadores: poesia e linguagem do sertão cearense (Cátedra, 1978), do escritor, professor, advogado, jornalista e historiador Leonardo Mota (1891-1948), reúne os mais diversos cantadores nordestinos, a exemplo do Cego Sinfronio, Jacó Passarinho, Azulão, Cego Aderaldo, Luís Dantas Quesado, Serrador, João Mendes de Oliveira – O Cantador de Juazeiro e Anselmo, bem como variantes da Literatura de Cordel, quadrinhas, a grafia de cantadores, elucidário e do sertão. Da obra destaco o trecho: Cantadores são os poetas populares que perambulam pelos sertões, cantando versos próprios e alheios; mormente os que não desdenham ou temem o desafio, peleja intelectual em que, perante o auditório ordinariamente numeroso, são postos em evidencia os dotes de improvisação de dois ou mais vates matutos. Os gêneros poéticos de que comumente se socorrem os cantadores são as obras de seis, sete ou oito pés, o moirão, o martelo, a obra de nove por seis, a ligeira, o quadrão, o gabinete, o galope, a embolada e os dez pés em quadrão. [...] Todos esses diferentes gêneros e estrofes são cantadas em toadas especiais, que evitam se tornem monótonas as justas poéticas dos rapsodos sertanejos. No desafio é que se solidam as reputações dos bardos populares. Todo cantador deve ser repentista: nem merece esse nome quem não é adestrado nas improvisações. Não é a quadra amorosa ou grácil o que mais frequentemente cai dos lábios de inculto menestrel: é a sextilha petulante ou chistosa dos longos e sensacionais desafios. [...] Morosamente embora, a civilização tem penetrado as terras interiores, matando paulatinamente as velhas tradições que tanto encantaram os comentadores de nova vida primitiva. Veja mais aqui, aqui e aqui.

VAQUEIROS E CANTADORES – O livro Vaqueiros e cantadores (1939 - Itatiaia/EdUsp, 1984), do historiador, antropólogo, advogado e jornalista Luís da Câmara Cascudo (1898-1986), trata sobre os nativos da poesia tradicional sertaneja, modelos do verso sertanejo, poesia mnemônica e tradicional, romances, pé-quebrado, os A.B.C., pelo-sinais e orações, ciclo do gado, vaquejadas e apartações, gesta de animais, o cantor, modelos de louvação, ciclo social, Padre Cicero, louvor e deslouvor das damas, o negro dos desafios do Nordeste, o cangaceiro, a cantoria, o desafio, documentário e uma reunião dos principais vaqueiros e cantadores nordestinos. Da obra destaco o trecho: A poesia tradicional sertaneja tem seus melhores e maiores motivos no ciclo do gado e no ciclo heroico dos cangaceiros. O primeiro compreende as gestas dos bois que se perderam anos e anos nas serras e capoeirões e lograram escapar aos golpes dos vaqueiros. A noticia de um animal arisco, veloz, fugindo aos melhores vaqueiros, corre de fazenda em fazenda e é comentada nas apartações. A lenda vai aparecendo. Um dia o dono resolve mandar dar campo, custe o que custar, ao boi rebelde. Juntam-se vaqueiros, prepara-se comida para todos, saem para o mato. Desta ou doutra vez, o boi é derrubado, trazido, com máscara ou peado, para humildade no curral. Incapaz de submeter-se à vida comum dos outros, abatem-no. Um cantador forja os versos. É o boi Surubim, o boi Barroso, o boi da Mão de Pau, o boi Espácio, a vaca Burel, a besta da serra de Joana Gomes. As onças preadoras de bodes, cabras e ovelhas, merecem também as honras de uma história detalhada. A onça do Cruxatu, do Sitiá são famosas. Outros animais têm sua crônica. O bode dos Grossos, um veado velocíssimo, um cavalo corredor excepcional ficam registrados no armorial da memoria sertaneja. Esses versos são espelhos da mentalidade do sertão. O cantador é a defesa única mas completa e continua do animal perseguido. Os lances de coragem, as arrancadas doidas, os saltos magníficos, a valentia de vaqueiros e caçadores, a covardia de uns, a imperícia de outros, arrogância, mentira, timidez, todos os aspectos morais são examinados duramente e expostos com nomes próprios e minucias identificadoras. Os animais perseguidores também estão vivendo na gesta. Cavalos, cães, éguas são mencionados com orgulho, indicando-lhes a moradia, os donos, as proezas, as vitorias e os insucessos. Surgem esses versos nos moldes mnemônicos dos A. B. C., nos versos, quadras, sextilhas e décimas, narrando a odisseia completa [...]. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

O ABOIO – No livro Paracoera (Schimidt, 1939), de Lauro Palhano, encontro o conto O aboi, o qual transcrevo a seguir: Vaqueiro é profissão que passa de pais a filhos durante muitas gerações. Vida de riscos e surpresas, por isso cheia de encanto para os sertanejos. Eles gastam muitos anos, a mocidade e até a idade madura guiando boiadas de uma região para outra, dormindo no caminho ao calor da fogueira, para no dia seguinte, ao luzir das primeiras estrelas, tocarem pra frente, acordando os campos e as matas com o canto plangente e prolongado do aboio. Quem deixa de ser vaqueiro, o que é raro, ou porque a enfermidade o inibe das correrias pelo campo, ou das travessias dos rios a vau, leva para o resto da existência a carga da saudade. Conta o coronel Aprigio que um seu compadre, vaqueiro de estimação, muito prezado pela família, foi por ele trazido para a cidade de Salvador, a fim de ser operado. Já na convalescença saíram juntos a passeio. Ao lusco-fusco da tarde estavam no Largo do Teatro que mais tarde passou a chamar-se Praça Castro Alves. Ali, resolveram esperar o bonde mas o vaqueiro, ao ver a multidão movediça que enchia o local, foi tomado de funda nostalgia. – Que é isso homem? está se sentindo mal? – Ih, compadre... que vontade de aboiá! – Tenha mão, compadre. Você pensa que está no sertão? – Qual o que, compadre! Não posso arresisti! Olhou para a multidão e começou: - Ô boiada lutrida! Eu quero aboiá! Não houve meio de dissuadi-lo do seu propósito. Afastou-se do coronel, meteu o mindinho no ouvido, conforme o hábito dos da profissão, e botou a boca no mundo, a cantar aquela toada melancólica, como se estivesse montado no seu cavalo tangendo bois: É boi turino! Boi Turino malabá! / Se não fosse boi turino / a vaca não ia no curráá... / ê... boi turino... Veja mais aqui e aqui.


A VIDA DE CANCÃO DE FOGO – Um dos cordéis que mais apreciei na vida foi A vida de Cancão de Fogo e o seu testamento, do poeta editor e cordelista paraibano Leandro Gomes de Barros (1865-1918): Cancão de Fogo já tinha / nove ou dez anos de idade / quando o pai dele morreu / deixou-os em necessidade / Cancão quando soube disso: / - Isso não é novidade. / - Mamãe está sem marido / por isso não vá chorar / eu também fiquei sem pai / porém sempre hei de passar / ela pode achar marido / pai é que não posso achar. / - Eu digo como o macaco / a um outro respondeu / quando ele disse: - Meu mano / sua mão hoje morreu; / disse-lhe então o macaco: / - Por isso esperava eu! / A mãe de Cancão de Fogo / decidiu-se a trabalhar / Cancão de Fogo não quis / a isso se sujeitar / dizendo: - Não tenho força / para serviço acabar. / Agora, pela viagem / ou para qualquer mandado / achava-se de prontidão / não se mostrava enfadado / ninguém conseguia dele / era trabalho pesado. / - Minha mãe acha que fez / favor ter me concebido / eu cá, sim, fiz-lhe um favor / livrei-a de ter morrido / e o que seria dela / se eu não tivesse nascido? / - Se ela deu-me de mamar / qu’eu não sei, ela é quem diz / eu não lhe pedi o peito / se me deu, foi porque quis / em eu lhe vazar os seios / foi um favor que lhe fiz. / Eu cá só devo favor ; ao sol e à água do rio / a água porque eu bebo / e tomo banho no estio / devo ao sol porque me esquenta / nas horas que tenho frio. / Cancão ganhou a estrada / da Paraiba a Goiana / passando por um partido / entrou chupou a cana / disse: - Nessas condições / eu viajo uma semana. / Às seis horas da manhã / encontrou ele um menino / um desses que vêm ao mundo / por capricho do destino / e ao princípio da vida / triste como a voz do sinhô. / Cancão perguntou a ele: / - O que tem que vens chorando? / já vão te doendo os pés? / e te vejo suspirando! / respondeu ele: - Eu devia / só viver me lastimando. / - Fui um menino enjeitado / fui logo triste ao nascer / nem uma ave noturna tão triste poderá ser / eu sou igual ao deserto / onde ninguém quer viver! / - Eu também sou como tu / só não fui foi enjeitado / mas até por minha mãe / eu sou bastante odiado / porém este mundo é grande / eu hei de viver folgado. / - Como se chama você? / respondeu: - Chamo-me Alfredo / - E eu sou Cancão de Fogo / meu nome eu digo sem medo / tendo precisão eu nego / porque em tudo há segredo. / - Quer ir comigo, acompanhe-me / faço-lhe observação / não há de insultar ninguém / e nem há de ser ladrão / ser esperto nos negócios / isso é uma obrigação. / - Só furtará uma coisa / estando necessitado / se não quiserem lhe dar / tem o direito sagrado / aí se rouba até Deus / se achar ele descuidado. / Disse Alfredo: - Pois vamos / porém eu quero saber / nós ainda tão pequenos / de que podemos viver? / disse Cancão: - Ora bolas! / Vivemos do que comer. / O Alfredo tinha um jeito / para os olhos revirar / que representava um cego / que fazia até jurar / até um médico oculista / era fácil de enganar / E dava um jeito na boca / que parecia aleijado / o Cancão de Fogo disse: / - Agora tenha cuidado / você vá para a cidade / para ver o que é passado. / Alfredo foi à cidade / e lá viu os movimentos / parecia um aleijado / e cego dos mais nojentos / soube de tudo que havia / trouxe três mil e trezentos. / Quando Alfredo chegou / Cancão ficou satisfeito / deu-lhe um abraço dizendo: / - És um menino direito / presta atenção aos mandados / tudo que faz é bem feito. / Meia-noite eles saíram / quando o dia amanheceu / dizia Cancão: - Neste mundo / não há mestre como eu / disse: - Nem o diabo pode / escapar de um laço meu. / Com seis dias de viagem / começaram a esmolar / Cancão aonda pedia / fazia gente chorar / a fim de dar uma esmola / era capaz de furtar. / No Ceará não ficou / uma só povoação / que não fosse explorada / por Alfredo e por Cancão / e nunca chegou o dia / que gastassem um só tostão. / Sou forçado aqui, leitores / a partir as aventuras / desse quengo inteligente / esse reis das travessuras / que já foi classificado / campeão das diabruras. / Leiam o segundo volume / desse livro apreciado / e veja o que fez Cancão / depois de tudo arranjado / com o dinheiro das emolas / deixando o padre danado. Veja mais aqui e aqui.

O CASTIGO DA SOBERBA – A peça teatral O castigo da soberba (entremês popular, 1952), do escritor e dramaturgo Ariano Suassuna (1927-2014), é baseada em um dos versos da peça Os persas, de grego Ésquilo, como também do cordel homônimo do famoso poeta popular paraibano Silvino Pirauá de Lima (1448-1913), que era mantida pelo cantador cearense Anselmo Vieira de Sousa, conforme recolhido no livro Violeiro do Norte (A Noite, 1955), do escritor, professor, advogado, jornalista e historiador Leonardo Mota (1891-1948). Do cordel destaco os trechos: Agora eu passo a contar Do que houve em algum tempo: O Castigo da Soberba, Que ficou para exemplo, Foi um caso acontecido, Não é coisa que eu invento. Era um homem muito rico, Tinha honras de Barão, Tinha vinte engenho de ferro, Em metal trinta milhão, Doze mil vacas paridas Nas fazendas do sertão. A mulher deste Barão Tinha honras de rainha, Sessenta e cinco criadas Para lhe servir na cozinha, Parecia inda mais bela Pelos cabelos que tinha. [...] (Cão) – “Isto era o que faltava: MANUEL padeceu as dor, E tu reza e caridade Nunca fez por seu amor, Confissão e penitença Tu toda vida abusou.” (Jesus) – “Alma, tu bem estás ouvindo Esta grande acusação, Eu, até pra defender-te Não vejo um pé de razão, Abre a tua consciência, Faz a tua confissão.” (Cão) – “Isso é só tempo perdido, Não tem ele o que dizer, Pois, enquanto andou no mundo, Só tratou de te ofender, Nunca lhe veio à lembrança Que ainda haverá de morrer!” (Alma)- “Ai, Senhor, se compadeça, Nunca a vós eu quis servir, Não sei mesmo o que vos diga Pois não vos posso iludir E me vejo na presença De Quem não posso mentir.” Disse os demônio duns pros outros: - “Boa confissão aquela! Agora queremos ver Essa alma pra quem apela... MANUEL é reto e justo, Nós hoje carreja ela!” (Jesus) – “Alma, pelo que me dizes Eu não posso te valer: Tu me viste morto de fome, Não me deste de comer! Tu me viste morto a sede, Não me deste de beber!” “Eu estava muito mortal, Tu não foste visitar; Tu me viste na cadeia, Não foste me consolar; Quando eu te vi errado, Te mandei aconselhar.” “Assim agora, alma ingrata, Vai cumprir teu triste fado, Que tu não fez pela vida De purgar os teus pecado, Na minha Glória só entra Coração purificado.” (Alma) – “Vala-me, ó Virgem Maria, Pelo vosso resplandor, Pelo dia em que nasceu Pelo nome que tomou, O nome do vosso filho Que no ventre carregou!” (Maria) – “Alma, já que me chamaste, Na presença te cheguei, Tu falaste com fiança Neste nome que eu tomei, No nome do meu filhinho Que no ventre carreguei.” (Alma) – “Ai, Senhora, Virgem Pura, Padroeira mãe dos home, Valei-me nesta agonia, Nesta sorte que consome, Sempre vejo protegido Quem recorre a vosso nome.” (Cão) – “Como ele está com ponta Só pra iludir Maria, Com tantos anos de vida Nome dela nem sabia, Só sabia decorado Era praga e harizia.” (Maria) – “Alma, tu nunca assististe, Nem ao menos um momento, Dentro dum lugar sagrado Onde houvesse um Sacramento, Que tu ouvisses meu nome Com grande contentamento?...” (Alma) – “Senhora, eu passando, um dia, Numa casa de oração, Eu, vendo o povo lovando A vossa consagração, Eu ouvi com muito gosto Com meus dois joelho no chão.” (Cão) – “Já Maria está puxando, A coisa se desmantela, Aquilo nunca se deu, Vejam que mentira aquela! Eu vi que esta mulher Todo mundo ilude ela!” “Ela põe-se a esmiuçar Puxa de diante pra trás, Pega com tanta pergunta, Também isso não se faz, Até aparecer coisa Que ninguém se lembra mais.” (Alma) – “Mãe amada, me livrai Das grandes rigoridade, Sei que gastei meus dias Envolvido em vaidade, Mas espero ser valido: Valei-me por caridade!” (Maria) – “Alma, o que tu me pediste Eu não posso prometer, Se tivesse em penitença, Com razão eu ia ver: Mas assim é impossível Te salvar, sem merecer.” (Alma) – “Rainha, Mãe Amorosa, Esperança dos mortais, Quem me recorre a vosso nome Sei que não desamparais, Eu pegando em vossos pés, Sei que não largo eles mais.” (Maria) – “Pois, alma, demora aí, Enquanto eu vou consultar, Fazer pedido a meu Filho, Ver se eu posso te salvar, Ver se teus grandes pecados Têm grau de se perdoar.” (Cão) – “Como esta tal Maria Eu mesmo nem nunca vi: Uns pedem por interesse, Pedem porque é para si, Mas ela pede é pros outros, Não se enjoa de pedir...” (Maria) – “Meu filhinho, aqui cheguei, Vim te fazer um pedido Para uma alma que chegou Lá do mundo corrompido... Tu, não tendo compaixão, Pra ela o céu está perdido.“(Jesus) – “Mas, minha Mãe, não é assim, Todos bem podem saber: Lá deixei as Escrituras Contando como há de ser... Os profetas publicando, Foi pra todos compreender.”  (Cão) – “Isso é outro português! Quem se engana é porque quer... Loucura grande a do home Que se ilude com mulher... Nem sei como se defende Uma alma tão lheguelhé...” (Maria) - “Meu Filho, dê-me a resposta Pra ciença do cristão, Eu sei que é grande pecado Não procurar confissão, Porém, meu filho, o pecado Vem desde o tempo de Adão.” (Jesus) – “Minha Mãe, larguemo esta alma, Foi muito ruim criatura... Se eu chegar a salvar ela, Muitas outra estão segura, E eu não posso salvar A quem a mim não procura.” (Maria) – “Pra isto mesmo, meu Filho, Foi vossa ressureição, Trespassaram vós no peito, Foi Longuim cãs suas mão, Sofrestes muito trumento Na vossa morte e paixão.” “Por vossa misericórdia Cipriano se salvou, Vós salvaste a outros muito Pelo vosso santo amor, Também perdoaste Paulo, Sendo teu perseguidor.” “Matia estava sofrendo, Vós avisaste num sonho Também livraste da morte Pai do senhor Santo Antônio E a filha de Cananéia Da vexação do demônio.” “Enfim sempre perdoaste A quem vos pediu perdão; Longuim, por se converter, Prostrou-se e pediu perdão, Por isto lhe deste a vida E também a salvação.” “Quando os Judeus vos faziam Grandes tormentos e horror, Pedro, por três vez seguida, Vos desconheceu, negou, Mas vós lhe deste o poder De ser vosso sucessor.” “Meu filho, perdoe esta alma, Tenha dela compaixão! Não se perdoando esta alma, Faz-se é dar mais gosto ao cão: Por isso abissolva ela, Lançai a vossa benção.” “Se vós não salvar esta alma Que aos vossos pés se apresenta, O demônio, sabendo disto, Agora é que bem atenta, E eu quero que ele hoje Réle a teste e quebre a venta.” (Jesus) – “Pois, minha Mãe, carregue a alma, Leve em sua proteção, Dia às outras que a recebam, Façam com ela união... Fica feito o seu pedido: Dou a ela salvação.”  (Cão) – “Vamos todos nos embora Que o causo não é o primeiro, E o pior é que também Não será o derradeiro... Home que a mulher domina Não pode ser justiceiro!” (Jesus) – “Os demônios se arretirem, Vão lá pras suas prisão Que é pra não atentar mais A todo fiel cristão... Quem recorrer ao meu nome, Eu garanto a salvação.” Agora acabei o verso Minha história verdadeira... Toda vez que eu canto ele, Dez mil réis vem pra algibeira, Porém hoje eu dou por cinco: Talvez não ache quem queira! Veja mais aqui, aqui aqui e aqui.

CINEMA E CORDEL – O livro Cinema e cordel: jogo de espelho, da estudiosa do cinema nordestino e doutora em literatura comparada pela Universidade Le Mirail de Toulouse, Sylvie Debs, traz o estudo realizado sobre o cinema brasileiro, investigando as formas tradicionais de expressão artística do povo brasileiro, ao abordar sobre a poesia popular do Nordeste, escrita em folhetos de cordel ou improvisada nas cantorias, inspirando o cinema brasileiro. A autora é considerada uma das maiores especialistas de cinema brasileiro na França e já publicou Patativa do Assaré (2000), Os mitos do sertão: emergência de uma identidade nacional (2002) e Brasil: o ateliê dos cineastas (2004), assim como inúmeros artigos sobre cinema, literatura de cordel e cultura popular, em revistas especializadas. Ela foi produtora associada de filmes de longa-metragem e participou como jurado em festivais de cinema no Brasil e em outros países. Como adida de cooperação e ação cultural na Embaixada de França no Brasil (2006-2010), foi uma das organizadoras do Ano França-Brasil e, depois, no México (2010-2013), também como adida cultural, promoveu e participou de importantes eventos e intercâmbios culturais e artísticos entre o México e França. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Xilogravura de Mariana Pabst Martins.
Veja mais aqui.
 

sábado, agosto 01, 2015

LITERATURA DE CORDEL, BOURDIEU, TCHAIKOVSKY, MOLIÈRE, CHINEN, PRIMO LEVI, LOLA, CHARB, RICCI & FESTA DO TATARITARITATÁ!!!!


VAMOS APRUMAR A CONVERSA? A GRATIDÃO, OS PROPÓSITOS E A DETERMINAÇÃO – Ontem foi dia de festa; hoje, mais ainda! Viver é uma festa contínua, só depende da forma como a vemos. Por isso a vida prossegue, a luta se faz festa sempre e continua todo dia e o dia todo. Festa porque lições são aprendidas, afinal tudo na vida é aprendizado. Até aquilo que admitimos como perdas, na verdade, são ganhos de aprendizagens. E agradeço por ter a oportunidade de viver todos os momentos, sejam quais tenham sido, porque me deram a oportunidade de aprender algo a mais. E o melhor de tudo é a descoberta, o verdadeiro aprendizado. O prazer da descoberta é inenarrável. Por isso sou grato à vida todos os dias. Como sou grato a todos por tudo que vivemos em todos os momentos da nossa vida. Agradeço a todos pelas manifestações de apoio. Agradeço a cada um de vocês o prestígio avalizado, tornando uma festa que é minha em nossa. Por isso, a festa não é minha, é nossa, nos fazemos e somos a festa: tudo é nosso fazendo tanto a nossa festa como aqui o lugar de pouso na sua passagem. O agradecimento é para cada um de vocês por permitir que mais uma etapa seja cumprida e torne possível aquilo a que nos propomos e determinamos ser o nosso caminho. Agradecimento a cada um de vocês pelo incentivo com o seu aceno que afaga nosso coração e que com a estimulação que a cada passagem de vocês promove em nossa caminhada, permitindo que todos os dias recomecemos e seguidamente retornemos para recompor o plano de voo e a trilha traçada - e percorrê-la com vocês, asseguro, é bom demais! O agradecimento a cada um de vocês por estarem presentes aqui proporcionando a comunhão de viver. Reiterados agradecimentos por chegar aonde chegamos. E essa marca só foi possível por causa de vocês. Obrigado, obrigado, obrigado. Além do mais, mais uma coisa precisa ser dita por gratidão: nada disso seria possível sem a vigilante e determinada contribuição inestimável da querida Meimei Corrêa, ela sim, a grande vitoriosa que em todas as horas e a todo momento torna tudo que planejamos em uma realidade festiva. E isso merece destaque: toda luta vira festa. E isso, reitero, é bom demais! É ela quem desde as primeiras horas do seu dia, começa suas atividades quando da atualização deste espaço diariamente, até a virada da noite pela madrugada adentro com a programação do nosso Projeto MCLAM e, novamente, retoma determinada, teimosa e apaixonadamente dedicada para que sejamos presentes no cumprimento de nossas metas traçadas e levando paratodos aquilo que havíamos planejado, transformando a ideia em real. É ela insone que nos traz o prazer de dividir emoções. Então, essa marca, essa conquista, essa festa, é dela. E agradecer é muito pouco! Pra ela é, então, dedicado todo o resultado das conquistas e o reconhecimento de que se há um vitorioso, não seria ninguém, a não ser ela. A vitória é dela, pra ela e nela. Obrigado, obrigado, obrigado. Pra ela, gratidão eterna. Obrigado, obrigado, obrigado. Beijabrações paratodos – e todos os mais especiais beijabrações afetuosíssimos no coração apaixonante dela – e vamos aprumar a conversa e mais tataritaritatá aqui.


Imagem: Venus and Cupid, do pintor italiano Sebastiano Ricci (1659–1734)


Curtindo Symphony nº 4 in F minor Op. 36; & Francesca da Rimini, Fantasia after Dante Op. 32 (Decca Eloquence, 2005), do compositor russo Pyotr Tchaikovsky (1840-1893), com London Symphony Orchestra; George Szell; New Philharmonia Orchestra; Lorin Maazel. Veja mais aqui.

AS REGRAS DA ARTE – O livro As regras da arte: gênese e estrutura do campo literário (Presença, 1996), do sociólogo francês Pierre Bourdieu (1930-2002), aborda temas como a obra de Flaubert e A educação sentimental, três estados do campo, a conquista da autonomia, a ruptura do burguês, Baudelaire, um mundo econômico às avessas, o realismo, a invenção da estética pura, a arte e o dinheiro, a dialética da distinção, as trocas entre pintores e escritores, dois modos de envelhecimento, fundamentos de uma ciência das obras, compreender o compreender, entre outros assuntos. Da obra destaco o trecho: [...] A ordem anárquica que reina em um campo intelectual que chegou a um alto grau de autonomia e sempre frágil e ameaçada, na medida em que constitui um desafio as leis do mundo economico ordinario, e as regras do senso comum. E não pode basear-se sem riscos apenas no heroísmo de alguns. Nao e a virtude que pode fundar uma ordem intelectual livre; e uma ordem intelectual livre que pode fundar a virtude intelectual. A natureza paradoxal, aparentemente contradit6ria, dos intelectuais faz com que toda ação politica visando reforçar a eficácia politica de seus empreendimentos esteja destinada a se dar palavras de ordem de aparência contraditória: de um lado, reforcar a autonomia, especialmente reforçando a fenda com os intelectuais heteronomos, e combatendo para assegurar aos produtores culturals as condicoes economicas e sociais da autonomia com relação a todos os poderes, sem excluir os das burocracias de Estado (e antes de tudo em materia de publicação e de avaIiação dos produtos da atividade intelectual); de outro lado, afastar os produtores culturais da tentação da torre de marfim, encorajando-os a lutar pelo menos para garantir para si 0 poder sobre os instrumentos de produção e de consagração e a entrar no seculo para afirmar os valores associados a sua autonomia. Essa luta deve ser coletiva porque a eficacia dos poderes que se exercem sobre eles resulta em grande parte do fato de que os intelectuais os enfrentam em ordem dispersa, e na concorrencia. E tambem porque as tentativas de mobilização serao sempre suspeitas, e condenadas ao fracasso, enquanto puderem ser suspeitas de estar postas a serviço das lutas pela leadership de um intelectual ou de um grupo de intelectuais. Os produtores culturais não reencontrarão no mundo social 0 lugar que Ihes cabe a menos que, sacrificando de uma vez por todas 0 mite de "intelectual orgânico", sem cair na mitologia complementar, a do mandarim retirado de tudo, aceitem trabaIhar coletivamente na defesa de seus interesses pr6prios: 0 que deveria leva-los a afirmar-se como urn poder internacional de critica e de vigilância, ou mesmo de proposição, em face dos tecnocratas, ou, por uma ambição a uma vez mais alta e mais realista, portanto limitada a sua esfera própria, a engajar-se em uma acao racional de defesa das condições econômicas e sociais da autonomia desses universos socials privilegiados onde se produzem e se reproduzem os instrumentos materiai e intelectuais do que chamamos de Razão. Essa Realpolitik da razão estara sem duvida exposta a suspeita de corporativismo. Mas lhe cabera mostrar, pelos fins a serviç dos quais colocara os meios, duramente conquistados, de sua autonomia, que se trata de um corporativismo do universal. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

A NARRATIVA DAS MULHERES – O livro A mulher heroica: relatos clássicos de mulheres que ousaram desafiar seus papéis (Summus, 2001), do médico psiquiatra e professor Allan B. Chinen, aborda temas como poder, sabedoria, natureza, opressão e autolibertação, a retomada do poder, conto de Pueblo Tiwa, os limites do poder, o poder da intuição, astúcia e coragem, cura e vida selvagem, ressurreição e natureza, irmandade, irmãs e libertação, o resgate do verdadeiro self, retornando das irmãs e o príncipe, entre outros assuntos. Da obra destaco o trecho: [...] Como as histórias das mulheres focalizam protagonistas femininas, é natural imaginar que esses contos tenham se originado em contadoras de histórias, mas, até recentemente, antropólogos e estudiosos do folclore não coletavam as histórias com mulheres. Felizmente, essa situação mudou. Estudiosas do folclore, como Linda Degh, Susa Kalcik, Margaret Yocom, Karen Baldwin, Donna Eder, Penelope Eckert e Kristin Langellier, estão descobrindo agora que as mulheres tendem a contar as historias de uma maneira cooperativa característica. Por exemplo, uma mulher pode começar descrevendo um problema que teve com o seu patrão, que lhe fez insinuações sexuais. Outra se solidariza com a situação da contadora da história, observando de imediato que passou por uma situação semelhante. Uma terceira pode comentar a coragem da primeira, ao recusar a investida do chefe. Uma quarta mulher pode então relatar um episódio de sua vida em que sofreu assedio sexual, antes de pedir à narradora que prossiga. Na verdade, a contadora de histórias é todo o grupo de mulheres. O resultado é uma narrativa repleta de temas diferenciados, de múltiplas perspectivas e de muitos personagens – o que é típico dos contos de fadas. Veja mais aqui e aqui.

A TRÉGUA – O romance A trégua (Companhia das Letras, 2010), do químico e escritor italiano Primo Levi (1919-1987), conta a longa jornada depois da liberdação dos campos de Auschwitz-Birkenau, no qual o autor foi prisioneiro, dedicando-se a escrever a sua condição de sobrevivente do Holocausto, numa viagem pela Europa semidestruída e ao lado de companheiros numa viagem sem destino pelo Leste até União Soviética. Da obra destaco o trecho inicial: Nos primeiros dias de janeiro de 1945, sob a pressão do exército vermelho, já nas proximidades, os alemães desocuparam às pressas a bacia mineira silesiana. Todavia, em outros lugares, e em análogas condições, não hesitaram em destruir com fogo ou com as armas o Lager, campo de concentração ou de extermínio, juntamente com os seus ocupantes; no distrito de Auschwitz agiram de maneira diversa: ordens superiores (ao que parece ditadas pessoalmente por Hitler) impunham a “recuperação”, a qualquer preço, de todos os homens aptos para o trabalho. Por isso, todos os prisioneiros sadios foram retirados, em condições assombrosas, para Buchenwald e Mauthausen, enquanto os doentes foram abandonados à própria sorte. A partir de vários indícios, é lícito deduzir a intenção primeira alemã de não deixar nos campos de concentração nenhum homem vivo; mas um violento ataque aéreo noturno e a rapidez da investida russa induziram os alemães a mudar de ideia, e a bater em retirada, deixando inacabados o próprio dever e a própria guerra. Na enfermaria do Lager de Buna-monowitz chegávamos a oitocentos. Destes, cerca de quinhentos morreram das próprias doenças, do frio e da fome, antes que chegassem os russos, e outros duzentos, apesar dos socorros, nos dias imediatamente sucessivos. A primeira patrulha russa pôde ser vista do campo por volta de meio-dia de 27 de janeiro de 1945. Charles e eu fomos os primeiros a avistá-la: estávamos transportando para a vala comum o corpo de Sómogyi, o primeiro morto dentre os nossos companheiros de quarto. Reviramos a padiola na neve infecta, pois a vala já estava cheia, e outra sepultura não era possível: Charles tirou o boné, para saudar os vivos e os mortos. Eram quatro jovens soldados a cavalo, que agiam cautelosos, com as metralhadoras embraçadas, ao longo da estrada que demarcava os limites do campo. Quando chegaram ao arame farpado, detiveram-se, trocando palavras breves e tímidas, lançando olhares trespassados por um estranho embaraço, para observar os cadáveres decompostos, os barracões arruinados, e os poucos vivos [...] Veja mais aqui.

A BATALHA DE OLIVEIROS COM FERRABRAZ – Hoje como é o dia do poeta de Literatura de Cordel, nada melhor que trazer aqui o seu nome maior que é o poeta Leandro Gomes de Barros (1865-1918): Eram doze cavalheiros / homens muito valorosos / destemidos e animosos / entre todos os guerreiros / como bem, fosse Oliveiros / um dos pares de fiança / que sua perseverança / venceu todos os infiéis / eram uns leões cruéis / os doze pares de França. / Todos eram conhecidos / pelos leões da igreja / pois nunca foram a peleja / que nela fossem vencidos / eram por turcos temidos / pela igreja estimados / porque quando estavam armados / suas espadas luziam / os inimigos diziam: / esses são endiabrados. / Tinha o duque de Nemé / qu’era uma espada medonha / o grande Gui de Borgonha / Geraldo de Monde Fé / Carlos Magno tinha fé / em todos os cavalheiros / pois entre todos guerreiros / de quem nos trata a história / ve-se sempre a vitória / de Roldão e Oliveiros. / O almirante Balão / tinha um filho Ferrabraz / que entre os turcos o mais / que tinha disposição / mesmo em nobreza e ação / era o maior que havia / então em toda Turquia / onde se ouvia falar / tudo havia respeitar / Ferrabraz de Alexandria. / Foi Ferrabraz procurar / saiu com uma grande tropa / ver se achava na Europa / um rei para pelejar / pegou logo a exclamar / com mais precipitação / fazendo uma exclamação / insultando os cavalheiros / falando contra Oliveiros / fazendo acinte a Roldão. / Ferrabraz estava deitado / sentiu chegar Oliveiros, / foi ver se eram os cavalheiros / a quem já tinha insultado / depois de ter bem olhado / cresceu-lhe mais o furor / com desprezo aterrador / e raiva dos cavalheiros / perguntou a Oliveiros? = Que fizeste ao teu senhor? / Levanta-te cavalheiro, / prepare a arma, se apronte / pegue o cavalo e se monte / trate de ser bom guerreiro / ponha seu corpo ligeiro / veja, não dê uma falha / a morte entre nós se espalha / a hora de um é chegada / lance mão de sua espada / vamos entrar na batalha. / Depois de se levantar / Ferrabraz se preparou / e a Oliveiros rogou / que o ajudasse a armar / Oliveiros quis faltar / por achar que era perigo / disse Ferrabraz: - Te digo / confie em minha nobreza / eu não uso de vileza  / para com meu inimigo. / Oliveiros se apeou / ajudou a Ferrabraz / com cortesias iguais / ele também o tratou / quando Ferrabraz se armou / vestiu a saia de malha / na qual não tinha uma falha / feita por outro guerreiros / montaram-se os cavalheiros / deram começo à batalha. / Posto em ordem prosseguiram / não escutaram razões / pareciam dois leões / numa jaula enfurecidos / dois golpes iguais medidos / todos dois descarregaram / com as forças que botaram / os braços ficaram bambos / e os cavalos de ambos / em terra se ajoelharam. / Oliveiros recebeu / um golpe tão desmarcado / que ficou atordoado / e muito sangue desceu / o turco aí conheceu / dele as força abatidas / com as vozes compadecidas / disse: - Oliveiros, teimoso / bebe o balsamo milagroso / que te cura essas feridas. / - Ferrabrás, eu não aceito / assim não deves cansar-te confesso de minha parte / que toda oferta rejeito / porque eu não me aproveito / duma ação acovardada / por uma proteção dada / pois que prefiro morrer / que do teu balsamo beber / sem o tomar pela espada. / Pariu ao seu contendor / com tanta disposição / que só se tivesse são / teria tanto valor / deu-lhe um golpe matador / porém pegou mal pegado / feriu o turco dum lado / Ferrabraz se desviou / tirando o bálsamo tomou / ficou de tudo curado. / Disse o turco: - Cavalheiro / tu já estás muito ferido / queira aceitar meu partido / renda-se prisioneiro / assim lhe farei herdeiro / do reino de Alexandria / e tem mais a garantia / de hoje para amanhã / casar com a minha irmã / a flor de toda Turquia. / Disse Oliveiros: - Senhor / eu não preciso riqueza / quero morrer na pobreza / mas bem com meu Salvador / porque foi meu criador / e por minha alma trabalha / um instante não empalha / pra salvar os fieis / turco, / cuida em teus papeis / vamos dar fim à batalha. / Cobriu-se com seu escudo / beijou a cruz da espada / e deu uma cutilada / que desceu arnez e tudo / e dando outro a miúdo / a Ferrabraz ofendeu / o céu o favoreceu / um revés escapuliu / o bálsamo dele caiu / e Oliveiros bebeu. / E tornou a investir / que só um leão voraz / e disse: - Senhor Ferrabraz / é tempo de decidir; / só se ouvia era tinir / as espadas pelo ar / Roldão que estava a olhar / de vez em quando dizia: / - Oliveiros, eu só queria / estar agora em teu lugar. / Já tinham se espedaçado / arnez, capacete e tudo / não tinha mais um escudo / que não estivesse quebrado / as lanças tinham voado / só as viseiras existiam / eles já mal se cobriam / nas horríveis cutiladas / somente as duas espadas / sem dano algum resistiam. / Ferrabraz a resistir / estava com tanta paixão / Oliveiros só um leão / quando alguém quer o ferir / disse: - Vamos decidir / esta batalha comprida / a coisa está conhecida / um denós hoje aqui erra / e neste campo de guerra / um há de deixar a vida. / Oliveiros se ergueu / marcou-lhe a cabeça ao meio / que o golpe foi mais feio / que um cavalheiro deu / Ferrabraz estremeceu / e quase perde o sentido / ficando muito abatido / disse consigo Oliveiros: / - Vós seres um dos primeiros / a seres hoje vencido. / Assim que Ferrabraz viu / se ultimando sua vida / pos a mão sobre a ferida / a Oliveiros pediu / julga-se que o turco sentiu / uma emoção tanto ou quanto / que disparou nesse pranto / ressentido e magoado / como se fosse tocado / do Divino Espírito Santo. / - Nobre e grande cavalheiro / (disse o turco arrependido) / agora estou convencido / que teu Deus é verdadeiro; grande, bom e justiceiro / ente de grande mister / faz tudo quanto ele quer / e nele não há quem pise... / te peço que me batize / depois faça o que quiser. / Estando Oliveiros sentido / por ver assim Ferrabraz / lhe disse: - Hoje serás / pelos pares recebido / não por eu ter-te vencido / mas, sim, por seres cristão / porque a religião / abraça todo rebelde / desde a hora que pede / de suas culpas perdão. Veja mais aqui, aqui e aqui.

ESCOLA DE MULHERES – A peça teatral Escola de Mulheres (L'école des femmes, 1662), do dramaturgo, ator e encenador francês Molière (Jean-Baptiste Poquelin – 1622-1673), conta a história de um solteirão que é contra os maridos traídos, denunciando-lhe as desventuras e que, quando quis casar-se, temendo ser traído, escolheu uma menina que criara desde os quatro anos de idade, precavendo-se para que o ensino dela a deixasse burra. Porém, ela se apaixona por um rapaz. Da obra destaco o trecho final: [...] AGNES (lê) - AS MÁXIMAS DO CASAMENTO Ou Os deveres e Obrigações da Mulher Casada Com o seu Exercício Cotidiano Primeira máxima Aquela que de outrem o leito Integra por honesto nó, Em que pese o banzé que hoje em dia é aceito, Deve sempre ter a peito Que o homem a toma para si só. ARNOLFO - Explicar-te-ei mais tarde o que isto quer dizer; Por enquanto, porém, só se trata de ler. AGNES (prossegue) Segunda Máxima Só se deve enfeitar Na medida em que o acatar O marido que a possui; Basta que o seu ar lhe convenha, E na questão em nada influi Que por feia outra gente a tenha. Terceira Máxima Nada de rendas engomadas, Nem de loções, batons, pomadas, Que o resto põem liso e florido: Para a honra são drogas mortais: E tratos de beleza tais Nunca são para o marido. Quarta Máxima Sob a touca, ao sair de casa, Que abafe todo o olhar fogoso; Para que praza a seu esposo, Mister é que a ninguém mais praza. Quinta Máxima A não ser que o marido a chame, Toda visita é erro flagrante: Se alguém, com índole galante, Como hoje em dia manda a moda, Visa acomodar à Madame, Ao patrão não acomoda. Sexta máxima Berloques e balangandãs, Provenientes dos galãs, E toda espécie de presentes, Rejeitará determinada; Pois que, nos dias presentes, Não se dá por nada. Sétima Máxima De seus móveis, que despache, Sem que proteste, por inteiro, Papel, penas e tinteiro: Onde reina a boa praxe, No lar só o marido deve Escrever o que lá escreve. Oitava Máxima As mulheres de cenáculos, Assembléias, espetáculos, Saem com conceitos corrompidos E é mister serem proibidos, Com o mais que a eles se refira: Pois é lá que conspira, Contra os pobres dos maridos. Nona Máxima Deve uma mulher, que não queira Ficar com a honra desbaratada, Fugir do jogo, mal funesto! Que o jogo, diversão traiçoeira, Faz com que a mulher parada Tope com todo o seu resto. Décima Máxima As excursões silvestres E refeições campestres Evite com mortal praga. Dizem cérebros prudentes Que essa espécie de presentes O marido sempre paga. Décima Primeira Máxima... ARNOLFO - Terminarás sozinha, e essas coisas, em breve, Explicar-te-ei uma a uma, assim como se deve. Neste instante ocorreu-me assunto à mente; Entra, e guarda esse livro, encarecidamente. Vou tratar da questão e volto sem que tarde; Se o notório chegar, que uns momentos me aguarde. Veja mais aqui e aqui.


LOLA – O filme Lola (1961), do diretor e roteirista francês Jacques Demy (1931-1990), é um tributo ao diretor Max Ophüls como um musical sem música e inspirado no filme Der Blaue Engel (1930), de Josef von Sterneberg no qual Marlene Dietrich desenvolveu uma performance burlesca denominada Lola Lola. A história se desenrola na cidade costeira de Nantes, na França, no qual um jovem abandona sua situação na vida e se encontra com uma paixão da sua vida que é Lola, uma dançarina de cabaré, que está dividida entre ele e um marinheiro estadunidense. Eis que o jovem se envolve numa trama de contrabando de diamantes, pelo qual prosperou e tornou-se muito rico, retornando para Nantes com o objetivo de se casar com Lola. Para seu desencanto, ela se vai com o marinheiro, razão pela qual ele fica desanimado e amargo pelos caprichos do amor e da fortuna. O destaque do filme é para a atriz francesa Anouk Aimée. Veja mais aqui.

IMAGEM DO DIA 
Charge do caricaturista, cartunista e jornalista francês Charb – Stéphane Charbonnier (1967-2015), assassinado no massacre do jornal satírico francês Charlie Hebdo, no qual era diretor, extraída do livro Marx, manual de instruções (Boitempo, 2013) do filósofo, professor e dirigente da Quarta Internacional, Daniel Bensaid (1946-2010). Veja mais aqui.

VAMOS APRUMAR A CONVERSA?

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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MARY OLIVER, ROSI BRAIDOTTI, VERONICA GORRIE & CHACRINHA

  Imagem: Acervo ArtLAM .   O segredo da brochura artesanal... - Uma fedentina tomou conta do lugar: Que fedor! De onde vem? Tem defunto...