
OS SERTÕES DE GUIMARÃES ROSA
[...] Num campo de muitas águas. Os buritis faziam
alterza, com suas vassouras de flores. Só um capim de vereda, que doidava de
ser verde – verde, verde, verdeal. Sob oculto, nesses verdes, um riachinho se
explicava: com a água ciririca – “Sou riacho que nunca seca...” – de verdade,
não secava. Aquele riachinho residia tudo. Lugar aquele não tinha pedacinhos. A
lá era a casa do Boi. O Boi, que vinha choutando. Antão o Boi esbarrou. Se
virou, raspou, raspou, raspou,. O Boi se fazia, muitas vezes; mandava nos olhos
da gente suas seguidas figuras. O Vaqueiro mandou o medo embora. Num à-direita
se desapeou, e pulou pra o lado dele. Lhe furtou a volta. Pôs a vara-de-ferrão
na forma, pra esperar ou pra derrubar. Mas o Boi deitou no chão – tinha
destiado na cama. Sarajava. O campo resplandecia. Para meljhor não se ter medo,
só essas belezas a gente olhava. Não se ouvia o bem-te-vi: se via o que ele não
via. Se escutava o riachinho. Nem boi tem tanta lindeza, com cheiro de mulher
solta, carneiro de lã branquinha. Mas o Boi se transformoseava: aos brancos de
aço de lua. Foi nas fornalhas de um instante – o meio-tempo daquilo durado. O
Vaqueiro falou o Boi. “-Levanta-te, Boi Bonito, ô meu mano, deste pasto
acostumado! – Um vaqueiro, como você, ô meu mão, no carrasco eu tenho deixado!”
O de ver que tinha o Boi: nem ferido no rabicho, nem pego na maçaroca, nem
risco de aguilhada. O Vaqueiro que citou. O Cavalo não falava. [...].
Trechos
da obra Manuelzão e Miguilim (José Olympio, 1977), do escritor, médico e
diplomata João Guimarães Rosa (1908-1967). Veja mais aqui, aqui, aqui,
aqui e aqui.
Veja
mais sobre:
Tudo em
mim mestiço sou, O povo brasileiro de Darcy
Ribeiro, o anarquismo de Emma Goldman, A história da
vida de Helen Keller, a música de Haydn & Guilhermina Suggia, A escultura
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Fofos Encenam & Viviane Madu aqui.
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Coelho Frota, a música de Ida
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A psicanálise de Karen Horney & Homofobia é
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Cantador & Cantarau
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Quando o estreitamento do compadrio
está acima da lei, aí, meu, as panelinhas mandam ver e só os privilegiados se
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Brincarte
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A vida
se desvela nos meus olhos fechados, Outras mentes de John
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a fotografia de Edward Weston, a arte
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Carta de amor, Espécies
naturais de Willard Van Orman Quine, Mulher da cor do tango de Alicia Dujovne Ortiz,
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A fome e
a laranjeira, Princípios da filosofia do direito de Hegel,
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fotografia de Sebastião Salgado, a xilogravura de Fernando Saiki, a arte de David Padworny & Tempo de amar de Genésio Cavalcanti aqui.
&
AS VISÕES
DE KIESLOWSKI
Entre os muitos e belos filmes
que vi do premiadíssimo cineasta polonês Krzysztof Kieslowski
(1941-1996), dois curtas-metragens documentários muito interessantes. O primeiro,
Sete mulheres de diferentes idades (Siedem kobiet w róznym wieku, 1978),
composto por uma série de sequências atribuidas aos dias da semana, começando
na quinta-feira com a bailarina do dia por heroína, registrando naturalmente as
ações e reações das personagens e reações, os
muitos anos de trabalho meticuloso das bailarinas, seleção de elenco,
experimentações e o triunfo no palco. O segundo, o premiado Cabeças que falam (Gadajace glowy, 1980), no qual acontecem
entrevistas com centenas de poloneses, ordenado cronologicamente do bebê à
mulher centenária, questionando o ano de nascimento, quem é a pessoa, o que é
mais importante para ela, o que ela pensa do futuro. Veja mais aqui, aqui, aqui
e aqui.
RÁDIO
TATARITARITATÁ: MARCUS VIANA
Pantanal,
a suíte orquestral Olga, A música dos 4 elementos, Sete Vidas amores &
guerras, Raio & Trovão, entre outras, do violinista, tecladista e
compositor Marcus Viana. Ligue o som
e confira. Veja mais aqui e aqui.
A ARTE DE TARSILA DO AMARAL
A arte da pintora brasileira Tarsila do Amaral (1897-1973). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e
aqui.