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domingo, novembro 09, 2025

CRISTINA RIVERA GARZA, ISABEL WILKERSON, NADYA TOLOKONNIKOVA & NATARA NEY

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som dos álbuns CinePoesia (2020), A Mil Tons (2017), Cartas brasileiras (2006) e Quinteto (1999), da compositora, arranjadora e flautista Léa Freire (Léa Silvia de Carvalho Freire).

 

Elegia à catábase de Simone... - Ao despertar, aquela era a mais perfeita das manhãs e ela recendia iluminada pela satisfação, aspirando o sublime aroma de uma felicidade indestrutível, indizivelmente feliz. Transpirava às voltas com seus êxtases sentimentais e compreendia por si, sem que precisasse de maiores explicações. Era professora desde nascença, brincava ensinando os deveres às bonecas, dava aulas para aves e árvores do quintal, ou quem aparecesse às suas tranças na face rosada, fulgurava pelo ondulante canavial da paisagem, sentada à murada da cacimba, com suas fantasias eloquentes. Ali naquele quintal vestia-se hierática de todas as saudades, com o frescor adorável de imaculadas rosas nos canteiros de flores. Parecia viver numa fabulosa névoa onírica, o sorriso atravessava a primavera e nela o pássaro havia por toda parte. Quando não se fazia deliciosamente acolhedora pelas venerações outonais, pela casa toda, herdada dos pais, desde o terraço antigo dos inumeráveis momentos das risadas perduráveis no calor estival, em que ressoavam os ecos de sua infância, a intimidade invernosa de sua adolescência na visagem de seus antepassados flutuantes e dali o amor a fizera solitária, porém feliz. Assim todos os dias desde que se entendeu por gente e, obstinada, perseguia seus propósitos, como se nadasse um oceano imenso às braçadas por atravessá-lo triunfante, inteiramente alegre e segura. Inebriava com sua lindeza irrepreensível e ao seu modo, mesmo quando as nuvens roçavam a colina e a noite cobria todo o lugar, as pálpebras úmidas sobressaiam ao fechar os olhos contida, com as crepusculares sensações do dever cumprido. Estendia a mão às ocasiões e espargia condecorações e entusiasmos. Comoventemente formidável seguia seu caminho serena e imponente, o senso de justiça e a sinceridade à toda prova, feliz com o corpo que habitava esgueirando-se pelo tumulto das ruas, os transeuntes no tráfego, a dignidade extrema, a força do próprio esplendor. Conhecia as pessoas por instinto e delas aprendera o tanto quanto havia chorado no quarto, a perda dos pais e a perpétua sensação na ênfase da pulsação ressoante pelas boas recordações. Com ela tudo era digno de nota e desconhecia o quão perigoso era viver. Tinha de sair e assim o fez. Aprontou-se, ganhou o mundo. Ao retornar de Porto de Galinhas depois do meio dia, recolheu-se ao quintal e revivia, deparando-se consigo mesma: um lance de dados e o inescrutável, quem estorvaria? Nem passava pela cabeça a malquerença duma câmara de furiosos evangélicos se passando por tirânicos parlamentares, vingativos legionários dementadores possuídos pelo ódio do deus deles, aos berros propagadores de um inexorável Jesus armado até os dentes, implicados em escusas malversações do erário público da edilidade, em conluio com gestores municipais desse Brasilzão do Fecamepa. O ressentimento deles à flor da pele e tudo estava perdido. Subitamente ela empalideceu, o mistério roçava e por um imprevisível segundo o petardo do fuzil desfigurou sua face. Nem deu tempo ao sobressalto, aterrorizada, o braço pendente, a dor física e o arrepio, quedou com os vastos sonhos desabando desprevenidos pelo silêncio. Foi às profundezas como se fosse Marielle no meio da tarde e, como o escândalo de Ângela, ela caiu Mendietta, a vida interrompida e nem deu tempo de entoar Loalwa: “Chorando se foi”... Não se despediu feito Sharon, outra Grammont se calara... E era só a professora Simone de Ipojuca, uma Marques da Silva incluída às estatísticas de cada 10 minutos. A fisionomia esmagada no quintal, a identidade irreconhecível seria talvez a recompensa, só Deus sabia, o enorme golpe, a vida violada, o sangue esguichando, a brusca realidade e o sonho se dissipava ausente, chegava a hora irrevogável e o último suspiro: a estase se confundia com as trevas, como se fosse o quanto a dizer no seu cortejo. Até mais ver.

 

Bell Hooks: O amor verdadeiro raramente é um espaço emocional onde as necessidades são instantaneamente satisfeitas. Para conhecer o amor, precisamos investir tempo e comprometimento... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Liane Moriarty: Muitos segredos dolorosos são melhores ficando guardados. O problema é que as pessoas acham tão difícil mantê-los... Veja mais aqui & aqui.

Scholastique Mukasonga: Os livros eram túmulos de papel que eu tinha que construir para minha família e para cada vítima que, perdida no anonimato do genocídio, permanece sem sepultura. Como esse túmulo tinha que ser digno delas, sempre me preocupei em escrever bem... Veja mais aqui & aqui.

 

A GEOLOGIA DO LOCAL

Imagem: Acervo ArtLAM.

Antes da destruição e da poeira roxa pálida \ antes do início daquele lento ajuntamento de \ ruínas feridas \ antes que os edifícios de San Antonio Abad \ se transformassem em bolos de vários andares de um estilo rococó distante. \ antes de percebermos que o Trovador de Tampico \ jazia algures debaixo de La Roma \ Só se ouvia ruído. \ Esse barulho. \ Um tremor áspero, \ um gemido tuberoso que vinha de longe e de dentro, \ o estertor de um longo e sufocado bocejo, \ um facão polido, \ uma voz sem voz. \ o som perseguindo-se dentro da própria \ garganta. \ Assim nasceu o antes e assim nasceu o depois. \ Uma desgraça inaugural com um anel de morto no dedo. \ E assim nasceram os quebrados. \ E nasceram as formigas que carregaram os restos \ pouco a pouco. \ E renasceram as baratas iridescentes voando \ de canto a canto. \ Os cantos nasceram. \ Ângulos de luz onde a luz se tornava sinistra. \ Nichos gotejando sêmen e ozônio. \ Esse era o contexto. \ Ali, todos nós nascemos \ caindo. \ Lascas espiraladas de hélio. \ Rodeada por soldados \ de um cinza único, \ a cidade era um corpo encolhido em forma de bola no amplo \ leito do seu vale, \ repleto de dor \ e carregado de milagres, \ como uma mulher que sangra por baixo.

Poema da premiada escritora e professora mexicana Cristina Rivera Garza. Veja mais aqui.

 

LEIA & REVOLTE-SE – [...] Não queremos ser pessoas passivas e conformistas, falsas e entediantes, seduzidas pelo conforto e presas a um ritual repetitivo e interminável de consumo, que continuam comprando porcarias que nos são jogadas como migalhas, que esquecem como fazer perguntas honestas e importantes, que apenas tentam sobreviver ao dia a dia. [...] Os sistemas atuais falharam em fornecer respostas aos cidadãos, e as pessoas estão buscando alternativas fora do espectro político tradicional. Essas insatisfações estão sendo exploradas por políticos de direita, nativistas, oportunistas, corruptos e cínicos. Os mesmos que ajudaram a criar e alimentar toda essa situação agora oferecem a salvação. Esse é o jogo deles. É a mesma estratégia de desfinanciar um programa ou agência reguladora que desejam eliminar, para depois usar a ineficácia resultante como prova de que precisa ser extinto. [...] Quero intensificar minha vida. Quero atingir a densidade máxima, viver nove vidas em uma só. É uma busca por vidas, não por experiências. [...]. Trechos extraídos da obra Read & Riot: A Pussy Riot Guide to Activism (Coronet, 2020), da musicista, escritora, artista conceitual e ativista russa Nadya Tolokonnikova (Nadejda Andreevna Tolokonnikova). Veja mais aqui & aqui.

 

CASTA: AS ORIGENS DOS NOSSOS DESCONTENTAMENTOS – [...] Na nossa era, não basta ser tolerante. Você tolera mosquitos no verão, um barulho estranho no motor do carro, a lama cinzenta que se acumula na faixa de pedestres no inverno. Você tolera aquilo com que preferiria não ter que lidar e que gostaria que desaparecesse. Não há honra em ser tolerado. Todas as tradições espirituais ensinam a amar o próximo como a si mesmo, e não a apenas tolerá-lo. [...] A empatia radical significa dedicar-se a se educar e a ouvir com humildade para compreender a experiência do outro a partir da perspectiva dele, e não da forma como imaginamos que nos sentiríamos. A empatia radical não se trata de você e do que você pensa que faria em uma situação que nunca vivenciou e talvez nunca vivencie. É a conexão profunda, baseada em um conhecimento profundo, que abre seu espírito para a dor do outro, tal como ele a percebe. A empatia não substitui a experiência em si. Não podemos dizer a uma pessoa com uma perna quebrada ou um ferimento a bala que ela não está sentindo dor. E as pessoas que nasceram em uma posição privilegiada não têm o direito de dizer a uma pessoa que sofreu sob a tirania do sistema de castas o que é ofensivo, doloroso ou humilhante para aqueles que estão na base da pirâmide social. O preço do privilégio é o dever moral de agir quando se vê outra pessoa sendo tratada injustamente. E o mínimo que uma pessoa da casta dominante pode fazer é não piorar ainda mais a dor do outro. [...] Um sistema de castas é uma construção artificial, uma classificação fixa e enraizada do valor humano que estabelece a suposta supremacia de um grupo em relação à suposta inferioridade de outros grupos. [...] O sistema de castas é insidioso e, portanto, poderoso, porque não se trata de ódio, nem é necessariamente algo pessoal. São os hábitos arraigados de rotinas reconfortantes e expectativas irrefletidas, padrões de uma ordem social que existem há tanto tempo que parecem a ordem natural das coisas. [...] O preço do privilégio é o dever moral de agir quando se vê outra pessoa sendo tratada injustamente. E o mínimo que uma pessoa da casta dominante pode fazer é não piorar ainda mais o sofrimento. [...] Somos responsáveis pela nossa própria ignorância ou, com o tempo e uma busca sincera pelo conhecimento, pela nossa própria sabedoria. [...] Escolher não olhar, porém, é por sua própria conta e risco. O dono de uma casa antiga sabe que aquilo que você ignora nunca desaparecerá. O que quer que esteja à espreita continuará a se deteriorar, quer você escolha olhar ou não. A ignorância não oferece proteção contra as consequências da inação. Aquilo que você deseja que desapareça continuará a te atormentar até que você reúna a coragem para enfrentar o que preferiria não ver. [...] A escravidão não foi meramente um acontecimento infeliz que atingiu as pessoas negras. Foi uma inovação americana, uma instituição americana criada por e para o benefício das elites da casta dominante e imposta por membros mais pobres da casta dominante que vincularam seu destino ao sistema de castas em vez de à sua consciência. [...]. Trechos extraídos da obra Caste: The Origins of Our Discontents (Randon House, 2020), da premiada jornalista estadunidense Isabel Wilkerson. Veja mais aqui.

 

A ARTE DE NATARA NEY

A arte da montadora, roteirista e diretora de cinema Natara Ney, que já montou e roteirizou 20 longa-metragens, 5 séries para TV e diversos videoclipes. Ela dirigiu os filmes Elza Infinita (2021), Um outro ensaio (2010), Espero que Esta te Encontre e que Estejas Bem (2020), Cafi (2021) e Quem Ela Pensa que É? (Série de TV - 2024). Já roteirizou Divinas Divas (2016), O curioso (2010), Além Hamlet (2007), entre outros. Veja mais aqui.

 

ITINERARTE – COLETIVO ARTEVISTA MULTIDESBRAVADOR:

Veja mais sobre MJ Produções, Gabinete de Arte & Amigos da Biblioteca aqui.

 


quinta-feira, julho 06, 2023

CARL HART, VERONICA ROTH, TUNGA, MARÍA RAMÍREZ DELGADO, HUIZINGA & LÚDICO NA ESCOLA

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som dos álbuns Ninhal (Maritaca, 1997) e Cartas Brasileiras (2007), da flautista e compositora Léa Freire.

 

PASSADOÍDOENDAGORA – Era junho e já passou: por trinta e um dias eu fui manhã chuvensolarada pelas alegorias do Oficina de José Celso Martinez Correia. Por trinta e um dias eu parêntesis de junhoutros de nenhumoutra lembrança perdida na memória, para que eu indagasse quem aquele da foto na sala, quem aquele: os nossos filhos nos responsabilizarão pelo que perdemos da coragem de sermos deste tempo e terra. Salvou-se uma alma e Maria Luisa Bomball ao meu ouvido: É muito possível desejar morrer, quando se ama demais a vida. A morte me parece uma aventura mais acessível do que a fuga... E se de morte ou de fuga sei eu quase nada, restava-me a solidária companhia de Käthe Kollwitz: Os seres humanos estão tão confusos e precisam de ajuda... Só sei que por trinta e um dias a tarde anoiteceu e eu fiquei na escuridão de séculos, contando os dedos de nenhuma estrela, com meu peito desabotoado a expor o estigma da solidão. E se não fosse Tunga Vê-nus com as afinidades afetivas à luz de dois mundos, sabe-se lá o que poderia acontecer… Só sei que passadoídendagora arrasta a carne terra afora e até mais ver.

 

DITOS & DESDITOS

Imagem: Acervo ArtLAM.

[...] Os educadores estão cientes de que só podem atingir os jovens fazendo uso do espírito de gangue e orientando-o, não trabalhando contra ele. […]. Trecho extraído de Life and Thought in America (1972), do professor e historiador neerlandês Johan Huizinga (1872-1945). Já na obra Homo ludens (Perspectiva, 2000) ele expressa: [...] mesmo em suas formas mais simples, ao nível animal, o jogo é mais do que um fenômeno fisiológico ou um reflexo psicológico. Ultrapassa os limites da atividade puramente física ou biológica. É uma função significante, isto é, encerra um determinado sentido. No jogo existe alguma coisa “em jogo” que transcende as necessidades imediatas da vida e confere um sentido à ação. Todo jogo significa alguma coisa. Não se explica nada chamando “instinto” ao princípio ativo que constitui a essência do jogo; chamar-lhe “espírito” ou “vontade” seria dizer demasiado. Seja qual for a maneira como o considerem, o simples fato de o jogo encerrar um sentido implica a presença de um elemento não material em sua própria essência. [...] Se verificamos que o jogo se baseia na manipulação de certas imagens, numa certa “imaginação” da realidade (ou seja, a transformação desta em imagens), nossa preocupação fundamental será, então, captar o valor e o significado dessas imagens e dessa “imaginação”. Observaremos a ação destas no próprio jogo, procurando assim compreendê-lo como fator cultural da vida. As grandes atividades arquetípicas da sociedade humana são, desde o início, inteiramente marcadas pelo jogo. Como por exemplo, no caso da linguagem, esse primeiro e supremo instrumento que o homem forjou a fim de poder comunicar, ensinar e comandar. [...] Por detrás de toda expressão abstrata se oculta uma metáfora, e toda metáfora é jogo de palavras. Assim, ao dar expressão à vida, o homem cria um outro mundo, um mundo poético, ao lado do da natureza. Um outro exemplo é o mito, que também é uma transformação ao uma “imaginação” do mundo exterior, mas implica em um processo mais elaborado do que ocorre no caso das palavras isoladas. O homem primitivo procura, através do mito, dar conta do mundo dos fenômenos atribuindo a este um fundamento divino. Em todas as caprichosas invenções da mitologia, há um espírito fantasista que joga no extremo limite entre a brincadeira e a seriedade. Se, finalmente, observarmos o fenômeno do culto, verificaremos que as sociedades primitivas celebram seus ritos sagrados, seus sacrifícios, consagrações e mistérios, destinados a assegurarem a tranquilidade do mundo, dentro de um espírito de puro jogo, tomando-se aqui o verdadeiro sentido da palavra. Ora, é no mito e no culto que têm origem as grandes forças instintivas da vida civilizada: o direito e a ordem, o comércio e o lucro, a indústria e a arte, a poesia, a sabedoria e a ciência. Todas têm suas raízes no solo primevo do jogo. [...]. Veja mais aqui e aqui.

 

O LÚDICO NA EDUCAÇÃO – Na obra Jogo, teatro & pensamento (Perspectiva, 1980), Richard Courtney expressa que: [...] as atividades lúdicas são vistas como projeções: expressões dos pensamentos, impulsos, motivações, mais íntimos da criança que expressam significados particulares: o que um indivíduo faz em uma situação projetiva pode estar expressando diretamente seu mundo privado e processos de personalidade característicos [...]. Afirmação esta que levou a considerar o exposto na obra A formação social da mente (Fontes, 1989), de Lev Vygotsky, expressando que: [...] a ludicidade é uma necessidade do ser humano em qualquer idade e não pode ser vista apenas como diversão. O desenvolvimento do aspecto lúdico facilita à aprendizagem, do desenvolvimento pessoal, social e cultural e colabora para boa saúde mental e física [...]. Bem como na obra Pedagogia do Oprimido (Paz e Terra, 2008), de Paulo Freire, ele expressa que: [...] A ludicidade é uma necessidade do ser humano em qualquer idade e não pode ser vista apenas como diversão. A promoção das atividades lúdicas, sejam elas individuais ou grupais, oportuniza situações privilegiadas que conduzem à aprendizagem e ao desenvolvimento pessoal, social e cultural, produzindo conhecimentos e experiências que se incorporarão à vida do aluno, abrindo-lhe possibilidades de ser livre e de tomar decisões de acordo com a sua própria consciência [...]. A respeito do tema, o artigo Ludicidade (Revista PUC Educação Física, 1990), o filósofo e pedagogo francês Georges Snyders (1917-2011) expressou que: [...] O lúdico apresenta valores específicos para todas as fases da vida humana. Assim, na idade infantil e na adolescência a finalidade é essencialmente pedagógica. A criança, e mesmo o jovem opõe uma resistência à escola e ao ensino, porque acima de tudo ela não é lúdica, não é prazerosa [...]. Tais conduções levaram ao estudo Sala de aula e avaliação: caminhos e desafios (2002), da professora Regina Shudo, que observou: [...] Algumas questões são quase que determinantes no processo de desenvolvimento da mente infantil, como os ambientes estimulantes; as práticas educativas estimulantes, a exploração de diversos objetos; o encorajamento do adulto nas atividades que possibilitem à criança superar desafios, usar sua imaginação e criatividade [...]. É o que também observa o artigo Ludicidade e atividades lúdicas: uma abordagem a partir da experiência interna (Revista Entreideias, 2014), do processor Cipriano Luckesi ao mencionar que: [...] Enquanto estamos participando verdadeiramente de uma atividade lúdica, não há lugar, na nossa experiência, para qualquer outra coisa além dessa própria atividade. Não há divisão. Estamos inteiros, plenos, flexíveis, alegres, saudáveis. [...]. Tais considerações levaram ao artigo O lúdico como estratégias no Ensino Fundamental II (Revista Gestão Universitária, 2018), de Camila Franco, Luiz Fernando Godinho, Patrick do Nascimento  e Shirley Gomes, no qual encontra-se que: [...] o lúdico deve fazer parte do cotidiano dos alunos, estar presente durante as aulas, como algo mais natural possível, que quando introduzido seja visível a transformação no desenvolvimento e aprendizagem dos alunos, por que o lúdico auxilia em muitos aspectos quebrando todos os paradigmas existentes, com todas as regras e normas que os conteúdos de Educação Física possui. Assim, tornará o aluno criativo para se relacionar e estar com os colegas, ou até de demonstrar qualquer situação competitiva, ou de liderança durante as atividades desenvolvidas. [....]. Veja mais aqui.

 

LUDOTERAPIA – Por consequência levou-se a pesquisa para o tema terapêutico, pelo qual encontrou-se que a Ludoterapia atualmente é destinada a todas as idades, desde crianças, jovens, adultos ou idosos e o seu uso tanto pode ser a nível da psicoterapia do indivíduo como terapia de grupo, tendo em vista que a terapia do jogo e do contexto lúdico é importante para a aprendizagem e equilíbrio dos seres humanos. É o que advoga a obra Introdução à pedagogia (Coimbra, 1962), de E. Planchard, ao mencionar que: [...] Quanto mais ativa for esta força lúdica, mais a criança, candidata a homem, é inteligente e disponível para um destino superior. É carácter de impulso para o alto e para o futuro que permite fazer do jogo, em que toda a alma está empenhada, mola da educação. [...]. É o que se apreende da leitura da obra Desenvolvimento psicomotor e aprendizagem (Artmed, 2008), de Vitor da Fonseca, ao observar que: [...] a característica mais genérica que os indivíduos com Dificuldades de Aprendizagem (DA) apresentam é uma discrepância acentuada entre o seu potencial estimado (inteligência igual ou superior à média) e a sua realização escolar (abaixo da média numa ou mais áreas académicas, mas nunca em todas) [...]. O esclarecimento desta questão encontra-se no artigo A importância do lúdico no processo de ensino aprendizagem na educação infantil (Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento, 2021), de Gisele Mariotti Putton, ao entender que: [,,,] A ludicidade proporciona uma diversidade de atividades prazerosas que desenvolvem a criança em seus aspectos: cognitivo, afetivo, social e motor. Por meio das atividades lúdicas a criança experimenta, descobre, cria, adquire habilidades, desenvolve a autoconfiança, criatividade, pensamento, expande o desenvolvimento da linguagem, a autonomia e a atenção. Através da dinâmica, o lúdico possibilita além de situações satisfatórias, o surgimento de condutas e assimilação de regras sociais, proporciona o desenvolvimento de seu intelecto, tornando claro seu sentimento, suas angústias, ansiedades, ajudando com o reconhecimento suas dificuldades, proporcionando assim soluções e um engrandecimento na vida interior da criança. [...]. Veja mais aqui, aqui e aqui.

 

DOIS POEMAS

Imagem: Acervo ArtLAM.

AUTO-RETRATO EM AGONIA: A extinção não é um sino, uma rosa ou uma pegada subaquática, \ Tem a ver com o cabelo escuro das sombras, \ com a tempestade que para a peste e o pesadelo ainda intransponível. \ Cheira a escuridão quente. \ Afaste-se de casa. \ Gire o botão, respiração desinteressada da chave. \ Não olhe para trás.

SEQUÊNCIA DO TAPETE: Um tapete perturbador mora no consultório do psicólogo. \ Como muitos outros pacientes, caminhando sobre as atrocidades, bordo-o uma vez por semana com as espirais amarelas da culpa que trago, o pescoço aberto de uma mulher nas lajes do trem. \ Determinado tenho tentado me enterrar todo nela, todas as noites, antes de dormir, tenho medo da poeira que posso sentir e que um dia ela vai embora. \ Onde colocar meus olhos então? Onde a fúria preservada entre os dedos? \ Asséptico sorriu para ela enquanto esperava a queda, só ela vê as feridas sob os sapatos, e sabe que não importam, que ninguém pode curá-las.

Poemas da escritora venezuelana María Ramírez Delgado. Veja mais aqui.

 

DIVERGENTE – [...] Acreditamos em atos comuns de bravura, na coragem que leva uma pessoa a defender outra. [...] Tornar-se destemido não é o ponto. Isso é impossível. É aprender a controlar seu medo e a se livrar dele. [...] Eu tenho uma teoria de que o altruísmo e a bravura não são tão diferentes. [...] Às vezes, chorar ou rir são as únicas opções que restam, e rir é melhor agora. [...]. Trechos extraídos da obra Divergent (Katherine Tegen, 2012), da escritora estadunidense Veronica Roth.

 

JORNADA DA AUTODESCOBERTA – […] O paradoxo da educação é precisamente este: quando alguém começa a se tornar consciente, começa a examinar a sociedade na qual está sendo educado. [...] Uma das lições mais fundamentais da ciência é que uma correlação ou ligação entre fatores não significa necessariamente que um fator seja a causa de outro. Este importante princípio, infelizmente, raramente informou a política de drogas. Na verdade, a evidência empírica é frequentemente ignorada quando a política de drogas é formulada [...] o que parecem desvantagens de uma perspectiva podem ser vantagens de outra – e as formas de saber e responder podem ser vantajosas e adaptáveis ​​em um ambiente e desvantajosas e disruptivas em outro [...] Trechos extraídos da obra High Price: A Neuroscientist’s Journey of Self-Discovery That Challenges Everything You Know About Drugs and Society (Harper Perennial, 2014), do professor de psicologia e psiquiatria estadunidense, Carl Hart.

 

LITERATURA PERNAMBUCANA

[...] A cena literária pernambucana vem, de uns anos para cá, vivendo uma verve realmente efervescente; quase nunca tivemos tantos movimentos trabalhando ao mesmo tempo. [...]

Trecho extraído da obra Literatura pernambucana: uma disciplina necessária (Audax, 2017), organizada pelo professor Roberto Queiroz. Veja mais aqui, aqui e aqui.

 


sexta-feira, junho 18, 2021

HELGA SCHNEIDER, SZCZYPIORSKI, OSVALDO SORIANO, SOLEDAD & URANIANO MOTA

 

 

TRÍPTICO DQP –- Uns & tantos caminhos - Ao som do álbum Cartas brasileiras (Maritaca/Tratore, 2007), da compositora, arranjadora e flautista Léa Freire. - Não há apenas caminho de formigas ou fila indiana, muitas, senão todas, direções. E no barulho das ruas e por todos os lugares só ofertam duas opções: ou dos que mandam e ganham sempre – aqueles da mão invisível com seus interesses privados egoísticos sobre o poder e vida de tudo e todos -, ou da esmagadora maioria à beira do precipício e que farão de você um Jesuisis qualquer para ser crucificado pela indiferença ou opróbrio. Ah, reducionista maniqueísmo. Agora mesmo me vejo na pele da escritora italiana de origem alemã, Helga Schneider: Esta noite não preguei os olhos. Agora é quase dia; abri a janela. Um esfumaçado véu de luz vai se tornando claro sobre os telhados de Viena. Este um trecho extraído do seu autobiográfico livro Deixe-me ir, mãe (Berlendis & Vertecchia, 2001), sobre o último encontro depois de 27 anos que passou abandonada pela mãe, uma anciã de 90 anos de idade, saúde debilitada e que só vira uma única vez na vida na segunda guerra mundial porque ela seguiu os passos do nazismo: Hoje volto a vê-la, mãe, mas com que sentimentos? Que pode provar uma filha por uma mãe que se recusou a ser mãe para fazer parte da celerada organização de Heinrich Himmler? A resposta materna: ...eu não tinha nenhum direito de sentir compaixão, meu dever era só o de obedecer. Fidelidade e obediência, nada mais... Porque perdemos a guerra. Se tivéssemos vencido, o mundo inteiro beijaria os pés do Führer, e não só os pés. Ela saiu cabisbaixa, coração apertado, olhos empoçados. Era como se saísse para não mais voltar, nunca mais. E eu guardei seus sentimentos. Fiquei só e depois, como num passe de mágica nenhuma, emergia a dor do jornalista e ficcionista polonês, Andrzej Szczypiorski (1928-2000): Havia nisso algo de uma cruel libertação. O poder corrompe o homem. Uma frase da sua aclamada obra Uma missa para a cidade de Arras (Estação Liberdade, 2001), contando sobre o flagelo da peste, da fome e do surto de perseguições cruéis aos judeus e às bruxas na localidade. E isso para quem resistiu nas fileiras do Solidarity, viu-se só e desencantado. Parece mais que tudo se repete, mas não. Duas situações distintas e outros descaminhos. E há quem seja pelo interesse público além dos extremismos. Uma constatação: de um lado a outro há muito mais que 8 ou 80, há a infinitude de opções - vide o vetusto plano cartesiano, eu aprendi. E mais no espelho de todos, no travesseiro de tudo.

 


Duas vezes pela bifurcação dos caminhos… - Imagem: arte de Edith Derdyk, ao som do álbum Nocturne (Universal/Polygram 2001), do contrabaixista estadunidense Charlie Haden (1937-2014). – Assim a vida e os dias... De um ponto a outro, novas possibilidades, bifurcações. Mesmo que eu refaça todo dia o mesmo caminho, nunca será o mesmo: outros virão. E se de mim tantos eus passeiam entre seres e coisas, aonde eu for, será chegada para novo ponto de partida. Assim minutos e horas, dias e semanas, décadas. É sempre como se ouvisse o eco daquele trecho da obra Uma sombra logo serás (Relume Dumará, 2001), do escritor argentino Osvaldo Soriano (1943-1997): Estávamos todos presos naquela teia de aranha, caminhando pelas beiradas como insetos que procuram dar um salto desesperado... Eu sou um velho andarilho… No caminho, quando tudo parece perdido, sempre resta uma última manobra. Um golpe na direção certa, uma reduzida, qualquer coisa, mas o freio, jamais. Você toca no freio e está perdido. Agora mesmo tudo é irrespirável, sem saída nem escapatória, a morte iminente. Já não distingo a vigília, a existência atravessa sonhos, como se fosse aquele trecho de O labirinto da solidão (Cosac Naify, 2014), de Octávio Paz: Ao sair talvez descobriremos que tínhamos sonhado de olhos abertos e que os sonhos da razão são atrozes. Talvez, então, comecemos a sonhar outra vez com os olhos fechados. E sei que há muito mais além do que eu mesmo possa ver e sentir. E se olhos mentem ou se inibem, o coração conjuga.

 


Três sílabas, Soledad (A terra é fogo sob nossos pés). – Ao som do dvd Jubileu de Cordas – 50 anos de violão (2013), do violonista Henrique Annes, no Teatro Boa Vista, Recife - PE. - Lá estava eu, 10 anos de idade, bigodinho ralo abaixo da venta, sonhos que adolesciam antes da hora. A notícia me abalara, muito mais consternado com o dever de recitar A muerte de Soledad de Benedetti e recolher as lágrimas das Filhas da Dor & da Tortura. Passou-se o tempo e de novo me comovi ao dar de cara com Soledad no Recife (Boitempo, 2009), do escritor e jornalista Uraniano Mota, que li por ocasião do lançamento. Naquelas páginas eu me vi aquele menino que queria crescer. Logo na apresentação estava anotado: Naquele tempo o amor era uma alienação. Naquele tempo eu já amava e quase sabia direito o que estava acontecendo. Com a leitura era que crescia o coração, páginas lidas e lá pra diante quase ao final, no quarto capítulo, eu pude ler: [...] Escrevo este livro com minha atenção voltada para o que foi antes. Mas me defendo, ou quero me defender, quando reflito que a narração está sempre voltada para o que foi. Ao que acrescento, para o que foi e continua a ser, porque com a memória reconstruída podemos entrar na história [...]. Ah, Soledad, Soledad, a foto que o menino viu e se encantou ainda reluz estampada nos sentimentos. É como se tudo fosse de novo e agora mais do que nunca, ter de fazer alguma coisa antes que seja tarde demais. Até mais ver.

 

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MÁRIO QUINTANA, ANNE BOYER, KATE MANNE & JONES MANOEL

  Imagem: Acervo ArtLAM .   Aroma da memória, flor despetalada... – Bella não era Isabella, a cantora perturbada do Blue Velvet . Nem a...