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domingo, novembro 09, 2025

CRISTINA RIVERA GARZA, ISABEL WILKERSON, NADYA TOLOKONNIKOVA & NATARA NEY

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som dos álbuns CinePoesia (2020), A Mil Tons (2017), Cartas brasileiras (2006) e Quinteto (1999), da compositora, arranjadora e flautista Léa Freire (Léa Silvia de Carvalho Freire).

 

Elegia à catábase de Simone... - Ao despertar, aquela era a mais perfeita das manhãs e ela recendia iluminada pela satisfação, aspirando o sublime aroma de uma felicidade indestrutível, indizivelmente feliz. Transpirava às voltas com seus êxtases sentimentais e compreendia por si, sem que precisasse de maiores explicações. Era professora desde nascença, brincava ensinando os deveres às bonecas, dava aulas para aves e árvores do quintal, ou quem aparecesse às suas tranças na face rosada, fulgurava pelo ondulante canavial da paisagem, sentada à murada da cacimba, com suas fantasias eloquentes. Ali naquele quintal vestia-se hierática de todas as saudades, com o frescor adorável de imaculadas rosas nos canteiros de flores. Parecia viver numa fabulosa névoa onírica, o sorriso atravessava a primavera e nela o pássaro havia por toda parte. Quando não se fazia deliciosamente acolhedora pelas venerações outonais, pela casa toda, herdada dos pais, desde o terraço antigo dos inumeráveis momentos das risadas perduráveis no calor estival, em que ressoavam os ecos de sua infância, a intimidade invernosa de sua adolescência na visagem de seus antepassados flutuantes e dali o amor a fizera solitária, porém feliz. Assim todos os dias desde que se entendeu por gente e, obstinada, perseguia seus propósitos, como se nadasse um oceano imenso às braçadas por atravessá-lo triunfante, inteiramente alegre e segura. Inebriava com sua lindeza irrepreensível e ao seu modo, mesmo quando as nuvens roçavam a colina e a noite cobria todo o lugar, as pálpebras úmidas sobressaiam ao fechar os olhos contida, com as crepusculares sensações do dever cumprido. Estendia a mão às ocasiões e espargia condecorações e entusiasmos. Comoventemente formidável seguia seu caminho serena e imponente, o senso de justiça e a sinceridade à toda prova, feliz com o corpo que habitava esgueirando-se pelo tumulto das ruas, os transeuntes no tráfego, a dignidade extrema, a força do próprio esplendor. Conhecia as pessoas por instinto e delas aprendera o tanto quanto havia chorado no quarto, a perda dos pais e a perpétua sensação na ênfase da pulsação ressoante pelas boas recordações. Com ela tudo era digno de nota e desconhecia o quão perigoso era viver. Tinha de sair e assim o fez. Aprontou-se, ganhou o mundo. Ao retornar de Porto de Galinhas depois do meio dia, recolheu-se ao quintal e revivia, deparando-se consigo mesma: um lance de dados e o inescrutável, quem estorvaria? Nem passava pela cabeça a malquerença duma câmara de furiosos evangélicos se passando por tirânicos parlamentares, vingativos legionários dementadores possuídos pelo ódio do deus deles, aos berros propagadores de um inexorável Jesus armado até os dentes, implicados em escusas malversações do erário público da edilidade, em conluio com gestores municipais desse Brasilzão do Fecamepa. O ressentimento deles à flor da pele e tudo estava perdido. Subitamente ela empalideceu, o mistério roçava e por um imprevisível segundo o petardo do fuzil desfigurou sua face. Nem deu tempo ao sobressalto, aterrorizada, o braço pendente, a dor física e o arrepio, quedou com os vastos sonhos desabando desprevenidos pelo silêncio. Foi às profundezas como se fosse Marielle no meio da tarde e, como o escândalo de Ângela, ela caiu Mendietta, a vida interrompida e nem deu tempo de entoar Loalwa: “Chorando se foi”... Não se despediu feito Sharon, outra Grammont se calara... E era só a professora Simone de Ipojuca, uma Marques da Silva incluída às estatísticas de cada 10 minutos. A fisionomia esmagada no quintal, a identidade irreconhecível seria talvez a recompensa, só Deus sabia, o enorme golpe, a vida violada, o sangue esguichando, a brusca realidade e o sonho se dissipava ausente, chegava a hora irrevogável e o último suspiro: a estase se confundia com as trevas, como se fosse o quanto a dizer no seu cortejo. Até mais ver.

 

Bell Hooks: O amor verdadeiro raramente é um espaço emocional onde as necessidades são instantaneamente satisfeitas. Para conhecer o amor, precisamos investir tempo e comprometimento... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Liane Moriarty: Muitos segredos dolorosos são melhores ficando guardados. O problema é que as pessoas acham tão difícil mantê-los... Veja mais aqui & aqui.

Scholastique Mukasonga: Os livros eram túmulos de papel que eu tinha que construir para minha família e para cada vítima que, perdida no anonimato do genocídio, permanece sem sepultura. Como esse túmulo tinha que ser digno delas, sempre me preocupei em escrever bem... Veja mais aqui & aqui.

 

A GEOLOGIA DO LOCAL

Imagem: Acervo ArtLAM.

Antes da destruição e da poeira roxa pálida \ antes do início daquele lento ajuntamento de \ ruínas feridas \ antes que os edifícios de San Antonio Abad \ se transformassem em bolos de vários andares de um estilo rococó distante. \ antes de percebermos que o Trovador de Tampico \ jazia algures debaixo de La Roma \ Só se ouvia ruído. \ Esse barulho. \ Um tremor áspero, \ um gemido tuberoso que vinha de longe e de dentro, \ o estertor de um longo e sufocado bocejo, \ um facão polido, \ uma voz sem voz. \ o som perseguindo-se dentro da própria \ garganta. \ Assim nasceu o antes e assim nasceu o depois. \ Uma desgraça inaugural com um anel de morto no dedo. \ E assim nasceram os quebrados. \ E nasceram as formigas que carregaram os restos \ pouco a pouco. \ E renasceram as baratas iridescentes voando \ de canto a canto. \ Os cantos nasceram. \ Ângulos de luz onde a luz se tornava sinistra. \ Nichos gotejando sêmen e ozônio. \ Esse era o contexto. \ Ali, todos nós nascemos \ caindo. \ Lascas espiraladas de hélio. \ Rodeada por soldados \ de um cinza único, \ a cidade era um corpo encolhido em forma de bola no amplo \ leito do seu vale, \ repleto de dor \ e carregado de milagres, \ como uma mulher que sangra por baixo.

Poema da premiada escritora e professora mexicana Cristina Rivera Garza. Veja mais aqui.

 

LEIA & REVOLTE-SE – [...] Não queremos ser pessoas passivas e conformistas, falsas e entediantes, seduzidas pelo conforto e presas a um ritual repetitivo e interminável de consumo, que continuam comprando porcarias que nos são jogadas como migalhas, que esquecem como fazer perguntas honestas e importantes, que apenas tentam sobreviver ao dia a dia. [...] Os sistemas atuais falharam em fornecer respostas aos cidadãos, e as pessoas estão buscando alternativas fora do espectro político tradicional. Essas insatisfações estão sendo exploradas por políticos de direita, nativistas, oportunistas, corruptos e cínicos. Os mesmos que ajudaram a criar e alimentar toda essa situação agora oferecem a salvação. Esse é o jogo deles. É a mesma estratégia de desfinanciar um programa ou agência reguladora que desejam eliminar, para depois usar a ineficácia resultante como prova de que precisa ser extinto. [...] Quero intensificar minha vida. Quero atingir a densidade máxima, viver nove vidas em uma só. É uma busca por vidas, não por experiências. [...]. Trechos extraídos da obra Read & Riot: A Pussy Riot Guide to Activism (Coronet, 2020), da musicista, escritora, artista conceitual e ativista russa Nadya Tolokonnikova (Nadejda Andreevna Tolokonnikova). Veja mais aqui & aqui.

 

CASTA: AS ORIGENS DOS NOSSOS DESCONTENTAMENTOS – [...] Na nossa era, não basta ser tolerante. Você tolera mosquitos no verão, um barulho estranho no motor do carro, a lama cinzenta que se acumula na faixa de pedestres no inverno. Você tolera aquilo com que preferiria não ter que lidar e que gostaria que desaparecesse. Não há honra em ser tolerado. Todas as tradições espirituais ensinam a amar o próximo como a si mesmo, e não a apenas tolerá-lo. [...] A empatia radical significa dedicar-se a se educar e a ouvir com humildade para compreender a experiência do outro a partir da perspectiva dele, e não da forma como imaginamos que nos sentiríamos. A empatia radical não se trata de você e do que você pensa que faria em uma situação que nunca vivenciou e talvez nunca vivencie. É a conexão profunda, baseada em um conhecimento profundo, que abre seu espírito para a dor do outro, tal como ele a percebe. A empatia não substitui a experiência em si. Não podemos dizer a uma pessoa com uma perna quebrada ou um ferimento a bala que ela não está sentindo dor. E as pessoas que nasceram em uma posição privilegiada não têm o direito de dizer a uma pessoa que sofreu sob a tirania do sistema de castas o que é ofensivo, doloroso ou humilhante para aqueles que estão na base da pirâmide social. O preço do privilégio é o dever moral de agir quando se vê outra pessoa sendo tratada injustamente. E o mínimo que uma pessoa da casta dominante pode fazer é não piorar ainda mais a dor do outro. [...] Um sistema de castas é uma construção artificial, uma classificação fixa e enraizada do valor humano que estabelece a suposta supremacia de um grupo em relação à suposta inferioridade de outros grupos. [...] O sistema de castas é insidioso e, portanto, poderoso, porque não se trata de ódio, nem é necessariamente algo pessoal. São os hábitos arraigados de rotinas reconfortantes e expectativas irrefletidas, padrões de uma ordem social que existem há tanto tempo que parecem a ordem natural das coisas. [...] O preço do privilégio é o dever moral de agir quando se vê outra pessoa sendo tratada injustamente. E o mínimo que uma pessoa da casta dominante pode fazer é não piorar ainda mais o sofrimento. [...] Somos responsáveis pela nossa própria ignorância ou, com o tempo e uma busca sincera pelo conhecimento, pela nossa própria sabedoria. [...] Escolher não olhar, porém, é por sua própria conta e risco. O dono de uma casa antiga sabe que aquilo que você ignora nunca desaparecerá. O que quer que esteja à espreita continuará a se deteriorar, quer você escolha olhar ou não. A ignorância não oferece proteção contra as consequências da inação. Aquilo que você deseja que desapareça continuará a te atormentar até que você reúna a coragem para enfrentar o que preferiria não ver. [...] A escravidão não foi meramente um acontecimento infeliz que atingiu as pessoas negras. Foi uma inovação americana, uma instituição americana criada por e para o benefício das elites da casta dominante e imposta por membros mais pobres da casta dominante que vincularam seu destino ao sistema de castas em vez de à sua consciência. [...]. Trechos extraídos da obra Caste: The Origins of Our Discontents (Randon House, 2020), da premiada jornalista estadunidense Isabel Wilkerson. Veja mais aqui.

 

A ARTE DE NATARA NEY

A arte da montadora, roteirista e diretora de cinema Natara Ney, que já montou e roteirizou 20 longa-metragens, 5 séries para TV e diversos videoclipes. Ela dirigiu os filmes Elza Infinita (2021), Um outro ensaio (2010), Espero que Esta te Encontre e que Estejas Bem (2020), Cafi (2021) e Quem Ela Pensa que É? (Série de TV - 2024). Já roteirizou Divinas Divas (2016), O curioso (2010), Além Hamlet (2007), entre outros. Veja mais aqui.

 

ITINERARTE – COLETIVO ARTEVISTA MULTIDESBRAVADOR:

Veja mais sobre MJ Produções, Gabinete de Arte & Amigos da Biblioteca aqui.

 


segunda-feira, setembro 23, 2024

TANELLA BONI, YAEL VAN DER WOUDEN, SANDRA ROSAS & & DARELADAS – CENTENÁRIO DE DAREL

 

 Imagem: Dareladas – Centenário de Darel.

Ao som da Sonata for Viola & Piano (1919), da compositora e violista britânica Rebecca Clarke (1886-1979), inspirada no poema La nuit de Mai, do poeta francês Alfred Musset (1810-1857), na interpretação da violista japonesa Nobuko Imai e do pianista filipino Albert Tiu, no Yong Siew Toh Conservatory Concert Hall em Cingapura, 2023. Veja mais abaixo.

 

Dareladas... - A chuva lavou meus passos vida afora e o menino se fez esperança acesa para nunca ter que voltar. A imagem do lugar de antes se esvaiu retorcida no apagão das pegadas e o que havia de sereno seguiu firme pelos conflitos do que sou, jogando sementes para reflorir umbrais, como se pudesse reinventar a cidade perdida. Refiz ideias como fotomontagens: a prova não era um teste; um original na tradução dos rabiscos esquecidos pelos traços. A caligrafia de riscos não se apagou por inteiro: um esboço mais que vivo na paisagem das lembranças, que se alastravam com as multidões de anjos-máquinas e os alardes de suas pisadas. Era órfão deserdado na cena repetida dos ferros ferindo a pele, das engrenagens esmagando músculos, de britadeiras respingando o sangue da dor repisada - era como se paz desse as costas à guerra! Tudo se fizera pelos sórdidos becos, como se para lá fosse o não e por ali o sim, quando aqui tudo desconexo pelos ditos e desditos de narradores compulsivos pelas noites de Goeldi. Era como se me perdesse pelas tão fantasiosas linhas de contorno dos desenhos e identificasse o que separa e o que agrega. Era como se as hachuras fossem construídas pelo que foi vivido e o a ser feito. E as ilustrações do gestual nas gravuras reconstruíssem tudo a partir da paleta monocromática. O que havia de melhor era a emersão das silhuetas com os meneios de dança das ancas curvilíneas daquelas que são verdadeiras obras-primas da criação. Foram elas, belas e sintomáticas, que atravessaram comigo todas as labaredas das fogueiras dos dias. E dancei com o fogo porque o que ocorre dentro da gente vai pro lado de fora: inventando a própria verdade no tão denso e fragmentário repertório das memórias compartilhadas. Quando passar, tudo será passado e nada importará porque deixei o inferno para trás e dei meu terno sorriso até pra quem sequer acenasse ou desse por mim. Nunca dei adeus porque sou meteorito errante a repassar sem disfarce. Nunca precisei de esconder a escura face porque a tarde é parda e da noite virá amanhã. Nem parece que voltei, porque cheguei até aqui e não desperdicei o tempo ao vencer os simulacros às pedaladas. Foi a herança do Sol que me fez na crença de que devíamos fazer sempre todos juntos, para que tudo fosse melhor e quando será. Até mais ver.


Goeldi: Um sorriso por favor... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

Ruth Stone: Como bandos de pequenos pássaros escuros, partes ocultas do eu choram... Veja mais aqui.

Charlotte Wood: Criar é desafiar o vazio. É generoso, afirma. Fazer é acrescentar ao mundo, não subtrair dele... Veja mais aqui.

Bell Hooks: Saber como ser solitário é central para a arte de amar. Quando podemos ficar sozinhos, podemos ficar com os outros sem usá-los como um meio de fuga... Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

 

DOIS POEMAS

Imagem: Acervo ArtLAM.

QUE É O AMOR? - O que é o amor? \ Ser comido, mastigado,\ esmagado pela nuca\ pelos desejos do outro.\ O que é o amor?\ Pergunta a pele alisada\ que busca um lar.

A CIDADE QUE CAMINHO - A cidade que caminho se chama Eu. \ Embarco nela com a convicção\ de chegar ao meu destino.\ São os olhos postos na casa não construída,\ a massa na superfície das minhas mãos,\ o número que se repete nos meus sonhos,\ o corpo sobre as pontas dos meus dedos.

Poemas da escritora mexicana Sandra Rosas.

 

O GUARDIÃO – [...] Algo que parece triste tanto quanto parece amor. [...] É o que acontece quando as pessoas morrem. Elas se levam com elas e você nunca descobre nada de novo sobre elas. [...] As lembranças eram pesadas, coisas vazias no fundo de seu ser e só a irritavam: que sua própria porta pudesse ser tirada dela, que uma infância, uma juventude e uma vida vividas através daquela porta pudessem desaparecer em favor de uma única pessoa. [...] Isso a envergonhava, seu próprio reflexo. Ela tinha ideias fortes de beleza que não encontrava em si mesma: quão terno o rosto deveria ser, quão espesso o cabelo. Ela tinha pensamentos fortes sobre o que significava, importar-se demais com a beleza. Querê-la, procurá-la em si mesma. Em outro. Não eram pensamentos agradáveis [...] O que era alegria, afinal. Qual era o valor da felicidade que deixou para trás uma cratera três vezes maior que o tamanho do seu impacto. [...]. Trechos extraídos da obra The Safekeep (Avid Reader - Simon & Schuster, 2024), da escritora e professora israelita Yael van der Wouden.

 

O FUTURO TEM UM ENCONTRO COM O AMANHECERSorria e acumule o tempo que está chegando o vento tem um sentido o redemoinho também sorria para o tesouro. Poema extraído da obra The Future Has an Appointment with the Dawn (University of Nebraska Press, 2018), da filósofa e escritora marfinense Tanella Boni, autora de obras como Tolerância (1997), Escritos e saberes (1998), Internet, tempo e tradição oral (2001), entre outros. Numa entrevista concedida ao Mots Pluriels (fevereiro de 2002), ela explanou acerca da temática Exílio, violência e morte ambiental – como resistir e envolver-se com a sua arte?, observando que: […] nas “democracias” onde vivemos, matamos, torturamos, violamos mulheres que se atrevem a sair às ruas para expressar as suas ideias, massacramos... Tudo isto não é novo em África. Num tal clima, temos tempo para pensar livremente, para fazer investigação, teatro, cinema, arte numa palavra, para escrever? Para fazer sugestões em redações? Para quem escreveremos? vamos fazer arte? Os cérebros estão sujeitos à tirania de um pensamento único, aos discursos marciais dos detentores do poder político, ao controle dos partidos políticos sobre os meios de comunicação; o pensamento livre é praticamente inexistente. O pensamento crítico é uma joia rara. Não há debate de ideias. Existem apenas preconceitos. […] Os cérebros vão embora porque a vida é impossível. Basta visitar as nossas universidades e os nossos laboratórios para se convencer! Um pesquisador não tem como ficar “visível” em casa. Os resultados das pesquisas muitas vezes ficam nas gavetas. Se ele escreve ensaios, o intelectual aqui tem dificuldade de ser publicado e ouvido. E aí os preconceitos da sociedade contra ele são tantos que ele acaba se desgastando antes do tempo. Muitos intelectuais morrem jovens em África, poder-se-ia perguntar porquê. Morremos física ou simbolicamente: acabamos fazendo como todo mundo. “Juntamo-nos” ou “cantamos”, como disse em “Vida de Caranguejo”, em 1990. Existem outras alternativas? Talvez ir para o exílio? [...] Não posso dizer o que me mantém na Costa do Marfim. Afinal, é o meu país. Foi aqui que nasci e continuamos sempre ligados ao nosso país. Posso dizer também que sou um “cidadão do mundo”, viajo muito, sou convidado para inúmeros eventos internacionais, participando frequentemente em grandes debates sobre o futuro da humanidade. [...]. Veja mais aqui.

 

DARELADAS – CENTENÁRIO DE DAREL

[...] Um dia sai para um lanche com colegas de trabalho, e resolvi abandonar o emprego, porque decidira que desejava mesmo era ser artista. [...] No meu entender, o ilustrador não deve procurar competir com o fotógrafo, mas se deixar contaminar pelo texto de tal modo que consiga alcançar aos níveis onde o leitor comum nem sempre consegue chegar [...] Sou rigoroso e exigente comigo mesmo, como ilustrador, pintor, litógrafo; sempre procedo dessa maneira [...] Sou ilustrador, sempre fui, de jornais e revistas, e muitas vezes perdi o emprego por ser um artista que se liga no que há de subjetivo no livro [...] Assim eu sou, como artista e como pessoa. [...].

Trechos da entrevista do gravador, pintor, desenhista, ilustrador e professor Darel Valença Lins (1924-2017), concedida ao editor José Mario Pereira, em 25 de abril de 2012, e publicada na Veja (9 de dezembro de 2017), coluna do Augusto Nunes. (Imagens: Leitoras de Darel). Veja mais aqui e aqui.

&

COMITÊ DE CULTURA EM PERNAMBUCO NA MATA SUL

Nos dias 24 e 25 de setembro o Comitê de Cultura em Pernambuco promoverá Formação em Elaboração de Projetos com Foco na PNAB, em Palmares, detinada aos profissionais da cultura local e dos municípios de Joaquim Nabuco, Água Preta, Xexéu, Catende e Bonito. No dia 24, a partir das 8h, o encontro se dará na Biblioteca Fenelon Barreto, dando andamento ao Programa Nacional dos Comitês de Cultura. No dia 25, também a partir das 8h, acontecerá no Centro Municipal de Formação Douglas Marques. O evento de mobilização é gratuito e aberto ao público.

 

UM OFERECIMENTO:

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SANTOS MELO LICITAÇÕES

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&

Tem mais:

Livros Infantis Brincarte do Nitolino aqui.

Poemagens & outras versagens aqui.

Diário TTTTT aqui.

Cantarau Tataritaritatá aqui.

Teatro Infantil: O lobisomem Zonzo aqui.

Faça seu TCC sem traumas – consultas e curso aqui.

&

VALUNA – Vale do Rio Una aqui.

 



quarta-feira, setembro 20, 2023

MARÍA MELECK VIVANCO, MAJ SJÖWALL, ANNA KINGSFORD & POETA PICA PAU

 

Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som do concert The Piano Quintet in f minor op. 34, do compositor alemão Johannes Brahms (1833-1897), na interpretação da pianista romena Alina Elena Bercu. Veja mais aqui e aqui.

 

MAIOR VENTANIA, RAIZ DAS ROSAS - Faz não sei quanto tempo e ela me dizia: o mato era paraíso, terral & outros teréns. Quando o que era da cana outra não seria, questão de tempo: na margem do lado de cá, o sal ardia do suor nos olhos; doutro lado de lá, os enxotados, talqualmente eu. Noutras margens do infinito, sabe-se lá. Só o que fui, sou e serei das pernas bambas, coração aos trancos por pedras falsas, pilares e escombros, tudo em dobro, o coração era dela. E ainda é. Um céu nublado e invento apesar dos furores no horizonte: não há como ter sossego com a gritaria da cristandade fanática, paroxismos e estertores, dalém conspurcando exorbitava: o cotidiano é feito de vacilos e insanidades, a ferida descascada por muros longiquos azuis. Ouço dela distante Rosamunde Pilcher: As coisas acontecem do jeito que deveriam. Tudo tem um padrão e uma forma… Nada acontece sem motivo… Nada é impossível… E eu transbordava pelos farois da noite, esmorecendo perplexidades porque não duraria mais que efêmera insatisfação, era nela meu abrigo. O que vale é ter estado na pele de outra, inquietações beiravam o desespero. Afinal era Lilith, força e beleza que se comprazia e adivinhava meus pensamentos, amálgama abissal. Dizia-me bell hooks: O amor é uma combinação de cuidado, compromisso, conhecimento, responsabilidade, respeito e confiança... E sua voz soava como mantra, caminho que não desviava proutro debacle, jamais. Ela mais que felina, nada lhe escapava, à espreita, quase insone recorrente, nem que eu me livrasse da noite, para ela ali, era o que valia. Ríamos da pomba enamorada de Lygia, e nem esperava para recitar uns versos de Felicia Hemans: Venha, eu venho, eu venho \ Você me chamou de comprimento, \ eu venho a montanha com luz e música: \ você pode rastrear meu passo a terra, \ pelos ventos que contam sobre o nascimento da violeta, \ pelas primuras-estrelas na grama sombria, \ Pelas folhas verdes, abrindo como eu passo... Era demais. Um entusiasmo irreconhecivel e ela esgalga pelos degraus da escada a debruçar-se à janela, minha mão em seu quadril estival - rutilante estrela no cinturão de Órion. Quantos momentos indefinidos, solapadas de gozo e amor. De tanto vigiar as estrelas para lá voou e repassava um aceno como se cadente minguante fosse. De tanto esperar recolhi seus vestígios para revivê-la no meio da noite de mais um dia que mal começara. Até mais ver.

 

CORAÇÃO DE PÁSSAROS ALTOS

Imagem: Acervo ArtLAM.

Chega o mais amado e resistido \ Poema sangrento \ Bela Morte \ A magia enfeitada na primavera \ com seu sonho áspero e teimoso, \ com seu mastro fechado de cravos \ Chega o mais querido e peregrino, \ mil pétalas buscam sua guarda entre vidros \ que devastam as cidades \ entre cactos melosos e chuva suave. \ O fundo do mar se repete \ Os pés do vento rompem sua crisálida \ O murmúrio entrecortado da água secreta \ pelos recantos verdes de uma casa \ Corra ao longo da beira de um estuário em chamas \ como se as palavras estivessem reclamando \ Inutilmente a senhora se esbanja \ num choro impiedoso e solitário. \ Acho que a febre entre as enchentes \ (suas facas de sol, suas rosas tristes) \ Poema sangrento \ Bela morte \ Coração de pássaros altos e feridos...

Poema da poeta argentina María Meleck Vivanco.

 

O POLICIAL RISONHO – [...] Isso é uma coisa nojenta que não deveria existir. Não deveriam existir armas de fogo. O fato de ainda serem fabricados e de todo o tipo de pessoas os terem guardados nas gavetas ou os carregarem pela rua só mostra que todo o sistema é pervertido e louco. Algum bastardo obtém um grande lucro fabricando e vendendo armas, assim como outras pessoas obtêm um grande lucro em fábricas que produzem narcóticos e pílulas mortais. Você entendeu? [...]. Trecho extraído da obra The Laughing Policeman (Vintage, 1992), da escritora sueca Maj Sjöwall (1935-2020). Veja mais aqui.

 

FIQUEI EM SILÊNCIO NO MEIO DE UM SILÊNCIO MORTAL – [...] As coisas não estão indo bem para mim. Meu chef do Charité desaprova veementemente as estudantes e usou esse meio para demonstrar isso. Cerca de cem homens (nenhuma mulher, exceto eu) percorreram as enfermarias hoje, e quando estávamos todos reunidos diante dele para que nossos nomes fossem anotados, ele ligou e nomeou todos os alunos, exceto eu, e então fechou o livro. Afirmei isso e disse calmamente: "Et moi aussi, monsieur." [E eu, senhor.] Ele se virou para mim bruscamente e gritou: "Vous, vous n'êtes ni homme ni femme; je ne veux pas inscrire vôtre nom - Você não é homem nem mulher; Eu não quero escrever seu nome... [...]. Trecho extraído da obra I stood silent in the midst of a dead silence (University of California Press, 2000), da médica, escritora e mística britânica Anna Kingsford (1846-1888). Veja mais aqui e aqui.

 

PROSEANDO COM A CULTURA

Nem todo poeta faz \ versos do jeito q’eu faço!...

Mote glosado em poema extraído da obra Proseando com a cultura (CriaArt, 2022), do poeta Pica Pau – José Maria Sales, com apresentação da escritora e professora Eliete Carvalho. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

 


sexta-feira, outubro 15, 2010

BELL HOOKS, NORMAN MAILER, OCTAVIA BUTLER, MARY DUFFY, SÉRGIO AUGUSTO, VALUNA & SAÚDE NO BRASIL


A arte da escritora, empresária, palestrante motivacional e especialista em moda feminista estadunidense Mary Duffy.

VALUNA: A RODAGEM DE BADALEJO, A BODEGA DE ÁGUA PRETA - Como já fui por todas as águas de rio, agora vou contar uma história de quem não sei: quando minha irmã nasceu, tinha eu apenas dois anos de idade e já era os pés da doida, um fabricante do passaporte da minha mãe pro hospício, de tão treloso inheto a virar tudo de cabeça pra baixo. Por conta das minhas travessuras, fui gentilmente separado do lar, indo pro maior município do estado, Água Preta. À primeira vista, não era tão grande assim o lugar, mas diziam que era mesmo. Quando lá cheguei, a primeira constatação: se era o maior município, como todos diziam, lá só tinha uma rua só: a que entrava e saía; e com um detalhe: a que entrava era a mesma que saía; tanto que uma placa dava ao visitante o pé da situação: de um lado, seja bem-vindo; do outro, volte sempre. Ninguém se perdia lá. Nem eu. E lá, entre meus avós paternos, Arlindo e Benita, dei de cara com o paraíso: a bodega e o engenho. Na verdade, como primeiro neto da família e centro de todas as atenções, eu estava onde meu avô estivesse: uns dias da semana no engenho Badalejo, no qual tive a primeira noção do reino encantado de todas as coisas; os outros, na bodega com minha avó Benita, pela qual tive acesso à fábrica de todos os brinquedos. Pronde meu avô fosse, lá estava eu reinando impune. No engenho, era o dia todo para futucar os animais na estrebaria – bois, vacas, cavalos, éguas, os bichos dali, o que fosse, não tinham sossego comigo, armado de fiapos de vassoura, enfiava na venta deles -, e os curaus por plateia pras invencionices de tagarela: bebedor de água de chocalho, parecia mais que eu contava as mil e uma noites reinventada ali na hora, reencarnando Sherazade pra peãozada, isso do início da tarde mormaçada até cair de sono num canto. Entrava eu pela perna de pinto, saía pela perna de pato e num tinha fim que desse na historia emendada com tantas outras, dos cabras todos ficarem tudo admirado com meu blábláblá. Quando não, esgueirava pela rodagem pegando bigu no carro de boi pra cima e pra baixo. Só parava mesmo quando meu avô me colocava na garupa do cavalo e, atravessando rios e morros, dava na bodega da minha avó: nunca o mundo fora tão generoso comigo. Dos refrigerantes e ponches de todos os tipos, aos lanches de todos os sabores: rapadura, confeitos, pirulitos, biscoitos, bolos, doces e salgados. Era a hora que eu parava no tamarelado, ocupando a boca em provar de tudo quanto fosse guloseima. Enfim, foi no trâmite duns dois ou três anos de infância passados por lá, que aprendi a mentir imitando os violeiros e repentistas que apareciam na quinta que era o dia da feira, até o domingo, entretido com as glosadas no improviso dos motes. Foi justo nesse tempo que senti a dor da lapada do chicote no toitiço pela compra desproposital de um tabuleiro de pirulito – a dor que nunca me saiu da alma; que, tantas vezes, quase morri afogado no brejo do quintal, no meio de pitus e cundudas no maior espalhafato; que levei uma carreira dum boi brabo no meio da festa da padroeira de quase não parar nunca pé na bunda até o fim do mundo – e ele atrás de mim; foi aí que conheci a força de cascudos, beliscadas e outros puxavanques, por ter a mania de querer me enfiar embaixo da toalha das tias quando elas saíam seminuas do banho; e a confundir o dia pela noite no arrepiado dos tremores com as histórias de trancoso, crimes, lendas e envultamentos do povinho bom daquelas paragens. A vida valia tanto que eu não perdi mais a graça do jeito infantil de ver todas as coisas e tudo, e tinha desse tudo além da conta ajustada: era com o coração que se vivia o tanto que podia o prazer de viver. E de Água Preta eu batia o chão na pisada forte como se fossem os revoltosos de Araticum de Barreiros que chegaram à Cachoeira para enfrentar paisanos governistas. Eu mesmo fui com a força de Cocal pelas margens até o Barra, quando deu o ataque de Almécega, um tumulto brabo de eu escapulir por Santa Terezinha e Liberal, pelo córrego Costurinte, Camocim Mirim, Cassuipe, Pirangi, Córrego Limoeiro, Jacuípe, Canoa Grande e Rachada, João Murato, Roncador, Jundiá, Carassú, Carimã, oxe, esse menino vai parar onde que mesmo, hem? No Rio Formoso, 11 de junho, lembrava dos combates durante a ocupação holandesa. De lá para Cucaú e Saué, brincando com o tamanduá e tab-moi-inda-ré. Eu nem sabia que Tamandaré era um pajé que fez uma fonte que inundou o mundo e se abrigou no alto de uma palmeira com sua mulher. Quando as águas baixaram, o casal deu origem aos tupinambás. Quando os invasores europeus chegaram às terras, encontram a tribo caetés. Foi mesmo? Ora, fui pros Carneiros, Campas, do Pontal do Lira e Boca da Barra. Ah, eu que fui peixe também fui sésseis! Hem? Ostras, sururus, unhas-de-velho, taioba, maçunin, aratus, caranguejos, guaiamuns, isso sem falar de xaréus, manjubas, carapebas, cobras e saguis! Vixe! Danou-se! Tudo isso entre coliformes fecais, efluentes e esgotos, venenos fertilizantes, agrotóxicos, e eu nem aí na Formosa e Barra de Sirinhaém, Ibiratinga, Trapiche e Santo Amaro. Era 6 de janeiro, festa da boa e me acordei porque a vida passava na praça e eu pela aldeia de Benfica, do então Morgado do Cabo, era da Pedra do Conde dos caititus, porcos do mato, e uma antiga aldeia de índios que ficou então conhecida pelo nome de Barreiros Velhos, o mesmo lugar onde uma escolinha sumiu com o professor no redemoinho do tempo. Já era 19 de julho e ia já para Carimã e de lá para Puiraçi, o Abreu, Gravatá e a Várzea. Em plena tarde de 11 de abril, justo nesse mar que aprendi a namorar menina dengosa que eu vi passar no Porto do Gravatá, coisa mais maravilhosa da tribo caingang, coisa de endoidar coração Puiraçu do meu chão caeté, quadris em ondas como quem vem do engenho Morim da Baronesa – como rebola macio chega dá vontade da gente pegar bigu de nunca mais soltar! -, seios de mar com suas piscinas naturais nas coroas das marés e eu só queria mergulhar, timbungue, timbungar suas águas cristalinas, ah, seios de mar, eu quero navegar, eu quero mergulhar! E eu atarantado de amor por seus pés à beira-mar buscava os corais entre pernas e coxas, eu ia me espremer entre elas, torres do paraíso sumindo as marés como quem vai do rio pra morrer afogado nos seus beijos de sereia enfeitiçadora e eu à-toa como quem vem do riacho Meireles sem saber de nada de seu riso estival iluminando além dos vales e morros da minha prisão, de seus olhos manhãs no negrume dos meus dias por seus braços estendidos dali de Barreiros a me levar pelas correntezas do rio Persinunga, perdido em suas margens e sem saber das abusões da mata que me trouxe Cumade Fulôsinha até a praia do Gravatá em Abreu do Una, e eu não sabia nada do Museu do Una na Várzea – ou será São José? -, sabia só do jangadeiro que eu era, rapaz solto na buraqueira da Coroa Grande que se enamorou com quem ouviu falar do Gato Branco ao Bola de Ouro que passou, não existia mais, só o gingado da menina sestrosa, tão linda formosa assim tão jeitosa embalando meu coração. Ela era Água Preta no que fui e nos tornamos ali, meio dia em ponto, yin & yang – ah, Yaravi, Fieetó. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.


A arte da escritora, empresária, palestrante motivacional e especialista em moda feminista estadunidense Mary Duffy.

DITOS & DESDITOS - Normalmente os machos adultos que são incapazes de fazer conexões emocionais com as mulheres que escolhem para ter intimidade estão congelados no tempo, incapazes de deixarem-se amar por medo de que o objeto de seu amor vá abandoná-los. Se a primeira mulher que amavam apaixonadamente, a mãe, não foi fiel ao seu vínculo de amor, então como podem confiar que sua parceira o amará verdadeiramente? Muitas vezes, em seus relacionamentos adultos estes homens agem de novo e novamente para testar o amor de sua parceira. Enquanto o adolescente rejeitado imagina que ele já não pode receber o amor de sua mãe, porque ele não é digno, como um homem adulto ele pode agir de maneiras que são indignas e ainda demanda da mulher em sua vida que ela lhe ofereça amor incondicional. Este teste não cura a ferida do passado, limita-se a reencenar e, em última análise, a mulher vai se tornar cansada de ser testada e terminar o relacionamento, reencenando assim o abandono. Este drama confirma para muitos homens que não podem depositar a sua confiança no amor. Eles decidem que é melhor colocar a sua fé em ser poderoso, em ser dominante. Pensamento da escritora, professora feminista, artista e ativista social estadunidense Bell Hooks - Gloria Jean Watkins, que assim se expressa: Honrar a nós mesmas, amar nossos corpos, é uma fase avançada na construção de uma autoestima saudável. Veja mais aqui.

ALGUÉM FALOU: Na indústria de universotários o diploma é de somenos: o nó górdio dessa questão é a qualidade expressiva, a clareza das ideias, a inteligibilidade do texto. Se brilhante e sedutor, larga na pole position. A despeito da decadência de nosso ensino e dos já folclores vexames de nossas provas de redação. O jornalismo ainda é o melhor hospital das letras. Pensamento do escritor e jornalista Sérgio Augusto. Veja mais aqui.

DO AMOR & RESOLUÇÃO DE PROBLEMAS - As pessoas ficam procurando o amor como solução para todos os seus problemas quando, na realidade o amor é recompensa por você ter resolvido os seus problemas. Bravura é fazer algo que envolva um risco sério sem a certeza de que você vencerá. Morrer não deve ser tão difícil. Até hoje, todos foram bem-sucedidos. Pensamento do escritor e jornalista estadunidense Norman Mailer (1923-2007).

UM POEMA - Tudo o que você toca / Você muda. / Tudo o que você muda / Muda você. / A única verdade que persiste / É a mudança / Deus é mudança. Poema da escritora afro-estadunidense Octavia Butler (1947-2006), autora de frases lapidares como: Não sabia que as pessoas podiam ser condicionadas com tanta facilidade a aceitar a escravidão. Comecei a escrever sobre poder porque era algo que eu tinha muito pouco. Boas histórias são boas histórias, não importa como estejam categorizadas.


DERINHA ROCHA: FUNCIONÁRIA DO TJ-AL É VÍTIMA DE DESCASO DA HAPVIDA SAÚDE – A nossa Derinha Rocha (Valderes de Barros Rocha, 49 anos) é funcionária da Primeira Câmara do Tribunal de Justiça de Alagoas e webdesiner.
No final do mês de setembro, ela sentiu que algo não estava bem e recorreu de atendimento médico em virtude de uma série de manchas que lhes surgiram no braço. Depois nas pernas. Em seguida, por todo corpo.
Dias depois das consultas saíram os resultados laboratoriais: anemia aguda. Novos exames vieram, até a hora em que um mal-estar dominou e deu entrada na emergência do Hospital Maceió, em razão do convênio do seu Plano de Saúde São Lucas (leia-se HapVida Saúde), mantido religiosamente há mais de 10 anos.
Já internada recebeu o resultado dos exames anteriormente requisitados: leucemia mieloidal aguda.
Diante desse quadro clínico, todos os médicos amigos e os da própria emergência do Hospital Maceió, foram unânimes: o referido hospital não está equipado para atendimento da enfermidade. E a família logo recorreu à direção do hospital que se prontificou de remover a paciente para o Hospital da Santa Casa de Misericórdia de Maceió, onde alguns médicos já acompanhavam Derinha há dias e aguardavam a transferência da paciente.
No dia seguinte a direção do hospital informou que o Plano de Saúde estava negociando com a Santa Casa de Maceió e dias foram e passaram. Com esse papo, engoliram já 10 dias e nossa Derinha cada vez mais desfalecendo e definhando.
A família se movimentou e requereu por escrito a transferência dela pra Santa Casa, tendo a direção se negado de atender, informando que o problema deveria ser resolvido na justiça. Por que? Nenhuma resposta. Trocando em miúdos: o HapVida Saúde embromava não autorizando ao Hospital Maceió a transferência para Santa Casa.
Cada dia que se passava, mais a nossa Derinha sofria e a família foi orientada pelos próprios médicos a recorrer à Justiça Alagoana. Assim o fez. Impetrou Ação Obrigação de Fazer, Processo n 0070511-43-2010.
Nossa Derinha, no último dia 14 de outubro, foi acometida de uma pneumonia e foi transferida do apartamento 1 do Hospital Maceió para a UTI do citado hospital. A família chora enquanto...



JUSTIÇA ALAGOANA - DECISÃO DA SEXTA VARA CIVEL DA COMARCA DE MACEIÓ – AL 14/10/2010– Processo nº 0070511-43-2010 – Ação Obrigação de Fazer – Autora: Valderes de Barros Rocha. Ré: Hapvida Assistência Médica Ltda. DECISÃO: A tutela antecipada é instituto previsto no art. 273 do Código de Processo Civil, criado a fim de proporcionar uma decisão de caráter emergencial, que tem por objetivo conceder ao autor um provimento imediato, que lhe assegure provisoriamente o bem jurídico a que se refere a prestação do direito material reclamada em litígio. O Código de Processo Civil estabelece os seguintes pressupostos, os quais devem estar presentes para concessão de liminar: a) exigência da prova inequívoca e verossimilhança (CPC, art. 273, caput), suficiente para o convencimento do Magistrado acerca da forte probabilidade das alegações formuladas na exordial serem verdadeiras, resultante do exame da matéria fática apresentada; b) A existência de situação de “fundado receio de dano irreparável ou de difícil reparação” (CPC, art. 273, l), ou, alternativamente, que seja evidenciado o “manifesto propósito protelatório do réu” (CPC, art. 273, II). Em análise dos fatos alegados e os meios de prova apresentados, verifiquei, após perfunctória análise, que, caso persistisse a negativa de cobertura de seu tratamento de saúde, a parte Autora, como também as pessoas que a cercam em sua relação social, viriam a ser, demasiadamente, prejudicada, haja vista que seu quadro clínico, comprovado nas fls. 23, requer o imediato internamento. Importante frisar ainda o dispor no art. 461, parágrafo 3º, do citado diploma legal, o qual determina que, sendo relevante o fundamento da demanda e havendo justificado receio de ineficácia do provimento final, é lícito ao juiz conceder a tutela liminarmente ou mediante justificação prévia, podendo esta ser revogada ou modificada, a qualquer tempo, em decisão fundamentada. Com relação aos pressupostos para a concessão da liminar, resta evidenciado o fumus bonis iuri, visto que a parte Autora trouxe aos autos os elementos de comprovação necessários para o suporte desta decisão. Quando ao preiculium in mora, está claro que este é alto, e caso não seja concedida a antecipação da tutela, a Autora poderá ter sua saúde comprometida. Assim, diante dos argumentos acima esposados, das provas suficientes e inequívocas acostadas aos autos, entendo verossímeis as alegações firmadas para DEFERIR, inaudita altera pars, a medida liminar requestada, para determinar à RÉ que adote, imediatamente, todas as providências necessárias à autorização para internação e tratamento da Autora no Hospital Santa Casa de Misericórdia de Maceió, correndo sob a responsabilidade daquela todas e quaisquer despesas decorrentes do aludido tratamento emergencial, conforme prescrição médica, sob pena de multa diária de R$ 1.000,00 (mil reais), a partir da intimação, no caso de a requerida descumprir qualquer das determinações. Em seguida, CITE-SE a requerida, para querendo, no prazo de 15 (quinze) dias, contestar os termos da inicial, sob pena de ser tido como verdadeiros os fatos ali expostos pela parte Autora. Publique-se, Registre-se e Intimem-se. Maceió, 14 de outubro de 2010. Edivaldo Bandeira Rios. Juiz de Direito.

MANDADO DE INTIMAÇÃO/CITAÇÃO – Ação: Procedimento Ordinário. Autor: Valderes de Barros Rocha. Réu: HAPVIDA ASSISTÊNCIA MÉDICA LTDA. Oficial de Justiça (0). Mandado nº 001.2010.;057611-8. Data da intimação: 14/10/2010.



DESCUMPRIMENTO JUDICIAL - HAPVIDA SAÚDE: MUITA FALTA DE CARINHO POR VOCÊ – Contrariando o lema deles de “Hapvida Saúde: muito mais carinho por você”, eu mesmo presenciei foi muita falta de carinho. Um verdadeiro desrespeito. Tenho acompanhado diariamente em visitas à paciente nas dependências do Hospital Maceió e só encontro o seguinte: a família chorando aflita, muito desencontro de informação entre os médicos e nenhuma manifestação da HapVida. Procuramos o diretor do hospital e - depois de horas de chá de cadeira -, o mesmo informou não ter recebido nenhuma determinação da operadora (HapVida). Procuramos a direção do plano de saúde e nenhuma pessoa da direção estava presentes, todos viajando. Fomos aconselhados pelo próprio corpo médico ingressar na justiça. Outros médicos visitantes, amigos da família, também sinalizaram desde o primeiro dia da internação que o hospital não possuía capacidade para atendimento da paciente e que a remoção deveria ser feita imediatamente, correndo o risco do quadro se agravar. Além do mais o Hospital alega falta de plaquetas para a paciente, quando há uma checagem diária e direta com o HEMOPAC pela família e este informa da disponibilidade das mesmas para a paciente, resultado de campanha feita por familiares e amigos com identificação da paciente na doação do sangue tipo O+..
Uma coisa é unânime entre os médicos: o hospital não tem condições de cuidar da enfermidade (além da leucemia, nossa Derinha está com o quadro se agravando e está agora acometida de pneumonia e reclusa na UTI do hospital) e com só 1 conselho: ela corre risco de vida e quanto mais rápido ela for transferida para a Santa Casa, mais rápida é a possibilidade de sua melhora.
Resultado: O mandado judicial foi expedido na tarde do dia 14 de outubro de 2010 e na mesma tarde o Oficial de Justiça intimou a HapVida. Os familiares procuraram das providências e a direção do hospital informou que a HapVida até o presente momento - 20hs24m do dia 15 de outubro de 2010 -, não houve uma sequer manifestação do HapVida Saúde. Não atenderam nem a solicitação de segunda via do contrato da enferma, nem uma cópia da guia de internação. Apenas a médica que se encontrava quando do horário de visitas, das 16 às 17 hs, mencionou para a família que o quadro dela estava se agravando e que todos os procedimentos haviam sido tomados para combater a pneumonia, uma vez que o hospital não tem condições de tratar da leucemia. Descaso? Coisas do Brasil.



NOSSA SOLIDARIEDADE: São 15 dias de sofrimento da nossa Derinha e seus familiares. Quase o mesmo tempo de internação no Hospital Maceió onde os procedimentos são apenas aplicar sangue/soro. A leucemia segue, agora a pneumonia. Que a Justiça seja feita! E que Deus salve Derinha Rocha!



ADENDO: RESULTADO DO DESCASO
SÁBADO, 16/10/2010 – Logo nas primeiras horas da manhã, o meu celular toca. Era Jarbinhas Barros, irmão da Derinha, informando que o quadro dela havia se agravado, necessitando com urgência da prospecção de plaquetas por aférese para tentar novos procedimentos. Providenciamos. Isso contando com a solidariedade de diversas pessoas. Uma correria se deu entre médicos e enfermeiros do Hospital Maceió. A primeira e única providência que tomamos ciência por parte da HapVida em todo caso, foi acrescentar mais um hematologista, totalizando 3 nos procedimentos. Os informes eram desanimadores. Por volta do meio dia, o diretor do hospital me chama e diz que uma hemorragia pulmonar agravou o quadro e as perspectivas eram mínimas. O desalento foi geral. Enfim, às 13:30hs, um dos médicos da equipe informou o falecimento de nossa Derinha. Estava completada a tragédia e o descaso. Ela, finalmente, descansou. Restou o desespero dos familiares.
DOMINGO, 17/10/2010 – O corpo foi velado na Capela 1, do Parque das Flores, Maceió, ocorrendo o seu sepultamento às 11 horas no cemitério em referência. Que Deus guarde nossa Derinha.

MISSA 7º DIA - No dia 22/10, às 19:30hs, missa de sétimo dia para nossa Derinha Rocha na Igreja da Rua Coronel Lima Rocha (vizinho ao Colégio Russel) - Pinheiro - Maceió.

DIA 08/11/2010 – A Hapvida Assistência Médica Ltda, por meio da sua advogada, Keyla Polyanna Barbosa Lima, apresentou contestação nos autos do processo Obrigação de Fazer/Não Fazer nº 0070511-43.2010.8.02.0001, movido por Valderes Barros Rocha (memória)contra a ré HapVida Saúde, na 6ª Vara Cível da Capital, do Foro de Maceió.

Uma homenagem para Derinha Rocha: VERS&PROSA PARA A MENINA AZUL




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