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quarta-feira, setembro 20, 2023

MARÍA MELECK VIVANCO, MAJ SJÖWALL, ANNA KINGSFORD & POETA PICA PAU

 

Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som do concert The Piano Quintet in f minor op. 34, do compositor alemão Johannes Brahms (1833-1897), na interpretação da pianista romena Alina Elena Bercu. Veja mais aqui e aqui.

 

MAIOR VENTANIA, RAIZ DAS ROSAS - Faz não sei quanto tempo e ela me dizia: o mato era paraíso, terral & outros teréns. Quando o que era da cana outra não seria, questão de tempo: na margem do lado de cá, o sal ardia do suor nos olhos; doutro lado de lá, os enxotados, talqualmente eu. Noutras margens do infinito, sabe-se lá. Só o que fui, sou e serei das pernas bambas, coração aos trancos por pedras falsas, pilares e escombros, tudo em dobro, o coração era dela. E ainda é. Um céu nublado e invento apesar dos furores no horizonte: não há como ter sossego com a gritaria da cristandade fanática, paroxismos e estertores, dalém conspurcando exorbitava: o cotidiano é feito de vacilos e insanidades, a ferida descascada por muros longiquos azuis. Ouço dela distante Rosamunde Pilcher: As coisas acontecem do jeito que deveriam. Tudo tem um padrão e uma forma… Nada acontece sem motivo… Nada é impossível… E eu transbordava pelos farois da noite, esmorecendo perplexidades porque não duraria mais que efêmera insatisfação, era nela meu abrigo. O que vale é ter estado na pele de outra, inquietações beiravam o desespero. Afinal era Lilith, força e beleza que se comprazia e adivinhava meus pensamentos, amálgama abissal. Dizia-me bell hooks: O amor é uma combinação de cuidado, compromisso, conhecimento, responsabilidade, respeito e confiança... E sua voz soava como mantra, caminho que não desviava proutro debacle, jamais. Ela mais que felina, nada lhe escapava, à espreita, quase insone recorrente, nem que eu me livrasse da noite, para ela ali, era o que valia. Ríamos da pomba enamorada de Lygia, e nem esperava para recitar uns versos de Felicia Hemans: Venha, eu venho, eu venho \ Você me chamou de comprimento, \ eu venho a montanha com luz e música: \ você pode rastrear meu passo a terra, \ pelos ventos que contam sobre o nascimento da violeta, \ pelas primuras-estrelas na grama sombria, \ Pelas folhas verdes, abrindo como eu passo... Era demais. Um entusiasmo irreconhecivel e ela esgalga pelos degraus da escada a debruçar-se à janela, minha mão em seu quadril estival - rutilante estrela no cinturão de Órion. Quantos momentos indefinidos, solapadas de gozo e amor. De tanto vigiar as estrelas para lá voou e repassava um aceno como se cadente minguante fosse. De tanto esperar recolhi seus vestígios para revivê-la no meio da noite de mais um dia que mal começara. Até mais ver.

 

CORAÇÃO DE PÁSSAROS ALTOS

Imagem: Acervo ArtLAM.

Chega o mais amado e resistido \ Poema sangrento \ Bela Morte \ A magia enfeitada na primavera \ com seu sonho áspero e teimoso, \ com seu mastro fechado de cravos \ Chega o mais querido e peregrino, \ mil pétalas buscam sua guarda entre vidros \ que devastam as cidades \ entre cactos melosos e chuva suave. \ O fundo do mar se repete \ Os pés do vento rompem sua crisálida \ O murmúrio entrecortado da água secreta \ pelos recantos verdes de uma casa \ Corra ao longo da beira de um estuário em chamas \ como se as palavras estivessem reclamando \ Inutilmente a senhora se esbanja \ num choro impiedoso e solitário. \ Acho que a febre entre as enchentes \ (suas facas de sol, suas rosas tristes) \ Poema sangrento \ Bela morte \ Coração de pássaros altos e feridos...

Poema da poeta argentina María Meleck Vivanco.

 

O POLICIAL RISONHO – [...] Isso é uma coisa nojenta que não deveria existir. Não deveriam existir armas de fogo. O fato de ainda serem fabricados e de todo o tipo de pessoas os terem guardados nas gavetas ou os carregarem pela rua só mostra que todo o sistema é pervertido e louco. Algum bastardo obtém um grande lucro fabricando e vendendo armas, assim como outras pessoas obtêm um grande lucro em fábricas que produzem narcóticos e pílulas mortais. Você entendeu? [...]. Trecho extraído da obra The Laughing Policeman (Vintage, 1992), da escritora sueca Maj Sjöwall (1935-2020). Veja mais aqui.

 

FIQUEI EM SILÊNCIO NO MEIO DE UM SILÊNCIO MORTAL – [...] As coisas não estão indo bem para mim. Meu chef do Charité desaprova veementemente as estudantes e usou esse meio para demonstrar isso. Cerca de cem homens (nenhuma mulher, exceto eu) percorreram as enfermarias hoje, e quando estávamos todos reunidos diante dele para que nossos nomes fossem anotados, ele ligou e nomeou todos os alunos, exceto eu, e então fechou o livro. Afirmei isso e disse calmamente: "Et moi aussi, monsieur." [E eu, senhor.] Ele se virou para mim bruscamente e gritou: "Vous, vous n'êtes ni homme ni femme; je ne veux pas inscrire vôtre nom - Você não é homem nem mulher; Eu não quero escrever seu nome... [...]. Trecho extraído da obra I stood silent in the midst of a dead silence (University of California Press, 2000), da médica, escritora e mística britânica Anna Kingsford (1846-1888). Veja mais aqui e aqui.

 

PROSEANDO COM A CULTURA

Nem todo poeta faz \ versos do jeito q’eu faço!...

Mote glosado em poema extraído da obra Proseando com a cultura (CriaArt, 2022), do poeta Pica Pau – José Maria Sales, com apresentação da escritora e professora Eliete Carvalho. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

 


quinta-feira, setembro 17, 2015

LILITH, QUEVEDO, MENANDRO, MILEWSKI, GROSZ, CIDA LIMA, PSICOLOGIA CULTURAL & PAIXÃO LEGENDÁRIA.

VAMOS APRUMAR A CONVERSA? PAIXÃO LEGENDÁRIA – Os poemas do meu livro Paixão Legendária (Bagaço, 1991), compreende aqueles que foram criados no período compreendido entre 1985-1990, quando eu me encontrava dedicado ao curso de Direito, acompanhando atento o processo de redemocratização do país que culminou com a promulgação com a Constituição Federal de 1988 – a Carta Cidadã. Foi nesse período que integrando o conselho editorial da revista A Região e das Edições Bagaço, ocorreu a transição da apresentação do programa e zine HorAgá, na Rádio Cultura dos Palmares, em parceria com Gilberto Melo, para assumir o Departamento de Jornalismo e apresentação do programa Panorama na Rádio Quilombo dos Palmares. Foi o período que depois de realizar a adaptação e direção da peça João Sem Terra, de Hermilo Borba Filho, com o Grupo Terra; de produzir o projeto do Circo Itinerante; de ter lançado as três edições da revista em quadrinhos Aventureiros do Una, em parceria com Rolandry Silvério; de presidir a Associação Teatral Palmarense (Atep) e publicado o zine InformAtep; e de ter realizado três temporadas com o meu show musical Por um novo dia, passava eu a lecionar Literatura e Filosofia no Colégio Nossa Senhora de Lourdes e no Cepred, ambos de Palmares; Literatura e Lingua Portuguesa no Colegio Municipal Gomes de Barros, em Novo Lino, e em dois colégios de Joaquim Nabuco, assumindo a presidência do Conselho Diretor da Fundação Casa da Cultura Hermilo Borba Filho, na qual, entre outras atividades, criei com o professor João da Silva, assumindo a coordenação geral da Comissão de Defesa do Meio Ambiente da Mata Sul; e assumi a Direção Regional do Sindicato dos Radialistas de Pernambuco. Esse período de engajamento resultou na publicação do livro dividido em duas partes. A primeira parte toda voltada a uma canção de amor a terra, à liberdade e ao ser humano, com poemas como A lágrima de Neruda, América (uma letra versão livre da canção de Simon & Garfunkel), Canto Verde, Carta à minha cidade, Mãe, Aos que sonham com um mundo melhor, Escritos na areia (dedicado ao poetamigo Wilmar Antonio Carvalho), Alma de Viola (dedicado ao parceiramigo Zé Ripe), A maldição de Narciso, Noturno (dedicado à querida professoramiga Jessiva Sabino de Oliveira), No mote do bentivi – o Manoel poeta, Gitano, entre outros poemas. Na segunda parte, poemas e canções dedicados à mulher, como Iangaí, Cantar salomônico, Elba, Convite, Meu sonho de Maria e letras de canções como Desejo, Armadilha, Cantilena, Fonte, Sanha, entre outras. Veja mais aqui e aqui. 

 Imagem: Seated Woman (Female Nude, 1939), do pintor e ilustrador alemão George Grosz (1893-1959).


Curtindo: Alma cigana, do Jerzy Milewski Swing Quartet, comandado pelo violinista polonês naturalizado brasileiro Jerzy Milewski.

PSICOLOGIA CULTURAL – No livro Fundamentos da psicologia cultural: mundos da mente, mundos da vida (Artmed, 2012), do professor da Clark University e editor-chefe do periódico Culture & Psychology, Jaan Valsiner, destaco o trecho: [...] A psicologia cultural é essencialmente desenvolvimental: estuda a pessoa de qualquer faiza etária como sistema em desenvolvimento dentro de um contexto social desenvolvimental. Todo desenvolvimento é um processo redundantemente controlado: opera pela superabundância (mais do que de economia) na orientação e nos recursos para transformar a cultura pessoal, aqui e agora, em uma nova forma. A pessoa construtora de significado opera dentro de uma semiosfera preenchida por signos de complexidade, hibridização e extensão histórica variadas. Toda a construção de sentidos, no nível pessoal-cultural, acontece pela imersão corporal dentro do mundo social. De modo similar ao banho ritual no Ganges, nós mergulhamentos a nós mesmos, diariamente, no oceano invisível (embora funcional) de alguns signos que nos cerca em nossos mundos cotidianos. Além disso, reconstruímos nossos mundos cotidianos de modo que esses mundos nos guiam na direção de nossos próprios desejos. A vida é, sem dúvida, um palco, e nós somos atores neste palco, embora constantemente procuremos ser espectadores. Uma vez que tenhamos um êxito temporário quanto a nos tornarmos espectadores, somos tomados pelo desejo de ser, novamente, atores. Essa tensão do estar na fronteira entre o palco e a audiência nos leva a tentar redesenhá-los ambos, o que gera consequências para nosso próprio desenvolvimento. A psicologia cultural é a ciência da constante recriação de nós mesmos – e de nossa ciência. Isso a torna infinitamente fascinante e incrivelmente complicada. Mas é este, precisamente, o fascinio da nova compreensão que a psicologia cultural pode nos ajudar a criar. Veja mais aqui e aqui.

O PARDAL RECONHECIDO – Nas Narrativas de Uji Shui (Cultrix, 1962), que compreende uma coletania de estórias populares do Japão, destaco o conto tradicional O pardal reconhecido, traduzido por Albertino Pinheiro Júnior: Em tempos que lá vão, num dia ensolarado do princípio da primavera, uma velha mulher, de sessenta e poucos anos, estava sentada em frente de sua casa e catava piolhos. No pátio, um pardal saltitava. Algumas crianças que brincavam por ali começaram a atirar pedras no pássaro e uma delas, acertando, quebrou-lhe as costas. Enquanto este se estorcia no chão, esforçando-se debalde para erguer voo, um corvo que passava frechou em sua direção. – Oh! Que horror! O corvo vai pegá-lo -, gritou a velha. E correndo para perto do pardal, erguendo-o. depois, bafejou-o com seu hálito quente, soprando-o, e deu-lhe de comer. [...] Todas as manhãs, quando ia esquadrinhar o quintal, via por lá pardais saltitando perto da porta dos fundos, debicando quanto grão de arroz houvesse espirrado por ali. Então, pegava em pedras e atirava-as nos pardais com a esperança de acertar algum. Como atirasse muitas pedras sobre numerosas aves, naturalmente acabou por atingir um, ferindo-o de modo que ele não pôde mais voar. Muito satisfeita da vida, acercou-se do passarinho e, depois de certificar-se de que suas costas estavam devidamente quebradas, apanhou-o, deu-lhe de comer e administrou-lhe remédios com imenso cuidado. Depois refletiu: - Se a mulher da casa ao lado obteve tanto em paga de haver tomado conta de um único pardal, quão mais rica eu não poderia ser se tivesse vários! Seria superior a ela e meus filhos haveriam de elogiar-me. [...]. Passados vários meses, quando calculou que as abóboras estivessem no ponto desejado, dirigiu-se à despensa levando uns vasilhames para recolher o arroz que fosse despejado. Impava de contente e a sua boca de velha desdentada expandia-se em um riso que ia de uma orelha a outra, enquanto vertia numa tigela o conteúdo de uma das aboboras. Mas o que desta saiu, em vez de arroz, foram vespões, abelhas, centopeias, escorpiões, serpentes, e mais criaturas desse jaez que, caindo sobre ela, ferretoaram-na nos olhos, no nariz, e no corpo todo. Contudo, no momento, a mulher velha bnão sentiu dor nenhuma. Pensou que fossem apenas grãos de arroz que esborrifavam da tigela e lhe batiam no rosto. – Espere um pouco, meus pardaizinhos! Vou dar um bocadinho para todos -, disse. Os inúmeros insetos venenosos que surgiam das sete ou oito aboboras picaram e morderam os seus filhos também, e a própria velha foi picada até morrer. Parecia que os pardais, que a odiavam por ela lhes ter quebrado as costas, haviam persuadido todos os insetos a se ocultarem dentro das aboboras e os auxiliarem em sua vingança. O pardal da casa ao lado ficara reconhecido à velha que cuidara dele e o restituira à saúde, quando suas costas estavam quebradas e ele se via em perigo iminente de ser arrebatado por um corvo. Não devemos ter inveja dos outros. Veja mais aqui e aqui.

LETRILHA SATÍRICA & DOIS SONETOS – Na Antologia Poética (Edaf, 2004), do escritor espanhol Francisco Quevedo (1580-1645), destaco os poemas traduzidos por Renato Suttana, o primeiro deles Letrilha Satírica: Poderoso cavaleiro / É Don Dinheiro. / Ai mãe, ao ouro me atrelo: / Meu amante e meu amado; / Pois, de puro enamorado, / Anda sempre de amarelo; / Que, pois, ou gordo ou magrelo, / Faz tudo aquilo que quero, / Poderoso cavaleiro / É Don Dinheiro. / Nasce nas Índias, honrado, / E de lá o mundo o acompanha, / E vem cá, morrer na Espanha, / Sendo em Gênova enterrado; / E, pois, quem o traz ao lado, / Não é feio, mas faceiro, / Poderoso cavaleiro / É Don Dinheiro. / É galante, é como um ouro, / E tem matizada a cor; / Pessoa de alto valor, / Tanto cristão quanto mouro, / Pois dá e toma o decoro, / E derruba um foro inteiro, / Poderoso cavaleiro / É Don Dinheiro. / São seus pais os principais, / E é de nobres descendente, / Porque nas veias do Oriente / Todos os sangues são reais; / E, pois, é quem faz iguais / O grão duque e o pegureiro, / Poderoso cavaleiro / É Don Dinheiro. / Mas quem não se espanta e pela / De ver, glorioso e sem tacha, / Que em seu círculo se encaixa / Dona Blanca de Castela? / Porém, que ao baixo dá sela, / E o covarde faz guerreiro, / Poderoso cavaleiro / É Don Dinheiro. / Seus escudos e armas nobres / São sempre tão principais / Que sem seus escudos reais / Só há escudos de armas pobres, / E, pois, que juntando cobres / Dá cobiça ao próprio ferro, / Poderoso cavaleiro / É Don Dinheiro. / Por contar tanto nos tratos / E dar tão sérios conselhos, / Até nas casas dos velhos / Gatos o guardam de gatos. / E, porque rompe recatos / E abranda o juiz mais severo, / Poderoso cavaleiro / É Don Dinheiro. / E tem tanta majestade / (Mesmo entre desgostos fartos), / Que, se o transformas em quartos, / Não depõe a autoridade: / Antes, pois dá qualidade / Ao mais grandioso e ao rasteiro, / Poderoso cavaleiro / É Don Dinheiro. / Nunca vi damas ingratas / Aos seus gostos e afeições, / Que ante as caras dos dobrões / As suas fazem baratas; / E, porquanto faz bravatas / Com sua bolsa, matreiro, / Poderoso cavaleiro / É Don Dinheiro. / Mais valem em qualquer terra / (Observa o quanto é sagaz!) / Os seus escudos na paz / Do que mil broquéis na guerra, / E que, se ao pobre ele enterra, / E faz próprio o forasteiro, / Poderoso cavaleiro / É Don Dinheiro. Também o soneto Amante agradecido com as lisonjas mentirosas de um sonho: Ai, Floralva, este sonho me ocorreu. – / Digo-o? Sim, pois foi sonho: eu te gozava. / E quem, senão o amante que sonhava, / Juntara tanto inferno a tanto céu? / Meu fogo à tua neve e ao gelo teu, / Como flechas opostas numa aljava, / Mesclava o amor, e honesto é que os mesclava, / Mais meu espanto, no desvelo seu. / E eu disse: “Queira amor, ou queira a sorte, / Que eu não durma jamais, se estou desperto, / Ou durma, e não desperte – não me importo” / Mas despertei do doce desconcerto, / E vi que estava vivo com a morte, / E vi que com a vida estava morto. Por fim, o soneto Prossegue e no mesmo estado de seus afetos: Meu senso ocupa amor e os meus sentidos: / Absorto estou em êxtase amoroso, / Não me concede trégua nem repouso / Esta civil peleja dos nascidos. / Espraiou-se o caudal dos meus gemidos / Pelo grande distrito, e doloroso / Do coração, em seu penar ditoso, / E afogou-me as lembranças em olvidos; / Ruínas sou todo, e todo padecer, / escândalo funesto dos amantes / que de lástima fazem seu prazer. / Os que hão de ser e os que já foram antes / Comparem sua saúde ao meu gemer / E invejem minha dor, se são constantes. Veja mais aqui.

O MISANTROPO – A peça O misantropo (ou O díscolo, 318aC), do grego Menandro (342-291aC), trata sobre um homem que vive sozinho com sua filha, abandonado pela esposa por causa da personalidade intratável dele. Um jovem rico se apaixona por sua filha e tenta casar-se com ela, recebendo oposição do pai. Mas depois de um acidente, o misantropo cede ao casamento. Da obra destaco o trecho inicial: (Cenário: A peça desenrola-se em File, povoado na encosta do monte Parnes, nos confins da Ática e da Beócia. O cenário representa, ao centro, a entrada de uma gruta dedicada a Pã, habitada por Ninfas; perto da entrada, uma estátua de Pã; de cada lado uma casa; à esquerda a de Cnêmon, à direita a de seu enteado Górgias) Primeiro Ato Prólogo PÃ - (saindo da gruta a ele dedicada) Imaginem que o lugar da cena é File, na Ática; a gruta das Ninfas, de onde estou saindo, é exatamente o santuário bem visível, pertencente aos filásios, gente capaz de fazer crescer plantas nos rochedos desta região. Na propriedade ali à minha direita mora Cnêmon, homem cheio de rancor para com todo o mundo e inimigo da sociedade. Digo sociedade? Ele já é um bocado velho; pois bem, durante toda a sua existência ele nunca iniciou conversa alguma, nunca dirigiu a palavra primeiro a ninguém, a não ser para me reverenciar (constrangido por nossa vizinhança) quando passa diante de mim, Pã; e ainda assim de má vontade, eu bem sei. Com um temperamento assim ele casou com uma viúva, cujo marido morrera, deixando-lhe um filho de tenra idade. Não se contentando com discutir com ela o dia todo, ele ainda consumia assim a maior parte da noite; viviam pessimamente. E tiveram uma filha; foi ainda pior. Como a desventura deles ultrapassasse tudo que se pode imaginar, e sua vida fosse apenas sofrimento e amargura, a mulher voltou para junto do filho nascido do primeiro casamento. Este possuía pequena propriedade, aqui nos arredores; é lá que ele hoje proporciona uma vida apertada à sua mãe, a si mesmo e a um único escravo, criado fiel deixado por seu pai. Esse rapaz já é um homenzinho e tem o espírito mais maduro que a idade. Nada como a experiência da vida para formar as pessoas. Quanto ao velhote, vive sozinho com a filha e uma velha criada, carregando lenha, cavando a terra com a enxada, para cima e para baixo o tempo todo e detestando todo o mundo, por atacado, a começar aqui por seus vizinhos e sua mulher até o pessoal de Colarges, lá embaixo. A moça tornou-se o que seria de esperar de sua educação: ignora tudo que é ruim. O zelo com que ela se dedica à sua devoção e às homenagens às Ninfas companheiras, levou-nos a pensar em fazer alguma coisa por ela. Um rapaz cujo pai, muito rico, cultiva nesta região terras que valem milhões mas vive na cidade, veio caçar por aqui com um companheiro; chegou a esta paragens por acaso e fiz com que ele começasse a perder a cabeça por ela. Aí estão as linhas gerais da ação. Os detalhes vocês verão, se quiserem. Mas é tempo de querer, pois parece que estou vendo aproximar-se o apaixonado com seu companheiro de caça; eles estão conversando sobre o assunto. (Pã torna a entrar no santuário) [...]. Veja mais aqui.

LILITH- A deusa Lilith faz parte da mitologia grega, hebraica, suméria, da Babilônia e da Mesopotâmia, associada aos ventos e tempestades e que se imaginava ser um portador de doenças, enfermidade e morte. Também aparece como um demônio noturno na crença tradicional judaica e islâmica como a primeira mulher do bíblico Adão, sendo acusada de ser a serpente que levou Eva a comer o fruto proibido. Há, também, o registro que ela foi a predecessora de Eva, no caso, sendo Lilith a primeira mulher de Adão e que não se tornou submissa dele. Registros dão conta de que seu nume surge no Alfabeto de Ben-Sira composto por volta do Século VII. Mais recentemente, esta história tem sido cada vez mais adotada sendo até discutida se é ou não contada na Bíblia, tornando-se em um ser que é cultuada dentro da alta magia desde então, como a deusa que rege a ponta da pirâmide. Inspirado nela, muitos artistas dedicaram seus talentos, como também virou filme, em 1964, sob a direção de Robert Rossen, em um drama que conta a história de um veterano de guerra da Coréia que trabalha em um sanatório de luxo, na terapia ocupacional de sua rica e esquizofrênica clientela, até o dia que ele começa a se apaixonar por uma paciente que está mentalmente presa em seu mundo particular. Veja mais aqui e aqui.

QUEM TEM MEDO DE LOBO MAU – Havia algum tempo que eu não tinha notícias da minha amiga Cida, só reencontrada em eventos como a Bienal do Livro de Alagoas. Agora tenho notícias dela: lançará no próximo dia 26 de setembro, a partir das 19hs, no Memorial à República, em Maceió (AL), o livro Quem tem medo de lobo mau, da escritoramiga alagoana Cida Lima, que é autora de diversos livros recheados de ação, ficção, suspense, romance e toques de terror, além de ser a editora do portal Escritores Alagoanos. O evento terá entrada gratuita e parte da renda será destinada para o Lar Santo Antonio de Pádua. Veja mais aqui.

IMAGEM DO DIA
Desenho do artista plástico e mestre em Literatura pela Universidade Federal do Ceará, Fernando França.

 Veja mais no MCLAM: Hoje é dia do programa SuperNova, a partir das 21hs, no blog do Projeto MCLAM, com a apresentação sempre especial e apaixonante de Meimei Corrêa. Em seguida, o programa Mix MCLAM, com Verney Filho e na madrugada Hot Night, uma programação toda especial para os ouvintes amantes. Para conferir online acesse aqui.

VAMOS APRUMAR A CONVERSA?
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aqui.


sábado, agosto 05, 2006

LILITH, FECAMEPA, BALZAC, LANE, ERASMO, HORÁCIO, NETRENKO, TRUFFAUT, DIEHEL, ARDANT, SANDRA LUSTOSA & MUITO MAIS!



INTENÇÃO (Imagem: Abraço, da artista plástica Catarina Ribeiro) - Poder abraçar teu peito amigo, poder cruzar uma esquina, beber num bar. Poder lutar por um ideal antigo, carcomido, e expressar uma verdade linda bem sentida pra mostrar meu lugar, meu lar, meu lugar. Quantas avenidas se fizeram compridas no meu caminhar pra que as mulheres mal vestidas descolorissem o sonho que iria acabar. E o abraço no tempo não soprou o meu suspiro, construindo fantasias que iria encontrar na curva morna de viver no mais completo ardor. Eu tive um sonho e se fez menino e cresceu pelas correntes, pelos túneis e se fez amigo e eu vou abraçar e eu vou abraçar e eu vou abraçar. (Música e Letra, Luiz Alberto Machado). Música inserida nas temporadas do show Por um novo dia, 1987/1986. Veja mais aqui e aqui. 

 Imagem: Nu, do artista plástico russo Vladislav Nagornov.


Curtindo o álbum Opera Arias (Deutsche Grammophon, 2003), da soprano russa Anna Netrebko. Veja mais aqui.

EPÍGRAFE – Elephantus non capit murem, nec aquila muscas, frase usada por do teólogo e filósofo holandês Erasmo de Roterdã (1466-1536), significando o elefante desdenha o rato e a águia não apanha moscas. É baseada no provérbio latino Aquila non capta muscas, com o significado de que as pessoas importantes não cuidam de ninharias. Veja mais aqui.

A ALIENAÇÃO SOCIAL DO TRABALHO – No livro Novas veredas da psicologia social (Educ, 2006), organizado por Silvia T. Maurer Lane e Bader Burihan Sawaia, encontro o texto Avanços da psicologia social na América Latina, assinado pela professora e psicóloga Silvia Lane(1933-2006), com um trecho no qual ela aborda a questão atinente à alienação social produzida pelo trabalho, a partir das ideias propostas por Wanderley Codo: [...] a alienação produzida pelo trabalho traz na sua outra face a alienação mental, ou seja, o sofrimento psicológico. O trabalho criativo o homem, o trabalho repetitivo, rotineiro, sem sentido pessoal, o destrói psicologicamente. Nessa direção, seria importante analisar os efeitos da ideologia dominante que trata o trabalho como “um mal necessário”, como obrigação que dignifica o homem, e o lazer como “não fazer nada”, como ócio, negando o aspecto fundamental da atividade na constituição do psiquismo humano. [...] a categoria atividade, demonstrando o seu caráter fundamental na constituição do psiquismo – o homem, ao agir, ao produzir algo, se produz como ser consciente e singular. Por outro lado, a presença da emoção como uma mediação essencial para o movimento da consciência, para desencadear atividades e na produção da identidade, vem apontando para a importância dos conteúdos inconscientes. [...] Veja mais aqui e aqui.

AUREA MEDIOCRITAS – No livro Os pequenos burgueses, do escritor do Realismo francês Honoré de Balzac (1799-1850), encontro o personagem Phellion mencionar: [...] Acima da porta, colocara uma tabuleta de mármore branco, na qual se liam em letras de ouro: Aurea mediocritas. Sob o meridiano traçado num quadro dessa fachada, tinha feito escrever: Umbra mea vita sit (que a sombra seja minha vida). A expressão Aurea mediocritas é do livro As odes, epodos e carme secular do poeta lírico e satírico romano Quinto Horácio Flaco (65-8aC), significando áurea mediocridade. Diz o poeta que essa condição média, garantia de tranquilidade, é preferível à riqueza e à lucidez exagerada, como um ideal da vida discreta. Veja mais aqui, aqui e aqui.

FLOR FEMININA & EXILADO PÁSSARO – Entre os poemas da poeta que participou ativamente do movimento cultural Noites da Cultura Palmarense, Sandra Lustosa, destaco aqueles que foram inseridos na antologia Poetas de Palmares, organizado por Juareiz Correya. Inicialmente Flor feminina: Espero setembro / mergulho nas delícias / gosto primaveril / me vêm lembranças / infantil, ingênua, pura / desvariando no verde dos ciprestes / cálidas margaridas / chorões e brincos de princesa / meus pés pisam flores rasteiras / no meio do gramado / bem-me-quer / gitiranas, papoulas / lilases que me perpetuam / nos sorrisos-de-Maria / bem-me-queres? / Sou flor feminina / pra orgulho do meu sexo / voluptuosa flor / abaixo do meu ventre. Também o poema Exilado pássaro: Um sentimento ausente / pássaro fugidio / exilado de mim / melodia estrangeira / cheiro de mar / sabor de nordeste / com impulso brutal / uma força arrasta / a tortura sonhadora / de prazer e desejo / que brota / do não sei quê / de seus olhos. Veja mais aqui.

LILITH – Tive oportunidade de assistir em 2004, no Teatro Carlos Gomes, no Rio de Janeiro, à montagem da peça Lilith, texto e interpretação de Camila Diehel, com direção de Elid Bittencourt, contando o mito da mulher insubmissa por meio de um poema cênico, daquela que teria sido a cria da terra junto com Adão. Ao tentar impor seu pensamento e querer igualar-se ao homem, ela foi expulsa do paraíso e acaba encontrando abrigo junto aos demônios do mundo inferior. Belíssimo espetáculo em que entra em cena a assustadora inocência dos instintos da mulher primeva, com sua fúria, revolta, medos e desejos. Veja mais aqui e aqui.

LA FEMME D’À CÔTE – O drama La femme d'à côté (A Mulher do Lado, 1981), do cineasta francês François Truffaut (1932-1984), conta a história que se passa numa cidade, na qual um clube de tênis ocorre trágicos acontecimentos que aconteceram quando um homem que é casado tem novos vizinhos e fica surpreso ao ver que a mulher do novo vizinho já esteve envolvida com ele, há oito anos atrás. Ambos comportam-se como se não conhecessem, mas, pouco depois, o caso deles recomeça. No meio de uma festa ele perde o controle de uma situação muito embaraçosa e o passado é relembrado, deixando toda a situação mais tensa. O destaque do filme vai para a atriz de teatro e cinema francês Fanny Ardant. Veja mais aqui, aqui e aqui.

Como já dizia o Doro: Quando a crise esborra o bocal, é sinal que o pencó pegou e seja lá o que deus quiser!!!! Veja o Fecamepa aqui. 



 IMAGEM DO DIA
Todo dia é dia da atriz de teatro e cinema francês Fanny Ardant.



Veja mais Convite para a Crônica de amor por ela, George Gershwin, Friedrich Hölderlin, Zygmunt Bauman, Sérgio Porto, Oswald de Andrade, Anaïs Nin, Pedro Almodóvar, Parmigiano, Kiri Te Kanawa, Lucélia Santos, Penélope Cruz Sanchez, Sumi Jo & Luciah Lopez aqui. 

E mais também Ludwig van Beethoven, Eric Richard Kandel, Hermeto Pascoal, Nina Kozoriz, Linda Lovelace & Amanda Seyfried aqui

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
REMELEXO
O seu dorso impávido desliza agudo peças insones águas do meu desejo arrebatado.
(LAM)

Nus, do pintor alemão Otto Lingner (1856-1917).
Veja aqui, aqui e aqui.


CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Recital Musical Tataritaritatá
Veja aqui.
 

GONÇAL MAYOS, MARINE PETROSSIAN, PÉTER NÁDAS & IRANDHIR SANTOS

  Imagem: Arrostar aporias , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Fábula dos embeiçados desavindos... ...