domingo, março 29, 2026

NORA NADJARIAN, LAUREN WEISBERGER, CAROLINE DEAN, MAGDALE ALVES & CARMEN CAMUSO

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som do álbum The Changing Sky (2025), da violonista e premiada compositora britânica Laura Snowden.

 


Hestorinha da cantoria de passarinho... Não havia tempo ruim para Fulô – Florilândio de batismo e papel passado. Foi assobiando escorreito a revelação do seu talento canoro: sacou dum apito, despertava sua curiosa habilidade. – Simbora no arrasta-pé! Triunfou ajeitando meticulosamente uma folha de papel enrolada jeitosamente num pente, aos assopros de predileto repertório musical das paradas de sucesso, parampampã! - Isso é bom, doido! Segura o trupé! Arroxa baião! De um pífano, um botão de rosa pra paquera timorata: ganhou dela um gracioso sim, sem precisar sequer falar namoro pra ela. Duma corneta, um ramo de lírio branco pra mãe dele: era o dia dela, regozijada. E era sempre cedo na hora pra ele que ia ladeira acima, morro abaixo, no embalo chistoso. - Olha o forró, gente! Tornou-se assim corneteiro, dando as horas certas, convocando o povo pras cerimônias viandeiras, alertando pirraças ou maracutaias, chamando atenção pra isso ou aquilo, com toda sua alacridade. – É hora do xaxado, vambora! Das lições de Zé da Justa foi expulso e reprovado. Procurou outro: Cadê o maestro? O canto mais limpo: queimou as pestanas aprendendo sozinho cifras e partituras, solava desajustado. Por onde ia o mato brotava no chão esturricado, árvores floriam, relva no meio do asfalto, o sertão virava rio e dava pro mar: entrava de sola na vida de músico meio-lá-pra-cá e nos arranjos florais ineivados de plantão, puxando da flauta de Pã, Orfeu das mundividências, qual flautista de Hamelin. Foi buscar emprego na famigerada banda de Mané de Preto, findou quase tição eletrocutado. Levou um toque da vaca dos Assassinos do Frevo. – Ih, fui limado! Esgueirou-se pros Bitus, ajeitou-se Sibito entre rebitos e outros priquitos – Aí, me dei bem! Aprendeu a remexer os quadris com Dermeval, animando o dançado dos fantasmas da biblioteca. – O galope só é bom quando é à beira-mar! Aí, duma flauta doce, uma flor de Quipá; da gaita, uma Estrela da terra; da ocarina, Maracujá do mato; do uruá, uma Rainha do abismo; do berrante, uma Chanana; dum didjeridu, um molho de Erva fantasma; do clarinete, um maço de Planta queijo; do saxofone, um feixe de Boca de leão d’água; do fagote, um galho de Íris da praia; do trompete, um tufo de Enxerto de passarinho; do trombone, uma braçada de Alface d'água; da trompa, um cacho de Rabo de tatu; do oboé, um arranjo de Bredo-da-praia; da tuba, uma Coroa-de-frade-da-praia; e assim distribuía coroas, buquês, guirlandas, grinaldas, ramalhetes, florilégios, até um tussie-mussie de orquídeas, de pequis, cambarás, mangabas, vincas, salsa-da-praia, paqueviras, helicônias, parasitas, antúrios, alpínias, sorvetões e capim-agulha! Era flor na lapela, flores nos penteados, nos decotes, penduradas nas orelhas, ornando espalhafatosas e embecados. Assim, caía de boca desde os toques da alvorada logo cedo e os de se recolher tarde da noite: o Sol sorria, a Lua se exaltava enamorada, a Natureza em festa e o impossível de estrepitoso festejo abanando o calorão, diante das caras carrancudas que carpiam suas dores e flagelos, zoando acenos, vapores de saracoteados, cantoria de passarinho, coral da bicharada. - Houvesse hoje e onde se sacudia ao andar -, trazia chuvada boa, juntava separados, afáveis e enfadonhos. Desdantavante frevava e a cada batida de tom esqueletos saracoteavam e sacudiam seus anjos-da-guarda. Ele só regência no meio da rua, puxando o coreto. Sacudia o braço como se passasse marcha e rompia lonjuras, atravessava funduras e o povo atrás serpenteando num ziguezague. – Eita, que ele vai virado na peste! Era assim, tinha de existir e assim o queria solto na buraqueira das rodagens, moita adentro, estrada fora. – Foi-se! Oxe! Parecia ter ido pros fins da Terra, nem notícias mais, nunca mais voltou. Vôte!  Onde andará? Quem lá sabe! Ó. Pois é, foi. Até mais ver.

 

Elif Shafak: As vozes da nossa terra natal não param de ecoar em nossa mente. Nós as levamos conosco aonde quer que vamos... Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

Camille Paglia: Precisamos aceitar nossa dor, mudar o que pudermos e rir do resto... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Wangari Maathai: Consegui perceber que, se eu tinha uma contribuição a dar, eu devia fazê-la, independentemente do que os outros dissessem. Que eu estava bem do jeito que eu era. Que não havia problema nenhum em ser forte... A geração que destrói o meio ambiente não é a geração que paga o preço. Esse é o problema... Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

 

MILAGRE

Imagem: Acervo ArtLAM.

Eu olho para o horizonte por um trilhão, trilhões de anos. \ Vai acontecer, talvez, e eu serei testemunha. A Terra será milagrosamente \ curar-se a si mesma. A água vai se transformar em gelo. Hipnotizado, verei as esculturas brancas, \ lembrar o Ártico e sua magnificência, e tremer na costa. O sol vai jogar \ truques em minha mente, gravura no gelo branco puro a sombra de um longo talo. \ Uma única tulipa vermelha. \ Parabéns, esta flor é para você: o único humano ainda vivo, o único que \ ainda acredita em milagres.

Poema da escritora cipriota Nora Nadjarian.

 

QUANDO A VIDA TE DÁ - [...] Como posso explicar que ter a oportunidade de dar uma pausa no meio da vida e avaliar tudo é mais raro do que um arco-íris duplo? [...] Neste momento, tudo está exatamente como deveria estar. [...] Eu jamais puniria a filha pelos crimes da mãe. [...] Vaginas feitas sob medida são as novas bolsas Birkin. [...]. Trechos extraídos da obra When Life Gives You Lululemons (Simon & Schuster 2018), da escritora estadunidense Lauren Weisberger, autora de obras como Revenge Wears Prada: The Devil Returns (2013), Last Night at Chateau Marmont (2010), Chasing Harry Winston (2008), Everyone Worth Knowing (2005) e The Devil Wears Prada (2003). Veja mais aqui, aqui & aqui.

 

CIÊNCIA DAS PLANTAS - [...] Levou muito tempo para desvendar como o inverno estimula a floração, mas partindo de um ponto inicial de quase nenhum conhecimento molecular, agora temos uma boa ideia do mecanismo regulatório. [...] É tão importante que a comunidade internacional de plantas se concentre em uma espécie como organismo de referência. Triagens prospectivas, clonagem baseada em mapas, os extensos recursos de genótipo e sequenciamento, além de descobertas importantes quando grupos que estudam coisas diferentes convergem para um mecanismo – tudo isso é essencial se realmente quisermos entender a base mecanicista de características complexas das plantas. [...] como as plantas usam sinais sazonais para sincronizar seu desenvolvimento. Nessa época, o fenômeno da Arabidopsis estava acontecendo – geneticistas de plantas haviam descoberto a utilidade de se concentrar em uma espécie como organismo modelo, e agora podíamos clonar genes importantes para características complexas por meio de clonagem baseada em mapeamento. Então, quando abri meu próprio laboratório, escolhi abordar a base molecular da vernalização em Arabidopsis. [...] Sinto-me privilegiada por fazer ciência todos os dias – é maravilhoso poder seguir uma paixão e ser pago por isso! É flexível e absorvente. Eu recomendaria a todos [...]. Trechos da entrevista (New Phytologist, 2025), concedida pela premiada bióloga e acadêmica britânica, Caroline Dean, integrante do grupo de estudos que determinou a base mecanística de como as plantas usam sinais sazonais de temperatura para determinar quando vão florescer.

 

A ARTE DE MAGDALE ALVES

[...] polarização é uma bobagem, porque cada um tem o seu pensamento e o respeito deve ser mútuo [...].

Pensamento da atriz e bailarina Magdale Alves, que estreou na dramaturgia com a peça Guarani com Coca-cola (1980) e fez carreira tanto no teatro, como no cinema, atuando em filmes como Quer Tapioca com Manteiga, Freguesa? (1985), Amarelo Manga (2002), Árido Movie (2005), Baixio das bestas (2006), Deserto feliz (2007), Gonzaga de pai pra filho (2012), entre outros. Atuou ainda em novelas televisivas, minisséries e curtas metragens, bem como dubladora, humorista, comediante, locutora, performer e apresentadora de TV. Veja mais aqui.

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MANTO MULHER, DE CARMEN CAMUSO

Recebi alguns mantos da vida \ Que se incumbiram de me fazer mulher \ Uns, enlaçados em fios de proteção \ Outros, treliçados, amarrando minhas mãos \ Mãos desatadas no desejo revelado \ Desnudam-me lentamente \ A pele sensível não mente \ Ao retirar cada manto \ Encontrei minha originalidade escondida \ A espontaneidade pra vida \ Agora, embalada pelo canto \ Pássaros livres que se alimentam em meu ombro

Poema extraído do livro de poesias Manto Mulher (2026), da poeta, psicóloga e feminista Carmen Camuso, integrante do Movimento Cultural Alvorecer. O livro reúne 48 poemas agrupados em dois capítulos: “O Manto” e “As Palhas”. O primeiro reúne poemas que expressam a relação mulher-mundo a partir das vivências da autora em seus diversos papéis sob o manto do gênero. No segundo capítulo, o que aparece é a relação mulher-outro que, sob palhas, simboliza o que dói ou cura. Veja detalhes aqui.

 

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NORA NADJARIAN, LAUREN WEISBERGER, CAROLINE DEAN, MAGDALE ALVES & CARMEN CAMUSO

    Imagem: Acervo ArtLAM . Ao som do álbum The Changing Sky (2025), da violonista e premiada compositora britânica Laura Snowden .   ...